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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

08 de junho de 2010

Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio,
e a dor é de origem divina.
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.
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Cecília Meireles
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Gertrude Kaiserbier

Gertrude%20Kasebier.jpg
um olhar seduzido
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07 de junho de 2010

Noticiar

A notícia requenta
versões não acontecidas.
Crio manchetes e as apregôo
ao vento. Conduzo o tema
ao limite. Rasgo a folha
na virtuose do nada.
Concedo à imaginação
o arrevesado do recôndito
e a vendo como história.
Libertado geograficamente
estendo garras em espaços
onde capturo passagens.
Raso em superfícies, cinzelo
desconhecimentos: quedo
motivos não revelados.
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Pedro Du Bois
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06 de junho de 2010

Tudo o que não sei

Bendito seja eu por tudo o que não sei
gozo tudo isso como quem sabe que há o sol
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Fernando Pessoa
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05 de junho de 2010

Unidad

(para ti, que me tens dado sal e sonho à vida toda, neste dia especial)
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Hay algo denso, unido, sentado en el fondo,
repitiendo su número, su señal idéntica.
Cómo se nota que las piedras han tocado el tiempo,
en su fina materia hay olor a edad,
y el agua que trae el mar, de sal y sueño.
Me rodea una misma cosa, un solo movimiento:
el peso del mineral, la luz de la miel,
se pegan al sonido de la palabra noche:
la tinta del trigo, del marfil, del llanto,
envejecidas, desteñidas, uniformes,
se unen en torno a mí como paredes.
Trabajo sordamente, girando sobre mí mismo,
como el cuervo sobre la muerte, el cuervo de luto.
Pienso, aislado en lo extremo de las estaciones,
central, rodeado de geografía silenciosa:
una temperatura parcial cae del cielo,
un extremo imperio de confusas unidades
se reúne rodeándome.
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Pablo Neruda
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04 de junho de 2010

Robert Henri

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Fay Bainter em pose pensativa
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O amor chegou com as chuvas

O amor chegou com as chuvas
e o fogo do desejo foi-se
aplacando Agora é tempo
de cantar Ao primeiro
ruído seco do trovão
os pavões abrem a cauda
em leque e começa a dança
Giridhara está no meu pátio
como um lírio que floresce
ao luar assim me abro
para Ele nesta chuva
Todos os poros do meu
corpo estão gelados
A tortura de Mira acabou
Hari cumpriu a sua promessa.
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Mirabai, versão de Jorge Sousa Braga
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03 de junho de 2010

Gertrude Kaiserbier

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Beatrice Baxter Ruyl em 1902
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Corpus Christi

A Solenidade Litúrgica do Corpo e Sangue de Cristo, conhecida popularmente como "Corpo de Deus", é uma festa que celebra a presença real e substancial de Cristo na Eucaristia. De acordo com a lei geral da Igreja, este é um dos dez dias festivos de preceito.
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Poesia

(gentileza de Amélia Pais)
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Dias e noites
tangendo
em meus nervos
de harpa
vivo desta jóia
doentia do universo
e sofro
de não sabê-la
acender
na minha
palavra.
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Giuseppe Ungaretti, trad. Elson Fróes
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Junina

junina.jpg
ilustração para um mês particular
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01 de junho de 2010

Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
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António Gedeão
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Juno

juno.jpg
uma bela deusa
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Junho

Junho, o meu mês favorito, onde cabem os aniversários de todos os meus amores:

Mês da união entre os opostos, de equilíbrio e amor, dedicado à Deusa Juno, a Grande Mãe da mitologia romana (representada por Hera na mitologia grega) e a todos os deuses e deusas que regem o Amor, a Paixão e a Beleza.
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segunda-feira, 31 de maio de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi


30 de maio de 2010

Portinari

Candido-Portinari-Casamento-na-Roca-Oleo-Sobre-Tela.jpg
casamento

Os Pés do Ovo

No frigir dos ovos
apaga o fogo
e coloca a frigideira
sob a água
concorrente: ovos estalam
frígido em ovos nevados
sucede o corpo ao pecado
antecipado por estar quente
antes da hora. O vento ressoa
portas e janelas: ovos
colocados em pé.
(os pés do ovo)
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Pedro Du Bois
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29 de maio de 2010

flor de cinza

Estou de pé na profusão das horas murchas
e poupo uma resina para um pássaro tardio:
ele traz o floco de neve nas penas vermelho-vivo;
com o grão de gelo no bico, atravessa o verão.
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Paul Celan
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Gertrude Kaiserbier

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Rose Cecil O' Neill, retratada em 1907

28 de maio de 2010

Le port d'Amsterdam

(gentileza de F.L.)
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Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui chantent
Les rêves qui les hantent
Au large d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dorment
Comme des oriflammes
Le long des berges mornes
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui meurent
Pleins de bière et de drames
Aux premières lueurs
Mais dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui naissent
Dans la chaleur épaisse
Des langueurs océanes
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui mangent
Sur des nappes trop blanches
Des poissons ruisselants
Ils vous montrent des dents
A croquer la fortune
A décroisser la lune
A bouffer des haubans
Et ça sent la morue
Jusque dans le cœur des frites
Que leurs grosses mains invitent
A revenir en plus
Puis se lèvent en riant
Dans un bruit de tempête
Referment leur braguette
Et sortent en rotant
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D'un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s'entendre rire
Jusqu'à ce que tout à coup
L'accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu'en pleine lumière
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d'Amsterdam
De Hambourg ou d'ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam.
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Jacques Brel
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Robert Henri

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Isolina Maldonado, bailarina espanhola, retratada nos anos 20 do século passado

Cristal

Cristal
Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima.
Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho,
sete corações mais fundo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.

Paul Celan
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