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segunda-feira, 13 de maio de 2024

Marta Martins Silva entrevista Óscar Cardoso, da PIDE/DGS

* Marta Martins Silva

28 de Abril de 2024

Se estiver na rua e alguém disser "inspector" ainda se vira?

Sim. Muitas pessoas tratam-me assim.


Incomoda-o que definam a sua vida pelos dez anos na PIDE-DGS?

Foram os anos mais felizes da minha vida. Pelo contrário, tenho muito orgulho nisso.


Lembra-se da primeira vez em que teve noção do que era a PIDE?

Diziam que eram uns tipos muito duros. Mas como nunca me meti em manifestações não tive preocupação de saber. Depois do Exército servi na Guarda Republicana. Surgiu a oportunidade de ingressar na PIDE num quadro permanente de oficial miliciano. O futuro era mandarem-me embora quando não precisassem de mim.


Que funções desempenhou antes de ir para Angola?

Fui colocado na investigação. Conheci pessoas extraordinárias, nomeadamente José Barreto Sachetti, meu primeiro director. Vi como se faz um interrogatório, e depois estagiei nos vários serviços.


Há o mito de que se usava o método de interrogatório 'PIDE bom, PIDE mau'...

Isso até existe nos livros da Agatha Christie. Há sempre um mau e um bom.


E era o bom ou o mau?

Normalmente não interrogava. Assistia e coordenava. O meu papel era de inspector, que instruía o processo, e os chefes de brigada é que faziam os interrogatórios.


Muitas pessoas dizem que foram torturadas na PIDE.

Todos dizem que foram.


Nega que tenha havido tortura?

Nego. Estavam horas em pé até dizerem a verdade. Isso não era muito agradável, mas não havia tortura física. Sob palavra de honra: nunca vi torturar ninguém. Mas também devo dizer que o pavor que eles criaram sobre a PIDE facilitava o trabalho. Ficavam tão aterrorizados que contavam a história toda desde pequeninos. Só que quando vinham cá para fora tinham de dizer que foram torturados.


Quando foi para Angola levava directrizes de Lisboa para criar os Flechas?

Não. Vigorava lá a teoria de, com a Rodésia, África do Sul e Moçambique, constituir uma confederação antiterrorista. Em Portugal sabia-se disso e em Luanda havia um director muito inteligente que estaria dentro do complô, onde Angola se afastaria de Portugal. Disseram-me para ir lá ver o que se passava. Fui com essa missão, mas a versão oficial da transferência foi aplicar os conhecimentos de guerrilha num sítio onde havia. O director São José Lopes apercebeu-se e não me tratou bem. Andei por Angola toda, e depois pôs-me numa coisa de que não gostava nada: os Reservados.


Tinha de fazer o quê?

Se alguém precisava de uma licença, íamos ver os antecedentes. Em Luanda, onde vivia com a minha mulher, conheci o administrador Manuel Pontes, que passara a maior parte da vida nas terras do fim do Mundo. Falou-me do paraíso da caça que era o Cuando-Cubango, e de um povo extraordinário, os bosquímanos, dos quais tinha ouvido falar na cadeira de Etnografia. Pensei que era interessante aproveitá-los. Propus ao director, que arranjou uma maneira airosa de se ver livre de mim. Deu-me um Land Rover, e fui com a minha mulher e com o velhote. Só que o jipe não estava em boas condições.


Se calhar escolheram-vos o Land Rover pior...

Acredito [risos]. Comecei por recrutar oito, que pareciam múmias, deste tamanho [faz um gesto equivalente a metro e meio], e usavam arcos e flechas. Fizeram uma razia em acampamentos dos ‘turras’. Usavam flechas envenenadas, em arcos pequeninos. Quem apanhava uma flechada daquelas não tinha chance nenhuma. Começámos os flechas bosquímanos, com muito sucesso. Nas terras em que não há nada, descobriam água e o que comer. Raramente traziam alguém vivo, mas limpavam o terreno.


Foram usados contra missões que davam apoio a independentistas?

Que eu saiba, a única pessoa que fez isso fui eu, duas vezes. À missão de Xamavera, de padres franceses que davam apoio logístico aos bandidos, mandámos uns que não eram bosquímanos, fardados com camuflados da UNITA. Beberam a garrafeira, deram palmadas, mas não mataram ninguém. Foram-se embora. A outra foi numa missão da Catota, no Bié, da qual enviavam relatórios para a CIA. Foram lá uns tipos e o missionário resolveu partir.


Nessa altura também ficou a conhecer Jonas Savimbi.

Sim.


Que impressão tinha dele?

A pior. Era o mais traiçoeiro. Entendeu-se dar apoio à UNITA, com o compromisso de fazer tampão ao MPLA, e o Savimbi ficou malvisto com os países africanos. Houve uma altura em que foi preciso fazer um contacto na mata, no Moxico. Eu representava Portugal e da parte deles seria o próprio Savimbi. Fomos ao local, num helicóptero sul-africano, e apareceu-nos um preto de tanga. Mas com brilhantina no cabelo.


Não combinava muito...

E tinha unhas mais bem tratadas do que as minhas. Não gostei quando ele disse que o encontro era mais adiante. Avançámos 50 metros, mas voltámos para o helicóptero, para sobrevoar a zona. O piloto disse que não tinha combustível, e fomos à base encher o depósito. No regresso, chovia torrencialmente. Decidi que voltávamos na manhã seguinte. À noite, o nosso radiotelegrafista, que estava no acampamento da UNITA, comunicou que havia notícias de que os Flechas tinham sido massacrados. Disse-lhe para destruir o rádio e meter-se num buraco. De manhã começámos a ver corpos dos Flechas cortados aos bocados. A operação estava feita para o Savimbi se lavar perante os africanos.


Os Flechas não resultaram em Moçambique?

Aquilo estava tão bem feito que nem o director provincial de Moçambique sabia. Disse-me assim: "Não precisamos de flechas, não queremos flechas e temos raiva a quem quer. Portanto, a partir de agora, considere-se turista". Acabei por voltar para Angola e depois para Portugal, onde apanhei o 25 de Abril e fiquei 733 dias preso.


Onde é que esteve preso?

Caxias, Peniche e Alcoentre.


Pensou que podia morrer?

Tinham a amabilidade de nos dizer em Peniche que nos iam fuzilar. Também tive um plano de fuga. Consegui que a minha mulher me trouxesse uma granada e andei semanas com aquilo junto ao braço. No dia de ir à consulta externa de otorrino, meteram-me no Mercedes, abriu-se o portão e quando olhei pelo retrovisor tinha um Unimog atrás, com uma metralhadora e uma secção de atiradores. Não tinha chance nenhuma.


Quando é que foi julgado?

Estava em Alcoentre quando fizeram a acareação. Fui acusado de torturar um homem, mas eis um pormenor: quando ele disse que eu ia torturá-lo à cela, comandava uma companhia nos Açores e ainda não estava na PIDE. Outro era um lingrinhas, que me acusou de, com 50 homens, lhe ter dado uma surra. Bastava um para dar cabo dele.


Qual foi a primeira coisa que fez ao ser libertado?

Fui ter com os meus pais, a minha mulher e os meus filhos. Depois tentei arranjar emprego. Andei a vender margarina, mas não era o meu estilo. Tinha de me apresentar no posto de Oeiras, de 15 em 15 dias, e o sargento avisou que tinha lá um mandado de captura com o meu nome.


A que se devia o mandado?

Punham-se bombinhas nas sedes comunistas e eu ia a Badajoz buscar material para as fazer. Houve um tipo que estava a fabricar um dispositivo em casa, fez aquilo mal e ia ficando sem um pé. Foi para o hospital e começou a falar, sob efeito da anestesia.


Eram acções do ELP ou do MDLP?

Do ELP, com o Santos e Castro, com quem estive num subúrbio de Madrid. Foi lá que fiz o passaporte e apanhei o avião para a Rodésia


Ainda pensava que Portugal voltaria à situação anterior?

Estava tão desiludido que pensei esquecer-me de Portugal. Quando fui para a África do Sul, era ali que queria ficar, mas entretanto vi o país ceder – e não queria ser preso outra vez.


É procurado por pessoas do seu passado?

Muitas.


Que lhe querem bem ou que lhe querem mal?

Uma vez, à entrada desta propriedade, alguém escreveu "PIDE, vamos-te matar". Tive a tentação de escrever "venham à hora de almoço que há comida", mas pessoas daqui caiaram aquilo. Hoje, é aqui que quero viver.


Costuma votar?

De vez em quando voto, para que não seja um pior a vencer.


Entre os políticos actuais há alguém que se destaque?

O Rui Rio ou o Paulo Morais. Não vejo mais, até porque vivo atrás do sol-posto e evito a televisão. As raparigas do Bloco de Esquerda dizem coisas com piada, mas não vão a lado nenhum.


Oliveira Salazar foi o último político que respeitou?

Nunca respeitei políticos. Respeitei Salazar como estadista, e estabeleço a diferença entre uma coisa e outra.


Se Portugal fosse ainda pluricontinental teríamos um Presidente ou um primeiro-ministro africanos?

Poderia haver. Mais antiga é a ideia de Norton de Matos, em que a capital era Nova Lisboa e aqui seria o escritório na Europa. Era brilhante.


Se não tivesse acontecido o 25 de Abril chegaria a director-geral da PIDE?

A minha ambição era, quando visse o terrorismo acabado, ir para o Cuando-Cubango. Arranjava uma fazenda de gado, vivia lá, com os meus pretos e bosquímanos, e que ninguém me chateasse.


Como é que pensa que irá ser recordado no futuro?

Um português sem Portugal. Mas não me preocupo muito com isso.


ENTREVISTA  realizada em (2016)  

https://www.facebook.com/UniaoNacionalSalazar/posts

quarta-feira, 8 de março de 2017

Manuel da Fonseca - um grande escritor



Para Manuel da Fonseca, a literatura era um sonho de viver. 

Por Baptista-Bastos|00:30

Recordo muitas vezes o meu amigo, o seu sorriso triste, a palavra rápida, a percepção imediata das coisas, a coragem inaudita; e, também, a sua abalada ternura pelos companheiros, as melancólica confissões. Manuel da Fonseca, um dos maiores escritores de sempre da literatura portuguesa, o mais felino dos sarcastas e o mais generoso dos amigos. 

Havia, nele, a placidez dos grandes sonhos e a nobreza de olhar os camaradas com o respeito que eles, muitas vezes, não mereciam. Para ele, a literatura era um sonho de viver, e feria-o quando, aparentemente, o ignoravam. Passou, há dias, o aniversário da sua morte, recolhido ao Alentejo que escrevera como ninguém, num fulgor magoado e com o olhar enevoado de desgostos. 

‘O Fogo e as Cinzas’, admirável livro de contos, cuja organização se deve a Carlos de Oliveira, à mulher deste, Maria Ângela de Oliveira, e a José Gomes Ferreira, é um trabalho de amor e uma doação ao espírito daqueles tempos. Outros grandes títulos do grande autor; ‘Seara de Vento’, ‘Cerromaior’, filmado por Luís Filipe Rocha com a paixão devida, e outros mais. 

Certo dia, sabedor de que o meu amigo andava de dinheiro em baixo, falei com Francisco Pinto Balsemão para a entrada de Manuel da Fonseca como colaborador do jornal onde eu era redactor. E assim nasceram crónicas admiráveis, que eu editava no suplemento de domingo, sob o título ‘Pessoas na Paisagem’, uma experiência que me deu grande felicidade. Pontualmente, o meu velho amigo publicou, durante anos, sem uma falha, um texto ímpar que falava do seu Alentejo com a grandeza imaculada de quem escreve sobre o que ama. 

Estive, agora, a reler o grande escritor, com a emoção de quem está, de novo, a ouvi-lo e à sua voz pausada e lenta, revendo os seus olhos pequenos e vivos, recordando a sua lúcida atenção às coisas, aos homens e ao seu tempo. Mas, sobretudo, recordando a amizade e o afecto, de que sinto a falta.

sábado, 23 de abril de 2016

antónio sousa homem - Resistir ao tempo, cuidar das memórias


* antónio sousa homem

 A vida de um velho compõe-se de resistência e de memórias. 
07.02.2016 00:30 

Resistir ao tempo, recordar o que passou como se não tivesse passado: nisto se compõe tudo o que escrevo e colecciono como um caçador de borboletas. 

O velho Doutor Homem, meu pai, incorporou todos os defeitos das burguesias e do racionalismo do Porto, moldado pela penumbra do céu e pela chuva que caía nas suas ruas de granito escuro. A sua vida intelectual era um luxo permitido pela família; a moeda de troca eram férias de Verão e temporadas de preguiça. As viagens levavam-nos a hotéis e cidades com museus, lojas e restaurantes, com a perseverança tutelar de Dona Ester, minha mãe; a preguiça depositava-nos em Ponte de Lima para um a dois meses de Verão, onde as tardes eram invadidas pelos seus discos (a voz de Anna Moffo, a sua soprano favorita, interpretando ‘La Bohème’ ou a ‘Norma’ para ouvir ‘Casta Diva’) ou/e pela desarrumação na biblioteca do velho casarão miguelista – onde se misturavam, nos sofás e nos cadeirões, jornais da época e livros que convidavam à sesta. 

Se me contagiasse, algum dia, a tentação (muito frequente nos portugueses de várias origens) de escrever um romance, eu teria nos anos de ouro de Ponte de Lima um cenário atraente e luminoso. A vida foi-me fácil nesses anos; poupado às atribulações do casamento (mas também ao seu conforto) e da economia familiar, uma segunda adolescência prolongou-se até aos meus trinta anos, e as minhas preocupações essenciais eram, no fundo, a epistolografia e o guarda-roupa. O temperamento ajudava. Eu era preguiçoso. Aprendi o essencial – e o essencial era um certo conformismo e a vontade de aproveitar a felicidade do tempo. Coleccionei, portanto, recordações que hoje uso como uma flor antiga numa lapela fora de moda. 

Penso nisso porque, com a Primavera que há-de chegar, abriremos a casa de Ponte de Lima para arejar os corredores e as salas de sobrado de madeira. Os meus sobrinhos consideram esse ritual (antes da pausa da Páscoa) uma obrigação moral. No fundo, acho que têm pena da solidão do senhor Dom Miguel, cujo rosto triste e perturbado naquele retrato ao fundo do corredor do piso térreo lembra que os derrotados também têm direito à vida. Foi o que nos salvou. De contrário, seríamos muito menos interessantes. 


segunda-feira, 9 de abril de 2012

António Sousa Homem - Os livros que andam nas nuvens


Correio da Manhã
em certos aspectos


O meu editor, o Dr. Boavida, telefonou na semana passada. Reconheci-lhe a voz tranquila de um homem dedicado a folhear livros e a evitar as sobras dos meus.
Sempre considerei estas crónicas como um reduto da vaidade extrema a que pode chegar um velho minhoto quase contemporâneo do Titanic e que, em vez de se dedicar a cuidar, em exclusivo, dos hibiscos, das begónias e das japoneiras que ainda enfeitam o jardim da casa de Moledo, enche a velha Parker com a tinta que há anos vem da papelaria de Caminha – e tenta gastá-la. A caneta, uma velharia bondosa, herdei-a do velho Doutor Homem, meu pai. É a mesma com que assinou o seu assento de casamento com Dona Ester, minha mãe. Conseguiu sobreviver a perdas e danos ao longo de um século e está prometida à minha sobrinha Maria Luísa, que ultimamente pretende obrigar os seus dois filhos a escrever em cadernos de linha estreita para melhorar a ortografia. Os cadernos de linha estreita são também uma velharia; ela descobriu uma caixa numa velha mercearia de Amares e trouxe-a para relembrar à sua descendência que já houve um tempo em que se escrevia com ambas as mãos (uma para segurar na caneta, outra para alisar a folha de papel) e não apenas com a ponta dos dedos, num teclado.
O Dr. Boavida é desse tempo e, se bem que a sua letra não revele um artista da caligrafia, pelo menos entende-se que escreve como um português que sabe existirem sujeito, predicado e complemento. Desta vez, depois de eu o ter esclarecido sobre o ritmo cardíaco e as prescrições que a Dra. Teresa, a médica de Venade, impõe à minha dieta, o Dr. Boavida informou-me que um dos meus livros "vai sair em ebook". E aí estava ele, ao telefone, editor apreensivo, perguntando se eu estava de acordo.
A minha sobrinha Maria Luísa, no intervalo de uma tarde de sábado, tinha já esclarecido o assunto. Um ebook era, pois, um ‘livro electrónico’ que se lê em quase todo o lado, tanto no computador como no telemóvel. A novidade não me surpreendeu. Desde o tempo da obrigatoriedade do óleo de fígado de bacalhau até à democratização da marijuana houve um largo sismo nas nossas vidas.
"E isso não faz mal aos livros?", perguntei eu.
"Não me parece, alguns têm sobrevivido", riu o Dr. Boavida, com horror à minha ignorância.
Pois que seja um ebook. O assunto ultrapassa-me. O meu editor, generoso e moderno, ainda me informou que, daqui em diante, enfim, lá para Maio, o livro ia estar ‘disponível na nuvem’. Trocámos saudações e recusei saber mais sobre o assunto. Com esta idade, acredito que o saber ocupa lugar. No jardim, limitei-me a olhar para o céu, folheando-o.


terça-feira, 13 de março de 2012

Tiago Rebelo - Pequenas contrariedades

Correio da Manhã


Breves histórias

“Agarra os papéis de qualquer maneira, esgueira-se (...) cheia de vergonha”

Por:Tiago Rebelo, Escritor (breveshistorias@hotmail.com)

É uma daquelas manhãs cheias de pequenas contrariedades que lhe estragam o humor. Toma banho, lava a cabeça, o secador avaria-se. Sai de casa com o cabelo molhado, a capa da bota descola-se, segue coxa. Entra na pastelaria para tomar um café, avança para a única mesa livre, um homem antecipa-se, coloca o casaco nas costas da cadeira, senta-se à frente dela.
Ele repara nela no momento em que se senta. Quer sentar-se também? Não me importo, diz-lhe. Ela força um sorriso antipático, responde que não, obrigada. Uma mesa mesmo ao lado fica vaga logo a seguir e ela senta-se. Tem um manuscrito na mão, que se põe a ler sem vontade nenhuma depois de pedir o café. É bom?, pergunta ele, interrompendo-lhe a leitura. Ela levanta os olhos, perplexa, achando--o metediço, mas fica tão desconcertada que lhe responde: nem por isso. Trabalha numa editora?, insiste ele. Hum hum... responde, baixando logo os olhos, esperançada que a deixe em paz. Mas ele fica a abanar a cabeça sozinho e comenta: imagino que deve ser aborrecido... Ela suspira, já sem disfarçar, tira os óculos de ler. O que é que é aborrecido? Ler maus textos por obrigação profissional, afirma. Ela encolhe os ombros, não me importo, diz.
Acaba de tomar o café rapidamente e vai-se embora só para não o aturar. Gostei de falar consigo, diz ele ainda, obrigando-a a dizer qualquer coisa entredentes antes de sair. Vai a guiar no trânsito preguiçoso e pergunta-se como é que aquele chato percebeu que trabalhava numa editora. Depois fica a pensar que a sua cara não lhe é estranha. Finalmente, lembra-se! Lívida, morde o nó do dedo, diz em voz alta sou tão estúpida, solta um grito exasperado.
À tarde, já esquecida do incidente, sai do gabinete apressada para uma reunião, atrapalhada com um monte de papéis, esbarra com duas pessoas no corredor, deixa escapar os papéis para o chão. Levanta os olhos e lá está ele outra vez, acompanhado pelo director da editora, dado que é o escritor mais importante da casa. O director contempla-a com uma desilusão paternalista no rosto.
Já ele abaixa-se para a ajudar a apanhar os papéis, dia complicado?, pergunta em voz baixa, pisca-lhe o olho. Ela, muito corada, mortificada, faz um sorriso constrangido, deixe estar, não se preocupe, vai dizendo. Agarra nos papéis de qualquer maneira, esgueira-se pelo corredor cheia de vergonha.
Na manhã seguinte procura-o na pastelaria, desejosa de o encontrar, de lhe pedir desculpa, enfim, de remediar o dia anterior, mas ele não está, nem voltará. Desconsolada, pensa que, por causa de uma pequena irritação, perdeu a oportunidade de conhecer um homem que admira e que lhe ofereceu toda a sua simpatia na manhã errada...

segunda-feira, 12 de março de 2012

António Sousa Homem - A companhia geral dos telefones



Em certos aspectos

Correio da Manhã

“O velho Doutor Homem, meu pai, não assistiu ao advento do telemóvel. Usava com parcimónia o telefone e não creio que fosse por recear a factura mensal”
Por:António Sousa Homem

Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, é do tempo em que o telefone era um luxo. Uma chamada para Viana ou para o Porto durava entre dois e três minutos e, quando lhe calhava ter de ligar para os familiares do Brasil, no Rio ou em Niterói, um minuto bastava para o essencial, rematando com um "não gastes mais dinheiro, adeus, adeus".
Escreviam-se cartas, treinando a ortografia e alguma sintaxe – e, para as notícias dramáticas ou, pelo contrário, festivas, havia os telegramas. A morfologia e sintaxe dos telegramas comovem--me até hoje, por terem dado origem a mensagens tão originais que se escapava o verdadeiro sentido da notícia. Já quanto à epistolografia, o único género literário experimentado pela família (sobretudo pelo meu avô, que se correspondia diariamente com proprietários das quintas do Douro, seus clientes de várias décadas), deu origem a monumentos biográficos e vale mais do que vários tratados de sociologia.
O velho Doutor Homem, meu pai, não assistiu ao advento do telemóvel. Usava com parcimónia o telefone e não creio que fosse por recear a factura mensal da companhia; tinha horror, isso sim, à campainha do aparelho, que considerava uma intromissão exagerada. À hora do jantar desligava o telefone; e defendia que depois das dez da noite era indecoroso estar a incomodar alguém ou sujeitar-se ao incómodo de receber chamadas. Parte da família considerava isto uma prova de misantropia ou de sobranceria, ignorando que se tratava, apenas, de defender o direito a uma certa indiferença, além da tranquilidade doméstica.
Durante o Verão, quando a casa de Moledo se assemelha a um quartel-general de uma campanha no Norte de África (ocupada por sobrinhos, por amigos dos sobrinhos e por sobrinhos-netos), verifico que as novas gerações não sucumbem ao excesso de comunicação. Ligados sem descanso ao outro lado do mundo, ao outro lado do Minho, ao outro lado do país ou apenas ao outro lado da praia, comunicam permanentemente e ignoram como era um mundo onde as pessoas se encontravam, chegavam a horas e conversavam sem ser através do telefone e sem ser constantemente.
A minha sobrinha Maria Luísa desliga o telemóvel aos sábados, mas não resiste a – ao fim do dia – "ir ver as mensagens", como se lhe pudesse ter escapado uma parte da vida depois de umas horas de recolhimento. Compreendo-a, no fundo: num mundo que não tem pausas, ela recusa-se a admitir que está ausente.
Dona Elaine, essa, troca mensagens com as amigas e não sai para a farmácia sem levar o telemóvel, não vá dar-se o caso de o Papa lhe ligar entretanto...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Tiago Rebelo ~ A voz



Correio da Manhã
Breves histórias

A voz

“Concentra-se nele, toma nota de todos os seus traços, memoriza-o”
Por:Tiago Rebelo, Escritor (breveshistorias@hotmail.com)

Passados tantos anos, é difícil explicar aos mais novos porque só conhecia dele a voz. Mas nessa época ainda não havia telemóvel, nem CD, nem tablets, e, sobretudo, não havia internet. De modo que não tinha como conhecer-lhe o rosto. Não podia ligar-se à net e fazer uma busca, porque nem sequer havia PC. Havia a voz dele, só a voz, que ouvia todas as noites. Ela entra numa discoteca e põe-se a remexer os álbuns de vinil no expositor à procura de uma música que escutou na véspera.
Quando descobre o disco que lhe interessa dirige-se ao balcão, onde o empregado da loja atende um cliente habitual. Percebe que é um frequentador da loja pela familiaridade com que falam um com o outro. Ao vê-lo não o reconhece, pois a sua cara não lhe diz nada e mesmo a sua voz, ligada a uma pessoa real, ali ao seu lado, em nada lhe desperta a atenção. Mas ao baixar os olhos para apreciar a capa do álbum a voz dele já lhe soa familiar, como se estivesse a ouvir uma pessoa de sempre e a reconhecesse pelo timbre das cordas vocais. No caso dele é uma voz grave, sedutora. Ela ergue a cabeça, olha para o lado, dá-lhe mais atenção, perguntando-se se estará a sonhar ou se será mesmo ele.
Concentra-se nele, toma nota de todos os seus traços, memoriza-o na ânsia de não se esquecer, caso volte a encontrá-lo noutra ocasião. Na realidade, não fica muito impressionada com a sua cara, que não corresponde à voz. Ela tinha a certeza que ele era outro, diferente deste. Pensava nele alto e tão elegante como a sua voz. É impossível que seja o mesmo, e no entanto só pode ser.
Quando ele sai com um aceno jovial ao empregado, ignorando-a, ela pergunta ao outro se ele é mesmo ele. O empregado confirma que sim, é ele.
Muitos anos mais tarde ela é contratada para directora da rádio e nessa altura já inventaram o computador, o Facebook, ele tornou-se famoso pela televisão, é capaz de o reconhecer em qualquer lado. De qualquer modo, são formalmente apresentados e ela sente-se tentada a contar--lhe a sua história, mas percebe a tempo que fará uma figura ridícula e agora, sendo sua superior, deve manter uma distância prudente.
De forma que fora apaixonada por aquele estranho, imaginando-o pela voz quando ouvia o seu programa na rádio e depois de o conhecer sem chegar a conhecer, na discoteca, a fantasia dissolvera-se com a realidade e ele passara a ser só um homem, real e desinteressante. E mesmo agora, conhecendo-o de facto, acha-o afável, gosta dele, é um tipo baixo, já a perder cabelo, um bom conversador, que sabe cativar com a sua eloquência, mas ainda assim ela não lhe encontra nada que a deslumbre.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Tiago Rebelo ~ A promessa de um sorriso


Correio da Manhã
Breves histórias
“Vinte e dois anos antes, ela vagueia pelo corredor solene de uma livraria vazia”
Por:Tiago Rebelo, Escritor (breveshistorias@hotmail.com)
Um dia, muito mais tarde, ele morreu ali na sala, na sua cadeira de sempre, que preferia por causa das costas. Ela disse-lhe vou à rua comprar pão, e quando voltou encontrou-o de olhos abertos, um olhar quase sonhador, um sorriso nos lábios. Morreu feliz e deixou-lhe um último sorriso, como que a dizer não te preocupes porque tive uma boa vida contigo. Não contou isto a ninguém para que não pensassem que era um devaneio de uma velha à deriva no seu desgosto.
Vinte e dois anos antes, ela vagueia pelo corredor solene de uma livraria vazia à hora de almoço. Tem um livro apertado contra o peito. O corredor acaba num gradeamento. Ela aproxima-se daquela varanda interior e ali se queda a cismar de olhos perdidos para lá da montra do fundo da loja. O livro queima-lhe as entranhas, numa angústia inexplicável ao fim de cinco anos de pesado silêncio. Então, volta-se por um pressentimento e ali está ele de pé a sorrir-lhe do outro lado do corredor.
Bem me parecia que eras tu, diz ele com a sua voz alta de tenor alegre que, ela recorda-se, enchia uma sala. Essa voz enorme tem uma familiaridade surpreendente, como se não tivessem passado cinco anos. Nesses cinco segundos, enquanto a reconhece e percorre os curtos metros do corredor, ela pergunta-se quais seriam as probabilidades de o encontrar, estando a pensar nele com aquele livro na mão. Os olhos ficam húmidos de uma emoção contrariada, as pernas tremem-lhe numa traição do corpo à mente. Ele vem de lá contente, segura-lhe os braços com as suas mãos grandes, beija-a no rosto.
Que bom que é encontrar-te, exclama, afastando-se com os braços esticados, segurando-a ainda pelos ombros, teatral, não soubesse ela que ele é mesmo assim: naturalmente espalhafatoso. Repara que ela tem consigo o livro preferido dele. Ela sente-se a corar como uma menina apanhada em flagrante. Estava a pensar em ti, confessa numa voz sumida, embargada pelo alvoroço que vai dentro de si, incapaz de assumir a indiferença que calculou tantas vezes nos seus pensamentos implacáveis. Estou a ver que sim, diz ele, inconvenientemente triunfante.
Convida-a para um café, ela aceita sem vontade própria, furiosa por não dizer que não. Ela mal fala, entupida na sua perplexidade, ele conta-lhe a vida, eloquente, os cinco anos, o casamento falhado, o emprego bem sucedido. Quero ver-te outra vez, afirma. Não sei, hesita, porque me deixaste?, pergunta-lhe sem pensar. Porque sou estúpido, responde ele, simplesmente, e, nem duas semanas mais tarde acrescenta: desta vez vou compensar-te, vou fazer-te feliz e, quando morrer ao teu lado daqui a muitos anos, hei-de estar a sorrir para que saibas que também fui feliz contigo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Margarida Rebelo Pinto: “O sexo era uma das poucas distracções"


Correio da Manhã


 Foto - Bernardo Coelho


Margarida Rebelo Pinto: "Escrever sobre sexo não é difícil. Escrever cenas de sexo é que é. Por isso, o pudor e a elegância têm de estar sempre presentes e vigilantes."
Entrevista a Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto lança o seu primeiro romance histórico. 'Minha Querida Inês' é uma obra ousada sobre a paixão imortal do rei D. Pedro I
Por:Ana Maria Ribeiro
Correio da Manhã - O seu novo livro, o primeiro romance histórico que escreve, vai surpreender o público a vários títulos. Para já, por ser um... romance histórico.
Margarida Rebelo Pinto - É um livro diferente porque passa-se na Idade Média, mas quem é meu leitor vai encontrar lá o mesmo tom intimista dos livros anteriores, as mesmas questões sobre amor, amizade, família, ciúme, desamor, solidão... Só que no século XIV.
- O romance histórico é um género que lhe apetecia ou o livro resulta dos desafios lançados por amigos. Cita Pedro Pina, Jorge Pereira de Sampaio e José Miguel Júdice nos agradecimentos...?
- Sim, há muito tempo que andava com a Inês de Castro na cabeça, desde 2005, quando o Jorge Pereira de Sampaio, Director do Mosteiro de Alcobaça, me pediu para escrever uma peça de teatro sobre ela. O Pedro Pina desde então foi insistindo comigo, que eu devia fazer uma coisa diferente, e o Zé Miguel sempre se interessou pelo projecto e facilitou-me estadias e visitas à Quinta das Lágrimas, onde se encontram as famosas fontes, Fonte do Amores e Fonte Nova, locais predilectos de Pedro e de Inês.
- O livro surpreende, também, porque coloca personagens históricas sob uma luz desconcertante. As cenas de sexo oral entre Pedro e Inês, apesar da elegância com que são descritas, vão deixar muita gente perplexa. Tinha consciência disso? Foi deliberado?
- Foi. Nunca escrevo nada sem ser deliberado. Já nem o poderia fazer, tenho uma grande responsabilidade perante os meus leitores. Na Idade Média, ao contrário do que as pessoas pensam, havia muita libertinagem, o sexo era uma das poucas distracções que as pessoas tinham. Inês e Pedro estiveram juntos muitos anos, é natural que entre eles existisse uma enorme cumplicidade sexual. O sexo faz parte da vida, escrever sobre sexo não é difícil. Escrever cenas de sexo é que é. Por isso, o pudor e a elegância têm de estar sempre presentes e vigilantes. Nunca se pode levantar completamente o véu.
- O carácter de Pedro sai um tanto prejudicado: para além de trair Inês com outras mulheres, fá-lo também com homens e com animais. É um facto registado pela História ou faz parte da liberdade criativa que assiste a qualquer romancista?
- Já Fernão Lopes dizia nas crónicas que Pedro amava mais Afonso Madeira do que é de bom-tom dizer. É um facto histórico. E D. João I, Mestre de Avis, Rei de Portugal, é filho de Teresa, uma mulher galega, aia de D. Inês. Depois de Inês ter morrido D. Pedro foi um bom rei, mas era vingativo e sanguinário, epiléptico, gago e insone, tal como o descrevo no livro.
- Quanto tempo demorou a escrever este livro: desde o início das pesquisas históricas até à versão final?
- Comecei a trabalhar nele em 2005 e acabei em Setembro de 2011, foi um processo muito mais longo do que é habitual.
- Conseguiu tornar totalmente credível este português que, não sendo antigo na grafia, é-o no ritmo e nas palavras usadas, na elevação da linguagem. Foi difícil de conseguir?
- Não, foi divertido. É como entrar na toada de uma canção. O maravilhoso romance de Pedro Canais, ‘A Lenda de Martim Regos', foi uma grande ajuda para conseguir utilizar alguma linguagem da época sem aumentar o grau de dificuldade da leitura. Há palavras arcaicas que as pessoas vão reconhecer, penso que isso vai divertir os leitores.
- Os seus leitores habituais podem esperar outros romances históricos da sua pena, ou vai voltar exclusivamente à linha a que os habituou?
- Não sinto que ‘Minha Querida Inês' tenha saído do meu estilo, porque aquilo que os meus leitores estão habituados a reconhecer na minha escrita está lá: a emoção, a intensidade, as reflexões sobre comportamentos amorosos, a paixão intensa e o sarcasmo na observação da condição humana... Ao mesmo tempo, o relato de um dos episódios mais fascinantes da História de Portugal. Inês de Castro é a nossa maior heroína romântica, é importante que os portugueses conheçam a sua história.
- Qual é o seu próximo projecto literário?
- Não faço ideia. Ainda tenho ‘Minha Querida Inês' debaixo da pele. Em Janeiro penso nisso. Tenho uma lista de projectos que já comecei. O mais certo é que um deles me apanhe na curva, porque são as histórias que nos apanham, e não o contrário.