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quarta-feira, 23 de abril de 2025

Umberto Eco - Como preparar-se serenamente a morte. Breves instruções para eventual discípulo.


* Umberto Eco

Eu não tenho certeza se direi uma coisa original, mas um dos maiores problemas do ser humano é como encarar a morte. Parece que o problema é complicado para os incrédulos (Como afrontar o Nada que nos espera?) Mas as estatísticas dizem que a questão também diz respeito a muitos crentes que acreditam firmemente que há vida após a morte, e ainda, eles acham que a vida antes a própria morte é tão agradável senti-la como desagradável deixá-la; pelo que eles anseiam, sim, chegar ao coro de anjos, mas o mais tarde possível. 

Parece claro que eu estou levantando a questão de o que significa ser-para-morte, embora se deva reconhecer que todos os homens são mortais. Vê-se fácil porque concerne a Sócrates, mas torna-se difícil quando concerne a nós, e será ainda mais difícil quando nos damos conta de que estamos em um instante e um momento depois não seremos mais.

Recentemente, um discípulo pensativo (como criton) me perguntou: "Mestre, como podemos nos aproximar bem da morte?". Eu respondi que a única maneira de se preparar para a morte é estar convencido de que todos os outros são idiotas.

Ante o espanto de Criton eu esclareci, "Olha", eu disse, como pode aproximar-se da morte, mesmo se você é um crente, se acha que, quando morreres, jovens homens e mulheres altamente desejáveis ​​dançam em uma boate se divertindo um grande momento, cientistas ilustres penetram os mistérios finais do cosmos, os políticos incorruptíveis estão criando uma sociedade melhor, jornais e estações de televisão são dedicados a dar notícias importantes, os empresários responsáveis ​​temem que os seus produtos não degradem o meio ambiente e são dedicados a restaurar a natureza dos riachos potáveis, encostas arborizadas, céu claro e calmo protegida pelo ozônio, nuvens suaves que destilam chuvas docíssimas? O pensamento de que, enquanto todas essas coisas maravilhosas acontecem, você se vai, resultaria insuportável.

"Agora tente pensar que no momento que você percebe que está deixando este vale, você tem a certeza inabalável de que o mundo (seis bilhões de seres humanos) é cheio de idiotas, eles são idiotas que estão dançando na discoteca, idiotas cientistas acreditam ter resolvido os mistérios do cosmos, idiotas políticos que propõem a panaceia para todos os nossos males, idiotas que enchem páginas e páginas de fofocas sem importância, idiotas os produtores suicidas que destroem o planeta. Você não se sentiria feliz naquele momento, aliviado, satisfeito em deixar este vale de idiotas?".

Críton perguntou-me então. "Mestre, quando eu terei que começar a pensar assim"? eu disse para não fazer isso muito cedo, porque a vinte ou mesmo 30 anos pensar que todos são idiotas é ser um idiota e nunca irá alcançar a sabedoria. Tens que começar pensando que todos os outros são melhores do que nós, e então evoluir lentamente, tendo as primeiras débeis dúvidas aos quarenta, começar a revisão entre os cinquenta e sessenta, e chegar a segurança, enquanto você avança para a centena, mas preparado para estar na mão quando chegar o telegrama de notificação.

Convencer-se de que todos os outros em torno de nós (seis bilhões) são idiotas é o resultado de uma arte sutil e inteligente, não é uma aptidão natural do primeiro Cebes com um brinco em sua orelha (ou nariz). Exige estudo e esforço. Não há necessidade de acelerar etapas. Tem que chegar lá suavemente, bem a tempo de morrer em paz. No dia anterior se deve pensar que há uma pessoa a quem amamos e admiramos, o que não é exatamente idiota. A sabedoria consiste em reconhecer no momento certo (não antes) que essa pessoa também era idiota. Só então você pode morrer.

Assim, a grande arte consiste em estudar pouco-a-pouco o pensamento universal; selecionar os costumes; controlar dia-a-dia os meios de comunicação de massa, as afirmações dos artistas seguros de si mesmos, as máximas dos políticos descontrolados, as falácias dos críticos apocalípticos, os aforismos de heróis carismáticos, estudar as teorias, as propostas, as apelações, as imagens, as aparências. Só então, finalmente, você vai chegar a revelação perturbadora de que todos são idiotas. Neste momento você está pronto para o encontro com a morte.

Você vai ter que perseverar até o fim a esta revelação insustentável, te obstinarás em pensar que alguém diz coisas sensatas, que esse livro é melhor do que outros, que este líder realmente quer o bem comum. É natural, é humano, é característica da nossa espécie rejeitar a crença de que os outros são todos idiotas sem distinção; se não, por que valeria a pena viver? Mas quando, finalmente, você sabe, compreenderás por que vale a pena (e por isso é excelente) morrer.

Críton me disse então: "Mestre, não queria tomar decisões precipitadas, mas abrigo a suspeita de que sou um idiota." "Vês, lhes disse, você está no caminho certo."  

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Nota 1: A coluna foi publicada no L'Espresso na Itália em 1997 e foi reproduzida quase inteiramente no capítulo final de seu livro de ensaios Passos de caranguejo. 

Nota 2: o filósofo italiano se referiu à história que narrará em seguida, como um "texto aparentemente de brincadeira, mas (...) que considerava  muito a sério". O seu objetivo era convencer-nos de uma frase sábia de Eclesiastes: Vanitas vanitatum et omnia vanitas  [Vaidade das vaidades, tudo é vaidade]

https://blogacritica.blogspot.com/2016/02/umberto-eco-como-preparar-se.html

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Esposa de Saramago: Obra póstuma é um 'presente inesperado'

Cultura

Vermelho - 17 de Fevereiro de 2011 - 15h24
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A um dia da véspera de completar oito meses da morte do escritor José Saramago, a cidade de Barcelona homenageia o Nobel português com diferentes eventos, um deles relacionado com sua obra póstuma, "El Último Cuaderno", que nesta quinta-feira sua esposa, Pilar del Río, considerou como "um presente inesperado".
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Com prefácio escrito por Pilar e pelo italiano Umberto Eco, "El Último Cuaderno" reúne os textos que Saramago escreveu de forma assídua em seu blog pessoal, entre 23 de março de 2009 e 2 de junho de 2010, 16 dias antes de morrer em Lanzarote.

Reflexões íntimas, comentários sobre política, pensamentos e simples opiniões dos temas mais diversos compõem o livro.

Pilar também revelou que está trabalhando na edição de um romance inédito, que se titulará " Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas", embora pouco pôde antecipar, porque tem que conhecer exatamente o que foi escrito sobre esta obra.

Durante sua presença, a esposa de Saramago também anunciou que a partir do dia 18 de março abrirá ao público a casa de Lanzarote (arquipélago espanhol das Canárias). O escritor nunca havia discutido com Pilar esta possibilidade.

Na sexta-feira, a programação de homenagens exibirá o filme documentário "José e Pilar" na Universidade Autônoma de Barcelona. O filme é obra do diretor português Miguel Gonçalves, que relata a intensa vida e as viagens do casal.

Com EFE
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Cinema2000PT | 15 de Outubro de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Comentários em http://www.cinema2000.pt/ficha.php3?i... Data de estreia: 18 de Novembro de 2010. Produtora/distribuidora: JumpCut. Todos os direitos reservados.

Documentário de abertura da 7.ª edição do DocLisboa.

"A Viagem do Elefante", o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para «José e Pilar», filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Río.

Mostra do dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, «José e Pilar» é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo - ou, pelo menos, em torná-lo melhor. «José e Pilar» revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. «José e Pilar» é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, "tudo pode ser contado de outra maneira".

Realização: Miguel Gonçalves Mendes.
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jumpcutportugal | 22 de Outubro de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
José e Pilar
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José & Pilar: Um filme "dos vivos para os vivos"


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  • Data: 12/10/10 - Duração: 00:07:42

“José e Pilar” é uma janela para a vida quotidiana de José Saramago e Pilar del Rio. Um mundo a que o realizador Miguel Gonçalves Mendes teve acesso e que filmou ao longo de quatro anos. Na recta final da edição do documentário, Miguel Mendes recebeu a notícia da morte de Saramago. O filme seguiu o caminho previsto, sem desvios de percurso nem cedências. Este é um filme "dos vivos para os vivos", diz Miguel Mendes.
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

La misteriosa llama de la Reina Loana, de Umberto Eco

 

Poemas del Alma


Si consideran que el escritor italiano Umberto Eco elabora buenos textos pero aún no han tenido oportunidad de disfrutar las obras de su autoría, no dejen de contemplar la posibilidad de conseguir alguno de los libros que lleva publicados hasta el momento.
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La misteriosa llama de la reina LoanaSi en el país donde se encuentran hay varias alternativas al respecto, prioricen aquellos títulos que más les llamen la atención, pero no desaprovechen la posibilidad de conocer todos.
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Poco importa si el análisis de la obra de Eco no se realiza por orden de aparición de los relatos. Nada se modifica si se lee, por ejemplo, “El péndulo de Foucault” antes que “El nombre de la rosa”: lo que interesa no es eso, sino el deleite que uno puede llegar a encontrar en esas propuestas si se las disfruta y comprende sin prisa y con mucha dedicación.
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Las alternativas que ofrece este autor nacido en Alessandria el 5 de enero de 1932 para desarrollar el hábito de la lectura son muchas: está en cada uno, por lo tanto, determinar cuáles son las que mejor se adaptan a sus preferencias personales.
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Si los títulos mencionados párrafos arriba no los seducen por completo o ya los han disfrutado, tal vez puedan dirigir su atención hacia “La misteriosa llama de la Reina Loana”, una novela publicada en 2004 que, por sus características, ha logrado acumular tantos elogios como críticas.
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Difícil es saber en principio qué tipo de sensación dejará la lectura de este material protagonizado por un hombre que ha perdido la memoria, por eso es aconsejable apostar: si la experiencia es negativa, uno quedará con la tranquilidad de haber hecho el intento por valorar el trabajo de Eco pero, si el efecto es positivo, se habrá hallado un tesoro literario capaz de hacer más placenteros los ratos de ocio.
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Si desean conocer la historia de Giambattista “Yambo” Bodoni y descubrir cómo sigue su vida tras el accidente que le impide recordar quién y cómo es, no dejen de conseguir un ejemplar de “La misteriosa llama de la Reina Loana”.


Publicado por Julián Pérez Porto el 13 de Octubre
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Biografía de Umberto Eco


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El ensayista, novelista, profesor y filósofo italiano Umberto Eco nació el 5 de enero de 1932 en Alessandria (una localidad cercana a Turín) y, en 1954, se doctoró en Filosofía y Letras en la Universidad de Turín
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Umberto EcoAntes de consagrarse en el mundo de las letras como escritor, trabajó como editor cultural para la Radio Audizione Italiana (RAI) y fue profesor en diversas universidades tales como la de Turin, Florencia y Milán. Por ese entonces, además de publicar “Obra abierta” y “La estructura ausente”, se dedicó a enseñar Semiótica en la Universidad de Bolonia, creó la Escuela Superior de Estudios Humanísticos y colaboró en la fundación de la Asociación Internacional de Semiótica.
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Entre los exitosos libros que componen la reconocida obra literaria de este autor que ha sido traducido a una gran cantidad de idiomas, se encuentra la célebre y premiada novela titulada “El nombre de la rosa” (adaptada al cine en 1986 por el francés Jean-Jacques Annaud) y otras publicaciones tales como “El péndulo de Foucault”, “La isla del dia de antes”, “Baudolino”, “La misteriosa llama de la reina Loana”, “Los límites de la interpretación” y “Tratado de semiótica general”.
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En materia de distinciones, cabe destacar que, a lo largo de su trayectoria, este miembro del Foro de Sabios de la Mesa del Consejo Ejecutivo de la UNESCO y del Institutum Pataphysicum Granatensis ha recibido el título de Doctor Honoris Causa por cerca de treinta universidades de todas partes del mundo (tales como la de Tel Aviv, Complutense, Varsovia, Atenas y Berlín, entre otras), fue galardonado con el Premio Reino de Redonda, el Premio Príncipe de Asturias de Comunicación y Humanidades, el Premio Strega y el Médicis (estos últimos por “El nombre de la rosa”). Además de los honores mencionados, cabe destacar que Umberto Eco también ha sido nombrado como Caballero de la Legión de Honor Francesa.

Publicado por Verónica Gudiña el 21 de Mayo de 2008 a las 03:23 pm
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sábado, 16 de janeiro de 2010

"O Google é uma tragédia para os jovens", afirma Umberto Eco


 

Cultura

Vermelho - 15 de Novembro de 2009 - 13h43

O escritor e semioticista italiano Umberto Eco, curador de uma nova exposição no Louvre em Paris, falou à "Spiegel" sobre o lugar que as listas ocupam na história da cultura, as formas pelas quais tentamos evitar pensar na morte e por que o Google é perigoso para os jovens.

Spiegel: Sr. Eco, o senhor é considerado um dos grandes acadêmicos do mundo, e agora está inaugurando uma exibição no Louvre, um dos museus mais importantes do mundo. Entretanto, os temas de sua mostra soam um pouco lugar-comum: a natureza essencial das listas, poetas que listam coisas em seus trabalhos e pintores que acumulam coisas em suas pinturas. Por que você escolheu esses temas?
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Umberto Eco: A lista é a origem da cultura. Ela faz parte da história da arte e da literatura. O que a cultura quer? Tornar a infinitude compreensível. Ela também quer criar ordem - nem sempre, mas com frequência. E como, enquanto seres humanos, lidamos com a infinitude? Como é possível entender o incompreensível? Através de listas, através de catálogos, através de coleções em museus e através de enciclopédias e dicionários. 

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Há uma atração em enumerar com quantas mulheres Don Giovanni dormiu: foram 2.063 pelo menos, de acordo com o libretista de Mozart, Lorenzo da Ponte. Nós também temos listas totalmente práticas - listas de compras, testamentos, cardápios - que, a seu modo, também são conquistas culturais.
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Spiegel: A pessoa aculturada deveria então ser vista como um zelador tentando impor a ordem em lugares onde o caos prevalece?
Eco: A lista não destrói a cultura; ela a cria. Para onde quer que você olhe na história da cultura, encontrará listas. Na verdade, há uma variedade atordoante: listas de santos, exércitos e plantas medicinais, ou de tesouros e títulos de livros. Pense nas coleções sobre a natureza do século 16. Meus livros, a propósito, são cheios de listas.
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Spiegel: Contadores fazem listas, mas também podemos encontrá-las nas obras de Homero, James Joyce e Thomas Mann.
Eco: Sim. Mas eles, é claro, não são contadores. Em "Ulysses", James Joyce descreve como seu protagonista, Leopold Bloom, abre suas gavetas e tudo o que ele encontra dentro delas. Vejo isso como uma lista literária, e ela diz muito sobre Bloom. Ou veja Homero, por exemplo. Na "Ilíada", ele tenta transmitir uma impressão do tamanho do exército grego. Primeiro ele usa metáforas: "Assim como um grande fogo florestal investe contra o topo de uma montanha e sua luz é vista de longe, enquanto marchavam, o brilho de suas armaduras reluzia nas alturas do céu". Mas não fica satisfeito. Ele não consegue encontrar a metáfora certa, então implora às musas para que o ajudem. Então ele chega à ideia de listar os nomes de muitos, muitos generais e seus navios.

A lista não destrói a cultura; ela a cria. Para onde quer que você olhe na história da cultura, encontrará listas. (...) Meus livros, a propósito, são cheios de listas
Spiegel: Mas, ao fazer isso, ele não se desvia da poesia?
Eco: A princípio, pensamos que uma lista é algo primitivo e típico das primeiras culturas, que não tinham um conceito exato do universo e que, portanto, eram limitadas a listar as características que podiam nomear. Mas, na história cultural, a lista prevaleceu ao longo do tempo. Ela não é, de forma alguma, uma mera expressão das culturas primitivas. Uma nova visão de mundo baseada na astronomia predominou durante o Renascimento e o período barroco. E havia listas. E a lista com certeza impera na era pós-moderna. Ela tem uma mágica irresistível.
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Spiegel: Mas por que Homero lista todos aqueles guerreiros e seus navios, se sabe que nunca será capaz de citar todos eles?
Eco: O trabalho de Homero se depara constantemente com o tópos do inexpressível. As pessoas sempre farão isso. Sempre fomos fascinados pelo espaço infinito, pelas estrelas incontáveis e galáxias além das galáxias. Como uma pessoa se sente olhando para o céu? Ela acredita que sua língua não é suficiente para descrever o que vê. Os amantes estão na mesma posição. Eles experimentam uma deficiência de linguagem, uma falta de palavras para expressar seus sentimentos. Mas os amantes tentam parar de fazer isso? Eles criam listas: seus olhos são tão belos, assim como sua boca, e a sua clavícula... As pessoas podem entrar em grandes detalhes.
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Spiegel: Por que nós perdemos tanto tempo tentando concluir coisas que não podem ser realisticamente concluídas?

Eco: Nós temos um limite, um limite muito desencorajador e humilhante: a morte. É por isso que gostamos de todas as coisas que acreditamos não ter limites, e que, portanto, não têm fim. É uma forma de fugir dos pensamentos sobre a morte. Gostamos de listas porque não queremos morrer.
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"As pessoas têm suas preferências"
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Spiegel: Em sua mostra no Louvre, você também mostra obras das artes visuais, como naturezas-mortas. Mas essas pinturas têm molduras, ou limites, e elas não podem mostrar mais do que de fato mostram.
Eco: Pelo contrário, o motivo pelo qual gostamos tanto delas é que acreditamos que somos capazes de ver mais do que elas mostram. Uma pessoa contemplando uma pintura sente necessidade de abrir a moldura e ver que coisas estão à esquerda e à direita da tela. Esse tipo de pintura é verdadeiramente uma lista, um recorte da infinitude.
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Spiegel: Por que as listas e as acumulações são particularmente importantes para você?
Eco: As pessoas do Louvre me procuraram e perguntaram se eu gostaria de ser o curador de uma exibição no museu, e pediram para que eu elaborasse uma programação de eventos. Só a ideia de trabalhar num museu já era sedutora para mim. Estive lá sozinho recentemente, e me senti como um personagem num livro de Dan Brown. Fiquei ao mesmo tempo assustado e maravilhado. Percebi imediatamente que a exibição teria como tema as listas. Por que me interesso tanto pelo assunto? Não sei dizer exatamente. Gosto das listas pela mesma razão que outras pessoas gostam de futebol ou pedofilia. As pessoas têm suas preferências.
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Spiegel: Ainda assim, você é famoso por ser capaz de explicar suas paixões...
Eco: ? mas não por falar sobre mim mesmo. Veja, desde a época de Aristóteles tentamos definir as coisas baseadas em sua essência. A definição do homem? Um animal que age de forma deliberada. Agora, levou 80 anos para os naturalistas conseguirem elaborar a definição de um ornitorrinco. Eles acharam infinitamente difícil descrever a essência desse animal. Ele vive na água e na terra; bota ovos, e apesar disso é um mamífero. Então com que se parece essa definição? É uma lista, uma lista de características.
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Spiegel: Uma definição certamente seria possível com um animal mais convencional.
Eco: Talvez, mas isso tornaria o animal interessante? Pense num tigre, que a ciência descreve como um predador. Como uma mãe descreveria um tigre para seu filho? Talvez usando uma lista de características: o tigre é um felino, grande, amarelo, com listras e forte. Só um químico se referiria à água como H2O. Mas eu digo que ela é líquida e transparente, que nós a bebemos e que podemos nos lavar com ela. Agora você pode finalmente ver sobre o que estou falando. A lista é o marco de uma sociedade altamente avançada, desenvolvida, porque ela nos permite questionar as definições essenciais. A definição essencial é primitiva comparada à lista.
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Spiegel: Pode parecer que você está dizendo que deveríamos parar de definir as coisas e que o progresso seria, em vez disso, apenas contar e listar as coisas.
Eco: Isso pode ser libertador. O período barroco foi um período de listas. De repente, todas as definições escolásticas que foram feitas no período anterior não serviam mais. As pessoas tentaram ver o mundo de uma perspectiva diferente. Galileu descreveu novos detalhes sobre a Lua. E, na arte, definições estabelecidas foram literalmente destruídas, e a variedade de assuntos se expandiu tremendamente. Por exemplo, vejo as pinturas do barroco holandês como listas: as naturezas-mortas com todas aquelas frutas e as imagens de armários opulentos de curiosidades. As listas podem ser anárquicas.
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Spiegel: Mas você disse que as listas podem estabelecer a ordem. Então, tanto a ordem quanto a anarquia se aplicam? Isso tornaria a internet, e as listas criadas pelo mecanismo de busca Google, perfeitas para você.
Eco: Sim, no caso do Google, ambas as coisas convergem. O Google faz uma lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista gerada pelo Google, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para pessoas mais velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra forma, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas precisam ensinar a fina arte de discriminar.
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Spiegel: Você está dizendo que os professores deveriam instruir seus alunos sobre a diferença entre o que é bom e o que é ruim? Se sim, como eles deveriam fazer isso?
Eco: A educação deveria voltar à forma que era nas oficinas do Renascimento. Lá, os mestres não eram necessariamente capazes de explicar aos alunos porque uma pintura era boa em termos teóricos, mas eles faziam isso de forma mais prática. Veja, o seu dedo pode se parecer com isso, mas ele é de fato assim. Veja, esta é uma boa mistura de cores. A mesma abordagem deveria ser usada nas escolas ao lidar com a internet. O professor deveria dizer: "Escolha qualquer assunto, quer seja a história alemã ou a vida das formigas. Busque 25 páginas diferentes na internet e, ao compará-las, tente descobrir qual oferece uma boa informação". Se dez páginas descreverem a mesma coisa, pode ser um sinal de que a informação publicada está correta. Mas também pode ser um sinal de que alguns sites copiaram os erros dos outros.
 
Por que me interesso tanto pelo assunto? Não sei dizer exatamente. Gosto das listas pela mesma razão que outras pessoas gostam de futebol ou pedofilia. As pessoas têm suas preferências
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Spiegel: Uma definição certamente seria possível com um animal mais convencional.
Eco: Talvez, mas isso tornaria o animal interessante? Pense num tigre, que a ciência descreve como um predador. Como uma mãe descreveria um tigre para seu filho? Talvez usando uma lista de características: o tigre é um felino, grande, amarelo, com listras e forte. Só um químico se referiria à água como H2O. Mas eu digo que ela é líquida e transparente, que nós a bebemos e que podemos nos lavar com ela. Agora você pode finalmente ver sobre o que estou falando. A lista é o marco de uma sociedade altamente avançada, desenvolvida, porque ela nos permite questionar as definições essenciais. A definição essencial é primitiva comparada à lista.
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Spiegel: Pode parecer que você está dizendo que deveríamos parar de definir as coisas e que o progresso seria, em vez disso, apenas contar e listar as coisas.
Eco: Isso pode ser libertador. O período barroco foi um período de listas. De repente, todas as definições escolásticas que foram feitas no período anterior não serviam mais. As pessoas tentaram ver o mundo de uma perspectiva diferente. Galileu descreveu novos detalhes sobre a Lua. E, na arte, definições estabelecidas foram literalmente destruídas, e a variedade de assuntos se expandiu tremendamente. Por exemplo, vejo as pinturas do barroco holandês como listas: as naturezas-mortas com todas aquelas frutas e as imagens de armários opulentos de curiosidades. As listas podem ser anárquicas.

Spiegel: Mas você disse que as listas podem estabelecer a ordem. Então, tanto a ordem quanto a anarquia se aplicam? Isso tornaria a internet, e as listas criadas pelo mecanismo de busca Google, perfeitas para você.
Eco: Sim, no caso do Google, ambas as coisas convergem. O Google faz uma lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista gerada pelo Google, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para pessoas mais velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra forma, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas precisam ensinar a fina arte de discriminar.

Spiegel: Você está dizendo que os professores deveriam instruir seus alunos sobre a diferença entre o que é bom e o que é ruim? Se sim, como eles deveriam fazer isso?
Eco: A educação deveria voltar à forma que era nas oficinas do Renascimento. Lá, os mestres não eram necessariamente capazes de explicar aos alunos porque uma pintura era boa em termos teóricos, mas eles faziam isso de forma mais prática. Veja, o seu dedo pode se parecer com isso, mas ele é de fato assim. Veja, esta é uma boa mistura de cores. A mesma abordagem deveria ser usada nas escolas ao lidar com a internet. O professor deveria dizer: "Escolha qualquer assunto, quer seja a história alemã ou a vida das formigas. Busque 25 páginas diferentes na internet e, ao compará-las, tente descobrir qual oferece uma boa informação". Se dez páginas descreverem a mesma coisa, pode ser um sinal de que a informação publicada está correta. Mas também pode ser um sinal de que alguns sites copiaram os erros dos outros. 
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O Google faz uma lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista gerada pelo Google, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para pessoas mais velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra forma, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas precisam ensinar a fina arte de discriminar
 Spiegel: Você tem uma tendência maior a trabalhar com livros, e tem uma biblioteca de 30 mil volumes. Ela provavelmente não funciona sem uma lista ou catálogo.
Eco: Acredito que, agora, ela tenha na verdade 50 mil livros. Quando minha secretária quis catalogá-la, pedi que ela não o fizesse. Meu interesse muda constantemente, assim como minha biblioteca. A propósito, se você muda constantemente de interesses, sua biblioteca constantemente dirá algo diferente sobre você. Além disso, mesmo sem um catálogo, sou obrigado a me lembrar dos meus livros. Tenho um corredor para literatura com 70 metros de comprimento. Ando por ele várias vezes por dia, e me sinto bem ao fazer isso. A cultura não é saber quando Napoleão morreu. Cultura significa saber como posso descobrir isso em dois minutos. É claro, hoje em dia posso encontrar esse tipo de informação na internet em menos tempo. Mas, como eu disse, nunca se pode ter certeza com a internet.
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Spiegel: Você inclui uma lista simpática feita pelo filósofo francês Roland Barthes em seu novo livro, "A Vertigem das Listas". Ele lista as coisas de que mais gosta e as coisas de que não gosta. Ele adora salada, canela, queijo e especiarias. Ele não gosta de motoqueiros, mulheres com calças compridas, gerânios, morangos e cravo [instrumento musical]. E você?
Eco: Eu seria um tolo se respondesse a isso; estaria me fechando numa definição. Eu era fascinado por Stendhal aos 13 e por Thomas Mann aos 15 e, aos 16, eu adorava Chopin. Então passei a minha vida inteira tentando conhecer o resto. Agora, Chopin está no topo novamente. Se você interage com as coisas em sua vida, tudo muda constantemente. E se nada muda, você é um idiota.
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Fonte: Der Spiegel
Tradução: Eloise De Vylder

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