Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 15 de fevereiro de 2026
Adriano Zilhão - AS TEMPESTADES E ALGUMAS PERGUNTAS INCÓMODAS
domingo, 10 de março de 2024
António Guerreiro – As sondagens: modo de usar
CRÓNICA ACÇÃO PARALELA
* António Guerreiro
7 de Março de 2024
A política-espectáculo cresce à
medida que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que
é cada vez menos soberano.
Um dos slogans inventados no Maio de 68,
às vezes recordado como uma peça de arqueologia revolucionária, como muitos
outros surgidos nesse tempo, desdenhava alegremente do acto essencial da
afirmação da democracia: “Élections, piège à cons”.
Traduzido em português nunca funcionaria porque perde a rima e o ritmo
prosódico: “Eleições, armadilha para imbecis”.
Actualmente, não existe no
espectro político nenhum extremo que ouse pôr em causa o formalismo democrático
do voto. “Porquê votar?” não é pergunta que hoje se faça publicamente e com um
alcance político programático. Em contrapartida, tem aumentado incessantemente
os que se interrogam – “Em quem votar?” – até ao momento de colocar a cruz no
boletim e os que, incapazes de decidir, engrossam as fileiras dos
abstencionistas.
Os “indecisos”
tornaram-se uma categoria decisiva. Por isso é que as sondagens, outrora tão
fiáveis, se tornaram um deficiente instrumento de medição do resultado final.
Podemos pressentir que se deu um fenómeno de inversão ou de reversibilidade: as
sondagens, que dantes calculavam com precisão as intenções de voto sem
interferir nelas de maneira significativa, tornaram-se um elemento que
determina, em última instância, a escolha do eleitor. O eleitor informado toma
as sondagens para calcular o sentido do seu voto.
Evidentemente, isso deu-se à
medida que se multiplicaram as sondagens pré-eleitorais e que os cidadãos
aprenderam a lê-las e a avaliá-las na sua dimensão performativa, isto é,
enquanto acção pragmática. Mas tal aconteceu porque aumentou o voto estratégico
que oscila em função das configurações da paisagem eleitoral, das posições dos
partidos nos rankings. Isto significa que as
sondagens, através deste processo de retroacção, entram ilegitimamente no jogo eleitoral? Se elas,
afinal, são um instrumento do cálculo do eleitor e não a sua
instrumentalização, então não devemos tirar essa conclusão. O problema está
noutro lado: na modalidade do discurso político que engendrou este
cidadão-termostato cuja acção é profundamente uma reacção.
Vivemos colectivamente (refiro-me
ao espaço público mediático), durante estas últimas semanas, sob o primado da
política dos políticos e da política dos media. A cena
política, em momentos como este, transforma-se numa arena onde cada um exibe
uma virtual potência de decisão em todos os domínios da sociedade. Sabemos, no
entanto, que tanta vontade e preparação para fazer mil e uma coisas não passa
de tagarelice por várias razões: porque quem chega ao poder governamental tem
de se conformar com uma fraca soberania, só pode agir respeitando os poderes
formais e informais das instituições europeias, das contingências
internacionais do mundo globalizado (as guerras, as crises económicas, os
ditames da grande finança mundial, etc.); porque a classe política, por mais
que tenha a seu cargo a acção administrativa e gestionária, não consegue
realizar o que propõe nos seus discursos porque se confronta com o
condicionamento dos poderes burocráticos.
Há uma regra que não devemos esquecer: a política-espectáculo cresce à medida
que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que é cada
vez menos soberano.
Este discurso funciona sob o
signo da infantilização. Por todo o lado a política é vista como uma vulgata
para crianças retardadas. E as campanhas eleitorais não são mais do que um
simulacro. Mas talvez esta seja uma condição benévola: muito pior seria que não
se cumprissem os protocolos para salvar as aparências que asseguram, apesar de
tudo, alguma estabilidade do sistema.
Seria, no entanto, muito
interessante saber em que acreditam verdadeiramente os protagonistas políticos,
quando já estão fora do jogo eleitoral. Ao contrário do que se passa noutros
domínios de actividade, este é um campo onde raramente se pratica o metadiscurso,
o desdobramento reflexivo: há um pathos de
primeiro grau que sobrevive e se torna duro como pedra em quem ocupou cargos
políticos de relevo. Entre nós, Cavaco
Silva ilustra com uma rara intensidade expressiva esta persistência do
discurso naïf de primeiro grau.
Livro de Recitações
“Travar a crise climática não está na mesa de voto
Slogan do
movimento máximo
Entre as várias razões que tornam
inadequado e até contraproducente alguns aspectos do discurso e da acção destes
“activistas” (tratarei de analisar em breve esse discurso) está o uso da
expressão “crise climática”.
É certo que ela chega até nós
mediada por muitas instâncias e entrou na linguagem corrente. Mas quem assumiu
a missão – louvável e grandiosa – de alertar a opinião pública para este
problema e levar os poderes políticos e económicos a agir de modo a interromper
uma desastrosa corrida tem de começar por rejeitar a linguagem que neste campo
é acriticamente usada e transmitida: a metáfora da “crise”, que até na política
e na economia tem muitas vezes um objectivo de ocultação, revela-se pouco
certeira para designar as alterações climáticas. As crises são momentos breves
no curso das sociedades, correspondem a situações temporárias em que se dá uma
perturbação do que antes dela era a normalidade.
A saída de uma crise implica, em maior ou menor grau, uma metamorfose. Ora,
aquilo que é designado como “crise climática” afecta o receptáculo de todas as
nossas actividades, não é uma “crise” particular e localizada.
E, ainda mais importante, a temporalidade dos acontecimentos ambientais não tem nada que ver com a temporalidade das perturbações sociais e políticas que a palavra “crise” designa: trata-se de uma temporalidade que se situa numa escala geológica.
terça-feira, 13 de dezembro de 2022
Francisco Louçã - Se até o Quinto Império não tinha departamento de proteção civil
* Francisco Louçã
Vive Lisboa em pânico, como se os
marcianos tivessem desembarcado, mas é a repetição de cheias como em dezenas de
anos. Faltou o milagre que, afinal, era só um projeto orçamentado e
calendarizado e, claro, nunca concluído. Triste sina, esta de ter autarcas que
sabem que podem enganar a sua cidade
13 DEZEMBRO 2022
Não passa um carro, a cidade
entrou em pânico, as escolas meteram água e as crianças e adultos fecharam-se
em casa. As autoridades, mais assustadas do que o povo que já viu muito disto,
bombardeiam os telemóveis com mensagens apocalípticas, esbracejando uma
diligência que faltou quando foi mais necessária e cuja exibição pretende
ocultar anos de promessas calculistas e indiferença cínica sobre obras urgentes
nunca concluídas ou sequer começadas.
Pela manhã pouco chove, depois
das litradas da noite, mas sentimo-nos como se tivesse passado o maremoto de
1755. As televisões emitem em modo de catástrofe, como se Orson Welles tivesse
voltado a anunciar a chegada dos marcianos e vamos espreitar a esquina para
vermos os disparos dos raios da morte dos sanguinários ocupantes saídos da sua
nave reluzente. E, apesar do espetáculo do medo, isto é mesmo uma cheia,
pequenina aqui, enorme ali. As águas procuram a sua história e marcham pelos
leitos de ribeiras entretanto sepultados em alcatrão, pelo que, sem surpresa,
inundam caves e túneis. Como sempre fizeram.
Triste sina esta de viver em
Lisboa, a mítica cidade fundada por Ulisses e por onde Ulisses nunca passou,
como lembrou com algum sarcasmo Eduardo Lourenço, e onde os autarcas, ministros
e demais entidades se sucederam ao longo de décadas anunciando tranquilizantes
prazos e engenharias que sabiam inutilmente destinadas a uma gaveta.
Se há um risco de calamidade,
aliás comprovada por um longo cadastro de repetições, a melhor solução continua
a ser formar uma comissão ou, se se chegar ao ponto da cabeça perdida, prometer
uma obra, e assim procederam uns e outros ao longo do tempos. Que usem sempre o
mesmo subterfúgio e com os mesmos resultados, já diz tudo sobre a experiência
sobrevivente destes autarcas e de como consideram o seu povo, que esperam que
seja desmemoriado e aceite o próximo enlevo eleitoral como se não houvesse
ontem.
Perante a mesquinhez destas
águas, ouve-se a tristeza, fado repetido. Afinal, tudo corre mal: há inundação
mas, pior, Portugal perdeu com Marrocos. Ora, está tudo relacionado, como não
podia deixar de ser, pelo menos na fantasmagoria: num caso e noutro volta a
agitar-se o espectro de Alcácer Quibir, coisa no primeiro caso excessivamente
dramática para um só jogo, no segundo deslocado do campo de batalha, mas nem
menos por isso revelador de como se enunciam as identidades míticas (e, neste
caso, místicas).
A regra é esta: sempre que há
fracasso, fala-se da grandeza perdida e da saudade do que não existiu, a culpa
é de outro ou, pela certa, das conjugações cósmicas que nos atraiçoam. Mouros e
chuvas têm o mesmo lugar nesse pensamento mágico, que é o que resta quando não
há mais nada a dizer.
O disfarce que permite estes
estratagemas discursivos é somente uma recapitulação do passado. Quando as autoridades
não sabem o que fazer, repetem o que sempre fizeram mal; quando não há
explicações, prometem o que sempre prometeram. Nada de novo neste sebastianismo
serôdio: dizia Lourenço que uma “hiperidentidade” nacional foi constitutiva da
projeção fantasmática de um povo que foi chamado de predestinado aos grandes
feitos do Império, mas a derrota do rei-menino em Marrocos rompeu esse ciclo
desde o seu início e criou desde então uma “não-história”, uma falsificação de
si própria disfarçada na crueza da colonização, do tráfico negreiro, da
escravatura, conduzindo ao “póstumo” fracasso final. Não continuará a ser
assim?
A assombração insepulta desse
Quinto Império transmutou-se na nossa contemporaneidade num discurso delirante
sobre a carruagem da frente, sobre a glória europeia, sobre a voz forte no
concerto das nações, sobre os portugueses “de sucesso”, de banqueiros a
governantes, se bem que nem todos conduzindo o seu mister com o maior
prestígio. Quem diria então que essa modernidade avançada, tecnologicamente
segura, engenhosa e inventiva, desabaria perante uma chuvada, ainda por cima
previsível, anunciada, teimosamente repetida e de resultados antecipáveis.
O ciclo do sebastianismo foi “o
máximo de existência irrealista que nos foi dado viver; de um máximo de
coincidência com o nosso ser profundo, pois esse sebastianismo representa a
consciência delirada de uma fraqueza nacional, de uma carência, e essa carência
é real”, escrevia Lourenço no “Labirinto da Saudade”. Numa palavra, resumia,
estamos sempre à espera do “milagre”. Fraca consolação será agora saber que
também no caso deste dia cinzento, o milagre era um projeto aprovado,
orçamentado e calendarizado, que ficou enigmaticamente para as calendas, como
parece ser uma regra não escrita da gestão das coisas sérias.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2022
Henrique Raposo - Não, não estamos em 1967
* Henrique Raposo
OPINIÃO -
Em 1967, uma tempestade idêntica
à de quinta-feira passada matou 700 pessoas. Ou melhor, o regime assumiu 700
mortos, mas esse número peca por escasso. Aqueles migrantes, portugueses e
clandestinos, moravam em barracas ao lado de ribeiras como a de Odivelas e de
Frielas e foram levados pelas enxurradas. Centenas de corpos ficaram espalhados
nas ruas, entalados entre carros, até na copa das árvores. Reparem: as pessoas
subiram às árvores mas morreram afogadas na mesma. Na quinta-feira passada, uma
chuvada idêntica só matou uma pessoa. Não digam que Portugal não muda ou que
Portugal não evolui, porque isso é errado e sobretudo injusto
Éuma das coisas que mais me
irrita: quando alguma coisa negativa rebenta em Portugal (um caso de corrupção
ou uma tragédia natural), a atitude de boa parte dos portugueses é esta: “isto
só neste país”, “pá, só neste país”. É uma espécie de excepcionalismo ao
contrário. O excepcionalismo americano ou francês leva os respetivos indígenas
a pensar que as coisas boas só podem acontecer nos EUA ou França. O
excepcionalismo português assume o contrário: as coisas más só acontecem em
Portugal e “lá fora” só há coisas boas. É como se os outros países não tivessem
corrupção, pobreza ou cheias.
Este mecanismo mental não é um
pormenor: é um traço cultural que dificulta duas coisas. Primeira: entorpece o
debate sobre as reformas do país. Se o país é sempre a choldra, se é
geneticamente assim, inferior, decadente, ineficaz, então para quê o esforço,
então para quê mudar seja o que for? Este baixo queirosianismo iliba o
português de um compromisso sério com a melhoria da sua comunidade.
O segundo efeito está, portanto,
à vista: o desapego permanente entre o português e Portugal, que só é
interrompido nos picos emocionais do futebol. Em Portugal, parece que só há um
superpatriotismo, aliás, um nacionalismo agressivo e místico na altura dos
jogos da seleção; no dia a dia, porém, na resolução dos problemas reais do
país, esse nacionalismo esvazia-se até à indiferença e as pessoas caem no
cinismo do “isto já deu o que tinha a dar”, “este país não muda”. Muda, muda. E
muitas vezes muda para melhor.
Em 1967, uma tempestade idêntica
à de quinta-feira passada matou 700 pessoas. Ou melhor, o regime assumiu 700
mortos, mas esse número peca por escasso. Aqueles migrantes, portugueses e
clandestinos, moravam em barracas ao lado de ribeiras como a de Odivelas e de
Frielas e foram levados pelas enxurradas. Centenas de corpos ficaram espalhados
nas ruas, entalados entre carros, até na copa das árvores. Reparem: as pessoas
subiram às árvores mas morreram afogadas na mesma. Na quinta-feira passada, uma
chuvada idêntica só matou uma pessoa. Não digam que Portugal não muda ou que
Portugal não evolui, porque isso é errado e sobretudo injusto.
O baixo queirosianismo do “isto é
uma choldra” ou “isto já deu o que tinha a dar” revela preguiça e alguma
ingratidão por aquilo que se fez no último meio século em Portugal e, repito,
iliba as pessoas de uma ação concreta sobre problemas concretos.
12 DEZEMBRO 2022
https://expresso.pt/opiniao/2022-12-12-Nao-nao-estamos-em-1967-e4d69841
sábado, 26 de novembro de 2022
Viriato Soromenho-Marques - Vosso futuro, nosso inferno
* Viriato Soromenho-Marques
OPINIÃO - 26 Novembro 2022 —
Muitas opiniões ventiladas na nossa esfera pública, a propósito da luta estudantil contra a devastação ambiental e climática, surpreenderam-me. Não apenas pela gritante ausência de escolaridade sobre os temas em debate, mas pelo atrevimento de transformar a pobreza reflexiva num ato de iliteracia voluntária. Os jovens ativistas de hoje bem podem identificar-se com o Paul Nizan, de Aden Arabie (1931): "Tinha 20 anos. Não deixarei ninguém dizer que é a mais bela idade da vida."
Para perceber a gravidade do que está em causa é útil ler Douglas Rushkoff (DR), no seu mais recente livro: A Sobrevivência dos mais Ricos. Fantasias de Fuga dos Bilionários da Tecnologia (W.W. Norton, 2022). Tudo começou em 2017, quando DR - um professor de teoria dos media e de economia digital, e um dos 10 mais influentes intelectuais da atualidade segundo o MIT - foi convidado, com um tentador honorário equivalente a meio ano de salário, a proferir uma conferência sobre o futuro da tecnologia numa luxuosa e isolada estância. Para surpresa de DR, o público era constituído por apenas 5 grandes investidores de capital de risco, que cercaram o orador com temas fora da agenda do convite. As perguntas prendiam-se com a sua sobrevivência pessoal depois do "evento", o nome dado ao colapso da civilização por causas ambientais, nucleares, tecnológicas, pandémicas, ou pela combinação de todas elas: Qual o melhor sítio para construir um bunker, Alasca ou Nova Zelândia? Como garantir a fidelidade dos guarda-costas, depois do evento? Como impedir as multidões enlouquecidas pelo desespero de assaltarem esses redutos pós-apocalípticos?
Foi esta inquietante reunião que levou DR a estudar o universo mental da elite tecnológica global. O resultado aí está nos 12 capítulos e 224 páginas deste ensaio. Trata-se de uma viagem àquilo que o autor designa por Mindset, uma sinistra gnose partilhada pela elite que governa as dinâmicas da inovação tecnológica: os grandes empresários do mundo digital e os líderes da arquitetura financeira global. Os donos não apenas do dinheiro, mas os engenheiros das mentes, dos mitos e das esperanças, criadas e difundidas pelos intelectuais orgânicos do otimismo tecnológico como ópio para as massas. Os políticos estão ausentes, pois esta narrativa não inclui o pessoal menor. Musk, Bezos, Zuckerberg, Peter Thiel, Ray Kurzweil entre muitos outros ...
A tábua de valores destes super-ricos consiste na idolatria do ego, na crença de que a vida é um jogo de vídeo a vencer, onde as regras de um mercado impiedoso imperam. A condição humana é reduzida a uma galáxia de dados que os algoritmos da IA ajudam a explorar e domesticar. Baniram a prudência ética, pela aposta na tecnologia como instrumento da dominação e nulificação da natureza, capaz de reduzir à obediência voluntária o resto da humanidade, com a qual não sentem qualquer afinidade. À semelhança dos estudantes teenagers que lutam por um futuro habitável, os super-ricos acreditam que vamos rumo ao colapso, mas ao contrário da recusa dos jovens, aceitam-no como o inevitável preço da sua dominação, seguros de salvarem a pele nas centenas de abrigos, brotando como cogumelos, de onde esperam emergir ilesos num planeta esterilizado pela ruína e mega morte. Teríamos aqui um caso a exigir a intervenção dos poderes públicos, caso eles fossem efetivos. Mas, certamente, não contra os estudantes, os derradeiros defensores de uma habitação da Terra onde todos caibam.
Professor universitário
https://www.dn.pt/opiniao/vosso-futuro-nosso-inferno-15387224.html
segunda-feira, 17 de outubro de 2022
Carmo Afonso - Estragaram-se duas sopas de tomate
domingo, 8 de dezembro de 2019
Helena Matos - As pessoas estúpidas
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Meio Ambiente & Geopolítico
.
A realização do evento, por si só, já é digna de registro. Demonstra uma prática política contemporânea, de debater os grandes temas, tanto dos de natureza essencialmente teóricos quanto os temas que polemizam e antagonizam as variadas correntes de pensamento.
O evento foi aberto pelo Presidente Nacional do PCdoB, Renato Rabelo, pelo Secretário Nacional de Meio Ambiente, Aldo Arantes, e pelo Presidente do IMG, Adalberto Monteiro, que situaram as pretensões e os limites daquele debate, alertando especialmente para as implicações ideológicas que esse debate enseja.
As mesas que se sucederam trataram do marxismo e meio ambiente, do aquecimento global e de Amazônia e Biodiesel.
Nossa modesta contribuição, numa mesa com o Professor Enio Candoti e o ilustre Presidente da ANP, Haroldo Lima, foi sobre o caráter ideológico desse debate, destacando que ela se insere dentro de uma estratégia global do imperialismo.
Do ponto de vista teórico iniciei sublinhando que “na natureza, como na sociedade, todos os fenômenos estão interligados, interconectados e são interdependentes”, de onde se conclui que não há desenvolvimento sem sustentabilidade e nem sustentabilidade sem desenvolvimento.
A sustentabilidade ambiental, portanto, é uma exigência produtiva e não um mero capricho ecológico. Mas não se pode ter ilusões quanto ao seu uso ideológico. Muitos atores esgrimam a questão ambiental por mera motivação geopolítica.
Para os países imperialistas a questão ambiental é predominantemente ideológica. Faz parte de toda uma tática, usada ao longo dos tempos, como forma de se assenhorear de áreas que eles entendem como reservas estratégicas de recursos naturais, como a Amazônia, por exemplo. O imperialismo já utilizou o militarismo, a ciência, a teoria do arrendamento, a economia, a “defesa” dos povos indígenas e, atualmente, o ambientalismo.
Assim, a negativa de utilização do espaço amazônico não está associada, necessariamente, a questões ambientais. Expressa, na maioria dos casos, um posicionamento ideológico, assentado na concepção “santuarista”, que entende a Amazônia como “patrimônio da humanidade”.
Da “Companhia Comercial Londrina” (1832) até a recente declaração do presidente alemão, Horst Kohler (2007), defendendo a gestão compartilhada de nossas florestas, a Amazônia sempre foi vista como reserva estratégica do imperialismo.
Quanto a polemica em si, se há ou não aquecimento global, a mim parece resolvido. O mundo aquece e, talvez, tenda a aquecer ainda mais. O que não há unanimidade é quanto às causas que levaram a esse aquecimento. Enquanto o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) sustenta que o aquecimento decorre da emissão de CO2, dezenas de outros pesquisadores argumentam que o aquecimento decorre da própria mutação solar. É uma polêmica que promete.
Mas, igualmente importante, é saber quem polui. O mundo, com seus 6,5 bilhões de habitantes, produzem 49 bilhões de toneladas de CO2 por ano, com uma média de 7,5 tonelada/habitante. Um americano ou europeu é responsável por uma média de 17 toneladas dessa poluição, enquanto brasileiro ou chinês responde por menos de 03 toneladas.
Mesmo assim os “ricos” exigem, para reduzirem suas emissões, que os países em “desenvolvimento”, especialmente Brasil e China, reduzam na mesma proporção. Em verdade não querem é competidores. O encontro do G8, recém concluído na Alemanha, remeteu para até 2050 a data limite para que os países ricos adotem medidas para reduzirem em 50% suas emissões de CO2, o que evidencia o descompromisso desses países com a questão ambiental.
A pressão sobre a Amazônia em particular é claramente de natureza geopolítica. Considerando que a Amazônia “queime” 1 milhão de hectares por ano ela seria responsável por uma emissão de 100 milhões de toneladas de CO2 (0,2% da emissão total). Sua floresta, entretanto, seqüestra algo como 350 milhões de toneladas de CO2. O saldo é de 250 milhões de toneladas de CO2. Significa que a Amazônia limpa e não polui o meio ambiente como de maneira geral nós somos levados a acreditar pela propaganda unilateral. Em boa parte essa propaganda é estimulada pelo unilateralismo dos financiadores de projetos de caráter ambiental na Amazônia. Como regra, bancada por capital estrangeiro.
É possível usar a Amazônia com sustentabilidade, especialmente pelos seus diversos biomas. A Amazônia pode ser desde uma grande produtora de alimentos a partir dos milhões de hectares de várzea que possui até um grande centro de biotecnologia, em decorrência de sua extraordinária biodiversidade. Pode, também, fornecer peixe para o mundo, suprir boa parte de nossa dependência energética, gerar milhares de reais com a atividade turística e, inclusive, reflorestar boa parte de suas áreas degradadas com o dendê e substituir usinas a diesel por biodiesel. As alternativas são várias e, creio, o seminário ajudou a abrir essa polêmica.
*Eron Bezerra, Engenheiro Agrônomo, Professor da UFAM, Deputado Estadual Licenciado, Secretário de Agricultura do Estado do Amazonas, Membro do CC do PCdoB.
.
in Vermelho - 15 DE ABRIL DE 2008 - 20h10
.
.
