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domingo, 15 de fevereiro de 2026

Adriano Zilhão - AS TEMPESTADES E ALGUMAS PERGUNTAS INCÓMODAS

 
REFLEXÃO

Adriano Zilhão, 
O Maio.

Além do ímpeto solidário de acudir às populações que mais sofreram, as violentas tempestades que assolaram o país suscitam muita reflexão, muitos porquês.

Porque foram as populações forçadas a abandonar quase todo o país e a concentrar-se numas poucas zonas urbanas no litoral?

Porque se faz, nestas zonas, a construção cada vez mais longe dos centros (mesmo quando há espaço nestes), com materiais inadequados para as condições climáticas e para o conforto dos habitantes, sem planeamento urbano, transportes acessíveis, equipamentos adequados de saúde e ensino, zonas verdes e espaços seguros para crianças?

Porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”?

Porque se plantam espécies florestais quase sempre em monocultura, de maneira que, quando acontece alguma coisa, a devastação é total, seja incêndio ou vendaval?

Os economistas costumam usar uma palavra muito “técnica”, novilinguística, para se referirem a estas consequências nefastas do desenvolvimento capitalista: externalidades.

O princípio básico da “economia de mercado” capitalista é simples: todas as relações económicas e sociais ocorrem em mercados. Nada do que se produz se faz para satisfazer as necessidades do produtor ou da comunidade a que pertence. Tudo se produz a pensar em encontrar compradores num mercado, próximo ou longínquo, onde se possa vender o produto com lucro.

Tanto a produção de bens e serviços como o seu consumo pelos indivíduos e famílias não têm, portanto, nada que ver com as deliberações de cada comunidade sobre o que se há-de produzir, como, quando, para quê e para quem.

Em vez disso, “investidores” que dispõem de capitais estimam quanto custarão nos mercados as fábricas que terão de construir, as máquinas e matérias-primas que terão de comprar e os salários que terão de pagar aos trabalhadores que precisarem de empregar; se virem que há ou haverá mercado lucrativo para o que se propõem produzir, avançam.

A doutrina liberal ensina que nenhum método de organização social é superior a este: a miríade de decisões independentes de investimento com fim lucrativo terá o efeito miraculoso de os recursos sociais disponíveis serem usados da maneira mais eficiente possível para a sociedade como um todo. Uma espécie de mão invisível guiaria as decisões egoístas de cada capitalista para um resultado global que, nas condições dadas, é, no fundo, “altruísta”, uma vez que socialmente melhor não será possível.

O observador céptico pode achar: “Bem, se eu fosse um desses capitalistas que quer fazer dinheiro, acharia esta teoria utilíssima — apesar de parecer um bocado estapafúrdia…” Estapafúrdia, realmente: vendo bem, o único resultado evidente de organizar assim os recursos da sociedade é que o capitalista, pelo menos o capitalista bem-sucedido, atinge o seu fim, que é multiplicar o seu capital. Quanto ao mais…

Voltemos às “externalidades”.

Os produtos ou serviços em cuja produção o capitalista decidiu investir não são a única consequência do seu investimento.

Por exemplo, a exploração mineira, depois de o respectivo capitalista ter comprado ou concessionado o terreno, comprado ou alugado maquinaria e combustíveis, contratado pessoal e pagado impostos, não produz apenas matérias-primas prontas para vender a compradores industriais. Também produz uma transformação profunda do território em que se faz; pode obrigar populações a deslocarem-se; polui cursos de água e a atmosfera; causa doenças graves aos operários e aos habitantes; altera ou destrói ecossistemas.

O mesmo no caso da indústria transformadora; e da agricultura intensiva; e da exploração florestal.

No entanto, na sua esmagadora maioria, estes “efeitos colaterais” da produção capitalista não têm preço em nenhum mercado. O capitalista não tem de pagar por eles nem de incluí-los nos seus cálculos de rentabilidade.

Os efeitos colaterais não são “privados”. São custos sociais futuros. Terão, aliás, mais tarde ou mais cedo, de ser pagos: no custo de brigadas de bombeiros, de tratamentos hospitalares, de evacuações de populações, de despoluição de territórios.

Para o capitalista investidor, porém, não são custo algum.

Melhor: o preço da eventual reparação futura desses efeitos será pago por quem sofre os danos ou pelo Estado; neste caso, com o dinheiro cobrado em impostos à população em geral. Que é usado para comprar produtos e serviços em mercados — lucrativos — de construção civil, manutenção de infra-estruturas, etc.

As catástrofes total ou parcialmente resultantes de efeitos colaterais de investimentos capitalistas geram, assim, novos mercados para os mesmos capitalistas, ou outros, poderem fazer negócios lucrativos.

Pergunta-se: mas porque não têm esses capitalistas, que investem para ganhar dinheiro e, nisso, transformam “colateralmente” a natureza e a organização social e territorial, que pagar por esses efeitos colaterais?

Há uma resposta simples, que eles próprios poderiam dar: se todos esses efeitos colaterais previsíveis fossem carregados a custo do investimento privado, nenhum investimento privado se faria, porque não seria lucrativo. Ora, os tais efeitos ocorrem; e ocorrendo, têm um custo.

Esse custo representa, consequentemente, uma gigantesca subvenção dada ao capital pelo Estado — essencialmente, aliás, pelos trabalhadores em geral, que, além de arcarem quase sempre com os efeitos directos das catástrofes na saúde, nas condições de vida e de trabalho, são quem paga os impostos de onde o Estado paga as subvenções virtuais ao capital.

A conclusão, para quem não tenha antolhos: numa sociedade complexa, em que todo o país é afectado por tudo o que se faz social e economicamente em qualquer parte do território (o mesmo se aplica ao mundo), só é possível controlar o destino social, económico e ambiental do país e do mundo se todas as decisões importantes, nos domínios social, económico e ambiental, forem tomadas não por investidores empenhados em tirar as castanhas do lume (sem se importarem que o lume pegue fogo a tudo o resto), apoiados para o efeito na propriedade privada dos meios de produção, mas por toda a população trabalhadora, democraticamente.

Posted by OLima at sexta-feira, fevereiro 13, 2026 

https://jornalmaio.org/as-tempestades-e-algumas-perguntas-incomodas/
https://onda7.blogspot.com/2026/02/reflexao_02008860520.html

domingo, 10 de março de 2024

António Guerreiro – As sondagens: modo de usar

 CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

* António Guerreiro

 7 de Março de 2024 

 

A política-espectáculo cresce à medida que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que é cada vez menos soberano.

 

Um dos slogans inventados no Maio de 68, às vezes recordado como uma peça de arqueologia revolucionária, como muitos outros surgidos nesse tempo, desdenhava alegremente do acto essencial da afirmação da democracia: “Élections, piège à cons”. Traduzido em português nunca funcionaria porque perde a rima e o ritmo prosódico: “Eleições, armadilha para imbecis”.

 

Actualmente, não existe no espectro político nenhum extremo que ouse pôr em causa o formalismo democrático do voto. “Porquê votar?” não é pergunta que hoje se faça publicamente e com um alcance político programático. Em contrapartida, tem aumentado incessantemente os que se interrogam – “Em quem votar?” – até ao momento de colocar a cruz no boletim e os que, incapazes de decidir, engrossam as fileiras dos abstencionistas.

 

Os “indecisos” tornaram-se uma categoria decisiva. Por isso é que as sondagens, outrora tão fiáveis, se tornaram um deficiente instrumento de medição do resultado final. Podemos pressentir que se deu um fenómeno de inversão ou de reversibilidade: as sondagens, que dantes calculavam com precisão as intenções de voto sem interferir nelas de maneira significativa, tornaram-se um elemento que determina, em última instância, a escolha do eleitor. O eleitor informado toma as sondagens para calcular o sentido do seu voto.

 

Evidentemente, isso deu-se à medida que se multiplicaram as sondagens pré-eleitorais e que os cidadãos aprenderam a lê-las e a avaliá-las na sua dimensão performativa, isto é, enquanto acção pragmática. Mas tal aconteceu porque aumentou o voto estratégico que oscila em função das configurações da paisagem eleitoral, das posições dos partidos nos rankings. Isto significa que as sondagens, através deste processo de retroacção, entram ilegitimamente no jogo eleitoral? Se elas, afinal, são um instrumento do cálculo do eleitor e não a sua instrumentalização, então não devemos tirar essa conclusão. O problema está noutro lado: na modalidade do discurso político que engendrou este cidadão-termostato cuja acção é profundamente uma reacção.

 

Vivemos colectivamente (refiro-me ao espaço público mediático), durante estas últimas semanas, sob o primado da política dos políticos e da política dos media. A cena política, em momentos como este, transforma-se numa arena onde cada um exibe uma virtual potência de decisão em todos os domínios da sociedade. Sabemos, no entanto, que tanta vontade e preparação para fazer mil e uma coisas não passa de tagarelice por várias razões: porque quem chega ao poder governamental tem de se conformar com uma fraca soberania, só pode agir respeitando os poderes formais e informais das instituições europeias, das contingências internacionais do mundo globalizado (as guerras, as crises económicas, os ditames da grande finança mundial, etc.); porque a classe política, por mais que tenha a seu cargo a acção administrativa e gestionária, não consegue realizar o que propõe nos seus discursos porque se confronta com o condicionamento dos poderes burocráticos.


Há uma regra que não devemos esquecer: a política-espectáculo cresce à medida que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que é cada vez menos soberano.

 

Este discurso funciona sob o signo da infantilização. Por todo o lado a política é vista como uma vulgata para crianças retardadas. E as campanhas eleitorais não são mais do que um simulacro. Mas talvez esta seja uma condição benévola: muito pior seria que não se cumprissem os protocolos para salvar as aparências que asseguram, apesar de tudo, alguma estabilidade do sistema.

 

Seria, no entanto, muito interessante saber em que acreditam verdadeiramente os protagonistas políticos, quando já estão fora do jogo eleitoral. Ao contrário do que se passa noutros domínios de actividade, este é um campo onde raramente se pratica o metadiscurso, o desdobramento reflexivo: há um pathos de primeiro grau que sobrevive e se torna duro como pedra em quem ocupou cargos políticos de relevo. Entre nós, Cavaco Silva ilustra com uma rara intensidade expressiva esta persistência do discurso naïf de primeiro grau.

 

Livro de Recitações

“Travar a crise climática não está na mesa de voto

Slogan do movimento máximo

 

Entre as várias razões que tornam inadequado e até contraproducente alguns aspectos do discurso e da acção destes “activistas” (tratarei de analisar em breve esse discurso) está o uso da expressão “crise climática”.

 

É certo que ela chega até nós mediada por muitas instâncias e entrou na linguagem corrente. Mas quem assumiu a missão – louvável e grandiosa – de alertar a opinião pública para este problema e levar os poderes políticos e económicos a agir de modo a interromper uma desastrosa corrida tem de começar por rejeitar a linguagem que neste campo é acriticamente usada e transmitida: a metáfora da “crise”, que até na política e na economia tem muitas vezes um objectivo de ocultação, revela-se pouco certeira para designar as alterações climáticas. As crises são momentos breves no curso das sociedades, correspondem a situações temporárias em que se dá uma perturbação do que antes dela era a normalidade.

 


A saída de uma crise implica, em maior ou menor grau, uma metamorfose. Ora, aquilo que é designado como “crise climática” afecta o receptáculo de todas as nossas actividades, não é uma “crise” particular e localizada.

 

 E, ainda mais importante, a temporalidade dos acontecimentos ambientais não tem nada que ver com a temporalidade das perturbações sociais e políticas que a palavra “crise” designa: trata-se de uma temporalidade que se situa numa escala geológica. 

  

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Francisco Louçã - Se até o Quinto Império não tinha departamento de proteção civil

* Francisco Louçã

Vive Lisboa em pânico, como se os marcianos tivessem desembarcado, mas é a repetição de cheias como em dezenas de anos. Faltou o milagre que, afinal, era só um projeto orçamentado e calendarizado e, claro, nunca concluído. Triste sina, esta de ter autarcas que sabem que podem enganar a sua cidade

13 DEZEMBRO 2022 

Não passa um carro, a cidade entrou em pânico, as escolas meteram água e as crianças e adultos fecharam-se em casa. As autoridades, mais assustadas do que o povo que já viu muito disto, bombardeiam os telemóveis com mensagens apocalípticas, esbracejando uma diligência que faltou quando foi mais necessária e cuja exibição pretende ocultar anos de promessas calculistas e indiferença cínica sobre obras urgentes nunca concluídas ou sequer começadas.

Pela manhã pouco chove, depois das litradas da noite, mas sentimo-nos como se tivesse passado o maremoto de 1755. As televisões emitem em modo de catástrofe, como se Orson Welles tivesse voltado a anunciar a chegada dos marcianos e vamos espreitar a esquina para vermos os disparos dos raios da morte dos sanguinários ocupantes saídos da sua nave reluzente. E, apesar do espetáculo do medo, isto é mesmo uma cheia, pequenina aqui, enorme ali. As águas procuram a sua história e marcham pelos leitos de ribeiras entretanto sepultados em alcatrão, pelo que, sem surpresa, inundam caves e túneis. Como sempre fizeram.

Triste sina esta de viver em Lisboa, a mítica cidade fundada por Ulisses e por onde Ulisses nunca passou, como lembrou com algum sarcasmo Eduardo Lourenço, e onde os autarcas, ministros e demais entidades se sucederam ao longo de décadas anunciando tranquilizantes prazos e engenharias que sabiam inutilmente destinadas a uma gaveta.

Se há um risco de calamidade, aliás comprovada por um longo cadastro de repetições, a melhor solução continua a ser formar uma comissão ou, se se chegar ao ponto da cabeça perdida, prometer uma obra, e assim procederam uns e outros ao longo do tempos. Que usem sempre o mesmo subterfúgio e com os mesmos resultados, já diz tudo sobre a experiência sobrevivente destes autarcas e de como consideram o seu povo, que esperam que seja desmemoriado e aceite o próximo enlevo eleitoral como se não houvesse ontem.

Perante a mesquinhez destas águas, ouve-se a tristeza, fado repetido. Afinal, tudo corre mal: há inundação mas, pior, Portugal perdeu com Marrocos. Ora, está tudo relacionado, como não podia deixar de ser, pelo menos na fantasmagoria: num caso e noutro volta a agitar-se o espectro de Alcácer Quibir, coisa no primeiro caso excessivamente dramática para um só jogo, no segundo deslocado do campo de batalha, mas nem menos por isso revelador de como se enunciam as identidades míticas (e, neste caso, místicas).

A regra é esta: sempre que há fracasso, fala-se da grandeza perdida e da saudade do que não existiu, a culpa é de outro ou, pela certa, das conjugações cósmicas que nos atraiçoam. Mouros e chuvas têm o mesmo lugar nesse pensamento mágico, que é o que resta quando não há mais nada a dizer.

O disfarce que permite estes estratagemas discursivos é somente uma recapitulação do passado. Quando as autoridades não sabem o que fazer, repetem o que sempre fizeram mal; quando não há explicações, prometem o que sempre prometeram. Nada de novo neste sebastianismo serôdio: dizia Lourenço que uma “hiperidentidade” nacional foi constitutiva da projeção fantasmática de um povo que foi chamado de predestinado aos grandes feitos do Império, mas a derrota do rei-menino em Marrocos rompeu esse ciclo desde o seu início e criou desde então uma “não-história”, uma falsificação de si própria disfarçada na crueza da colonização, do tráfico negreiro, da escravatura, conduzindo ao “póstumo” fracasso final. Não continuará a ser assim?

A assombração insepulta desse Quinto Império transmutou-se na nossa contemporaneidade num discurso delirante sobre a carruagem da frente, sobre a glória europeia, sobre a voz forte no concerto das nações, sobre os portugueses “de sucesso”, de banqueiros a governantes, se bem que nem todos conduzindo o seu mister com o maior prestígio. Quem diria então que essa modernidade avançada, tecnologicamente segura, engenhosa e inventiva, desabaria perante uma chuvada, ainda por cima previsível, anunciada, teimosamente repetida e de resultados antecipáveis.

O ciclo do sebastianismo foi “o máximo de existência irrealista que nos foi dado viver; de um máximo de coincidência com o nosso ser profundo, pois esse sebastianismo representa a consciência delirada de uma fraqueza nacional, de uma carência, e essa carência é real”, escrevia Lourenço no “Labirinto da Saudade”. Numa palavra, resumia, estamos sempre à espera do “milagre”. Fraca consolação será agora saber que também no caso deste dia cinzento, o milagre era um projeto aprovado, orçamentado e calendarizado, que ficou enigmaticamente para as calendas, como parece ser uma regra não escrita da gestão das coisas sérias.

https://expresso.pt/opiniao/2022-12-13-Se-ate-o-Quinto-Imperio-nao-tinha-departamento-de-protecao-civil-213bc159


segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Henrique Raposo - Não, não estamos em 1967


* Henrique Raposo

OPINIÃO - 

Em 1967, uma tempestade idêntica à de quinta-feira passada matou 700 pessoas. Ou melhor, o regime assumiu 700 mortos, mas esse número peca por escasso. Aqueles migrantes, portugueses e clandestinos, moravam em barracas ao lado de ribeiras como a de Odivelas e de Frielas e foram levados pelas enxurradas. Centenas de corpos ficaram espalhados nas ruas, entalados entre carros, até na copa das árvores. Reparem: as pessoas subiram às árvores mas morreram afogadas na mesma. Na quinta-feira passada, uma chuvada idêntica só matou uma pessoa. Não digam que Portugal não muda ou que Portugal não evolui, porque isso é errado e sobretudo injusto

Éuma das coisas que mais me irrita: quando alguma coisa negativa rebenta em Portugal (um caso de corrupção ou uma tragédia natural), a atitude de boa parte dos portugueses é esta: “isto só neste país”, “pá, só neste país”. É uma espécie de excepcionalismo ao contrário. O excepcionalismo americano ou francês leva os respetivos indígenas a pensar que as coisas boas só podem acontecer nos EUA ou França. O excepcionalismo português assume o contrário: as coisas más só acontecem em Portugal e “lá fora” só há coisas boas. É como se os outros países não tivessem corrupção, pobreza ou cheias.

Este mecanismo mental não é um pormenor: é um traço cultural que dificulta duas coisas. Primeira: entorpece o debate sobre as reformas do país. Se o país é sempre a choldra, se é geneticamente assim, inferior, decadente, ineficaz, então para quê o esforço, então para quê mudar seja o que for? Este baixo queirosianismo iliba o português de um compromisso sério com a melhoria da sua comunidade.

O segundo efeito está, portanto, à vista: o desapego permanente entre o português e Portugal, que só é interrompido nos picos emocionais do futebol. Em Portugal, parece que só há um superpatriotismo, aliás, um nacionalismo agressivo e místico na altura dos jogos da seleção; no dia a dia, porém, na resolução dos problemas reais do país, esse nacionalismo esvazia-se até à indiferença e as pessoas caem no cinismo do “isto já deu o que tinha a dar”, “este país não muda”. Muda, muda. E muitas vezes muda para melhor.

Em 1967, uma tempestade idêntica à de quinta-feira passada matou 700 pessoas. Ou melhor, o regime assumiu 700 mortos, mas esse número peca por escasso. Aqueles migrantes, portugueses e clandestinos, moravam em barracas ao lado de ribeiras como a de Odivelas e de Frielas e foram levados pelas enxurradas. Centenas de corpos ficaram espalhados nas ruas, entalados entre carros, até na copa das árvores. Reparem: as pessoas subiram às árvores mas morreram afogadas na mesma. Na quinta-feira passada, uma chuvada idêntica só matou uma pessoa. Não digam que Portugal não muda ou que Portugal não evolui, porque isso é errado e sobretudo injusto.

O baixo queirosianismo do “isto é uma choldra” ou “isto já deu o que tinha a dar” revela preguiça e alguma ingratidão por aquilo que se fez no último meio século em Portugal e, repito, iliba as pessoas de uma ação concreta sobre problemas concretos.

12 DEZEMBRO 2022 

https://expresso.pt/opiniao/2022-12-12-Nao-nao-estamos-em-1967-e4d69841


sábado, 26 de novembro de 2022

Viriato Soromenho-Marques - Vosso futuro, nosso inferno

 *   Viriato Soromenho-Marques

OPINIÃO  -  26 Novembro 2022 — 

Muitas opiniões ventiladas na nossa esfera pública, a propósito da luta estudantil contra a devastação ambiental e climática, surpreenderam-me. Não apenas pela gritante ausência de escolaridade sobre os temas em debate, mas pelo atrevimento de transformar a pobreza reflexiva num ato de iliteracia voluntária. Os jovens ativistas de hoje bem podem identificar-se com o Paul Nizan, de Aden Arabie (1931): "Tinha 20 anos. Não deixarei ninguém dizer que é a mais bela idade da vida."

Para perceber a gravidade do que está em causa é útil ler Douglas Rushkoff (DR), no seu mais recente livro: A Sobrevivência dos mais Ricos. Fantasias de Fuga dos Bilionários da Tecnologia (W.W. Norton, 2022). Tudo começou em 2017, quando DR - um professor de teoria dos media e de economia digital, e um dos 10 mais influentes intelectuais da atualidade segundo o MIT - foi convidado, com um tentador honorário equivalente a meio ano de salário, a proferir uma conferência sobre o futuro da tecnologia numa luxuosa e isolada estância. Para surpresa de DR, o público era constituído por apenas 5 grandes investidores de capital de risco, que cercaram o orador com temas fora da agenda do convite. As perguntas prendiam-se com a sua sobrevivência pessoal depois do "evento", o nome dado ao colapso da civilização por causas ambientais, nucleares, tecnológicas, pandémicas, ou pela combinação de todas elas: Qual o melhor sítio para construir um bunker, Alasca ou Nova Zelândia? Como garantir a fidelidade dos guarda-costas, depois do evento? Como impedir as multidões enlouquecidas pelo desespero de assaltarem esses redutos pós-apocalípticos?

Foi esta inquietante reunião que levou DR a estudar o universo mental da elite tecnológica global. O resultado aí está nos 12 capítulos e 224 páginas deste ensaio. Trata-se de uma viagem àquilo que o autor designa por Mindset, uma sinistra gnose partilhada pela elite que governa as dinâmicas da inovação tecnológica: os grandes empresários do mundo digital e os líderes da arquitetura financeira global. Os donos não apenas do dinheiro, mas os engenheiros das mentes, dos mitos e das esperanças, criadas e difundidas pelos intelectuais orgânicos do otimismo tecnológico como ópio para as massas. Os políticos estão ausentes, pois esta narrativa não inclui o pessoal menor. Musk, Bezos, Zuckerberg, Peter Thiel, Ray Kurzweil entre muitos outros ...

A tábua de valores destes super-ricos consiste na idolatria do ego, na crença de que a vida é um jogo de vídeo a vencer, onde as regras de um mercado impiedoso imperam. A condição humana é reduzida a uma galáxia de dados que os algoritmos da IA ajudam a explorar e domesticar. Baniram a prudência ética, pela aposta na tecnologia como instrumento da dominação e nulificação da natureza, capaz de reduzir à obediência voluntária o resto da humanidade, com a qual não sentem qualquer afinidade. À semelhança dos estudantes teenagers que lutam por um futuro habitável, os super-ricos acreditam que vamos rumo ao colapso, mas ao contrário da recusa dos jovens, aceitam-no como o inevitável preço da sua dominação, seguros de salvarem a pele nas centenas de abrigos, brotando como cogumelos, de onde esperam emergir ilesos num planeta esterilizado pela ruína e mega morte. Teríamos aqui um caso a exigir a intervenção dos poderes públicos, caso eles fossem efetivos. Mas, certamente, não contra os estudantes, os derradeiros defensores de uma habitação da Terra onde todos caibam.

Professor universitário

https://www.dn.pt/opiniao/vosso-futuro-nosso-inferno-15387224.html

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Carmo Afonso - Estragaram-se duas sopas de tomate

* Carmo Afonso

Acreditamos na emergência climática? Sim. Estamos dispostos a mudar a nossa vida por causa dela? Não. A atitude perante o descalabro ambiental é absolutamente autodestrutiva.

Ainda pensei que fossem Campbell, as sopas de tomate usadas pelas duas ativistas climáticas, na sexta-feira, no National Gallery em Londres. Poderia ser um ataque da Arte Pop a Van Gogh. Mas não; eram Heinz. O vídeo ficou viral em minutos. Milhares de pessoas expuseram a sua revolta e indignação perante a tentativa de destruição da pintura, “Girassóis”, avaliada em 86 milhões de euros (montante que ouvimos repetidamente).

As ativistas foram duramente criticadas pela sua ação e não sabemos ao certo se sabiam que o quadro estava protegido ou se pretenderam de facto fazer estragos. Ações semelhantes visaram outras obras de arte e é sabido que todos os activistas estavam cientes de que estavam protegidas e que pretendiam apenas chamar a atenção para a causa climática. Há uma forte possibilidade de também ter sido o caso aqui.

O que vale mais, a arte ou a vida?

Esta foi a pergunta formulada pelo movimento a que pertencem e que deveria ser respondida. Na visão do Just Stop Oil, as pessoas valorizam mais a arte e foi isso que as duas activistas tentaram demonstrar. Nesse aspecto, a ação foi um sucesso absoluto. Se tivessem atacado uma pessoa, em vez de um quadro de Van Gogh, esse ataque não teria tanta repercussão.

Têm dúvidas?

Em abril deste ano um ativista climático imolou-se em frente ao Supremo Tribunal, em Washington, e morreu. Chamava-se Wynn Bruce, tinha 50 anos e protestava contra a destruição do planeta. A notícia não mereceu destaque. Talvez poucos se lembrem, ou sequer saibam, que aconteceu. Claro que obras de arte são mais valorizadas que vidas humanas.

Mas não era esse o sentido da pergunta das ativistas. Falavam da vida no planeta e na vida das pessoas na globalidade e era o seu valor que comparavam com o da arte. Mas, também neste sentido, têm razão. A ameaça de dano de uma obra de arte tem mais impacto do que a perspectiva de abismo que os cientistas apontam como sendo a direção que seguimos.
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Activistas do Just Stop Oil atiraram sopa aos Girassóis de Van Gogh e depois colaram-se à parede. A pintura não sofreu estragos. REUTERS,JOANA GONÇALVES

Podemos dizer que danificar uma obra de arte, ou mesmo simular esse dano, não é a forma adequada para fazer passar a mensagem da emergência climática. O que é certo é que ainda ninguém descobriu qual é a fórmula certa para nos sensibilizar para o problema.

Acreditamos na emergência climática? Sim. Estamos dispostos a mudar a nossa vida por causa dela? Não. A atitude perante o descalabro ambiental é absolutamente autodestrutiva. Não vale a pena ir aos exemplos. Sabemos todos que o nosso comodismo egoísta e de curto alcance prevalece sobre a disciplina e o bom senso.

As ativistas tinham mesmo razão. As reações que desencadearam demonstraram-no amplamente. Não queremos ouvir o que têm para dizer e até pode dar-se o caso de serem sacos de vento, como tantos que há por aí, mas não é essa a razão para não as queremos ouvir. Fomos os clássicos velhos de espírito: sentimos muita estima pelo quadro de Van Gogh, que ainda por cima é tão valioso, mas muito pouco pelo próprio planeta. Reagimos em barda, e como cães de Pavlov, à imagem da sopa de tomate derramada na pintura, mas somos incapazes de – mesmo depois de saber que está intacta – perder uns minutos a pensar sobre o que aquelas duas raparigas queriam dizer.

Há outro aspecto importante aqui: é que ninguém gosta de fazer figura de parvo. E estas ativistas também provocaram isso. A generalidade das pessoas que partilharam o vídeo, e que manifestaram as suas críticas à ação das duas jovens, não sabia de todo que o quadro estava protegido. Todos se precipitaram a elaborar relambórios sobre a perda inestimável, a importância da arte e a gravidade do crime. Para nada. A obra estava protegida, como costumam todas estar. As pessoas podem perdoar muitas coisas, mas não que as ponham a fazer figuras destas. Também por isso, as jovens não caíram nas boas graças da opinião pública.

Um ato, que parecia ser radical, foi uma partida. Radical foi Van Gogh quando cortou a própria orelha, radical foi Wynn Bruce e radical é o que a comunidade científica nos diz sobre o futuro da humanidade e do planeta.

As ativistas foram detidas, mas, vamos lá ver, não é que tenham tentado fugir. Pelo contrário, colaram-se à cena do crime. Nem aí se pode encontrar a sua derrota. Ter-lhes-á corrido tudo de feição.

Estragaram-se duas sopas de tomate e as pessoas ficaram muito zangadas. O ativismo climático não marcou pontos junto da opinião pública. Se o objectivo fosse esse, teria falhado. Mas a obra está a salvo, as pessoas zangadas é que não.

Advogada
  17 de Outubro de 2022
https://www.publico.pt/2022/10/17/opiniao/opiniao/estragaramse-duas-sopas-tomate-2024262

domingo, 8 de dezembro de 2019

Helena Matos - As pessoas estúpidas

* Helena Matos
Colunista do Observador

As pessoas estúpidas são tão estúpidas que sustentam uma das mais florescentes indústrias do mundo capitalista: a indústria do viver bem à conta de chamar estúpidos aos outros.

08 dez 2019, 07:49
    
Não sei se a culpa foi do marido de Penélope Cruz gritando “estúpido” na Marcha do Clima, em Madrid, se do marido da filha do dr. Louçã transformado em profeta do apocalipse ambiental. Mas de algum deles foi certamente pois ambos com o seu particular e bem sucedido modo de vida fizeram-me perceber a importância das pessoas estúpidas. Ou seja aquelas pessoas que, com os seus impostos em ordem e desejo de viver em paz e sossego, mantêm a funcionar um sistema que o senhor Bardem e o marido da filha do dr. Louçã declaram abominar.

O genro do dr. Louçã além de ser genro do dr. Louçã, o que em Portugal é uma espécie de posto, é também dirigente de uma associação que se destacou por ter ido com vários deputados e o presidente da CML esperar a embarcação em que viajava, à boleia, uma adolescente que se notabilizou por gritar e faltar à escola. Perante isto as pessoas estúpidas interrogam-se: se não levarem os filhos à escola e os largarem pelas ruas será que os deputados, o presidente da CML, a família Louçã e os activistas do costume deixam de proferir insanidades eco-betas nas docas do Tejo e tentam entrar nos comboios atrasados da linha de Sintra? Isso, dirão os estúpidos, isso sim seria um forte contributo para perceberem porque há quem passe horas enfiado num carro, nas filas do IC19.


Aliás as pessoas estúpidas têm um problema com os transportes. Por exemplo, obstinam-se em viajar, transformando-se então no ex libris da estupidez: o turista. As pessoas inteligentes não são turistas, são viajantes. Os protegidos das pessoas inteligentes são migrantes. Já as pessoas estúpidas quando viajam são turistas obviamente estúpidos que estupidamente destroem o caracter autêntico das cidades. Pelo contrário os viajantes e os migrantes enriquecem as mesmas cidades. Percebido?

Como é óbvio as pessoas estúpidas, certamente porque são estúpidas, não percebem o atrás exposto e também não conhecem gente suficientemente inteligente (leia-se abonada) que possa emprestar-lhes um iate ou um catamarã. Aliás as pessoas mais estúpidas de todas até questionam o que seria dos oceanos se cada um dos estúpidos que agora viaja de avião optasse pelos meios de transporte que os inteligentes dizem sem impacto ambiental. Por exemplo, quantos milhões de catamarãs e iates teríamos a sulcar os mares caso prescindíssemos dos aviões? Ou será que só os inteligentes, milionários como os príncipes do Mónaco e os que poeticamente dizem que resolveram largar tudo e partir à aventura (ou seja vivem à conta da família ou dos patrocinadores) é que viajavam?

Como se vê as pessoas estúpidas perdem-se nos detalhes. Aliás as pessoas estúpidas são tão estúpidas que não percebem como os mesmos políticos que falharam rotundamente quando, nos incêndios de 2017, o país viveu uma situação de emergência se propõem agora resolver nada mais nada menos que a emergência climática do planeta. Valha a verdade, e contra nós portugueses falo, se nos fiarmos no percurso do engenheiro Guterres, temos de admitir que é mais fácil ser bem sucedido a mandar no planeta que neste seu modesto rectângulo! É evidente que as idiossincrasias nacionais levam a que as nossas pessoas estúpidas sejam ainda mais estúpidas que as demais. Por exemplo, perante a magnitude do conceito da justiça climática qualquer estúpido português dirá que aquilo que ele queria mesmo era uma justiça que funcionasse em prazos e moldes humanamente razoáveis. Isto para não falar da desordem mental que alguns estúpidos experimentam quando constatam que o mesmo país, Portugal, que segue com entusiasmo militante as sessões do inquérito ao presidente dos EUA aceitou em silêncio que o presidente da república e o primeiro-ministro de Portugal não fossem interrogados a propósito do desaparecimento/achamento das armas de Tancos porque isso pertubaria o desempenho das suas altas funções.

Está percebida a dimensão estratosférica da nossa estupidez?

As pessoas estúpidas são insensíveis aos altos voos e aos avanços civilizacionais. Por exemplo, as pessoas estúpidas não compreendem como é possível que com a Segurança Social à beira da falência o país tenha agora como desígnio não a resolução desse enorme problema mas sim a criação de um problema que nunca teve: as regiões e a regionalização.

Uma das grandes dificuldades das pessoas estúpidas resulta da sua mania de tomar tudo à letra. Por exemplo, as pessoas estúpidas acreditam que desde Novembro de 2015, o Tribunal Constitucional, os reitores indignados, os bispos agitados e os empresários compungidos entraram para a lista das espécies ameaçadas de extinção. Porquê? Porque paulatinamente têm vindo a escassear os sinais da sua outrora espalhafatosa existência.

Às pessoas estúpidas também lhes escapa a dialéctica subjacente ao facto de o mesmo governo querer às segundas, quartas e sextas construir um aeroporto no Montijo e urbanizar os terrenos da antiga Lisnave e às terças quintas e sábados pretender que as alterações climáticas vão fazer subir o nível das águas do estuário e consequentemente inundar os mesmos terrenos que no dia anterior pretendia urbanizar. Mas não acaba aqui a estupidez emanada pelas pessoas estúpidas. Por exemplo, é de uma tacanhez profunda que as pessoas estúpidas não só não percebam mas sobretudo insistam em chamar a atenção para o facto, paradoxal dizem eles, de os maiores defensores das escolas públicas e dos hospitais públicos, tratarem de não os frequentar nem eles nem os seus filhos.

“Que mude o sistema, não o clima” – gritava-se na Marcha do Clima, em Madrid, a tal marcha em que Bardem, um daqueles actores espanhóis com muito pedigree esquerdista que se mudou para os EUA para enriquecer a sério, resolveu prodigalizar o epíteto estúpido a todo e qualquer que não pense como ele.

De facto as pessoas estúpidas são mesmo estúpidas. Há quanto tempo têm de aturar esta conversa do “mudar o sistema”? Está mais ou menos implícito que todos temos de querer mudar o sistema, entendendo-se por sistema as democracias liberais. A quem quer mudar o sistema não se lhe pede um programa ou reflexões. Apenas emoções e de preferência algum mistério. Num ápice os jornais enchem-se de artigos hagiográficos sobre a figura de turno. Ainda se lembram do subcomandante Marcos com o seu rosto tapado que nos ia ensinar novas formas de organização do estado, ou seja do sistema? Quanto mais ignorante ou tresloucado for o candidato a guru da mudança do sistema maior a possibilidade do seu sucesso. Uma constante do nosso sistema é precisamente a disponibilidade das pessoas que se têm e são tidas como inteligentes para apoiar os projectos mais desequilibrados e os líderes mais perversos. Basta que acreditem que vão mudar o sistema e ei-los nas ruas, com aquele ar beatífico de quem se considera do lados dos bons.

Vale aos fiéis seguidores de Greta Thunberg que esta não passa de uma adolescente mimada e que o capitalismo inventou os telemóveis, caso contrário acabariam prisioneiros numa aparentemente perfeita comunidade agrícola, como aconteceu há 41 anos aos desgraçados que seguiram um dos ídolos do progressismo de então, Jim Jones.

Mas deixemos as pessoas inteligentes e voltemos às estúpidas. Contra tudo e todos, as pessoas estúpidas existem e estão fartas de tanto avanço civilizacional, de tanto combate e de tanta mudança radical. As pessoas estúpidas querem simplesmente que quem governa governe e não invente manobras de diversão. Pode parecer estúpido mas valia a pena tentar, digo eu.

As pessoas estúpidas querem recuperar a naturalidade dos gestos. Querem comprar uma camisola este Natal sem ter de pensar em todos os dramas do mundo. Querem que comer seja simplesmente comer e não um manifesto em prol da saúde, do ambiente e do comércio um pouco justo ou muito injusto. As pessoas estúpidas querem levar os filhos e os netos ao Jardim Zoológico sem antes terem de fazer mea culpa.

As pessoas estúpidas querem poder amar e desamar sem o medo dessa espécie de ébola das relações e das palavras que é o politicamente correcto.

As pessoas estúpidas às vezes cansam-se. De ser estúpidas? Não. Apenas que não contem com elas. Afinal se a comprovada inteligência de gente comprovadamente inteligente nos trouxe à farsa desta semana em torno de Greta Thundberg é evidente que chegou o momento de dar a vez aos estúpidos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Meio Ambiente & Geopolítico

por Eron Bezerra*
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O Instituto Mauricio Grabois -IMG e o Partido Comunista do Brasil - PCdoB, através da Secretaria Nacional de Meio Ambiente, acabam de realizar um seminário para tratar da questão do meio ambiente e as suas implicações ecológicas e geopolíticas.


A realização do evento, por si só, já é digna de registro. Demonstra uma prática política contemporânea, de debater os grandes temas, tanto dos de natureza essencialmente teóricos quanto os temas que polemizam e antagonizam as variadas correntes de pensamento.


O evento foi aberto pelo Presidente Nacional do PCdoB, Renato Rabelo, pelo Secretário Nacional de Meio Ambiente, Aldo Arantes, e pelo Presidente do IMG, Adalberto Monteiro, que situaram as pretensões e os limites daquele debate, alertando especialmente para as implicações ideológicas que esse debate enseja.


As mesas que se sucederam trataram do marxismo e meio ambiente, do aquecimento global e de Amazônia e Biodiesel.


Nossa modesta contribuição, numa mesa com o Professor Enio Candoti e o ilustre Presidente da ANP, Haroldo Lima, foi sobre o caráter ideológico desse debate, destacando que ela se insere dentro de uma estratégia global do imperialismo.


Do ponto de vista teórico iniciei sublinhando que “na natureza, como na sociedade, todos os fenômenos estão interligados, interconectados e são interdependentes”, de onde se conclui que não há desenvolvimento sem sustentabilidade e nem sustentabilidade sem desenvolvimento.


A sustentabilidade ambiental, portanto, é uma exigência produtiva e não um mero capricho ecológico. Mas não se pode ter ilusões quanto ao seu uso ideológico. Muitos atores esgrimam a questão ambiental por mera motivação geopolítica.


Para os países imperialistas a questão ambiental é predominantemente ideológica. Faz parte de toda uma tática, usada ao longo dos tempos, como forma de se assenhorear de áreas que eles entendem como reservas estratégicas de recursos naturais, como a Amazônia, por exemplo. O imperialismo já utilizou o militarismo, a ciência, a teoria do arrendamento, a economia, a “defesa” dos povos indígenas e, atualmente, o ambientalismo.


Assim, a negativa de utilização do espaço amazônico não está associada, necessariamente, a questões ambientais. Expressa, na maioria dos casos, um posicionamento ideológico, assentado na concepção “santuarista”, que entende a Amazônia como “patrimônio da humanidade”.


Da “Companhia Comercial Londrina” (1832) até a recente declaração do presidente alemão, Horst Kohler (2007), defendendo a gestão compartilhada de nossas florestas, a Amazônia sempre foi vista como reserva estratégica do imperialismo.


Quanto a polemica em si, se há ou não aquecimento global, a mim parece resolvido. O mundo aquece e, talvez, tenda a aquecer ainda mais. O que não há unanimidade é quanto às causas que levaram a esse aquecimento. Enquanto o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) sustenta que o aquecimento decorre da emissão de CO2, dezenas de outros pesquisadores argumentam que o aquecimento decorre da própria mutação solar. É uma polêmica que promete.


Mas, igualmente importante, é saber quem polui. O mundo, com seus 6,5 bilhões de habitantes, produzem 49 bilhões de toneladas de CO2 por ano, com uma média de 7,5 tonelada/habitante. Um americano ou europeu é responsável por uma média de 17 toneladas dessa poluição, enquanto brasileiro ou chinês responde por menos de 03 toneladas.



Mesmo assim os “ricos” exigem, para reduzirem suas emissões, que os países em “desenvolvimento”, especialmente Brasil e China, reduzam na mesma proporção. Em verdade não querem é competidores. O encontro do G8, recém concluído na Alemanha, remeteu para até 2050 a data limite para que os países ricos adotem medidas para reduzirem em 50% suas emissões de CO2, o que evidencia o descompromisso desses países com a questão ambiental.


A pressão sobre a Amazônia em particular é claramente de natureza geopolítica. Considerando que a Amazônia “queime” 1 milhão de hectares por ano ela seria responsável por uma emissão de 100 milhões de toneladas de CO2 (0,2% da emissão total). Sua floresta, entretanto, seqüestra algo como 350 milhões de toneladas de CO2. O saldo é de 250 milhões de toneladas de CO2. Significa que a Amazônia limpa e não polui o meio ambiente como de maneira geral nós somos levados a acreditar pela propaganda unilateral. Em boa parte essa propaganda é estimulada pelo unilateralismo dos financiadores de projetos de caráter ambiental na Amazônia. Como regra, bancada por capital estrangeiro.


É possível usar a Amazônia com sustentabilidade, especialmente pelos seus diversos biomas. A Amazônia pode ser desde uma grande produtora de alimentos a partir dos milhões de hectares de várzea que possui até um grande centro de biotecnologia, em decorrência de sua extraordinária biodiversidade. Pode, também, fornecer peixe para o mundo, suprir boa parte de nossa dependência energética, gerar milhares de reais com a atividade turística e, inclusive, reflorestar boa parte de suas áreas degradadas com o dendê e substituir usinas a diesel por biodiesel. As alternativas são várias e, creio, o seminário ajudou a abrir essa polêmica.




*Eron Bezerra, Engenheiro Agrônomo, Professor da UFAM, Deputado Estadual Licenciado, Secretário de Agricultura do Estado do Amazonas, Membro do CC do PCdoB.


* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho - 15 DE ABRIL DE 2008 - 20h10
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