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domingo, 10 de março de 2024

António Guerreiro – As sondagens: modo de usar

 CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

* António Guerreiro

 7 de Março de 2024 

 

A política-espectáculo cresce à medida que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que é cada vez menos soberano.

 

Um dos slogans inventados no Maio de 68, às vezes recordado como uma peça de arqueologia revolucionária, como muitos outros surgidos nesse tempo, desdenhava alegremente do acto essencial da afirmação da democracia: “Élections, piège à cons”. Traduzido em português nunca funcionaria porque perde a rima e o ritmo prosódico: “Eleições, armadilha para imbecis”.

 

Actualmente, não existe no espectro político nenhum extremo que ouse pôr em causa o formalismo democrático do voto. “Porquê votar?” não é pergunta que hoje se faça publicamente e com um alcance político programático. Em contrapartida, tem aumentado incessantemente os que se interrogam – “Em quem votar?” – até ao momento de colocar a cruz no boletim e os que, incapazes de decidir, engrossam as fileiras dos abstencionistas.

 

Os “indecisos” tornaram-se uma categoria decisiva. Por isso é que as sondagens, outrora tão fiáveis, se tornaram um deficiente instrumento de medição do resultado final. Podemos pressentir que se deu um fenómeno de inversão ou de reversibilidade: as sondagens, que dantes calculavam com precisão as intenções de voto sem interferir nelas de maneira significativa, tornaram-se um elemento que determina, em última instância, a escolha do eleitor. O eleitor informado toma as sondagens para calcular o sentido do seu voto.

 

Evidentemente, isso deu-se à medida que se multiplicaram as sondagens pré-eleitorais e que os cidadãos aprenderam a lê-las e a avaliá-las na sua dimensão performativa, isto é, enquanto acção pragmática. Mas tal aconteceu porque aumentou o voto estratégico que oscila em função das configurações da paisagem eleitoral, das posições dos partidos nos rankings. Isto significa que as sondagens, através deste processo de retroacção, entram ilegitimamente no jogo eleitoral? Se elas, afinal, são um instrumento do cálculo do eleitor e não a sua instrumentalização, então não devemos tirar essa conclusão. O problema está noutro lado: na modalidade do discurso político que engendrou este cidadão-termostato cuja acção é profundamente uma reacção.

 

Vivemos colectivamente (refiro-me ao espaço público mediático), durante estas últimas semanas, sob o primado da política dos políticos e da política dos media. A cena política, em momentos como este, transforma-se numa arena onde cada um exibe uma virtual potência de decisão em todos os domínios da sociedade. Sabemos, no entanto, que tanta vontade e preparação para fazer mil e uma coisas não passa de tagarelice por várias razões: porque quem chega ao poder governamental tem de se conformar com uma fraca soberania, só pode agir respeitando os poderes formais e informais das instituições europeias, das contingências internacionais do mundo globalizado (as guerras, as crises económicas, os ditames da grande finança mundial, etc.); porque a classe política, por mais que tenha a seu cargo a acção administrativa e gestionária, não consegue realizar o que propõe nos seus discursos porque se confronta com o condicionamento dos poderes burocráticos.


Há uma regra que não devemos esquecer: a política-espectáculo cresce à medida que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que é cada vez menos soberano.

 

Este discurso funciona sob o signo da infantilização. Por todo o lado a política é vista como uma vulgata para crianças retardadas. E as campanhas eleitorais não são mais do que um simulacro. Mas talvez esta seja uma condição benévola: muito pior seria que não se cumprissem os protocolos para salvar as aparências que asseguram, apesar de tudo, alguma estabilidade do sistema.

 

Seria, no entanto, muito interessante saber em que acreditam verdadeiramente os protagonistas políticos, quando já estão fora do jogo eleitoral. Ao contrário do que se passa noutros domínios de actividade, este é um campo onde raramente se pratica o metadiscurso, o desdobramento reflexivo: há um pathos de primeiro grau que sobrevive e se torna duro como pedra em quem ocupou cargos políticos de relevo. Entre nós, Cavaco Silva ilustra com uma rara intensidade expressiva esta persistência do discurso naïf de primeiro grau.

 

Livro de Recitações

“Travar a crise climática não está na mesa de voto

Slogan do movimento máximo

 

Entre as várias razões que tornam inadequado e até contraproducente alguns aspectos do discurso e da acção destes “activistas” (tratarei de analisar em breve esse discurso) está o uso da expressão “crise climática”.

 

É certo que ela chega até nós mediada por muitas instâncias e entrou na linguagem corrente. Mas quem assumiu a missão – louvável e grandiosa – de alertar a opinião pública para este problema e levar os poderes políticos e económicos a agir de modo a interromper uma desastrosa corrida tem de começar por rejeitar a linguagem que neste campo é acriticamente usada e transmitida: a metáfora da “crise”, que até na política e na economia tem muitas vezes um objectivo de ocultação, revela-se pouco certeira para designar as alterações climáticas. As crises são momentos breves no curso das sociedades, correspondem a situações temporárias em que se dá uma perturbação do que antes dela era a normalidade.

 


A saída de uma crise implica, em maior ou menor grau, uma metamorfose. Ora, aquilo que é designado como “crise climática” afecta o receptáculo de todas as nossas actividades, não é uma “crise” particular e localizada.

 

 E, ainda mais importante, a temporalidade dos acontecimentos ambientais não tem nada que ver com a temporalidade das perturbações sociais e políticas que a palavra “crise” designa: trata-se de uma temporalidade que se situa numa escala geológica. 

  

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Carmo Afonso - Estragaram-se duas sopas de tomate

* Carmo Afonso

Acreditamos na emergência climática? Sim. Estamos dispostos a mudar a nossa vida por causa dela? Não. A atitude perante o descalabro ambiental é absolutamente autodestrutiva.

Ainda pensei que fossem Campbell, as sopas de tomate usadas pelas duas ativistas climáticas, na sexta-feira, no National Gallery em Londres. Poderia ser um ataque da Arte Pop a Van Gogh. Mas não; eram Heinz. O vídeo ficou viral em minutos. Milhares de pessoas expuseram a sua revolta e indignação perante a tentativa de destruição da pintura, “Girassóis”, avaliada em 86 milhões de euros (montante que ouvimos repetidamente).

As ativistas foram duramente criticadas pela sua ação e não sabemos ao certo se sabiam que o quadro estava protegido ou se pretenderam de facto fazer estragos. Ações semelhantes visaram outras obras de arte e é sabido que todos os activistas estavam cientes de que estavam protegidas e que pretendiam apenas chamar a atenção para a causa climática. Há uma forte possibilidade de também ter sido o caso aqui.

O que vale mais, a arte ou a vida?

Esta foi a pergunta formulada pelo movimento a que pertencem e que deveria ser respondida. Na visão do Just Stop Oil, as pessoas valorizam mais a arte e foi isso que as duas activistas tentaram demonstrar. Nesse aspecto, a ação foi um sucesso absoluto. Se tivessem atacado uma pessoa, em vez de um quadro de Van Gogh, esse ataque não teria tanta repercussão.

Têm dúvidas?

Em abril deste ano um ativista climático imolou-se em frente ao Supremo Tribunal, em Washington, e morreu. Chamava-se Wynn Bruce, tinha 50 anos e protestava contra a destruição do planeta. A notícia não mereceu destaque. Talvez poucos se lembrem, ou sequer saibam, que aconteceu. Claro que obras de arte são mais valorizadas que vidas humanas.

Mas não era esse o sentido da pergunta das ativistas. Falavam da vida no planeta e na vida das pessoas na globalidade e era o seu valor que comparavam com o da arte. Mas, também neste sentido, têm razão. A ameaça de dano de uma obra de arte tem mais impacto do que a perspectiva de abismo que os cientistas apontam como sendo a direção que seguimos.
i-video

Activistas do Just Stop Oil atiraram sopa aos Girassóis de Van Gogh e depois colaram-se à parede. A pintura não sofreu estragos. REUTERS,JOANA GONÇALVES

Podemos dizer que danificar uma obra de arte, ou mesmo simular esse dano, não é a forma adequada para fazer passar a mensagem da emergência climática. O que é certo é que ainda ninguém descobriu qual é a fórmula certa para nos sensibilizar para o problema.

Acreditamos na emergência climática? Sim. Estamos dispostos a mudar a nossa vida por causa dela? Não. A atitude perante o descalabro ambiental é absolutamente autodestrutiva. Não vale a pena ir aos exemplos. Sabemos todos que o nosso comodismo egoísta e de curto alcance prevalece sobre a disciplina e o bom senso.

As ativistas tinham mesmo razão. As reações que desencadearam demonstraram-no amplamente. Não queremos ouvir o que têm para dizer e até pode dar-se o caso de serem sacos de vento, como tantos que há por aí, mas não é essa a razão para não as queremos ouvir. Fomos os clássicos velhos de espírito: sentimos muita estima pelo quadro de Van Gogh, que ainda por cima é tão valioso, mas muito pouco pelo próprio planeta. Reagimos em barda, e como cães de Pavlov, à imagem da sopa de tomate derramada na pintura, mas somos incapazes de – mesmo depois de saber que está intacta – perder uns minutos a pensar sobre o que aquelas duas raparigas queriam dizer.

Há outro aspecto importante aqui: é que ninguém gosta de fazer figura de parvo. E estas ativistas também provocaram isso. A generalidade das pessoas que partilharam o vídeo, e que manifestaram as suas críticas à ação das duas jovens, não sabia de todo que o quadro estava protegido. Todos se precipitaram a elaborar relambórios sobre a perda inestimável, a importância da arte e a gravidade do crime. Para nada. A obra estava protegida, como costumam todas estar. As pessoas podem perdoar muitas coisas, mas não que as ponham a fazer figuras destas. Também por isso, as jovens não caíram nas boas graças da opinião pública.

Um ato, que parecia ser radical, foi uma partida. Radical foi Van Gogh quando cortou a própria orelha, radical foi Wynn Bruce e radical é o que a comunidade científica nos diz sobre o futuro da humanidade e do planeta.

As ativistas foram detidas, mas, vamos lá ver, não é que tenham tentado fugir. Pelo contrário, colaram-se à cena do crime. Nem aí se pode encontrar a sua derrota. Ter-lhes-á corrido tudo de feição.

Estragaram-se duas sopas de tomate e as pessoas ficaram muito zangadas. O ativismo climático não marcou pontos junto da opinião pública. Se o objectivo fosse esse, teria falhado. Mas a obra está a salvo, as pessoas zangadas é que não.

Advogada
  17 de Outubro de 2022
https://www.publico.pt/2022/10/17/opiniao/opiniao/estragaramse-duas-sopas-tomate-2024262

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Daniel Oliveira - Rodrigues dos Santos vs Ljubomir: da vergonha alheia ao insulto à democracia

OPINIÃO -  Rodrigues dos Santos vs Ljubomir: da vergonha alheia ao insulto à democracia -  03.12.2020 às 8h51  -  DANIEL OLIVEIRA

Ljubomir Stanisic dirigiu-se nestes termos a Francisco Rodrigues dos Santos: “Se voltares a falar de um partido, vou ter de te pedir para saíres. Não há partidos, querido. Votámos na Assembleia, é nossa. Já não conseguimos ouvir falar de partidos, é que ninguém está a apoiar-nos. Eu nem sei de que partido tu és.” O líder do CDS, que disse estar ali como cidadão, assentiu de cabeça baixa. Depois da vergonha alheia, senti-me ofendido. Quem quer ser ouvido, ouve. Quem quer ser respeitado, respeita. Mesmo quando tem pela frente um político que baixa a cabeça. Um político nunca deve ter vergonha de ser político. Se o for com orgulho, engrandece-o

Antes de avançar neste texto, quero dizer três coisas: que compreendo a situação dramática que vive toda a restauração; que simpatizo com parte das suas reivindicações e considero outras impossíveis de responder pelo Estado; e que compreendo que o Governo decida não receber nove empresários, mas apenas organizações que representam o sector. Sei que está na moda a inorganicidade, excelente para todo o tipo de oportunidades e oportunismos, mas um governo não pode negociar com dez milhões de pessoas. É também por isso que a sociedade civil se organiza em associações e sindicatos. Abrir este precedente seria alimentar uma farsa.

Vários políticos, do Chega ao Bloco de Esquerda, têm aparecido nos protestos da restauração. Não acho que isso seja uma forma de aproveitamento político. Faz parte da relação que os partidos mantêm com a sociedade. Claro que é preciso saber fazê-lo. Um líder partidário com experiência política fá-lo com as devidas cautelas, tentando saber previamente como será recebida a sua presença. Para não insultar os que protestam com ela e para não ser insultado de volta. Sobretudo se leva com ele a comunicação social.

No último feriado, Francisco Rodrigues dos Santos foi visitar os empresários da restauração que estão em greve de fome em frente ao Parlamento. Para além de ter atribuído a Agustina Bessa-Luís um poema de Sophia de Mello Breyner – o risco do citador compulsivo que não é leitor compulsivo é o de tropeçar na fraude que alimenta –, o líder do CDS participou num dos momentos mais constrangedores em que alguma vez um líder partidário se viu envolvido.

De fato e gravata num feriado, com outros dirigentes do CDS e a comunicação social atrás, explicou que não estava ali como líder partidário, mas como cidadão. Uma mentira tão óbvia que só poderia correr mal. Depois, sentado com os empresários, criticou o “emplastro” (André Ventura) que se tentou colar à manifestação. A reação não foi boa: “estás a falar como um político”, disse o chef e empresário Ljubomir Stanisic, como se lançasse um insulto. Como há de falar um político? Francisco Rodrigues dos Santos não percebeu logo que aquilo só lhe podia correr mal. E continuou, como cidadão, a falar das propostas do CDS. Até que Ljubomir se dirigiu a ele nestes termos: “Se voltares a falar de um partido vou ter de te pedir para saíres. Não há partidos, querido. Estamos aqui humanamente. Acredita, por favor, respeita-nos como cidadãos. Votámos na Assembleia, é nossa. Já não conseguimos ouvir falar de partidos, é que ninguém está a apoiar-nos. Eu nem sei de que partido tu és.” A tudo isto, o líder do CDS assentiu, obedientemente, de cabeça baixa.

A primeira coisa a dizer sobre isto é óbvia: não é “emplastro” quem quer, é quem sabe. O líder do CDS achou que podia fingir que era um simples cidadão e participou numa cena humilhante. A segunda tem a ver com a primeira: um político nunca deve ter vergonha de ser político. Nunca vai a um acontecimento político como cidadão. Ser político, se o for com orgulho, não o diminui, engrandece-o. Assumir a menoridade da política é ceder.

Depois de ver o vídeo captado por um canal de televisão, fui matutando na vergonha alheia. E cresceu em mim, depois da pena, um sentimento profundo de ofensa. Pela forma como o líder de um dos partidos que fundou a democracia baixou os olhos perante alguém que o tratava condescendente por “querido” e ameaçava mandá-lo embora se ele voltasse a falar do partido que dirige. Como se liderar um partido fosse uma coisa suja. E, no entanto, ao contrário de Ljubomir, Francisco Rodrigues dos Santos foi escolhido por alguém para liderar alguma coisa.

Fui ouvir de novo aquelas frases absurdas Ljubomir Stanisic. Estava em frente a um Parlamento, onde a representação dos cidadãos se faz por via dos partidos, mas não queria ouvir falar de partidos. Quer que os políticos o ouçam, mas quer que não sejam políticos quando falam. Diz que ninguém faz nada por eles mas recusa-se a ouvir o que um líder de um partido acha que deve ser feito por eles. Quer ser reconhecido como representante de um protesto mas não quer saber que partido representa a pessoa que está à sua frente. Subitamente, e Deus saberá como isso é uma impossibilidade, senti-me no lugar daquele político trapalhão. Aquele empresário, que diz que fomos “nós” (e isto inclui-me a mim, por isso falava em meu nome) “votámos na Assembleia”, despreza de forma ostensiva aqueles que nós todos (e não apenas eles) elegemos. Mesmo não sendo deputado, Francisco Rodrigues dos Santos lidera um partido com deputados. Ljubomir pode nem querer saber quem é aquela pessoa. E, não primando pela boa educação e respeito pelos outros, pode tratá-lo como se fosse um badameco. Mas não pode fazê-lo em nosso nome, os que “votámos nesta Assembleia”. Isso eu não admito.

O problema destes movimentos inorgânicos não é valerem menos do que a ação organizada de trabalhadores, empresários ou qualquer outra coisa. É, sem qualquer forma de eleição, escrutínio ou representatividade, julgarem que valem mais. Nada disto reduz a minha solidariedade com os dramas que se vive na restauração e com algumas das suas exigências. Mas sempre que, no meio deles, aparece alguém que insulta a democracia, eu próprio me sinto insultado. Quem quer ser ouvido, ouve. Quem quer ser respeitado, respeita. Mesmo quando tem pela frente um político que não se dá ao respeito e baixa a cabeça em vez de se levantar e sair. Políticos que acham que servem para ser sacos de pancada estão destinados a ser saco de pancada. Mas fazem mal à democracia.


terça-feira, 5 de maio de 2020

José Diogo Quintela - A desconfina flor


* José Diogo Quintela

Bizarramente os meus compatriotas optaram por fazer fila em cabeleireiros e barbearias em vez de se dirigirem, como eu, à sede da CGTP. Um processo de filiação que vale bem mais que um corte de cabelo
05 mai 2020, 00:1025

Como todos os portugueses que passaram as últimas semanas em quarentena, saí ontem de manhã preparado para enfrentar as bichas à porta do sítio onde toda a gente queria ir depois de quase dois meses de confinamento.

Bizarramente, ao chegar lá, não tinha ninguém à frente. Os meus compatriotas optaram por fazer fila em cabeleireiros e barbearias, em vez de se dirigirem, como eu, à sede da CGTP. Um processo de filiação que vale muito mais que um corte de cabelo. A trunfa espera bem mais dois ou três dias, eu já estou treinado a não olhar para espelhos. Mesmo importante é não perder os benefícios de pertencer à Intersindical. Nunca se sabe se não volta o Estado de Emergência. Prefiro ser um guedelhudo e passear por onde me apetece, do que um penteadinho que tem de cumprir escrupulosamente todas as regras do isolamento social.

Obviamente, o segundo local onde me dirigi foi ao médico. Depois de 52 dias em casa com uma mulher, 4 crianças e um cão, fui a um o otorrinolaringologista. Neste momento, estou surdo e não consigo falar sem ser aos berros. Sinto-me como um idoso que é capataz numa serração. Que opera dentro de um Hércules C-130. Onde estão a tocar os Moonspell. Com a Dulce Pontes como convidada especial.

O curioso é que, cá em casa, não notámos que estávamos a gritar muito uns com os outros. Só nos apercebemos no dia em que a polícia veio avisar que não podíamos fazer uma festa àquela hora da noite, quando eu só estava a embalar o meu filho com uma canção e umas palmadinhas na fralda.

(Por falar no bebé, tenho pena que, apesar do que a Ministra da Saúde disse, a Igreja mantenha o plano de festejar o 13 de Maio sem peregrinos, por causa do coronavírus – ou seja, desta feita, em vez de trazer pessoas a Fátima, um ser invisível afasta pessoas de Fátima. É que gostava de lá ir prestar homenagem. Nesta quarentena, desenvolvi uma admiração especial por Nossa Senhora. Também ela criou um filho que não tinha crianças com quem brincar. Maria, por causa de Herodes, que mandou matar todos os bebés até dois anos. Eu, por causa desta quarentena que tirou o miúdo da creche e me obriga a passar as 24 horas do dia com ele.

Não aconselho, aturar um pirralho que não tem amiguinhos da sua idade com quem se entreter. É que o meu filho está mesmo a imitar Jesus. Julga que eu sou Deus, porque parece achar que a minha paciência é infinita. E, de certa forma, também transforma água em vinho: desde que fiquei confinado com ele, é raro não estar com um copo de tinto na mão).

Apesar dos gritos, não se julgue que a quarentena foi um mau período familiar. Pelo contrário. Acho que tanto tempo juntos, ainda mais do que o costume, fortaleceu as relações entre todos. Especialmente, devo dizer com surpresa, a minha relação conjugal. Sinto que saímos deste período com um casamento ainda mais sólido. Na adversidade, conseguimos desenvolver uma cumplicidade que está ao alcance de poucos casais. No início, foi difícil. Qualquer coisa que um de nós dizia servia para iniciar uma discussão.

– O que vai ser o jantar?
– “O que vai ser o jantar?”, não é?
– Sim, qual é o problema?
– Podias perfeitamente ter perguntado “o que é o jantar?”, mas tinhas de enfatizar que é no futuro, não é? “O que vai ser”. Vai ser, porque esta preguiçosa ainda não fez nada. Se calhar nem vai fazer, a calona.
– Mas interessa a forma como eu conjugo?
– Ah! “Eu com jugo”! Lá está o menino a fazer-se de vítima. Tem uma canga pendurada, é?
– Não foi nada disso que eu disse.
– Fui eu que ouvi mal. Sou surda, querem ver?
– Não és nada surda.
– Então sou mentirosa. É isso?

Depressa percebemos que assim não íamos durar muito. E, ao longo das semanas, evoluímos. Deixámos de discutir por qualquer coisa que alguém dissesse. Começámos a entendermo-nos, já sabíamos o que o outro estava a pensar. De maneira que passámos a discutir quando ninguém dizia nada.

– O que foi isto?
– Eu não disse nada.
– Não disseste, mas a tua barriga fez barulho. Aí, a roncar de fome, como quem pergunta “o que é que vai ser o jantar?” “O que vai ser”, não é?

sábado, 16 de novembro de 2019

JPP - Ó homem, os cajados são para suportar o corpo na idade e nas inclinações das serras!



José Pacheco Pereira

OPINIÃO

É nestas alturas que eu tenho muitas saudades de Mário Soares, porque estou a vê-lo sair do carro sem hesitação e dirigir-se aos manifestantes.
16 de Novembro de 2019, 6:03

Um secretário de Estado, responsável por uma história pouco esclarecida a propósito das concessões mineiras do lítio, foi a um dos locais onde é suposto ir haver as ditas minas. Foi a Boticas, e escolheu muito mal a terra, por razões que adiante se verão.

Chegou lá e havia um ajuntamento hostil à sua espera. O homem encolheu-se e voltou para trás. Chamou a GNR e voltou lá de novo, pensando certamente que a protecção dos guardas metia medo aos habitantes de Boticas. Não meteu medo nenhum, e ele nem saiu do carro, encolheu-se de novo, retirou-se, para depois fazer a habitual acusação de que estavam lá pessoas de Montalegre, que convinha dizer-lhe que é um pouco mais acima.

É nestas alturas que eu tenho muitas saudades de Mário Soares, porque estou a vê-lo sair do carro sem hesitação e dirigir-se aos manifestantes. Posso falar à vontade, porque já me aconteceu coisa semelhante e posso dizer-vos que, após um momento tenso, o PSD que estava “proibido”, por umas milícias justiceiras de entrar numa terra de Aveiro, entrou solitário e acabou por ganhar as eleições. Está na imprensa da época. Mas, pelos vistos, a escola de Soares está em desuso.

Eu conheço bem Boticas, onde dei aulas, naquela diáspora que os professores tinham que fazer. E foi um daqueles tempos que nunca esquecem. Aprendi muito sobre a natureza, a mesma natureza que as minas agora ameaçam. Aluguei uma casa na aldeia de Pinho, e lembro-me de que tinha havido um grande incêndio entre Boticas e Pinho, estando tudo enegrecido. Aprendi como o negro “comia” a luz dos faróis. Aprendi também o que era ter uma nuvem no andar térreo, onde havia a arrecadação da lenha, e o primeiro andar da habitação de onde, na varanda, se via um sol luminoso e quilómetros de serra. Descia-se e era nevoeiro cerrado, meia dúzia de metros abaixo. E o frio que fazia brilhar uma paisagem imaculada, que ia do Barroso até Vidago, onde começava outro mundo.

Havia também outra natureza que se aprendia. Uma vez, o então chefe de secretaria da escola, que era retornado, perguntou-se se eu não tinha medo de morar sozinho numa casa isolada na montanha. Eu disse-lhe que não, não era zona de lobos, e que a minha única preocupação eram cães vadios, e à beira da cama tinha uma caçadeira, por isso estava confortável. “Não, não era disso. Eu queria saber se não tinha medo do Diabo”. E depois contou-me que uma vez o Diabo lhe tinha puxado os cobertores da cama. Bom, com o Diabo não havia muito a fazer. E havia os meus jovens alunos que vinham das aldeias da serra com uma espécie de pistola de madeira e fulminantes para assustar os lobos e que pediam autorização para escrever na “coroa” da página. E um padre que parecia saído de um livro de Aquilino, com quem almoçava num restaurante sobre o qual Ferreira de Castro tinha escrito, e que me dizia que quando as mulheres lhe pediam para as abençoar a elas e aos bois, lhes dizia “vade retro mulieribus”, e elas ficavam muito contentes. Não me esqueço do que devo a Boticas e, num irrelevante agradecimento, ajudei a recuperar alguns elementos para a monografia da terra.

A beleza de Boticas não era resultado de uma opção, mas da pobreza e da interioridade. Não havia fábricas, o mais parecido era a empresa das águas de Carvalhelhos e, nas aldeias à volta, havia a economia de subsistência do Barroso e do Larouco, algum comércio de gado, e de produtos florestais. Também não me esqueço do que me disse um homem da terra “não sei como o senhor doutor gosta disto, são só serras e árvores”.

Por isso, assustei-me com a história do lítio, não sem alguma dúvida sobre como os homens e as mulheres de Boticas iam receber a possibilidade de não ser “só serras e árvores”. Nestes anos, todos Boticas estragou-se alguma coisa mas pouco. A sua população tem muito serviços essenciais, melhorou a sua condição e diminuiu o isolamento das aldeias da montanha. Mas de Montalegre até ao Douro, vários ecossistemas foram destruídos, desde as cumeadas cheias de eólicas, até aos vales dos rios desaparecidos debaixo das barragens e, com eles, as velhas linhas férreas herdeiras do Fontes Pereira de Melo.

O secretário de Estado, que não saiu de dentro do carro ao ver uns cajados, trazia consigo um dilema que não é fácil de resolver, uma promessa de empregos, de dinamismo económico local, com o preço da destruição do meio ambiente disfarçado de juras sobre a inexistência de impacto ambiental. O que os meus amigos transmontanos sabem de ciência certa, é que em todos os sítios onde houve essas promessas, nem houve emprego estável, nem desenvolvimento para as terras, mas situações de destruição irreversível do valor ecológico, turístico, cultural das suas terras. E sabem também que alguém lucrou muito, chegou lá, sugou tudo de valor, e depois deixou os estragos.

Colunista

sábado, 1 de maio de 2010

Um feliz 1º de Maio - Carmen

1/Mai 11:28
Carrmen diz:
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COM UM ABRAÇO E OS MEUS VOTOS DE UM FELIZ DIA 1º DE MAIO!




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Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.

(Karl Marx)
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quarta-feira, 19 de março de 2008

O PS e as manifestações de rua

Clicar na imagem do Avante para ampliar

ALPIARÇA ESFERA: A indiferença

“A CGTP fez uma manifestação com cerca de 100 000 pessoas e continuou a indiferença. No tratamento noticioso valeu menos do que um anúncio da máquina de propaganda de Sócrates.”
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“Há manifestação do PCP, também maltratada pela comunicação social, a primeira que o partido faz em seu próprio nome. Era uma manifestação puramente politica, algo que nenhum partido em Portugal seria capaz de fazer, com cinquenta mil pessoas a marcharem pelo PCP e pelo comunismo, uma coisa tão rara nos dias de hoje em todo mundo que deveria suscitar toda a atenção e todas as análises, mas passou quase despercebida.”

“Para finalizar, o PS e o Governo resolveram mostrar quão grande era a contestação na “rua” mostrando quão pequena é a sua capacidade de mobilização: anunciaram uma contramanifestação pequenina, que todos os dias muda de sítio para encolher as paredes e parecer que é grande na televisão.”

“Os critérios de avaliação para os professores não medem a qualidade, de que dependem, em última análise, o sucesso ou o fracasso do acto de ensinar. Criam uma trapalhada burocrática que esteriliza e que massacra e acaba sempre por promover a mediocridade, o oportunismo e a rotina. A sra. Thatcher ia matando assim a universidade inglesa.”
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posted by Lino Soeiro at Sábado, Março 15, 2008
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segunda-feira, 17 de março de 2008

PCP - 87 anos



Site do PCP
Site do PCP



PCP nasceu há 87 anos
Rumo ao socialismo

Em mais de oito décadas, o PCP foi sendo construído por muitos milhares de militantes comunistas e forjado em muitas lutas contra o fascismo, pela liberdade e democracia, pelo socialismo. A sua história fez-se – e continua a fazer-se – todos os dias pela intervenção dedicada de várias gerações de comunistas. Em seguida, o Avante!, baseado no livro das Edições Avante! 85 momentos de vida e luta do PCP, destaca alguns momentos relevantes da história do PCP. Poderiam ser muitos outros. Escolhemos estes.
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A fundação e os primeiros anos

A 6 de Março de 1921, na sede da Associação dos Empregados de Escritório, em Lisboa, é criado o Partido Comunista Português, num período marcado por fortes lutas da classe operária. A fundação do PCP decorre do desenvolvimento histórico do movimento operário português e do impulso da vitória da Revolução de Outubro de 1917, na Rússia, e dos ensinamentos de Marx, Engels e Lenine.
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Aprovando os 21 pontos da Internacional Comunista, o PCP adere desde logo ao Movimento Comunista Internacional. O Partido define, como frente de acção prioritária dos seus militantes, a intervenção sindical.
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Pouco depois, é criada a organização das Juventudes Comunistas. Em alguns meses, o Partido conta já com mais de um milhar de militantes. As primeiras prisões ocorrem ainda em 1921, no seguimento de uma campanha de agitação das Juventudes Comunistas.
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Nos finais do ano, numa reunião conjunta entre o Partido e da Juventude, é decidida a criação dos primeiros órgãos de informação comunistas: O Comunista, do Partido, e O Jovem Comunista.
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Em Novembro de 1923, o PCP realiza o seu primeiro congresso, em Lisboa. Participam 118 delegados de 33 organizações. O congresso aprova os Estatutos, uma resolução sobre Organização do Partido e um Programa de Acção. O II Congresso realizou-se em Maio de 1926, um dia depois do golpe militar que daria início à longa noite fascista.
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A repressão iniciar-se-ia em breve. Centenas de militantes operários são presos. O PCP é ilegalizado e a sua sede encerrada em 1927.

A reorganização de 1929 e Bento Gonçalves

A Conferência do Partido de Abril de 1929 constitui um acontecimento marcante da história do PCP. É um grande e decisivo ponto de partida para a reorganização do PCP nas condições de clandestinidade impostas pela ditadura fascista.
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Reduzido a 40 militantes, no essencial mal preparados, e com fracos recursos financeiros, o Partido debate-se com imensas dificuldades. A conferência traça orientações viradas fundamentalmente para a criação de organizações partidárias e para o trabalho sindical. É na sequência desta conferência que se criam organizações partidárias e unitárias como a Organização Revolucionária da Armada, a Federação da Juventude Comunista Portuguesa, a Secção Portuguesa do Socorro Vermelho Internacional, a Liga dos Amigos da URSS ou a Liga contra a Guerra e o Fascismo.
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São reorganizados os sindicatos e criada a CIS, Comissão Inter Sindical, que rapidamente aumenta a sua influência entre os trabalhadores. Em 1933, era a maior organização sindical, ultrapassando a anarquista CGT.
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Os obreiros desta reorganização – que afasta as concepções anarquistas, cria condições para a ligação do Partido à classe operária e transforma o PCP numa organização marxista-leninista - são fundamentalmente operários experimentados na luta sindical. Entre eles, destaca-se Bento Gonçalves, que foi designado secretário-geral do Partido. Dirigente incontestável do PCP, foi preso em 1935 e enviado para o Tarrafal, onde seria assassinado em 1942.

O Avante! e O Militante

A 15 de Fevereiro de 1931, um pequeno jornal dirige-se «Ao proletariado de Portugal». Era o primeiro número do Avante!, órgão central do PCP, também ele tornado possível com a reorganização. Nos primeiros dez anos de existência, o Avante! – como o Partido – sofre com a repressão e com a insuficiente preparação do Partido para lhe fazer frente. Até ao início dos anos 40, a sua publicação é interrompida cinco vezes. No entanto, em 1935, publica-se mensalmente e, entre 1936 e 1938, sai semanalmente, chegando a atingir tiragens de 10 mil exemplares.
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Em 1933, é criado O Militante, primeiro como «Boletim de Organização do PCP», mais tarde como «Boletim do Comité Central do PCP». Tal como o Avante!, os seus primeiros anos foram difíceis, publicando-se duas séries com quatro e cinco números cada uma.
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Com a reorganização dos anos 40, o Avante! passa a sair regularmente. De Agosto de 1941 até ao 25 de Abril de 1974, nunca mais deixou de se publicar, constituindo um caso único no panorama da imprensa clandestina à escala mundial, impresso e distribuído sempre no interior do País.

Resistir ao fascismo

Durante os anos 30, ao mesmo tempo que se constrói o Estado fascista em Portugal, copiando dos modelos da Itália de Mussolini e da Alemanha de Hitler, aumenta a repressão contra o PCP. Os comunistas são os principais alvos da recém criada PVDE (antecessora da PIDE) e a maioria dos presos enviados para o Tarrafal são do PCP.
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Neste período, o Partido sofre rudes golpes. Centenas de militantes são presos, a direcção cai por diversas vezes nas mãos da polícia, as tipografias são capturadas. Mas o Partido resiste.
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Para resistir à ilegalização dos sindicatos, é convocada para 18 de Janeiro de 1934, uma greve geral insurreccional. Surtos grevistas irrompem em Silves, Lisboa, Barreiro ou Setúbal, mas foi na Marinha Grande que o movimento assumiu maior expressão. Dirigidos por militantes comunistas como José Gregório, os operários marinhenses ocuparam a vila por várias horas. Mas a greve seria brutalmente reprimida. As forças repressivas tomaram a Marinha Grande, espancaram e prenderam dezenas de trabalhadores. O comunista Manuel Vieira Tomé acabaria por não resistir às torturas e morreu às mãos da polícia.
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Dois anos mais tarde, em Setembro de 1936, os marinheiros dos navios de guerra Dão, Bartolomeu Dias e Afonso de Albuquerque revoltam-se contra a intensa repressão que se vivia na armada e contra o corte de relações do fascismo português com a República espanhola. A revolta foi dirigida pela Organização Revolucionária da Armada (ORA), que agrupava as células comunistas na armada e era, à época, a maior organização do Partido. A revolta seria rapidamente sufocada e reprimida. Doze marinheiros foram mortos na sequência da revolta e 208 feitos prisioneiros. Cinco acabariam por morrer no Tarrafal.

A reorganização de 1940/41,
a clandestinidade e a luta de massas


Em 1940, na sequência da libertação de um grande número de militantes – entre eles, Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro, Sérgio Vilarigues, Joaquim Pires Jorge, José Gregório, Pedro Soares, Manuel Guedes e Júlio Fogaça – inicia-se a reorganização de 1940/41, momento fundamental da história do Partido.
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A reorganização constituiu um processo de reforço do Partido e da sua intervenção, proporcionando grandes passos em frente na direcção, organização, actividade e influência. Cria ainda condições de defesa do Partido face à repressão.
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Nos meses e anos que se seguem à reorganização, e em consequência desta, a classe operária toma a vanguarda da luta antifascista. Ainda em 1941, ocorre uma greve de operários têxteis na Covilhã e, no ano seguinte, há greves na região de Lisboa, na margem Sul e noutras localidades operárias. No ano de 1943, o movimento grevista assume proporções consideráveis. Em Julho-Agosto desse ano, 50 mil trabalhadores da grande Lisboa participam em greves. À frente de todas elas está o PCP.
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A 8 e 9 de Maio de 1944, respondendo ao apelo do PCP, milhares de trabalhadores juntam-se à luta por pão e géneros, naquelas que foram as mais importantes lutas de massas até então.
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No IV Congresso do PCP, realizado na Lousã em 1946, são definidas as linhas fundamentais do caminho para o derrubamento do fascismo, apontando o levantamento nacional contra a ditadura como o caminho a seguir. No plano da organização, aprofunda-se o conceito de trabalho colectivo.

A unidade antifascista

A reorganização do PCP do início dos anos 40 impulsionou também a acção do Partido no sentido da unidade antifascista. Em Março de 1943, um mês depois da vitória do Exército Vermelho em Stalinegrado, que virou a guerra para o lado das forças antifascistas, o PCP lança um manifesto à nação, onde apresenta 9 pontos para a unidade nacional. Em Janeiro de 1944, é anunciada a criação do Conselho Nacional de Unidade Antifascista, mais tarde transformado Movimento Nacional de Unidade Antifascista (MUNAF), em que colaboram comunistas, republicanos, católicos, monárquicos, liberais e elementos de outras tendências.
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Com o fim da guerra e as jornadas da Vitória, abrem-se novos caminhos para a luta antifascista. Aproveitando o curto espaço de acção legal proporcionado pela derrota do nazifascismo, é criado em 1945 o Movimento de Unidade Democrática e o MUD Juvenil. Inicia-se imediatamente uma campanha pelo fim da ditadura e pelo restabelecimento da democracia.
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Em 1949, a oposição une-se em torno da candidatura presidencial de Norton de Matos, mas a falta de condições mínimas de transparência e democracia levam o candidato a desistir. Em 1958, Arlindo Vicente e Humberto Delgado candidatam-se à presidência e em seu torno realizam-se gigantescas acções de massas. O candidato da oposição democrática desiste em favor do general Humberto Delgado, que vai a votos, apesar de não haverem quaisquer garantias de democraticidade do acto eleitoral.
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O governo fascista falsificou o resultado, mas foi forçado a atribuir 23 por cento à oposição. Após a farsa eleitoral, em várias localidades do País, milhares de pessoas protestam.

Fugas rumo à vitória

A 3 de Janeiro de 1960, dez destacados militantes comunistas, entre os quais Álvaro Cunhal, evadem-se da fortaleza de Peniche, naquela que foi uma das mais espectaculares evasões de toda a história do fascismo. No final do ano seguinte, evadem-se de Caxias, numa arrojada fuga envolvendo um carro blindado de Salazar, oito militantes comunistas.
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Estas duas fugas, ao recuperarem para a liberdade prestigiados militantes e dirigentes do Partido, constituem elementos fundamentais para o reforço da luta antifascista nos anos seguintes.
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A seguir à fuga de Peniche, inicia-se no Partido um grande debate ideológico sobre a clarificação da via para o derrubamento do fascismo e sobre um vasto e importante conjunto de questões, abrangendo a defesa do Partido, a política de quadros, o trabalho de organização e problemas fundamentais de táctica e orientação do Partido.
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Este debate culmina na reunião do Comité Central de Março de 1961, na qual se critica e corrige o desvio de direita que se verificara em vários campos da intervenção do Partido entre 1956 e 1959. Nesta reunião, Álvaro Cunhal é eleito secretário-geral do PCP.
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Estas novas orientações são reafirmadas e desenvolvidas no VI Congresso do Partido, que se realiza, em 1965, em Kiev. Este congresso teve uma influência determinante no reforço da luta popular e na definição da via para o derrubamento do fascismo: «o fascismo mantém-se no poder pela força, só pela força poderá ser derrotado.»
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O relatório político de Álvaro Cunhal, Rumo à Vitória, definia ainda os objectivos da revolução portuguesa, que se consubstanciaram no Programa para a Revolução Democrática e Nacional que o Congresso aprovou.

Nova fase da luta contra a ditadura

No ano de 1962, a luta contra o fascismo entra numa nova fase. Em Março, 25 mil estudantes do ensino superior iniciam uma greve que se faz sentir em Coimbra e em Lisboa. No 1.º de Maio, em Lisboa, 100 mil trabalhadores manifestam-se nas ruas e enfrentam, durante horas, as forças policiais. Às cargas brutais da polícia e às rajadas de metralhadora, o povo responde com pedras, arrancadas do pavimento, e com postes de sinalização, dispersando num local para se voltarem a reagrupar noutro. As comemorações do 1.º de Maio estenderam-se a todo o País, em importantes jornadas de luta no norte, no Alentejo ou na margem sul do Tejo. Desde 1962 que o Dia do Trabalhador passou a ser o dia da resistência antifascista, substituindo o 5 de Outubro.
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As lutas do 1.º de Maio de 1962 nos campos do sul do País têm continuidade durante todo o mês nas greves dos assalariados rurais do sul pela jornada de oito horas de trabalho. Efectivamente, em Maio de 1962, o horário de oito horas é conquistado pelos trabalhadores. À frente destas lutas esteve o PCP.
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Nas colónias, iniciam-se as lutas de libertação nacional. Em Portugal, dinamizadas pelo PCP, há manifestações nos locais de embarque das tropas, e a contestação à guerra colonial cresce no seio das forças armadas.

O grande partido da resistência

O PCP foi o grande partido da resistência antifascista. Ao contrário de outros, que se dissolveram, o PCP optou por prosseguir, na clandestinidade, a luta pela liberdade e pela democracia, mobilizando a classe operária e outros sectores da sociedade para essa luta. Por essa razão, constituiu o alvo preferencial da repressão fascista.
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Dezenas de militantes e dirigentes comunistas caíram na luta assassinados pelo fascismo. Bento Gonçalves, Alfredo Caldeira, Alfredo Dinis (Alex), Militão Ribeiro, José Moreira, José Dias Coelho ou Catarina Eufémia são apenas alguns exemplos. Outros morreram nas cadeias ou depois de libertados, após anos de cárcere e maus tratos, ou impedidos de tratar-se por se encontrarem na clandestinidade, como Soeiro Pereira Gomes, José Gregório, Manuel Rodrigues da Silva, Alberto Araújo, Guilherme da Costa Carvalho, só para enunciar alguns.
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Eram também comunistas os presos políticos com mais anos de cativeiro, alguns com mais de 20 anos. O Comité Central do Partido que chegou ao 25 de Abril, apresentado no VII Congresso do Partido (Extraordinário), realizado em Outubro de 1974, era composto por 23 membros efectivos e 13 suplentes. Juntos, somavam 308 anos de prisão e 755 de clandestinidade.

Finalmente, a liberdade

Na madrugada de 25 de Abril de 1974, um golpe militar depõe o governo fascista de Marcello Caetano. Aos microfones da rádio, os militares pedem ao povo para que permaneça em casa, mas este desobedece e leva a cabo um poderoso e imparável levantamento popular. Terminava o fascismo, conquistava-se a liberdade.
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Apoiando e estimulando os militares patriotas e intervindo directamente na democratização da vida nacional, o povo em movimento desempenha um papel central na consolidação da vitória. O 1.º de Maio de 1974 confirma o carácter popular da Revolução e revela um poderoso movimento operário e sindical, que jogaria um insubstituível papel no avanço da Revolução e das suas conquistas.
Nas primeiras horas, o PCP ressurge à luz do dia. No dia 30 de Abril, Álvaro Cunhal regressa ao País, recebido por uma multidão, e a 17 de Maio publica-se o primeiro número legal do Avante!, que atinge a impressionante tiragem de 500 mil exemplares. A 25 de Maio, em Lisboa, o PCP realiza o seu primeiro comício. Após anos de luta clandestina em que foi o grande partido da resistência antifascista, o PCP afirmava-se também como o grande Partido da Revolução.

Pelas conquistas de Abril

Em poucos meses, vencendo resistências e dificuldades, as massas populares – aliadas com o MFA – obtêm êxitos e conquistas de alcance histórico. Os órgãos de poder fascista são dissolvidos, os presos políticos são libertados, as administrações locais fascistas são saneadas e as liberdades são conquistadas pelo seu exercício e muito antes da sua consagração legal.
A aliança revolucionária do povo com o MFA, que o PCP dinamizava e apoiava, procedeu à nacionalização da banca, após a vitória sobre o golpe reaccionário de 11 de Março de 1975, e assim se nacionalizaram sectores básicos da economia, como seguros, electricidade, petróleo e petroquímica, siderurgia, minas, adubos, construção e reparação naval, transportes, cimentos, celulose, entre outros. Assim eram liquidados os grupos monopolistas que dominaram o País e se alterou radicalmente a estrutura económica nacional.
Nos campos do sul do País, os trabalhadores rurais tomaram em mãos a mais bela conquista da Revolução de Abril – a Reforma Agrária. Esbarrando com a resistência desesperada de agrários e outras camadas reaccionárias, o operários agrícolas, com o PCP à frente, reorganizam o trabalho no campo, mecanizam a agricultura, aumentam a produção e colocam os seus frutos ao serviço do bem-estar comum.
Estas como outras conquistas da Revolução não foram concedidas por nenhum governo. Foram conquistadas e construídas pelos trabalhadores e só mais tarde consagradas na lei. Em 2 de Abril de 1976, apesar de se ter iniciado já o processo contra-revolucionário, é aprovada a Constituição da República, consagrando o essencial das conquistas alcançadas nos anos de 1974 e 1975.

Combater a contra-revolução

Destruir as conquistas de Abril, entregando o poder àqueles que dele foram despojados com a Revolução, foi desde sempre o objectivo central das forças da contra-revolução. Para o atingir, recorreram-se de tudo: golpes, acções terroristas ou campanhas de mentiras e calúnias.
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O primeiro governo constitucional, chefiado por Mário Soares, dá início a uma brutal ofensiva contra as conquistas da Revolução, tendo como alvos tudo aquilo que de progressista tinha sido alcançado, a começar pela própria Constituição. Nos campos, a ofensiva contra a Reforma Agrária inclui a sabotagem e a repressão policial e encontra fortíssima resistência dos trabalhadores. Em 1979, na UCP Bento Gonçalves, em Montemor-O-Novo, dois jovens trabalhadores e militantes comunistas – António Casquinha e José Caravela – são assassinados a tiro pela GNR.
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Também as nacionalizações seriam destruídas. Mas não sem resistência. Apesar da gigantesca resistência dos trabalhadores, inicia-se no final dos anos 80 o processo de privatizações.
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Em todas estas lutas, o PCP está na frente da luta dos trabalhadores pelas conquistas de Abril. Do outro lado, estão PS, PSD e CDS, em governos com várias formações.
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A destruição do essencial das conquistas sociais do 25 de Abril não foi um processo fácil. Muitos dos direitos alcançados mantêm-se devido à forte resistência e luta dos trabalhadores. A 12 de Fevereiro de 1982, a CGTP-IN convoca uma greve geral contra a política do governo AD. No mesmo ano, mas em Maio, uma nova greve geral ergue-se contra os pacotes laborais do governo e contra as provocações do governo e da UGT, que resultaram na morte de dois jovens trabalhadores às mãos da polícia de choque. Em Fevereiro de 1988, os trabalhadores voltaram à greve geral para travar as pretensões do governo PSD/Cavaco Silva.
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Contra o Código do Trabalho do governo PSD/PP, em 2002, a CGTP-IN volta a ir para a greve geral. Pela primeira vez com um governo do PS, realiza-se em Maio de 2007 uma nova greve geral.

XVII Congresso

Os congressos do PCP após o 25 de Abril constituíram sempre momentos importantes na luta do Partido e dos trabalhadores portugueses. O XVII Congresso, realizado em Almada em Novembro de 2004, não foi excepção. Ocorrido num tempo cheio de dificuldades para a luta dos comunistas no País e no mundo, o Congresso reafirmou de forma inequívoca a natureza e identidade do Partido, criando assim as condições necessárias para o seu reforço e constituindo um motor de uma nova e impetuosa dinâmica na vida, na actividade e na intervenção partidárias.
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Aplicando e desenvolvendo as medidas aprovadas no XVII Congresso, o PCP reforçou a sua organização com mais militantes, mais organização nas empresas e locais de trabalho, mais militantes com responsabilidade e com melhor formação política e ideológica.
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O Comité Central eleito no Congresso elegeu, por sua vez, um novo secretário-geral: Jerónimo de Sousa.

Funeral de Álvaro Cunhal

Mais do que lamentar uma morte, o funeral de Álvaro Cunhal foi a celebração de uma vida de luta que teve como referência constante a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País – uma vida de revolucionário, feita de coragem, dedicação, dignidade e verticalidade.
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O funeral de Álvaro Cunhal foi uma manifestação de confiança no Partido e no seu ideal, uma homenagem ao homem que foi um dos principais construtores do PCP na clandestinidade e após a Revolução. Um imenso «Obrigado».
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A última homenagem ao histórico dirigente comunista foi o maior funeral alguma vez realizado no País. Ccentenas de milhares de pessoas – militantes do Partido e muita gente sem filiação partidária – que fizeram questão de se despedir do antigo secretário-geral do PCP.
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in Avante 2008.03.13
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Os movimentos sociais e o movimento estudantil


Com a redemocratização da vida política no Brasil, a partir dos anos 70, surgiram novos protagonistas da luta de classes no país: os movimentos sociais. Desde então, compreender sua dinâmica, características e funcionamento, tem sido um desafio. Muito tem sido produzido sobre a natureza dos movimentos sociais surgidos no Brasil a partir da abertura políticas da década de 70, com destaque aos estudos sobre o surgimento do MST, da CUT, das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) e sobre a reorganização do movimento estudantil com a refundação da UNE, em 1979.


Por Juliano Medeiros*



Mas afinal, que novidades trouxeram à vida política do país estes movimentos sociais? Não existiram movimentos sociais até a década de 70? E quais as características gerais destes movimentos? Quais suas contribuições à luta anticapitalista? Qual sua semelhança com os movimentos sociais na Europa? Estas são algumas das muitas perguntas que surgem diante do desafio de conhecer os movimentos sociais e caracteriza-los minimamente.


Evidentemente, os movimentos sociais no Brasil não surgem apenas como fenômeno da redemocratização. O ativo movimento camponês, sindical e estudantil pré-1964 são prova disso. Porém, com o golpe militar e o aumento da repressão às organizações populares a partir da edição do Ato Institucional nº5, em 1969, o movimento de massas regrediu, perdendo força gradualmente, ao mesmo tempo em que se multiplicavam as pequenas organizações de vanguarda. Após um período de luta quase absolutamente clandestina (entre 1968 e 1977), surgem do combate ao regime militar novas expressões da luta social de massas, como as Comunidades Eclesiais de Base e o vigoroso movimento operário do ABC paulista. Em 1979 acontece o congresso de refundação da UNE e no início dos anos 80 nascem a CUT e o MST, inaugurando um período de ascenso da luta popular no Brasil.


Em busca de um conceito


Nas últimas décadas o capitalismo passou por inúmeras transformações. Estas transformações criaram novas contradições ao capital, tanto no âmbito de sua reprodução quanto no âmbito de suas conseqüências mais gerais (a questão ambiental, por exemplo). Isto não significa que estas mudanças tenham alterado a contradição "capital versus trabalho", mas que em diversos aspectos, a reestruturação produtiva fez surgir novas condições de exploração que apresentam desafios a uma crítica radical de seus efeitos. Em outras palavras, em momentos de crise como os vividos pelo capital com a desaceleração que se inicia nos anos 60, surgem novas contradições, que se movimentam no interior de dadas condições, apresentando novas demandas e desafios. O neoliberalismo é uma expressão deste fenômeno. Conforme destaca Boaventura (1995):


É, por exemplo, seguro dizer que a difusão social da produção contribuiu para desocultar novas formas de opressão e que o isolamento político do movimento operário facilitou a emergência de novos sujeitos sociais e de novas práticas de mobilização social.
Ainda que o referido "isolamento político do movimento operário" seja no Brasil um fenômeno bem mais recente que na Europa, é inegável sua contribuição para o fortalecimento de novas expressões da luta popular. Por exemplo, poucos anos atrás seria impensável o surgimento de um "movimento de desempregados" fora da esfera da luta sindical, o que hoje já é uma realidade em várias cidades do Brasil com o Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD).


Em linhas gerais, podemos dizer que os movimentos sociais são a expressão organizada do descontentamento social frente às limitações estruturais do capitalismo. Este descontentamento pode tomar variadas formas, do corporativismo à luta de classes franca e aberta. Como assinala o filósofo István Mészáros (2002), os limites dos movimentos sociais europeus, cuja principal expressão são o "ambientalismo" e certos "feminismos", está exatamente na ausência de uma crítica radical dos efeitos da ordem do capital sobre a vida humana, as relações sociais e o planeta. Um conceito que nos é oferecido por Dalton e Kuechler (1990) diz que os movimentos sociais são "um setor significativo da população que desenvolve e define interesses incompatíveis com a ordem política e social existente e que os persegue por vias não institucionalizadas, invocando potencialmente o uso da força física ou da coerção" (p. 227).


Este conceito, pelo nível de abrangência, pouco explica certas especificidades dos movimentos sociais. Se nos países centrais os principais movimentos hoje são o movimento feminista, ecológico e pacifista, na América Latina temos o MST, as CEB’s e Pastorais, os piqueteros, o movimento indígena na Bolívia, México e Equador, etc. Em nosso continente os movimentos sociais têm conseguido, ao contrário da Europa, dar uma dimensão universalizante à suas pautas[3]. Neste sentido, os movimentos sociais na América Latina, notadamente no Brasil, são a expressão da ampliação dos limites da ação política para além do binômio partido/sindicato a partir de demandas historicamente represadas pelas classes dominantes, como a reforma agrária.


Isto porque, como desataca Mészáros (2002), dado o patamar social historicamente alcançado do antagonismo entre capital e trabalho, não há possibilidade de "emancipação parcial" ou "libertação gradual". Não há libertação da mulher no capitalismo, ou capitalismo sustentável, ao contrário do que afirmam os movimentos feminista e ambiental na Europa, afinados com a perspectiva social-democrata.


Devido às próprias características da sociedade brasileira, combinam-se nela movimentos típicos de países centrais (movimento ecológico ou feminista – ainda que com reivindicações concretas e perspectivas estratégicas distintas) e movimentos orientados para o enfrentamento de problemas próprios de nossa formação social, como o Movimento dos Sem Terra e sua luta por reforma agrária (SANTOS, 1995). Como conseqüência, com a ofensiva neoliberal desencadeada nos anos 90 parcela importante dos movimentos sociais se tornou linha de frente na luta contra o neoliberalismo, colocando em xeque a primazia do operariado na condição de direção da luta de classes.


O movimento estudantil


O movimento estudantil é um movimento social de massas, pluriclassista, formado em sua grande maioria por jovens. Podemos encontrar seus vestígios desde o século XV. A Sorbone conheceu nove meses de greves em 1443 em defesa de imunidades fiscais e contra a submissão da universidade ao Parlamento de Paris. Dez anos depois, a universidade entrou novamente em greve, em protesto pela morte de um estudante.


Na América Latina, o movimento estudantil deu seus primeiros passos na Revolta de Córdoba, o chamado Cordobazo, a primeira greve estudantil do continente, quando dezenas de estudantes da Universidade de Córdoba, Argentina, perderam a vida lutando pela reforma universitária e o fim da estrutura medieval da universidade. No Brasil, o movimento estudantil ganhou expressão nacional e peso social, a partir da fundação da UNE, em 1937.


O movimento estudantil é um movimento social da educação. Nem, por isso é um movimento social essencialmente progressista. Está em disputa, sofrendo e reproduzindo as tensões presentes na sociedade, podendo, diante de determinadas condições, caminhar na direção de uma ação transformadora. Nessa perspectiva, grande parte de suas lutas está vinculada à defesa da garantia de direitos como a universalização do ensino superior público, a regulamentação do ensino privado, a garantia de métodos de avaliação institucional socialmente referenciados, o funcionamento democrático das instituições de ensino, etc. Todavia, no decorrer do século XX o movimento estudantil destacou-se exatamente por sua capacidade de transpor os muros das escolas e universidades e dar expressão de massas a temas universais. Foi assim na França em maio de 1968, quando o movimento estudantil expressou o questionamento e a crítica aos costumes e valores dominantes da época. No Brasil, o movimento estudantil esteve presente nos principais momentos da vida política do país. Foi assim na campanha "O Petróleo é nosso", na luta contra o nazi-fascismo na década de 40 ou contra a ditadura militar a partir de 1964; na defesa das eleições diretas ou na luta pela anistia dos presos políticos. Na defesa da redemocratização, o movimento estudantil voltou às ruas. Não limitou suas reivindicações apenas aos temas relacionados à educação, sendo solidário com as lideranças operárias e populares na luta contra o regime militar.


Nos anos 90, o movimento estudantil, assim como grande parte dos movimentos sociais, atravessou um refluxo de lutas e mobilizações. A partir do "Fora Collor", em 1992, as entidades nacionais deram poucas respostas aos ataques do neoliberalismo à educação pública. Mesmo em momentos de maior acirramento, como na greve das universidades federais em 1998, a direção da principal entidade nacional dos estudantes, a UNE, pouco fez para garantir a direção política do movimento.


A ofensiva neoliberal provocou efeitos devastadores sobre a juventude brasileira. Os índices de participação política dos jovens são decrescentes e a crise do movimento estudantil – que não se resume a uma "crise de direção" – teve efeitos dramáticos. Os valores e práticas dominantes disseminam-se pelo movimento estudantil, provocando um processo de cooptação e burocratização que compromete uma geração inteira de lutadores e lutadoras. Superar esta situação, disputando os rumos do movimento estudantil a partir de uma nova concepção de movimento, democrática, radical, combativa e autônoma é tarefa central.


A unidade do movimento estudantil com os demais movimentos sociais é condição fundamental para o desenvolvimento destas novas práticas. Superar a relação utilitária de setores dos movimentos sociais com o movimento estudantil pode fazer avançar as lutas contra o neoliberalismo. Alguns passos significativos foram dados em 2007, como na luta contra os convênios da Aracruz Celulose com a UFES e UFRGS, quando centenas de mulheres camponesas e estudantes barraram o convênio desta empresa com a universidade na defesa da educação pública e da função social da pesquisa nas universidades federias.
Tarefas, limites e possibilidades


O neoliberalismo provoca um fenômeno contraditório. Se por um lado, a ofensiva ideológica sobre a sociedade em geral, e a juventude em particular, dificultam nosso trabalho de disputa da consciência do povo para um projeto anticapitalista, por outro as tensões que se acumulam a partir das injustiças provocada pela lógica do próprio sistema podem favorecer explosões sociais que se generalizem com rapidez e intensidade. Por isso, o principal desafio do movimento social é articular trabalho de base, organização popular e agitação anticapitalista.


A partir dos anos de 1990, ingressamos num longo período de refluxo das lutas sociais. A ofensiva do capital ao aumentar as taxas de exploração causou profundo impacto na organização da classe trabalhadora. Desde a derrota da greve nacional dos petroleiros, em 1995, o movimento sindical não mais conseguiu enfrentar o bloqueio jurídico repressivo, mantendo mobilizações que, embora importantes, permanecem localizadas, de impacto restrito e corporativo. As demais mobilizações dos movimentos sociais, embora importantes para a organização dos trabalhadores, não conseguiram até o momento alterar essa correlação de forças.


Por isso, deve ser objetivo central dos movimentos sociais no curto prazo a articulação de uma grande frente contra o neoliberalismo, capaz de derrotar seu principal sustentáculo político na atual conjuntura – o governo Lula e seus aliados – e iniciar um novo ciclo de vitórias e conquistas. Para isso, a unidade dos lutadores e lutadoras sociais é imprescindível.


Sendo o movimento estudantil um movimento social capaz de dar expressão de massas a diversas demandas populares, seu desafio é articular a luta em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade com a luta anticapitalista em suas mais variadas expressões. Para isso, é preciso articular três objetivos centrais:


a) Unidade dos movimentos sociais contra o neoliberalismo


O fim do ciclo de unidade em torno de uma única alternativa partidária e o esgotamento político, ideológico e moral desta alternativa, iniciou um processo de dispersão das forças populares em diversas propostas organizativas. Em que pese a centralidade do papel do partido político como espaço capaz de universalizar as diversas demandas da luta socialista, o enfraquecimento desta referência traz, sem dúvida, uma maior dificuldade em garantir a unidade daqueles que lutam contra o neoliberalismo. Entretanto, recentemente os setores populares deram mostras de sua capacidade de unidade em pelo menos três episódios importantes.


A primeira delas, a Jornada Nacional em Defesa da Educação Pública, articulada por entidades e movimentos como a UNE, Ubes, MST, Conlutas, Intersindical, entre outros, que organizou dezenas de atos em várias capitais, colocando na pauta política do país a democratização do acesso e a qualidade no ensino público a partir de uma agenda consensual de 18 pontos para a educação brasileira.


Um segundo momento importante foi o Plebiscito Popular pela anulação do leilão da Cia. Vale do Rio Doce. O Plebiscito, ainda que com enormes dificuldades, foi um marco na luta em defesa da soberania nacional, colocando no centro da agenda dos movimentos sociais o debate em torno do desmonte do Estado brasileiro operado pelo governo FHC e continuado pelo governo Lula. Os mais de três milhões de participantes no Plebiscito foram a prova da capacidade dos movimentos sociais em articular grandes temas numa escala de massas.


Um terceiro episódio que mostrou a possibilidade de unidade dos movimentos sociais, desta vez contra as políticas neoliberais do governo Lula, se deu no amplo movimento de solidariedade à greve de fome do Bispo Dom Luiz Cappio contra a transposição do Rio São Francisco. A truculência do governo federal ao não cumprir o acordo que previa a realização de um amplo debate público sobre os impactos ambientais e sociais da transposição, a intransigência do presidente e seus ministros mais conservadores em negociar condições para o fim da greve de fome de Dom Cappio, e a capacidade dos movimentos sociais em dar expressão de massas à crítica do Bispo à transposição, despertou a atenção da sociedade e colocou amplos setores do povo a favor da greve de fome e contra as obras no São Francisco.


Estes foram três episódios que demonstram a capacidade dos movimentos sociais em garantir uma agenda consensual de luta contra o neoliberalismo. Evidentemente, houve inúmeros retrocessos em todos estes processos, como na posição da CUT e da UNE em relação às perguntas do Plebiscito da Vale do Rio Doce, ou na greve de fome de Dom Luiz Cappio, quando estas entidades perderam a oportunidade de se manifestar abertamente contra a transposição. De qualquer forma, seja pelo governismo de certos setores, seja pelo sectarismo de outros, a unidade dos movimentos sociais segue sendo um desafio que devemos perseguir, e o movimento estudantil, como já demonstrou nestes e em outro episódios, tem plenas condições de dar uma contribuição decisiva.


b) Articulação de plataformas comuns entre os diversos movimentos sociais


Uma das tarefas centrais do movimento estudantil é retomar sua capacidade de articular plataformas comuns entre os diversos movimentos sociais. A atual conjuntura, de refluxo do movimento de massas, e de divisão dos lutadores e lutadoras do movimento estudantil em diversos movimentos, campos e entidades, torna esta tarefa ainda mais complexa.


O ano que passou foi marcado por avanços importantes na unidade dos setores populares. Para além dos episódios destacados anteriormente – Jornada em Defesa da Educação, Plebiscito da Vale e solidariedade à greve de fome de Dom Cappio – houve outras iniciativas que buscaram garantir a articulação de uma agenda comum de lutas entre os diversos movimentos sociais. Neste espírito aconteceu, em março de 2007, o Encontro Nacional contra as reformas neoliberais que reuniu mais de 6000 lutadores e lutadoras de diversos setores com o objetivo de garantir um calendário comum de lutas. Nesta ocasião surgiu o Fórum Nacional de Mobilização, formado por Intersindical, Conlutas, Pastorais Sociais, Oposição de Esquerda da UNE e entidades do movimento sindical, popular e estudantil em geral. Este Encontro aprovou a construção do dia 23 de maio como dia nacional de defesa do serviço público, a participação no dia 17 de abril em memória dos 11 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, em conjunto com o MST, e a vitoriosa marcha do dia 24 de outubro em Brasília que reuniu mais 15 mil lutadores de todo o Brasil, repudiando a reforma da previdência preparada por Lula.


Entretanto, estas iniciativas não contaram com a participação de setores importantes do movimento social brasileiro. UNE e Ubes, por exemplo, seguiram tendo uma postura de tibieza diante das principais mobilizações que ocorreram em 2007. Em alguns casos, como na luta contra o REUNI, a posição aprovada pela direção majoritária da UNE tomou o sentido oposto ao das mobilizações que explodiram pelas diversas universidades federais país afora, colocando-se como fiadora das políticas educacionais do governo Lula. Em outros casos, como no Plebiscito da Vale do Rio Doce, a direção majoritária da UNE e a CUT foram contra a inclusão de qualquer pergunta que pudesse colocar em xeque as políticas do governo federal. Assim, estes setores dificultam a unidade dos movimentos sociais e desrespeitam a autonomia que estas entidades deveriam guardar em relação ao governo Lula.


c) Construção de uma ampla rede de agitação e propaganda antineoliberal


Por último, uma tarefa central na articulação entre o movimento estudantil e os demais movimentos sociais é a constituição de uma ampla rede de agitação e propaganda antineoliberal. Isto significa trabalhar pela rearticulação de uma corrente de pensamento contra-hegemônica de massas, através de meios tais como jornais, sites, campanhas públicas, etc. Entre os temas que devem compor uma agenda de lutas e mobilizações contra as políticas neoliberais em curso no Brasil estão: a) fim do monopólio dos meios de comunicação; b) reforma agrária já; c) contra a precarização e ataque aos direitos previdenciários e trabalhistas; d) redução da jornada de trabalho, sem redução de trabalho; e) suspensão do pagamento das dívida externa, com auditoria; f) pelo fim das privatizações e das Parcerias-Público-Privadas (PPP’s); g) reestatização da Cia. Vale do Rio Doce; h) defesa dos direitos dos povos indígenas e demarcação de suas terras; i) reforma tributária que taxe as grandes riquezas e controle a entrada e saída e capitais; j) abertura imediata de todos os arquivos da ditadura militar e punição de todos os crimes cometidos pelo regime militar; l) retirada imediata das tropas brasileiras do Haiti; m) fim da Desvinculação dos Recursos da União (DRU).


Estas são apenas algumas dos temas que poderiam compor uma plataforma para a esquerda brasileira em geral e para os movimentos sociais em particular. Cabe ao movimento estudantil trabalhar para ir além dos limites de sua direção nacional contribuindo para fazer avançar a unidade dos que lutam sinceramente contra o neoliberalismo.


* Juliano Medeiros é diretor de Movimentos Sociais da União Nacional dos Estudantes (UNE)


Fonte: Estudantenet

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in VERMELHO 15 DE MARÇO DE 2008 - 19h29

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sábado, 8 de março de 2008

Dia Internacional da Mulher

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.




O Dia Internacional da Mulher é celebrado a 8 de Março. É um dia comemorativo para a celebração dos feitos económicos, políticos e sociais alcançados pela mulher.

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A ideia da existência de um dia internacional da mulher foi inicialmente proposta na viragem do século XX, durante o rápido processo de industrialização e expansão económica que levou aos protestos sobre as condições de trabalho. As mulheres empregadas em fábricas de vestuário e indústria têxtil foram protagonistas de um desses protestos em 8 de Março de 1857 em Nova Iorque, em que protestavam sobre as más condições de trabalho e reduzidos salários.

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Existem outros acontecimentos que possam provar a tese como o incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist, que também aconteceu em Nova Iorque, em 25 de março de 1911, onde morreram 146 trabalhadoras. Segundo esta versão, 129 trabalhadoras durante um protesto teriam sido trancadas e queimadas vivas. Este evento porém nunca aconteceu e o incêndio da Triangle Shirtwaist continua como o pior incêndio da história de Nova Iorque.

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Muitos outros protestos se seguiram nos anos seguintes ao episódio de 8 de Março, destacando-se um outro em 1908, onde 15.000 mulheres marcharam sobre a cidade de Nova Iorque exigindo a redução de horário, melhores salários, e o direito ao voto. Assim, o primeiro Dia Internacional da Mulher observou-se a 28 de Fevereiro de 1909 nos Estados Unidos da América após uma declaração do Partido Socialista da América. Em 1910, a primeira conferência internacional sobre a mulher ocorreu em Copenhaga, dirigida pela Internacional Socialista, e o Dia Internacional da Mulher foi estabelecido. No ano seguinte, esse dia foi celebrado por mais de um milhão de pessoas na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça, no dia 19 de Março. No entanto, logo depois, um incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist mataria 140 costureiras; o número elevado de mortes foi atribuído às más condições de segurança do edifício. Além disto, ocorreram também manifestações pela Paz em toda a Europa nas vésperas da Primeira Guerra Mundial.

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Na Rússia, as comemorações do Dia Internacional da Mulher serviram de estopim para a Revolução russa de 1917. Depois da Revolução de Outubro, a feminista bolchevique Alexandra Kollontai persuadiu Lenin para torná-lo num dia oficial que, durante o período soviético permaneceu numa celebração da "heróica mulher trabalhadora". No entanto, o feriado rapidamente perderia a sua vertente política e tornar-se-ia numa ocasião em que os homens manifestavam a sua simpatia ou amor pelas mulheres da sua vida — um tanto semelhante a uma mistura dos feriados ocidentais Dia da Mãe e Dia dos Namorados. O dia permanece como feriado oficial na Rússia (bem como na Bielorrússia, Macedónia, Moldávia e Ucrânia), e verifica-se pelas ofertas de prendas e flores dos homens às mulheres (quaisquer mulheres). Quando à Checoslováquia integrou o Bloco Soviético, esta celebração foi apoiada oficialmente e gradualmente transformada em paródia — ver MDŽ.

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No Ocidente, o Dia Internacional da Mulher foi comemorado durante as décadas de 1910 e 1920, mas esmoreceu. Foi revitalizado pelo feminismo na década de 1960. Em 1975, designado como o Ano Internacional da Mulher, a Organização das Nações Unidas começou a patrocinar o Dia Internacional da Mulher.

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Ver também

Ligações externas

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