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domingo, 13 de maio de 2018

A Costa da Caparica de Luísa Costa Gomes (pré-publicação)


Há 30 anos que a escritora Luísa Costa Gomes entra e sai da mesma casa na Costa da Caparica. E um dia perguntou-se: que sítio é este onde vivo? A resposta está no livro "Da Costa". Pré-publicação.
Não é uma historiografia da Costa da Caparica, lugar que há muito é de eleição para a escritora portuguesa, mas antes uma viagem pelos diferentes tempos daquele pedaço da costa portuguesa. Luísa Costa Gomes estreia-se este mês no catálogo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, com o livro “Da Costa”, publicado na coleção Retratos.
A própria escritora descreveu estas páginas como o retrato vivido de um pequeno mundo, onde também ela habita. Há 30 anos, como conta logo na introdução, que entra e sai da mesma casa, faz o mesmo caminho. E um dia pergunta-se: que sítio é este onde vivo? Para responder à pergunta, ouviu um sem-fim de pessoas. No final, a viagem à procura de respostas leva o leitor pelas praias da Costa, pela Cova de Vapor, pelas quintas onde em tempos viveram famílias fidalgas, acabando nos Cooperativistas.
E é no areal da Costa da Caparica que começa esta pré-publicação.
“Olhando a imensidão do areal da Costa na maré-baixa, temos dificuldade em imaginar que não tivesse sido sempre uma praia. Mas, na verdade, o troço de mar da Trafaria à Fonte da Telha só ganhou foros de praia recentemente, desde os anos trinta do século xx.
Em Costa Fronteira, Francisco Silva enuncia os factores que impediram durante séculos o povoamento da Costa, sendo o primeiro a imprevisibilidade do comportamento do mar: «as tempestades, as marés vivas, faziam da faixa de areia litoral, representada na cartografia pelo menos desde o século xvi, um território alagadiço e pantanoso, coberto por dunas móveis e juncais».
Não se tratava, no entanto, de uma ria, mas de terras alagadas pelas águas que escorriam da arriba e de areais que tinham configuração bem diferente da que agora têm. «Nenhuma razão justificava o povoamento deste lugar inóspito e insalubre. A Costa, como se designava toda a frente atlântica do concelho de Almada, não era mais do que simplesmente a costa, o limite, a fronteira, o lugar onde o continente termina […].»
O cimo da Rocha — nome que os pescadores depois deram à arriba fóssil —, onde os frades Capuchos de Lourenço Pires de Távora, conselheiro e amigo de D. Sebastião, se instalaram em 1558 num lugar «ermo e afastado das povoações, definia desde então o espaço humanizado no concelho de Almada». Para cá da arriba não havia nada. Mas a abundância do peixe que vinha no leito do Tejo desaguar aqui acabou por provocar o povoamento, primeiro durante apenas alguns meses no Verão, para a safra da sardinha, depois estabelecendo duas comunidades de pescadores, uma oriunda de Ílhavo, outra de Olhão.
«Atribui-se a data de 1770 à fixação nas praias da Costa das primeiras famílias de pescadores conduzidos na nova morada pelos mestres de redes José Rapaz, natural de Ílhavo e José Gonçalves Bexiga, de Olhão.»
Para marcarem a intenção de não regressarem às terras de origem, construíram «com tábuas a primeira igreja e dedicaram-na a Nossa Senhora da Conceição».
A rivalidade entre as duas comunidades começou no estabelecimento em duas zonas distintas da Costa, sendo que «os ílhavos instalaram-se a norte enquanto os algarvios construíram as suas barracas a sul. Entre os dois aglomerados encontrava-se o local onde as dunas atingiam a maior elevação sobre o imenso areal, a que chamaram o Alto. Desse local, os pescadores iam ver o mar e decidir os lanços. Quando os alcatrazes desciam a pique, mergulhando no mar, era sinal de peixe na costa, quando as ondas do mar transpunham a praia e lhes vinham lamber os pés descalços era sinal de fome na barraca».
Separados da população de Almada pela arriba fóssil, uma linha perpendicular ao mar dividia os ílhavos dos olhanenses: a Rua dos Pescadores.
O isolamento obrigou à solidariedade entre as duas comunidades, criando o «cofre do quinhão das companhas», um embrião de associação mutualista, «para o qual cada companha contribuía com um quinhão proporcionalmente retirado do produto da venda do pescado» e que serviu para financiar a construção do Poço da Vila, em 1879, e assim ter água potável, e o cemitério, no ano seguinte.
Para cá da arriba não havia nada. Mas a abundância do peixe que vinha no leito do Tejo desaguar aqui acabou por provocar o povoamento, primeiro durante apenas alguns meses no Verão, para a safra da sardinha, depois estabelecendo duas comunidades de pescadores, uma oriunda de Ílhavo, outra de Olhão.
«Da praia e do mar chegava o único sustento das populações da Costa, dada a total impossibilidade de qualquer prática agrícola nas estéreis areias», continua Francisco Silva.
«Um dos estigmas que marcou a comunidade piscatória da Costa relacionava-se com a necessidade de dispor de muitos braços para pescar», pois, além de todas as actividades ligadas à arte xávega, a forma de pesca tradicional trazida pelos pescadores, era preciso ainda varar as embarcações fora do alcance do mar, transportar as cordas e as redes e tudo isto se fazia a pulso pela areia acima.
Pescava-se de Junho a Outubro em o mar deixando, no resto do tempo procurava-se trabalho nas redondezas.
«O isolamento geográfico, o afastamento das autoridades e da administração do concelho de Almada, tornavam estas costas um destino privilegiado para quem fugia à justiça ou não queria ser por ela incomodado. O sustento era o mínimo, mas não se inquiria sobre a moralidade dos forasteiros. […] Por se abrigarem nas barracas onde as companhas guardavam as redes e outros aprestos, estes “pescadores” eram conhecidos por Barraqueiros, de que se conheciam as alcunhas mas raramente os apelidos, contribuindo para criar má fama à Costa da Caparica que, até aos primeiros anos do século xx, tinha a imagem de local de frequência pouco recomendável ou até mesmo perigoso.»
Essa imagem poderá alterar-se, mas até muito tarde mantém-se no, chamemos-lhe assim, «inconsciente colectivo», a fantasia de um lugar muito remoto, selvagem, de topografia imprecisa, em que nomes não referenciam exactamente sítios, mas áreas de gesto largo, a Fonte da Telha fica algures para ali, a Trafaria algures para acolá. Esta vagueza opõe-se à segurança claustrofóbica da cidade pombalina, com a gente bem arrumada em prateleiras do rés-do-chão ao quarto andar.
A ideia de lugar «além» ainda hoje impede a passagem da ponte a muito boa gente. Há a noção de que de Lisboa à Caparica é muito longe, e o caminho arriscado, sendo menor a distância psicológica no sentido inverso. Lisboa é centrípeta na imaginação e é sempre melhor ir para lá do que vir de lá.
A primeira vez que vi a Costa da Caparica, no final dos anos sessenta, era um dia chuvoso de Primavera, e o sítio feioso e triste como a noite. Lembro uma Rua dos Pescadores cinzenta, fechada, pingada daquela humidade marinha insidiosa que nos fazia querer fugir a choramingar.
Desse local, os pescadores iam ver o mar e decidir os lanços. Quando os alcatrazes desciam a pique, mergulhando no mar, era sinal de peixe na costa, quando as ondas do mar transpunham a praia e lhes vinham lamber os pés descalços era sinal de fome na barraca».
A Costa da Caparica é um desses lugares, como o Algarve, que tem a obrigação de mostrar boa cara ao turista. A outros lugares, nada se exige.
Quem se lembra de querer bom tempo em Vieira de Leiria, ou na Figueira da Foz? Em Odeceixe? Mas quem atravessou a ponte, quem demorou duas horas a atravessar a ponte, vindo de sítios que são sítios de pleno direito, onde chove e faz sol e tudo o que lhe apetece, não aceita nevoeiro, como em Odeceixe, ou em Santa Cruz, que têm por logótipo a neblina matinal.
Quem chega exige calor, sol e – opcional, é certo – uma brisa. Água decente para um banho de mar revigorante.
Toda esta margem sul sofre ainda, aliás, deste injusto grau de exigência. Não bastam dezasseis quilómetros de praias atlânticas de areia fina a dez minutos de Lisboa, nem apoios de praia que se estendem ao longo do paredão. Não chegam festivais e caldeiradas. Não chegam parques, piscinas, «equipamentos» de fazer inveja a todas as outras margens.
Tem de se ter o Verão eterno, bom e barato, ou foge-nos a freguesia para os Algarves e as costas espanholas.
[…]

La plage

Quando a Duquesa de Berry inaugurou em 1820 a saison dos banhos de mar na plage em Dieppe, uma estância favorita dos ingleses, repicaram os sinos ao meio-dia em ponto e houve salvas de canhão. Esta Duquesa de Berry não era a Condessa de Barry, amante de Luís XV.
Para quem não conheça nem uma nem outra, a confusão é impossível, e aqui se revela ainda outra benesse da ignorância. Como quer que seja, a senhora de Berry entrou muito bem ataviada no mar gelado da Alta Normandia pela mão do seu médico.
O homem trajava casaca e luvas brancas, talvez por causa do frio. A sua função era, por um lado, inspeccionar a qualidade da água, mas a mais relevante, a sua função simbólica, era ligar, para os séculos seguintes, a atmosfera marítima a um benefício para a classe social que dela publicamente usufruísse.
A nova nobreza dava a sua bênção à humidade e à corrente de ar, de que por exemplo os fidalgos portugueses do Antigo Regime se protegiam como o diabo da cruz, nos palácios e palacetes que não conheciam o asseio, muito menos o conforto.
A saúde deixou de estar exclusivamente à mercê do capricho divino, dos pecados pessoais e colectivos e ao cuidado de amuletos, rezas, santos e benzeduras; e fez o seu caminho para o lado do controlo humano, da responsabilização pela manutenção do mecanismo corporal e da boa biologia.
O mar começava a sua epopeia regeneradora, depois de ter ameaçado o Homem pelos séculos com os seus adamastores. Agora era uma atmosfera benéfica, produzia fósforo e iodo e esses elementos faziam bem. Mas a ideia de que o que faz bem também deve dar prazer ia demorar a impor-se.
Por se abrigarem nas barracas onde as companhas guardavam as redes e outros aprestos, estes “pescadores” eram conhecidos por Barraqueiros, de que se conheciam as alcunhas mas raramente os apelidos, contribuindo para criar má fama à Costa da Caparica
A nobreza que vinha pelo menos desde o século xvi buscar às suas quintas de Almada grande parte do rendimento para se apresentar dignamente na corte usava a Margem Sul, a que se chamava Lisboa Oriental, para desenfado da cidade, para recreação, para recolhimento, às vezes para exílio ou fuga do alcance de algum monarca mais irritadiço; usava os campos e bosques até à lagoa de Albufeira para caçar e a costa, a praia das pescarias, para piqueniques ocasionais, como o que José Trazimundo, Marquês de Fronteira, neto da Marquesa de Alorna, descreve nas suas Memórias.
«Minha avó residia de Verão em Almada, na antiga casa de meus avós», escreve ele. Trata-se da Quinta do Conde, que usava ainda o nome do Conde de Assumar, no que hoje é a Rua Capitão Leitão, uma das principais da cidade de Almada. O jovem Trazimundo recebera uma carta da avó, convocando-o a ele e ao irmão para virem ajudar a preparar o aniversário da tia Henriqueta.
Trazimundo e o irmão acharam a travessia «longa e não muito divertida» e quando chegaram não encontraram ninguém em casa. A avó tinha deixado recado para irem ter à Costa, «onde estavam em uma grande pescaria».
Muito caracteristicamente, no entanto, a Marquesa de Alorna insistira em fazer-se transportar no seu paquebote, um carroção muito pouco adequado ao caminho. Ia com o capelão, trajado a rigor, e o cocheiro com a libré da antiga casa de Alorna.
«[…] A equipagem e a parelha eram tão velhas como a dona e o cocheiro, o caminho arenoso e impraticável para qualquer equipagem.»
Os jovens alugaram cavalos e partiram a toda a brida para a Costa, encontrando pelo caminho umas mulheres que lhes perguntaram «se éramos os meninos da Senhora Condessa de Oyhenhausen» (nome injusto, aponho eu, para gente tão simples) e os informaram, com a pressa que sempre há em comunicar acontecimentos desagradáveis, que a «avó e o avô estavam enterrados na areia» e «os machos quase mortos».
Intrigados pelo aparecimento deste novo avô, já que o legítimo estava morto há mais de vinte anos, os irmãos espicaçaram os cavalos e encontraram o velho cocheiro «desamparado ao pé da carruagem, rogando mil pragas a sua ama, dizendo que nunca mais havia de servir poetas e que o resto das nossas tias se tinha adiantado, seguindo minha avó com Monsenhor Cherubini».
Mais à frente, encontraram-na os netos no preparo que mais uma vez confirmou no jovem Trazimundo a imagem de uma senhora de idade teimosa e excêntrica, mas a quem faltava o passo seguinte na loucura para ser verdadeiramente quixotesca. Iam ela e o capelão montados em mulas de moleiro e seguidos do moço de traseira.
«Encontrámos a caravana, dirigida por nossa boa avó, montada em uma das tais mulas, tendo posto por cima da touca e cabeleira loura um grande chapéu de palha que lhe havia emprestado um pescador da Costa, por causa do grande calor, conseguindo resolver o seu companheiro a fazer o mesmo, pondo sobre a calva empoada um chapéu semelhante. Monsenhor ia de casaca à romana e meias encarnadas e o moleiro levava-lhe na mão o chapéu de três cantos. O velho moço de traseira seguia a caravana, cansadíssimo e de péssimo humor e Monsenhor, perdido de riso, exclamava, apontando para minha avó: Que caricatura! Que graça! Que espírito! Que talento! Assim chegámos à Costa, onde fomos recebidos pela outra parte do rancho que se tinha adiantado, e o Mestre de desenho Luiz Tomé de Miranda, que era da partida, fez uma espécie de caricatura da entrada de minha avó e de seu companheiro, Monsenhor Cherubini, a qual muito sinto ter perdido.»
N’As Praias de Portugal (Guia do Banhista e do Viajante), primeira grande recensão dos banhos de mar portugueses, publicada em 1876, Ramalho Ortigão não menciona a Costa da Caparica e praticamente nada entre Lisboa e Setúbal. Inclui, no capítulo das «praias obscuras», duas linhas telegráficas sobre o Porto Brandão, sendo uma delas: «magnífica vista para a margem oposta do Tejo». A Fonte da Pipa, mais para o lado de Cacilhas, é «um lugar árido, abafado, triste. Poucas casas sem mobília. Pequenos preços».
Esta Duquesa de Berry não era a Condessa de Barry, amante de Luís XV. Para quem não conheça nem uma nem outra, a confusão é impossível, e aqui se revela ainda outra benesse da ignorância.
É preciso dizer que São Martinho do Porto, São Pedro de Moel e Santa Cruz também entram no mesmo capítulo das praias obscuras. Mas a lagoa de Albufeira, pertença do Almoxarifado do Alfeite, o «retiro predilecto» de D. Pedro V, que aí vinha pescar e caçar coelhos, maçaricos e patos, achou Ramalho «de uma grande melancolia simpática, de um encanto profundamente penetrante.
A água tranquila da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planície, o profundo silêncio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade inefável».
Foi na lagoa que a «Ramalhal figura» fisgou um polvo contra uma rocha «com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queirós lhe mandou de presente das margens do Niagara». Embora a pesca fosse proibida sem autorização do concessionário anual, Ramalho tranquiliza-se com o argumento de que «a rocha não é água» e passa adiante.
Como passa adiante da «imensa vida azul» que tanto há-de impressionar Raul Brandão em 1923. Será ele talvez o primeiro a ver as praias da Costa e o morro vermelho para sobre eles escrever com verdadeira empatia.
https://observador.pt/especiais/a-costa-da-caparica-de-luisa-costa-gomes/

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Trava-Línguas de Luísa Costa Gomes

Trava Línguas
Escrito por Mariana e André    . .
9789722031271
Trava-Línguas, Luísa Costa Gomes
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Trava-Línguasde Luísa Costa Gomes
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Trava-Línguas (ou destrava-línguas) são pequenos textos, em prosa ou em verso, que jogam sobretudo com os sons das palavras e que se distinguem por serem normalmente difíceis de dizer. Se forem ditos muito depressa, é quase impossível pronunciá-los sem tropeçar. Neste livro procurou-se que todos eles contassem uma história simples.
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Ora vamos tentar:
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Num ninho de nafagafos
Há sete nafagafinhos.
Quando a nafagafa sai
Ficam os nafagafos sozinhos.
Coitadinhos!
Onde foi a nafagafa?
Foi a Faro em fraca
Fragata francesa
Que havia num frasco.
Comprou farinha,
Farelo, farófia,
Frescas travessas de fruta,
E truta.
Esfalfada a nafagafa
Voltou num voo veloz
Prós sete nafagafinhos.
Com tantos tantos presentes
Ficaram todos contentes!
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http://www.cortegaca.pt/pt/opinioes-e-sugestoes/literatura
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sábado, 1 de setembro de 2007

Luísa Costa Gomes e Portugal

Luísa Costa Gomes sobre Portugal:


Um artigo enciclopédico que pode bem constituir um guia imprescindível para o visitante desse curioso, cómico e longínquo país. Tudo o que é preciso saber sobre a sua paisagem, geografia física, regime político, cultura, economia, gastronomia e anedotário.
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Superfície: 90.082 metros quadrados; estima-se em dez contos por metro quadrado, o que está ao alcance de qualquer multinacional de porte médio. Portugal optou pela sóbria forma rectangular, rejeitando o bicudo barroco italiano, o quadrado do pastelão espanhol, a nódoa de territórios que alastram ao acaso sem rei nem roque. Sábio e prático a um tempo, e mesmo antes do tempo, Portugal escolheu, mais do que a forma rectangular simples, o rectângulo ao alto, permitindo contentar os que vivem no litoral — e constroem casas no interior, nunca muito longe — e os que vivem no interior, migrando para o mar, onde constroem casas. Sabe-se o resultado nefasto do rectângulo ao baixo, origem de insatisfação e muita desigualdade em colossos como o Não-Sei-Quantos (antiga União Soviética e mais antiga Rússia imperial) e os Estados Unidos da América. É verdade, alegarão, que também o Ghana e o Togo são rectângulos ao alto, mas aqueles têm uma nesga de mar que não dá sequer para Turismo, quanto mais para fazer História.
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Capital: Lisboa. A cidade espaçosa e harmoniosa das literaturas do século passado atravancou-se de mostrengos que parecem desenhados por um bando de lunáticos megalómanos e coloridos por uma turma de crianças excessivamente normais. Predomina a arquitectura de arco e fresta, ombreando ostensiva com os escombros dos magníficos prédios que tiveram prémios. De longe, Lisboa é das cidades mais insinuantes do mundo, clara, ondeante, pousada no rio. Ao perto, um monte de ruínas ligadas por valas que são regularmente abertas e fechadas, ao ritmo do calendário eleitoral. Dir-se-ia que a parte mais séria da cidade é o subsolo, e que os governantes escavam, com irracional obstinação, à procura de tesouros, à procura de raízes.
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Cenários Naturais: Quem for a Portugal à espera daquelas cenas refrigerantes de que Garrett falava nas Viagens, tem de ir pronto para trabalhar em abstracto. Não há colina que não apresente a sua fabriqueta malcheirosa, não há extensão em que não figure o aglomerado de prediozinhos castanhos de varandas anodizadas; naquelas vistas solitárias de outrora pôs-se um bairro de barracas, uma chaminé de fumo negro, um monte de sucata, um vazadouro de entulho onde branqueja a tabuleta "É proibido despejar entulho". Pelos campos, é a vivenda a protagonista, em todo o seu horror. Em vez de a esconderem em meio de discreto arvoredo, plantam a casa a meio metro da auto-estrada: e o viajante, a menos que vá de rosto escondido nas mãos e de cabeça apertada entre os joelhos, é forçoso que as veja. E mais à família, esparramada na varanda, debaixo do guarda-sol, depois do cozido, enquanto os meninos da casa, debruçados contra o aviso parental, contam os automóveis que vão na bicha. Dentro dos automóveis, as famílias discutem. Vêm de suas segundas casas, para as primeiras. A chegada, foi preciso limpar, desempoeirar, desentupir. A televisão estava húmida, não pegou. No dia seguinte, comeu-se demais ao almoço. Agora as crianças estão com sono. O calor enerva as famílias.
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Clima: Já não é o que era. Curiosamente, os nativos continuam a imaginar que vivem num clima temperado marítimo, mesmo quando as temperaturas sobem para os quarenta graus em Julho. O conceito de estação do ano tornou-se obsoleto. O clima é, sobretudo, variável. Temos um dia de Inverno seguido de um dia de Verão, depois de um dia de Primavera que é um dia de Verão com um bocado de vento fresco. Num ano chove tudo, noutro não chove nada. Em Portugal, bate-se o dente de Norte a Sul durante os meses frios e fica-se perplexo e molemente indignado quando o termómetro passa dos quarenta; nada está preparado para lutar contra os elementos, ou sequer minorar os seus efeitos. E a pobreza, num clima variável, pode ser muito cruel.
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Economia: Os analistas vêem nos Portugueses uma raça de pessimistas insaciáveis, sonhadores invertebrados, gente de fogachos que deixa tudo em meio. Mas um olhar sobre a imaginação dos Portugueses mostrará que, ao contrário, estamos em presença de um dos povos mais optimistas e mais facilmente silenciáveis do mundo; dir-se-ia, — e quem sou eu para presumir saber? — que o português ansiava pelo Universo, mas se contentava com um T zero a Santo António dos Cavaleiros. Hoje anseia por um T zero a Santo António dos Cavaleiros e contenta-se com ele. E, apesar de ser objectivamente um país pobre, bastou que o Pai da Pátria dissesse repetidamente aos eleitores que estavam ricos, para que eles, na sua candura e satisfação naturais, acreditassem. Até os torresmos ganharam outro paladar. Os Portugueses são pobres e não perdoam a ninguém. Abominam a sua pobreza, escondem-na, envergonham-se dela. É o concerto das nações que tem a culpa — e há-de pagá-las todas.
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Sistema político: Aparentemente, é uma democracia. A oposição é da confiança do governo. Havia uns comunistas mas comeram-se uns aos outros. O povo em geral é da confiança do governo. Há um processo formal de eleições de vez em quando. A população é mansa e gosta sobretudo de ditadores magros, austeros e de modelo paternal forte. A ideia que o chefe deve veicular para convencer é a da sua eficiência. O Português preza-a acima de tudo, porque é um valor mítico que sabe não estar ao seu alcance.
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Cultura: Dizem que houve, mas agora já não há.
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História: É muito bonita. Os portugueses mantêm com ela uma relação ambivalente: desconhecem-na, por um lado, quase inteiramente — o que lhes permite uma mistificação que não é ingénua — e invocam-na para se desculparem dos descalabros dos séculos mais recentes. Paradoxalmente, sendo um dos povos de identidade mais forte e estabelecida da Europa, preocupam-se sobretudo com a questão metafísica da sua personalidade mítica.
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Língua: Própria. A Língua Portuguesa veio do Latim, mas já foi há imenso tempo. Aos nativos, no entanto, parece não interessar absolutamente nada de onde é que ela veio, e, sobretudo, para onde é que ela vai. O português do ano dois mil — como hoje se prefigura — não terá formas complexas de qualidade alguma. A tendência simplificadora e redutiva que se afirma no vocabulário, na sintaxe e um pouco por todo o lado, fará desaparecer formas como, por exemplo, o saber-se-ia e o poder-se-ia, relegando o coitado do mesoclítico para o fim (saberia-se e poderia-se, se não mesmo saberiasse e poderiasse); a influência da colonização brasileira tenderá a tornar a pronúncia cada vez mais arbitrária e introduzirá estranhos termos arcaicos; dominarão formas de rufianismo linguístico, no pressuposto de que "desde que se entenda, está certo", tendendo a comunicação para o mais elementar dos grunhidos, apoiado pelo mais eloquente dos gestos. "Saberasme dezer por cades ir a Viana?" será, a curto prazo, uma expressão culta.
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Gastronomia: A regra é simples: tudo o que é pesado, é português. Fritos, refogados bem puxados. Vinhos de cair para o lado. Um doce não é doce se não levar as vinte gemas da praxe. É tudo muito bom e tudo faz muito mal. Por via da sua Gastronomia, o verdadeiro dilema moral dos portugueses não é decidir-se entre o Bem e o Mal —para o português, o único valor moral que existe é o que lhe convém —, mas entre rebentar ou viver.
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Anedota: Um homem morre e chega às portas do Inferno; em cada uma das entradas se afixaram as ementas de tormentos e o retrato do diabo responsável. O homem lê:"Guichet n° 1 — Inferno Alemão — Horário dos fogos: 9h-13h; 14h-18h. Gás da Companhia. Descanso semanal. Extras: roda de entortar, chicote, discursos políticos. Não se fazem devoluções." O homem espreita: só duas pessoas esperam junto do guichet. Dirige-se à outra porta, onde se lê o menu do "Inferno Francês — Horário dos fogos: 9.30h-12.30h; 15h.l7.45h. Atendimento personalizado. O diabo-chefe deseja-lhe uma boa eternidade. Não franceses: é favor dirigirem-se ao guichet n° 1." O homem espreita: cinco pessoas esperam entrada naquele inferno. O homem prossegue. Uma porta a que falta a maçaneta anuncia o "Inferno Português — Horário dos fogos: 7.30h-19.30h. Não fazemos intervalo para almoço. Fogos individuais, de grupo e colectivos. Patrulhas de hora a hora, chicote, censuras, culpabilização incluídos. Horrores nunca vistos. Última palavra em tecnologia da dor. Não se aceitam reclamações." Junto ao guichet aglomera-se uma multidão ululante, empunhando maços de documentos oficiais. Todos se empurram para entrar. Os mais velhos passam à frente, alegam dores nas costas, antiguidade. O homem relê o anúncio. Parece-lhe o inferno pior, o mais tenebroso, o mais ameaçador. Chega-se a um pretendente que, na bicha mal-formada, grita para a frente o universal "Então essa merda não anda?". O nosso homem informa-o de que os outros infernos estão às moscas e são muito melhores, mais humanos. O alemão até faz descanso semanal. É então que o homem-da-bicha esclarece, apontando o guichet português que, às dez e meia, ainda não abriu: "Bem vê: aqui, o horário é mais terrível, mas, normalmente, não é cumprido; o mais das vezes não há gás para os fogos; os diabos jogam às cartas o tempo todo e deixam-nos descansados; havia umas chibatas e uns pingalins, mas desapareceram, diz-se que foi o superintendente que os vendeu aos alemães. E os horrores que eles anunciam são um dragão vegetariano a cair de fome e uma figura de cera do Marques Mendes que diz 'Portugueses!' com voz de falsete, quando se mete a moeda. Mas como nunca há trocos, mantém-se de olho semi-aberto e bico calado. E aquela da tecnologia da dor é um tipo magrinho que traz uns alfinetes, mas meteu baixa aí há três meses porque tem a mulher doente e não arranjaram substituto." E o neófito, convertido ao paradisíaco inferno português, integrou-se na bicha para pedir as minutas necessárias e tirar as cento e cinquenta e sete certidões, certificados, registos, cartões, bilhetes, cartas e fotos e poder, enfim, acolher-se à sombra daquele oásis de cândida ineficiência, fabricada com as mais altas intenções.
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Ler 19, 1992, pp. 50-51.
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