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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Daniel Oliveira- Trump perdeu a guerra

» Daniel Oliveira

Trump chegou ao mesmo sítio onde estava antes da guerra. O Irão sairá com 24 mil milhões desbloqueados, petróleo a fluir, urânio em casa com a promessa que sempre fez, um plano de reconstrução e controlo claro do Estreito de Ormuz. E Trump não tem apoio interno, aliados externos e argumentos para recomeçar a guerra daqui a dois meses. Israel tentou sabotar, não conseguiu e está mais isolado do que em qualquer momento desde a sua fundaçãov

Olhemos para o que parece estar em cima da mesa para ser assinado sexta-feira em Genebra. O Irão congela o programa nuclear no estado atual, mas o urânio altamente enriquecido fica no seu território e mantem-se a promessa genérica de não desenvolver a arma nuclear, que sempre existiu e muito provavelmente terá menos garantias do que Obama tinha conseguido e que Trump rasgou. Os EUA libertam 24 mil milhões de dólares em ativos iranianos bloqueados. Levantam as sanções ao petróleo. Comprometem-se a um plano de reconstrução. O programa de mísseis balísticos não parece estar na agenda. O financiamento ao Hezbollah e aos Houthis também não. E, depois destes meses, fica claro o controlo iraniano do Estreito de Ormuz. Um país que perde uma guerra não sai com estas condições.

terça-feira, 3 de março de 2026

Dani,el Vaz de Carvalho -Assim estalou a guerra

3 de março de 2026

"Negociámos com os Estados Unidos duas vezes nos últimos 12 meses, e em ambos os casos, eles atacaram-nos no meio da negociação - disse o MNE do Irão. E assim estalou a guerra. Como terminará?Desde há mais de 30 anos que Israel afirma que o Irão está "a semanas" de ter uma arma nuclear. Quando se trata da intoxicação da opinião pública, não conta o facto de Ali Khamenei ter assumido através de uma fatwa (regra baseada na lei islâmica) o compromisso do Irão de não construir uma bomba nuclear.

O objetivo traçado também há mais de 30 anos é o império dominar o Médio Oriente, perante isto, não contam as vidas dos palestinos nem dos países recalcitrantes a serem submetidos. A questão pôs-se agora com maior acuidade dada a multipolaridade estabelecida. O plano global anti multipolaridade impunha fazer cair o Irão, enfraquecer a Rússia e a China, desarticular o Sul Global e dominar as fontes energéticas.

Que o principal oponente de uma bomba nuclear iraniana tenha sido morto num ataque direcionado, faz parte do esquema. Gente que clama por direitos humanos e direito internacional, refere extasiado o que não passou de um cobarde assassinato no decorrer de negociações. 

Na manhã de sábado, reuniram em Teerão os principais membros da liderança iraniana para avaliarem o andamento das negociações e cedências feitas. Os EUA bombardearam a reunião, matando altos funcionários e o líder supremo Ali Khamenei, provando que as suas negociações são simplesmente uma arma dos objetivos de domínio.

Os grandes media têm por missão a formatação das mentes dentro do padrão estabelecido. Assim, o que quer que o império realize é à partida aceitável e mesmo que existam algumas reticências vêm acompanhadas de um "mas" justificativo

Os ataques dos EUA e de Israel ao Irão fazem simplesmente parte do plano para remodelar o Médio Oriente a seu contento. Para submeter o Irão duas opções foram consideradas: o esquema venezuelano e o esquema sírio. O esquema venezuelano, supunha que eliminando o dirigente máximo e seus próximos o que restasse iria pedir a continuação das "negociações", por assim dizer de "baraço ao pescoço". Falhou.

A opção síria, implica um guerra civil de separatismo e focos de insurgência, como se viu antes, organizados pela CIA e Mossad, baseada na sedução por modelos ocidentais. Os focos de insurgência foram desmantelados, o separatismo agressivo só surgirá se as forças armadas iranianas forem decisivamente enfraquecidas. Resta uma terceira hipótese que Rubio disse que "para já" não se coloca: é a opção Afeganistão. Sem comentários...

Ora estas opções estratégicas dos EUA, encontram um Irão preparado para elas. Afirma o MNE do Irão: "Tivemos duas décadas para estudar as derrotas do exército dos EUA no nosso leste e oeste imediatos", referindo-se ao Afeganistão e ao Iraque. "Incorporámos lições em conformidade. Os bombardeamentos na nossa capital não têm impacto na nossa capacidade de conduzir guerra. A Defesa Mosaica descentralizada permite-nos decidir quando - e como - a guerra terminará".

A Defesa Mosaica é a abordagem de guerra assimétrica do IRGC para combater forças inimigas superiores. Inclui a delegação de autoridade de decisão significativa a comandantes locais (31 unidades autónomas), permitindo que as operações continuem mesmo que o comando central tenha sido decapitado. As táticas estabelecidas incluem a utilização da geografia do Irão (montanhas, desertos, mares), guerrilha, ataques surpresa e ações para perturbar as linhas de abastecimento inimigas. Cada unidade regional é praticamente autónoma com tudo o que é necessário para a guerra moderna, mísseis, drones, barcos de ataque rápido, baterias de defesa costeira, para a Marinha do IRGC. Defesa aérea integrada descentralizada permite a baterias individuais funcionarem como centros de defesa aérea locais. Note-se que o Irão tem uma superfície 1,648 milhões de km2 praticamente o dobro da França e Alemanha juntas e 93 milhões de habitantes.

Outros princípio da Defesa em Mosaico: silêncio de rádio e comunicações, para neutralizar as capacidades de guerra eletrónica dos EUA. Implantação de milícias voluntárias Basij (mais de 450 efetivos) para segurança interna, além de guerrilha de na retaguarda inimiga e defesa em profundidade no caso de uma incursão inimiga por terra.

Os media israelitas afirmam que Trump atacou o Irão para tentar suavizá-los para as negociações. Na véspera da agressão os estrategas militares dos EUA alegadamente esperavam um cenário de "pequena guerra decisiva", no qual os bombardeamentos seriam rapidamente seguidos por negociações de paz. De acordo com um relatório israelita, o planeamento dos EUA na véspera do ataque - ou pelo menos o que Nethanyau convenceu Trump - era para uma "operação de 4-5 dias" que "traria um Irão enfraquecido de volta à mesa de negociações".

Agora muitos começam a perceber que atacar o Irão foi uma "aposta excessiva" e que sem tropas no terreno as esperanças de mudança de regime não são possíveis.

O Irão resiste aos bombardeamentos e retalia não menos violentamente, os petroleiros estão parados no Golfo, há baixas dos EUA nas bases, grande aumento dos preços da energia, risco dos EUA e Israel ficarem sem intercetores à medida que o Irão intensifica os ataques e dos navios - mesmo porta-aviões - serem atingidos.

Publicada por Daniel Vaz de Carvalho à(s) terça-feira, março 03, 2026 

https://foicebook.blogspot.com/2026/03/assim-estalou-guerra.html#more

sábado, 19 de outubro de 2024

Bruno Amaral de Carvalho - Beirute, capital da resistência




Bruno Amaral de Carvalho [*]
 
Uma cidade é feita de muitas contradições, das suas luzes e sombras, dos seus cheiros e sons e, sobretudo, das histórias de quem nela vive. Das costureiras aos artesãos, dos taxistas às cozinheiras. O Líbano é, hoje como no passado, um lugar assediado pelas bombas israelitas, onde mulheres e homens enfrentam a invasão com a dignidade de quem entende estar do lado certo da história. Beirute, uma vez mais, é a capital da resistência.

Esta mulher que está sentada no chão, de negro da cabeça aos pés, na marginal de Beirute, não tem praticamente nada. Não tem nome porque não se quer identificar nem que se lhe mostre o rosto. Um chapéu de sol, um colchão individual de espuma e a roupa que tem no corpo foi tudo o que conseguiu trazer na noite em que Israel começou a bombardear o seu bairro, nos subúrbios a sul de Beirute. Já passou uma semana desde que fugiu de casa com a família. A princípio, lavavam-se num dos muitos hoteis e condomínios de luxo com vista para o Mediterrâneo. Agora, nem isso podem fazer, diz, porque os proprietários se fartaram. Como esta família, há milhares de famílias por todas as partes. No areal da praia, no passeio marítimo, nos separadores e rotundas, em jardins, escolas, em varandas de casas sobrelotadas.

O governo libanês afirma que há, neste momento, um milhão de refugiados, números nunca vistos num país que já foi invadido por Israel quatro vezes, que viveu uma guerra civil e que tinha, até há bem pouco tempo, no seu território, cerca de dois milhões de refugiados palestinianos e sírios. Milhares de libaneses fogem agora para a Síria e para o Iraque. Os ricos fogem de iate para Chipre, numa prova irrefutável de que, como sempre, as tragédias são vividas de forma diferente consoante a classe social a que se pertence. Contudo, Beirute não esquece os seus e, por todo o lado, em cada esquina, é possível ver quem descarregue colchões, garrafões de água e outro tipo de víveres essenciais. E em vários pontos da cidade, organizações políticas recorrem à força para rebentar as portas fechadas de hotéis e edifícios desabitados para abrigar os refugiados, como aconteceu no bairro de Hamra, numa das primeiras madrugadas a seguir aos primeiros bombardeamentos. Num ato de revolta, gritando contra Israel, cerca de meia centena de jovens arrancaram o portão de um prédio vazio e a seguir conduziram várias famílias para o seu interior.

Dahieh, o coração da resistência

Esta mulher que está sentada no chão sem praticamente nada não é de um bairro qualquer. É de Dahieh, e Dahieh é uma espécie de nome maldito para Israel. Todas as noites, sem exceção, a população que vive no bastião do Hezbollah é castigada por apoiar a resistência. Foi aqui que no dia 27 de setembro a aviação israelita lançou 80 bombas com quase uma tonelada de explosivos sobre o quartel-general da organização xiita para matar Hassan Nasrallah e outras figuras importantes. De lágrimas nos olhos, diz ainda não acreditar que morreu. “Precisamos do Hezbollah para nos defender”. Durante quase um dia, o país parou em suspenso. Apoiantes e inimigos, todos esperavam saber da sorte de Nasrallah. Por volta das 14 horas do dia seguinte, gritos e lágrimas tomaram conta das ruas. E mulheres vestidas de negro como esta choraram a morte do seu herói.

O histórico secretário-geral do Hezbollah negociava uma trégua quando foi assassinado por Israel, o mesmo que acontecera ao líder do Hamas, Ismail Haniyeh, no Irão. Então, os Estados Unidos haviam prometido a Teerão que Telavive aceitaria o cessar-fogo se não respondesse ao atentado. Com a cumplicidade dos Estados Unidos, não só isso não aconteceu, como Israel estendeu a sua guerra ao Líbano e intensificou os ataques na Síria e no Iémen.

Caminhar pelo bairro de Dahieh é percorrer ruas completamente destruídas, ver automóveis esmagados e crateras onde antes havia prédios. É um cenário desolador. Sobre uma montanha de destroços, alguém pôs o retrato de Hassan Nasrallah. “Fuck Israel, we will win!”, gritam vários jovens quando se apercebem de que há jornalistas na zona. À Voz do Operário, um militante do Hezbollah que aceita falar sob anonimato recorda o papel do até agora líder da organização. “Era enorme. Tiveram de usar uma tonelada de explosivos para o matar. Prevaleceremos e venceremos”, afirma.

Há, neste momento, por parte de Israel, uma campanha de assassinatos de dirigentes das principais organizações da resistência libanesa e palestiniana. No bairro de Kola, em Beirute, a aviação israelita destruiu três andares de um prédio para matar três destacados militantes da Frente Popular para a Libertação da Palestina, a histórica organização comunista que combate ao lado do Hamas e outras forças da resistência contra as forças de Israel em Gaza e na Cisjordânia.

A violência do ataque atirou varandas de ferro para o outro lado da rua. Ali, num descampado debaixo de um viaduto, centenas de documentos, livros e cartazes jaziam inertes como prova de fogo. Um documento de saudação à libertação de Lula da Silva da prisão, um cartaz com Fidel Castro a discursar em Havana e o retrato de Lénine eram alguns dos objetos que se podiam encontrar no local. No dia seguinte ao ataque, milhares de palestinianos e libaneses acompanharam o funeral que percorreu os vários campos de refugiados.

Israel ataca hospitais e centros de saúde

O Hospital Rafik Hariri fica ao lado do campo de refugiados palestinianos Mar Elias e demasiado perto de Dahieh. É o maior centro hospitalar de Beirute, com espaço para 550 pacientes. Todos os dias chegam aqui mulheres e homens vítimas das bombas de Israel. Neste momento, 80% da capacidade ocupada corresponde a feridos de guerra. “Até ao momento, temos reduzido ao máximo casos que podem ser adiados. Queremos todas as camas para as vítimas da guerra”, explica Jihad Sade, o diretor hospitalar, no seu gabinete. Com a experiência de quem já viveu várias invasões israelitas, descreve os trabalhadores que dirige como muito preparados para tratar o tipo de feridas mais comuns neste cenário de conflito.

Com o número de mortes provocadas por Israel desde 8 de outubro de 2023 a chegar aos 2 mil, incluindo 127 crianças, Jihad Sade diz que é imprevisível o comportamento de Telavive em relação aos equipamentos de saúde. Em Bachoura, um bairro central de Beirute, Israel atacou um centro de saúde durante a noite e matou nove profissionais de saúde. Como em Gaza, as forças israelitas não têm linhas vermelhas e ao fecho desta edição tinham morto já 73 destes trabalhadores em diferentes partes do país.

De acordo com este médico, a guerra vai acabar quando houver respeito entre todos. “Dêem direitos [aos palestinianos]. A força é temporária e o conflito não vai acabar se não respeitarem os direitos [dos palestinianos].

07/Outubro/2024

[*] Jornalista.

O original encontra-se em vozoperario.pt/jornal/2024/10/07/beirute-capital-da-resistencia/