Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sábado, 18 de julho de 2026
Raquel Varela - [Ensino, exames e pedagogia]
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Raquel Varela - [O que não deve ser a Escola]
terça-feira, 16 de junho de 2026
«A Emília» - Livro de Leitura da 1.ª Classe (oficial e único do Minho a Timor)
No livro da 1º CLASSE antes do 25 de abril havia um texto sobre a 'Emília' que queria ser uma dona de casa- É possível aceder a esse texto?
Sim, é possível recordar e aceder a esse texto! Esse é um
dos exemplos mais citados quando se analisa o papel da mulher e a ideologia de
género transmitida através do sistema educativo durante o Estado Novo (antes do
25 de Abril de 1974).
O texto em questão pertencia ao Livro de Leitura da 1.ª
Classe (oficial e único na altura) e reflete perfeitamente o ideal da época
de que o destino primordial da mulher era a vida doméstica, o casamento e a
maternidade.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
António Rodrigues - A minha vida por um ecrã — apagado
O mundo que se conta a partir do que se diz.
* António Rodrigues
29 de Maio de
2026
“Algumas das maiores empresas da história da
humanidade não lutam para ganhar a sua atenção ou para merecer a sua atenção.
Estão a tentar roubá-la”, Jonathan Haidt, psicólogo social norte-americano
A Suécia
assumiu a vanguarda no que diz respeito à digitalização da sua educação e quase
tão depressa como deu ecrãs às crianças para substituir o papel e a caneta,
diminuir a interacção pessoal e fornecer as bases para navegação à bolina dos
seus filhos nos mares da tecnologia está a arrepiar caminho e a regressar ao
básico da educação: livros, cadernos, esferográficas e professores de carne e
osso, com ecrãs desligados e fora da sala de aula.
A Suécia tinha
criado a educação do futuro até se ver a braços com um presente envenenado.
Depois de quedas abruptas nas provas internacionais de compreensão leitora, o
Ministério da Educação voltou aos manuais em papel, proibiu os ecrãs para
menores de seis anos e restringiu o uso de telemóveis durante o período de
aulas.
Os suecos não são os únicos a sentir na pele a necessidade de regressar em
força ao analógico. Estavam mais avançados que muitos outros, por isso, tiveram
os resultados antes, mas noutras latitudes começa-se a chegar às mesmas
conclusões.
Randi
Weingarten, presidente de uma das mais importantes associações de professores
dos Estados Unidos, a Federação Americana de Professores (AFT, na sigla em
inglês), dizia nesta semana, num discurso intitulado Devices down, eyes up, hands-on: 10
points to boost student learning and success in the AI era, que “as
crianças são resistentes, mas muitas vezes, não estão bem”, e uma das
principais causas para isso é que “estão afundadas em tecnologia”.
“O ritmo desta
revolução tecnológica tem sido vertiginosamente rápido e as crianças estão a
ficar queimadas”, disse Weingarten, antes de recomendar dez medidas para
defender os estudantes da disrupção causada pela inteligência artificial (IA).
“A ubiquidade da IA torna ainda mais importante o pensamento crítico e o
conhecimento aplicado. Os estudantes têm de ir além da memorização de factos e
aprender a verificá-los, desafiá-los e sintetizá-los em novas ideias.”
Higienização
O tema está
aberto a papers de investigadores até 25 de Setembro de 2026 e pretende
ajudar à discussão crítica sobre a forma como as imagens de guerra são geradas,
propagadas e recebidas nos ambientes de media, e como a sua “circulação,
enquadramento e modulação” acabam por influir na perspectiva da opinião pública
sobre os conflitos.
Criado pelo
Frontiers, um dos maiores sites abertos de estudos científicos de
revisão por pares, o tópico abre um leque enorme de possibilidades de abordagem
na cobertura de guerras, que podem ir da simples adulteração de imagens até aos
critérios editoriais usados na selecção do que transmitir e não transmitir, dos
ângulos para olhar e das perspectivas de análise.
“Os ritmos mediáticos e a densidade narrativa
não afectam só a percepção; podem também ter um papel no processo de tomada de
decisão política, da construção da legitimidade e a governança da informação em
tempos de conflito”, lê-se no site.
“À força de fazer desfilar as notificações, os
alertas e as imagens de guerra nos nossos ecrãs, muitos dão por si a não sentir
absolutamente nada”, escreve Nina Parage no site Psychologes. “Catástrofes climáticas, conflitos armados,
acontecimentos violentos: a actualidade ansiógena parece produzir um ruído de
fundo cruelmente banal.”
O uso cada vez maior de meios digitais para
travar as guerras, e a mediação editorial cada vez mais acentuada para as
mostrar, correm o risco de higienizar a morte e a destruição transformando
aquilo que deveria ser o último recurso da política, como uma forma banal de
impor as perspectivas de uns às perspectivas de outros.
E, como lembravam ainda recentemente, Lee-Ann
d’Alexandry, Fabien Girandola e Lionel Souchet num artigo no site The Conversation: “A psicologia social mostra que aquilo
que julgamos ‘aceitável’ não é nem natural nem estável: constrói-se
colectivamente, ao longo das interacções, dos discursos e das repetições.”
Atenção
A Meta, a
empresa de Mark Zuckerberg que detém o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e o
Threads, está avaliada em mais de um bilião de dólares (trillion em
inglês), mesmo não cobrando aos seus seguidores para interagirem na rede
social. Tudo porque “inventou um modelo de negócio que extrai atenção de quase
metade de todos os seres humanos e a vende a anunciantes”, diz Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa.
“Outros
sectores seguiram o mesmo caminho: videojogos, encontros, apostas — até o
investimento foi ludificado e optimizado para nos manter a olhar e a deslizar o
ecrã. Todos já tivemos a experiência de pegar no telemóvel, talvez por uma boa
razão, e, uma hora depois, darmos por nós a fazer scroll de forma
automática. Não é um acidente. É isso que os nossos telemóveis e aplicações
foram concebidos para fazer.”
Na sua
intervenção, na formatura da Universidade de Nova Iorque no dia 14, publicada
na revista The Atlantic, Haidt lembra o famoso discurso do
escritor David Foster Wallace na formatura do Kenyon College em 2005: “O
verdadeiro significado da educação para pensar, que supostamente devemos
receber num lugar como este, não é, realmente, sobre a capacidade de pensar,
mas sim sobre a escolha daquilo em que pensar.” Mais de 20 anos depois, há
muito sem Foster Wallace entre nós, “muitos homens poderosos e grandes empresas estão
a tentar tirar-vos essa opção”, afirmou Haidt.
Dar valor à nossa atenção é importante porque
se para a Meta vale um bilião de dólares, para nós é incalculável. Aceitar a
informação de mão beijada, os pensamentos já digeridos, os caminhos que os
ecrãs luminosos nos apontam como única via, condenam-nos à dependência, a
escolher lados, a atirar argumentos automáticos como bolas de neve (ou granadas
de mão), a perder tempo com o acessório quando outros ditam o essencial.
Como disse
Foster Wallace naquele dia, no Kenyon
College, “as realidades mais óbvias e importantes são, muitas vezes, as que
mais custa ver e discutir”.
Empatia
Uma das piores
expressões que o capitalismo cunhou é essa ideia de que nada é pessoal, são só
negócios. Argumento terrível que desresponsabiliza as empresas do seu papel
social, arranca-lhes o humanismo e prescinde da ética no seu comportamento,
pois tudo se resume à garantia do lucro para os seus accionistas.
Nestes tempos
política e economicamente conturbados, marcados pela instabilidade geopolítica
e pela aceleração tecnológica, os líderes empresariais precisam de tomar
decisões com janelas cada vez mais curtas e instáveis. “Nestas condições, a
carga cognitiva associada à tomada de decisões aumenta e a tolerância à
ambiguidade diminui”, escreve Merete Wedell-Wedellsborg, psicóloga clínica
especialista em psicologia organizacional. “Do ponto de vista da liderança,
aquilo que, em contextos estáveis, podia ser visto como ponderado e inclusivo
pode começar a parecer lento, indeciso ou avesso ao conflito.”
A empatia já
não abunda em muitos ambientes empresariais extremamente competitivos, em que
se tomam decisões com a faca nos dentes e a disposição de matar ou morrer.
Nestes tempos difíceis e de alto grau de imprevisibilidade, com muitas relações
profissionais estabelecidas e mantidas através de meios tecnológicos, os
terrenos para a empatia medrar tornam-se ainda mais estéreis.
No entanto,
como refere Wedellsborg no site do International Institute for
Management Development, “correr para declarar o fim da empatia arrisca criar
uma falsa dicotomia”, porque o que está em causa não é se “a empatia interessa,
mas como é integrada”. Abandonar a empatia na gestão poderá “erodir a
confiança, reduzir o esforço discricionário e estreitar a perspectiva — tudo
factores que podem tornar-se estrategicamente perigosos”.
Para a autora
de Battle Mind: How to Navigate in Chaos and Perform Under Pressure, a
inteligência emocional ainda é necessária. Neste mundo de força bruta e fria
tecnologia, é o garante da manutenção do lado humano do gestor. Até porque, se
se limitar a ser apenas máquina, máquinas haverá para o substituir.
domingo, 16 de novembro de 2025
José Pacheco Pereira - O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação
domingo, 21 de setembro de 2025
"Estamos a chegar a um ponto em que a escrita parece toda igual. Antes da IA os estudantes podiam dar erros, mas escreviam com mais alma"
Joana Pereira Bastos (Jornalista) e Nuno Botelho (Fotojornalista)
18 setembro 2025
Qual é a origem de alguns dos nomes e apelidos mais comuns
em Portugal? De onde vem a palavra ‘azul’? Por que razão usamos o ‘h’ no início
de algumas palavras se não o lemos? Estas são apenas algumas das muitas
curiosidades exploradas nos vídeos partilhados por Marco Neves que têm feito
sucesso nas redes sociais. Só em agosto tiveram 10 milhões de visualizações Qual
é a origem de alguns dos nomes e apelidos mais comuns em Portugal? De onde vem
a palavra ‘azul’? Por que razão usamos o ‘h’ no início de algumas palavras se
não o lemos? Estas são apenas algumas das muitas curiosidades exploradas nos
vídeos partilhados por Marco Neves que têm feito sucesso nas redes sociais. Só
em agosto tiveram 10 milhões de visualizações
Marco Neves é linguista e professor na Universidade Nova de Lisboa. Mas são os vídeos que partilha nas redes sociais sobre a origem das palavras e outras curiosidades que fazem dele, atualmente, o maior divulgador de conhecimentos sobre a língua portuguesa em Portugal
Há dois anos, Marco Neves começou a partilhar nas redes sociais vídeos sobre a origem das palavras e outras curiosidades da língua. O sucesso não se fez esperar. Tem quase 380 mil seguidores e 72 milhões de visualizações só este ano
O que o levou a fazer estes vídeos?
O que explica o seu sucesso?
O discurso sobre a língua sempre esteve muito tomado por uma perspetiva de dizer o que está certo ou errado do ponto de vista da ortografia e da gramática, o que é muito limitado. Eu tentei mostrar que há outras coisas que interessam às pessoas, como a origem das palavras e dos nomes, as diferenças entre regiões ou entre os vários países que falam português. A língua também é uma maneira de nos identificarmos com os grupos a que pertencemos — a cidade, a região, o conjunto de amigos ou a classe social. Pode parecer um pouco feio falar disto, mas a verdade é que as pessoas identificam-se socialmente pela forma como falam.
Qual é a dúvida ou pergunta que lhe colocam mais vezes?
Penso que há uma série de conhecimentos técnicos que talvez sejam introduzidos demasiado cedo. Se começarmos pelo telhado, não corre bem. Antes de mais, é preciso criar o gosto por ler e escrever.
Os clássicos dados na escola são bons para fomentar o gosto pela leitura?
Os clássicos fazem parte do nosso património cultural, e a escola tem de continuar a transmiti-los, ainda que possa descobrir formas novas de os abordar. Por exemplo, há muitos tiktoks sobre os clássicos da Jane Austen que fizeram sucesso nas redes, e a escola pode aprender com estas novas abordagens. Por outro lado, pode acrescentar à lista de leituras livros sugeridos pelos próprios alunos.
Muitos livros transformaram-se em fenómenos de vendas graças
ao TikTok. Têm qualidade para serem dados nas escolas?
As pessoas recorrem cada vez mais à inteligência artificial
quando têm de fazer um texto. Isso vai diminuir a capacidade de escrita?
A linguagem usada nos telemóveis e nas redes sociais acabará por provocar alterações no português?
Há uma parte central da língua que não muda muito. Por isso é que conseguimos ler poesia medieval e perceber grande parte dela. Mas, à superfície, está sempre a mudar, e não sabemos o que vai ficar disso. Por exemplo, nos anos 1980 ninguém sabia se o ‘bué’ ia perdurar, mas perdurou, enquanto outras palavras que dizíamos na altura não ficaram. As transformações da língua à superfície são normais e sempre aconteceram. A questão é que hoje, com a internet, são mais rápidas e mais globais. Nos anos 1970/80, se fosse preciso, cada escola tinha o seu calão. Mas agora o movimento é internacional e muitas vezes baseado em palavras inglesas. No entanto, a maior transformação provocada pela internet não é essa.
Qual é?
A internet provocou um uso muito mais intenso da escrita. Quando eu tinha 15 anos, nos anos 1990, nunca comunicava com os meus amigos pela escrita, mas apenas oralmente. Falava ao vivo ou telefonava. A escrita quase só era usada em contextos formais, de escola ou de trabalho. O único uso informal eram as cartas, mas ninguém as escrevia todos os dias. Isso mudou de forma radical. Hoje, as pessoas namoram, conversam ou insultam-se pela escrita. Nunca escreveram tanto como agora, sobretudo do ponto de vista informal. O que ajuda a explicar algumas dificuldades que sentimos ao usar a escrita de forma informal — por isso é que usamos os emojis, para compensar a falta do olhar, da expressão, dos gestos... Esta transformação levará a uma aproximação dos vários registos na escrita, e o formal terá tendência de já não o ser tanto.
“Em poucas décadas, Angola e Moçambique, juntos, terão mais população do que o Brasil, o que significa que o continente onde o português vai ser mais falado será África e não América do Sul”
O que mais o fascina nas línguas?
Perceber que cada palavra tem uma história. Por exemplo, o ‘azul’, que é a minha palavra preferida, vem do persa, por causa das rotas da seda, depois passou pelo árabe, chegou ao latim e finalmente ao português. Outra palavra interessante é ‘jaguar’, que vem de uma língua sul-americana, o tupi, e que usamos em Portugal, enquanto os brasileiros, curiosamente, usam uma palavra latina (‘onça’) para se referirem ao mesmo animal. As palavras revelam muito da história dos povos e dos seus intercâmbios, e isso é fascinante, em todas as línguas. No português, em particular, fascina-me o facto de ser um arquipélago, já que nenhum dos países que fala português faz fronteira com o outro. Isso não acontece noutras línguas e cria uma dinâmica muito própria.
Em que sentido?
O Brasil tem uma dimensão esmagadora, e isso alimenta algum receio e narrativas de superioridade no que diz respeito à língua. “Nós é que sabemos, porque somos 200 milhões”, pensam os brasileiros. “Nós é que sabemos, porque nós é que a inventámos”, dizem os portugueses. Mas, em poucas décadas, Angola e Moçambique, juntos, terão mais população do que o Brasil, o que significa que o continente onde o português vai ser mais falado será África e não América do Sul. O centro de gravidade do português vai mudar.
É verdade que a palavra ‘saudade’ só existe em português?
https://expresso.pt/semanario/ideias/2025-09-18-estamos-a-chegar-a-um-ponto-em-que-a-escrita-parece-toda-igual.-antes-da-ia-os-estudantes-podiam-dar-erros-mas-escreviam-com-mais-alma-dbfc96e7
quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Patrícia Reis - O estado da Nação
sábado, 27 de julho de 2024
José Pacheco Pereira - Porque é que na “geração mais preparada de sempre” a ignorância cresce?
Opinião
A ascensão da ignorância agressiva e o ataque ao
saber são perigosos para a democracia e liberdade.
* José Pacheco Pereira
27 de Julho de 2024
Este é o tipo de artigos em que já se sabe de antemão as críticas, mais “bocas”
do que críticas, que vai receber. Passadista, “velho do Restelo”, velho tout court, arrogante,
reaccionário, antiquado, com incompreensão do que é a “nova” geração e as
mudanças culturais em curso, com uma visão ultrapassada do que são as novas
“competências”, não compreendendo os novos “saberes”, preso a um mundo que já
acabou e a um elitismo sem sentido numa sociedade muito mais igualitária, em
que os “saberes” do passado são inúteis. Muito bem, é tudo isto, mas, mesmo
assim, reafirmo que o mundo cultural circulante nos dias de hoje é
particularmente pobre, é pobre de referências, é pobre de “histórias”, é pobre
de vocabulário, e alimenta uma ignorância agressiva, em particular nas redes
sociais, e isso é péssimo para a democracia. Ainda mais, é um mundo que pela
sua fragilidade cultural é particularmente sensível às modas, sem qualquer
distanciação e consistência.
Tenho consciência de que este tipo de catastrofismo cultural, ainda por cima com uma componente geracional, é recorrente na história, tem características comuns que se repetem e tem-se revelado muitas vezes errado. É cíclico nas suas lamentações dos “velhos” para as gerações mais novas, mas se há coisa que a história também revela é que, às vezes, existe mesmo decadência. É um pouco aborrecido estar com estes caveats todos – aqui está uma palavra em desuso –, mas a ascensão da ignorância agressiva e o ataque ao saber são perigosos para a democracia e liberdade. Decadência é outra palavra maldita. 250 palavras gastas com prevenções.
Aqui há alguns anos eu dei aulas partilhadas com Jaime Gama sobre “relações
internacionais” no ensino superior. Nos dias de exames, verifiquei que muitos
alunos corriam à secretaria para obter um adiamento, “porque fazia muitas
perguntas difíceis”. Tentei perceber quais eram as “perguntas difíceis” e de
onde vinha o medo. Consegui identificar a origem num exame em que o tema que o
aluno estava a expor eram os eventos da Revolta Húngara de 1956, que ele
conhecia minimamente. De repente, suspeitei de algo estranho e perguntei-lhe
esta simples coisa: onde é que é a Hungria. Pânico, e completa ignorância onde
era a Hungria, onde estava o Danúbio, e após tentativas e erros a Hungria
ficava para os lados do Cazaquistão. Comecei então a fazer perguntas deste tipo
e estas eram as “perguntas difíceis”.
Daumier DR
Tratava-se de estudantes do ensino superior prestes a acabar a licenciatura. Mas, andando para trás e para a frente, tenho as mais sérias dúvidas que seja possível hoje ler a grande maioria da grande literatura portuguesa, Camões, Camilo, Eça, por exemplo, mesmo que, no caso de Eça, seja um dos raros autores ainda presente numa lista de leituras em grande parte jornalística. Em linhas gerais, a parte narrativa de alguns livros que ainda sobrevivem talvez subsista, mas duas grandes fontes da nossa cultura ocidental desapareceram do saber circulante: a Bíblia e a cultura greco-latina. Ora, duvido muito que textos literários que falam como quem respira de Orfeu, Sísifo, David, Golias, da Guerra do Peloponeso, de Marte, de Salomão, do Bom Samaritano, de Péricles, da “voz clamando no deserto”, de Abraão, de Ulisses, do Cavalo de Tróia, de Homero, mesmo de Caim e Abel, de César Augusto, de Esparta, do Hades, de Diana, a caçadora, de Herodes, etc., etc., hoje signifiquem alguma coisa. O mesmo para muitas lendas, metáforas, ditos, alcunhas, etc.
O mundo cultural da “geração mais preparada” é como o das conversas dos participantes do Big Brother. Vale a pena ouvir, uma mistura que não passa de uma espécie de psicologia barata. E tem um público jovem
É importante saber-se isto? Claro que é, por uma razão muito simples: é que não
se sabendo é-se mais pobre da cabeça, até porque com esta ignorância vem um
pacote de um mundo mais desértico. Há excepções, como é óbvio, mas as excepções
não contam. O mundo cultural da “geração mais preparada” é como o das conversas
dos participantes do Big Brother. Vale a pena ouvir, uma mistura que não passa
de uma espécie de psicologia barata, e não é por acaso que uso esta comparação
porque um dos alicerces desta ignorância agressiva é mesmo esse tipo de
conversa, que vai muito para além da Casa e dos comentadores em estúdio. Ele
estende-se aos/às influencers e ao mundo das redes do
Chega, raiva, ressentimento, sentimentalismo barato, pseudodepressões, “bocas”,
erros de ortografia, escasso vocabulário, e muita, muita ignorância. E tem um
público jovem.
O mundo não está brilhante, porque este tipo de gente é particularmente fácil
de manipular.
O autor é colunista do PÚBLICO
sexta-feira, 3 de novembro de 2023
Joana Pereira Bastos - IA obriga faculdades a mudar avaliação de alunos
SOCIEDADE INTELIGÊNCIA
ARTIFICIAL
Ensino
superior Um ano depois de ter sido criado, o ChatGPT, ferramenta capaz
de produzir textos em qualquer área, generalizou-se, gerando dúvidas sobre
autoria de teses e trabalhos. Universidades já estão a mudar regras de
avaliação
IA obriga
faculdades a mudar avaliação de alunos, por
JOANA PEREIRA BASTOS
2023 11 03
No passado ano
letivo, Rui Sousa Silva, professor da Faculdade de Letras da Universidade do
Porto, pediu um trabalho académico a uma turma de 50 alunos do 1º ano. Quando
começou a corrigi-los, notou algo estranho: nenhum dos trabalhos continha um
único erro ortográfico ou gramatical, nem sequer uma pequena gralha, coisa
nunca antes vista. E as frases eram curtas e diretas, sem orações intercalares,
um estilo típico do inglês mas pouco frequente na escrita portuguesa.
Independentemente do conteúdo e do tema, que variava, a estrutura era
praticamente igual em todos. Especialista em linguística forense, o docente
rapidamente concluiu: “Estes textos não foram escritos por humanos.”
Na altura, o
ChatGPT ainda era muito recente. Numa das aulas, Rui Sousa Silva tinha
conversado com os alunos sobre esta ferramenta de inteligência artificial (IA)
generativa que reproduz a linguagem humana na perfeição e é capaz de responder
a perguntas e gerar, em poucos segundos, textos completos em qualquer área e à
medida das instruções que recebe, desde poemas a ensaios ou teses académicas.
Deixou claro que podiam usá-la para apoio na pesquisa, mas nunca para a
realização integral dos trabalhos. Por isso estranhou que tivessem contrariado
as suas indicações. Mas a análise linguística que tinha feito dos textos
entregues pelos estudantes não oferecia dúvidas, assim como o facto de nenhuma
das dissertações fazer referência aos autores que tinham sido abordados em
aula. Quando os confrontou, a grande maioria dos alunos acabou por admitir que
o verdadeiro autor dos trabalhos era o ChatGPT.
Criada há um
ano, a ferramenta generalizou-se rapidamente, ultrapassando em apenas dois
meses a marca dos 100 milhões de utilizadores a nível mundial e
transformando-se no software com o crescimento mais rápido da História. Para as
universidades, nunca nada foi tão potencialmente disruptivo. Ao acelerar a um
ritmo inimaginável a capacidade de pesquisa e cruzamento de fontes, as
aplicações de IA generativa, como o ChatGPT ou o Bard, por exemplo, podem
ajudar a produção científica e, em última análise, fortalecer a aprendizagem;
mas, ao mesmo tempo, são capazes de minar a integridade da avaliação dos alunos
e até reduzir a sua capacidade de reflexão se os estudantes se limitarem a
pedir à máquina que pense por si e a reproduzir acriticamente os textos gerados
por esta.
Em todo o
mundo, as instituições de ensino superior estão ainda a tentar perceber como
adaptar-se à nova realidade. Algumas universidades de referência, como a
francesa Sciences Po, proibiram estas ferramentas, mas a maioria acredita que é
impossível travar o seu uso. Por isso muitas optaram por permitir esta
tecnologia e até incentivar a sua utilização, desde que com regras e com
ajustes ao modelo de avaliação. É essa também a tendência em Portugal.
“As tecnologias
de IA no ensino não podem ser proibidas. Não há como. Dessa forma, pelo
contrário, devem ser utilizadas por todos, em condições controladas, para se
perceber como se pode tirar partido delas para aumentar a eficiência da
aprendizagem sem pôr em causa o treino e aquisição de competências”, defende
Rogério Colaço, presidente do Instituto Superior Técnico, frisando que os
alunos têm de perceber que “não as poderão usar de forma acrítica ou
fraudulenta”. Para o evitar, devem reforçar-se as avaliações presenciais, diz.
Em alguns
cursos da Universidade do Minho já foram mesmo introduzidas alterações na
avaliação, “promovendo-se a substituição de trabalhos escritos por provas
orais”. Também no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), em Lisboa,
foram aprovadas pelo Conselho Pedagógico várias recomendações no sentido de
privilegiar avaliações presenciais, como exames ou trabalhos elaborados nas
aulas. Os que forem realizados fora das salas terão de contemplar uma
apresentação oral com um peso significativo na nota — entre 50% e 60% no caso
de teses de mestrado e doutoramento — para “confirmar a autoria do trabalho”. E
será exigido aos alunos que declarem em que tarefas ou fases da investigação
usaram estas tecnologias. “Fugimos do modelo proibicionista. A nossa ideia é
mitigar os riscos da utilização da IA generativa, potenciando as suas
vantagens”, explica Tiago Cruz Gonçalves, professor do ISEG e membro do grupo
de trabalho que produziu estas recomendações.
ERROS,
FALSIDADES E ALUCINAÇÕES
Nas suas aulas,
o docente ajuda os alunos a usar o ChatGPT ou o Bing para melhorarem a
pesquisa, alertando-os para os riscos: ao recorrerem a uma quantidade
gigantesca de informação disponível na internet sem distinguir o que é
verdadeiro ou falso, estas ferramentas podem reproduzir erros e fontes que não
são fiáveis e replicar “enviesamentos cognitivos”, geográficos ou de género,
por exemplo.
Na Escola de
Tecnologias Aplicadas do ISCTE este tipo de formação é obrigatória para os
estudantes de todas as licenciaturas. No módulo Trabalho Académico com IA os
jovens aprendem a usar devidamente estas aplicações, até porque a qualidade dos
textos produzidos depende da forma mais ou menos sofisticada como lhes forem
dadas as instruções e for formulada a pergunta ou o pedido. E ganham
consciência das limitações desta tecnologia — que não são poucas. “O ChatGPT
tem grande dificuldade em apresentar os dados que sustentam as afirmações que
produz e não refere as fontes em que se fundamenta. Quando pedimos as
referências bibliográficas em que se baseia, muitas vezes alucina e inventa,
invocando artigos científicos que não existem”, adverte o diretor da escola,
Ricardo Paes Mamede.
Ainda assim, o
docente considera que a ferramenta “é muito boa a organizar e sintetizar
argumentos” e tem uma ótima qualidade de escrita, “melhor do que a da maioria
dos alunos”. Foi isso, aliás, o que o levou a perceber que a tese de mestrado
que um orientando lhe apresentou não tinha sido produzida por ele mas pela
aplicação. Conhecia bem a escrita do aluno e não batia certo com o que via à
sua frente. “Do ponto de vista da estrutura do texto e da redação, foi a
dissertação mais bem escrita que já alguma vez vi”, diz. Mas, além de
constituir uma fraude, a tese não era apresentável, por não conter quaisquer
referências ou citações ao longo do texto nem fundamentar as afirmações,
violando um princípio básico da ciência.
Ricardo Paes
Mamede deu duas opções ao aluno: ou refazia a tese por ele próprio ou tinha de
referir as fontes em que esta se baseava. Sem conseguir encontrá-las, o jovem
acabou por apresentar uma dissertação efetivamente sua, usando a aprendizagem
do ChatGPT apenas para melhorar a sua redação. “Pode estar menos bem escrita ou
pior estruturada, mas é dele, é original, e refere as fontes que consultou.
Isso é o mais importante”, salienta. Agora, o diretor do ISCTE Sintra incentiva
os estudantes a recorrerem à IA generativa sobretudo para rever e aprimorar os
textos que produzem, melhorando a escrita e a estrutura. Desse modo aprenderão
a dominar uma tecnologia emergente respeitando princípios éticos e científicos.
HUMANO VS.
MÁQUINA
Depois do
surgimento do ChatGPT, muitas plataformas de deteção de plágio usadas pelas
universidades receberam atualizações para abranger também a deteção de escrita
gerada por inteligência artificial, indicando o grau de probabilidade de
determinado texto ter sido escrito por uma máquina. Um pouco por todo o mundo,
os professores têm recorrido a estes softwares para perceber se há fraude na
autoria dos trabalhos, mas os resultados ainda são pouco fiáveis.
Foi o que Rui
Sousa Silva comprovou. Sendo especialista em linguística forense e deteção de
plágio, conseguiu perceber a fraude, depois confessada pelos alunos, mas o
software foi incapaz de a detetar. E também já foram reportados casos em que
aconteceu o oposto, isto é, em que o software gerou “falsos positivos”. Por
exemplo, uma destas plataformas apontou como muito provável a Constituição dos
EUA ter sido escrita pelo ChatGPT. Assim sendo, há a possibilidade real de
alunos inocentes serem injustamente acusados e de colegas fraudulentos
escaparem impunes. “Todas as ferramentas que vi até agora falham bastante na
deteção da IA. E pairar um ambiente de dúvida é muito pouco saudável”, diz o
docente.
André Casado,
professor na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica,
confrontou-se este ano com o peso dessa incerteza. A tese de mestrado de um
aluno seu na área de Marketing foi classificada pelo software usado pela
instituição como tendo uma probabilidade superior a 50% de ter sido escrita por
IA, mas o estudante não assumiu. “Não temos como provar”, assume o professor. É
a palavra de um humano contra o veredicto de uma máquina sobre se a tese é,
afinal, do humano ou da máquina.
Entre tantas
incertezas, as universidades estão ainda a refletir sobre como devem proceder.
Ninguém duvida das potencialidades desta tecnologia, mas são também muitos os
receios. “Pode ser bastante enriquecedora para o ensino e para a ciência. Mas
se for usada sem controlo, vai acabar por condenar o pensamento e a escrita”,
teme Rui Sousa Silva.
FRASES
“Não há como
proibir as tecnologias de IA no ensino. Por isso, devem ser usadas por todos,
em condições controladas, para se perceber como se pode tirar partido delas”
Rogério
Colaço
Presidente do
Instituto Superior Técnico
“O ChatGPT
pode ser bastante enriquecedor para o ensino e para a ciência. Mas se for usado
sem controlo, vai acabar por condenar o pensamento e a escrita”
Rui Sousa
Silva
Professor da
Faculdade de Letras do Porto
sábado, 9 de setembro de 2023
António Guerreiro - A mais bela profissão do mundo
CRÓNICA ACÇÃO PARALELA
* António Guerreiro
8 de Setembro de 2023
A escola perdeu
os atractivos da beleza e ganhou a imagem de um cúmulo de deficiências e
problemas.
A escola é cada
vez mais esmagada pelo peso das ansiedades NELSON GARRIDO
Reinício do ano
lectivo, tempo de examinar as doenças da escola e sondar o mal-estar dos
professores. Um jornal, com vocação crítica desde o seu nascimento, fala da
“crise dos professores” e analisa as causas do desinteresse pela “mais bela
profissão do mundo”. As aspas, não sou eu que as coloco por estar a citar o
dito jornal; é o jornal que se encarrega, através das aspas, de dizer que está
a citar uma frase que nos foi transmitida pela tradição. Mas neste caso as
aspas também significam outra coisa: que a expressão já não pode ser dita sem
recuo, e só um ingénuo ousaria repeti-la sem aspas. A “mais bela profissão do
mundo”, é dito logo no início do artigo, deixou de ser interessante e, por
isso, atrai cada vez menos candidatos e provoca cada vez mais o abandono dos
que nela entraram, por causa de condições de trabalho cada vez mais difíceis e
uma remuneração pouco atractiva.
O jornal em
questão não é português, é francês, chama-se Libération e
analisa o estado da “Éducation nationale”, o mito republicano por
excelência. Mas também podia ser um jornal português,
espanhol, italiano, alemão (sim, até a escola alemã se debate com uma imensa
falta de professores e uma degradação das condições de trabalho que leva muitos
a abandoná-la). A escola, a mais bela instituição do mundo (sem aspas), ainda
que as suas práticas tenham sido tantas vezes criminosas, perdeu os atractivos
da beleza e ganhou a imagem de um cúmulo de deficiências e problemas.
Como toda a
gente passou pela escola, toda a gente tem qualquer coisa a dizer sobre ela.
Mas em Portugal ninguém sabe muito bem o que se passa no seu interior, é tudo
exterior.
Há pouco tempo,
um estudante italiano, tendo concluído o exame de maturità que
dá acesso à Universidade, escreveu um testemunho cruel da sua experiência,
publicado num jornal. Por cá, estamos a precisar deste tipo de testemunhos, tal
como precisamos de um discurso dos professores mais analítico, não
exclusivamente centrado sobre questões sindicais e as condições pragmáticas de
trabalho (por mais legítimo que seja este discurso, ele é insuficiente).
É esta falta
que me convida aqui a falar de dois livros, de uma grande escritora francesa,
Nathalie Quintane, que é professora de um collège há mais de
30 anos (no sistema de educação francês, o collège corresponde
ao ciclo de estudos que se segue aos quatro anos de ensino básico, abrange,
portanto, os alunos dos 11 aos 15 anos). Trata-se de Un hamster à
l’école e de J’adore aprendre plein de choses. No
primeiro, o de maior fôlego (mas o segundo é talvez mais maldoso e sarcástico),
Nathalie Quintane faz um retrato da “Éducation nationale”, num texto que
é um longo poema em verso livre, narrativo, entre autobiografia e reflexão, que
atravessa os seus anos de aluna e os de professora. O género e o discurso nada
convencionais deste texto justificam-se inteiramente: para criticar a instituição
escolar é preciso inventar uma língua que é estranha à instituição escolar.
A metáfora do
hamster que corre para lado nenhum, fazendo mover uma roda que está sempre no
mesmo sítio e que atinge uma tal velocidade que os seus raios até produzem uma
ilusão óptica, serve para traçar a imagem de um trabalho repetitivo e absurdo,
submetido a um ritmo infernal que tem a lógica do círculo vicioso: é um
movimento circular que não vai a lado nenhum, que tem um fim em si mesmo (“Se
soubessem o número de reuniões e de formações inúteis a que tivemos direito
desde há quinze anos [...]”). É, em suma, uma máquina de esvaziar sentido, de
treinar os alunos a dominar códigos. Um hamster movendo a roda a grande
velocidade: é assim que esta professora se sente, concentrada sobre os efeitos
de óptica que produz. Nos momentos em que emerge deste turbilhão, vê a escola
como uma violenta experiência de estranheza que lhe dá a sensação de nunca
estar no seu lugar. E, numa entrevista a uma revista francesa, declarou: “Não
há uma alteração da profissão de professor, há uma liquidação.”
O diagnóstico
desta liquidação não se compadece com aquele discurso piedoso que implora a
restauração da autoridade professoral. É um diagnóstico muito mais fino e
complexo, que Nathalie Quintane não resume a algumas proposições, a teses, a
propostas salvíficas. E se o livro nos faz compreender com grande evidência que
a escola é cada vez mais esmagada pelo peso das ansiedades que se sobrepõem em
estratos e recaem sobre os alunos (a dos pais, a dos professores, etc.), tudo
nele é muito mais subtil do que as explicações sociológicas e psicológicas. Não
é um livro de tese, é um texto literário.
Livro de
recitações
“A
tauromaquia atravessa uma fase de franco declínio, a roçar a extinção nos anos
da pandemia de covid-19.” In Expresso, 27/08/2023
O declínio da
tauromaquia de que se fala neste artigo acontece em Espanha, no país da “festa
brava”, como se dizia em tempos. Tal notícia faz-nos perguntar: mas as touradas
não são hoje uma actividade quase clandestina, cultivada por um grupo estrito
que tem cada vez mais dificuldade em mostrar a sua “cultura” sem suscitar o
desprezo e a reprovação, exercida como um ritual secreto, tão longe dos olhares
públicos como os matadouros? Em boa verdade, a tourada já só subsiste como
espectáculo que, fora do ambiente anacrónico que o sustenta, deixou de ser uma
coisa tolerável. Intolerável não é apenas o espectáculo nas praças. É todo
o habitus que germinou neste universo classista de
enraizamentos cruéis.
https://www.publico.pt/2023/09/08/culturaipsilon/cronica/bela-profissao-mundo-2062325
quinta-feira, 5 de janeiro de 2023
Carlos Coutinho - Valença - água mole em muralha dura tão dá que até a derruba
* Carlos Coutinho
Água mole...
AO invés de Camões, de Camilo e de Pessoa, que brotaram de
Lisboa e, para medrarem ricamente frutuosos, foram enraizar-se e mamar
nutrientes noutros solos por esse mundo fora, Aquilino, Torga e Saramago eram
portugueses de nascença, mas só aportaram à capital dos terramotos e das
alfaces quando já sabiam sopesar as palavras que os produziram, na serrana e
beirã Sernancelhe, na vinhateira e sabrosina S. Martinho de Anta e numa
Azinhaga muito chã, ribatejana e taurina.
Camilo até foi meu vizinho em Vila Real e Camões proveio de
uma família de Chaves, aquela herança romana que não dista muito do meu talhão
duriense de semeadura, o pedante e piroso 'terroir', como agora se apelida, à
francesa, o terreno onde a vinha ainda vinga para dar uvas.
E tudo isto para dizer, na fala mais generalizada dentro do
nosso indefeso idioma pós-redes sociais, que não me espanto com a notícia de
que “a Área Metropolitana de Lisboa é a região com mais abandono escolar no 3.º
ciclo”, apesar de ser a parte de Portugal onde os jovens têm menos dificuldade
de transporte e há qualquer escola mais perto da sua residência. Vem esta
desgraça no relatório anteontem divulgado pela Direção-Geral de Estatísticas da
Educação e Ciência (DGEEC) que agora me chegou às mãos: “Situação após 3 anos dos
Alunos que Ingressaram no 3.º Ciclo do Ensino Básico”.
Especifica a DGEEC que os “desaparecidos” são quase 4% dos
possíveis, o dobro dos também desaparecem da escola antes do fim do 3.º ciclo.
E “outro fosso que tende a estreitar-se é o que separa o desempenho dos rapazes
do das raparigas, embora a diferença entre eles continue a ser significativa.
Entre as raparigas, a taxa de conclusão em tempo normal (dados de 2012-2021),
situou-se nos 90%, enquanto nos rapazes ficava nos 84%.
E, como uma desgraça nunca vem só, lá vou eu juntar um caso
sintomático que ocorre bem perto de mim: na área da União de Freguesias de
Alhandra, S. João dos Montes, Calhandriz e Sobralinho, com 15 137 utentes do
Serviço Nacional de Saúde, desapareceram há muito os médicos de família e não
se vê jeito de voltar a haver alguns nos próximos tempos.
Está convocada pelo PCP, para esta tarde, uma manifestação de
protesto junto ao fanado Centro de Saúde de Alhandra. Perece que voltámos à era
de Soeiro Pereira Gomes, quando ele dedicou um romance maravilhoso aos “filhos
dos homens que nunca foram meninos”.
( A não perder)
A título de adenda ao meu apontamento de anteontem, respigo
para aqui um interessante artigo de Eduardo Febbro (osbarbarosnet.blogs.com
) que acaba de me ser enviado pelo meu amigo Manuel Cardoso.
É tão longo quanto imprescindível.
As razões de renúncia do Papa Bento XVI e perceber o contexto
da pedofilia na Igreja Católica
Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa
Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem
ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da
École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama
"uma continuidade pesada" de seu predecessor, João Paulo II, descobriu
em um relatório elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais
nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras
fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre
fações, lavagem de dinheiro.
O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato
sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações,
traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas
e privilégios a frente das instituições religiosas.
Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob
o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta.
Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres
pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas. Bento XVI
foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II:
"desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos
importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos
1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre
os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro
mãos com Wojtyla".
Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio
prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e
científicas do mundo moderno.
Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa
desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um
dragão que simboliza a lealdade o lema diz "dar testemunho da
verdade".
Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois
do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das
obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado.
Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista
estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência
Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a
deteriorada imagem da igreja. "Minha ideia é trazer luz", disse Burke
ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja
católica.
A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada
pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma
operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação
contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para
empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa
de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks
fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de
paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.
Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo
suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os
tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre,
saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger
empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os
partidários fascistoides e ultrarreacionários do Monsenhor Levebvre e, por
conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógrada que, de
Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.
Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus
retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier
assinala a respeito que o papa "se deixou engolir pela opacidade que se
instalou sob seu reinado". E a primeira delas não é doutrinária, mas sim
financeira.
O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das
querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas
maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por
João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.
Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore
Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de
Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do
Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação
da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento
XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras
mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como
objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano.
As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem
de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando
a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo
norte-americano Paul Marcinkus, o chamado "banqueiro de Deus",
presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.
João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do
Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois
devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro "não
contabilizado" do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade,
algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias
jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e
investimentos mafiosos, além de vários cadáveres.
No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na
ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do
Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que
incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida
como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.
Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e
só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante
em 2012 por supostas "irregularidades" em sua gestão. Tedeschi saiu
do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no
momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das
normas contra a lavagem de dinheiro.
Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio
da guerra entre fações no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou
a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas
secretas onde se escondia dinheiro sujo de "políticos, intermediários,
construtores e altos funcionários do Estado".
Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra,
tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.
Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o
Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por
conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor
Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais
que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela
difusão de um "documento" que o vinculava ao vazamento de documentos
roubados do papa.
Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas
do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita
renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs
reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para
defender sua fação.
A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu
processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos:
corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder
que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e
decadente da própria decadência do sistema.
À tarde
JÁ estive algumas vezes, extasiado, na beira setentrional da
muralha de Valença, avaliando as maravilhas dilucidáveis das margens próximas
do remansoso Minho e, mais além, o suave ondulado com os diversos tons de verde
na Galiza fértil.
Nunca imaginei que a formidável barreira de granito vertical
que eu tinha sob os pés e que fora edificada séculos antes, só para dizer aos
espanhóis que talvez não fosse boa ideia tentarem atravessar o rio com
intenções de conquista. Alguma vez me passaria pela cabeça que, também no
extremo Norte de Portugal, era possível adaptar um velho anexim popular,
fazendo-o demonstrar que “água mole em pedra dura tanto dá que até fura?” Ou
derruba, se for muralha. Mas foi o que aconteceu na madrugada do dia 1.
Também já passei dúzias de vezes na estrada que liga a Régua
ao Pinhão, de manhã, de tarde e de noite. No inverno, na primavera, no verão e
no outono. Com o Douro à esquerda, na ida para leste, e à direita, para poente.
E vi por aí uma dezena de derrocadas. Perigosíssimas algumas, não poucas vezes,
mas como a da noite da Passagem de Ano, nenhuma.
Donde concluo que, de ambos os lados deste rio amansado pelas
barragens e pelos bons conselhos, tudo continua imutável. Tanto a beleza
estonteante das paisagens e da água navegável, como o risco de um automóvel com
música e gente dentro ficar espalmado no asfalto sob centenas de toneladas de
pedregulhos e terra molhada.
Valença - água mole em muralha dura tão dá que até a derruba

