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quarta-feira, 5 de junho de 2019

Frederico Garcia Lorca – O Poeta Pede a Seu Amor que lhe Escreva

* Frederico Garcia Lorca

Meu entranhado amor, morte que é vida,
tua palavra escrita em vão espero
e penso, com a flor que se emurchece
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem a sombra conhece nem a evita.
Coração interior não necessita
do mel gelado que a lua derrama.

Porém eu te suportei. Rasguei-me as veias,
sobre a tua cintura, tigre e pomba,
em duelo de mordidas e açucenas.

Enche minha loucura de palavras
ou deixa-me viver na minha calma
e para sempre escura noite d'alma.

Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos'
Tradução de Oscar Mendes

domingo, 19 de agosto de 2018

Garcia Lorca - A MERCEDES EN SU VUELO



* Frederico Garcia Lorca


¡Una viola de luz yerta y helada
eres ya por las rocas de la altura.
Una voz sin garganta, voz oscura
que suena en todo sin sonar en nada.

Tu pensamiento es nieve resbalada
en la gloria sin fin de la blancura.
Tu perfil es perenne quemadura,
tu corazón paloma desatada.

Canta ya por el aire sin cadena
la matinal fragante melodía,
monte de luz y llaga de azucena.

Que nosotros aquí de noche y día
haremos en la esquina de la pena
una guirnalda de melancolía.


Poetas Andaluces, A Mercedes en su vuelo, Lorca

http://www.poetasandaluces.com/poema/1950/
http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2018/08/lorca-e-os-ciganos.html

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Sete poemas de Federico Garcia Lorca

Portal Vermelho Dia: 19/06/2015 às 15:25:16


Federico García Lorca (1898-1936) foi poeta e dramaturgo espanhol, membro da chamada Geração de 27, autor de livros como o Romancero gitano (1928), Poeta em Nueva York(1940) e Llanto por Ignacio Sánchez Mejía (1935). Morreu fuzilado, em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola, por ser homossexual.

Reprodução
Federico Garcia Lorca é um dos autores fundamentais da poesia do século 20 e exerceu influência em diversos autores de língua espanhola, entre eles, Pablo Neruda
É um dos autores fundamentais da poesia do século 20 e exerceu influência em diversos autores de língua espanhola, como Pablo Neruda. Sua lírica incorporou temas e recursos poéticos que vão das canções populares espanholas até a cultura cigana andaluza, o barroco de Góngora e o surrealismo.

Letras Vermelhas traz esta semana em Prosa, Poesia & Arte sete poemas de Federico extraídos do livro Poeta em Nova York, traduzidos pelo poeta brasileiro Claudio Daniel.

Apesar de trazer sempre poemas de jovens poetas, Letras Vermelhas inova e agora abordará também o trabalho de poetas estrangeiros, cuja tradução tenha sido feita por poetas brasileiros. Nesta primeira publicação Claudio Daniel apresenta Federico Garcia Lorca. 

Leia os poemas na íntegra: 

Volta de passeio 
Assassinado pelo céu,
entre as formas que vão até a serpente
e as formas que buscam o cristal,
deixarei crescer meus cabelos.

Com a árvore de cotos que não canta
e o menino com o branco rosto de ovo.

Com os animaizinhos de cabeça rota
e a água esfarrapada dos pés secos.

Com tudo o que tem cansaço surdo-mudo
e borboleta afogada no tinteiro.

Tropeçando com meu rosto diferente de cada dia.
Assassinado pelo céu!


1910

Intermédio 

Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
não viram enterrar os mortos
nem a feira de cinza de quem chora pela madrugada
nem o coração que treme encurralado como um cavalo-marinho.

Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
viram a parede branca onde mijavam as meninas,
o focinho do touro, a seta venenosa
e uma lua incompreensível que iluminava pelos cantos
os pedaços de limão seco sob o negro duro das garrafas.

Aqueles meus olhos no pescoço da égua,
no seio trespassado de Santa Rosa adormecida,
nos telhados do amor com gemidos e frescas mãos,
em um jardim onde os gatos comiam as rãs.

Desvão onde a velha poeira congrega estátuas e musgos.
Caixas que guardam silêncios de caranguejos devorados.
No lugar onde o sonho tropeçava com sua realidade.
Ali meus pequenos olhos.

Não me perguntem nada. Eu vi que as coisas
quando buscam seu curso encontram seu vazio.
Há uma dor de ocos pelo ar sem ninguém
e nos meus olhos criaturas vestidas. Sem nudez!


Fábula e roda dos três amigos
Henrique,
Emílio,
Lorenzo. 
Estavam os três gelados:
Henrique pelo mundo das camas;
Emilio pelo mundo dos olhos e das feridas das mãos,
Lorenzo pelo mundo das universidades sem telhados. 

Lorenzo,
Emilio,
Henrique. 
Estavam os três queimados:
Lorenzo pelo mundo das folhas e das bolas de bilhar;
Emílio pelo mundo do sangue e dos alfinetes brancos;
Henrique pelo mundo dos mortos e dos jornais abandonados. 

Lorenzo, 
Emílio,
Henrique.
Estavam os três enterrados:
Lorenzo em um seio de Flora;
Emílio na hirta genebra que se esquece no copo;
Henrique na formiga, no mar e nos olhos vazios dos pássaros. 

Lorenzo, 
Emílio,
Henrique,
foram os três em minhas mãos
três montanhas chinesas,
três sombras de cavalo,
três paisagens de neve e uma cabana de açucenas
pelos pombais onde a lua pousa plana sob o galo. 

Um 
e um
e um.
Estavam os três mumificados,
com as moscas do inverno,
com os tinteiros que o cão urina e o vilão despreza,
com a brisa que gela o coração de todas as mães,
pelas brancas quedas de Júpiter onde os bêbados merendam a morte. 

Três 
e dois
e um.
Eu os vi perdidos chorando e cantando
por um ovo de galinha,
pela noite que mostrava seu esqueleto de tabaco,
por minha dor cheia de rostos e pungentes lascas da lua,
por minha alegria de rodas dentadas e látegos,
por meu peito turvado pelas pombas,
por minha morte deserta com um só passeador equivocado. 

Eu havia matado a quinta lua
e bebiam água pelas fontes os leques e os aplausos,
Leite morno encerrado das recém-paridas
agitava as rosas com uma larga dor branca.

Henrique,
Emílio,
Lorenzo.
Diana é dura
mas às vezes tem as tetas nubladas.
Pode a pedra branca pulsar com o sangue do cervo
e o cervo pode sonhar pelos olhos de um cavalo. 

Quando se fundiram as formas puras
sob o cri-cri das margaridas,
compreendi que haviam me assassinado.
Percorreram os cafés e os cemitérios e as igrejas,
abriram os tonéis e os armários,
destroçaram três esqueletos para arrancar seus dentes de ouro.
Já não me encontraram.
Não me encontraram?
Não. Não me encontraram.
Porém se soube que a sexta lua fugiu torrente acima,
e que o mar recordou de imediato
os nomes de todos os seus afogados. 


Poema duplo do Lago Eden
Nuestro ganado pace, el viento espira 
Garcilaso 
Era minha voz antiga
ignorante dos densos sumos amargos.
Eu a adivinho lambendo meus pés
sob as frágeis folhas molhadas. 
Ai, voz antiga de meu amor,
ai, voz de minha verdade,
ai, voz de meu flanco aberto,
quando todas as rosas manavam de minha língua
e a céspede não conhecia a impassível dentadura do cavalo! 
Está aqui bebendo meu sangue,
bebendo meu humor de menino pesado,
enquanto meus olhos se quebram no vento
com o alumínio e as vozes dos bêbados. 
Deixai-me passar pela porta
onde Eva come formigas
e Adão fecunda peixes deslumbrados.
Deixai-me passar, homenzinhos de cornos,
ao bosque do espreguiçar
e dos alegríssimos saltos. 
Eu sei o uso mais secreto
que tem um velho alfinete oxidado
e sei do horror de uns olhos despertos
sobre a superfície concreta do prato. 
Porém não quero mundo nem sonho, voz divina,
quero minha liberdade, meu amor humano
no canto mais escuro da brisa que ninguém deseje.
Meu amor humano! 
Esses cães marinhos se perseguem
e o vento espreita troncos descuidados.
Oh, voz antiga, queima com tua língua
esta voz de folha de Flandres e de talco! 
Quero chorar porque tenho vontade
como choram os meninos do último banco,
porque eu não sou um homem, nem um poeta, nem uma folha,
mas um pulso ferido que sonda as coisas do outro lado. 
Quero chorar dizendo meu nome,
rosa, menino e abeto à margem deste lago,
para dizer minha verdade de homem de sangue
matando em mim a burla e a sugestão do vocábulo. 
Não, não, eu não pergunto, eu desejo,
minha voz libertada que me lambe as mãos.
No labirinto de biombos é minha nudez quem recebe
a lua de castigo e o relógio coberto de cinzas. 
Assim eu dizia.
Assim eu dizia quando Saturno deteve os trens
e a bruma e o Sonho e a Morte estavam me buscando.
Estavam me buscando
ali onde mugem as vacas que têm patinhas de pajem
e ali onde flutua meu corpo entre os equilíbrios contrários. 


Céu Vivo

Eu não poderei queixar-me
se não encontrei o que buscava.
Próximo das pedras sem sumo e dos insetos vazios
não verei o duelo do sol com as criaturas em carne viva. 

Porém eu irei à primeira paisagem
de choques, líquidos e rumores
que tresanda a menino recém-nascido
e onde toda superfície é evitada,
para entender que o que busco terá seu alvo de alegria
quando eu voar mesclado com o amor e as areias. 

Ali não chega a geada dos olhos apagados
nem o mugido da árvore assasinada pela lagarta.
Ali todas as formas guardam entrelaçadas
uma só expressão frenética de avanço. 

Não podes avançar pelos enxames de corolas
porque o ar dissolve teus dentes de açúcar,
nem podes acariciar a fugaz folha do feto
sem sentir o assombro definitivo do marfim. 

Ali sob as raízes e na medula do ar,
comprende-se a verdade das coisas equivocadas.
O nadador de níquel que espreita a onda mais fina
e o rebanho de vacas noturnas com patinhas vermelhas de mulher. 

Eu não poderes queixar-me
se não encontrei o que buscava;
porém irei à primeira paisagem de umidades e pulsações
para entender que o que busco terá seu alvo de alegria
quando eu voar mesclado com o amor e as areias. 

Vôo fresco de sempre sobre leitos vazios,
sobre grupos de brisas e barcos encalhados.
Tropeço vacilante pela dura eternidade fixa
e amor ao fim sim alvorecer. Amor, Amor visível! 

Eden Mills, Vermont. 24 de agosto de 1929. 

Paisagem com duas tumbas e um cão assírio 

Amigo,
levanta-te para que ouças uivar
o cão assírio
As três ninfas do câncer estiveram dançando,
meu filho.
Trouxeram umas montanhas de lacre vermelho
e uns lençóis duros onde o câncer estava dormindo.
O cavalo tinha um olho no pescoço
e a lua estava num céu tão frio
que teve de rasgar seu monte de Vênus
e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos. 

Amigo,
desperta, que os montes ainda não respiram
e as ervas de meu coração encontram-se em outro lugar.
Não importa que estejas cheio de água do mar.
Eu amei por muito tempo um garoto
que tinha uma plúmula na língua
e vivemos cem anos dentro de uma navalha.
Desperta. Cala. Escuta. Ergue-te um pouco.
O uivo
é uma longa língua roxa que deixa
formigas de espanto e licor de lírios.
Já vêm até a rocha. Não alargues tuas raízes!
Aproxima-se. Geme. Não soluces em sonho, amigo. 

Amigo!
Levanta-te para que ouças uivar
o cão assírio. 


Valsa nos ramos 
Homenagem a Vicente Aleixandre por seu poema 
O vale

Caiu uma folha 
e duas 
e três. 
Um peixe nadava pela lua. 
A água dorme uma hora 
e o mar branco dorme cem. 
A dama 
estava morta no ramo. 
A monja 
cantava dentro da toronja. 
A menina 
ia do pinho à pinha. 
E o pinho 
buscava a pequena pluma do trinado. 
Porém, o rouxinol 
chorava suas feridas ao redor. 
E eu também 
porque caiu uma folha 
e duas 
e três. 
E uma cabeça de cristal 
e um violino de papel 
e a neve apodrecia com o mundo 
se a neve dormisse um mês, 
e os ramos lutavam com o mundo 
um a um
dos a dois
e três a três.
Oh duro marfim de carnes invisíveis! 
Oh golfo sem formigas do amanhecer! 
Com o muuu dos ramos, 
com o ai das damas, 
com o croo das rãs, 
e o gloo amarelo do mel. 
Chegará um torso de sombra 
coroado de laurel. 
Será o céu para o vento 
duro como uma parede 
e os ramos desgalhados 
irão dançando com ele. 
Um a um 
ao redor da lua, 
dois a dois 
ao redor do sol, 
e três a três 
para que os marfins durmam bem. 


http://www.vermelho.org.br/noticia/266001-1

domingo, 29 de janeiro de 2017

Frederico Garcia Lorca - CANCIÓN NOVÍSIMA DE LOS GATOS

* Frederico Garcia Lorca


Mefistófeles casero 
está tumbado al sol. 
Es un gato elegante con gesto de león, 
bien educado y bueno, 
si bien algo burlón. 
Es muy músico; entiende 
a Debussy, más no 
le gusta Beethoven. 
Mi gato paseó 
de noche en el teclado, 
¡Oh, que satisfacción 
de su alma! Debussy 
fue un gato filarmónico en su vida anterior. 
Este genial francés comprendió la belleza 
del acorde gatuno sobre el teclado. Son 
acordes modernos de agua turbia de sombra 
(yo gato lo entiendo). 
Irritan al burgués: ¡Admirable misión! 
Francia admira a los gatos. Verlaine fue casi un gato 
feo y semicatólico, huraño y juguetón, 
que maullaba celeste a una luna invisible, 
lamido (?) por las moscas y quemado de alcohol. 
Francia quiere a los gatos como España al torero. 
Como Rusia a la noche, como China al dragón. 
El gato es inquietante, no es de este mundo. Tiene . 
el enorme prestigio de haber sido ya Dios. . 
¿Habéis notado cuando nos mira soñoliento? . 
Parece que nos dice: la vida es sucesión. 
de ritmos sexuales. Sexo tiene la luz, . 
sexo tiene la estrella, sexo tiene la flor. . 
Y mira derramando su alma verde en la sombra. . 
Nosotros vemos todos detrás al gran cabrón. . 
Su espíritu es andrógino de sexos ya marchitos, . 
languidez femenina y vibrar de varón, . 
un espíritu raro de inocencia y lujuria, . 
vejez y juventud casadas con amor. . 
Son Felipes segundos dogmáticos y altivos, . 
odian por fiel al perro, por servil al ratón, . 
admiten las caricias con gesto distinguido. 
y nos miran con aire sereno y superior. . 
Me parecen maestros de alta melancolía, . 
podrían curar tristezas de civilización. . 
La energía moderna, el tanque y el biplano. 
avivan en las almas el antiguo dolor. . 
La vida a cada paso refina las tristezas, . 
las almas cristalizan y la verdad voló, . 
un grano de amargura se entierra y da su espiga. . 
Saben esto los gatos más bien que el sembrador. . 
Tienen algo de búhos y de toscas serpientes, . 
debieron tener alas cuando su creación. . 
Y hablaran de seguro con aquellos engendros. 
satánicos que Antonio desde su cueva vio. . 
Un gato enfurecido es casi Schopenhauer. . 
Cascarrabias horrible con cara de bribón, . 
pero siempre los gatos están bien educados. 
y se dedican graves a tumbarse en el sol. . 
El hombre es despreciable (dicen ellos), la muerte. 
llega tarde o temprano ¡Gocemos del calor! . 
Este gran gato mío arzobispal y bello. 
se duerme con la nana sepulcral del reloj. . 
¡Que le importan los senos (?) del negro Eclesiastés, . 
ni los sabios consejos del viejo Salomón? . 
Duerme tú, gato mío, como un dios perezoso, . 
mientras que yo suspiro por algo que voló. . 
El bello Pecopian (?) se sonríe en mi espejo, . 
de calavera tiene su sonrisa expresión. . 
Duerme tú santamente mientras toco el piano. . 
este monstruo con dientes de nieve y de carbón. . 
Y tú gato de rico, cumbre de la pereza, . 
entérate de que hay gatos vagabundos que son. 
mártires de los niños que a pedradas los matan. 
y mueren como Sócrates. 
dándoles su perdón. . 


"Canción novísima de los gatos" permaneció inédito hasta 1986.

http://www.poetasandaluces.com/poema/874/

domingo, 21 de agosto de 2016

«Pranto por Ignacio Sánchez Mejías», em tradução de Jorge de Sena.


García Lorca, por Jorge de Sena




Na tradução de Jorge de Sena, publicada em seu Poesia do Século XX, apresentamos um dos mais conhecidos poemas de García Lorca – sua elegia em homenagem ao toureiro Ignacio Sánchez Mejías -, acompanhado pelo verbete criado por Sena para o poeta espanhol.  

PRANTO POR IGNACIO SÁNCHEZ MEJÍAS
I
A COLHIDA E A MORTE
Às cinco da tarde.
Eram as cinco em ponto dessa tarde
Um menino trouxe o lençol branco
às cinco da tarde.
Uma alcofa de cal já prevenida
às cinco da tarde.
O mais era só morte e apenas morte
às cinco da tarde.
O vento arrebatou os algodões
às cinco da tarde.
E o óxido semeou cristal e níquel
às cinco da tarde.
Já luta com a pomba o leopardo
às cinco da tarde.
E uma coxa com uma haste desolada
às cinco da tarde.
Começaram os dobres do bordão
às cinco da tarde.
Sinos e sinos de arsénico e o fumo
às cinco da tarde.
Há nas esquinas grupos de silêncio
às cinco da tarde.
E só o touro coração acima!
às cinco da tarde. 
Quando o suor de neve foi chegando
às cinco da tarde.
Quando a praça de iodo se cobriu
às cinco da tarde.
A morte pôs seus ovos na ferida
às cinco da tarde.
Às cinco da tarde.
Às cinco em ponto dessa tarde.
Ataúde com rodas é a cama
às cinco da tarde.
Ossos e flautas soam-lhe no ouvido
às cinco da tarde.
O touro já mugia por sua fronte
às cinco da tarde.
O quarto se irisava de agonia
às cinco da tarde.
Ao longe uma gangrena já vem vindo
às cinco da tarde.
Trompa de lírio pelas verdes virilhas
às cinco da tarde.
As feridas ardiam como sóis
às cinco da tarde.
E as gentes rebentavam as janelas
às cinco da tarde.
Às cinco da tarde.
Ai que terríveis cinco eram da tarde!
Eram as cinco em todos os relógios!
Eram as cinco em sombra dessa tarde!

II
O SANGUE DERRAMADO
Que eu não quero vê-lo!
Digam à lua que venha
que não quero ver o sangue
de Inácio marcando a areia.
Que eu não quero vê-lo!
A lua de par em par.
Cavalo de nuvens quietas
e a praça parda do sonho
com salgueiros nas barreiras.
Que eu não quero vê-lo!
Que o recordar se me queima.
Avisai todo o jasmim
com sua brancura pequena!
Que eu não quero vê-lo!
A vaca do velho mundo
passava sua triste língua
sobre um focinho de sangues
derramados pela arena,
e os touros de Guisando,
quase morte e quase pedra,
mugiram como dois séculos
fartos de pisar a terra.
Não.
Que eu não quero vê-lo!
Pelos degraus sobe Inácio
com sua morte toda às costas.
Ele buscava o amanhecer,
e o amanhecer não era.
Busca seu perfil seguro,
e o sonho o desorienta.
Busca seu formoso corpo
e encontra seu sangue aberto.
Ai não me digam que o veja!
Não quero sentir o jorro
cada vez, com menos força;
esse jorrar que ilumina
o palanque e se desaba
no veludilho e no couro
da multidão tão sedenta.
Quem me grita que me assome?!
Ai não me digam que o veja!
Não se cerraram seus olhos
quando viu os cornos cerca,
porém as mães mais terríveis
levantaram a cabeça.
E pelas ganadarias,
houve um ar de voz secreta
gritando a touros celestes,
maiorais de névoa pálida.
Não houve em Sevilha príncipe
que lhe possa comparar-se,
nem espada como era a sua,
nem coração de verdade.
Como um rio de leões
sua força maravilhosa,
e como um torso de mármore
a desenhada prudência.
Um ar de Roma andaluza
a cabeça lhe dourava
onde o seu riso era um nardo
de sal e de inteligência.
Que grão toureiro na praça!
Que bom serrano na serra!
Que brando era com as espigas!
Que duro com as esporas!
Que terno com o orvalho!
Que deslumbrante na feira!
Que tremendo com as últimas
bandarilhas todas treva!
Porém já dorme sem fim.
Já os musgos maila erva
abrem com dedos seguros
a flor da sua caveira.
E já seu sangue por aí vem cantando:
cantando por marinhas e por prados,
e resvalando pelos cornos hirtos,
vacilando sem alma pela névoa
tropeçando com milhares de patas
como uma longa, obscura e triste língua,
para formar um charco de agonia
junto ao Guadalquivir de altas estrelas.
Ó branco muro de Espanha!
Ó negro touro de pena!
Ó sangue duro de Inácio!
Ó rouxinol de suas veias!
Não.
Que não quero vê-lo!
Que não há cálix que o contenha,
que não há andorinhas que o bebam,
não há de orvalho luz que o esfrie,
nem canto nem dilúvio de açucenas,
não há cristal que o cubra de prata.
Não.
Eu não quero vê-lo!
III
CORPO PRESENTE
A pedra é uma fronte adonde os sonhos gemem
sem ter as águas curvas nem ciprestes gelados.
A pedra são uns ombros para levar o tempo
com árvores de lágrimas e faixas e planetas.
Já vi chuvas cinzentas correndo para as ondas,
levantando os seus ternos braços tão esburacados,
para não ser caçadas pela pedra estendida
que seus membros desata sem se empapar de sangue
Porque a pedra recolhe sementes e nublados,
esqueletos de pássaros e lobos de penumbra;
porém não dá nem sons, nem cristais, nem fogo,
mas praças e mais praças e outras praças sem muros.
E já está sobre a pedra Inácio o bem-nascido.
Já se acabou. E agora? Contemplai sua imagem:
a morte o recobriu de pálidos enxofres
e pôs-lhe uma cabeça de obscuro minotauro.
Já se acabou. A chuva penetra por sua boca.
O ar como um louco deixa o peito que se afunda,
e o Amor, empapado em lágrimas de neve,
aquece-se nos cumes das ganadarias.
Que dizem? Um silêncio com fedores repousa.
Estamos com um corpo presente que se esfuma,
com uma forma clara que teve rouxinóis
e vemo-la afastar-se em abismos sem fundo.
Quem o sudário enruga? É falso quanto diz!
Ninguém por aqui canta, nem pelos cantos chora,
nem co'as esporas pica, nem a serpente espanta,
aqui não quero mais do que os redondos olhos
para ver esse corpo sem possível descanso.
Eu quero ver aqui os homens de voz dura.
Os que cavalos domam e dominam os rios:
os homens a quem tine o esqueleto e cantam
com uma boca cheia de sol e pedregais.
Aqui os quero eu ver. Diante desta pedra.
Diante deste corpo com as rédeas quebradas.
Eu quero que me ensinem onde está a saída
para este capitão atado pela morte.
Eu quero que me ensinem um pranto como um rio
que tenha doces névoas e profundas margens,
para levar o corpo de Inácio e que se perca
sem escutar o duplo resfolegar dos touros.
Que se perca na praça redonda dessa lua
que finge criança triste ser uma rês imóvel;
que se perca na noite sem cânticos dos peixes
e na maldade branca do fumo congelado.
Não quero que lhe tapem o seu rosto com lenços
para que se acostume à morte que o arrasta.
Vai-te, Inácio! Não sintas o ardente bramido.
Dorme, voa, repousa: também se morre o mar.
IV
Não te conhecem touro nem figueira,
nem cavalo ou formiga da tua casa.
Nem o menino te conhece, ou a tarde,
porque tu estás morto para sempre.
Não te conhecem os lombos da pedra,
nem o plaino negro aonde te destroças.
Não te conhece uma saudade muda
porque tu estás morto para sempre.
Há-de vir o Outono com seus búzios,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quer fitar-te nos teus olhos
porque tu estás morto para sempre.
Porque tu estás morto para sempre,
como todos os mortos pela Terra,
como todos os mortos que se olvidam
em um montão de cães que se apagaram.
Ninguém já te conhece. Não. Mas eu te canto.
Eu canto antes de mais o teu perfil e graça.
A madureza insigne do teu conhecimento.
Teu apetite de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve a tua valente alegria.
Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Eu canto-lhe a elegância com palavras que gemem
e recordo uma brisa triste nos olivais.

GARCÍA LORCA, FEDERICO — Um dos maiores poetas e dramaturgos da Espanha e do século XX, nasceu em Fuente Vaqueros, nos arredores de Granada, em 1898. Em Granada estudou, e aí apareceu o seu primeiro livro (em prosa), Impresiones y paisajes (1918). Formando-se em Direito em Madrid (1923), dedicou-se às letras (em 1920, uma juvenil peça, El malefício de la mariposa, foi um desastre madrileno). Libro de poemas (1921) era já uma afirmação de um poeta notável, se bem que muito marcado de preciosismo parnasiano-simbolista (que nunca inteiramente abandonou, mas transfigurou numa expressão sua). A ironia transcendente e um metaforismo surrealista são, todavia, patentes nas Canciones (1927). O êxito teatral deMariana Pineda, neste mesmo ano, revela-o um grande poeta do teatro. Mas é com o Romancero Gitano (1928) que o grande lírico aparece, senhor de uma linguagem própria em que o romanceiro se funde com uma riqueza modernista e um muito contemporâneo sentido trágico da vida. Uma viagem a New York deu-lhe o versilibrismo e a intensidade de Poeta en Nueva York(1930). Em 1931, funda o seu teatro popular-experimental "La Barraca", em que percorre a Espanha. Bodas de sangre (1933) e Yerma (1934) são outras duas grandes peças do teatro. Nesses anos de 33-34 viaja pela Argentina. De 1935 é o Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, uma das mais extraordinárias elegias modernamente escritas. Muito ligado aos meios republicanos, mas sem actividade política, Lorca, ao estalar a guerra civil, deixou Madrid, onde estava e a república resistiria, pela sua Granada aonde a revolução não rebentara ainda. Na Granada que tanto amava (e a quem, todavia, verberara havia pouco tempo o reaccionarismo), foi preso e fuzilado nos primeiros dias da rebelião (Agosto de 1936) pela repressão militar-fascista (uma obra recentemente publicada em Paris é uma investigação minuciosa e devastadora das responsabilidades que rodearam o seu assassinato). Deixava entre muitos outros inéditos a sua maior peça, La Casa de Bernarda Alba. A execução do poeta pesou e pesa tremendamente na consciência da Espanha, e foi por muito tempo usada pelo anti-fascismo com absoluta ou relativa sinceridade. Mas não pela sua morte trágica e criminosa é Lorca um grande poeta. É-o pela força da imaginação, pela arte com que renovou o romanceiro tradicional e transformou em profunda poesia todo o convencionalismo regionalista da Andaluzia. Mais: tanto na sua poesia como no seu teatro (outros escritos dele são muito frágeis, e só possuem quase interesse para o estudioso ou para o admirador incondicional), há uma insistência obsessiva no tema da morte violenta, a que o seu fim deu um selo atroz de veracidade, e é essa mesma insistência que é essencial à sua visão do mundo, em que beleza e escuridão coexistem, a liberdade é um permanente desafio, e a própria expressão poética uma inocência reconquistada.

http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/antologias/traducao/garcia-lorca-por-jorge-de-sena/