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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Jaime Nogueira Pinto - Camilo, nos 200 anos de um escritor genial


* Jaime Nogueira Pinto

Camilo escreveu muitíssimo mais do que Eça; não tinha tempo de corrigir os originais, trabalhava como “um remador de Ben-Hur”, qual escravo dos editores amarrado à produção em massa para ganhar a vida

22 mar. 2025

No Domingo passado, 16 de Março, completaram-se dois séculos sobre o nascimento em Lisboa, na Rua da Rosa, de um dos melhores escritores portugueses, Camilo Castelo Branco – ou Camilo, tout court.

É um conhecimento de infância. Tive um tio camilianista fanático, bibliófilo e bibliómano, pesquisador por alfarrabistas de primeiras edições do romancista. Não tinha filhos e eu passava muitos fins-de-semana em casa dele, em Vila do Conde. Era ali que ele juntava outros da mesma tribo, também devotos do escritor, para falarem interminavelmente de edições antigas, primeiras ou segundas, e das histórias dessas edições, do seu tempo de escrita e publicação, das anedotas à volta de raridades e falsas raridades.

Porque Camilo foi um fenómeno de produção e de qualidade na produção. Mais de duzentos títulos – romances, novelas, História, teatro, polémicas, até poesia. Coisas que eu, miúdo, com nove ou dez anos, à mesa dos mais velhos, ia ouvindo, juntamente com as histórias da sorte e do azar de romances como A Infanta Capelista – sobre uma Maria José, bastarda de El-Rei D. Miguel –, que Camilo teria mandado destruir antes da edição em livro, constava que a pedido do imperador D. Pedro II do Brasil, e que teria ido parar à Salsicharia Francesa, para embrulhar artigos de mercearia. Um cliente, um tal António Rebelo, teria dado pelo achado e adquirido as “folhas de embrulho” que restavam, salvando alguns, poucos, exemplares, dos quais mais tarde se publicariam duas edições fac-simile, fazendo da Infanta Capelista uma preciosa raridade camiliana.

(Há anos, a propósito de um livro de futurologia política sobre uma Administração americana que não veio a acontecer, lembrei-me deste episódio camiliano e dos presumíveis destinos, mais ou menos úteis, mais ou menos nobres, das obras malogradas.)

Mais tarde, Camilo reescreveu e reeditou o tema da infanta capelista em O carrasco de Victor Hugo José Alves, tornando-o menos ofensivo para a família real de Portugal e do Brasil.

Camilo ou Eça?

Os grandes poetas, como Camões e Pessoa, são quase sempre os grandes conhecedores da pátria, da nação, do colectivo histórico, da comunidade política, da herança e identidade de um povo entre os povos; conhecem-na, (re)constroem-na e exprimem-na nos seus altos e baixos, no seu modo peculiar de absorver e exprimir o universal. Já os grandes escritores apanham mais as pessoas. E os grandes escritores do seculo XIX que retrataram os portugueses, o seu modo de ser, a sua identidade ou as suas identidades, são incontornavelmente Camilo e Eça de Queirós.

Eça, como confessaria numa carta ao seu amigo conde de Arnoso, conhecia sobretudo Lisboa; e, de Lisboa, a “sociedade”, a “classe alta”; talvez por isso continuemos a descobrir nas nossas “elites” – e na classe político-empresarial-futebolística deste último meio século não faltam exemplares – Gouvarinhos, Dâmasos Salcedos, Acácios. Já Camilo dá-nos outros portugueses, mais rústicos, os das terras de Portugal, mesmo que vindos para a capital; e, entre eles, mais os do Norte, os das “novelas do Minho”, os da Samardã, os das invasões francesas e das guerras civis, os que, quando ofendidos, vão a casa buscar o bacamarte e voltam com ele para lavar a honra com o sangue do ofensor.

E há a quantidade e a qualidade. Camilo escreveu muitíssimo mais do que Eça; não tinha tempo de corrigir os originais, trabalhava que nem “um remador de Ben-Hur” (para usar a imagem do inigualável Nelson Rodrigues), ou qual escravo dos editores, amarrado à produção em massa e em série para ganhar a vida, correndo sempre atrás do prejuízo. Bem ao contrário de Eça de Queirós, funcionário diplomático e bem casado.  Embora gastador e devedor e, curiosamente, também “filho de mãe incógnita”, Eça nunca viveu o trágico sorvedouro das dívidas e da angústia que daí vem. Camilo passou por essa e por outras desgraças.

Por isso, na cadeia da Relação do Porto, em 10 de Agosto de 1861, quando cumpria pena por adultério com Ana Plácido, depois da queixa-crime do marido traído, escrevia ao seu primeiro biógrafo, Vieira de Castro: “A página mais crível e instrutiva da minha biografia será aquela em que escreveres que a desgraça é a pedra de toque onde se aquilatam os amigos.” Vira “os muitos em que se fiava” a desaparecer; mas não deixara de ver “em redor aqueles com quem não contava”.

As mulheres e a “mulher fatal”

Fora assim a sua vida – trágica, desde o berço. Fruto de uma aventura do pai, Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, irmão do Simão Botelho que ele havia de imortalizar em Amor de Perdição – Romeu e Julieta português, escrito em duas semanas, na prisão.

Antes do encontro com a sua mulher fatal,  Camilo entregou-se a amores jovens, aventureiros e mal-aventurados, seduções e paixões rústicas e freiráticas, relações inominadas e ambíguas… Bernardina Amélia, Fanny Owen, a “costureira do Candal” … até que, num baile na Assembleia Portuense, em 1848, conheceu  a mulher da sua vida, Ana Plácido, casada com o “brasileiro” de torna-viagem Pinheiro Alves.  Ana, nesse dia, “vestia de branco, com enfeites de fitas escarlates nos cabelos, como escreveria o apaixonado em Cenas Inocentes da Comédia Humana.

Paixão verdadeira desde o primeiro instante, com o desajeitado Romeu a passarinhar-se pela rua do Almada, onde morava a sua Julieta, que estaria à janela, com alguma provocação. Porque a acreditar em Mestre Aquilino, um entre a dúzia de biógrafos de Camilo – dos seus contemporâneos Vieira de Castro, Freitas Fortuna, Alberto Pimentel, até Pascoaes, Agustina, Alexandre Cabral –, Ana Plácido já teria sido amante de António Ferreira Quiques, um portuense amigo de Camilo, possível pai biológico de “Manuelinho”, que no registo apareceria como filho do marido da mãe, do propriamente dito Pinheiro Alves.

Camilo foi para Lisboa, mas voltou ao Porto e voltou a vê-la, dez anos depois, em Braga, no Bom Jesus do Monte. Ana Plácido, que tivera uma boa educação, em família burguesa e numerosa, descrevia o marido, o “brasileiro” Pinheiro Alves, como “mau homem e repelente” e acabaria por fugir com Camilo.  Os amantes seriam condenados. Mais tarde, depois de livres, mas sempre perseguidos pela desgraça, viveram juntos em S. Miguel de Seide, onde tiveram dois filhos.

Foi este homem de vida atribulada e até trágica que contou admiravelmente o Portugal do seu tempo em folhetos e romances com títulos curiosíssimos, como Maria não me mates que sou tua mãeO parente dos cinquenta e três monarcasMistérios de LisboaDoze casamentos felizesNovelas do MinhoNoites de InsóniaEusébio Macário, e a sua continuação, A Corja. E A Brasileira de Prazins.

É uma obra extraordinária, um retrato de Portugal do século XIX, das invasões francesas ao fontismo. Além da verdade e realidade das personagens e dos enredos, fica um estilo e uma linguagem únicos, expressivos e variados: do romantismo de Maria Moisés, das Novelas do Minho, ao verrinoso dos panfletos contra inimigos literários e existenciais, a quem não poupava, como o poeta brasileiro Tomás Filho.

Romancista histórico?

De certo modo, os romances e novelas de Camilo são romances “históricos” que nos dão, não só a História e a evolução política no tempo e na língua, como Maria Helena Carvalhão Buescu demonstrou a propósito de Amor de Perdição e de A Queda de um Anjo, mas que nos mostram, através das personagens e das histórias, o tempo, bem agitado, que vai do miguelismo e da guerra civil ao final do rotativismo. Por isso a Teresa do Amor de Perdição diz ao pai que não casa com quem ele quer, e Mariana, plebeia, apaixona-se pelo fidalgo Simão Botelho, que é tio de Camilo, irmão de Manuel Joaquim, pai do escritor.

A teia romanesca camiliana apanhou todos estes protagonistas do seu tempo, um tempo que faz a transição das oligarquias tradicionais, noblesse de sang e noblesse de robe (nas famílias de Simão Botelho e de Camilo) para as classes novas do constitucionalismo, do Porto burguês e liberal, dos “brasileiros”, dos “eleitos” deputados e barões de que o Calisto Elói de A Queda de um Anjo é um fidelíssimo retrato, um irmão próximo do Abranhos de Eça, retratos ainda vivos e actuais da nova oligarquia liberal-democrática.

Camilo era assim. Pintou o século XIX como ele foi em Portugal e na Europa, um filho das guerras da Revolução e do Império – primeiro das invasões francesas e da guerra miguelistas-liberais; depois do liberalismo convulso até à Regeneração, pelo golpe militar de Saldanha.

Em Eusébio Macário e na Brasileira de Prazins quis mostrar-se à vontade na nova religião do romance realista. Mas Camilo não era só capaz de realismo literário; era um realista existencial, que entendia a continuidade da natureza humana e a continuidade dos portugueses. Os mestres do liberalismo, Garrett e Herculano, antigos voluntários e combatentes da nova fé, desiludiram-se da nova ideia com a prática; Herculano, retirando-se para Vale de Lobos e dizendo que o estado da pátria lhe dava vontade de morrer, Garrett fazendo a crítica ao materialismo dos barões e agiotas do liberalismo, lembrando nas Viagens na minha Terra que Jesus lhes faria o mesmo que aos vendilhões do Templo.

Camilo, crítico do absolutismo português, no Perfil do Marquês de Pombal, crítico da oligarquia liberal, em A Queda de um Anjo, autor de uma charge ao miguelismo nortenho nessa saga burlesca que é A Brasileira de Prazins, em que um sósia do príncipe exilado mobiliza para a contra-revolução a reacção do Portugal Velho, parece não ter tido nem ilusões nem desilusões políticas. Talvez porque a todos visse como homens, protagonistas e figurantes do seu tempo e da sua pátria na grande comédia ou tragédia humana. Um som e uma fúria que contou com humor e sentido do trágico em mais de duas centenas de títulos, alguns milhares de personagens, dezenas de milhares de páginas – de boa literatura, acrescente-se.

Pena que o tenham trocado por moeda mais nova e mais barata; e logo num tempo em que a consciência crítica de si, dos outros, do país e do mundo está tão em falta.

        https://observador.pt/opiniao/camilo-nos-200-anos-de-um-escritor-genial/ 


quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Eça de Queirós - O Conde e os pobres

 * Eça de Queirós

«Já então revelava o seu gosto pelo luxo, pelas largas habitações tapetadas, pelo serviço harmonico de lacaios disciplinados. A pobreza e os seus aspectos era-lhe odiosa. Quanta vez, mais tarde, quando elle subia o Chiado pelo meu braço, eu me vi forçado a afastar com dureza os pobres, que á porta do Baltresqui, ou da Casa Havaneza, vinham, sob o pretexto de filhos com fome ou de membros aleijados, reclamar esmola; o Conde, se os via muito perto, «ficava todo o dia enjoado». Todavia a sua caridade é bem conhecida, e o Asylo de S.Christovam, a que em parte deveu o seu titulo, ahi está como um attestado glorioso da sua magnanimidade.

Além d'isso, elle reconhecia que a caridade era a melhor instituição do Estado. Quanto ao pauperismo, tinha-o como uma fatalidade social: fôssem quaes fôssem as reformas sociais, dizia, haveria sempre pobres e ricos: a fortuna pública devia estar naturalmente toda nas mãos d'uma classe, da classe illustrada, educada, bem nascida. Só d'este modo se podem manter os Estados, formar as grandes industrias, ter uma classe dirigente forte, por possuir o ouro e ser a base da ordem social.

Isto fazia necessariamente que parte da população «tiritasse de frio e rabeasse de fome». Era certamente lamentavel, e elle, com o seu grande e vasto coração que palpitava a todo o soffrimento, lamentava-o. Mas a essa classe devia ser dada a esmola com methodo e discernimento: e ao Estado pertencia organizar a esmola. Porque o Conde censurava muito a caridade privada, sentimental, toda de expontaneidade. A caridade devia ser disciplinada, e, por amor dos desprotegidos, regulamentada: por isso queria o Asylo, o Recolhimento dos Desvalidos, onde os pobres, tendo provado com bons documentos a sua miseria, tendo apresentado bons attestados de moralidade, recebessem do Estado, sob a superintendência de homens praticos e despidos de vãs piedades, um tecto contra a chuva e um caldo contra a fome. O pobre devia viver alli, separado, isolado da sociedade, e não ser admittido a vir perturbar, com a expressão da sua face magra e com a narração exagerada das suas necessidades, as ruas da cidade. «Isole-se o pobre!» dizia elle um dia na Camara dos Deputados, synthetizando o seu magnífico projecto para a creação dos Recolhimentos do Trabalho. O Estado forneceria grandes casarões, com cellas providas d'uma enxerga, onde seriam acolhidos os miseraveis. Para conseguir a admissão, deveriam provar serem de maior edade, haverem cumprido os seus deveres religiosos, não terem sido condemnados pelos tribunaes (isto para evitar que operarios d'ideias subversivas que, pela grève e pelo deboche, tramam a destruição do Estado, viessem, em dias de miseria, pedir a esse mesmo Estado que os recolhesse). Deveriam ainda provar a sobriedade dos seus costumes, nunca terem vivido amancebados nem possuírem o hábito de praguejar e blasphemar. Reconhecidas estas qualidades elevadas com documentos dos parochos, dos regedores, etc., seria dada a cada miserável uma cella e uma ração de caldo igual á que têm os presos.

Mas, dir-se-ha, o Estado, então sustenta-os de graça? Não, — poderia exclamar triunphantemente o Conde, mostrando as paginas admiraveis do seu regulamento, em que se estabelecia, com um profundo sentimento dos deveres do cidadão para com a cidade, que todo o pobre admittido seria forçado a uma considerável somma de trabalho, segundo as suas aptidões. O mais útil paragrapho, a meu ver, é aquele que determina que grupos de pobres sejam forçados a calçar as ruas, collocar as canalizações de gaz, trabalhar em monumentos publicos, etc. Taes serviços, todos em favor da Camara Municipal, obrigá-la-ia a concorrer para a despesa d'esta instituição, alliviando assim o Estado d'uma grande parte dos gastos.

Uma vez admittidos, os recolhidos perderiam o direito de sahir — a não ser que provassem que iriam d'alli ser empregados, de tal sorte que não lhes fôsse possivel recahir nos acasos da miseria.»


O Conde d’Abranhos – Notas Biográficas de Z. Zagalo_Eça de Queiroz_1925 (póstumo)

sábado, 7 de junho de 2025

António Valdemar - Camões, o poeta que o Estado Novo afidalgou

Em 2024, o jornalista António Valdemar afirmou que a biografia de Camões escrita por Aquilino Ribeiro é um livro político, cujo significado terá de ser aferido em função das lutas contra o Estado Novo. A declaração veio reavivar o debate sobre a politização do poeta

  •  n

05 junho 2025  

Diogo Ramada Curto

Historiador, diretor da Biblioteca Nacional

Num fim de tarde de uma sexta-feira de outono, na Biblioteca Nacional, António Valdemar impressionou a pequena audiência ali reunida. O decano dos jornalistas portugueses e homem de letras de evidentes dotes oratórios afirmou que a biografia de Camões escrita por Aquilino Ribeiro é, acima de tudo, um livro político, cujo significado terá de ser aferido em função das lutas contra o Estado Novo. Ao pôr o dedo na ferida, Valdemar advertiu que o livro intitulado “Camões: Fabuloso — Verdadeiro” (1950), tal como a coletânea “Camões, Camilo e Eça e Alguns Mais: Ensaios de Crítica Histórico-Literária” (1949) precisam de ser entendidos como gestos de oposição política a Salazar.

Proferidas de modo perentório, no lançamento da nova edição, pela Bertrand, de “Camões: Fabuloso — Verdadeiro”, as palavras de Valdemar resumiram o prefácio que ele mesmo escreveu para esta reedição. Pela sua coragem, própria de quem não receia ir contracorrente, mas também pela sua objetividade em saber articular literatura e política, as palavras de Valdemar são importantes.

Será impossível desligar a referida biografia de Camões, bem como a miscelânea de ensaios críticos de Aquilino, desse momento constituído pela campanha eleitoral de apoio ao general Norton de Matos. A esse quadro político pertencem as denúncias de Aquilino em relação a um Camões que a cultura oficial queria reduzir a símbolo de um culto patrioteiro, simbolizado no gosto e nas relações aristocráticas ou palacianas. Tal como se o poeta pudesse ser membro da União Nacio­nal e servir de joguete às estratégias da propaganda desenhada por António Ferro, as quais encontravam eco no Círculo Eça de Queirós, ali ao Largo Bordalo Pinheiro. Foi o que Aquilino escreveu na introdução à sua biografia de Camões.

 

Aquilino considerava insuportáveis os “tocadores da marimba patriótica”. E contra o Camões afidalgado disparou: se o poeta era mesmo da fina-flor da aristocracia, como é que se justificava que, enquanto filho único, fosse pobre como Job? Depois, cavalgando a onda da desmistificação nacional e da crítica ao sebastianismo, que recuava pelo menos à polémica de meados da década de 1920 entre António Sérgio e Carlos Malheiro Dias, argumentou que a atribuição ao poeta da nobreza de sangue era mais do que dispensável para o reconhecimento literário de Camões. Dentro da mesma operação de desmistificação, Aquilino também se mostrou contrário à ideia de que Camões se teria enamorado de palacianas damas da nobreza. Com base numa particular atenção às cartas atribuídas a Camões, Aquilino nele preferiu salientar o lado arruaceiro e brigão.

Outro aspeto, que para Aquilino tinha igualmente uma relação direta com o seu tempo, dizia respeito ao modo como Fr. Bartolomeu Ferreira, o “revedor” dominicano, interveio na publicação de “Os Lusíadas”. Contrariamente ao que em 1921 tinha defendido o padre José Maria Rodrigues, para quem “nenhumas alterações foram [ali] feitas pela Inquisição”, Aquilino admitia que a versão impressa do poema trazia em si marcas censórias. De resto, acentuando divergências em face das posições assumidas por Rodrigues, Aquilino, embora julgasse a questão “sumamente bizantina”, não deixou de defender que a primeira edição do poema épico era a que tinha, no frontispício do livro, o pelicano virado para a direita.

Dois problemas subsistem

Ao politizar, de forma frontal, o que Aquilino escreveu acerca de Camões, António Valdemar suscitou dois problemas que precisam de ser resolvidos ou, pelo menos, enunciados. O primeiro, mais genérico, consiste em saber como é que todos os escritores — com direito ou não a participar do cânone ou de uma comunidade que se imagina em função de um conjunto de obras literárias — estão sujeitos a idêntica politização. O simples facto de serem celebrados, panteonizados ou de passarem a fazer parte dos manuais de ensino é em si mesmo um ato político que muitas vezes supõe escolhas interpretativas, amputações e deturpações para servir esta ou aquela bandeira ideológica. O Estado Novo e, já antes dele, o Integralismo, procurou arregimentar em seu abono muitos autores do século XIX e não só, pondo-os ao serviço de uma bandeira conservadora. Na contramão da cultura oficial, Aquilino e outros estudiosos, tais como Óscar Lopes, Jorge de Sena e António José Saraiva, procuraram salvar Camões desses usos políticos. Mas fizeram-no recorrendo a uma dupla estratégia, que esconde o segundo problema que se encontra por resolver.

Por um lado, ao Camões nobre e aristocrático, cortesão e vivendo debaixo da proteção régia, os estudio­sos democratas e republicanos opuseram o carácter mais popular, boémio, aventureiro, arruaceiro e até pobretana do poeta. Claro que a ideia tinha raízes em representações anteriores, tal como me fez notar Isabel Almeida, a pobreza de Camões foi melodramaticamente exacerbada no século XIX, além de ensombrar desde cedo o seu retrato, doente e morrendo na miséria; obrigado a viver de uma “tencinha”, como dissera Pedro de Mariz, ou desgraçado pela fortuna, que o privava de seus bens, como escreveu Diogo do Couto.

De notar que, nos meios da oposição, a denúncia da mania de atribuir fidalguia a homens ilustres do passado estava generalizada, e o próprio Aquilino já a tinha feito anteriormente, a propósito de Santo António de Lisboa, quando topou, e bem, que deste princípio, aceite dogmaticamente entre nós, derivava “a canonização laica de Camões” (“Por Obra e Graça”, 1940). Por outro lado, os mesmos estudiosos recentraram a obra de Camões em relação à autonomia do discurso poético e literário, justamente para não cair no topete da cultura oficial, que procurou a todo o custo arregimentar Camões e a sua obra para o referido culto patrioteiro. Ora, é precisamente a autonomia e historicidade do discurso poético e literário que fica de fora quando se politiza a figura de Camões e se politizam as obras que sobre ele (mais do que sobre o que escreveu) incidiram.

Aquilino considerava insuportáveis os “tocadores da marimba patriótica”. E contra o Camões afidalgado disparou: se o poeta era da fina-flor da aristocracia, como se justificava que fosse pobre como Job?

Logo em 1951, Jorge de Sena foi quem melhor denunciou a constante evocação do “cantor de ‘Os Lusíadas’ para fins beneméritos de embófia cívica”. Camões era, então, posto ao serviço de um “leitor patrio­ticamente interesseiro”, sendo por isso deplorável “todo o patrioteirismo sebastianista com que o seu lídimo génio tem sido enxovalhado”. Sena foi mais longe ao especificar que esse culto cívico e patrioteiro procedia de “tantas e tão variadas comemorações, centenários, cortejos e conferências”, nos quais “sempre se fala da Fé e do Império, da Independência e da Raça, da glória e da sabedoria, do que de facto possuímos e da árvore das patacas que ainda julgamos possuir”. Neste sentido, também para Sena pareciam deploráveis estes usos (ou abusos) de Camões — posto ao serviço dos projetos imperiais e de um nacionalismo oficial, num “país de notabilidades às dúzias”, onde “tantas são as figuras e os factos comemorados quotidianamente” —, que nos impediam de falar do poeta, do grande poeta que Camões foi, votando ao desprezo a “leitura atenta dos seus versos, que são tudo o que nos resta dele”.

É certo que Sena não pretendeu escrever nenhuma biografia de Camões, e, tal como muitos outros, considerou mesmo inútil investir a sua atenção nos aspetos biográficos. O que estava em causa, na opinião de um dos maiores estudiosos de Camões do século XX, era a perceção do ato poético, sobretudo, a criatividade do poeta. Uma criatividade que, claro está, correspondia a quadros, linguagens, estruturas e condições que transcendiam o próprio autor. Assim sucedia com os usos do petrarquismo e do platonismo, com a inspiração nos trabalhos de historiadores que o antecederam, com os posicionamentos e modos de inovação em relação aos géneros literários, a começar pela épica, sem esquecer os registos mais chocarreiros. A intuição poética nunca poderia transcender os limites impostos por tais quadros, para além de manter uma relação, difícil de reduzir a um sistema de causalidade, com a experiência de vida de Camões em Portugal, no Norte de África ou na Ásia. De qualquer modo, o que para Sena era urgente compreender na leitura da obra de Camões era a sua dimensão intuitiva e criativa.

Por exemplo, Sena considerou que o sucesso de “Os Lusíadas”, enquanto poema épico, nada tinha que ver com a “cantoria que a retórica balofa se esforça para extrair” dele. Para Sena, o mais importante e o que explicava até o sucesso dessa épica é que se tratava de “um êxito por contradição”. A ponto de se poder dizer que o que mais contou para sua popularidade foi “a narração amplificada e amplificadora das glórias nacionais [...], por contraste, e porque, a cada passo, surgem aqueles trechos candentes de juízo final”. Seria, pois, à luz de tais contradições, que punham em causa as glórias do canto épico, numa espécie de registo a várias vozes e rasgado por oposições, que importaria ler “Os Lusíadas”.

 

No âmbito de um novo ciclo comemorativo em torno de Camões, a questão de se saber ao certo como se deve e pode ler a sua obra, a começar por “Os Lusíadas”, afigura-se crucial. Antes de mais, há que reconhecer que estamos longe da necessidade de contrapor a um Camões oficial e caracterizado pelos seus dotes nobres e aristocráticos, um poeta conotado com aspetos mais baixos e populares, situado na oposição aos poderes instituídos. Depois, se não temos de reproduzir, hoje, os sucessivos falhanços da oposição ao Estado Novo, podemos finalmente distanciar-nos das estratégias determinadas pelo controle, vigilância e propaganda do regime, as quais foram construídas em função de um culto patrioteiro do poeta. É que foram tais estratégias, mais ou menos falhadas, que levaram a uma espécie de sublimação ou de transferência que encontraram na literatura uma esfera autónoma de expressão de discursos livres, que não podiam ser submetidos às lógicas do poder.

Quando António Valdemar nos lembrou que a bio­grafia de Camões escrita por Aquilino era um livro essencialmente político e de oposição ao Estado Novo, fez bem. Ao fazer essa denúncia, trouxe-nos à memória as esperanças e frustrações que muitos escritores e intelectuais da oposição acalentaram no período posterior à Segunda Guerra Mundial. No entanto, é de notar que a guerra cultural então declarada não se limitava a Camões, e, entre outros escritores do passado, também passava por Eça de Queirós.

A visita de Salazar, em dezembro de 1945, à exposição queirosiana no Grémio Literário, funcionou como uma resposta oficial ao que os colaboradores no “Livro Comemorativo do Centenário de Eça de Queiroz”, publicado nesse mesmo ano, pretenderam fazer crer. Para estes, impunha-se ler Eça de Queirós, libertando-o das grelhas aristocráticas e conservadoras em que os representantes de uma cultura oficial pretendiam encerrar o autor de “Os Maias”. Neste sentido, seria necessário: atender aos processos propriamente literários, da ironia ou da troça, a partir dos quais o escritor procurava a sua autonomia; apreciar plenamente o sentido crítico e a liberdade queirosiana, em contraste com os tempos persecutórios que caracterizaram o período posterior à Segunda Grande Guerra; e, sobretudo no caso de Jaime Cortesão, mas também de Vieira de Almeida, colocava-se com premência a questão social, cuja simples enunciação irritava os mais afetos ao regime no poder.

Também a Jorge de Sena pareciam deploráveis estes usos de Camões, que nos impediam de falar do poeta, votando ao desprezo a “leitura dos seus versos, que são o que nos resta dele”

As guerras culturais e literárias no período posterior à Segunda Guerra Mundial incluem muitos outros aspetos, a começar pelos que foram suscitados pela afirmação do neorrealismo. Porém, no que respeita a Camões e à literatura quinhentista, conviria ter em conta a existência de um tempo de intensidade exemplar assinalado pelos ensaios de Aquilino sobre o poeta, publicados a partir de 1946 e reunidos em livro, em 1949. Quanto à biografia de Camões, não poderá ela ser considerada uma resposta à figura idealizada por Leitão de Barros no filme que lhe dedicou em 1946? E a representação da estátua no Largo de Camões, por Abel Manta, em 1954 — representação na qual o poeta surge sempre de costas —, não será um outro modo de oposição ao culto oficial de Camões? Uma espécie de contraepopeia, como acabou por argumentar, em 1955-1956, António Sérgio, na sua edição da “História Trágico-Marítima”, uma história de naufrágios pejada de críticas à expansão e ao império português?

Na perspetiva de Aquilino, tais guerras literárias eram contra o regime — no duplo sentido já aqui exposto de oposição entre o alto e o baixo, socialmente falando, e de defesa da autonomia do literário, enquanto espaço de autonomia criativa e de liberdade. Por exemplo, não se esqueça o retrato que traçou das capacidades do serrano ou montanhês: “na serra o homem estaria sempre mais a coberto do beleguim, do homem da lei, do fidalgo, em suma da violência do forte e da extorsão do rico”; só o vale era considerado “local pela sua natureza propício à cilada, tornava-se o fojo dos escravos” (“O Homem da Nave”, 1954).

Mas tais guerras culturais, incluindo aquelas que Aquilino travou em torno de Camões, foram também travadas contra o mundo universitário, coimbrão e lisboeta. Só a esta luz se podem compreender algumas das suas outras obras, nomeadamente, “Abóboras no Telhado (Polémica e crítica)” e o conto ‘O Professor Intemerato e a Gaitinha do Capador’ (“Casa do Escorpião”, 1963). Aliás, este último, uma autêntica sátira à vida universitária, que Frederick Hesse Garcia entendeu ser contra o padre José Maria Rodrigues, visava, na opinião de António Valdemar, um outro estudioso de Camões e professor da Faculdade de Letras — Hernâni Cidade. Não se estranhe, por isso, a posição intermédia que Jacinto do Prado Coelho veio a assumir: aclamando o facto de Sena ter aderido à “veemente obra de humanização de um ‘mito nacio­nal’”, mas, ao mesmo tempo, considerando que “o Camões boémio e pedinte” de Aquilino se constituíra no “exemplo mais completo do ensaio psicológico construído fora da obra do biografado” (“A Letra e o Leitor”, 1968).

Em suma, hoje tal como no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, existem razões de sobra para celebrar pela leitura e perceção do génio criativo o nosso maior poeta. Os inevitáveis riscos de politização da sua figura e da sua obra continuam a estar presentes, tal como sabemos bem que existem modos de autonomizar e preservar o seu carácter mais propriamente poético e literário. No entanto, a reflexão sobre Aquilino — enquanto intérprete de Camões, ao lado de outros críticos e estudiosos do seu tempo, situados dentro e fora da academia e da vida universitária — deverá servir para nos lembrarmos de que o nosso tempo não se pode confundir com o de Aquilino.

Não nos compete, por isso, repetir apenas o que Aquilino ou Jorge de Sena, com a sua capacidade para ler e interpretar Camões, propuseram. Não nos cabe, também, repetir as lutas em que estiveram envolvidos. A nossa obrigação é a de saber e conseguir situar a leitura de Camões em função dos problemas do nosso tempo — sem nunca perder a consciência de que falamos de um poeta que viveu no século XVI —, a começar pelos que se encontram afetos à nossa situação pós-colonial. Da mesma forma que nos compete reconhecer que as condições de investigação em que trabalhamos são, em boa medida, dominadas por conflitos internos à própria academia, uma vez que a universidade ocupa, hoje, um lugar de muito maior destaque no campo da produção cultural.

 https://expresso.pt/cultura/2025-06-05-camoes-o-poeta-que-o-estado-novo-afidalgou-f9bf0245

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Vitor Duarte Teodoro - O espírito de Eça de Queirós, incarnado pelo ChatGPT


* Vitor Duarte Teodoro

1 d  · 

O espírito de Eça de Queirós, incarnado pelo ChatGPT, escreve sobre a transladação dos seus restos mortais para o Panteão Nacional...

"Ah, caros amigos, que cena memorável foi a transladação dos meus restos mortais para o tão augusto e marmóreo Panteão Nacional! Um espetáculo de pompa e circunstância, onde as excelências, engravatadas como pavões em dia de gala, desfilavam com uma gravidade cómica, qual procissão de almas perdidas em busca do protagonismo perdido.

Ali estavam os políticos do nosso amado Portugal, disputando entre si o melhor ângulo para a fotografia histórica. Ora, não lhes leveis a mal – o seu zelo não era por mim, pobre cadáver literário, mas pela luz do flash, essa que ilumina mais que o espírito da literatura. Uns com o semblante solene de quem nunca abriu um dos meus livros, outros com discursos decorados à última hora, mal contendo os risos ao citar “Os Maias”, obra que, presumo, pensavam ser sobre horticultura.

E os poderosos, esses senhores que governam com um misto de ignorância e convicção, lá estavam também, como se a minha transladação fosse, de repente, um triunfo da pátria. Falavam de valores e cultura, enquanto um deles, não identificado mas demasiado familiar, consultava apressadamente o telemóvel para verificar a popularidade do evento nas redes sociais.

Ah, e o povo, que maravilha! Algumas almas sinceras, outras apenas curiosas, vinham assistir ao espetáculo como quem vai ao circo – e com razão, pois o circo era grande. Vi rostos admirados a perguntar: “E quem era este Eça, afinal?” Não lhes culpo, pois os meus livros não são tão populares como a bola ou a telenovela, mas ainda assim, confesso, senti um ligeiro desconforto ao ouvir um petiz perguntar se eu era um novo treinador da seleção.

E lá me levaram, como uma espécie de troféu literário, para repousar ao lado dos grandes vultos da nação. Ah, se eles soubessem o quanto critiquei a vaidade, a hipocrisia e o formalismo, talvez tivessem pensado duas vezes antes de me colocar no meio de tão ilustres companhias. Mas, enfim, o Panteão é a última ironia da minha vida – ou da minha morte – e por isso aceito-a com o mesmo sorriso mordaz com que vos retratei a todos.

Que descansem bem, meus senhores. Eu, por cá, ficarei eternamente a observar-vos, do alto do mármore, com a mesma verve que me fez imortal."     

~~~~~~~~~~

Vitor Duarte Teodoro

"Ah, mas claro, sejamos mais cáusticos, pois a ocasião merece! Imaginem-me, senhores, um humilde cadáver literário, arrancado ao descanso modesto para ser exibido como um troféu de Estado. Que ironia deliciosa: em vida critiquei as elites com palavras afiadas como navalhas, e agora, morto, sou carregado por elas como se fosse um santo padroeiro dos discursos vazios!

Lá estavam eles, os políticos, empertigados como pavões de feira, a trocarem sorrisos e apertos de mão falsos, como se o momento fosse sobre eles — e, sejamos honestos, era mesmo. No palanque, um deputado ergueu a voz, declamando um trecho do meu trabalho com a mesma paixão com que, provavelmente, lê um contrato de arrendamento. “Eça é nosso!” gritavam, como se o meu pobre esqueleto pudesse ser anexado à lista de patrimónios culturais que nunca leram, mas adoram citar em campanhas.

E os poderosos, ah, esses eram o auge da tragicomédia. Lá vinham, as barrigas inchadas de condecorações e almoços de Estado, proclamando que a minha presença no Panteão era “um triunfo para a cultura nacional”. Cultura essa que, coitada, deve ter soltado uma gargalhada abafada no canto da sala, enquanto alguém perguntava baixinho: “E este Eça, ele escreveu o quê mesmo? Algo sobre amores e colégios, não era?”

Ah, e o povo, a cereja deste bolo podre. Lá estavam, aplaudindo com um entusiasmo digno de quem assiste à final da Taça de Portugal. Alguns, os mais novos, olhavam para o meu retrato nos cartazes e perguntavam aos pais se eu era um influencer do TikTok. Outros, de ar grave, disfarçavam o tédio com as caras sérias que guardam para funerais e debates na Assembleia. Um senhor até exclamou: “Grande Eça, sempre gostei da série dele!” – suponho que confundiu os meus romances com episódios da Netflix.

E, finalmente, lá cheguei ao Panteão, esse mausoléu monumental onde os mortos convivem em silêncio, talvez constrangidos por tanta hipocrisia. Que grupo! Camões, Amália, e agora eu, todos lado a lado, a representar o que o país tem de melhor… ou pelo menos aquilo que dá boas fotografias e discursos fáceis.

Pois que fique então registado: aqui jaz Eça de Queirós, o escritor que denunciou a farsa dos poderosos e, na mais cruel das ironias, foi transformado no seu emblema post-mortem. Riam-se, meus amigos, pois, do mármore frio, eu estou certamente a rir-me de vós."


PM

Vitor Duarte Teodoro É da sua autoria este texto brilhante? O chatgpt diz que não ele que produziu 😀

23 h

Vitor Duarte Teodoro

PM , foi o ChatGpt

23 h


https://www.facebook.com/vitor.d.teodoro/posts

domingo, 14 de março de 2021

As passagens racistas em Os Maias justificam nota pedagógica — defende investigadora

 Cultura-Ípsilon

LIVROS

As passagens racistas em Os Maias justificam nota pedagógica — defende investigadora

A Associação de Professores de Português (APF) considera que uma leitura da obra de de Eça de Queirós implica a análise dos preconceitos raciais do discurso narrativo e das personagens.

Lusa

7 de Março de 2021, 11:18

Fotografia de Eça de Queirós numa exposição organizada em 2018 na Fundacão Gulbenkian a propósito dos 130 anos da publicação do romance DANIEL ROCHA

Uma investigadora cabo-verdiana identificou em Os Maias, de Eça de Queirós, várias passagens racistas que na sua opinião não retiram valor à obra literária, mas justificam a inclusão de “um comentário pedagógico”, para que a questão racial não seja ignorada.

“A inferioridade dos africanos e o desdenho pelo negro ou qualquer aspecto relacionado à raça negra é presente na linguagem do narrador e reforçada através de acções e pensamentos de personagens e da idealização da branquitude em crianças, homens e principalmente mulheres”, disse Vanusa Vera-Cruz Lima, em entrevista à agência Lusa.

Professora de Português na Universidade de Massachusetts Dartmouth, nos Estados Unidos, onde está a tirar o doutoramento em Estudos e Teoria Luso-Afro-Brasileiros, Vanussa Vera-Cruz Lima faz questão de sublinhar que “as passagens raciais não retiram nem adicionam o valor que esta obra representa na literatura portuguesa”, mas criam “oportunidades de ensino e instrução culturalmente responsáveis”.  

A investigadora, que leu Os Maias pela primeira vez durante o ensino secundário, em Cabo Verde, quando Eça de Queirós lhe foi apresentado como “um dos mais importantes escritores da literatura portuguesa”, voltou à obra no âmbito do programa do seu doutoramento. “Penso que é importante separarmos o romance, que é uma das maiores obras de arte da cultura portuguesa, das passagens racistas nela encontradas”, disse, acrescentando que o que está em causa na sua análise é a obra e não o autor, Eça de Queirós, pois “para tal seria preciso um estudo muito mais aprofundado, investigação profunda sobra a vida dele e seus escritos profissionais e pessoais”.

Segundo a investigação de Vanusa Vera-Cruz Lima — que para esta análise recorreu à teoria crítica da raça, uma área de pensamento teórico contemporâneo que “revela como o racismo molda a realidade quotidiana do mundo” — a linguagem do narrador “reproduz a superioridade da raça branca sobre a raça negra, evidenciada através do discurso, frases, escolha de palavras, pensamentos das personagens de que a raça branca merecia ter o poder absoluto sobre a raça negra”.

“Ao celebrar extravagantemente a branquitude, o romance envia uma mensagem de que a negritude não é algo de que se orgulhar e, portanto, como o preto e o branco estão sempre em oposição, a glorificação de um, rebaixa o outro”, referiu.

Uma das passagens que a investigadora usou para exemplificar a sua afirmação consta do capítulo XVI da obra, escrita em 1880: “Ela [Maria Eduarda], por seu lado, loira, alta, esplêndida, vestida pela Laferrière, flor de uma civilização superior, faz relevo nesta multidão de mulheres miudinhas e morenas”.

Para a doutoranda, “todas as personagens do romance são um produto do ambiente em que o branco é considerado superior em relação ao negro”, embora estas possam “ser divididas em camadas com diferentes intensidade, consciência e intenção”.

“João da Ega é o personagem em que o racismo mais se evidencia. De acordo com Ega, da mesma forma que Portugal aspira ser ‘civilizado’, os negros tentam agir como brancos fantasiando e vestindo a jaqueta do seu mestre”, ilustra.

Segundo a investigadora e docente, “há dois excertos em que João da Ega evidencia essas ideologias de forma bem intencional, quando descreve, em eventos sociais, a sua posição em relação à escravatura, defendendo-a para garantir os confortos da vida, e numa reflexão com Carlos da Maia, no final do romance, em que ele revela uma forte aversão ao facto de os negros estarem a fazer um esforço enorme usando certos acessórios para serem considerados imensamente ‘civilizados’ e ‘imensamente brancos'”.

Escreveu Eça (capítulo XII): “Ega declarou muito decididamente que era pela escravatura. Os desconfortos da vida, segundo ele, tinham começado com a libertação dos negros. Só podia ser seriamente obedecido quem era seriamente temido... Por isso ninguém agora lograva ter os seus sapatos bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde que não tinha criados pretos em quem fosse lícito dar vergastadas...”.

Vanusa Vera-Cruz Lima cita uma outra passagem do capítulo IV em que a personagem João da Ega afirma: “Nós julgamo-nos civilizados, como os negros de São Tomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão”.

A doutoranda considera que a obra Os Maias é “uma ferramenta ideal para criar oportunidades de ensino e instrução culturalmente responsáveis, para que possamos atender às necessidades de todos os alunos”.

“É um material para explorarmos valores e comportamentos relacionados com a raça que existiam na época, mas que continuam a manifestar-se em vários aspectos da sociedade actual”, disse.

Para Vanusa Vera-Cruz Lima, o fim da leitura de Os Maias não é uma “solução” e nem esse o propósito da análise que fez à obra, mas sim a consciencialização das pessoas em relação aos “significados que até agora não têm sido observados, nem discutidos nos materiais escolares que acompanham a leitura da obra”.

E deixa a proposta de “criar um comentário pedagógico sobre esta faceta da obra, tal como se comentam outros significados”.

Seria, na sua opinião, uma abertura para “conversas corajosas sobre raça dentro do romance”, o que “não levaria à desvalorização da obra tão importante”.

“Mais do que explicar o contexto, é preciso discutir a obra, usando as lentes actuais, porque apesar de o romance ter sido escrito nos anos de 1800, faz parte da realidade de milhões de alunos espalhados pelo mundo lusófono em 2021”, referiu.

A posição da APF

Associação de Professores de Português (APF) considera que uma leitura de Os Maias implica a análise dos preconceitos raciais do discurso narrativo e das personagens, assim como inserir esse discurso no contexto histórico.

Em declarações à agência Lusa, a propósito da análise de Vanusa Vera-Cruz Lima, o vice-presidente da AFP, Luís Filipe Redes, disse que não é precisa “uma análise muito profunda para compreender os preconceitos raciais presentes em Os Maias e em outros textos de Eça”.

“Apesar do seu realismo, o autor tem as limitações de um homem do século XIX. Para não termos visões preconcebidas relativamente aos outros, temos de interagir com eles, coisa que o Eça não terá tido oportunidade de fazer, não obstante a sua passagem por Cuba”, adiantou o professor de Português.

O docente sublinhou que “a perspectiva racista era dominante nos estudos antropológicos desse tempo”. “Eça era contra o tráfico de escravos e isso também se lê em Os Maias. A alternativa ao tráfico de escravos era o desenvolvimento de África que passava pela ocupação efectiva num movimento que se chamava “colonialismo”. É o que vemos no trajecto da personagem Gonçalo, da Ilustre Casa de Ramires”, comentou.

Por isso, Luís Filipe Redes considera que a leitura desta obra “implica a análise dos preconceitos raciais do discurso narrativo e das personagens e inserir esse discurso no contexto histórico. O que não podemos fazer é projectar juízos de valor formados nas vivências do nosso tempo sobre as acções dos homens do passado”, sublinhou.

Vanusa Vera-Cruz Lima, investigadora cabo-verdiana na Universidade de Massachusetts Dartmouth, nos Estados Unidos, onde está a tirar o doutoramento em estudos luso-afro-brasileiros, disse à agência Lusa que esta obra, publicada em 1888, “transmite uma imagem de África como sendo uma terra de “selvagens” e “incivilizados”, que resulta na justificação da exploração portuguesa neste continente”.

Na sua análise racial a uma das obras mais conhecidas de Eça de Queirós, autor de leitura obrigatória na disciplina de Português no ensino secundário, Vanusa Vera-Cruz Lima apresenta várias citações do romance que “evidenciam o processo de colonização” como tendo sido “necessário para a “salvação” das pessoas que viviam nas terras africanas”.

Para Ega, uma personagem com relevância neste romance, que relata a história de uma família ao longo de três gerações, em finais do século XIX, “a colonização tinha um outro “sabor”, porque transformaria os negros em pessoas “civilizadas” e, com isso, não haveria nada de pitoresco que chamasse a atenção aos turistas”, refere a autora da tese de doutoramento, para a qual fez esta análise racial, citando uma passagem da obra.

É também desta personagem a passagem: “Porque não se deixaria o preto sossegado, na calma posse dos seus manipansos? Que mal fazia à ordem das coisas que houvesse selvagens? Pelo contrário, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de pitoresco”.

A investigadora sublinha que “o romance, e não necessariamente o autor, passa uma mensagem de que a colonização em África trouxe “salvação"”.

E escolheu outra citação do capítulo V da obra: “Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colónias todas as coisas belas, todas as coisas grandes estão feitas. Libertaram-se já os escravos; deu-se-lhes já uma suficiente da moral cristã; organizaram-se já os serviços aduaneiros... Enfim o melhor está feito. Em todo o caso há ainda detalhes interessantes a terminar... Por exemplo, em Luanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque mais de progresso a dar. Em Luanda, precisava-se bem de um teatro normal, como elemento civilizador!”.

Vanusa Vera-Cruz Lima afirma que o propósito da sua análise é contribuir para “se repensar a forma como a obra é ensinada nas escolas, contribuindo para uma reflexão e expansão racial”. Garante a investigadora que não defende, com esta avaliação, ao fim da sua leitura no ensino português.

“Pelo contrário, este romance é uma ferramenta ideal para criar oportunidades de ensino e instrução culturalmente responsáveis, para que possamos atender às necessidades de todos os alunos”, disse.

E concluiu: “É um material para explorarmos valores e comportamentos relacionados com a raça que existiam na época, mas que continuam a se manifestar em vários aspectos da sociedade actual. Não vejo o cancelamento de sua leitura como uma solução.”

A agência Lusa contactou Carlos Reis e Isabel Pires de Lima, especialistas em estudos queirosianos, que optaram por não comentar as conclusões da investigação de Vanusa Vera-Cruz Lima.

 https://www.publico.pt/2021/03/07/culturaipsilon/noticia/passagens-racistas-maias-justificam-nota-pedagogica-defende-investigadora-1953397

António Carlos Cortez

Cultura-Ípsilon

OPINIÃO

Os Maias, o racismo ou a visão estreita das coisas

Eça é racista? Acusá-lo de tal é cair numa superstição literária — dessas que hoje fazem encher o olho e dão parangonas. Camões, por este andar, ainda há-de ser proibido nos programas por se considerar que cada poema lírico seu é um piropo machista e ofende a dignidade da mulher.

António Carlos Cortez

9 de Março de 2021, 6:10

Lido o artigo vindo a lume no PÚBLICO (de 7 de Março), dedicado à questão do racismo que, segundo a investigadora cabo-verdiana, Vanusa Vera-Cruz Lima, pode ler-se em diversas passagens de Os Maias, de Eça de Queirós, impõe-se-nos denunciar o erro em que incorrem as interpretações deste tipo, as quais têm como única origem os novos preconceitos que a ideologia oca deste nosso tempo produz. Preconceitos que, ao fim e ao cabo, mais não são do que moda, modismo, superficilidade mascarada de pretensa lição democrática. Efeitos do “politicamente correcto”, dir-se-á, mas que lesam profundamente a compreensão (ou a possibilidade de se compreender) a cultura de outros períodos.

Com efeito, é dum total reducionismo interpretativo ler-se este ou qualquer outro romance de Eça (ou de qualquer outro autor, seja de que latitude literária for) à luz das novíssimas tendências literárias, contaminadas por aquilo que são as guerras do pós-estruturalismo e por aquilo que, segundo Aguiar e Silva, é a indeterminação própria das “derivas e errâncias de teorias literárias pós-modernas que confundiram o anunciado ‘fim das grandes narrativas monistas’ com a anarquia cognitiva” (cf Colheita de Inverno – ensaios de teoria e crítica literárias, Almedina, p. 22).

A literatura sofre, hoje, na sequência do que em 1987 sucedeu com Paul de Man (a figura de proa da escola de Yale teria colaborado num jornal anti-semita belga, entre 1940 e 1942), com o aproveitamento dos adversários da teoria em literatura. Observando o declínio advindo do desconstrucionismo, logo trouxeram para os estudos literários os “ismos” que, actualmente, secundarizam o que deveria estudar-se sem pré-juízos: precisamente o texto literário. Do pós-colonialismo aos estudos de género, do feminismo aos estudos culturais, até outras áreas em que a literatura interessa só para se fazer doutrina, já cá faltava quem viesse a acusar um escritor português de racismo, ou de outro “ismo” qualquer. Calhou a sorte ao autor de Os Maias e eis que Eça é acusado de ter escrito uma obra — a sua obra-prima, note-se — onde há trechos racistas.

Tal como é absurdo defender-se a destruição de monumentos arquitectónicos por estes terem sido construídos na época da expansão portuguesa, e é igualmente absurdo considerar Vieira um adepto da escravatura, também absurdo é defender-se que Os Maias, como refere a doutoranda Vanusa Vera-Cruz, devem ser acompanhados de esclarecimentos pedagógicos relativamente a essas passagens. Diz a investigadora em Estudos e Teoria Luso-Afro-Brasileiros que “as passagens raciais não retiram nem adicionam o valor [sic] que esta obra representa na literatura portuguesa”. Assim, declara, tais esclarecimentos pedagógicos, poderiam criar “oportunidades de ensino e instrução culturalmente responsáveis”. Mas, se essas passagens não retiram valor à obra, como a própria admite, pergunto: que valor acrescido teríamos, então, em debater o eventual racismo de uma passagem daquele romance que, apesar de racista, não retira nem adiciona valor à obra? Se, segundo se lê, “é importante separarmos o romance [...] das passagens racistas” que nele se encontram, qual a lógica do seu argumento? Para que serviriam, no limite, tais esclarecimentos, senão para afastar os leitores de Os Maias da tese central do romance ("Carlos falhou na vida não por causa, mas apesar da educação”, dixit Jacinto do Prado Coelho). Não seria absolutamente irresponsável dar-se a ler Eça, inquinando a sua recepção justamente por se vincar uma dimensão — a racista — lateral à tese da obra, ou mesmo sobreinterpretativa? Mais: que oportunidade de ensino culturalmente responsável existe quando, em vez da exegese estilístico-ideológica, caímos no comentário a questões que, na verdade, têm mais que ver com minudências biográficas do que com o romanesco? Importa, de facto, para ler Os Maias saber se seria Eça racista? Se seria machista ou homofóbico?

Se Vanusa Vera-Cruz leu as teses de Jacinto do Prado Coelho, os ensaios de Carlos Reis, o exemplar, e tão pouco citado, ensaio de José de Almeida Moura, Os Maias: ensaio alegórico sobre a decadência da nação (1984); se conhece os perigos das “superstições literárias” (Paul Valery) e se, verdadeiramente, lhe interessa dar a ler, de forma responsável, esta obra de Eça, então deveria reconhecer o óbvio, a saber: que o estilo queirosiano (leia a tese de licenciatura de Vergílio Ferreira sobre humor em Eça de Queirós, tese de 1943 — é a basezinha!) se estriba no domínio da ironia. Portanto, nas passagens racistas que refere (seja o modelo de beleza que Maria Eduarda representa: louro, pele ebúrnea, seja a passagem em que Ega diz que os negros querem agir como os brancos civilizados (Cap. XII)) a leitora Vanusa deveria ter em conta que o processo da ironia traduz uma visão do romancista que é, no mínimo, refractária ao racismo de que se pretende acusar o autor de Os Maias.

Como escreveu Vergílio Ferreira: “Carlos da Maia é um humorista, jogando muitas vezes com tipos subalternos como Dâmaso. Mas, perguntar-se-á, não é ridículo o idealismo de Carlos da Maia que nega, com o seu último acto, a teoria que ao mesmo tempo formula?” (p.21). Carlos e Ega são dândis e diletantes, só pelo prisma da ironia se compreendem: Carlos, um médico que, minado pelo “romantismo torpe”, transforma a vida em sucessão de paixões nefastas; Ega, um histriónico realista que explora a mãe e parasita Carlos e jamais realiza as suas Memórias dum Átomo. O estratagema de Eça em colocar as suas personagens à mercê do ridículo daquilo mesmo que expõem aplica-se especialmente ao Ega, personagem contraditória, que exprime uma visão do mundo ‘realista’, quando é, profundamente, um desequilibrado romântico. Lembre-se Ega vendo-se ao espelho, mascarado de Mesfistófeles, depois de expulso da casa dos Cohen. Esquecendo, por momentos, o seu artificial sentimento de indignação, mira-se, vaidosamente, exultando com a originalidade do seu disfarce. O trecho de Ega sobre os desconfortos da vida não é senão o narrador a mostrar-nos o absurdo da visão de mundo dessa personagem. Não, os desconfortos da vida não se devem à libertação dos negros. Isso é o que Ega tem de dizer porque é ele a caricatura do português que pensa assim e que Eça vitupera, sarcasticamente, como sarcasticamente destrói, pelo absurdo, Dâmaso, ou a mulher-demónio Maria Monforte.

Numa das passagens que Vanusa indica, a do capítulo IV, “sobre os negros de São Tomé se julgarem civilizados”, não se perca de vista que a crítica não tem que ver com os negros de São Tomé. A crítica recai nos portugueses que, na Europa, se julgam civilizados por imitarem os modelos inglês ou francês — é a inautenticidade, o provincianismo que Eça caustica. Não esqueça já agora outro dado fundamental: Os Maias são uma biópsia (leia Cleonice Berardinelli) ao país. Romance sobre um problema moral: o incesto que Carlos, responsável pela morte de Afonso, comete conscientemente. Acusaríamos Eça de considerar todos os portugueses capazes de cometer incesto? Carlos (nome que simbolicamente significa ‘sedutor’) nem sequer ama Maria Eduarda; obedeceu apenas ao instinto ("Educar o animal”, eis o que Afonso defendeu para o seu neto). Vítima dos factores de Taine (o meio, a raça, o momento), Carlos não pode escapar ao veredicto de Ega: ele é um demónio — não pode amar. Todo o romance deriva da análise de Eça sobre “o meio lisboeta, portuguesmente ocioso” e o “temperamento mole e apaixonado”, condicionantes dos comportamentos, valores e ideias que a galeria de personagens apresenta.

Vítimas da raça, da hereditariedade, quer Carlos, quer Ega, quer qualquer outra persona deste romance, são caricaturas, cara Vanusa. São prosopopeias — figuras da escrita. Oitocentista, filho dum século positivista, leitor de Balzac e de Zola, Eça é racista? Acusá-lo de tal é cair numa superstição literária — dessas que hoje fazem encher o olho e dão parangonas. Camões, por este andar, ainda há-de ser proibido nos programas por se considerar que cada poema lírico seu é um piropo machista e ofende a dignidade da mulher. Vai Victis!!

Poeta, crítico literário e professor

 https://www.publico.pt/2021/03/09/culturaipsilon/opiniao/maias-racismo-visao-estreita-1953568

Vítor Belanciano - Ai! Valha-nos Deus! Não toquem no Eça!

 
OPINIÃO

* Vítor Belanciano
14 de Março de 2021, 7:41

Felizmente, durante a semana, a CNN considerou o caldo verde uma das melhores sopas do mundo, o que deve ter equilibrado o orgulho pátrio, dado a grandes oscilações.

Uma investigadora, a doutorar-se em Estudos e Teoria Luso-Afro-Brasileiros, nos EUA, apresentou há semanas uma comunicação, via Zoom, onde o ponto de partida, no sentido de provocar a reflexão, era se o romance Os Maias, de Eça de Queirós, conteria ou não traços de racismo. Lançava questões aos seus pares, académicos como ela, acerca de um trabalho que não está finalizado. Coisa vulgar em qualquer universidade.

Eis senão que o escândalo irrompe nos jornais em Portugal. Lia-se que Eça tinha sido acusado de ser racista. Que queriam censurar Eça. Que agora já não se pode dizer nada, que é tudo racismo. Que qualquer dia, depois do Padre António Vieira e dos Descobrimentos, já não temos nada com que nos orgulhar. E outros dislates parecidos. Felizmente, durante a semana, a CNN considerou o caldo verde uma das melhores sopas do mundo, o que deve ter equilibrado o orgulho pátrio, dado a grandes oscilações.

Em simultâneo, a investigadora Vanusa Vera-Cruz Lima produzia afirmações, com pinças, sublinhando que não estavam em causa o autor e o valor da obra, mas apenas passagens, típicas do século XIX, e pensamentos de personagens do romance que poderiam conter traços de racismo, sugerindo uma nota pedagógica no sentido de fomentar o debate nas salas de aula. Ou seja, uma hipótese de leitura, entre outras, onde a questão colonial é convocada. Uma banalidade. Ou não é normal que existam disposições racistas aos nossos olhos num livro sobre a elite lisboeta do final do século XIX e um império colonial que só existiu aos ombros dos negros e do ouro do Brasil?


Li Os Maias quando andava no secundário. Recordo-me das aulas onde se analisou, questionou e interpretou algumas passagens e características nucleares do livro, como é normal acontecer com qualquer obra, a partir do conteúdo, das personagens, da pedagogia dominante, do contexto e das próprias preocupações da professora e da época em que li a obra. A utilização da ironia, as classes sociais, a cultura, os interditos, o incesto e também o contexto colonial foram alguns aspectos abordados. Tive uma excelente professora — a Deolinda, infelizmente já falecida — e era a coisa mais normal do mundo, a partir de um livro, ela levar-nos a reflectir sobre o colectivo, o que nos rodeava, e a nossa própria existência.

Foi com ela — e com a Miriam, de Filosofia — que ganhei o gosto por pensar. Se elas dessem aulas hoje, tenho a certeza que, entre muitas outras inquietações, o racismo, tal como o classismo, estariam presentes na forma complexa e múltipla como transmitiam ensinamentos a partir das mais variadas obras. Não para doutrinar, certamente não para censurar, mas para provocar a reflexão através da análise. Não ser assim hoje, pelo que depreendo da polémica artificial acerca de Os Maias, é que é estranho. Parece que existe uma elite enfeitiçada com cristalizações ou com os encantos exclusivamente literários e formais do romance de Eça. No resto não se pode tocar.

O realizador João Botelho, que adaptou ao cinema Os Maias, afirmava em 2014 que o Portugal do romance era quase igual ao de hoje, e não andará muito longe da verdade. Uma sociedade de aparências. Estranho país, de vidas precárias e de desigualdades, mas que grita Ai! Valha-nos Deus! Não toquem no Eça, na herança colonial ou nos Descobrimentos, vivendo ainda imerso em sonhos de grandeza, incapaz de se alinhar com a realidade, reactivo perante quem quer cultivar a reflexão. O país já é, aliás, isso. Não existe uma totalidade perene, ao contrário do que nos fazem crer. Há diversidades em construção, onde coexistem, às vezes em consenso, outras conflituando, pessoas, grupos, narrativas. Há quem veja nisso, perda de identidade. Eu vejo enriquecimento.


tp.ocilbup@onaicnalebv

https://www.publico.pt/2021/03/14/opiniao/opiniao/ai-valhanos-deus-nao-toquem-eca-1954257

domingo, 26 de julho de 2020

O Mistério da Estrada de Sintra. Mais do que um folhetim de verão


Em julho de 1870, Lisboa aborrecia-se ao sol. Provocadores, dois jovens membros da chamada Geração de 70, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, decidem agitar tal modorra com um folhetim intrigante iniciado com um crime na Estrada de Sintra. Publicaram-no no Diário de Notícias durante dois meses em que ninguém perdeu pitada.

Maria João Martins
25 Julho 2020 — 00:12

Sintra ainda se escrevia com "C" mas foi através das páginas do DN que dois jovens escritores, Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, se dispuseram a abanar a sonolenta Lisboa, mergulhada na languidez da canícula: "Há 14 anos numa noite de verão, no Passeio Público, em frente de duas chávenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que em torno de nós cabeceava de sono (...) deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo a berros, num romance tremendo, buzinando à Baixa das alturas do Diário de Notícias", escreve Eça de Queiroz no prefácio à segunda edição em livro de O Mistério da Estrada de Sintra, datada de 1884.

Como o fizeram? Usando essa novidade do seu tempo, que era o poder absoluto da imprensa escrita na formação da opinião pública, para expor as pequenas misérias de uma certa aristocracia lisboeta que ia a Sintra refrescar-se dos incómodos estivais da capital. Para isso, engendraram um enredo de tal maneira rocambolesco que seria digno das Proezas de Rocambole, o folhetim de Ponson du Terrail que criara este adjetivo ainda hoje comum: certa noite, indo um médico e um escritor de caleche pela estrada de Sintra (que se iniciava onde hoje é a Estrada de Benfica e ligava a capital àquela vila), foram surpreendidos e raptados por quatro homens embuçados, que os levariam a uma casa isolada. O objetivo era confirmar o óbito de um oficial britânico, a quem fora ministrada uma dose excessiva de ópio. À medida que a noite avançava os dois compreenderiam estar diante do trágico corolário de um triângulo amoroso constituído pelo assassinado, uma condessa portuguesa mal casada e uma bela rapariga chegada de Cuba. Tudo começara meses antes da fatídica noite, durante uma estada em Malta, à época parte do império britânico. Isto, claro, sem perder o tom jocoso com que Eça e Ramalho habitualmente tratavam as suas personagens.

Forjada a intriga, a mesma começaria a ser enviada em sucessivas cartas a Eduardo Coelho, primeiro diretor do Diário de Notícias. Na primeira, a atmosfera de mistério preparava já o espírito do leitor para um caso cheio de suspense: "Senhor Redator do DN, venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente extraordinário em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo modo que eu entender mais adequado, publique a substância do que vou expor. Os sucessos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mistério, envolve-os uma tal aparência de crime que a publicidade do que se passou torna-se importantíssimo como chave única para a desvendação de um drama que suponho terrível conquanto não conheça dele senão um só ato."

Na véspera da sua publicação, a 23 de julho, o próprio jornal aguçará o apetite do leitor ao publicar este aviso no espaço imediato aos «Assuntos do dia»: "A hora já adiantada recebemos ontem um escrito singular. É uma carta, não assinada, enviada pelo correio à redação, com o princípio de uma narração estupenda, que dá ares de um crime horrível, envolto nas sombras do mistério, e cercado de circunstâncias verdadeiramente extraordinárias, e que parece terem sido feitas para aguçar a curiosidade, e confundir o espírito em milhares de vagas e contraditórias conjeturas. Trata­‑se da sequestração noturna de um médico, e de um amigo seu para assistirem a um ato gravíssimo, e, demais factos subsequentes. O interesse que esta narração desperta, a forma literária que a reveste, e o crime que parece revelar nos obrigam a não buscar resumi­‑la, e a dá­‑la na íntegra aos nossos leitores. Não podemos, porém, inseri-la sem eliminar o folhetim, e substituí­‑lo por esse escrito, o que faremos em a nossa folha de domingo."

A dúvida estava lançada: notícia ou ficção? Durante mais de dois meses, de 24 de julho a 27 de setembro, os leitores do jornal não perderam pitada, desconhecendo totalmente a autoria de quem escrevia, mas incapazes de resistir ao suspense que se lançava no final de cada capítulo do folhetim, uma técnica de "engodo" ainda hoje adotada pela ficção televisiva. O sucesso foi total. As 31 cartas seriam reunidas em livro nesse mesmo ano, numa edição da Parceria António Maria Pereira, só se revelando a sua na última, que também encerra a história.

Como escreve o estudioso da obra de Eça de Queiroz e catedrático da Universidade de Coimbra, Carlos Reis, na nota prefacial à edição crítica de O Mistério da Estrada de Sintra: "Este é um exercício de construção de uma ficção que habilmente disfarça essa sua condição. Ou que joga, de forma deliberada e divertida, com as frágeis fronteiras da ficção e com dispositivos contratuais e discursivos que põem em causa a distinção entre mundo ficcional e mundo real. Era um jovem que andava pelos 25 anos quem comparticipava naquele exercício, já então, como acontecera alguns anos antes com os folhetins da Gazeta de Portugal, com o claro propósito de introduzir uma vibrante nota de provocação nas rotinas culturais da burguesia lisboeta. Acompanhava Eça de Queiroz, na composição do romance, Ramalho Ortigão, mais velho nove anos do que o amigo (e seu antigo professor, como se sabe), na que seria uma primeira colaboração entre ambos, aprofundada, no ano seguinte ao do aparecimento d"O Mistério da Estrada de Sintra, quando irromperam, na cena cultural portuguesa, As Farpas."

Quinze anos depois, com os dois autores a serem já nomes conhecidos do grande público, far-se-ia uma segunda edição da obra, em que os dois esclareceriam as circunstâncias em que esta fora produzida: "O que pensamos hoje do romance que escrevemos (...)? Pensamos simplesmente - louvores a Deus - que é execrável." Mas acrescentam, sempre provocatórios. "Aos 20 anos é preciso que alguém seja estroina, nem sempre talvez para que o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite."

Folhetins, entretenimento das famílias

Num mundo anterior à rádio, ao cinema e à televisão, a leitura era o principal meio de entretenimento das famílias. Em França e em Inglaterra, jornais e revistas de grande tiragem começaram a publicar histórias, fundamentalmente de aventuras, em "episódios", de modo a fidelizar os leitores. Quanto mais agitadas fossem as peripécias dos heróis, melhor. Assim se estrearem, nas lides literárias, homens como Alexandre Dumas que começaria por escrever os seus maiores êxitos como Os Três Mosqueteiros ou O Conde de Monte Cristo no jornal Le Siècle. O mesmo aconteceria com outros autores como o referido Ponson du Terrail, Paul de Kock ou mesmo grandes nomes do cânone literário francês como Balzac ou Zola. Do outro lado da Mancha, o mesmo faria Charles Dickens, que, aliás, começaria por assinar a crónica judicial do que se passava nos tribunais de Londres. Em 1833 começaria a publicar na revista The Monthly Magazine um conjunto de apontamentos humorísticos a que daria o nome de Sketches by Boz, que reuniria em livro em 1836. Mas várias obras de Dickens fariam o mesmo percurso, como Os Cadernos de Pickwick ou mesmo romances como Oliver Twist (publicado originalmente na Bentley"s Magazine) ou Nicholas Nickleby. Lá, como cá, o método era sempre o mesmo: aparecia na parte inferior de uma página ímpar e, de edição para edição, tratava de agarrar o leitor com suspense e "cenas dos próximos capítulos". Já no século XX, jornalistas como Reinaldo Ferreira (o famoso Repórter X) usariam técnicas não muito diferentes em reportagens de longa duração, publicadas na imprensa diária, como O Táxi n.º 9297 (sobre o assassinato da atriz lisboeta Maria Alves, que mais tarde o próprio transformaria em livro e em filmes), que, ao longo de meses, acompanhou a intricada investigação em torno de quem, numa noite escura de 1926, atirara o corpo da mulher, já morta, de um táxi em andamento. Tivesse ele usado o título O Mistério do Regueirão dos Anjos e ninguém se teria escandalizado.