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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

GLOSSÁRIO e a “arte de furtar”

 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025


Pela sua utilidade, e, porque a ladroagem se tornou epidémica, republico o meu glossário.

E quando os vejo continuar no officio illesos, não posso deixar de o atribuir à destreza de sua arte, que os livra até da justiça mais vigilante, deslumbrando-a por mil modos, ou obrigando-a que os largue, e os tolere; porque até para isso têm os ladrões arte.”

“Arte de Furtar” (1742)

 

Abafação é furto, abafador o ladrão e abafar a ação. Abarbatar e abotoar-se é deitar mão do alheio e, em calão, o achatar, assim como afiançar, é simplesmente roubar. Afanar é já da gíria - e é giro. Enquanto o agadanhador surripia, agadanhar é lançar o gadanho, tirar à força, tal como agafanharAlapardar é apossar-se do que pertence a outrem, ou seja, locupletar-se ilegalmente. O alcance tem nobreza, é mais para pessoa fina, não tem a ver com a plebe, pela delicadeza do termo, não está longe da alicantina, cheia de astúcia e manha. Aliviar é coisa de carteirista. Também sinónimo de roubo, anexar é termo abrangente, mais próximo do apoderar-seapossar-se, apropriar-se, mas apanhar alguém com a boca na botija, sendo também roubar, é termo frouxo. Arrancar, arrebanhar, arrebatar, arrepanhar são palavras fortes, principalmente quando colocadas ao lado do assenhorear-se, expressão delicada, punhos de renda, com classe.

 

Barrela, significa engano, logro, esparrela. Bater a carteira é roubar às ocultas a carteira do bolso de outrem, mas, só Bater é, no Brasil, o nosso aliviar, tal como buscar tem busco como autor. Ao bifar, furta-se disfarçadamente. O borlão, borlador ou burlista exerce a arte de burlar, obviamente. Mas deitar a mão a… é benzer.

 

Ao capiangar, furta-se com destreza, sendo o capiango um ladrão astuto, já o cafunge e o camafouje são gatunos, gente vil. Captar, faz-se com astúcia. Cardanho ou cardar é roubo na área do palmar, mas catar e catrafilar fazem parte do jargão do choro, larápio sem estatuto. Comer é espoliar, saquear, e consumir iludir e comedeira refere-se a lucro desonesto muito próxima de exacção. O palavrão, concussão, é específico para o funcionalismo público, uma honra. Corte é roubo, acção de cortar-se ou apropriar-se de coisa alheia. E para terminar a terceira letra do alfabeto, ficamos com cresta e crestar que se aplicam ao desfalque e ao despojar.

 

Dar a palmada ou dar o golpe circulam na gíria colorida do gingão e, claro que, deitar a luva ou deitar a unha não são expressões de salão, assim como depenar depenador também não. Defraudador e defraudar são mais suaves no burlar. Porém, depredação e depredar são o roubo violento, muito diferentes do desapossar é tirar descaminho, um termo bonitinho, próximo do desvio e não longe do desfalque ou desfalcardespojo ou despojar. Mas nobre, nobre mesmo, é o desvio…o desviar, não se utilizam abaixo do milhar e, creio que com a inflação, já deviam ter sido promovidos a milhão. Dolo, até pela pronúncia tem classe e pavoneia-se pelos corredores dos tribunais.

 

Empochar, empalmar, empalmação andam muito pelas ruas do calão e eliminar, tal como endrominar, também. Empolgar é mais violento e o engodar tem ardil. Esbrugar ou esburgar é forçar e esbulho e esbulhar são mais abrangentes, vão até ao abuso de poder; já escamotear é roubar com muita habilidade e escorchar anda pelos mesmos becos do despojar. Escroque, galicismo, entrou no nosso linguajar e ficou como burlão, intrujão, vigarista e trapaceiro que é. Ao esgueirar-se, subtrai-se com astúcia, desvia-se, sendo a estafa burla; espoliar é extorquir e esquivar-se furtar; estelionato e o estelionatário tão em voga; subtrair herança é expilarExtorquirextorsão e extorsionário são termos rudes; já, extravio navega nas águas do desvio, não fere as almas sensíveis.

 

Fajardo furta habilmente, faz fajardice em suma; falcatrua e falsificar andam muito a par; a malta diz fanarfazer a folha e fangueirada é furto que vale a pena. Fazer, fezada, fazer rajá é simplesmente roubar, mas fazer a pala é encobrir o roubo; e ainda com o verbo fazer temos o fazer mão baixa e fazer mão de gatoFilho da noite é gatuno violento assassino que opera na calada da noite. O flibusteiro vive de expedientes, da trapaça; forjar é falsificar; fraude ou fraudulência, fraudarfraudador andam no campo do engano, do defraudar já citado. Furto, furtar e furtança são linhas do mesmo novelo, onde se enrola a trapaça.

 

A avidez do galfarro não perdoa, deita a mão ou o gadanho; gadanhar ou gadunhar são artes do gamanço dos que sabem gamarGatázio é grande logro e deita-se o gatázio a alguém ou a alguma coisa. Gatear é roubar já o gateador é ladrão manhoso e gato, dar gato por lebre, fala-nos de logro. Gatuno é termo corrente e gatunice a sua prática; levar vida de gatuno é gatunar, tal como gatunagem é o colectivo destes meliantes. Gaturama ou gaturamo não faz mais que gaturar ou gaturrar. No Brasil, guinda é roubo com escalada, e, para nós, ao guindar rouba-se carteira e também, em calão, guindo é simplesmente roubo. Intrujão ou entrujão é o que faz intrujice e, ao intrujar, burla-se. Intrusão é usurpação, posse ilegal e violenta, acção de se apossar de um cargo, de uma dignidade… o dia-a-dia em suma.

E assim chegamos ao trivialíssimo: LADRÃO! Que no feminino nos dá a ladra, ladrona ou mesmo ladroa. O ladranete é o ladrãozinho de meia-tigela; ladripar é surripiar coisa de pouco valor, trabalho do ladripo ou do desclassificado ladranete, já mencionado, assim como do ladrisco, um tanto tolerado, vejam bem! Na gíria do Porto ladrilho é simplesmente gatuno. E sendo ladro, ladrão, ladroar a acção, e ladroagem seu vício, ou bando de ladrões, ladroado é o roubado. Defesa contra o ladroísmo eleitoral vem a propósito, é mais que ladroeira ou ladroíce, ladroísmo é um hábito, um vício dos que, ao ladroeirar, vão fazendo as suas ladroeiras. Temos, por fim, o ladranzana, ladravaz, ladravão ou ladroaço, palavrões aplicados aos grandes ladrões, não àqueles que desviam milhões, não: por uma questão de pudor, estilo ou conivência, o vocábulo não se lhes aplica. Sua excelência senhor fulano de tal ladranzana, ladravaz ou ladravão! Convenhamos que temos que encontrar palavras para esses crápulas. Lança: furto rápido. O larápio, ao larapiar ou larapinar, faz larapice; não é violento como o que, ao latrocinar, comete o latrocínio, roubo violento, mesmo à mão armada. Leilão é roubo no Dicionário de Calão. Levar, libertar e limpar vivem nas margens do jargão; faz-se limpeza ou livrar a alguém o que lhe pertence. Ao lograr pratica-se o logro a que nos sujeitam diariamente.

 

     Dos jogos malabares, que na sociedade tanto se praticam, o gingão, muito a propósito, emprega malabar como roubar, e o malandro, que também pode ser gatuno, tem como diminutivos malandrete, malandrim ou malandrote e seus hierárquicos superiores o malandraço ou malandrão. Ao malversar, fazem-se desvios abusivos. Mamata é roubo de alto nível e marmelada negócio inescrupuloso; e meliante, gatuno; malversação apropriação indébita de fundos, valores, esp. durante administração de património alheio, público ou privado. Em calão, mordido é o roubado. Mosco é furto em residência com chave falsa, furto audacioso, com assalto; já meter a unha é extorquir, meter a mão, roubar.

 

     Ocultar é sonegar rendimentos… cometendo fraude. Onzenar é praticar usura, e onzeneiro o seu autor.

 

     Palmar é bifar; palmanço, gamar e dar a palmada tem a mesma raiz. O pandilheiro faz parte da pandilha ou quadrilha de ladrões. O pantomineiro, mestre em histórias para enganar, exerce a pantomina e, com as suas pantominices, acaba por levar à certa, com inteligência, a vítima escolhida. Para o populacho, picar é roubar, e pichelingue o larápio. Ao pifar, furta-se. Pilhar tem extremos, vai do reles pilha-galinhas à pilhagem praticada, geralmente por um grupo, de forma devastadora; mas pilha é o larápio e pilho ou pilhante o gatuno ou patife. E chegámos ao pirata, ladrão ou ladra do mar e não só, sujeitos que estamos a piratices, piratada, piratar, piratagem e a todas as piratarias que se nos colam como sanguessugas, indivíduos que por meio de exacções tiram dinheiro a outrem. Plágio ou plagiar é usurpar as ideias ou palavras de outrem, roubo literário; plagiato acção de apresentar como seu o que se copiou e o plagiador ou plagiário andam nos bicos dos pés com suor alheio. Prear é apossar-se de (alguém ou alguma coisa) ou pilhar, se a frase o consentir. Prender também pode entrar na área do suborno: suborno que se tornou num vocábulo que se traz na lapela, símbolo de sucesso, promoção social et cetera e tal. Prescrever, prescrição são as alavancas que emperram a engrenagem judicial em benefício, geralmente, dos colarinhos brancos que desviam grandes somas; manigâncias! A responsabilidade da sua inclusão neste glossário é minha, tal como privatizar cuja raiz é comum a Privar que mais não é que tirar ou despojar. pungueia; batedor de carteiras, ladrão, punguista pratica punga ('furto'); furtar das pessoas (dinheiro, carteira, relógio, jóias etc.), ger. em locais de aglomeração.

 

Quadrilha é bando de malfeitores, subordinados a um chefe que por vezes até pode legislar, privatizar e forçar as prescrições. Bem entendido que o quadrilheiro é o que faz parte da quadrilha.

 

Rapace o que rouba, que rapina, e rapacidade a inclinação para tal mister. Rapar é apropriar-se dos bens de outrem, deixando-o sem nada. Rapina roubo violento, pilhagem e rapinação roubo ardiloso; e da mesma raiz seguem rapinador, rapinagem, rapinice, rapinanço, rapinante e rapinar. Rapto também é acto de furtar e raptar pode significar tirar alguma coisa a alguém, usando a força. E não podia faltar o rato-de-sacristia, beato falso e ladrão de igrejas, vai dar ao mesmo. Se o ratoneiro é pessoa que rouba, já ratonice é roubo insignificante. Na gíria, rifar é bifar. Rouba é o mesmo que roubo e roubador o que furta e, como há tantos modos de roubar, defendamo-nos da roubalheira quotidiana a que estamos sujeitos.

 

Sacomão termo em desuso que designava o salteador e saco o acto de saquear. Saca, é um elemento de composição que traduz a ideia de sacar ou tirar, daí sacar significar também tirar a alguém, em benefício próprio e contra sua vontade. A malandragem usa safar para designar os seus furtos, e os modernos dicionários já incluem o termo. Saltada é roubo com assalto e salto roubo em estrada, pilhagem ou saque. Quando se diz que o país está a saque, todos compreendem, apercebem-se dos que estão a saquear e, por vezes, até conhecem o saqueadorSenhorear-se ou assenhorear-se é tornar-se, ilegitimamente, senhor de. E sonegar é deixar de mencionar, com fraude, acto corrente para suas excelências que, embolsando milhões, apresentam prejuízos. Ao sovacar, o sovaqueiro pira-se com o roubo debaixo do sovaco, sendo denominado também ladrão de fazendas. Um pobre diabo! Ao subtrair, furta-se alguém de forma escondida ou fraudulenta, termo muito próximo do surripiar ou surripilhar, com um leque alargado, que vai da surripiação ao surripiado ou surripilhadosurripianço e ainda o respectivo surripiador que comete o surripio, acto ou efeito de furtar. Tirar é desvio ou roubo, depende da classe e do montante, e tomar é apoderar-se de bens alheios. Trabalho e trancanhir é, em calão, roubo, assalto, mas trancanhir tem pinta! Trapaçar ou trapacear é enganar, fazer contrato fraudulento, burla ou embuste; trapacice acto do que fez a trapaça.

 

Unhar é muito usado na “Arte de Furtar” do Padre Manuel da Rocha. Quanto a usurpação, por meio de violência ou artifício, tem como artífice o usurpador, que mais não faz que usurpar, ao adquirir fraudulentamente ou apossando-se violentamente do alheio. O vigarista burla ou engana os ingénuos ou incautos e que, ao vigarizar, faz vigarice.

Na letra xis só encontrei o local onde se encontram os pequenos trapaceiros que vão de cana para o xadrezxilim ou xilindró

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Porque me tornei comunista, por Pablo Picasso

*  Pablo Picasso

A minha entrada no Partido Comunista constitui um passo lógico na minha vida e no meu trabalho, um passo que lhes dá significado. Através do desenho e da cor tenho procurado um conhecimento mais profundo do mundo e dos homens, para que esse conhecimento sirva para nos libertar. Sempre expressei, à minha maneira, o que considerava mais verdadeiro, mais justo e melhor, e portanto mais bonito, mas durante a opressão e a insurreição percebi que isso não era suficiente, que eu tinha que lutar não só com meus pincéis, mas com todo o meu ser. Uma “inocência” peculiar havia anteriormente impedido de compreendê-lo.

Tornei-me comunista porque o nosso Partido se esforça mais do que qualquer outro para conhecer e construir o mundo, tornando os homens pensadores mais claros, livres e felizes. Tornei-me comunista porque os comunistas são os mais corajosos da França, da União Soviética e da minha pátria: Espanha. Nunca me senti mais livre ou completo do que desde que ingressei no partido. Enquanto espero o momento em que a Espanha me possa receber novamente, o Partido Comunista Francês será uma pátria para mim. Nele me encontrei novamente com todos os meus amigos – os grandes cientistas Paul Langevin e Frédéric Joliot-Curie, os grandes escritores Louis Aragon e Paul Éluard, e tantos rostos bonitos dos insurgentes em Paris. Mais uma vez me sinto entre meus irmãos.


* Carta enviada por Pablo Picasso ao jornal New Masses de Nova York, em outubro de 1944, comunicando seu ingressar no Partido Comunista da França.

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O FASCISMO E A INTOLERÂNCIA EVOCADOS POR UMBERTO ECO



O FASCISMO E A INTOLERÂNCIA EVOCADOS POR UMBERTO ECO

(Traduzido e comentado por Alfredo Barroso)

Os textos de UMBERTO ECO que a seguir vão ler, traduzidos por mim, Alfredo Barroso, dedico-os a todos aqueles que ainda se atrevem a dizer que o movimento do CHEGA, chefiado por André Ventura, não é fascista ou neofascista, é só um movimento demagógico e populista de extrema-direita. Para que não acordem para a realidade quando já for demasiado tarde, quando Ventura tiver encontrado em Rui Rio um aliado como Hitler encontrou em Franz Von Pappen (que o ajudou a dissolver a República de Weimar e a consolidar o seu poder), e em Marcelo Rebelo de Sousa, um PR tão impotente como o marechal Paul Von Hindenburg, Presidente da República de Weimar desde 1925 até à sua morte em 1934.

Ora leiam:

- «Temos de velar para que o significado de cada um destes dois termos [Liberdade e Libertação] nunca torne a ser esquecido. O fascismo eterno está sempre em nossa volta, por vezes com disfarces civis. Seria tão confortável que alguém avançasse pelo palco do mundo e dissesse: 'Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas negras voltem a desfilar pelas ruas italianas'. Pois é, mas a vida não é assim tão simples! O fascismo eterno é susceptível de regressar sob as aparências mais inocentes. E temos o dever de o desmascarar, de apontar a dedo cada uma das suas novas formas - todos os dias, em cada parte do mundo. Dou, mais uma vez, a palavra a [Franklin D.] Roosevelt: "Atrevo-me a dizer que, se a democracia americana deixasse de progredir como uma força viva, procurando dia e noite, por meios pacíficos, melhorar a condição dos nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria no nosso país" (4 de Novembro de 1938). Liberdade e Libertação são, portanto, um dever que nunca acaba. E tal deve ser a nossa divida: “nunca esqueçamos”». 

- «A intolerância mais perigosa é aquela que nasce na ausência de qualquer doutrina, movida por pulsões elementares, É por isso que os argumentos racionais não servem para criticá-la nem para travá-la. É evidente que os fundamentos teóricos de 'Mein Kampf' são refutáveis com uma bateria de argumentos bastante elementares, mas se as ideias que [o livro de Hitler] propõe sobreviveram a todas as objecções é precisamente porque elas se apoiam numa intolerância selvagem, impermeável a toda e qualquer crítica»-

(...) « Toda e qualquer teoria se torna vã perante a intolerância rastejante que ganha terreno dia após dia. A intolerância selvagem baseia-se num curto-circuito categorial que ela empresta, desde logo, a uma futura doutrina racista. Por exemplo: se Albaneses entrados em Itália nos últimos anos se tornaram ladrões ou deram em prostitutas (o que até é verdade), segue-se então que todos os Albaneses, sem excepção, são ladrões ou prostitutas. 

«Este é um curto-circuito terrível porque constitui uma tentação permanente para cada um de nós: basta que nos tenham roubado uma mala no aeroporto dum país qualquer para que se regresse a casa afirmando que é preciso desconfiar das pessoas desse país. 
«Aliás, a intolerância mais terrível é a dos pobres, primeiras vítimas da diferença. Não há racismo entre os ricos: esses, eventualmente, produzem doutrinas do racismo; mas os pobres produzem-no na prática, que é bem mais perigosa. 

«Os intelectuais não conseguem lutar contra a intolerância selvagem porque, face à pura animalidade sem pensamento, o pensamento está desarmado. Mas já é bastante tarde quando eles enfrentam a intolerância doutrinal, porque, quando a intolerância se faz doutrina, é demasiado tarde para a combater, e aqueles que deveriam fazê-lo tornam-se as suas primeiras vítimas. 
 
«E no entanto, é aí que está o desafio. Educar na tolerância os adultos que se disputam uns com os outros por motivos étnicos e religiosos é tempo perdido. Demasiado tarde. É que a intolerância selvagem tem de ser combatida na raiz, por via de uma educação constante que tem de começar desde a mais tenra infância, antes que ela se inscreva num livro, e antes que ela se torne uma casca comportamental demasiado espessa e excessivamente dura«.

 
NOTA: Este texto foi escrito na altura do julgamento do capitão SS Erich Priebke, que participou activamente, sob as ordens do major Kappler, no terrível massacre das Fossas Ardeatinas (em Roma, a 24 de Março de 1944, e que consistiu na execução de 335 reféns italianos, como represália a um atentado cometido por "partigiani" da Resistência Italiana que causou 33 mortos membros das SS; o cálculo feito pelos nazis era o de fuzilar 10 italianos por cada SS morto, mas ainda foram acrescentados nomes à lista inicial). Encontrado na Argentina, onde se tinha refugiado, Erich Priebke foi extraditado em 1995 e julgado em Roma por um tribunal militar que, em 1 de Agosto de 1996, o deu como culpado de homicídio mas ordenou a sua libertação imediata por o crime ter prescrito. Ora, o texto de Eco, do qual apenas traduzi alguns excertos, foi escrito no momento dessa escandalosa sentença, que suscitou uma enorme emoção em Itália. Entretanto, o Supremo Tribunal de Justiça italiano anulou a sentença e, em consequência de novo julgamento, Priebke foi condenado, em 7 de Março de 1998, a prisão perpétua. 

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sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Cid Simões - Boas-Festas de punho erguido

*  Cid Simões 
 
 

 «Não há nada isento das revoluções, e alterações do mundo; tudo nele se muda, porque tudo se move; por isso a firmeza é violenta, ao mesmo tempo que a inconstância é natural.»

Matias Aires

O mundo está uma arrastadeira, um caneco onde me recuso a viver de braços caídos. Prometo-te amigo, cidadão, camarada que lutarei até ao fim pela reconquista da dignidade usurpada, pela justiça onde o ser humano seja o sujeito das nossas preocupações, o objeto e o objetivo das nossas vidas, para que um dia possamos desejar as boas-festas sem o terror da incerteza a esmagar os nossos sonhos.

Cid Simões 

O medo aí está: frio e amorfo como a angústia. O que poderia ser um excelente pretexto para manifestarmos os nossos profundos sentimentos, e solidariedade atuante, não vai além da ladainha habitual, despersonalizada, frouxa, sem alma. Boas-festinhas nha-nha-nhá, com o mesmo jerico e as receitas requentadas do costume, servidas em inglês, francês, espanhol, alemão, pois claro, cirílico, árabe e japonês que, pela grafia, se depreende.
 

Este ano o meu bilhete de boas-festas será ilustrado com um bispote. O vaso em questão, bacio, doutor ou penico, deixo o vocábulo ao vosso gosto, é o símbolo mais eloquente da civilização e do momento histórico que estamos vivendo.

Provocação, insensibilidade, mau gosto?

Provocação seria enviar-vos as boas-festas sem esboçar um gesto de revolta face aos crimes que, neste preciso momento, estão a ser cometidos ou cooperar na farsa dos que, para alijar a conscienciazinha, deixam à saída do supermercado uns baguitos de arroz, um pacote de bolacha-maria e a alma aliviada.

Insensibilidade seria também não corar de vergonha ao assistir a peditórios para “dar de comer a quem tem fome”. Fome, artimanha do destino, espécie de flagelo incontrolável, catástrofe natural ou crime contra o qual se esgrima com pipocas, coca-cola e uns torrões de açúcar, sem que, por cobardia intelectual, física, social ou pela cómoda inércia que usa óculos fumados não coloca a questão essencial: Porquê a fome?

Mau gosto era ignorar ou banalizar a clássica questão de Garrett: “quantos pobres são necessários para fazer um rico?” Quando é sabido que um só homem, pode possuir uma fortuna superior a mais de uma dezena de países do dito terceiro mundo, países onde morrem à fome milhões e milhões de crianças e, face a este genocídio, friamente organizado, à porta dos supermercados, deixar-lhes uns brinquedos, saquinhos de rebuçados e algum dó, por ser mais cómodo do que gritar: assassinos! ou ir para a rua alertar para o crime e dizer onde se encontram os seus algozes!

Com o óbolo pio, um pacotito de bolacha-maria, por exemplo, seguem confortadas as boas almas a tempo de não perder o fio às telenovelas que limitam as preocupações, o raciocínio e a inteligência, no casulo morno do doce lar. Se a fome algum dia também lhes bater à porta… logo se verá!

Tão-pouco se apercebem que o óbolo oprime, despersonaliza e ofende quem o recebe, deixando no “benfeitor” o rasto bolorento de gestos a esconder.

Provocação ainda seria desejar boas-festas, a seco, aos desempregados cujo pão não lhes chega à mesa e o acesso a medicamentos, transportes e outros bens essenciais lhes estão vedados, os compromissos fixos aumentam e o trabalho precário continua.
 
A realidade impõe a mudança pela qual lutamos: uma sociedade SOCIALISTA!



QUINTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2020
PUBLICADA POR CID SIMOES À(S) 19:54

http://aspalavrassaoarmas.blogspot.com/2020/12/boas-festas-de-punho-erguido.html


terça-feira, 14 de abril de 2020

Jorge Sarabando - “Uma bomba a iluminar a noite do Marão”

Em tempos de confinamento, um livro que nos ajuda


“É a memória que nos constrói, como cidadãos livres numa democracia plena.”

Uma bomba a iluminar a noite do Marão”
(Edições Afrontamento, Porto)

 Jorge Sarabando
Há 44 anos, um atentado bombista matou dois jovens transmontanos na flor da vida: Maximino de Sousa e Maria de Lurdes Correia. Foram vítimas do ódio político. O Padre Max, assim conhecido na comunidade, era tido como um Padre com ideias comunistas, e a Maria de Lurdes era uma jovem estudante, alegre e espontânea, a quem dera boleia.

Tratou-se de um crime político, planeado e executado por um comando da rede terrorista da extrema-direita, com apoios locais, que aconteceu numa fase já declinante do processo revolucionário, justamente em 2 de Abril de 1976, dia em que o Presidente da República, General Francisco da Costa Gomes, promulgou a Constituição, no momento seguinte à sua votação final.

O golpe de 25 de Novembro acabou com a fase mais criadora da Revolução. O Governo e a Assembleia Constituinte continuaram em funções, mas havia forças que pensavam poder ainda reverter o curso da História. O período entre Novembro de 75 e Abril de 76 foi dos mais violentos e mortíferos, tendo sido cometidos 97 atentados bombistas. Lembro o assassínio a tiro, na própria noite de 25 de Novembro, do operário vidreiro e sindicalista António Almeida e Silva, numa rua do Porto, a morte de Rosinda Teixeira, em Santo Tirso, de duas pessoas da Embaixada de Cuba, de um cidadão junto do CT Vitória, do PCP, em Lisboa, vítimas de explosões, sem esquecer, noutro quadro, a morte, por disparos da GNR, de quatro pessoas, numa pequena multidão que se manifestava pacificamente, no final do ano, junto à cadeia de Custóias, onde estavam detidos militares de esquerda, acusados de envolvimento no 25 de Novembro. Foi nessa época que ocorreu o atentado bombista na Câmara Municipal de Vila Real, que por pouco não atingiu o Presidente da Comissão Administrativa, Rogério Fernandes, conhecido militante do PCP e amigo do Padre Max. Foi na mesma altura que uma bomba destruiu o carro do médico de Chaves Maximino Cunha. O crime infame que vitimou o Padre Max e a estudante Maria de Lurdes não foi um caso isolado. 

Um dos méritos do livro de Daniela Costa é o de mostrar o outro lado da História, para além dos números, dos factos e da sua interpretação. São as pessoas, os seus sonhos, as vivências, as emoções, os desejos, os conflitos, o sofrimento, o enfrentamento de interesses, o entorno social, o caldeio de lutas, a miséria moral e a grandeza humana, os acasos e as causas, o encanto e o desencanto, a sordidez dos actos e a beleza da vida, a inquietação, a magia, o mistério, o egotismo e a generosidade e o amor em dádiva, tudo isto, e muito mais do que isto, flui na leitura de um texto que transcende o tempo e o lugar.

Outro mérito advém do modelo narrativo. A voz da autora desdobra-se em outras vozes, todas elas com densidade própria, coloração, respiração, e uma autenticidade que nos transporta às fragas do Marão e às lonjuras, ao cheiro da terra, e aos socalcos do Douro, lá onde a mão humana esculpiu a paisagem. Uma escrita com rara mestria que permitiria mesmo uma expressão cénica pois, uma a uma, em diferentes registos, como que se apresentam num proscénio.

Logo de início uma primeira figura, antecedendo as demais, assim fala: “Os meus dedos grossos de trabalho e velhice arranham-me as maçãs do rosto de cada vez que enxugo estas lágrimas que não me deixam”. E com isto se anuncia o dramatismo da acção.

Em outras falas se cruzam palavras como sonho, fuga, liberdade, que lembram aquele verso de Torga “ grandes serras paradas à espera de movimento”. E com isto se define a essência de uma contradição: a fixidez, a imobilidade do que está, e a mudança a que se aspira.

Outra figura diz detestar um quadro torto e uma sala desarrumada. E com isto revela a fonte do desajustamento que o incomoda: não é a desordem das coisas mas sim a desordem das pessoas que não aceitam a perpetuação das desigualdades.

As figuras sucedem-se cada uma com o seu testemunho. Sempre ausentes e sempre presentes lá estão o Padre Max e a Maria de Lurdes através das palavras de quem os conheceu, e amou ou odiou.

Lá vem aquela suposta avó, mulher do campo digna, honesta, carinhosa, a quem os filhos emigrantes permitiram uma vida melhor na cidade, e que tanto estimava o seu hóspede Padre Maximino.

Lá vêm os colegas da Lurdes e alunos do Padre Max, a quem este apoiava com aulas gratuitas para poderem prosseguir os estudos.

Lá vêm os sacerdotes amigos de Max, um mais compreensivo, outro mais distante.

Lá vem o prelado com suas blandícias, espelhando as contradições da Igreja.

E o cacique de direita e suas más companhias.

E o grande proprietário do Douro a quem um dia as trabalhadoras reclamaram o justo pagamento.

E uma colega que juntava a altura da sua condição social à baixeza dos seus sentimentos.

E o filho família, de raiva exposta e verbo radical, um tanto aventureiro.

E o activista sindical da UDP que lutava na empresa por melhores salários.

E gente da rede terrorista e dos interesses de classe que serviam.

E o advogado, corajoso e persistente, que não deixou cair o caso na obscuridade.

E personagens luminosas, por ideais e afectos, e outras sombrias, pela trama de ódios e violências.

Uma a uma chegam ao proscénio e falam, os discursos não se cruzam mas vão construindo um quadro. Os percursos pessoais, as relações humanas, onde não falta um enredo amoroso e, em fundo, o eco de lutas sociais, pela devolução dos baldios aos povos, pela justa paga do trabalho nas vindimas e na apanha da azeitona, ou em torno da Gestão da Casa do Douro.

Foi a época das grandes manifestações, como a que foi organizada pela Igreja, com pretexto no caso da Rádio Renascença, mas que, talvez por diligências do PCP, designadamente junto do Bispo, e um Apelo dirigido aos cristãos de Vila Real, não causou violências, como, entre outras cidades, aconteceu em Braga, onde o Centro de Trabalho foi destruído.

Ou a manifestação em Lame

go contra os militares do MFA da Comissão de Gestão da Casa do Douro. “Nem Cunhal nem Pardal” era o grito de guerra de uma multidão arrebanhada pelos caciques e que chegou à Assembleia Constituinte pela voz de um deputado da região.

Cenas da luta de classes em Trás-os-Montes, dir-se-á. O livro de Daniela Costa é isto, mas é muito mais do que isto, porque tem o dom da boa literatura: desde início a leitura nos prende e logo nos transporta e nos situa num outro mundo, e nos coloca dentro de uma história, como se tivéssemos também conhecido e convivido com o Padre Max, um jovem bom, generoso, um cristão convicto, um homem de fé.

Falámos das vítimas, falemos agora da rede terrorista a que já nos referimos, responsável por 566 actos violentos, entre Maio de 75 e Abril de 77, entre os quais 310 atentados bombistas e 194 incêndios e assaltos, tendo como alvo forças de esquerda e o movimento sindical.

Quem a constituía? O ELP, o MDLP, a rede Maria da Fonte e outras organizações congéneres, que tinham como base logística a Espanha franquista, onde actuavam com nomes de fachada como a empresa Tecnomotor ou a Fundação Nossa Senhora de Fátima. Uma das melhores fontes para conhecer este mundo sórdido é o livro de Maria José Tíscar “A contra-revolução no 25 de Abril” (edições Colibri).

Quem a dirigia? Inicialmente antigos dirigentes da PIDE como Barbieri Cardoso e Cunha Passo, ou o inspector Meneses Aguiar ou o legionário Rebordão Esteves Pinto, a que se juntou depois a corte spinolista que fugiu para Espanha, após o golpe falhado de 11 de Março.

Quem eram os efectivos? Antigos agentes da PIDE e legionários, alguns colonos inconformados, mercenários, fascistas convictos, gente a mando dos caciques, um certo lumpen de fácil recrutamento.

Quem os financiava? Banqueiros e grandes empresários que nunca aceitaram o 25 de Abril e muito menos o rumo socialista que tomou e veio a ser consagrado na Constituição, além de conhecidas agências de países da NATO.

Os crimes foram punidos? As primeiras prisões são do verão de 76, efectuadas pela Directoria do Porto da Polícia Judiciária, mas poucos foram os autores morais e materiais presos e menos os condenados. Em geral beneficiaram de uma teia de cumplicidades que lhes permitiu encontrar boas soluções de vida, e alguns vieram até a ser distinguidos pelo poder político emergente.

Houve mesmo quem publicasse livros em que se gaba dos seus feitos. Foi o caso de um tal Manuel Gaspar, de quem o jornalista Ricardo Saavedra escreveu as memórias (O Puto, edições Quetzal). Depois de ter participado no golpe racista de 7 de Setembro de 74 em Moçambique, donde era natural, e na marcha até Luanda com as forças sul-africanas que tentavam impedir a independência de Angola em 11 de Novembro, sob a direcção do MPLA, desembarcou em Portugal, onde logo entrou ao serviço da rede terrorista. É um dos participantes confessos no assassínio do Padre Max e da Maria de Lurdes que, nas pgs, 337 a 340, descreve com detalhe. É um relato impregnado de cinismo onde defende, como é habitual nestes casos, que a intenção não era matar mas apenas assustar. Começa, com certo gáudio, a descrever a cena em que “à hora certa”…”lá vinha Maria de Lurdes, toda fresca e radiante nos seus dezoito ou dezanove anos”, para terminar explicando as mortes: “Só que o destino do casal, infelizmente, estava traçado, e contra o destino não há planos que resistam”. Por curiosidade se acrescenta que o indivíduo esteve preso em Alcoentre, por outras acusações, donde fugiu passado pouco tempo.

No mesmo livro se transcreve um artigo do jornal fascista A Rua, de 8 de Junho de 77, onde se fazia a afirmação de que a Maria de Lurdes estava “grávida de 3 meses”, que ficou provado, mais tarde, ser uma abjecta calúnia.

O fascismo não é coisa do passado, está de regresso e em força. Há uma direita tradicional, que se move no campo democrático, que tem da violência fascista uma visão instrumental pelo que possa ser útil para os seus interesses de classe. Tende a contemporizar ou condescender porque teme, acima de tudo, o ascenso revolucionário que a crise do capitalismo possa gerar nas classes trabalhadoras. A grande burguesia, a alta finança, têm com as organizações fascistas laços de cumplicidade e mesmo vínculos orgânicos, muito resguardados. Como aconteceu nos anos 20 e 30 com os resultados conhecidos. Como aconteceu em Portugal nos anos da Revolução. Como hoje vai acontecendo na Europa ou no continente americano.

O livro de Daniela Costa, para além do valor literário que tem, é um contributo mais para conhecer a revolução e a contra-revolução no Portugal de Abril.

É a memória que nos constrói, como cidadãos livres numa democracia plena.

Jorge Sarabando
Abril de 2020
Via: as palavras são armas

sábado, 26 de outubro de 2019

Um poema duas traduções – HANS MAGNUS ENZENSBERGER

Hans Magnus Enzensberger


RAJADA

há palavras
leves
como sementes de álamo
erguem-se
levadas pelo vento
e voltam a cair

difícil agarrá-las
porque se afastam muito
como sementes de álamo

há palavras
que mais tarde talvez
removerão a terra

que espalharão sombra
uma sombra delgada
ou talvez não


HANS MAGNUS ENZENSBERGER
(tradução de Eugénio de Andrade
in Trocar de Rosa, idem)

ventogesto

algumas palavras
leves
como sementes de álamo

sobem
viradas pelo vento
mergulham

difíceis de aprender
levam longe
como sementes de álamo

algumas palavras
soltam a terra
talvez mais tarde

lancem uma sombra
uma sombra subtil
ou talvez não

HANS MAGNUS ENZENSBERGER

(tradução de Almeida Faria,
in Poemas Políticos,
publicações Dom Quixote, 1975) 






sábado, 18 de agosto de 2018

Álvaro de Campos - Ora porra!


* Álvaro de Campos


Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.



s. d.
Álvaro de Campos — Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993: 22.

http://aspalavrassaoarmas.blogspot.com/2018/08/trump-acusa-os-media-de-serem-os.html




Today's cartoon is by Steve Nease
https://www.therecord.com/opinion-story/7157094-today-s-cartoon-fake-news/



 The 2017 Collins Word of the Year Is… “Fake News” 
https://www.collinsdictionary.com/zh/woty

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Fernando Buen Abad Domínguez - Por que é que as pessoas insultam os seus governantes?

*  Fernando Buen Abad Dominguez

"Se não há justiça para o povo,
que não haja paz para o governo"
Emiliano Zapata

Tão velhos como a luta de classes, os insultos proferidos pelos oprimidos costumam ter uma mesma base histórica e um mesmo propósito político. São formas da “expressão” popular que nem sempre são “fáceis” nem sempre proliferam massivamente, mas marcam (como poucas) os territórios da luta simbólica onde, com frequência, o sentido do humor mais corrosivo surte efeitos demolidores na moral dos “amos” e nos seus galões de prestígio. Claro que nunca falta o engenhoso genuflexo que se julga capaz de neutralizar os “dardos” do insulto popular com escudos de silogismos de sucata e sem riscos. Moral e cacete.

Há insultos de todo o tipo contra as classes dominantes. Produzem-se de todas as formas e em todos os géneros. Há canções, danças, poemas... dramaturgia, pintura, cinema e humor de tons variados. Ironias, sarcasmos, chungas... e até afrontas directas baseadas quase exclusivamente na procacidade fermentada de uma jantarada de ocasião ou na necessidade profunda de ferir o poderoso em alguma das suas fibras sensíveis: mães, filhos ou parentes próximos. Mesmo que não tenham culpa directa das humilhações e da exploração que se acumulam nas costas da classe trabalhadora.

Há um sentido subversivo no insulto popular, contra os governantes do dinheiro e os governantes da política, que desliza de formas diversas entre os territórios semânticos de cada época. A maior ou menor intensidade do insulto pode ser conjuntural e é sempre um eco de conformações culturais predominantes. Nada escapa aos eflúvios do insulto cuspido pelos povos na cara dos seus verdugos. 
Soube-o Cervantes como o soube Daumier... soube-o Chaplin  e soube-o Cantinflas. Abarca as pessoas e as instituições, cruza os mares da fúria social para levantar tormentas de adjetivos, substantivos e verbos... gestos, esgares e contorções. Tudo serve se o insulto é certeiro, se faz tremer as estruturas do ego nas suas mais caras fortalezas do poder e consegue ridicularizar todos quantos sustentam a autoridade de uns contra a imensa maioria. Há mesmo insultos finíssimos.

Tudo isto lança o pânico na classe dominante que precisa, como do ar que respira, de alguns redutos de “respeito” ou medo para se manter de pé. Um “subordinado” que teime em insultar a autoridade, produto do aumento da consciência ou da fadiga, começa a ser temido e reprimido. Nos casos mais conspícuos forja-se um círculo virtuoso que, mais cedo que tarde, precipitará a queda de algum verdugo e facilitará mais um passo, ainda que pequeno, no caminho da emancipação. Assim o testemunham as melhores tradições do grotesco e dos carnavais. Para só referir alguns casos.

Mas no insulto também se reproduz a ideologia da classe dominante infiltrada nas cabeças dos dominados. Por exemplo, o sexismo que reina livremente no imaginário hegemónico burguês escorre sem controlo nem filtro sobre o arsenal dos que se treinam para insultar ou ofender os “patrões”. Por exemplo, todo o género de fetichismo dos genitais e toda a espécie de subordinação coital machista costuma florescer na metralha ofensiva popular carregada com a sua marca de classe e com força irreverente. Tudo isto estabelece uma diferença clara, mas lança um desafio semântico nodal. Não mediremos aqui com a mesma vara a intensidade humilhante dos insultos da classe dominante face aos arsenais da classe subordinada. Não cairemos nessa armadilha.

O “modo” no insulto popular é determinante. Implica os matizes e as intenções. Há insultos que vêm do picaresco e do humor sexualizado e há insultos que emergem do medo e da raiva. Não poucas vezes são combinações barrocas com resoluções explosivas. Mas na sua textura áspera, o insulto ao poderoso implica um rompimento. Não há insulto popular contra os oligarcas que não pondere o enérgico tesouro da rebeldia. Contundentes e expressivos, os insultos enriquecem na sua intensidade, e na sua qualidade, muitas das fórmulas linguísticas, mas com a jactância de quem descobre uma força ofensiva cheia de analogias que vêem o léxico como uma arma que tem, indubitavelmente, arestas destruidoras. A defensiva que passa à ofensiva. Tal como os tesouros, os insultos costumam estar à flor da terra e assim, pesadas de muitos séculos, as linguagens pejorativas de classe fortaleceram-se, pacientemente. É um arsenal popular de palavras que ao fazerem tremer a vaidade do poder e o poder da exploração, estendem o seu exemplo e contagiam-se para lá da perspectiva comum e da comarca da submissão (não há limites idiomáticos nem gestuais). É um jardim fértil onde se refazem os armamentos das batalhas diárias e o seu poderio se torna potencialmente infinito. Custe o que custar.

Também é possível criar novos insultos mediante a formação de conceitos e de vocábulos contra os estereótipos impostos que caracterizam uma conduta determinada ou o nome de uma classe de indivíduos (mas isto não é uma cátedra de gramática) porquanto o insulto reflecte o modo de produção e as relações de produção degeneradas em rebeldia provocadora do povo contra os seus “amos”.

Ficam fora desta reflexão aquelas manias burlonas que mais não são do que desplantes do individualismo burguês infiltradas nos povos como formas de catarse reduzidas a banalidades. Dessas, não obstante, convém resgatar o que de engenhoso possam desenvolver graças à criatividade pessoal e que bem podem dar um salto de qualidade mobilizadas ao abrigo de consensos que recolham o que de força rebelde ofereçam. Alguns exemplos muito valiosos estão a fermentar nos EUA, por exemplo, contra Donald Trump e as esquizofrenias mafiosas nos seus empresários da guerra.

Ora todos sabemos muito bem que a realidade não se transforma só com insultos aos “poderosos”. E que mesmo uma época fértil em injúrias graves não implica, “per se”, saldos positivos em matéria de organização nem de elaboração de programas revolucionários com vocação de praxis sistematizada. A proliferação dos insultos contra a classe dominante, por si mesma, não é mais do que um sintoma que, para crescer nos seus valores rebeldes, deve construir consciência e acção. De nada serve ficar satisfeito com uma concatenação de vociferações pejorativas se isso não passar de um mero reduto que tranquiliza. Logo que estejamos seguros da genuína origem popular dos insultos aos vitimários do povo trabalhador, é necessário acertar os passos que conduzem a uma saída emancipadora, de contrário ficaremos muito contentes insultando tudo para que nada mude. Como reformistas vulgares.

Fernando Buen Abad Domínguez

Tradução de Armando Pereira da Silva
PUBLICADA POR CID SIMOES À(S) 17:19
https://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2018/05/por-que-e-que-as-pessoas-insultam-os.html

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Todas as “Lindas” são “Tontas”?

SEGUNDA-FEIRA, 17 DE OUTUBRO DE 2016


‘As mulheres mais bonitas são as que lutam!’
Todas as “Lindas” são “Tontas”?

Semiótica de certa inteligência monstruosa na ética e na lógica do mercado. 

Máscaras da “beleza” burguesa. Como se fosse pouca a avalanche repressora que a ideologia da classe dominante descarregou, historicamente, contra as mulheres, chegou o capitalismo com a sua criatividade e rapidamente as converteu em massa explorada com caráter decorativo e estigma de “cabeça oca”. A burguesia levou séculos a confiar o voto político às mulheres, por exemplo. "No comportamento perante a mulher, despojo e escrava da voluptuosidade comum, manifesta-se a infinita degradação na qual o homem existe para si mesmo... Do carácter desta relação depreende-se até que ponto o homem se tornou e se concebe como ser genérico: a relação entre homem e mulher é a mais natural das relações entre os dois géneros do ser humano". Marx  (traduzido do castelhano)

Convertidas em seres supérfluos, servis e dóceis, as mulheres do ideal burguês deverão assumir, além do mais, um mandato mercantil útil para reforçar o consumismo. Foram habilitadas culturalmente para fazer as compras de pequenas coisas. Nunca o “caro”, nunca o “eletrodoméstico” de “alta gama”, nunca as coisas que o homem compra. Os publicistas sabem bastante dessas trapaças ideológicas. Essa “capacidade” de compra estabelece o grau de êxito que as mulheres devem conquistar no torneio burguês do êxito social, a aceitação e a admiração de outras mulheres. Especialmente para a burguesia, a mulher (que se torna, também, propriedade privada) depende – suaontologia – da quantidade de dinheiro que o marido lhe dá para gastar nas coisas “do dia-a-dia” e na roupa que veste para decorar bem a sua personagem. Chamam-lhes “senhoras”.

Mas há um reduto ideológico (de falsa consciência) no qual se produzem e reproduzem as patologias mais humilhantes do capitalismo. É um reduto histriónico no qual as mulheres se vêem obrigadas a ser “tontas” rendíveis. Isso vê-se na “tele” nos “diários”… em todos os media e em todos os horários. É o reino do individualismo e da veneração do mercado que procura nas mulheres “lindas” a sua presa predileta porque, segundo reza a moral mercenária da publicidade, “o lindo vende”. A isso se deve a profusão histérica de estereótipos que a burguesia impõe às mulheres para as aprisionar numa prisão ideológica invisível aramada com anti valores de mercado e condutas convincentes para pôr a salvo as instituições da família, as igrejas e o estado burguês - O fetichismo da beleza feminina e o seu valor de mercado: vestidas ou nuas.

Trata-se de um reduto ideológico no qual se amassam convicções e condutas que, para cúmulo, conta com a cumplicidade de algumas mulheres e muitos homens. As mais colonizadas procuram a fama na farândola mediática burguesa. Com ou sem êxito, nas artes do exibicionismo das “lindas”, os princípios do mercado predominam, para além do imaginável, na própria vida diária, inclusive no quarto de banho onde entram centenas de produtos “indispensáveis” para manter o modelo de “beleza” ordenado pelos “media”. Trata-se de uma “tontice” imposta que envolve grande astúcia mercenária e uma moral de vendedor que, para se vender a si mesmo, conta com muitos clichés e muito pouco tempo. A “lindura” de mercado dura pouco porque a velocidade do consumismo é uma máquina produtora de desejos humanos infindáveis.

As “lindas” “tontas” são esse cliché que tem tido êxitos mercantis retumbantes. Dizem alguns que é uma forma de “sex appel” que condimenta magnificamente a imposição dos valores burgueses e todas essas aplicações, decadentes e humilhantes, que cada um de nós vê nas ruas na aparência mais cruel que a realidade impõe. Há pessoas que passam a vida inteira sem se aperceberem do papel que lhes é imposto por um sistema económico enfermo, também, como “mercadorias humanas”. Do seu disfarce, aquelas mulheres que representam (com vontade ou sem ela) o papel de “tontas” “lindas” vão medindo com uma vara burguesa a quantidade e a qualidade as suas vitórias sedutoras mais rendíveis. Poderá haver por detrás da aparência de “tontas”, inteligências mercenárias muito brilhantes escondidas entre os traços efémeros da sua “lindura”. Garantidas as regras do negócio, algumas contentam-se com a “fama”, outras aspiram a ser “divas”, pensando que se pode ser “bela”, “tonta” e, além do mais, “madura”. “Velha” é um termo que a burguesia usa quase exclusivamente para as mulheres proletárias.

Por tudo isso é que as lutas de género (que são realmente de classe) no mundo apresentam, com graus diversos, um caráter revolucionário fundamental. É especialmente com essas lutas, não exclusivas de mulheres, que se destrói sistemática e profundamente a ideologia da classe dominante e todas as suas ratoeiras opressoras por mais subtis ou sedutoras que se apresentem. A pesar disso, não contamos ainda com uma corrente crítica internacionalista capaz de gerar repúdios contundentes contra o modelo de humilhação com que a burguesia submete não poucos milhões de mulheres. Em todo o mundo e em pleno século XXI. É necessário sermos conscientes, sensíveis, solidários e proativos nas lutas emancipadoras que não são só de “género” porque são fundamentalmente de classe. É necessário desenvolver uma praxis revolucionária que censure e combata todo o modelo de opressão por mais “lindo” que pareça e abraçando sempre – com força amorosa e força científica – todas as vítimas. Ainda que o “lindo” e o “tonto” façam pensar a essas vítimas serem intocáveis, reverenciáveis ou superiores.

Uma longa lista de lutas, lutadoras e lutadores sociais enriquece a perspetiva revolucionária que nos aproxima de um mundo liberto, por fim, do capitalismo e de toda a parafernália grotesca que nos tem imposto, também, com as suas mercadorias humanas e ideológicas. Nessa longa lista de frentes da luta que se desenvolve, de maneira desigual e combinada, há um reportório de críticas que se impulsiona cientificamente porque aprendeu a não ser vítima das chantagens morais, éticas ou estéticas que a ideologia burguesa exerce fundamentalmente, para nos imobilizar e dominar. Um dia virá em que os povos deixarão de ser vulneráveis à guerra psicológica que usa “o lindo” e o “tonto” (entre milhares de subterfúgios) como estratégias de amolecimento, como ratoeiras para gerar solidariedades que, tarde ou cedo, operarão contras as vítimas. Nada mais anticristão. Um dia aprenderemos a deixar de ser usados pela lógica do mercado ainda que se apresente em “roupas interiores” com gestos sugestivos ou com “formosa” “tontice” imposta, dessa tanta sucata que ajudou a vender num mundo afogado com mercadorias que procuram milhões de compradores compulsivos.

Por Fernando Buen Abad Domínguez
(Trad. CS/LA)