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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Luís Miguel Queirós - Amor de Perdição: um bom romance canonizado pelas razões erradas

 


No prefácio que escreveu, em 1879, para acompanhar a 5.ª edição de Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco termina com uma profecia dubitativa: "Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5.ª edição do Amor de Perdição quase esgotada."

Sugerir que a tiragem então acabada de sair levaria mais de um século a esgotar-se era, da parte de Camilo, um óbvio e pouco convincente lance de modéstia, mas o que nem ele, que nunca se teve propriamente em baixa conta, se atreveria a prever, nesses anos em que os favores da crítica começavam a inclinar-se para a nova escola realista de Eça de Queiroz, era que essa "sociedade do século XXI" não apenas não esqueceria os amores contrariados de Simão Botelho e Teresa Albuquerque, como iria mesmo celebrar, e com assinalável pompa e circunstância, os 150 anos da publicação, em 1862, da primeira edição do Amor de Perdição.

Com o bem achado título de CCB no CCB - leia-se Camilo Castelo Branco no Centro Cultural de Belém -, a instituição dirigida por Vasco Graça Moura dedicou, no final de Outubro, uma semana de intensa programação ao romancista, e em particular ao Amor de Perdição, promovendo debates, conferências, sessões de cinema, e ainda exposições, como aquela que reuniu os estudos de Júlio Pomar para as ilustrações do Romance de Camilo, de Aquilino Ribeiro. E os festejos prosseguem em breve em São Miguel de Seide, na Casa de Camilo, onde a Câmara de Vila Nova de Famalicão organiza, de 16 a 18 deste mês, um colóquio internacional intitulado Amor de Perdição: Olhares Cruzados. O ministro da Educação, Nuno Crato, é um dos que já confirmaram a presença, a par de Mário Cláudio, Vasco Graça Moura, José Pacheco Pereira ou Laborinho Lúcio.

O tributo mais original fica todavia a dever-se à autarquia portuense, que aprovou recentemente a proposta de se baptizar com o nome de Largo do Amor de Perdição a praceta fronteira à Cadeia da Relação, onde Camilo esteve preso com Ana Plácido, e onde escreveu, ao que parece em apenas 15 dias, a história dos contrariados amores de Simão Botelho e Teresa Albuquerque. É a primeira vez que a cidade concede a um romance a honra de figurar na respectiva toponímia.

A arte da sugestão
Por que motivo, entre os tantos livros que o génio compulsivo de Camilo nos deixou, haveria este romance em particular de conquistar os favores da posteridade e alcançar um estatuto suficientemente icónico para se lhe renderem preitos geralmente reservados aos autores, e não às obras? O ensaísta e camilianista Abel Barros Baptista acredita que o próprio escritor, com o já referido prefácio de 1879, possa ter "contribuído para criar a ideia de que este livro é mais importante do que os outros". Baptista lembra que Camilo, nesse texto, caracteriza o sucesso editorial da obra como "um êxito fenomenal e extralusitano". À sua escala, o Amor de Perdição foi, de facto, aquilo a que hoje chamaríamos um best-seller: no primeiro quartel do século XX, já atingira vinte edições. Mas o próprio Camilo sempre lhe preferiu O Romance de Um Homem Rico, que publicara no ano anterior, e os camilianistas de várias épocas foram assumindo predilecções diversas. Não há na vasta bibliografia de Camilo algo que corresponda a Os Maias, de Eça de Queiroz, um título que seja a sua obra-prima consensual.

Se Amor de Perdição se foi aproximando desse estatuto, deve-o a um complexo conjunto de motivos, nem todos especialmente válidos. Barros Baptista começa por desmontar a ideia de que sucessivas gerações de estudantes estudaram o livro no ensino secundário: "É uma ideia bastante ilusória", garante o ensaísta, já que "o livro só integrou os programas escolares durante um período muito curto". Entre os elementos que confluíram na lenda gerada em torno da obra conta-se ainda o suposto paralelismo entre a paixão contrariada dos protagonistas e os amores que tinham lançado no cárcere o próprio Camilo e Ana Plácido. Uma comparação que Barros Baptista igualmente desmonta, lembrando que a vida do romancista na cadeia portuense não era bem a que se julga: "Saía de lá para apanhar sol, comprava pantufas para Ana Plácido..."

Mesmo a tendência para se ver no Amor de Perdição uma espécie de tradução da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, para o romantismo português do século XIX - em ambos os casos, a inimizade de duas famílias constitui o obstáculo principal à consumação do amor que une os jovens protagonistas - esquece a dimensão triangular que a paixão de Mariana por Simão vem trazer à novela de Camilo. Barros Baptista acha que o livro é "bastante moderno" e "muito menos linear e convencional" do que geralmente se pensa, argumentando que "é difícil apontar-se uma causa única para o que vai acontecendo". A título de exemplo, o ensaísta sugere que, no final, Simão, a caminho do exílio, está já "mais interessado no seu destino do que na ligação amorosa com Teresa", que definha no convento de Monchique.

"É um dos livros mais interessantes para se conhecer a criatividade de Camilo como romancista, incluindo a sua veia cómica", diz Barros Baptista, apontando um diálogo entre Mariana e Simão como exemplo do talento do autor para sugerir conotações sexuais numa frase de circunstância aparentemente inócua: preocupada com a relutância de Simão em alimentar-se, Mariana leva-lhe um "caldinho" e diz: "(...) coma sem nojo, que esta [malga] nunca serviu." Uma tensão erótica que, na sua adaptação do livro ao cinema, Manoel de Oliveira traduzirá numa cena quase "pornográfica", com Mariana a apresentar a Simão uma galinha de pernas escachadas, numa travessa que transporta à altura da sua própria vagina.

Um ritmo vertiginoso
Também o romancista Mário Cláudio acha que "o Amor de Perdição é um romance extraordinário" por méritos diversos dos que geralmente se atribuem ao livro. Mas os pontos fracos e fortes que enumera não coincidem exactamente com os que aponta Abel Barros Baptista, o que só confirma que estamos perante uma obra bastante mais aberta e discutível do que a sua precoce canonização deixaria prever.

No seu romance Camilo Broca, Cláudio dá um lugar central a Simão Botelho, o tio de Camilo que serviu de inspiração ao Amor de Perdição, e que, na vida real, "foi um valdevinos, um canalha que chulou uma mulher casada, muito feia e muito rica". Mesmo o Simão protagonista do romance de Camilo "não é muito mais do que um pinga-amores que mata por paixão", observa Mário Cláudio, lamentando que "Simão não seja uma figura mais contraditória", mas reconhecendo que "seria exigir a Camilo uma modernidade que este não poderia ter".

Vendo Simão como "mais um decalque do Werther, de Goethe, mas sem o lado reflexivo, filosófico, do original", Cláudio não o distingue das restantes personagens de Camilo, que, afirma, "são um pouco estereotipadas, de cartão recortado, com um conteúdo relativamente pobre", o que se "torna claro", acrescenta, "quando as comparamos com as figuras de Eça". O romancista, diz, estava "deformado pela escrita do folhetim literário, que, antes de Balzac, era um desfile de estereótipos: em Camilo, a mulher fatal é sempre muito fatal, o amoroso é muito amoroso, o brasileiro de torna-viagem é sempre burro, perverso e feio".

Mas Mário Cláudio reconhece que Amor de Perdição "tem um ritmo vertiginoso" - a análise do manuscrito levou os especialistas à convicção de que Camilo escreveu mesmo o livro em duas semanas - e que a obra mostra "um grande conhecimento da técnica novelística". Valoriza ainda o modo como, no Amor de Perdição, a transcrição de cartas "é um engenho mobilizador da acção", algo que "já se fizera lá fora, mas era inédito em Portugal", e elogia "o estudo da triangularidade" oferecido pela relação das personagens de Simão, Teresa e Mariana.

https://www.publico.pt/2012/11/05/culturaipsilon/noticia/amor-de-perdicao-um-bom-romance-canonizado-pelas-razoes-erradas-1570134

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Luís Miguel Queirós - Produção de Beckett cancelada por restringir audições a homens

 Teatro

Produção de Beckett cancelada por restringir audições a homens

Encenador cumpriu instruções do dramaturgo, mas foi acusado de violar política de inclusão da universidade holandesa de Groningen.

Luís Miguel Queirós

7 de Fevereiro de 2023

A peça À Espera de Godot, encenada por Gábor Tompa, no Teatro Nacional São João, em 2021 TUNA

Uma encenação de À Espera de Godot, de Samuel Beckett, cuja estreia estava prevista para Março no Centro Cultural de Estudantes Usva, da universidade holandesa de Groningen, foi cancelada quando a instituição soube que as audições para os cinco papéis masculinos da peça só tinham sido abertas a actores desse mesmo sexo.

O jovem irlandês que estava a dirigir a encenação, Oisín Moyne, de 24 anos, tentou argumentar que o próprio Samuel Beckett deixara instruções para que a peça fosse representada por cinco intérpretes do sexo masculino, e que desrespeitar essa indicação colocava a companhia em risco de ser processada pelos herdeiros do dramaturgo, mas a Universidade de Groningen manteve a sua decisão de cancelar o espectáculo, alegando que este violara a sua “política de inclusão”.

O responsável pela programação teatral do Usva, Bram Douwes, secundou a posição da universidade. “Se se tratasse de uma peça com cinco tipos brancos para a qual tivessem aberto audições, estaria tudo bem, mas o que não podem é banir pessoas logo à partida”, afirmou Douwes ao jornal universitário Ukrant.

A assessora de imprensa da Universidade, Elies Kouwenhoven, reconhece que Beckett “declarou explicitamente que esta peça devia ser interpretada por cinco homens”, mas argumenta que “os tempos mudaram” desde que a peça foi apresentada pela primeira vez em 1953, e que “a ideia de que só os homens são adequados a estes papéis está datada e é mesmo discriminatória”. E concluiu: “Nós, como universidade, defendemos uma comunidade aberta e inclusiva, na qual não é apropriado excluir outros seja com que bases for.”

A administradora do Usva, Fay Sterken, explicou ao Ukrant que o centro só soube que as audições tinham sido exclusivamente para homens há cerca de duas semanas, quando a preparação do espectáculo já ia adiantada, com ensaios a decorrer desde Novembro. “Descobrimos que a companhia [intitulada GUTS – acrónimo de Groningen University Theatre Society] tinha assinado a cláusula ‘só homens’, e isso foi um choque, porque realmente não podemos concordar com ela por razões de princípio”.

Oisín Moyne, que estudou Física na Universidade de Groningen e acabou por se radicar na cidade holandesa, onde hoje trabalha, explicou ao jornal irlandês Irish Times que tinha considerado abrir as audições a todas as pessoas, mas que não o fez por causa das regras estabelecidas por Beckett pouco antes da sua morte, as quais têm sido defendidas pelos herdeiros legais da sua obra, que só entrará no domínio público em 2059.

A produtora da peça, Medeea Anton, em declarações ao mesmo jornal, defendeu que a decisão de cancelar a peça se centrou nos actores, ignorando o papel de toda a restante equipa. “Havia uma restrição quanto aos actores, que são apenas cinco, mas o resto da equipa de produção é maioritariamente feminina, e também temos pessoas trans e não-binárias”, informou Medeea Anton, acrescentando que “a maioria da equipa de produção é da comunidade LGTB”.

A produtora diz que tentou explicar aos responsáveis da universidade que se tratava apenas de uma questão legal, mas que não conseguiu fazê-los mudar de ideias. “Somos uma pequena companhia amadora, que não se pode arriscar a ser processada”, observou.

E não faltam precedentes para demonstrar que o risco seria real. Recordando que o próprio Beckett, em 1988, pouco antes de morrer, processou uma companhia holandesa por ter aberto as audições da peça a mulheres, o Irish Times observa que os seus herdeiros se têm mantido fiéis às instruções deixadas pelo dramaturgo.

Em 1991, a companhia Brut de Beton tentou apresentar um À Espera de Godot com um elenco exclusivamente feminino no Festival de Avignon e o caso chegou a tribunal, com o juiz a proferir uma decisão algo salomónica, permitindo a apresentação da peça, mas obrigando a que fosse lida, antes de cada récita, a carta em que os representantes legais do autor expunham as suas objecções.

Outra encenação da peça com cinco actrizes foi cancelada em 2019 num colégio do Ohio, nos Estados Unidos, por assumido receio de que os herdeiros de Beckett processassem a instituição.

Já a companhia de teatro londrina Silent Faces criou, em 2021, uma paródia às regras de género impostas à obra de Samuel Beckett com o espectáculo Godot Is a Woman (Godot É Uma Mulher), cujo texto promocional abria com esta cronologia: “Em 1953 um homem escreveu uma peça sobre esperar; em 1988 processou cinco mulheres por tentarem interpretá-la; em 2001 Madonna lançou What It Feels Like for a Girl; estamos em 2021 e continuamos à espera.”

Em Dezembro de 2021, depois de uma estreia cancelada em Março – mas esta por causa da pandemia –, o encenador romeno Gábor Tompa levou ao palco do Teatro Nacional São João, no Porto, uma nova encenação de À Espera de Godot na qual o papel de Lucky é interpretado pela actriz Maria Leite, escolha que, tanto quanto se sabe, não deu origem a nenhum processo judicial.

Quando percebeu, neste início de 2023, que não ia mesmo conseguir apresentar a sua encenação da peça na Universidade de Groningen, Oisín Moyne, provavelmente ironizando com o facto de o próprio texto de Beckett tratar do absurdo da existência, confessou ao jornal Irish Times: “Diria com inteira sinceridade que a minha vida, nestas últimas semanas, se tornou totalmente absurda.” E o encenador contou ainda que, no elenco e na equipa de produção, já corria a piada de que agora estavam, todos eles, à espera de Godot.

Moyne adianta que está a procurar outro espaço que receba a peça, para que o trabalho já feito não seja desperdiçado, e manifesta a esperança de que o centro cultural Usva use as datas agora libertadas no calendário da programação para acolher "uma iniciativa que promova a inclusão no teatro".

https://www.publico.pt/2023/02/07/culturaipsilon/noticia/producao-beckett-cancelada-restringir-audicoes-homens-2038010?

sábado, 23 de abril de 2016

Hamlet vs Quixote

No quarto centenário das mortes de Shakespeare e Cervantes, a tentação de os comparar é irresistível. O inglês é o claro favorito a maior escritor de todos os tempos, mas D. Quixote e Sancho Pança são dos poucos rivais à altura de um Hamlet ou de um Rei Lear.

Aqueles que são provavelmente os dois escritores mais influentes da história da literatura, o inglês William Shakespeare (1564-1616) e o espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616), morreram (quase) no mesmo dia, há 400 anos. E se Shakespeare é talvez o verdadeiro centro do cânone ocidental, como pretende o crítico americano Harold Bloom, já não é certo que alguma das suas personagens, nem mesmo Hamlet, o neurótico príncipe da Dinamarca, ultrapasse a popularidade de D. Quixote, o cavaleiro da triste figura criado por Cervantes.
Pese embora todo o prestígio acumulado pelo introspectivo e enigmático super-herói literário Batman-Hamlet, no campo de batalha da crítica não é menos considerável a claque dos que apreciam o jogo franco do galhardo e leal Superman-Quixote.
Um dos primeiros a intuir que colocá-los frente a frente no ringue daria um combate memorável foi o ficcionista russo Ivan Turgenev, que em 1860 dedicou toda uma extensa conferência (traduzida para inglês e publicada na Chicago Review em 1965)  à comparação entre Hamlet e Quixote, concluindo que ambos representam expressões extremas de duas tendências humanas discordantes: o altruísmo, a fé inabalável, a capacidade de auto-sacrifício, a força de vontade, o entusiasmo, que o fidalgo da Mancha levaria aos limites da alucinação, isto é, da comédia, e o poder de análise, o escrutínio interior, o egotismo, a descrença, a incapacidade de amar, exacerbados em Hamlet ao ponto da tragédia. 
D. Quixote, que vê gigantes onde outros vêem moinhos, e arremete contra um rebanho de ovelhas convicto de que ataca uma hoste de cavaleiros, “pode às vezes parecer um perfeito maníaco”, concede o escritor russo. Mas “a solidez da sua estrutura moral imprime a tudo o que diz ou faz uma particular gravidade”, observa, e essa dimensão ética confere-lhe uma dignidade que resiste às “situações absurdas e às humilhações em que incessantemente tropeça”.
Já Hamlet, diz Turgenev, é alguém que se “espia a si próprio” e  que, “duvidando de tudo, inclui impiedosamente o seu próprio eu nessas dúvidas”. Mas se este auto-conhecimento o torna dolorosamente consciente das suas próprias fraquezas, diz o romancista de Pais e Filhos, “ele é em si próprio uma força, da qual emana a ironia, que é precisamente a antítese do entusiasmo de D. Quixote”.
Turguenev nunca assume claramente a sua predilecção por D. Quixote e respectivo autor, e até reconhece que o dramaturgo inglês, pela “opulenta e poderosa imaginação”, pelo “brilho do seu talento poético” e pelo “intelecto incomparável” é de facto “um gigante ao pé de Cervantes”. No entanto, argumenta, se o âmbito da arte do espanhol é mais exíguo do que o de Shakespeare, que se serve, para os seus desígnios, “de quanto exista na terra e no céu”, o confinado mundo cervantino basta ainda assim para “reflectir tudo o que pertence à natureza humana”.
Mas o passo em que o russo mais denuncia a sua afinidade electiva é talvez quando argumenta que, em toda a sua simplicidade, D. Quixote “é um autêntico fidalgo”, ao passo que Hamlet, “com toda a sua etiqueta cortesã, dá ares de parvenu”.
Turguenev abre a sua palestra - originalmente escrita para uma leitura pública em favor de uma associação de auxílio a escritores indigentes -, assinalando a coincidência de Hamlet ter sido originalmente publicado no mesmo ano em que saiu dos prelos a primeira parte do D. Quixote, uma coincidência fascinante, mas não inteiramente verdadeira.
Não contabilizando uma hipotética peça desaparecida que teria constituído um primeiro esboço de Hamlet, atribuída por alguns autores ao dramaturgo Thomas Kyd (1558-1594), a primeira impressão que se conhece é de 1603, mas resume-se a 2200 versos, pouco mais de metade dos 3800 que compõem a edição publicada logo no ano seguinte. Turgenev terá considerado com razão que a verdadeira edição original era esta de 1604, e dela se conhecem efectivamente alguns exemplares com data de 1605, o ano em que Cervantes deu à estampa a parte inicial da sua obra-prima.
Já depois da morte de Shakespeare, dois actores da sua companhia, John Heminges e Henry Condell, organizaram em 1623 uma compilação das peças do dramaturgo - Mr. William Shkespeare’s Comedies, Histories, and Tragedies, há muito conhecida por First Folio -, que inclui uma versão de Hamlet apenas ligeiramente mais curta do que a de 1604. Numa recente tradução portuguesa da peça, publicada pela Relógio D’Água, António M. Feijó opta por fundir ambas, mantendo todos os versos da edição de 1604 que não surgem na de 1623 e vice-versa.
Um encontro imaginário
No rol das coincidências sedutoras mas duvidosas, conta-se ainda a própria data que hoje se celebra, escolhida pela UNESCO como dia internacional do livro por ser aquele em que morreram, em 1616, Cervantes e Shakespeare (e Garcilaso de la Vega). No entanto, os investigadores de Cervantes inclinam-se hoje para a hipótese de que este tenha morrido no dia 22.
E saber se foi de facto no dia 23 de Abril que Shakespeare partiu deste mundo é uma questão de perspectiva, ou mais precisamente de calendário. Em Espanha e nos restantes países católicos, o calendário juliano dera lugar ao gregoriano em 1582: nesse ano, espanhóis ou portugueses saltaram directamente do dia 4 para o dia 15 de Outubro. Mas na Inglaterra protestante o calendário juliano manter-se-ia até meados do século XVIII, de modo que até lá continuou a haver uma discrepância de datas. Ou seja, o que para o moribundo Shakespeare era o dia 23 de Abril, seria 3 de Maio para Cervantes (isto, claro, se já não estivesse morto há dez dias).
Enquanto inventava a arte do romance, inaugurando-a com um exemplar, o D. Quixote, que, pensam muitos leitores e críticos, ainda não foi suplantado por nenhum ficcionista posterior, Cervantes não fazia ideia de que nesses mesmos anos, em Inglaterra, um tal William Shakespeare andava a escrever umas dezenas de peças que lhe iriam garantir o perene estatuto de maior criador literário de todos os tempos. Mas Shakespeare pôde ainda ler a primeira parte do Quixote, traduzida para inglês em 1612 por Thomas Shelton. E sabe-se que uma das suas peças perdidas, Cardenio, era inspirada no livro. 
Se Shakespeare e Cervantes nunca se encontraram, houve quem tentasse corrigir a posteriori esse lamentável lapso. Na novela A Meeting in Valladolid, incluída em The Devil's Mode and Other Stories (1989), Anthony Burgess inventa uma ida de Shakespeare a Espanha para apresentar algumas peças durante as celebrações de um tratado de paz anglo-espanhol. Na assistência está Cervantes, que se queixa a Shakespeare “do homem gordo e do magro” que este lhe teria roubado. A passagem de Burgess é referida por Harold Bloom, que conta que o autor de A Laranja Mecânica lhe terá dito um dia que “a única comparação literária que valia a pena fazer” era entre o D. Quixote e o conjunto das peças de Shakespeare.
É pena que o dramaturgo inglês já não tenha lido a segunda parte do Quixote, que Cervantes publicou em 1615, em boa medida para saldar contas com um seu contemporâneo que se atrevera a publicar uma continuação do livro, na qual ainda por cima troçava do autor original. No prólogo que redige para esse regresso de D. Quixote e Sancho Pança, Cervantes explica que não fará a vontade ao leitor que ansiaria vê-lo zurzir no abusador, mas veja-se em que moldes se abstém: “O teu gosto seria que eu lhe desse roda de asno, mentecapto e desenvergonhado. Nada disso”. O trecho segue a tradução de Aquilino Ribeiro, que afirmou ter traduzido o Quixote por paixão, acrescentando que “não o faria para com Shakespeare ou Goethe”. 
Não se sabe quem foi o autor que irritou Cervantes - assinava-se Alonso Fernández de Avellaneda, quase de certeza um pseudónimo -, mas devemos-lhe estar-lhe gratos. Sem o seu dúbio estímulo, é provável que nunca tivéssemos a extraordinária segunda parte do Quixote, no qual todas as personagens principais leram a primeira parte e sabem que nela figuraram como personagens, um expediente que hoje o exporia a ser rotulado de pós-moderno.
Kafka e Sancho Pança
Se é difícil imaginar personagens menos afins do que Quixote e Hamlet, como já Turgenev sugeria, também os seus respectivos criadores tiveram vidas pouco comparáveis. Shakespeare viveu basicamente entre Stratford e Londres e teve uma carreira bem-sucedida, mas relativamente normal (se descontarmos, claro, o seu excepcional talento literário) de actor, empresário teatral, dramaturgo e poeta. Filho de um curtidor que chegou a ser o equivalente da época a presidente da Câmara de Stratford, só mais para o fim da vida terá alcançado algum desafogo financeiro, mas nunca foi propriamente pobre.
O percurso de Cervantes tem mais semelhanças com o de Camões. Exilou-se por ter ferido um homem em duelo, lutou contra os turcos na batalha de Lepanto (1571), da qual regressou com a mão esquerda inutilizada, foi preso por corsários berberes e esteve cinco anos cativo em Argel, e já depois de ter sido resgatado, foi várias vezes preso em Espanha.
Em 1587 conseguira o lugar de comissário real para os abastecimentos da Armada Invencível, mas o cargo deu-lhe menos rendimentos do que contratempos, incluindo acusações judiciais e penas de prisão. Os problemas com a justiça são, de resto, um dos aspectos que o aproximam de Shakespeare, cuja persistente relutância em pagar impostos também lhe custou alguns processos.
Outra afinidade, menos óbvia na época do que hoje, é terem os dois estudado, ainda que nenhum tenha chegado a obter diplomas universitários. E escreveram ambos, como era quase inevitável em autores do tempo, dedicatórias vagamente untuosas a protectores ilustres. Ao duque de Béjar, Alonso Diego López de Zúñiga Sotomayor, que trata por toda a sua interminável lista de títulos, Cervantes dedica a primeira parte do Quixote: “(…) Ao abrigo do seu preclaro nome, com o muito respeito que devo a tão subida grandeza, imploro, pois, se digne recebê-lo benignamente [ao livro] debaixo da sua égide”. E Shakespeare oferece o seu poema Venus and Adonis ao jovem conde de Southampton, Henry Wriothesley, com esta prevenção: “Ilustre Senhor, não sei se vos causarei ofensa ao dedicar-vos estes versos grosseiros, nem se o mundo me censurará por escolher tão poderoso esteio para tão singelo fardo”.
A veneração por Shakespeare entre os escritores dos séculos seguintes é praticamente universal, apesar da vistosa excepção de Tolstoi ou da aversão de T. S. Eliot por Hamlet, que considerava um falhanço artístico. Cervantes também não andará longe de fazer o pleno, mas, observa Bloom, os seus mais incondicionais admiradores tendem a ser romancistas, de Sterne e Goethe a Stendhal ou Melville, entre muitíssimos outros. Jorge Luis Borges, por exemplo, imagina, emPierre Menard, autor do ‘Quixote’, um escritor contemporâneo cujo grande objectivo de vida é escrever o Quixote, linha por linha, no castelhano do século XVII, mas de raiz, sem o copiar. E Kafka, no brevíssimo conto A Verdade sobre Sancho Pança, revela-nos que D. Quixote era afinal o demónio de Sancho Pança, que à noite lhe dava a ler romances de cavalaria para ele o deixar em paz. E quando o demónio ficou fora de controle e se pôs a fazer maluqueiras, Sancho Pança, explica Kafka, “acompanhou imperturbável, talvez por um certo sentido de responsabilidade, D. Quixote nas suas sortidas, retirando delas um grande e proveitoso divertimento até o fim de seus dias”.
Para Bloom, que coloca Quixote e Sancho Pança ao nível de Hamlet, o Rei Lear ou Falstaff, o que distingue Shakespeare é uma capacidade que Hegel foi talvez o primeiro a notar: o poder de tornar as personagens, para usar a expressão do filósofo alemão, “livres artistas de si mesmas”. São personagens dotadas pelo seu criador de inteligência e imaginação e que se contemplam a si próprias enquanto obras de arte. Bloom prefere dizer que se “escutam” a si próprias e estão constantemente a mudar em função da análise que fazem do que escutaram. Algo que Hamlet leva ao limite, a ponto de Bloom lhe reconhecer uma “consciência autoral” que não se confunde com a de Shakespeare. É isto que dá aos leitores e espectadores, sugere o crítico, a convicção de que Hamlet e outras personagens “podem levantar-se e sair (…) das suas peças, talvez mesmo contra os desejos do próprio Shakespeare”.
Já Dom Quixote e Sancho Pança, defende ainda Bloom, “são os conversadores ideais um do outro e modificam-se ao ouvirem-se um ao outro”, mas não se escutam a si próprios. Por isso, a sua amizade os salva, sustenta, enquanto as personagens de Shakespeare, Hamlet incluído, “definham gloriosamente expostas ao ar de uma solidão interior”.
https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/hamlet-vs-quixote-1729932?page=-1

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Ruy Belo - Esplendor na Relva




* Ruy Belo


Eu sei que deanie loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste


A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de deanie quem desiste


na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquela que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado a ver o que ela era)
Mas em deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais 





in Poemas com Cinema, Assírio & Alvim, 2010



Ruy Belo: uma poesia que aprendeu a ver com o cinema


No dia em que o cinema Medeia Monumental acolhe em Lisboa uma sessão dedicada à relação da poesia de Ruy Belo com a sétima arte, que encerrará com a exibição de Esplendor na Relva, o PÚBLICO revela o manuscrito original do célebre soneto que o filme de Elia Kazan inspirou ao autor de Homem de Palavra(s).

“Eu sei que deanie loomis não existe/mas entre as mais essa mulher caminha/ e a sua evolução segue uma linha/ que à imaginação pura resiste”. Com esta quadra, que evoca a protagonista de Esplendor na Relva (Splendour in the Grass, 1961), interpretada por Natalie Wood no filme de Elia Kazan, inicia Ruy Belo (1933-1978) um dos seus mais notáveis e discutidos poemas, de que aqui apresentamos o manuscrito original, e ainda um posterior dactiloscrito emendado à mão, dois documentos inéditos cedidos pela mulher do poeta, Teresa Belo.

Este e outros poemas do autor nos quais comparecem expressamente filmes e actores, como No way out, Humphrey Bogart, Vício de matar ou Na morte de Marilyn, irão ser ditos hoje à noite pelo actor Pedro Lamares, no Medeia Monumental, em Lisboa, a abrir uma sessão dedicada à funda e persistente relação que a poesia de Ruy Belo estabeleceu com o cinema. A noite fechará com a exibição de Esplendor na Relva, mas antes ainda será possível ouvir o ensaísta António M. Feijó falard’A Deanie Loomis de Ruy Belo, e assistir a um breve filme que o linguista e filólogo Luís Filipe Lindley Cintra rodou do casamento do poeta com Teresa Belo, celebrado em Vila do Conde, donde esta é natural, em 1966.

Ruy Belo evoca este momento no poema Portugal sacro-profano - Vila do Conde, que também se irá ouvir no Monumental, mas na voz do actor e encenador Luís Miguel Cintra, filho do cineasta de ocasião, que também assistiu à boda quando tinha 17 anos. O seu pai, de resto, não foi apenas o realizador de serviço, tendo assumido também funções de produção.

Desde logo, conta Luís Miguel Cintra, foi preciso desencantar o noivo, que não aparecia. “Faltou à hora do casamento e alguém disse que se calhar se tinha distraído e ainda estava na pensão. O meu pai foi procurá-lo e lá estava ele: era fim de tarde e distraiu-se a ver o pôr-do-sol”.

Mas “o mais engraçado”, acrescenta o actor, é que “eram tão ingénuos, tão puros, que não tinham combinado onde iam passar a lua-de-mel, não sabiam o que iam fazer a seguir, e foi o meu pai que os meteu no carro, depois do copo de água, à procura de um sítio simpático onde os pudesse deixar”.

Teresa Belo precisa que o local escolhido acabou por ser Espinho. E se ignora em que momento Ruy Belo escreveu o poema de Vila do Conde, esse “lugar onde o coração se esconde/ e a mulher eterna tem a luz na fronte”, sabe, em contrapartida, que Literatura explicativa, o poema inicial de Homem de Palavra(s), “foi escrito em Espinho, nessa lua-de-mel improvisada”. E tendo em conta os caeirianos versos que o abrem, tudo indica que o poeta continuava fascinado com os pores-do-sol que já o distraíam em Vila do Conde: “O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol/ nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol (…)”.

Ruy Belo não costumava datar os manuscritos, de modo que Teresa Belo também não sabe quando este escreveu a primeira versão de Esplendor na Relva, mas o mais provável é que tenha sido logo após ter visto a obra de Kazan, que se estreou em Portugal em 1962. “Começámos a namorar em 1961, e deve ter sido mais ou menos por essa altura que fomos ver o filme ao antigo cinema Eden”, conta.

E não a surpreende que Ruy Belo tenho esperado até ao final da década para dar a conhecer este soneto em Homem de Palavra(s), publicado em 1969 na icónica colecção dos Cadernos de Poesia da D. Quixote. “Ele escrevia livros muito organizados, e portanto ficavam bastantes poemas de fora à espera de um livro onde coubessem.”

As duas versões, manuscrita e dactiloscrita, que encontrou nos seus papéis e que nos autorizou a reproduzir mostram como o poema evoluiu até Ruy Belo se dar por satisfeito. Sendo que aquele que foi porventura o mais virtuoso fabbro da poesia portuguesa da segunda metade do século XX tendia a só se satisfazer com a exactidão.

É talvez por isso que, sendo emocionante ver agora na elegante caligrafia do poeta um soneto que os leitores de Ruy Belo tantas vezes leram em letra de forma, não deixa também de causar uma certa estranheza constatar que este Esplendor na relva possa ter tido versões anteriores, que não tenha nascido logo inteiro e perfeito, como sempre o conhecemos. Mas o que nos deveria espantar é justamente o contrário: que só alguns detalhes, ainda que bastante decisivos, distanciem esta primeira tentativa, escrita ao correr da caneta, do que veio a ser o resultado final.

Ruy Belo escreveu o poema depois de ver o filme de Kazan, que por sua vez se inspirou numa conhecida ode de William Wordsworth, fundador do Romantismo inglês e um poeta central na genealogia literária do poeta português, o que complica a aparente linearidade poema-filme-poema. Não por acaso, Esplendor na relva é um dos poemas de Ruy Belo que mais tinta tem feito correr, a começar pela do próprio autor, que em 1978, no prefácio à segunda edição de Homem de Palavra(s), o integra nos “poemas onde o cinema [o] ensinou a ver”.

Também o poeta e ensaísta Joaquim Manuel Magalhães, autor de alguns dos mais importantes e pioneiros textos críticos sobre Ruy Belo, e organizador da primeira compilação da sua obra poética, alude a este poema, vendo nele um exemplo da lição wordsworthiana: a da “poesia como memória, como transbordar de sentimentos após ter passado a emoção de os ter vivido”. Uma perspectiva que Pedro Serra, num ensaio mais recente, tenta pelo menos matizar, servindo-se deste mesmo poema para tentar demonstrar as dimensões pós-românticas da poesia de Ruy Belo.

Para lá de hesitações menos significativas - e descontando as maiúsculas nos nomes próprios, que o poeta viria a abolir em toda a sua poesia, para que "palavra alguma levante a cabeça no meio da frase" -, a versão manuscrita apresenta dois versos diferentes (e consideravelmente menos interessantes): onde hoje estão os já citados “e a sua evolução segue uma linha/ que à imaginação pura resiste”, o poeta começara por escrever: “e tem comportamento de rainha/ só possível a quem no ser persiste”. Versos que transitam ainda para o dactiloscrito, onde são depois riscados e corrigidos à mão para a sua versão definitiva.

E estes dois versos posteriores serão justamente aqueles em que irá centrar-se João Bénard da Costa, num texto que, sendo uma apreciação do filme de Kazan, é também do que de mais belo se escreveu sobre o poema que este inspirou. O histórico director da Cinemateca pergunta: “Resiste à ‘imaginação pura’ (…) ou resiste, ‘pura’, à imaginação? (…) Ou seja, o adjectivo ‘pura’ refere-se à imaginação ou a Deanie Loomis? Ou – pode ser também – à ‘linha que resiste’? Nestas três perguntas está o cerne de Deanie Loomis, de Natalie Wood e de Splendor in the Grass. São mulheres e filme da nossa imaginação? Ou são mulheres e filme que resistem à nossa imaginação? Ou são mulheres e filme que resistem a uma linha evolutiva que só na nossa imaginação existe?”.

Admite não ter respostas e suspeita de que o poeta também as não teria. O que sabe é que concorda com o que o próprio Ruy Belo escreveu, e que explica bem a importância do cinema na sua obra: “Ninguém, no futuro, nos perdoará não termos sabido ver, esse verbo que tão importante era já para os gregos”.

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/ruy-belo-uma-poesia-que-aprendeu-a-ver-com-o-cinema-1709272?page=-1

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Morreu o poeta António Ramos Rosa



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Autor de uma das obras poéticas mais extensas e marcantes da poesia portuguesa contemporânea, António Ramos Rosa morreu esta segunda-feira aos 88 anos.
António Ramos Rosa na sua casa em 2004 DAVID CLIFFORD/ARQUIVO

Morreu esta segunda-feira em Lisboa, aos 88 anos, o poeta e ensaísta António Ramos Rosa, um dos nomes cimeiros da literatura portuguesa contemporânea, autor de quase uma centena de títulos, deO Grito Claro (1958), a sua célebre obra de estreia, até Em Torno do Imponderável, um belo livro de poemas breves publicado em 2012. Exemplo de uma entrega radical à escrita, como talvez não haja outro na poesia portuguesa contemporânea, Ramos Rosa morreu por volta das 13h30 desta segunda-feira, em consequência de uma infecção respiratória, em Lisboa, no Hospital Egas Moniz.
Além da sua vastíssima obra poética, escreveu livros de ensaios que marcaram sucessivas gerações de leitores de poesia, como Poesia, Liberdade Livre (1962) ou A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979), traduziu muitos poetas e prosadores estrangeiros, sobretudo de língua francesa, e organizou uma importante antologia de poetas portugueses contemporâneos (a quarta e última série dasLíricas Portuguesas). Era ainda um dotado desenhador.
Prémio Pessoa em 1988, António Ramos Rosa, natural de Faro, recebeu ainda quase todos os mais relevantes prémios literários portugueses e vários prémios internacionais, quer como poeta, quer como tradutor.
Já muito fragilizado, o poeta, que estava hospitalizado desde quinta-feira, teve ainda forças para escrever esta manhã os nomes da sua mulher, a escritora Agripina Costa Marques, e da sua filha, Maria Filipe. E depois de Maria Filipe lhe ter sussurrado ao ouvido aquele que se tornou porventura o verso mais emblemático da sua obra – “Estou vivo e escrevo sol” –, o poeta, conta a filha, escreveu-o uma última vez, numa folha de papel. 
Para Pedro Mexia, poeta e crítico, Ramos Rosa mostrou, nomeadamente através das revistas que dirigiu e da primeira fase da sua obra poética, “que era necessário superar a dicotomia fácil entre a poesia ‘social’ e a poesia ‘pura’, e que o trabalho sobre a linguagem não impedia o empenhamento cívico”. Como ensaísta, continua Mexia, Ramos Rosa esteve atento ao panorama europeu e mundial, de René Char a Roberto Juarroz, e aos autores portugueses das últimas décadas, incluindo os novos: “Descobri muitos poetas através de obras como Poesia, Liberdade Livre ou Incisões Oblíquas.
Autor "muitíssimo prolífico", "nunca se afastou do seu caminho pessoal, mesmo quando a abundância e a insistência numa 'poesia sobre a poesia' fizeram com que nos esquecêssemos da sua importância decisiva."
O escritor e crítico Fernando Pinto do Amaral prefere eleger como "verdadeiramente singular" em Ramos Rosa “a atmosfera muito espacial que a sua poesia, ou melhor, os seus ciclos de poemas, são capazes de criar”. Atmosfera essa que resulta de uma “conjugação precisa de palavras”: “Isso vê-se muito bem em O Ciclo do Cavalo, de que gosto particularmente, e em Gravitações, onde se sente que há como que uma força cósmica que atrai e repele as palavras e a própria natureza.”
A ideia de respiração é, aliás, muito importante na obra deste autor, continua Pinto do Amaral, admitindo que não é fácil explicar o que dela emana, em parte porque passou por várias fases, “muito distintas”. É numa delas, mais realista, “ligada ao quotidiano e às suas burocracias”, que se insere um dos seus poemas mais conhecidos, O Boi da Paciência. “Ele, que também foi um funcionário de escritório, mostra aqui como pode ser monótona a vida e como é preciso combater a monotonia”: “Mas o homenzinho diário recomeça / no seu giro de desencontros/ A fadiga substituiu-lhe o coração”, escreve.
“Tudo está em tudo na poesia de Ramos Rosa”, “como no movimento constante de inspirar e expirar”, resume o escritor, defendendo que se trata de um poeta que precisará sempre de antologias: “Um jovem leitor que queira iniciar-se na sua poesia vai sentir-se muito facilmente perdido. Ele escreveu muito, publicou muito. Fazer antologias suas não é, no entanto, tarefa fácil, porque há uma unidade muito grande em cada livro, o que torna difícil escolher um poema em detrimento de outro.”
Com Isabel Salema e Lucinda Canelas 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Amor de Perdição: um bom romance canonizado pelas razões erradas







Literatura

Amor de Perdição: um bom romance canonizado pelas razões erradas

05.11.2012 - 15:27 Por Luís Miguel Queirós

A praceta frente à Cadeia da Relação, onde Camilo esteve preso, vai chamar-se Largo do Amor de Perdição
A praceta frente à Cadeia da Relação, onde Camilo esteve preso, vai chamar-se Largo do Amor de Perdição (Paulo Pimenta)
 Os 150 anos da primeira edição do livro que Camilo escreveu na prisão estão a ser festejados com pompa e circunstância. A obra até poderá merecer, mas não pelos motivos que a tornaram mítica.

No prefácio que escreveu, em 1879, para acompanhar a 5.ª edição de Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco termina com uma profecia dubitativa: "Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5.ª edição do Amor de Perdição quase esgotada." 

Sugerir que a tiragem então acabada de sair levaria mais de um século a esgotar-se era, da parte de Camilo, um óbvio e pouco convincente lance de modéstia, mas o que nem ele, que nunca se teve propriamente em baixa conta, se atreveria a prever, nesses anos em que os favores da crítica começavam a inclinar-se para a nova escola realista de Eça de Queiroz, era que essa "sociedade do século XXI" não apenas não esqueceria os amores contrariados de Simão Botelho e Teresa Albuquerque, como iria mesmo celebrar, e com assinalável pompa e circunstância, os 150 anos da publicação, em 1862, da primeira edição do Amor de Perdição

Com o bem achado título de CCB no CCB - leia-se Camilo Castelo Branco no Centro Cultural de Belém -, a instituição dirigida por Vasco Graça Moura dedicou, no final de Outubro, uma semana de intensa programação ao romancista, e em particular ao Amor de Perdição, promovendo debates, conferências, sessões de cinema, e ainda exposições, como aquela que reuniu os estudos de Júlio Pomar para as ilustrações do Romance de Camilo, de Aquilino Ribeiro. E os festejos prosseguem em breve em São Miguel de Seide, na Casa de Camilo, onde a Câmara de Vila Nova de Famalicão organiza, de 16 a 18 deste mês, um colóquio internacional intitulado Amor de Perdição: Olhares Cruzados. O ministro da Educação, Nuno Crato, é um dos que já confirmaram a presença, a par de Mário Cláudio, Vasco Graça Moura, José Pacheco Pereira ou Laborinho Lúcio. 

O tributo mais original fica todavia a dever-se à autarquia portuense, que aprovou recentemente a proposta de se baptizar com o nome de Largo do Amor de Perdição a praceta fronteira à Cadeia da Relação, onde Camilo esteve preso com Ana Plácido, e onde escreveu, ao que parece em apenas 15 dias, a história dos contrariados amores de Simão Botelho e Teresa Albuquerque. É a primeira vez que a cidade concede a um romance a honra de figurar na respectiva toponímia. 

A arte da sugestão
Por que motivo, entre os tantos livros que o génio compulsivo de Camilo nos deixou, haveria este romance em particular de conquistar os favores da posteridade e alcançar um estatuto suficientemente icónico para se lhe renderem preitos geralmente reservados aos autores, e não às obras? O ensaísta e camilianista Abel Barros Baptista acredita que o próprio escritor, com o já referido prefácio de 1879, possa ter "contribuído para criar a ideia de que este livro é mais importante do que os outros". Baptista lembra que Camilo, nesse texto, caracteriza o sucesso editorial da obra como "um êxito fenomenal e extralusitano". À sua escala, o Amor de Perdição foi, de facto, aquilo a que hoje chamaríamos um best-seller: no primeiro quartel do século XX, já atingira vinte edições. Mas o próprio Camilo sempre lhe preferiu O Romance de Um Homem Rico, que publicara no ano anterior, e os camilianistas de várias épocas foram assumindo predilecções diversas. Não há na vasta bibliografia de Camilo algo que corresponda a Os Maias, de Eça de Queiroz, um título que seja a sua obra-prima consensual. 

Se Amor de Perdição se foi aproximando desse estatuto, deve-o a um complexo conjunto de motivos, nem todos especialmente válidos. Barros Baptista começa por desmontar a ideia de que sucessivas gerações de estudantes estudaram o livro no ensino secundário: "É uma ideia bastante ilusória", garante o ensaísta, já que "o livro só integrou os programas escolares durante um período muito curto". Entre os elementos que confluíram na lenda gerada em torno da obra conta-se ainda o suposto paralelismo entre a paixão contrariada dos protagonistas e os amores que tinham lançado no cárcere o próprio Camilo e Ana Plácido. Uma comparação que Barros Baptista igualmente desmonta, lembrando que a vida do romancista na cadeia portuense não era bem a que se julga: "Saía de lá para apanhar sol, comprava pantufas para Ana Plácido..."Mesmo a tendência para se ver no Amor de Perdição uma espécie de tradução da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, para o romantismo português do século XIX - em ambos os casos, a inimizade de duas famílias constitui o obstáculo principal à consumação do amor que une os jovens protagonistas - esquece a dimensão triangular que a paixão de Mariana por Simão vem trazer à novela de Camilo. Barros Baptista acha que o livro é "bastante moderno" e "muito menos linear e convencional" do que geralmente se pensa, argumentando que "é difícil apontar-se uma causa única para o que vai acontecendo". A título de exemplo, o ensaísta sugere que, no final, Simão, a caminho do exílio, está já "mais interessado no seu destino do que na ligação amorosa com Teresa", que definha no convento de Monchique. 

"É um dos livros mais interessantes para se conhecer a criatividade de Camilo como romancista, incluindo a sua veia cómica", diz Barros Baptista, apontando um diálogo entre Mariana e Simão como exemplo do talento do autor para sugerir conotações sexuais numa frase de circunstância aparentemente inócua: preocupada com a relutância de Simão em alimentar-se, Mariana leva-lhe um "caldinho" e diz: "(...) coma sem nojo, que esta [malga] nunca serviu." Uma tensão erótica que, na sua adaptação do livro ao cinema, Manoel de Oliveira traduzirá numa cena quase "pornográfica", com Mariana a apresentar a Simão uma galinha de pernas escachadas, numa travessa que transporta à altura da sua própria vagina. 

Um ritmo vertiginoso
Também o romancista Mário Cláudio acha que "o Amor de Perdição é um romance extraordinário" por méritos diversos dos que geralmente se atribuem ao livro. Mas os pontos fracos e fortes que enumera não coincidem exactamente com os que aponta Abel Barros Baptista, o que só confirma que estamos perante uma obra bastante mais aberta e discutível do que a sua precoce canonização deixaria prever. 

No seu romance Camilo Broca, Cláudio dá um lugar central a Simão Botelho, o tio de Camilo que serviu de inspiração ao Amor de Perdição, e que, na vida real, "foi um valdevinos, um canalha que chulou uma mulher casada, muito feia e muito rica". Mesmo o Simão protagonista do romance de Camilo "não é muito mais do que um pinga-amores que mata por paixão", observa Mário Cláudio, lamentando que "Simão não seja uma figura mais contraditória", mas reconhecendo que "seria exigir a Camilo uma modernidade que este não poderia ter". 

Vendo Simão como "mais um decalque do Werther, de Goethe, mas sem o lado reflexivo, filosófico, do original", Cláudio não o distingue das restantes personagens de Camilo, que, afirma, "são um pouco estereotipadas, de cartão recortado, com um conteúdo relativamente pobre", o que se "torna claro", acrescenta, "quando as comparamos com as figuras de Eça". O romancista, diz, estava "deformado pela escrita do folhetim literário, que, antes de Balzac, era um desfile de estereótipos: em Camilo, a mulher fatal é sempre muito fatal, o amoroso é muito amoroso, o brasileiro de torna-viagem é sempre burro, perverso e feio". 

Mas Mário Cláudio reconhece que Amor de Perdição "tem um ritmo vertiginoso" - a análise do manuscrito levou os especialistas à convicção de que Camilo escreveu mesmo o livro em duas semanas - e que a obra mostra "um grande conhecimento da técnica novelística". Valoriza ainda o modo como, no Amor de Perdição, a transcrição de cartas "é um engenho mobilizador da acção", algo que "já se fizera lá fora, mas era inédito em Portugal", e elogia "o estudo da triangularidade" oferecido pela relação das personagens de Simão, Teresa e Mariana.