Mostrar mensagens com a etiqueta Joaquim Furtado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Joaquim Furtado. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A visão global da guerra - RTP1: Série documental estreia hoje à noite


* João C. Rodrigues


O realizador e autor da série documental ‘A Guerra’, Joaquim Furtado, acredita que o trabalho que estreia esta noite na RTP 1 vai suscitar controvérsia.

Em antecipação ao primeiro de 18 episódios do documentário sobre o período da guerra colonial, Joaquim Furtado afirmou ao CM que “a própria série já é controversa em certos momentos”, uma vez que apresenta “muita informação nova sobre factos que até agora eram dados como certos”.

“Não me surpreendia se o assunto voltar a ser discutido pelas pessoas. É uma questão sensível na história de Portugal e, apesar de já se terem passado quase 40 anos, nunca foi tratada e esclarecida como deveria.”

Furtado sustenta que os depoimentos recolhidos e as imagens contextualizadas, “por mostrarem novas visões sobre as verdades oficiais da época, vão, pelo menos, levantar alguma discussão”. O realizador dá como exemplo os primeiros momentos da guerra e o episódio que ficou conhecido como o ‘Massacre de Mueda’, em Moçambique, onde terão morrido centenas de pessoas.

“São 13 anos de história que quis contar de forma integrada e simultânea, isto é, mostrar como existiam dois pólos que condicionavam a guerra: o português e o internacional.”

Para mostrar as diferentes visões da mesma guerra, o jornalista deslocou-se por diversas vezes aos locais que marcaram aquele momento no sentido de obter depoimentos daqueles que estavam no outro lado da barricada. Como exemplo das diferentes perspectivas como os protagonistas viam o conflito, Joaquim Furtado diz que logo no ‘nome’ da guerra se vê o modo como a mesma era encarada: “Dependendo do lado, há quem lhe chame guerra colonial, guerra no Ultramar ou guerra da libertação.”

Mas não será só em Portugal que a série documental pode provocar reacções. O realizador explicou ao CM que ‘A Guerra’ também será exibida na RTP África – em simultâneo –, pelo que também poderá causar controvérsia nas antigas colónias portuguesas.

Consciente da sensibilidade do tema e do impacto que pode vir a ter, o realizador confessa que planeou a série “a pensar em diferentes públicos”. “Tanto naqueles que viveram o conflito directa ou indirectamente, como nas camadas mais jovens, que têm muita curiosidade em saber o que se passou com os pais ou outros familiares neste período, mas que partem com ideias feitas, distorcidas ou incompletas sobre o mesmo.”

DOCUMENTÁRIO EM HORÁRIO NOBRE FAZ FALTA À TELEVISÃO

Joaquim Furtado está satisfeito por ver o seu trabalho exibido no horário nobre da RTP 1, razão que ajuda a ter expectativas altas em relação às audiências. “Não acompanho o fenómeno desde que deixei a direcção da RTP, mas parto do princípio que é um assunto que diz respeito a muitos portugueses e que, nesse horário, poderá ter bons resultados. Por isso, julgo que haverá um grande número de pessoas a seguir a série.” O jornalista sustenta ainda que devia haver mais documentários na televisão portuguesa: “Claramente falta espaço para este tipo de formatos nos canais nacionais. E isso faz falta.”

IDENTIFICAÇÃO DE ARQUIVOS PROBLEMÁTICA

“A maior dificuldade na produção de ‘A Guerra’ foi a identificação dos filmes dos Arquivos da RTP e do Exército”, diz Joaquim Furtado. “Em muitos casos a identificação estava errada ou incompleta. Havia imagens em que a informação dizia que tinham sido recolhidas em determinado local de Angola, mas, na verdade, foram captadas no extremo oposto do país. Conseguir identificar e contextualizar todos os documentos foi um processo muito moroso”, confessa o realizador. Para produzir os 18 episódios de uma hora, Joaquim Furtado recorreu a cerca de 500 horas de gravações que estavam arquivadas e registou 200 depoimentos de entre as mais de 400 entrevistas que fez no processo. “É natural que muito material tenha ficado de fora, mas há aspectos que podem voltar a ser recuperados no futuro”.

SAIBA MAIS

- 1961 Ano em que estala a guerra em Angola. Em 15 de Março, a União dos Povos de Angola, sob as ordens de Holden Roberto, massacra colonos e negros bailundos trabalhadores nas fazendas.

- 1963 Ano em que a guerra alastra à Guiné – quando, em Setembro, o PAIGC, conduzido por Amílcar Cabral, ataca o quartelamento português de Tite, na margem esquerda do Rio Geba, a Sul de Bissau.

- 1964 A guerra estende-se a Moçambique. Guerrilheiros da Frelimo lançam, a partir da Tanzânia, um ataque ao posto administrativo de Chai, no Norte da colónia.

MORTOS

A guerra durou até 1974. O número exacto de mortos ainda não está apurado: ronda 10 mil, segundo a Liga dos Combatentes.

MILITARES

Milhão e meio de portugueses foram mobilizados para a guerra em África.
.
in Correio da Manhã 2007.10.16
.
foto - A RTP possui em arquivo milhares de imagens avulsas que agora foram identificadas e colocadas em contexto. Cenas inéditas também prometem surpreender muitos telespectadores.
.

» Comentários no CM on line
Quinta-feira, 18 Outubro
.
- João Costa Foi desmascarada a classe política pela falta de vergonha evidenciada em 33 anos de democracia. Em certa medida, até os fazedores do 25 de Abril se deixaram enrolar por ela. Todos foram abandonados à sua sorte, os políticos enrolaram a bandeira portuguesa e fugiram a toda a brida. Ainda hoje os generosos combatentes portugueses (que inclui africanos) continuam à espera que olhem para eles.
.
Quarta-feira, 17 Outubro
.
- jose neves Fui mobilizado para Angola no ano de 1969 como Furriel de infantaria para a zona militar leste. Os dois anos passaram-se e finalmente chegou o dia do desejado regresso.O comandante do batalhao mandou toda a tropa formar no campo do Grafanil. O seu discurso de despedida comecou assim: "Agora a maioria de vocês vão para vida civil, não vão contar o que viram ou não viram. Não sejam JAVARDOS!!!"
- Dúlio Silva Coelho Parabéns ao autor do documentário pois faz falta não só aos ex-colonos saberem mais sobre a guerra que marcou a história mais recente do nosso país mas também aos mais novos saberem tudo o que levou à revolução desde o seu principio, dado isto ser um assunto tabu no nosso ensino e fundamental para compreender melhor a politica e estrategia seguidas pelo nosso governo desde a ditadura. Parabéns.
.
Terça-feira, 16 Outubro
.
- peregrino O representante da Frelimo disse lá na plateia que 'eles' queriam era apenas a LIBERTAÇÃO do JUGO DOS DE FORA. Ora, os Macondes não são Xanganas e estes não são Macúas. Existem pelo menos 13 POVOS diferentes em Moçambique. QUANDO É QUE A FRELIMO VAI DAR-LHES LIBERTAÇÃO PARA QUE ELES TAMBÉM POSSAM DECIDIR DO SEU PRÓPRIO DESTINO?
- Helder Gerardo Acabei de ver o documentário de Joaquim Furtado e está fantástico. Aliás existe um livro que aconselho vivamente, que relata estes factos todos desde 1849 até 2000 e que mistura ficção e factos históricos duma forma surpreendente: "Os verdes do mato não acabam", de João Coutinho, Ed. Ausência. A não perder!
- Carlos Alberto Guimaraes Dou os meus parabens a Joaquim Furtado pelo trabalho realizado, mas a guerra começou em 11/01/61 na Baixa de Cassange, no Posto Administrativo do Milando- na sanzala de Ganga -Mexica. O 1º oficial que entrou em acçao foi o tenente Portugal com 2 Jipes e e dez homens, que chegou ao Milando na noite de ll/01/61. O Chefe de Posto encontra-se vivo e tem todo este acontecimento escrito, para a historia
- Gentleman Já tardava! Parabéns Sr Joaquim Furtado. Estou ansioso por vêr os culpados dos milhares de portugueses brancos que morreram nas ex-províncias ultramarinas, depois da indepêndencia, sem conseguirem saír das colónias. Estive em Angola em 1996/97 e um alto dirigente do MPLA indentificou-os sem qualquer dúvida. Vamos lá ver se fogem à responsabilidade.
- spirou Dsejava ver, e ouvir dirigentes da frelimo dizer o que eu ouvi em Moçambique,na celebração do dia da independência, 7/09/1998, passou na televisão um documentario sobre a guerra, mais ou menos esplanado do que aconteceu e quais os principais intervenientes da "venda" das ex colonias,as reuniões secretas na Argelia e França, e o que o Sr Savimbi disse ao telefone a um lider politico Português.
- vitor silva Saudosos tempos em k Portugal era um Pais, hj é uma quinta onde cada um rouba o que pode.
- Marília Guimarães Quero informar que a guerra em Angola começou na Baixa do Cassange (Distrito de Malange) em 11.1.1961. Quem deu alerta a Angola inteira foi o Chefe do Posto do Milando o meu pai Alberto Pinto Guimarães. Em Março, o meu pai já estava farto da guerra.
- weisswurst - braga Espero que falem dos 9,000 portugueses brutalmente assassinados em Angola. Espero que falem das manobras da CIA e KGB, incitando ao ódio racial contra Portugueses. Espero que falem que as zonas "libertadas" continuam hoje colonizadas por americanos, russos e chineses. É melhor esperar sentado.
- JBrito Espero que mostrem as imagens e texto constantes no livro, se a memória não me atraiçoa, "Angola, nos dias do desespero".Em 04/02/61 eu tinha 9 anos e assisti a muitas atrocidades que me marcaram até aos dias de hoje.Lisboa
- Leandro Coutinho País rural, pobre, analfabeto.. suportou uma guerra nas décadas de 60 e 70 devido á teimosia de um regime que nenhum outro país da Europa aceitaria.. A Guerra ficou cravada na História de Portugal e de África.. Para já ainda é polémica..Estão vivos milhares e milhares de combatentes..Serão precisos mais 20 anos para poder haver análise desapaixonada..
- Maquiavel Antes de mais é preciso ter isso em mente: O Império Português NUNCA foi como os outros. Falar de 'guerra ultramarina' ou 'guerra de libertação' ou 'guerra colonial' é uma TRAIÇÃO ao ESPÍRITO LUSITANO eternalizado pelos versos de Camões.
- fernanda gaspar Nascida em Angola e me lembrando bem dos masssacres do Norte de Angola, estou morrendo de curiosidade p/ver o documentário. Porque à frente dos guerilheiros havia sempre um feiticeiro de capote preto dizendo que as balas dos brancos não matavam... Ver para crer.Oeiras

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Guerra Colonial: série estreia dia 16 - A Guerra como nunca foi contada

* Myriam Zaluar

A 27 de Abril de 1974, dá-se na Guiné aquela que poderá ter sido a última operação da guerra que se iniciara em Angola 13 anos antes. Os comandantes que lideravam as tropas implicadas não sabiam que na antevéspera se dera em Portugal o golpe militar que iria pôr fim ao conflito.


É por uma conversa entre os responsáveis de ambos os lados que se inicia a série documental ‘A Guerra’, a estrear 3.ª feira, dia 16, às 21h00, na RTP1. Assinado por Joaquim Furtado, o documentário pretende abordar, “de uma forma global” que o seu autor acredita ser inédita, a guerra que conheceu três designações diferentes. É precisamente esta tripla visão que o jornalista pretendeu dar ao público ao introduzir, desde o genérico, os três nomes dados ao conflito que transformou a vida de toda uma geração, a sua geração.

“Os protagonistas desta guerra”, explica à Correio TV, “os militares portugueses e o regime, os guerrilheiros africanos e também os que, não participando directamente, tinham uma opinião contra, chamaram nomes diferentes ao conflito. Os primeiros chamaram-lhe Guerra do Ultramar. Os segundos Guerra de Libertação. Os refractários, os desertores e os que se situavam na oposição deram-lhe o nome de Guerra Colonial”. A série ficou ‘A Guerra’ mas no genérico o título “desdobra-se”, mostrando as três diferentes maneiras de ver um mesmo conflito.

JOAQUIM FURTADO

Joaquim Furtado decidiu articular o longo documentário, cujos primeiros nove episódios vão para o ar nas próximas semanas, em “três grandes pilares”. O primeiro diz respeito às imagens históricas que serão exibidas. São “filmes de arquivo da própria RTP e também das Forças Armadas, da Força Aérea e da Marinha, para além de documentação fornecida pelos próprios entrevistados”. Trata-se, diz, de “um acervo imenso” no qual se incluem imagens nunca vistas e outras que, embora não sejam inéditas, aparecem “talvez pela primeira vez contextualizadas, colocadas no seu devido lugar na História”. O jornalista começou a preparar a série documental em 1999 mas o trabalho sofreu algumas interrupções, a maior das quais durou perto de ano e meio.

O PROGRAMA

Para além dos filmes e imagens fotográficas de época, o programa assenta em centenas de depoimentos de pessoas que o jornalista designa como “protagonistas” do conflito e onde se incluem “os militares portugueses das várias patentes que participaram, quer em Angola, quer em Moçambique, quer na Guiné”, os guerrilheiros africanos, mas também os civis das várias nacionalidades, “pessoas que directa ou indirectamente viveram a guerra”.

A SÉRIE

A série inclui ainda uma terceira vertente, de reportagem, que permite, no entender do seu autor, dar “uma visão mais abrangente” do conflito e do seu contexto histórico e social. Furtado levou antigos militares portugueses a Angola e a Moçambique, promovendo, por vezes mais de quarenta anos depois, encontros entre os dois lados. Foi também feita uma tentativa de reconstituição dos momentos mais significativos, recorrendo a imagens de arquivo e também a gráficos, mapas e ilustrações, para os quais foram utilizadas técnicas informatizadas a três dimensões, num esforço para dar ao telespectador pormenores do “ponto de vista técnico-militar”. Foi ainda possível, graças à tecnologia moderna e a um intenso trabalho de pós-produção vídeo e áudio, recuperar a qualidade de muitas imagens de arquivo, assim como sonorizar filmes, utilizando documentos que estavam incompletos, “parte na RDP (o som) e outra na RTP (a imagem)”, explica o jornalista, que para o efeito visionou “milhares de filmes”, alguns dos quais foram revelados de novo já que o negativo ainda estava intacto.

'UMA VISÃO GLOBAL'

Joaquim Furtado optou por contar a história de forma cronológica em vez de dedicar um certo número de episódios a cada um dos países implicados, já que pretende dar da guerra “uma visão global”. Daí que tenha optado por relatar os eventos ocorridos nos diversos cenários em simultâneo e “mostrar, para além das armas, o universo em que se vivia” tanto em Portugal como em Angola, Moçambique e Guiné, “as vidas” que foram alteradas, e, paralelamente, contextualizar o conflito no plano internacional, mostrando os acontecimentos mais relevantes em Portugal e no resto do Mundo. “Os filmes de arquivo não contêm esta vertente”, afirma. E acredita que “esta história está ainda por contar” já que mesmo as pessoas que estiveram na guerra apenas conheceram o local onde estiveram e “não fazem ideia da realidade que era vivida” noutros pontos do conflito. Por outro lado, em Portugal a maioria da população não tinha acesso à informação.

“A guerra era muito pouco noticiada, a não ser pelas estações oficiais e oficiosas, e as imagens que passavam eram muito bem trabalhadas” pela censura, a fim de deixarem passar apenas a mensagem pretendida pelo regime. Daí que Furtado esteja convencido de que, para a maior parte do público, as imagens que vão ser vistas na série o serão pela primeira vez. Por um lado, foram recuperadas para o programa filmagens em bruto que nunca tinham sido utilizadas nas reportagens e filmes exibidos na época e, por outro, imagens que, não sendo inéditas, “são agora colocadas no seu devido lugar”. O jornalista afirma ter sido possível, com a ajuda das dezenas de testemunhos recolhidos, situar determinadas sequências e perceber que imagens que eram atribuídas a certos acontecimentos pertenciam afinal a outros, ou seja, em vários casos percebeu-se que “aquele filme era outro filme”.

‘A Guerra’ irá, pois, permitir desconstruir alguns mitos que permanecem intactos apesar de terem passado mais de quarenta anos sobre o início do conflito. Joaquim Furtado garante mesmo que a série que agora estreia contém “revelações”.

MOMENTOS MAIS MARCANTES

Num dos momentos mais marcantes, o jornalista tentou levar quatro militares e um padre portugueses a encontrar-se com dois militares angolanos no preciso local onde ambas as partes viveram, em 1961, a “primeira grande operação” em Angola. Trata-se da tomada de Nambuangongo, local onde se pensava estar o quartel-general dos guerrilheiros angolanos da UPA. A denominada ‘Operação Viriato’ foi então levada a cabo “simultaneamente através de três colunas”. Curiosamente, relata Furtado, “a RTP tinha feito a reportagem com uma das colunas, que se acreditava seria a primeira a chegar”. Mas acabou por ser a coluna liderada pelo coronel Massanita a chegar à frente.

O encontro promovido, cerca de quarenta e cinco anos depois, pelo jornalista colocou frente a frente quatro elementos do batalhão comandado pelo “lendário Massanita” com dois dos guerrilheiros angolanos que se encontravam no caminho dos militares portugueses. O encontro teve, contudo, e contrariamente ao previsto, de se realizar a alguns quilómetros de Nambuangongo, já que uma viagem atribulada impediu a equipa de reportagem de alcançar o local. Desde uma enorme tempestade a um veículo atolado em lama, vários foram os obstáculos encontrados na missão. Foi possível, no entanto, ao fim de quase meio século, desmontar mitos que permaneciam nas mentes dos dois lados. “Os portugueses, na época, acreditavam que era preciso cortar a cabeça aos terroristas, ‘entidades’ que caso contrário poderiam renascer”.

Para os protagonistas da ‘Guerra’ foi uma ocasião para celebrar a paz. O jornalista apercebeu-se de que “os africanos em geral reagem muito bem” a estes momentos de catarse, “sem ressentimentos”. Assim como os portugueses, que, afinal de contas, aceitaram viajar com o propósito de se encontrarem com o anterior “inimigo”. Foi precisamente um dos antigos guerrilheiros da UPA que protagonizou um dos episódios que mais tocaram o autor da série documental: “um homem, já muito doente, que disse ‘não vou durar muito mas gostava que nos voltássemos a dar com os Portugueses’.”

O AUTOR: 'NÃO FUI À GUERRA'

PROJECTO COMEÇOU NOS ANOS 80

Joaquim Furtado começou a pensar neste projecto nos anos 80. E quis ser o responsável pela parte da guerra em ‘Crónica do Século’. Mas o programa só foi concretizado quando Furtado estava na direcção da RTP, o que o impediu de participar mais activamente. Voltou ao projecto em 1999 mas interrupções várias para outros trabalhos adiaram a estreia de ‘A Guerra’. Joaquim Furtado, 59 anos, cumpriu o serviço militar em 1969. Curiosamente, o jornalista que agora conta aos portugueses a história da guerra colonial não participou no conflito. Conseguiu que, por motivos de saúde, o passassem “aos serviços auxiliares”, escapando da ida para a Guiné. Na época já trabalhava no Rádio Clube Português, onde fazia o programa ‘Tempo Zip’, herdeiro do lendário ‘Zip-Zip’ da RTP. O programa transitou para a Rádio Renascença e acabou suspenso pela censura. Foi novamente aos microfones do Radio Clube que Furtado protagonizou o momento histórico que pôs fim ao regime ao ler o famoso ‘Comunicado das Forças Armadas’. “Cerca de dez minutos depois da ocupação da estação”, o jornalista percebeu o que estava em jogo. Foi ele quem anunciou aos Portugueses o fim da guerra.

GARANTE O DIRECTOR DE PROGRAMAS: 'É UM DOS DOCUMENTÁRIOS MAIS PODEROSOS'

TEM GRANDE SENTIDO DE MOBILIZAÇÃO

‘A Guerra’, afirma ao CM o director de Programas da RTP, “é um dos documentários mais poderosos que foram produzidos em 50 anos de televisão”. O montante de cada episódio “está em linha com o valor dos nossos documentários” mais caros, garante Nuno Santos. Para o responsável da estação pública, o formato idealizado por Joaquim Furtado “é o resultado de uma investigação muito apurada mas que, simultaneamente, tem todos os ingredientes televisivos. Está bem contada, bem encadeada e, por isso, tem grande sentido de mobilização”.

DEPOIMENTOS: 200 ENTREVISTAS

Das 400 pessoas com quem falou, em Portugal e África, Furtado entrevistou metade.

GRAVAÇÕES: 500 HORAS

O autor passou cerca de cinco meses a visionar imagens de arquivo.

IMAGENS INÉDITAS

O realizador optou por usar o mesmo fundo em todas as entrevistas de modo a obter uma “imagem uniforme”. O fundo é escuro e nele são inseridas imagens de arquivo ou oráculos.
.
in Correio da Manhã 2007.10.12
foto Sérgio Lemos - joaquim furtado (RTP estreia série documental sobre conflito colonial. Depoimentos inéditos e reportagens em África revelam faceta pouco conhecida da nossa História )
.

» Comentários no CM on line
Quarta-feira, 17 Outubro
.
- Luis Santos Pela 1ªvez, se assiste a um documentário, exacto,como as coisas se passaram, nas nossas ex-colónias. Fui combatente, 1º Cabo Enfermeiro, em Moçambique no AB7 (TETE) uma das bases mais operacionais a Norte de Moçambique.,tivemos 10 baixas, aviões que cairam, um deles atingido, em combate, que era pilotado pelo Furriel Mesquita. Uma Mina Anti-Carro a 16 Km, perto do Radio farol. É a guerra.
Terça-feira, 16 Outubro- joão almeida Estive na guiné 67/69, S.Domingos, maus momentos mas muita camaradagem. Todos sofremos muito; privações, fome, doenças e muito stres, sentimento de abandono pelo governo da altura. Acho que chegou o momento de mostrar a quem não esteve no teatro das operações aquilo porque a juventude portuguesa dos anos 60 passou, muitos aqui na metropole nunca acrediraram que o povo portugues estava mesmo em guerra.
- Armando Ferreira E imperativo que o documentario de J.Furtado (a guerra) venha finalmente desmitificar aos Portugueses,o que foi a guerra colonial. A maioria de nos, ainda nao compreendemos as consequencias catastroficas que este conflito causou em termos economicos e humanos a Portugal e as ex colonias. Os veteranos da guerra colonial nao teem sido tratados com o devido respeito, uma geraçao profundamente afectada.
Segunda-feira, 15 Outubro- Tuga Não sei se aconteceram massacres ou não, penso que ambas as partes cometeram erros, mas não compreendo como algumas pessoas pseudo-iluminadas vem para aqui mandar postas de pescada acerca de um assunto em que muito provavelmente desconhecem e nada sabem.
- ex. combatente na Guiné Muito se fala de guerra colonial, mas eu ainda hoje quase quarenta anos passados me pergunto muitas vezes o porquê de dois anos perdidos da minha vida que me O B R I G A R A M a perder.
- asdrubal Para se perceber a «Guerra do Ultramar» (eu designo-a assim) é preciso perceber uma coisa muito simples : - Quem são, hoje, os novos colonizadores dos territórios em questão. É só isso, não é preciso absolutamente mais nada.
Domingo, 14 Outubro- António Luís Lamento os anos perdidos nessa guerra estupida comandada por profissionais, mas feita por nós milicianos. (Porto)
Sabado, 13 Outubro- DIASANTOS Estive em Angola,em estado de guerra,praticam-se boas e más acções seja em que guerra fôr,muitos de nós ainda têm dificuldade em dormir e perceber o porquê.Será que somos o mal das frustações que existem no país?Chega..não preciso de filmes,mas de tranquilidade.Não reavivem memórias(à custa de protagonísmo).Chega,Chega...serei sempre PORTUGUÊS.
- Maria Uma guerra, seja qual for, traz sempre sofrimento e horrores a todas as pessoas envolvidas. O meu Pai foi um dos homens que perdeu lá 2 anos da sua vida e que ainda hoje fala da Guiné com muita emoção. Lá, como noutros contextos, há pessoas más e pessoas boas, não podemos generalizar, mas temos que lembrar que quem foi não teve escolha. E não tem que pagar por aquilo que apenas alguns fizeram.
- Miranda Agradecia que não omitissem a presença dos caboverdianos na guerra da Guiné. 95% dos comandantes e intelectuais do PAIGC eram caboverdianos!!! Sem nós o PAIGC não teria derrotado o exercito português!
- celia c. A Guerra como nunca foi contada. Muito bem. Finalmente podemos ver a verdade sobre as miudas e mulheres violadas por soldados portugueses durante a guerra e seus filhos mestiços abandonados... Negros barbaramente chacinados e aldeias pilhadas. Ainda bem que alguém resolveu fazer um trabalho sério e mostrar também o lado menos conhecido e mediático. Daqui a 30 anos farão o mesmo sobre o Kosovo.
Sexta-feira, 12 Outubro- Victorino - Suecia So espero que as pessoas entrevistadas, tenham vivido o dia a dia da guerra, e tudo o que isso envolvia, e nao se fique so com entrevistas aos senhores comandantes que nao abandonavam os quarteis, e muitos ate tinham as esposas consigo, e so estavam a espera que a comissao chega-se ao fim para se oferecerem para outra...
- Ex Combatente É preciso não ficar por documentários mas tb fazer justiça a quem tudo deu pela pátria e foi tantas vezes esquecido pelos dirigentes. Fazer justiça e esclarecer e não apenas embasbacar tolos....