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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jaime Nogueira Pinto - Uma topografia do Além: a Commedia, em tempo de Natal

 Seguir Dante na sua fascinante viagem pelo Além nunca vem a despropósito. Sobretudo neste tempo de Natal, em que Céu e Terra tão concreta e surpreendentemente se misturam.

* Jaime Nogueira Pinto

27 dez. 2025, 00:18

Na infância, muitas vezes a viragem para a leitura é acordada pela imagem: queremos decifrar, entender, gravuras, representações, pinturas que captam a nossa atenção, que nos intrigam, que nos obrigam a parar e a ficar ali, fascinados, suspensos, com a curiosidade a roer-nos. Foi assim que, não sei com que idade, mas ainda miúdo, acabei por ler O Inferno numa edição da Comédia, crismada Divina Comédia por Bocaccio, ilustrada por Gustave Doré.  Uma das mais detalhadas viagens pelo Além que conheço.

E começa pelo Inferno. Dante situou o início da sua viagem ao outro mundo no dia 25 de Março de 1300, início do Jubileu ou Ano Santo de Bonifácio VIII, jubileu que causara grande confusão em Roma, então uma cidade de 80.000 habitantes, invadida por 200.000 peregrinos e mergulhada num caos quase apocalíptico.

Dante estava metido na política do tempo, alinhando com os chamados Guelfos Brancos. Na bipolarização medieval entre partidários do Imperador e do Papa (uma deriva polémica da “doação de Constantino” que resultou num conflito velho que se agudizara no tempo de Frederico II de Hohenstaufen e dos papas seus inimigos a partir da questão da primazia dos dois poderes), os Guelfos Brancos eram os partidários moderados do Papa. Mas havia os Guelfos Negros, os partidários radicais do Papa e que, numa boa antecipação das políticas e cisões ideológicas do nosso tempo, abominavam com maior fervor os seus correligionários Brancos do que os seus inimigos Gibelinos, partidários do Imperador. O Papa reinante em Roma era Benedetto Caetani, papa Bonifácio VIII, que fora eleito no dia de Natal de 1294.

Dante, guelfo branco, sofrera as consequências dessa inimizade quando os Guelfos Negros tomaram o poder em Florença; dois séculos depois, outro florentino ilustre, Maquiavel, passará por idêntica sorte, depois do regresso dos Médici ao governo da Cidade-Estado. E na reforma antecipada poderá escrever grandes obras de antropologia e filosofia política, das quais a mais famosa ficou a ser Il Principe, um manual Ad Delphini, escrito na esperança frustrada de recuperar as graças dos Médici.

Mas Maquiavel, depois de um curto mau bocado, pôde ficar em Florença. Dante, não. Foi mais uma desgraça na sua vida. Tivera uma paixão por Beatrice Portinari, que vira pela primeira vez aos nove anos. Aos quinze anos Beatrice casou-se com Simone de Bardi, e ele, aos vinte, com Gemma Donati. Amores infelizes, que o marcaram para sempre e que sublimou em poesia.

Neste tempo, em Florença, tal como na China dos Mandarins e na Roma dos Césares, para aceder a cargos políticos era preciso demonstrar e provar uma certa cultura histórica e literária. Outros tempos, outras terras, outras gentes.

Voltando a Dante e ao princípio da sua tragédia política. Quando Florença, sua pátria, passou a estar sob o jugo dos Guelfos Negros, o poeta foi forçado ao exílio. Bonifácio mandara que Charles de Valois marchasse sobre a cidade e a reconquistasse aos Guelfos Brancos. E. com o Valois. veio, em Novembro de 1301, Corso Donati, um guelfo negro  que se encarregou da purga, do saque e das decorrentes exclusões e macro-atentados aos direitos humanos (que os tempos não estavam para simples faltas de inclusão ou meras declarações micro-agressivas).

Dante estava em Roma, em missão diplomática, quando soube da sua condenação por corrupção, nos finais de 1302. Uma condenação sob falsas acusações que o obrigava a pagar uma multa que não podia pagar, pois já os bens herdados tinham sido objecto de confisco.

Na amargura do exílio, comeu o “pão alheio” e andou pelas “escadas alheias” de Verona, Bolonha, Ravena. Tinha então 36 anos e nunca mais voltou a ver nem a sua cidade nem a sua família, a mulher, Gemma, e os quatro filhos.

O poeta da Vita Nuova escreveu então a Commedia, onde também se vingou dos seus inimigos políticos, responsáveis pelo seu exílio, arrumando-os criteriosamente no seu Inferno; assim, o papa Bonifácio VIII, chefe espiritual dos Guelfos Negros, foi parar ao Oitavo Círculo, o dos simoníacos e fraudulentos, como vendedor de cargos eclesiásticos. Ali ficou enterrado de cabeça para baixo. Mas há outros guelfos negros no Inferno dantesco: Corso Donati, o “conquistador negro” de Florença e Mosca dei Lamberti, réus de crimes de corrupção e intriga, e Jacopo Rusticoni, condenado por sodomia. Dante vai dispondo os inimigos nos círculos infernais, elencados por pecados. Para ele, a justiça divina está acima da amizade e das relações pessoais – por isso arruma o humanista Brunetto Latini, seu mestre e amigo, no Sétimo Círculo, por sodomia.

No Inferno dantesco, o destino das almas danadas vai piorando à medida que se aproximam do centro.  De resto, o Primeiro Círculo nem sequer é infernal, é o Limbo, onde estão os pagãos virtuosos e as crianças que morreram sem ser baptizadas. Um lugar aparentemente aprazível e particularmente bem frequentado, com grandes filósofos, historiadores e poetas clássicos, como Platão, Aristóteles, Sócrates, Homero, Tucídides, Tácito e o próprio Virgílio; um excelente ambiente, presumo, só desafiado pelos milhões de crianças não-baptizadas (que tudo leva a crer que façam tanto barulho como as baptizadas).

Os restantes círculos são: o Segundo para a Luxúria, o Terceiro para a Gula, o Quarto para a Avareza, o Quinto para a Ira e Preguiça, o Sexto para a Heresia, o Sétimo  para a Violência, o Oitava para a Fraude. O Nono e último é para a Traição, para os traidores, e para o traidor dos traidores, Lúcifer, congelado num lago.

Em toda a expedição, Dante é guiado por Virgílio, o poeta da Eneida, que o vai acompanhando e esclarecendo; e que, terminada a visita ao Inferno, o acompanha até ao Purgatório. O poeta romano é um pagão virtuoso, que reside no Limbo; pode, por isso, entrar no Purgatório, mas não pode entrar no Paraíso porque, segundo a teologia do tempo, não beneficiou da salvação de Cristo, que veio depois dele morrer, em 19 AC.

No último círculo do Inferno, no “Lago Cocito”, está então Lúcifer, uma figura de três cabeças que agita as asas num vazio gélido.

Os Terraços do Purgatório

Se o Inferno se estrutura em círculos concêntricos, que vão piorando, o Purgatório consta de sete terraços, que correspondem aos sete pecados mortais. As almas estão ali para se redimirem, praticando as virtudes contrárias aos pecados. Contra a Soberba, a Humildade; contra a Inveja, a Caridade; contra a Ira, a Paciência; contra a Preguiça, a Diligência; contra a Avareza, a Generosidade; contra a Gula, a Temperança; contra a Luxúria, a Castidade.

As personalidades que os habitam são menos conhecidas do que as que estão no Inferno: Marco Pórcio Catão, Catão de Utica, ou Catão, o Jovem (95-46 AC), Manfredo da Sicília, filho natural de Frederico II de Hohenstaufen ou Forese Donati, um nobre florentino amigo de Dante, com quem o poeta trocou um tipo de polémica vituperativo jocosa  (por sinal bastante ousada, já que Dante acusava Forese de ser incapaz de satisfazer, física e sexualmente, a mulher).

O Purgatório contrasta com o Inferno pelo “clima”, pelo horizonte, pelo espírito do lugar. No Inferno há desespero e sofrimento, no Purgatório há a esperança, a expectativa da Salvação, a noção do que aquele tempo de sofrimento tem um propósito e um fim: chegar ao Céu, ao Paraíso. E os que lá estão contam com as orações dos vivos, para atingirem a redenção.

Mas há também alguns enigmas. No Canto XIX do Purgatório, Dante vai encontrar a tentadora Sereia (femmina balba), uma criatura demoníaca, encantadora, insidiosa, quando já encontrara no Inferno, entre os fraudulentos, Ulisses, o autor e artífice do ardil do cavalo de pau recheado de guerreiros com que os gregos conquistaram Troia.

Ulisses fora pintado por Platão e pelos Estóicos como um modelo moral, um exemplo de homem virtuoso, capaz de resistir às tentações sedutoras e maldosas encarnadas por criaturas demoníacas, como Circe e as Sereias. Confesso que aqui partilho o choque que Claudia Roth Pierpont regista em “This side of Paradise”, um artigo publicado no New Yorker de 1 de Dezembro:  como é que Dante arrumou Ulisses no Inferno, no Círculo Oitavo, entre os fraudulentos? É um lugar extremamente desagradável e para  muitos  de nós Ulisses é um herói. O próprio Dante também parece chocado ao ver que Deus Todo-Poderoso condenou Ulisses ao castigo eterno (também para sua surpresa, ou melhor, para seu desgosto, lá estão, no Segundo Círculo, os amantes adúlteros de Rimini, Paolo e Francesca).

A explicação da condenação de Ulisses, encontramo-la na conversa que Ulisses tem com Dante e Virgílio no Canto XXVI do Inferno. Ulisses não reporta as errâncias do seu regresso a Ítaca, antes confessa, que apesar do amor pelo filho, pelo pai e por Penélope, decidiu “satisfazer a sede de saber todos os segredos do mundo, todos os vícios e virtudes dos homens”, partindo, depois de Circe, à aventura por mares nunca dantes navegados, com um barco e uma pequena equipagem, passando as “colunas de Hércules”.

O Voo Louco de Ulisses

Assim, Dante altera a narrativa homérica e entra na polémica clássica de saber se Ulisses foi virtuoso ou fraudulento.

Na Comédia, Ulisses exorta os companheiros “fatti non foste a vivere come bruti, ma per seguir virtute e connoscenza”, o que quer mais ou menos dizer “não fostes feitos para viver como bestas, mas para seguir a virtude e o saber”. Assim, o conhecimento, independentemente dos interditos, parece ser o objectivo final da sua nova viagem, para lá das colunas de Hércules: uma viagem de cinco meses no Hemisfério Austral, em que vê a montanha do Purgatório, quando um grande turbilhão engole barco e equipagem. É com este “folle volo”, com este voo louco, que Ulisses, desrespeitando os limites impostos por Deus, leva à morte os companheiros e se precipita na Geena. Ou seja, escapado, depois de satisfeito, da perfeição dos braços da feiticeira Circe, é recapturado pela tentação de tudo saber, que o leva em voo louco à perdição. No fundo, repete o pecado de Adão. Adão esse que, entretanto, está no Paraíso …

Com Beatriz no Paraíso

Ulisses perde-se, mas Dante salva-se, ou melhor, é salvo. Por quem? Aqui reaparece, ou aparece, Beatriz, a sua eterna paixão, que é quem o vai guiar na terceira instância da sua viagem pelo Além.

O Paraíso dantesco é, evidentemente, um lugar que contrasta com o Inferno. Mas há céus, céus variados, ou muitas moradas,no Paraíso, porque há graus diferentes de beatitude, de santidade. Dante começa pelo céu mais baixo, onde Piccarda Donati (as famílias florentinas estão sempre presentes) lhe explica o espírito do lugar. Depois, num céu mais alto, está Santa Clara de Assis, fundadora da ordem das Clarissas; e também Constança de Altavilla, mulher de Henrique VI e mãe de Frederico de Hohenstaufen, o imperador que fez a cruzada excomungado e negociou a devolução de Jerusalém com al Kamil, sobrinho e sucessor de Saladino. Com isto, Dante, homiziado, mostra não ter medo se se aproximar dos gibelinos, absolvendo a mãe do mais ilustre representante da facção imperial.

Tal como o Inferno, o Paraíso não é igual para todos os que acolhe nas suas nove esferas concêntricas (Dante segue aqui a cosmologia ptolomaica).

Há dúvidas sobre o tempo de redacção da Commedia. Mas foi com certeza escrita no exílio, ou seja num tempo sempre posterior a  1302. Pensa-se que o Inferno seja de 1309 e o Purgatório de 1313 ou 1314; e sabe-se que, em 1316, Dante dedicou a primeira parte de O Paraíso a Cangrande della Scala, o gibelino seu protector em Verona desde 1311-1312.

A viagem ao Além foi relativamente rápida – uma semana entre a noite de 7 para 8 de Abril de 1300 e o dia 14 do mesmo mês.  Dante passou dois dias no Inferno, três no Purgatório e 24 horas no Céu.

A breve passagem pelo Céu, ou melhor, pelos céus, tem como guia a sua grande paixão perdida – Beatriz. Se o Inferno tem nove círculos e o Purgatório sete terraços, o Céu tem nove esferas; e enquanto o Inferno e o Purgatório se elencam por diferentes categorias de pecados, o Paraíso, coerentemente, organiza-se em função das virtudes. Já as esferas são a Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, as Estrelas Fixas e o “Primum Mobile”, ligado directamente a Deus-Pai.

Dante tem, nas várias esferas, encontros e conversas. No Canto IX do Paraíso, um trovador, Folquet de Marselha, fala criticamente da corrupção na Igreja, do amor dos clérigos pelo dinheiro; este trovador fez mea culpa e foi depois bispo de Toulouse. Já no Sol, onde ficam os sábios, Dante encontra teólogos como Alberto Magno, Tomás de Aquino e Santo Isidoro de Sevilha. E até o rei Salomão, que poderia ter ido parar ao Limbo, mas que, no entanto, ali está. E santos medievais como Francisco de Assis e São Boaventura, que lhe conta a história de São Domingos. Logo a seguir, na Quinta Esfera, a de Marte, estão os “guerreiros da fé”, entre eles o próprio trisavô do poeta, Cacciaguida degli Elisei, que esteve na Segunda Cruzada, onde foi armado cavaleiro por Conrado III.

Na conversa com o trineto, Cacciaguida revela-lhe profeticamente o futuro: a perseguição pelos Guelfos Negros na corrupta Florença e o exílio que fará dele um grande poeta e um viajante privilegiado pelas rotas do Além.

Dante e a Igreja

Além de Bonifácio VIII e Nicolau III, Dante põe outros papas no Inferno, e não hesita em condenar os vícios do clero a propósito de bispos e sacerdotes que vai encontrando no Inferno ou nos diálogos que vai mantendo com os mortos, ao longo da Commedia.

No entanto, a Igreja acabou por considerar a sua obra “uma formulação poética da Teologia Moral medieval, conforme definida por teólogos e santos, como Alberto Magno e São Tomás de Aquino”, ou seja, por integrá-lo num humanismo cristão.

Foi Leão XIII, o primeiro papa de uma Igreja privada de qualquer réstia de poder temporal que, confrontado com os excessos e desequilíbrios da Modernidade, do Capitalismo e do Socialismo definiu na Rerum, Novarum uma ética cristã para a “questão social”, foi também o primeiro papa que se referiu a Dante como “il nostro Dante”, celebrando a sua pertença à Igreja.  E no século XX, os seus sucessores, não pararam de referir e louvar o poeta florentino.

Assim o fez Bento XV, nos seiscentos anos da morte de Dante, na encíclica In Praeclara Summorum, toda dedicada ao autor da Commedia. exaltando-o como “guia moral e religioso da Europa”; e voltou a ele Paulo VI, na carta apostólica Altissimi Cantus, nos 700 anos do nascimento de Dante e na véspera do encerramento do Concílio Vaticano II. Mais recentemente, o Papa Francisco tornava a recordar o itinerário dantesco da “selva escura” à luz:

“Relendo a sua vida à luz da fé, Dante descobre também a vocação e a missão que lhes foram confiadas de modo que, paradoxalmente, de homem aparentemente falido e desiludido, pecador e desanimado, transforma-se em profeta da esperança”. E isso porque “é capaz de ler o coração humano em profundidade e em todos, mesmo nas figuras mais abjectas”, descobre “o desejo de alcançar alguma felicidade, uma plenitude de vida”.

Seguir Dante na sua fascinante viagem pelo Além nunca vem a despropósito. Sobretudo neste tempo de Natal, em que Céu e Terra tão concreta e surpreendentemente se misturam.

Um Santo Natal.

https://observador.pt/opiniao/uma-topografia-do-alem-a-commedia-em-tempo-de-natal/

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Carlos Coutinho - [Crónica natalícia]

* Carlos Coutinho

Sendo hoje o dia mais pequenino do ano, não sei como entender a tão grande distância que vai de Deus ao Diabo, já que que são biblicamente coevos e, por isso, ambos anteriores à criação do Universo que um deles tem a fama de haver criado, farto de estar sem fazer nada desde a sempiternidade que, de resto, nunca começou, por, em caso contrário, em vez se sempiternidade seria uma enjoativa eternidade. 

   A não ser que Deus também tenha criado o Diabo e, então, há mais que óbvia explicação para a malignidade da obra feita, incluindo a criação do Diabo que tem as costas largas e pode arcar com todas a culpas da tristeza, da imoralidade, da loucura sem remédio, da crueldade sem limites, da necessidade de haver guerras indispensáveis ao progresso da Humanidade, da própria aceitação da existência de Deus. Uno, trino ou múltiplo.

   Como acatar, então, a legitimidade do Solstício do Inverno que denuncia a ilegitimidade do Solstício de Verão, visto não ter Natal algum para celebrar, nem Consoada alarve para as bebedeiras toleradas por Deus e infundidas pelo Diabo, nem passagens de ano que tantas vezes são passagens para o desastre?

   Claro que tudo isto carece de explicação fácil, como a passagem a santos cristãos daqueles dois judeus de Nazaré, S. Joaquim e Santa Ana, progenitores de José, este um carpinteiro.  Maria, a sua legítima esposa, claro que tinha de passar a ser virgem  mesmo depois de ter dado à luz um bebé de futuro divino, sem que se houvesse rasgado o hímen – a tal película húmida, expectante e cavernosa, regada por artérias infracapilares e enxaguada por fios venosos redentores – constituindo o famoso portão sem fechadura anteuterino que que o aríete de José, um descendente providencial do rei David, nunca sequer tentou arrombar.

   A minha sorte é que eu adoro uma capitosa bacalhauzada, um baqueano trago de touriga nacionaL esguichado de algum tonel duriense, uma boa rabanada e uma tépida noite à lareira. E não tenho o mínimo apreço por certos tipos de virgindade.

2025 12 22
https://www.facebook.com/carlos.coutinho 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Pai Natal foi à guerra

Pai Natal foi à guerra  // O uso da imagem do Pai Natal desde a Guerra Civil Americana até à Segunda Guerra Mundial


 
A imagem moderna do Pai Natal, ícone da paz e da boa vontade, realmente foi forjada durante os dias mais negros da América, quando ele apareceu numa ilustração da Guerra Civil, e não foi a última vez que o alegre St. Nick foi convocado para apoiar esforços de guerra na frente de guerra.
 
Apesar de "paz na terra" nunca ter parecido mais evasiva do que durante a Guerra Civil, os anos mais sangrentos da América na realidade produziram a nossa imagem popular de Pai Natal. Clement Clarke Moore havia introduzido o Pai Natal na psique americana com seu poema de 1823 "A Visit from St. Nicholas" (mais popularmente conhecido como "The Night Before Christmas"), mas foi quatro décadas mais tarde, quando a figura moderna de St. Nick saía da caneta do notável ilustrador Thomas Nast.
 
O humorista político, que mais tarde ganhou fama parodiando ambos os partidos políticos, desenhando um elefante como um símbolo para os republicanos e um burro para os democratas, juntou-se à equipa do semanário Harper, um dos mais lidos jornais durante a Guerra Civil Americana, no verão de 1862. Um fervoroso apoiante da causa da União, Nast tinha considerável experiência de ilustrar Abraham Lincoln, mas outra figura de barba, Pai Natal, era o seu tema para a capa de 3 de Janeiro da revista de 1863.
 
Nast, que tinha emigrado da Alemanha com a sua família quando ele tinha seis anos de idade, recorreu às suas memórias de infância de St. Nicholas para esboçar um Pai Natal com um trenó puxado por renas, longa barba branca e chapéu forrado de pele e pelagem a visitar um acampamento do exército da União. O Pai Natal de Nast não é decorado de vermelho, mas sim com uma roupa cheia de estrelas, com calças listradas de vermelho e branco e uma jaqueta azul com estrelas brancas. Nast aumenta a configuração patriótica pondo soldados no desenho a disparar uma salva de artilharia, as estrelas e riscas agitadas orgulhosamente na brisa e um arco triunfal decorado com sempre-vivas que diz: "Bem-vindo Pai Natal."
 
Sentando-se sobre seu trenó, Pai Natal distribui presentes. Pai Natal não está claramente a desejar boa vontade de todos, no entanto, nas suas mãos está um fantoche a dançar do presidente confederado Jefferson Davis com uma corda amarrada no pescoço que faz parecer como se ele está sendo linchado por St. Nick. "Pai Natal está a entreter os soldados, mostrando-lhes o futuro de Jeff Davis," expôs o semanário Harper. "Ele está amarrando uma corda muito firmemente à volta do seu pescoço, e Jeff parece estar chutando muito em tal destino."



 
 
Nast desenhou representações menos beligerantes de Pai Natal numa mesma edição do semanário Harper. Uma ilustração pródiga retrata um solitário soldado da União na véspera de Natal 1862 sentado perto de uma fogueira bruxuleante olhando para fotografias de sua família, enquanto em casa está a sua esposa ajoelhada com as mãos em oração desejando para o regresso seguro do seu marido ao mesmo tempo que o luar ilumina os seus filhos angelicais dormindo na cama, sonhando com o Pai Natal. A extensão de duas páginas inclui imagens de campos de batalha e lápides, mas também do Pai Natal a descer uma chaminé e a ser arrastado num acampamento da União pelas suas renas à medida que ele atira presentes fora do seu trenó.
 
O Pai Natal ficou entrelaçado com a Confederação durante a Guerra Civil. A escassez de tempo de guerra trouxe Natais austeros, o que exigiu explicações sobre a ausência do Pai Natal. Alguns pais explicaram que o bloqueio da União tinha impedido o Pai Natal de viajar para o Sul, enquanto um escravo ainda jogou a final Scrooge dizendo a um grupo de crianças na Geórgia que St. Nick tinha sido baleado pelos Yankees. O Richmond Examiner disse mesmo em Virginia, que não havia um Pai Natal. O jornal criticou St. Nick como "um brinquedo-traficante holandês" e "um imigrante da Inglaterra", que não tinha nada a ver "com a genuína hospitalidade da Virginia e enfeites de Natal."
 
Durante as duas décadas seguintes, as primeiras gravuras de Nast do Pai Natal cristalizaram a imagem moderna de um robusto e alegre Kris Kringle com uma longa barba branca e roupa vermelha. No entanto, a guerra civil não seria a última vez que o Pai Natal seria convocado para o esforço de guerra. Durante a Primeira Guerra Mundial, o Pai Natal foi transformado numa figura patriótica ao longo das linhas do Tio Sam com o governo dos EUA a produzir anúncios e obras de arte que mostravam o Pai Natal com as tropas e vendendo títulos de guerra.
 
Quando a Segunda Guerra Mundial chegou aos Estados Unidos com o bombardeio de Pearl Harbor apenas algumas semanas antes do Natal de 1941, o Pai Natal foi novamente implantado para ajudar no esforço de guerra. O Pai Natal pediu aos americanos para comprarem títulos de guerra, conservarem os recursos e manterem silêncio para evitar fugas para o inimigo.
 
Ele também foi envolvido numa iconografia mais militarista. O Conselho de Produção de Guerra produziu um cartaz de um alegre, Pai Natal com uma espingarda sobre o ombro e que diziam "Pai Natal foi à guerra!" Foi-se os familiares fato vermelho e chapéu de St. Nick, substituídos por um monótono uniforme do exército e capacete. Outro cartaz de propaganda da War Production Board mostrou o Pai Natal junto com aviões e munições com o título: "Feliz Natal para Todos e para Todos uma boa luta." Uma carta para o Pai Natal prometeu que as armas seriam entregues aos "Srs. Hitler, Mussolini e Tojo." Foi uma tentativa não tão súbtil de usar o Pai Natal para enquadrar a Segunda Guerra Mundial como um conflito entre o bem e o mal, entre a impertinente e agradável.

Fonte:
History.com

https://pt.worldwar-two.net/outros/pai-natal-foi-a-guerra/

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Cartoons natalícios



Presentes de Natal


 Natal em Portugal (2024) - irmaolucia_works (Pedro Vieira), Baltazar e as percepções 

Natal na Palestina


Banksy - Natal na Palestina


Banksy - Natal na Palestina


Banksy - O muro da vergonha


Natal na Palestina


Natal na Palestina



Natal e consumismo


Natal e consumismo


Natal e consumismo


Natal e consumismo


Natal e consumismo

Natal e consumismo

VER

Festas felizes… da parte de Banksy

José Gabriel - Os natais de boa memória


 * José Gabriel

Quando eu era garoto, não se falava no Pai Natal nem outras figuras da mitologia comercial do Natal – sim, eu sei da lenda do bondoso e generoso Nicolau de Mira, ou S. Nicolau, curiosamente padroeiro da Rússia, mas essa figura e seus méritos foi apagada da História pelo gorducho vestido pela Coca-Cola. Tudo andava em volta do Menino Jesus, da sua mitologia popular e do presépio que, lá em casa, era levado muito a sério, como obra de arte e engenharia, com uma estrutura de base em cortiça virgem, todos os competentes figurantes e mais alguns que a nossa imaginação criasse. A cena ia muito para lá da gruta de Belém e das figuras sagradas. Havia personagens – humanos e animais – de toda a espécie, eram representadas profissões, atividades mais próximas da nossa realidade popular que dos lugares longínquos onde teriam ocorrido os eventos essenciais do Natal.

Os meus avós encarregavam-se das lendas e mitos, dos cânticos – nada das americanices de agora, cânticos do povo, “acordai ó homens todos/acordai mulheres também/venham ver Jesus menino/no presépio em Belém” –, da explicação de que era o menino Jesus que nos proporcionava todos os presentes que recebêssemos. Quando, mais espigadotes, nos surgiram dúvidas sobre a origem das prendas, foram eles que justificaram o embuste garantido que se devia ao menino Jesus o facto de os nossos pais terem recursos para nos poder oferecer tudo aquilo. E nós participávamos naquela cena, nas suas histórias, nos cânticos, sem pensar muito no facto de, lá em casa, ninguém, excepto os avós, ser dado à religião e – o que me motivou as minhas primeiras dúvidas…teológicas – ser pouco compreensível que alguns dos nossos amiguinhos e vizinhos não tivessem prendas, nem sequer um par de sapatos, posto que alguns andavam descalços. 

E havia os detalhes. E, até, a discriminação animal, que decorria dos papéis atribuídos à vaquinha – tinha direito a diminutivo carinhoso – e ao burro. Uma, aquecia o menino com o seu bafo. O outro, comia a palha da manjedoura sem respeito pelo seu santo ocupante. Quando hoje vemos o interesse e cuidados dedicados aos burricos e à sobrevivência da espécie – ao ponto de até já concorrem com os gatos nos vídeos das redes sociais – justo é considerar que há uma merecida recuperação dos jumentos, nossos velhos companheiros dos trabalhos e dos dias.

A mitologia do Natal era, pois, marcada pela tradição popular, pelas memórias dos mais velhos, depositários das memórias dos povos. Claro que poderíamos fazer aqui uma incursão sobre o facto de muitas divindades de muitas culturas comemorarem o seu aniversário nesta data, de ser o tempo do solstício de Inverno, ou falar da proximidade de atributos de divindades do Médio Oriente com as das figuras centrais do presépio – Maria e Jesus.


Que a pomba da paz sobrevoe o coração dos belicistas

Mas não é hora de tergiversar. É hora de enviar um abraço aos nossos amigos, desejar-lhes um feliz Natal e um novo ano de paz e felicidade. Porque, seja qual for a razão, a hora é sempre boa para festejar a vida, a paz, o encontro com os outros. Os homens de boa vontade de que falavam os meus avós e as histórias de Natal. 

in Facebook, 18/12/2024

https://estatuadesal.com/2024/12/25/os-natais-de-boa-memoria/

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Carlos Esperança - Natal (Escrito em 2006)


* Carlos Esperança

Há meio século o Natal era pretexto para a reunião das famílias. Os ausentes voltavam todos os anos, à aldeia de origem, nas carruagens de 3.ª classe de comboios apinhados de pessoas e cabazes, com odores a que se resignavam as pituitárias de então.

Através do vidro partido, ou da janela avariada, o ar gélido entrava nas carruagens e nos corpos. Os passageiros partilhavam a vida e as merendas durante a penosa e longa viagem de pára-arranca. Os Senhores Passageiros precisavam de embarcar, ou de desembarcar, e a máquina a vapor de abastecer de lenha a fornalha e de água a caldeira.

Às vezes o comboio parava nas subidas para que a caldeira ganhasse pressão e pudesse rebocar o peso acrescido que deslocava. Entre Lisboa e a Guarda era normal um atraso de duas ou três horas, pela Beira Alta, e ainda mais pela Beira Baixa.

Nas estações e apeadeiros esperavam bestas e pessoas impacientes e enregeladas. À chegada do comboio havia abraços, ternos e demorados, e lágrimas de alegria. Do comboio acenavam mãos e ouviam-se votos de Feliz Natal quando o apito anunciava o retomar da marcha. Aos que se apeavam, só o caminho lamacento os separava, agora, da casa da aldeia onde aguardavam os parentes que ficaram em ansiosa espera. 

Quando eram pequenas as casas e numerosas as famílias, sobrava sempre lugar para os que chegavam. A ceia de Natal era o momento mágico que matava fomes ancestrais e a saudade das ausências.

Na lareira fumegavam panelas cheias cujos odores, fundidos com os que vinham da sala, traziam à memória os sabores da infância.

A candeia de azeite iluminava os trajetos domésticos enquanto o candeeiro a petróleo projetava as sombras dos familiares reunidos em conciliábulo.

Estranhava-se o milagre que permitira tantas postas de bacalhau, já que repolhos e batatas os dava a horta e os frutos eram secos no devido tempo. Rabanadas, arroz doce, sonhos, filhós e toda aquela variedade de guloseimas eram fruto dos ingredientes próprios e de segredos herdados a que o lume brando da lareira requintava o paladar.

Não deixava de ser estranho que tanto desse, quem pouco tinha, e negasse, avaro, quem muito podia. Eram esses os tempos, ainda são assim as pessoas.

Ceavam primeiro as crianças, por questão de espaço e de impaciência; passavam depois à sopa os mais velhos, antes de se fartarem no bacalhau, repolho e batatas, regados com azeite. Só depois de esgotado o vinho no garrafão e de se ver o fundo à panela se entrava nas sobremesas, nas aguardentes e na jeropiga.

As crianças impacientavam-se com a demora do menino Jesus que raramente trazia os presentes que pensavam, mas se conformariam com os que viessem. Os adultos sugeriam-lhes a cama enquanto os sapatos rodeavam a lareira à distância conveniente do lume que ainda crepitava. O sono ia-as vencendo, adormecendo primeiro as mais pequenas, que as mães e a avó iam depositando em camas improvisadas.

No pouco espaço disponível havia ainda lugar para o presépio, uma ingénua encenação do mito cristão que o pinheiro, oriundo de outras culturas, havia de substituir num prenúncio da globalização, para acabar feito de plástico, cheio de bolas coloridas.

De manhã, à medida que acordavam, os miúdos corriam para a chaminé, ansiosos por encontrar as prendas, e exultavam com os presentes.

O Menino Jesus, que então descia pelas chaminés, foi substituído pelo Pai Natal, a viajar de trenó, puxado por renas, em terras onde só a neve fazia jus à nova fábula que roubou o encanto dos musgos, da serradura, do algodão em rama e dos animais que rodeavam o menino de barro, deitado em berço de palha.

Nos sapatinhos, onde então cabiam os chocolates e os carrinhos de corda que faziam as delícias das crianças, o terço para a tia beata ou a onça de tabaco para o avô, não cabem hoje os jogos de computador, esperados sem ansiedade, nem os volumosos presentes embrulhados em papel reluzente.

Alguns pais ainda voltam aos sítios de origem para mostrar os netos aos avós, com o mesmo ar de enfado com que os levam ao Jardim Zoológico a ver a girafa e o elefante ou os metem nos Centros Comerciais. Mas o mais frequente é tirar os velhos da toca e pô-los a fazer o percurso inverso, com 50% de desconto no preço do bilhete, num exílio que começa na véspera da consoada e termina no início do Ano Novo, com a devolução ao habitat.

Mudaram-se os tempos. Do Natal que havia, resta a recordação das crianças que foram.

https://ponteeuropa.blogspot.com/2024/12/natal-escrito-em-2006.html
 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Carlos Coutinho - Erosão frutuosa

*  Carlos Coutinho

HÁ muito que eu trocava da melhor vontade todas as consoadas por qualquer sensoada, visto que, no mínimo, uma ceia de comezaina destravada a soar a superstição é sempre de uma noite que soa mal aos ouvidos de alguém como eu que tenho passado a vida a ouvir dislates, além de arrotos e outros ruídos estomacais.

Em contrapartida, uma refeição sem coisa soada pode ser alegremente um repasto sem barulhos indesejáveis, dentro ou fora de casa.

Verifico e registo que por entre palavras mortas há palavras a germinar, como julgo que também pensa o linguista Salikoko Mufwene, para quem “falar da evolução da linguagem não é uma metáfora”.

Teve, aliás, o arrojo de criar uma teoria geral das espécies aplicada à comunicação e parece que não foi tempo perdido. Disse mesmo que “há palavras inglesas noutras línguas, porque, provavelmente, é mais fácil transmitir o significado com as palavras inglesas do que com as palavras indígenas. Mas também é uma forma de mostrar que alguém está atualizado no conhecimento do mundo.”

É, de resto, o que vão fazendo muitos decisores, muitos analistas encartados, muitos comentadores e muitos estrategas de café.

Mas quem sou eu ara falar destas coisas, quando vejo que até o profissionalismo é uma forma de avacalhar a natureza humana, dando como vantagem a capacidade de um fulano ser cada vez menos genuíno e cada vez mais a máquina especializada e afunilada para um ofício?

Penso até na origem do nome António que comecei por encontrar na onomástica lusitana como a marca de um genial orador barroco e andarilho que fixou o tecido da minha língua, movendo-se sob uma válvula achatada de um molusco bivalve marinho da família Pectinidae a que ainda chamamos vieira.

Na verdade, António, segundo o Ciberdúvidas, é “talvez o nome mais popular da antroponímia portuguesa, permanece de origem obscura, se bem que alguns lhe encontrem etimologia etrusca que deu em latim ‘antonius’, “inestimável”, ou etimologia grega, ‘anthonomos’, o ‘que se alimenta de flores’.

É certo que existia já em Roma, designando uma ‘gens’ famosa da qual o mais conhecido é Marco António”, mas daí a admitir que um certo António de Santa Comba se alimentava de flores, embora andasse sempre encostado a uma cerejeira que floria no Patriarcado de Lisboa, vai uma distância enorme.

E isto sem ter em conta a vila de Vieira de Leiria, onde em tempos me refugiei por uma semana, quando a PIDE, ainda sem saber o meu nome, andava à minha procura, por motivos que não são agora para aqui chamados.

Vale a pena saber que a área desta freguesia é constituída por dois elementos geológicos e que um deles, representado por uma cobertura de areias de praia e de areias e dunas, ocupa toda a faixa litoral. Podem também ser incluídos neste conjunto moderno os aluviões do Lis. Na margem sul deste rio, entre as dunas do litoral, a faixa aluvial é muito estreita e os aluviões penetram numa depressão interdunar situada junto à praia de Vieira.

Mas, se um António pode ser padre e até jesuíta, como pôr em dúvida as suas profecias, incluindo as mais estapafúrdias, como a do Quinto Império, coisa universal e sob a égide de Portugal?

2023 12 25


LEÃO TOLSTOI – UM CONTO DE NATAL

* LeãoTolstoi

Um camponês russo, muito cristão, pedia nas suas orações que Jesus o viesse visitar à sua humilde cabana.

Na véspera do Natal sonhou que o Senhor lhe iria aparecer. Teve tanta certeza da visita que, logo que acordou, levantou-se e imediatamente começou a limpar e a arrumar a casa para receber o tão esperado hóspede.

Lá fora, uivava uma violenta tempestade de granizo e neve, e o camponês prosseguia as suas tarefas domésticas, ao mesmo tempo que vigiava a sopa de legumes, que era o seu prato preferido.

De vez em quando ia olhar a estrada, sempre na expectativa. Passado algum tempo, viu que alguém se aproximava caminhando com dificuldade no meio do nevão. Era um pobre bufarinheiro, que carregava às costas um fardo bastante pesado. Com pena do homem, saiu da cabana e foi ao encontro do pobre mercador. Levou-o para o interior, pôs roupa dele a secar perto do lume da chaminé e repartiu com o hóspede a sopa de legumes. Apenas consentiu em deixá-lo partir quando viu que recuperara forças para retomar a jornada.
Olhando depois pela janela, vislumbrou uma mulher na estrada coberta de neve. Foi ter com ela e deu-lhe abrigo na choupana. Fê-la sentar-se próximo da chaminé, deu-lhe de comer, agasalhou-a com a sua capa… Não a deixou partir enquanto não viu que tinha de novo forças suficientes para a caminhada.

A noite caía… E Jesus não vinha!

De esperança quase perdida, foi novamente foi à janela e perscrutou a estrada atapetada de neve. A custo viu uma criança, percebendo que se encontrava perdida e enregelada pelo frio…Saiu mais uma vez, pegou na criança ao colo e levou-a para a cabana. Deu-lhe de comer, e não demorou muito para que a visse adormecida junto ao calor da chaminé.

Cansado e desolado, o camponês sentou-se e acabou também ele por adormecer junto ao fogo.

Porém, de súbito, uma luz radiosa, que não provinha da lareira, iluminou tudo! Diante do pobre homem, surgiu risonho o Senhor, envolto numa túnica branca!

– Ah! Senhor! Esperei-Vos todo o dia e não aparecestes, lamentou-se.

Jesus respondeu:

– Por três vezes, visitei  hoje a tua cabana: o mercador que socorreste, aqueceste e alimentaste…era Eu! A pobre mulher, a quem deste a capa…era Eu! E essa criança que salvaste da tempestade, era Eu também…O Bem que a cada um deles fizeste, a mim mesmo o fizeste.

 

Este conto já tinha sido publicado no Estrolabio a 20 de Dezembro de 2010. Cliquem em:

VerbArte – Duas visões diferentes sobre o Natal – Estrolabio (sapo.pt)

domingo, 24 de dezembro de 2023

Jaime Nogueira Pinto - Breve história do Natal

 * Jaime Nogueira Pinto 

Entre as coloridas e fartas festas inclusivas de coisa nenhuma, todos precisamos de contemplar o presépio.

23 dez. 2023

Por estes dias chegam notícias de que várias companhias multinacionais, no estrito cumprimento das novas regras para uma “quadra festiva” mais vazia, colorida e inclusiva, ordenaram o cancelamento do presépio ou a sua exclusão das instalações.

A perseguição a Cristo e aos cristãos não é uma bandeira nova, nem sequer neste canto do mundo, mas não deixa de ser curioso que a sanha anti-cristã, hasteada pelos velhos maçons e jacobinos da Terceira República francesa – e da nossa Primeira República –, seja agora agitada pelos accionistas bilionários e os executivos milionários do grande capital globalista em nome da “inclusão”.

A primeira tentativa séria e organizada de cancelar o presépio deu-se logo à nascença, quando o rei Herodes, ferido na sua sensibilidade e majestade, ordenou a matança dos inocentes, esperando eliminar esse outro “rei dos Judeus” que, supunha, lhe iria roubar a coroa. Mas o Menino escapou e cresceu em graça e sabedoria, para que a Encarnação se cumprisse em Redenção.

As primeiras narrativas

As primeiras narrativas do Natal estão nos Evangelhos de S. Lucas (Lc 2, 1-14) e de S. Mateus (Mt 1, 1-25). O Evangelho de Mateus começa com a genealogia de Jesus Cristo, filho de David que “da mulher de Urias, gerou Salomão”. A genealogia tem 14 gerações, de Abraão a David, outras 14 de David até ao desterro da Babilónia e mais 14 do desterro da Babilónia a Cristo. A mulher de Urias era Betsabé e David, além de a roubar ao marido, mandou-o para a frente de combate para lhe apressar a morte. É esta a linha genealógica de “José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo”. É também Mateus que narra a perplexidade de José, que ao saber da gravidez de Maria decide “repudiá-la em segredo” – até que um anjo do Senhor lhe aparece em sonhos para lhe revelar o mistério da Encarnação.

José, S. José, é uma criatura de silêncio e de bastidores. Nunca fala, aceita a vontade de Deus, cumpre sem comentários. Bossuet e Charles de Foucault admiravam-no por isso; e até o improvável Sartre, em Barioná, contempla o seu silêncio:

“[N]ão sei o que dizer de José e José não sabe o que dizer de si mesmo. Adora e está feliz por adorar, mas sente-se um pouco em exílio. Creio que sofre sem o admitir. Sofre porque vê o quanto a mulher que ama se parece com Deus, o quanto ela já está perto de Deus. Pois Deus rebentou como uma bomba na intimidade desta família. José e Maria estão separados para sempre por esse incêndio de claridade. E toda a vida de José, imagino, será para aprender a aceitá-lo.”

RECOMENDAMOS

Já S. Lucas conta o Natal começando por dar notícia do recenseamento do Império, ordenado por Augusto, que leva José e Maria, de Nazaré, na Galileia, a Belém, a “cidade de David”. Aí se narra o nascimento do Menino, com a manjedoura, os animais, os anjos, os pastores.

Em nenhum destes textos encontramos referências, directas ou indirectas, que apontem para o dia 25 de Dezembro como a data do nascimento de Cristo. O 25 de Dezembro só aparece em documentos da transição do século IV para o século V, como “natus Christus in Betleem Judea”. O dia 6 de Janeiro, doze dias depois, é então dado como o dia da Epifania, da chegada ao presépio de “uns magos vindos do Oriente”. Mas as origens da fixação da data continuam envoltas em mistério e polémica. Há quem diga que se deve unicamente à cristianização de uma festa pagã, a festa do Sol Invictus, fixada no dia 25 de Dezembro pelo imperador Aureliano, em 274. Os pagãos do Norte da Europa também celebravam o sol no solstício de Inverno e sabemos que o Papa Gregório, o Grande, nos princípios do século VII, defendia a cristianização das festas e dos templos pagãos, quase tão aplicadamente, convenhamos, como agora se regula e se induz a laicização do Natal.

Também sabemos que em 1223, há 800 anos, S. Francisco de Assis inaugurou a representação do presépio, em Greccio, encenando, com os camponeses locais, o nascimento de Jesus numa gruta/curral (“presépio” vem do latim praesaepium, que quer dizer estábulo ou curral). Assim, assistido por toda a criação, debaixo das estrelas e dos anjos, entre animais, pastores e magos, se reencenava o nascimento do Menino Deus na periferia e nos bastidores de tudo.

As reencenações do Natal

A grande pintura europeia ilustraria copiosamente este humilde e silencioso início da nossa era: Fra Angelico pintava uma Anunciação; Philippe de Champagne, O Sonho de José; van der Goes, Maria e José a caminho de Belém, viagem que Bruegel, o Velho, retrataria no meio das gentes, numa paisagem de pequena cidade europeia com neve. A riqueza da Adoração dos Magos, de Boticcelli, contrastava com a austeridade da Adoração dos Pastores de Gaddi ou de Giorgione, e é difícil imaginar maior aparato do que na Procissão dos Reis-Magos, do florentino Benozo Gozzoli.

Também a pintura portuguesa celebraria o Natal, com a Adoração dos Pastores, de Gregório Lopes, e a Adoração dos Reis Magos, de Vasco Fernandes, em que o artista imagina o tradicional rei negro Baltazar como um chefe índio do Brasil. A adoração dos magos, a epifania universal do nascimento de Cristo, vindo para todos e para cada um dos homens e dos povos, foi também tratada por Francisco de Campos, o maneirista do século XVI, e por Domingos Sequeira já no século XIX.

Há quem diga que Charles Dickens veio depois reinventar o Natal, em 19 de Dezembro de 1843, ao publicar A Christmas Carol. Ou que o veio devolver à verdade original.

Dickens estava no coração da Londres vitoriana, da Londres do capitalismo selvagem, das crianças exploradas, daquele mercantilismo aristocrático-liberal desregulado em que, a par de um discurso oficial cristão, a vida era dura, muito dura, para a grande maioria. Uma sociedade onde as crianças pequenas trabalhavam na Indústria, os devedores iam para a prisão até pagarem a dívida e as classes operárias não tinham direitos. O escritor dos Pickwick Papers já tinha publicado, além dos PapersOliver Twist, Nicholas Nickleby The Old Curiosity Shop. A Christmas Carol levara-lhe seis semanas a escrever, e escrevera-o para o Natal. Iria vender seis mil exemplares em seis dias.

As criaturas do outro mundo estavam na moda entre os românticos (Byron e Robert Southey importavam os vampiros orientais dos românticos alemães) e os fantasmas do Natal de Dickens não destoariam num tempo em que, da Alemanha, com o Príncipe Alberto, marido da rainha Vitória, também chegavam as árvores de Natal.

Chesterton chamaria a Dickens o “porta-voz dos pobres”, mas George Orwell achá-lo-ia pouco rigoroso na descrição da classe operária e, sobretudo, pouco revolucionário. E talvez Dickens, na sua Londres vitoriana, estivesse mesmo mais preocupado com o Bem e com o Mal dos homens do que com a sociologia e a luta das classes.

Dickens era filho de um “naval clerck” que em 1824 fora preso na Marshalsea Debtor’s Prison por uma dívida de 40 libras a um padeiro. John Dickens, que o filho descreverá como um “oportunista jovial e sem noção do dinheiro” era chefe de uma família numerosa. Charles, então com 12 anos, não iria para a prisão com o resto da família, mas teria de trabalhar na Warren’s Blacking Factory, onde ganharia o sentido de orfandade e de humilhação que aparece em alguns dos seus jovens heróis. Nessa primeira metade do século XIX inglês, as prisões de devedores, reguladas pelo Act for the Relief of Insolvent Debtors in England de 1813, estavam cheias. Dickens contribuiria com os seus para a abolição do sistema, que só aconteceria em 1869.

O Natal dos pobres e das crianças

Mas se Dickens, em Dezembro de 1843 reinventava um Natal particularmente virado para as crianças, um ano antes, na Itália por unificar, já um sacerdote caminhava pelas ruas de Turim, com um bando de rapazes, entoando cânticos de Natal.

Tal como o Anjo aparecera em sonhos a José para que tratasse de Maria e do Menino, assim também a Don Bosco, lhe viria pedir que tratasse dos miúdos da rua. A grande referência de Don Bosco, de S. João Bosco, era um outro santo, S. Francisco de Sales. E foi com o seu nome que baptizou o primeiro Oratório onde recolheu os jovens, bem como a Ordem que fundou, os salesianos. Francisco de Sales vivera na transição do século XVI para o século XVII e tinha uma grande frase sobre o Dinheiro: “O Dinheiro – dizia – pode ser um bom servidor, mas é sempre um mau senhor”. E sobre o Natal tinha escrito em carta a Santa Joana Francisca de Chantal:

Pareceu-me ver Salomão no grande trono de marfim, dourado e esculpido, que não tinha igual em reino algum, como dizem as Escrituras; ver, em suma, aquele rei que não tinha igual em glória e magnificência. Mas prefiro cem vezes ver o querido pequeno Menino na manjedoura do que todos os reis nos seus tronos”.

 

https://observador.pt/opiniao/breve-historia-do-natal/

Entre as coloridas e fartas festas inclusivas de coisa nenhuma, todos precisamos de contemplar um presépio cada vez mais silenciado e ignorado, lembrando o que até Jean Paul Sartre soube dizer aos prisioneiros franceses para quem escreveu e encenou o seu auto de Natal:

“Como hoje é Natal, tendes o direito de exigir que vos seja mostrado o presépio.”

Um Santo Natal.

 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

António Guerreiro - Des-Natal é que é!

CRÓNICA ACÇÃO PARALELA


A “desnatalidade” talvez possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que nos convoca coercivamente.

António Guerreiro

22 de Dezembro de 2023, 10:20

É Natal. É tempo de falar de natalidade. Em Itália é um assunto na ordem do dia porque o “Inverno demográfico” transalpino é o mais frio de toda a Europa, que no seu conjunto já está em estado de “colapso demográfico” há algum tempo – de tal modo que, segundo os dados oficiais, em 1950 um europeu médio tinha 29 anos e hoje tem 43. A palavra “desnatalidade”, que designa o défice da taxa de nascimentos em relação à taxa de mortalidade, soa como um termo bizarro. Talvez ela possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que nos convoca coercivamente para uma mobilização total.

Ainda a Itália, o bel paese por antonomásia: há alguns anos, quando a taxa de natalidade já era baixa, mas ainda não tão “depressiva”, a Itália deitou-se no divã para analisar os sintomas patológicos advindos de ser um país de filhos únicos e produziu muita psicologia social. Desta “ciência” espontânea, impressionista, resultaram algumas conclusões como esta: ser filho único promovia a emancipação das raparigas (a quem, tradicionalmente, cabiam tarefas domésticas e o dever de se inclinarem perante as prerrogativas masculinas dos homens da família), mas tinha tornado os homens muito mais frágeis, uma fragilidade que eles tentavam superar com atitudes de macho mimado, de maridos insuportáveis que, uma vez divorciados, voltam a casa da mamma, de onde na verdade nunca saíram.

Agora, já não se trata da discussão sobre o “filho único” e as suas idiossincrasias, mas da inexistência de filhos: “Porque é que em Itália já não se fazem filhos?”, pergunta-se por lá com insistência. Até um filósofo como Giorgio Agamben (do qual pensamos que só se interessaria por estas questões demográficas na medida em que elas estão no centro da biopolítica contemporânea) escreveu na rubrica que mantém no site da editora Quodlibet um texto que é quase um obituário, logo no título “Finis Italiae”.

Nele se afirma: “Se existe na Europa um país em que alguns dados permitem certificar com sóbria precisão a data do fim, este é a Itália (...). A perdurar, este declínio [demográfico] conduziria em três gerações à extinção do povo italiano.” Quem leu os escritos de Agamben sabe que jamais ele lamentaria esse facto em chave nacionalista. Mas ele esclarece logo a seguir o que motiva o seu discurso lutuoso: “O que me entristece é a possibilidade perfeitamente real de que não exista mais ninguém para falar italiano, que a língua italiana se torne uma língua morta. Que ninguém mais possa ler a poesia de Dante como uma língua viva, como Primo Levi a lia em Auschwitz ao seu companheiro Pikolo.”

Evidentemente, os Outonos e as previsões de Invernos demográficos como o da Itália, em toda a Europa, não suscitam lamentos pela sorte que estará reservada a Camões (mas o português está a salvo: é falado noutras latitudes de elevada fecundidade, por enquanto) ou a Goethe (também nas questões demográficas a Alemanha já começa a fazer a sua “viagem a Itália”).

A preocupação é de outra ordem, consentânea com o “paradigma económico” que domina a política, mas também a vida dos indivíduos: a queda drástica da natalidade ameaça a estabilidade económica. E isso é suficiente para vê-la como um fenómeno crítico para o qual as economias não estão preparadas porque o seu motor tem uma lógica de funcionamento incompatível. Noutros planos que não o económico, a baixa de natalidade oferece-se a uma discussão sobre se é uma coisa negativa ou positiva.

A questão fundamental é assim formulada: se há cada vez menos nascimentos e cresce a população envelhecida, quem pagará, no futuro, os serviços de saúde e as pensões? Mas este modo de declinar o problema omite a sua raiz profunda: o capitalismo é uma religião do débito e cada criança que nasce já nasce endividada, isto é, com uma “culpa” original (quantas vezes se insistiu, desde a crise financeira de 2008, que a palavra alemã Schuld significa “dívida” e “culpa”?).

O débito público dos Estados e o débito privado são o pressuposto das actuais modalidades de sujeição e implicam uma garantia: que haja no futuro quem os pague. Evidentemente, este futuro, no caso do débito público (que nos transforma todos em sujeitos devedores e se apropria das nossas potencialidades individuais) é sem data. Por isso é que se diz que a dívida é para ser gerida, isto é, reproduzida, mas não saldada. Mas esta condição implica que haja a garantia de que a fábrica do homem endividado continue a produzir cada vez mais sujeitos devedores. Se a fábrica de fazer filhos pára, deixa de haver acumulação de “capital humano” à altura do investimento esperado. E dá-se o colapso.

Livro de recitações

“Estrangeiros contribuem sete vezes mais para a Segurança Social do que beneficiam”
In PÚBLICO, 18/12/2023

Usando a linguagem da economia utilizada no texto acima: à falta de “capital humano” e mão-de-obra nacional, importa-se o que não temos do estrangeiro. Esta notícia tem o efeito de contrariar alguns argumentos xenófobos e é potencialmente apta a que muitos mudem de ideias e a que todos saudemos a vinda de trabalhadores imigrantes. Mas devemos pensar para além deste factor pragmático: em última instância, este modo de ver tais trabalhadores é análogo ao modo de ver a cultura contra a qual Nietzsche se insurgiu. “Se acreditarmos que a cultura tem uma utilidade, acabamos por confundir o que é útil com a cultura.” Se os imigrantes são vistos exclusivamente à luz da sua contribuição para salvar o nosso “paradigma económico”, eles ou são “paradigmáticos” ou são considerados excedentes, supranumerários sem valor.

https://www.publico.pt/2023/12/22/culturaipsilon/cronica/desnatal-2074216


terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Wham - Last Christmas


 Wham! - Last Christmas  - "Pudding Mix" (Official Video)

Last Christmas, I gave you my heart

But the very next day, you gave it away

This year, to save me from tears

I'll give it to someone special


Last Christmas, I gave you my heart

But the very next day, you gave it away (you gave it away)

This year, to save me from tears

I'll give it to someone special (special)


Once bitten and twice shy

I keep my distance, but you still catch my eye

Tell me, baby, do you recognize me?

Well, it's been a year, it doesn't surprise me


Happy Christmas

I wrapped it up and sent it

With a note saying: I love you, I meant it

Now I know what a fool I've been

But if you kissed me now

I know you'd fool me again


Last Christmas, I gave you my heart

But the very next day, you gave it away (you gave it away)

This year, to save me from tears

I'll give it to someone special (special)


Last Christmas, I gave you my heart

But the very next day, you gave it away

This year, to save me from tears

I'll give it to someone special (special)


Oh, oh, baby


A crowded room, friends with tired eyes

I'm hiding from you and your soul of ice

My God, I thought you were someone to rely on

Me? I guess I was a shoulder to cry on


A face of a lover with a fire in his heart

A man undercover, but you tore me apart

Ooh, ooh, now I've found a real love

You'll never fool me again


Last Christmas, I gave you my heart

But the very next day, you gave it away (you gave it away)

This year, to save me from tears

I'll give it to someone special (special)


Last Christmas, I gave you my heart

But the very next day, you gave it away

This year, to save me from tears (oh)

I'll give it to someone special (special)


A face of a lover

With a fire in his heart (I gave you my heart)

A man undercover, but you tore him apart

Maybe next year

I'll give it to someone

I'll give it to someone special (special)

Someone

Maria Jorgete Teixeira - O Natal da minha infância cheirava a fumo e a frio.


* Maria Jorgete Teixeira 

Na aldeia, nas faldas do Marão, o dia 24 de Dezembro amanhecia com uma auréola especial. Logo cedinho, havia uma azáfama diferente.

Raramente estava sol e o cinzento frio da serra descia e inundava tudo com uma luz fantasmagórica. O fumo subia das chaminés, das casas que as tinham, ou então evolava-se da ardósia que cobria os telhados de xisto. Não parava de fumegar até à altura do apagar de todas as lareiras. No universo feminino das cozinhas, as iguarias eram preparadas pelas mães e avós.  A abóbora cozida escorria em pequenos sacos pendurados à entrada da porta das cozinhas, para mais tarde ser frita no azeite, transformando-se nos pequenos bolos de “calondro”. As rabanadas eram feitas com fatias de um pão de massa fina, os cacetes, encomendados na Vila para aquela ocasião, passadas por ovo e por leite, fritas e envoltas por fim, em calda de açúcar. A aletria também não faltava, cozida e disposta em pratinhos, depois enfeitados com desenhos de canela. Na noite de consoada o bacalhau era o rei. E não eram muitas as postas que se coziam na altura, umas lascas para as crianças, meia posta para os adultos e isto nas casas mais abastadas. Nas outras, era apenas um “cheirinho” para dar o gosto às batatas e à couve tronchuda. Essas eram com fartura, cultivadas no campo e escolhidas entre as melhores, assim como as batatas da terra fria, saborosas mesmo que só comidas sem acompanhamento. A ceia era servida cedo e o serão passado a conversar e a jogar o “par ou ímpar” ou o “rapa, tira deixa e põe” que era jogado com um pequeno pião que tinha escritas as três palavras que ditavam a sorte de quem o lançava. A minha avó materna sentava-se no escano e ia espevitando o lume e, de vez em quando, entrava na brincadeira. Acho que era a altura em que a sentíamos mais perto de nós e o seu semblante, sempre um pouco severo, mais se adoçava.

Íamos para a cama cedo e, antes de nos deitarmos, os sapatos eram deixados todos enfileirados na base da chaminé. Nessa noite nem dormíamos descansados e só no dia seguinte saberíamos o que o Pai Natal lá tinha deixado.

De entre os símbolos do Natal o presépio era o mais importante. A sua feitura estava a cargo dos irmãos mais velhos que colhiam o musgo nos soutos e nos pinhais para atapetar o chão onde eram plantados os montes e os vales, os rios e os lagos de um universo em miniatura: a cabana do menino, coberta de colmo, ao centro, os pastores e seus rebanhos, as mulheres com galinhas à cabeça ou cestos de ovos, os velhos com as suas bengalas e claro: os três reis do Oriente guiados pela estrela. A narrativa era contada aos mais novos à medida que o presépio ia tomando forma, qual “História Antiga” de Torga. (...)

A maior parte das crianças da aldeia não sabia o que era ter prendas no Natal. Os tempos eram difíceis e arranjar dinheiro para fazer uma ceia mais aprimorada já era muito bom. Os mimos recebidos resumiam-se a uns confeitos ou rebuçados que eram dados aos montinhos, embrulhados em papel.
Na minha casa sempre tivemos presentes.(...)

Hoje, os natais não têm, para mim, a magia desse tempo, mas procuro guardar um pouco da luz e interioridade de antigamente para passar às gerações vindouras, pois se é certo que não se pode parar o progresso, também é certo que o que somos em adultos é consequência da teia de afectos que nos forma, alimenta e resguarda, quando somos meninos.

2022 12 25

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Carmo Afonso - Natal, a grande festa de termos de nos aturar uns aos outros

 Opinião

Num mundo ideal, num Natal próximo o tio facho e o cunhado homofóbico estarão diferentes. Desistir é mais doloroso do que aturar.

*  Carmo Afonso

26 de Dezembro de 2022, 0:00

«Vivemos em proximidade apenas com aqueles que pensam como nós. São esses que procuramos para amigos e para interagirem connosco nas várias plataformas. Estamos cada vez mais afunilados. Nas redes sociais, temos os grupos dos comunistas, o dos bloquistas e o dos centro-esquerda, e as barreiras entre eles são feitas a granito. À direita, os fossos também existem. Mas diria que se notam menos. Talvez porque o que move a esquerda são projetos que têm acentuadas diferenças entre eles, enquanto a direita anda na disputa pelo pódio de quem mais critica o marxismo cultural. Ninguém procura aproximações. Isto não acontece só em política. Há exceções; amizades improváveis, mas elas reluzem e dão nas vistas de tal forma que confirmam a regra de que aquilo não é suposto. Ficamos com a convicção de que é mesmo possível viver num mundo em que todos foram escolhidos a dedo para não nos contrariarem com as suas opiniões. E isso acontece se não forem inteiramente coincidentes com as nossas. Facílimo.

Era o tema de uma instalação do Rodrigo Oliveira. Dizia assim: “We cannot escape from each other.” A perfeita maldição. E podia ser também a legenda para o Natal.

Este Natal, e depois de um intervalo de dois anos cheios de limitações, as famílias voltaram a juntar-se e esse reencontro foi uma boa maneira de avivar aquilo que poderia entretanto ter ficado esquecido: temos de aturar-nos uns aos outros. Este ditado faz lembrar um outro, mais ambicioso e utópico, que impunha que nos deveríamos amar uns aos outros. A verdade é que, já que temos de nos aturar, seria mais fácil fazê-lo se nos amássemos, mas ninguém nos pode pedir tanto.

Devemos fazer das nossas vidas um exercício com alguma coerência e estabelecer limites para o que estamos dispostos a tolerar e aquilo que já não é possível. É sabido que esse caminho tende a ser cada vez mais apertado e que cada vez cabem lá menos. Não é nada natalício.

Mas faz sentido. Se não toleramos racismo, porque devemos tolerar um familiar racista à mesa connosco? Sabemos que o racismo é um problema com a importância e a potencialidade de causar sofrimento, injustiça e até a destruição de vidas. Como ser tolerante com isto?

Mas, se falamos de racismo, também podemos falar de homofobia. Porque devemos aceitar e receber na esfera mais pessoal e íntima quem despreza ou desrespeita a forma como outros se identificam ou amam?

E se falamos de homofobia, também devemos falar de transfobia. É que milhares de portugueses, que já compreendem o tema da homossexualidade, continuam a não entender as pessoas transgénero. É o típico fenómeno de: “Tudo bem que gostem de pessoas do mesmo sexo, mas mudarem de sexo já é doença e se continuamos assim isto vai por aí a fora e não tem limites.” Eventualmente, uma boa parte dos portugueses é transfóbica. Que fazer a estas pessoas?

Claro que está aqui presente um pressuposto que não é o predominante nas famílias portuguesas: serem os progressistas a ocupar o lugar de quem julga e avalia os restantes. Na maioria das vezes, são os “fóbicos” e os “istas” que se encontram nessa posição e são os “diferentes” que se sentem mal recebidos nas festas familiares ou que até já desistiram de aparecer.

Os avanços que o mundo tem feito no sentido de uma sociedade mais justa têm acontecido graças à intolerância de muitos relativamente aos preconceitos dos outros. Também na vida, como na regra matemática, o menos por menos pode dar mai                                                                                               

É matéria altamente pessoal. Mas os avanços que o mundo tem feito no sentido de uma sociedade mais justa têm acontecido graças à intolerância de muitos relativamente aos preconceitos dos outros. Podíamos pensar que não é com intolerância que se cura a intolerância, mas não é bem assim. A intolerância pode resultar. Também na vida, como na regra matemática, o menos por menos pode dar mais.

É verdade que, se a família quer estar junta, ela tem de se esforçar, mas os esforços não têm todos o mesmo valor. Num anúncio espanhol do whisky J&B, deste Natal, vemos um avô que, durante semanas, tenta aprender a maquilhar-se. Aquele processo surge como sendo um enigma. Na noite da consoada, chama um dos netos à parte e faz-lhe uma maquilhagem altamente profissional. É assim que o leva à mesa. Mistério resolvido, e só não chora quem não tem coração. Cada vez mais os publicitários convencem as pessoas a comprar coisas enquanto lhes passam uma mensagem relativa a um tema sensível. Mas a escolha que fazem é capitalizar o progressismo. As marcas apostam que são mais os que estão dispostos a mudar do que os empedernidos.

Num mundo ideal, num Natal próximo o tio facho e o cunhado homofóbico estarão diferentes. No mundo real, pode ser um pai ou um irmão e podem não ter vontade nenhuma de ficar diferentes. No mundo real, temos mesmo de nos aturar uns aos outros. Desistir é mais doloroso do que aturar.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo  ortográfico

https://www.publico.pt/2022/12/26/opiniao/opiniao/natal-festa-termos-aturar-2032681