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domingo, 2 de agosto de 2026

Onofre Varela - VIDA DEPOIS DA MORTE (1)

*  Onofre Varela

Na colaboração que mantenho com dois jornais regionais (Gazeta de Paços de Ferreira e Semanário Alto Minho) estou a publicar um texto em "episódios" (como as telenovelas) por obrigação do espaço de que disponho. Decidi publicar aqui os mesmos textos, juntando "dois em um", para não maçar o leitor com prosa intensa, por considerar o texto com interesse para uma grande parte de nós.

Portanto, aqui vai a primeira entrega:

VIDA DEPOIS DA MORTE (1)

Por Onofre Varela

domingo, 18 de janeiro de 2026

Onofre Varela - ESTOU A REFLECTIR



* Onofre Varela

Escrevo este texto no Sábado, dia 17 de Janeiro. A campanha eleitoral encerrou à meia noite de ontem, e a votação acontecerá amanhã, Domingo. O dia de hoje tem uma coisa boa… no rádio e na televisão acabaram-se os gritos dos candidatos e as suas cenas tristes, mais as preocupações intelectuais dos comentadores de gabarito que debitam os seus pareceres sobre os concorrentes ao cargo de Presidente da República, e acerca do que o vencedor fará perante o dono do mundo que manda nos seteites e no resto, e que também quer dominar a Europa começando pela Gronelândia gelada mas com muito petróleo debaixo do gelo na vez de lençol freático.

Neste abençoado e desejado dia, também não ouvimos aquelas palavras doutas dos fazedores de sondagens, explicando quem vai em primeiro, no meio e em último, quem ultrapassou quem e porquê, mais as variações conjugadas de candidatos para uma segunda volta, atribuindo a vitória a este se for concorrer com aquele, mas que perderia se este fosse aqueloutro e não aquele nem o outro e concorresse com beltrano… mas se concorresse sicrano com fulano, já fulano ficava a ver navios porque sicrano comia-lhe as papas na cabeça… para outra vez, que ganhe juízo, que cresça e apareça.

Presumo que as sondagens são feitas por quem não anda a dormir na forma e factura de olhos bem abertos. Quanto mais sondagens, maior a facturação… o que não é bom, é excelente! O que também é maravilhoso, é orientar o voto do eleitor indeciso, dando-lhe papinhas para comer e depois arrotar na urna de voto.

As sondagens, se fossem verdadeiras, podiam dispensar a votação e estava o caso resolvido… ganhava quem tinha tido maior votação nos inquéritos pelo telefone, como se faz no Festival da Canção e poupava-se uma porrada de massa!…

Convencionou-se chamar a este dia de Sábado o “Dia de Reflexão”, na convicção de que os eleitores se recolhem como se fossem monges ou freiras, reflectindo, no silêncio das suas alcovas, sobre a importância do acto eleitoral e das intenções dos candidatos para, só então, decidirem onde colocar a cruzinha no boletim, amanhã! 

Na Bíblia, o dia de Sábado é referido como sendo “o sétimo dia”, aquele em que o Criador descansou da sua imensa tarefa de fazer o mundo e tudo o que nele existe, em sete dias, sem ferramenta nem matéria-prima porque ainda não as havia criado… imagine-se o trabalhão que terá dado fazer o mundo com poucos recursos, ou sem recursos de todo!

Em comparação, nós aproveitamos o “Sábado reflectivo” para também descansarmos os olhos e os ouvidos tão fartos de imagens grotescas e gritos de candidatos prometendo o impossível e, sem qualquer urbanidade usam o insulto suez, cantam sem voz de cantor, dançam sem saber mover os pés ao som da música, e debitam discursos com promessas de realizações que sabem nunca cumprir, porque prometeram fazer aquilo que não cabe nas funções do Presidente… e a malta vota neles porque gosta de promessas ocas!…

Se muitos votantes sabem em quem votar, mesmo antes do primeiro dia da campanha, e por isso dispensaram a seca dos Tempos de Antena, mais os discursos propagandísticos dos candidatos dizendo que são as melhores pessoas do mundo e arredores, e mais as arruadas… outros há que, obedecendo ao parágrafo da lei eleitoral que estipula o “Dia de Reflexão”, aproveitam este dia artificial de hoje para comerem algo leve, beberem água, sentarem-se em silêncio, correrem as cortinas para escoar a luz do Sol… e reflectirem.

Em meia hora de reflexão já ressonam que nem porcos… viva o dia da reflexão e viva eu.

Onofre Varela - janeiro 18, 2026

https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/01/e-stou-reflectir-por-onofre-varela.ht

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Onofre Varela - A BISPA E O NARCISISTA


* Onofre Varela - 

Uma das apregoadas funções dos credos religiosos de inspiração cristã, é o dever de fomentar a paz, a concórdia, o bom-relacionamento social e o respeito pela dignidade humana. Pelo menos é este o grande estandarte dos cristãos que não se radicalizam e que veem no outro uma pessoa igual a si.

Foi esta mesma leitura que eu fiz do discurso da bispa Mariann Edgar Budde – da diocese de Washington da Igreja Episcopal – proferido numa cerimónia religiosa no dia 21 de Janeiro último, inserida no programa da tomada de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América (EUA).

No exercício das suas funções religiosas – registadas em qualquer manual de comportamento social cristão – a bispa disse que “todos somos estrangeiros nesta terra”; frase historicamente correcta, porque a América foi descoberta por Cristóvão Colombo em 1492 (em parceria com Américo Vespúcio), e depois foi colonizada por alemães, ingleses, dinamarqueses, escoceses, espanhóis, franceses, holandeses, russos, chineses, suecos… e até portugueses… no mínimo. 

O próprio Trump é filho de pai alemão e de mãe escocesa que foram imigrantes iguais aos que ele agora expulsa, negando-lhes a oportunidade que os EUA ofereceram aos seus progenitores e a si próprio, permitindo-lhe ser o magnata que hoje é.

Os povos que podem ser considerados genuinamente americanos são os descendentes das tribos dos peles-vermelhas – que já lá estavam quando Colombo aportou àquelas terras – denominados “índios” porque o navegador pensou ter chegado à Índia. Foi essa intenção (a de chegar à Índia pelo ocidente) a principal “mola” que levou à descoberta da América pelos navegadores ocidentais... mola que foi “descomprimida” no século XV, um tempo em que já se presumia a esfericidade do planeta e que, portanto, seria possível chegar ao oriente navegando para ocidente… para mais além do arquipélago dos Açores.

A razão histórica e humanista da bispa Mariann Edgar Budde, não faz a razão de Trump. Mariann é religiosa e defensora da paz e da igualdade; e Trump – sendo, também, religioso – defende o conflito e a superioridade de um povo (o americano) sobre todos os outros povos do mundo.

Na sua intervenção enquanto membro da Igreja Episcopal, Mariann concentrou-se em três elementos essenciais para a unidade dos EUA (e também para a unidade de toda a Humanidade… digo eu…), que são: a Dignidade, a Honestidade e a Humildade. 

Depois de discursar acrescentou um apelo, olhando Trump nos olhos. Falou em misericórdia “para todos os que têm medo, em particular os imigrantes e os membros da comunidade homossexual e transgénero”. 

E rematou com esta “estocada final” que feriu a vaidade e a desumanidade de Trump (mas que ele usa como virtudes):“As pessoas que apanham as nossas colheitas, limpam os nossos edifícios de escritórios, trabalham nas explorações avícolas e nos frigoríficos, lavam a louça depois das refeições nos restaurantes e fazem turnos de noite nos hospitais: podem não ser cidadãos ou não ter a documentação adequada, mas a grande maioria dos imigrantes não é composta por criminosos. Pagam impostos e são bons vizinhos”.

Disse ainda: “Peço que tenha misericórdia, senhor presidente, daqueles que, nas nossas comunidades, têm filhos que temem a expulsão dos seus pais. E que ajude aqueles que fogem de zonas de guerra e são perseguidos nas suas próprias terras, a encontrar compaixão e boas-vindas aqui”. Este discurso assertivo e inteligente, vindo de uma mulher, foi muito mal recebido por um homem arrogante e machista como é Trump, e que de inteligência emocional apenas deterá, hipoteticamente, um resquício de refugo a que não dá uso.

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“Tio Sam”, de Onofre Varela. Desenho executado para figurar numa exposição de desenho de humor subordinada ao tema Tio Sam, realizada em Alcalá de Henares (Madrid) em Outubro e Novembro de 1998. Técnica: aguarela e guache sobre papel.

Esta minha apreciação satírica do presidente dos EUA é baseada no discurso que ele fez logo a seguir à cerimónia (para além de outros discursos feitos no decorrer do tempo). O homem eticamente mal formado, a quem os votos da maioria dos cidadãos descendentes dos colonos da América, deram o estatuto de político mais poderoso do mundo, não respondeu, olhos nos olhos, à bispa no mesmo momento… em vez disso foi para as redes sociais insultar a mulher inteligente que lhe disse o que o seu narcisismo não gosta de ouvir. 

E com a sua habitual boçalidade de menino rico sem respeito por quem é pobre, afirmou que a autora daquele sermão “podia fazer muito melhor”, apelidando-a de “esquerdista radical que adoptou um tom desagradável, não foi convincente nem inteligente”, que fez comentários “inapropriados e aborrecidos”. E rematou com esta pérola de convencido: “Ela e a sua igreja devem pedir desculpas ao público”. 

É um discurso igual ao que faria qualquer ditador em qualquer parte do mundo... e não tardou que a bispa Mariann recebesse ameaças de morte vindas de anónimos apoiantes de Trump… (os seus discursos despertam nos seus apoiantes o radicalismo que habita nas suas almas).

O “ditador-em-democracia” que é Trump, iniciou a presidência exibindo a sua vaidade desmesurada, espelhada na necessidade que sente de, com pose de imperador, mostrar, através de um batalhão de fotógrafos, a sua assinatura nas leis que promulga, desenhada com um marcador que faz traços de três milímetros de espessura… e apresenta-a ao mundo com o enlevo do artista de gabarito que acaba de dar a última pincelada numa qualificada obra de arte.
 
E não tem noção da triste e ridícula figura que faz!…

Isto acontece HOJE, na estrondosa América… como se fosse um país terceiro mundista de ficção, perdido nos confins de uma selva africana e governado por um troglodita que se imagina um semi-deus!…


fevereiro 07, 2025


https://ponteeuropa.blogspot.com/2025/02/a-bispa-e-o-narcisista-por-onofre.html

domingo, 4 de agosto de 2024

Onofre Varela - O abalar ou o espevitar da consciência



A LIBERDADE QUE ABRIL NOS DEU - A ovelha Dolly e o mito da Eva


* Onofre Varela

No dia 1 Abril de 1997 publiquei no Jornal de Notícias (JN) um texto interrogativo e bem humorado sobre a clonagem da Ovelha Dolly. (Não era uma “mentira de Abril”… a data da publicação foi um acaso!).

Recordando: a ovelha Dolly ficou mundialmente conhecida em Fevereiro de 1997 quando se divulgou a sua existência conseguida por experiência científica bem sucedida, de clonar o primeiro mamífero a partir de células da glândula mamária de uma ovelha adulta. Os seus autores foram os biólogos Keith Campbell e Ian Wilmut, do Instituto Roslin, na Escócia.

Aproveitando o facto científico que demonstrava a possibilidade de se conceber um mamífero dispensando o espermatozoide do pai (os homens que se cuidem… as mulheres não precisam de nós para coisa nenhuma… nem para conceberem filhos!), escrevi no JN uma crónica onde dizia que, muito provavelmente, o primeiro clonador teria sido Deus ao fazer Eva a partir de uma costela de Adão. Entendi que a palavra “costela” podia ser um modo de dizer “célula”.

O meu entendimento era lícito naquela linha de a Bíblia ser um poço a transbordar de possíveis entendimentos. Na Bíblia há textos cujas interpretações servem para alimentar todos os gostos e paladares que enformam as variadíssimas religiões e seitas bíblicas… mas também servem os seus críticos que a lêem divorciados de qualquer formato de fé deífica.

Quando o texto foi publicado… lá tornou a cair o Carmo e a Trindade!…

Naquela altura discutia-se na Assembleia da República a Lei da Liberdade Religiosa e o JN dedicava uma página diária ao assunto, entrevistando personalidades ligadas aos vários cultos da panóplia das igrejas estabelecidas em Portugal. O meu texto saiu ao lado do depoimento de um bispo da “Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica”; logo, todos os interessados em Religião o leram.

O director do JN recebeu recados mal dispostos por permitir “a publicação de tamanha enormidade”! (Para melhor informação digo que o texto não lhe passou pelas mãos antes de ser publicado. Entreguei-o ao sub-director, que o aceitou e enviou directamente para a secretaria da Redacção… a partir daí estava implícita a autorização de o publicar).

Aquele lacaio da seita vaticana Opus Dei, que visitava directores de jornais a horas tardias, estava atento e não desarmava… tinha de estuporar o juízo ao director por deixar passar textos que a Igreja não aprova. A mentira bíblica (ou poema) da criação era intocável e não podia ser aflorada fora do entendimento religioso. A Igreja permite-se imaginar ser dona dos textos arqueológicos que fazem a Bíblia, não aceitando – condenando, até – interpretações diversas das suas.

Para além da possível clonagem de que teria resultado a Eva, permiti-me comentar alguns versículos bíblicos, de entre os quais refiro estes: “Quem violar uma virgem obriga-se a desposá-la”, “Os estrangeiros, as viúvas e os orfãos devem ser respeitados” (Êxodo: 22, 16-20). Isto são conselhos de um deus, ou de um sociólogo?;

“Todos os que toquem as roupas daqueles que têm ferimentos que libertem fluxos, devem lavar-se”. “Homem e mulher, depois de copularem, devem lavar-se. Lavar-se-á também a roupa suja com sémen”, “A mulher menstruada guardará sete dias sem relações sexuais” (Levítico: 15, 2-19). Isto são conselhos de um deus ou de um técnico de saúde?;

“Não oprimirás o teu próximo nem o roubarás. Do mesmo modo não reterás o pagamento devido ao teu empregado” (Levítico: 19-13). Isto é conselho de um deus ou de um legislador? Quantos empregadores nós conhecemos que papam missas e não pagam devidamente, nem no dia certo, aos seus empregados?!

Neste caso de “censura à posteriori”, a minha opinião foi publicada e lida, permitindo a cada leitor fazer a sua própria interpretação do meu texto… e os desmiolados censores que apenas provam a nulidade das suas existências, não puderam retirar as prosas do jornal, onde permanecerão para a posteridade no arquivo das bibliotecas. 

1 Abril de 1997  / agosto 04, 2024

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)


https://ponteeuropa.blogspot.com/2024/08/a-liberdade-que-abril-nos-deu-o-velha.html