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domingo, 10 de março de 2024

A economia e os efeitos na pobreza


Gaza-Poverty  Independent Press

 
“Ás vezes falamos da fome no mundo como se fosse um flagelo que todos nós queremos ver abolido, considerando-a comparável à peste ou à sida. Mas esta visão ingénua impede-nos de compreender o que causa e mantém a fome. A fome tem um grande valor positivo para muitas pessoas. De facto, é fundamental para o funcionamento da economia mundial. As pessoas com fome são as mais produtivas, especialmente quando há necessidade de trabalho manual. (...) Grande parte da literatura sobre a fome fala da importância de assegurar que as pessoas sejam bem alimentadas para que possam ser mais produtivas. Isso é um disparate. Ninguém trabalha mais do que as pessoas com fome. Sim, as pessoas bem nutridas têm maior capacidade para a atividade física produtiva, mas as pessoas bem nutridas estão muito menos dispostas a fazer esse trabalho. (...) Para os que se encontram no topo da escala social, acabar com a fome a nível mundial seria uma catástrofe. Se não houvesse fome no mundo, quem é que iria lavrar os campos? Quem colheria os nossos legumes? Quem trabalharia nas fábricas de transformação de subprodutos? Quem limparia as nossas casas de banho? Teríamos de produzir os nossos próprios alimentos e limpar as nossas casas de banho. Não é de admirar que as pessoas de topo não se apressem a resolver o problema da fome. Para muitos de nós, a fome não é um problema, mas um trunfo.” George Kent, Os benefícios da fome no mundo – UN Chronicle 28nov2021.


“Algumas observações sobre a construção, pelo Presidente Biden, de um "cais temporário" para fazer chegar a ajuda a Gaza. 1. Biden está a violar o bloqueio de 17 anos de Israel a Gaza com este plano. Gaza não tem um porto marítimo, nem um aeroporto, porque Israel, o seu ocupante, há muito que a proibiu de os ter. Israel proibiu a entrada em Gaza de tudo o que não passasse pelos pontos de passagem terrestres que controla. Israel impediu, muitas vezes de forma violenta, que as frotas de ajuda internacional chegassem a Gaza para trazer medicamentos. O bloqueio também criou um mercado cativo para os produtos de má qualidade de Israel, como a fruta e os legumes estragados, e permitiu que Israel desviasse dinheiro nas passagens terrestres que deveria ter ido para os palestinianos em taxas e impostos. 2. Com o seu cais, Biden não está a inverter essa conivência de longa data com um crime contra a humanidade. Ele sublinhou que será temporário. Depois disso, Gaza voltará a funcionar como sempre: as crianças que sobreviverem voltarão a morrer de fome em câmara lenta, a um ritmo que não será registado pelos media e que pressionará Washington para que se veja que está a fazer alguma coisa. 3. Biden poderia fazer chegar a ajuda a Gaza muito mais depressa do que construindo um cais, se quisesse. Poderia simplesmente insistir para que Israel deixasse passar os camiões de ajuda pelos pontos de passagem terrestres e ameaçá-lo com graves repercussões caso não cumprisse. Poderia ameaçar reter as bombas americanas que está a enviar para matar mais crianças em Gaza. Ou pode ameaçar cortar os milhares de milhões de dólares de ajuda militar que Washington envia todos os anos para Israel. Ou pode ameaçar recusar o veto dos EUA para proteger Israel das consequências diplomáticas nas Nações Unidas. Podia fazer tudo isto e muito mais, mas opta por não o fazer. 4. Mesmo depois de Biden comprar a Israel mais algumas semanas para continuar a matar agressivamente à fome os palestinianos em Gaza, enquanto esperamos que o seu cais temporário esteja concluído, na prática, nada poderá mudar. Israel continuará a efetuar os mesmos controlos que faz atualmente nos pontos de passagem terrestres, mas em Lanarca, Chipre, onde a ajuda será carregada nos navios. Por outras palavras, Israel continuará a poder criar os mesmos intermináveis bloqueios, utilizando como pretexto "preocupações de segurança". 5. Biden não está a mudar de rumo - temporariamente - porque de repente se preocupa com as pessoas, ou mesmo com as crianças, de Gaza. Há décadas que sofrem na sua prisão ao ar livre, em diferentes graus. Se ele se preocupasse, teria feito alguma coisa para acabar com esse sofrimento depois de se tornar presidente. Se tivesse feito alguma coisa nessa altura, o dia 7 de outubro poderia nunca ter acontecido e todas as vidas perdidas de ambos os lados - vidas que continuam a ser perdidas do lado palestiniano a cada poucos minutos - poderiam ter sido salvas. E se ele realmente se importasse, não teria ajudado Israel nos seus esforços para destruir a UNRWA, a agência das Nações Unidas de assistência aos palestinianos e uma tábua de salvação vital para Gaza, congelando o seu financiamento, com base em alegações não comprovadas de Israel contra a agência.” JONATHAN COOK, Substack.

Posted by OLima at domingo, março 10, 2024 
https://onda7.blogspot.com/2024/03/bico-calado_01998493720.html

domingo, 3 de setembro de 2023

A FOME vista por Galeano

* Eduardo Galeano


 UMA COLÓNIA SUPERPOVOADA

Não saía fumo das chaminés. Em 1850, depois de quatro anos de fome e de pragas, os campos da Irlanda despovoaram-se, e pouco a pouco as casas desabitadas ruíram. Os habitantes tinham partido para o cemitério ou para os portos da América do Norte.

A terra nem batatas dava. Só a produção de loucos crescia. O manicómio de Dublin, pago por Jonathan Swift, tinha noventa internos quando foi inaugurado. Um século depois, havia mais de três mil.

Durante a fome, Londres enviou alguma ajuda de emergência, mas a caridade acabou passados alguns meses. O império decidiu não continuar a socorrer esta colónia incómoda. Conforme explicou o primeiro-ministro, lorde Russell, o ingrato povo irlandês pagava esta generosidade com rebeliões e difamações e isso caía muito mal à opinião pública.

E Charles Trevelyan, alto funcionário encarregado da crise irlandesa, atribuiu a fome à Divina Providência. A Irlanda tinha a mais alta densidade demográfica de toda a Europa, e uma vez que o excesso de população não podia ser evitado pelos homens, Deus solucionava-o em toda a sua sabedoria, de forma imprevista, inesperada, mas com grande eficácia.



DESASTRES NATURAIS

Um deserto vazio de passos e de vozes, apenas pó fustigado pelo vento.

Muitos chineses se enforcam, antes que a fome os leve a matar ou antes que a fome os mate.

Os triunfantes mercadores da guerra do ópio fundam em Londres o Fundo de Socorro para a Fome na China.

Esta instituição de caridade promete evangelizar o país pagão por via digestiva: do Céu choverão alimentos, enviados por Jesus.

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OUTROS DESASTRES NATURAIS

Em 1879, depois de três Invernos sem chuva, há menos nove milhões de indianos.

A culpa é da natureza:

– São desastres naturais – dizem os que sabem.

Mas na Índia, nesses anos atrozes, o mercado castiga mais do que a seca.

Como lei do mercado, a liberdade oprime. A liberdade de comércio, que obriga a vender, proíbe comer.

A Índia é uma plantação colonial, não uma misericórdia. O mercado manda. Sábia é a sua mão invisível, que faz e desfaz; e ninguém tem razão para corrigi-la.

O governo britânico limita-se a ajudar a morrer uns quantos moribundos, nos seus campos de trabalho chamados Campos de Socorro, e a exigir os impostos que os camponeses não conseguem pagar. Os camponeses perdem as suas terras, que se vendem ao desbarato; e ao desbarato se vendem os braços que nelas trabalham, enquanto a escassez eleva até às nuvens o preço  dos grãos que os empresários açambarcam.

Os exportadores vendem mais do que nunca. Montanhas de trigo e de arroz são despejadas nos portos de Londres e de Liverpool. A Índia, colónia esfomeada, não come, mas dá de comer. Os britânicos comem a fome dos indianos.

É muito cotada no mercado esta mercadoria chamada fome, que multiplica as oportunidades de investimento, reduz os custos de produção e aumenta os preços dos produtos.

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O PAI DA CRUZ VERMELHA

A Cruz Vermelha nasceu em Genebra, fruto da iniciativa de alguns banqueiros suíços, para socorrer os feridos abandonados pelas guerras nos campos de batalha.

Gustave Moynier, o primeiro presidente, encabeçou o Comité Internacional durante mais de quarenta anos. Ele explicava a Cruz Vermelha, instituição inspirada na moral evangélica era bem recebida nos países civilizados, mas deparava com muita ingratidão nos países colonizados.

— A compaixão — escreveu — é desconhecida por aquelas tribos selvagens, que praticam o canibalismo. Este sentimento é-lhes tão estranho que as suas línguas não têm nenhuma palavra para expressar essa ideia.

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CHURCHILL

Todo-poderosa era a influência dos herdeiros de lorde Marlborough, conhecido como Mambru; graças à sua família, o jovem Winston Churchill conseguiu entrar num dos batalhões de lanceiros que iam combater no Sudão.

Ele foi soldado e cronista da batalha de Omdurman, em 1898, nos arredores de Cartum, nas margens do rio Nilo.

A coroa britânica estava a criar um corredor de colónias que atravessasse África do Cairo, a norte, a Cidade do Cabo, no extremo sul. A conquista do Sudão era fundamental para esse projecto de expansão imperial, que Londres explicava dizendo:

— Estamos a civilizar África através do comércio,

em vez de confessar:

— Estamos a comercializar África através da civilização.

Esta missão redentora abria caminho a ferro e fogo. Como os raquíticos cérebros africanos não conseguiam compreendê-la, ninguém se dava ao trabalho de lhes pedir opinião.

Nos bombardeamentos da cidade de Omdurman, reconheceu Churchill, morreu um grande número de infelizes não-combatentes, vítimas do que passou a chamar-se, um século depois, danos colaterais. Mas, finalmente e segundo as suas palavras, as armas imperiais obtiveram o triunfo mais eloquente jamais alcançado pelas armas da ciência contra as armas da barbárie, a derrota do exército selvagem mais poderoso e mais bem armado alguma vez amotinado contra um moderno poder europeu.

De acordo com os dados oficiais dos vencedores, este foi o resultado da batalha de Omdurman:

nas tropas civilizadas, cerca de dois por cento de baixas;

nas tropas selvagens, cerca de noventa por cento de baixas.

(Eduardo Galeano, “Espelhos – Uma História Quase Universal. Antígona, 2018.)

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/a-fome-vista-por-galeano-119778?fbclid=IwAR18acpxl2-IGfXzyZIMaSPGjS_ND5k_qJoAl6j8pDX1MgsI2GA3mfyi1WI

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Defesa racional de um vegetarianismo moderado

30 Março 2008

Defesa racional de um vegetarianismo moderado

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Tenho visto cada vez mais notícias de um aumento global do preço dos alimentos, como exemplo recente: High Rice Cost Creating Fear do NYT, ou em sua tradução para os com UOL Preço em ascensão do arroz provoca temor de distúrbios na Ásia.
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No caso do arroz o consumo já é maior que a produção há alguns anos, o que reduziu as reservas de segurança do grão. Os preços começaram a subir, países reduziram a quantidade exportada do produto para garantir o abastecimento interno, o que faz os preços subirem mais, prejudicando os importadores que precisarão de uma maior porcentagem do PIB para comida se conseguirem encontrar quem venda. Saem prejudicados os países mais pobres, já sendo reportados conflitos por comida em alguns da África.
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Este movimento não é exclusividade do arroz, ocorrendo para outros tipos de grãos. São apontadas algumas causas, além de fatores climáticos e pragas habituais, temos a produção de bio-combustíveis e o aumento do consumo provocado pela ascensão social na China, Índia entre outros. A questão dos bio-combustíveis já tinha sido apontada pelo Fidel Castro algum tempo atrás, ao destinar terras ou grãos para a produção de álcool temos menos grãos para alimentação. Este fator só pode ser contornado pela descoberta de novas fontes energéticas, que não podemos contar como certo, ou na redução do consumo, mas não quero focar a discussão nisto por ser um tópico corriqueiro.
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A ascensão social na China, Índia e outros países em desenvolvimento, permitiu um grande incremento no consumo. Certo, mas estas pessoas não comiam antes? Sim, mas agora comem mais carne. A quantidade de alimento dado para uma vaca, é capaz de alimentar mais pessoas do que a própria vaca. Isto ocorre pois a vaca cresceu, andou, cagou e gastou energia para fazer tudo isto, sendo comida fornecerá apenas 10% da energia que seria fornecida por tudo que ela comeu em vida. Ou seja, podemos alimentar 10 pessoas ou apenas 1 com a mesma área de plantio. Talvez com técnicas de confinamento do rebanho esta porcentagem melhore, mas sempre haverá uma perda considerável.
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Em termos de biologia, ao comer mato ao invés de carne, descemos um nível trófico na cadeia alimentar. Quanto mais baixo o nível trófico maior a quantidade de energia. Se quisermos alimentar todo mundo do planeta com carne vai ser bom arrumar alguns planetas a mais, ou podemos já derrubar a floresta amazônica para plantar ração bovina. A alternativa racional seria não comer carne, ou praticar um vegetarianismo moderado, apenas reduzindo a quantidade de carne consumida.
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Infelizmente os vegetarianos que existem tentam nos convencer com argumentos do tipo "coitadinha da vaquinha", eu prefiro este: coitadinha da criança que morre de fome. Para aumentar o apelo, tomo emprestado uma imagem do blog Cambalache.

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