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segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

-Oliver Harden - A Ironia Machadiana: Uma Estratégia de Desnudamento da Condição Humana

* Oliver Harden

A ironia é um dos recursos mais marcantes e emblemáticos da obra de Machado de Assis. É o fio condutor que permeia sua escrita, um instrumento que transcende o humor superficial para se tornar uma lente filosófica através da qual o autor examina as complexidades da condição humana. Na obra machadiana, a ironia não é meramente um artifício literário, mas uma estratégia discursiva que desconstrói as convenções sociais, expõe as hipocrisias do indivíduo e da coletividade e revela as nuances mais profundas da psique humana.

Dessa forma, a ironia em Machado não apenas diverte, mas educa; não apenas denuncia, mas contempla. É, sobretudo, uma arma contra a superficialidade e o dogmatismo, um meio de explorar as contradições que habitam o ser humano e de desmascarar as ilusões que sustentam as relações sociais e as aspirações individuais.

A Ironia como Reflexo da Dissimulação Social
Machado de Assis viveu em uma sociedade profundamente marcada pela desigualdade e pela hipocrisia social. No Brasil do século XIX, as relações eram regidas por uma estrutura de aparências, onde o status e as convenções ocupavam o centro da vida pública. A ironia machadiana emerge como uma resposta literária a esse contexto, revelando o abismo entre o que se aparenta ser e o que realmente é.

Essa dissimulação é retratada de maneira exemplar em Dom Casmurro, onde Bento Santiago, o narrador, apresenta-se como vítima de uma suposta traição, enquanto suas próprias falhas morais e seu egoísmo são cuidadosamente ocultados sob o véu de uma narrativa aparentemente racional. Machado utiliza a ironia para desestabilizar a voz narrativa, forçando o leitor a questionar não apenas a veracidade da história contada, mas também a natureza do próprio narrador. Nesse processo, a ironia desconstrói o ideal de certeza e desvela a complexidade das relações humanas.

Ironia e Contradição Humana
Outro aspecto essencial da ironia machadiana é sua habilidade de capturar as contradições que definem a experiência humana. Machado revela, com sutileza, como o ser humano é governado por impulsos conflitantes, muitas vezes inconscientes, que minam sua própria racionalidade e moralidade.~

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, a ironia atravessa toda a narrativa. O narrador, um defunto-autor, confessa abertamente suas falhas e egoísmos, mas faz isso de forma tão espirituosa que o leitor se vê, paradoxalmente, cativado por sua sinceridade. A ironia aqui não apenas expõe as vaidades de Brás Cubas, mas também questiona a própria busca humana por significado, legado e imortalidade. Brás Cubas, em sua autocrítica cínica, não tenta esconder suas fraquezas, mas sim ressignificá-las como parte de sua humanidade.

A Ironia como Ferramenta Filosófica
A ironia machadiana não se limita à esfera literária; ela assume um papel filosófico ao questionar as certezas absolutas e as verdades universalmente aceitas. Machado, influenciado por correntes de pensamento como o positivismo e o cientificismo, utilizava a ironia para desafiar as pretensões de objetividade e racionalidade que marcavam sua época.

Em Quincas Borba, a filosofia do “Humanitismo” é apresentada como uma caricatura do pensamento filosófico contemporâneo, revelando tanto sua pretensão quanto sua futilidade. Através dessa sátira, Machado ironiza as grandes teorias que prometem explicar a existência humana, mostrando como elas frequentemente ignoram as particularidades e contradições do indivíduo.

Nesse sentido, a ironia torna-se uma forma de resistência intelectual. Ao invés de oferecer respostas ou soluções, Machado utiliza a ironia para abrir espaço para o questionamento, para o confronto entre o ideal e o real, entre o que o ser humano aspira ser e o que ele realmente é.

Ironia e a Autonomia do Leitor
Um dos aspectos mais sofisticados da ironia machadiana é sua capacidade de envolver o leitor como participante ativo na construção de significado. A ironia, ao desconstruir as certezas narrativas, exige que o leitor assuma o papel de intérprete, buscando as entrelinhas e desvendando os subtextos.

Em obras como Dom Casmurro, o leitor é desafiado a decidir por si mesmo se Capitu foi ou não infiel, enquanto o narrador apresenta uma versão enviesada dos acontecimentos. Esse jogo irônico não apenas reforça a ambiguidade da obra, mas também questiona a própria ideia de verdade. Para Machado, a verdade não é algo estático, mas um campo de disputa, algo que emerge do confronto de perspectivas.

A Dimensão Ética da Ironia
Embora frequentemente vista como cínica ou corrosiva, a ironia machadiana possui uma dimensão ética profunda. Machado utiliza a ironia para convidar o leitor a refletir sobre as motivações humanas, sobre os jogos de poder e as estruturas de dominação que definem a sociedade. Ao expor as ilusões e autoenganos que sustentam tanto o indivíduo quanto a coletividade, a ironia machadiana torna-se uma ferramenta de autoconhecimento e crítica social.

Essa dimensão ética é evidente em contos como “O Espelho” e “A Igreja do Diabo”. Nesses textos, a ironia questiona não apenas os valores sociais, mas também as próprias narrativas que os sustentam, provocando o leitor a confrontar suas próprias crenças e preconceitos. 

Conclusão
A ironia machadiana é muito mais do que um recurso estilístico; é um instrumento filosófico e ético que ilumina as contradições e complexidades da condição humana. Ao desconstruir as ilusões individuais e sociais, Machado de Assis transforma a ironia em uma lente através da qual podemos enxergar, com maior clareza, tanto nossas fraquezas quanto nossas possibilidades.

Sua ironia não é um exercício de superioridade intelectual, mas uma forma de aproximar o leitor da verdade — uma verdade que nunca é absoluta, mas sempre multifacetada, ambígua e em disputa. Por meio de sua ironia sutil, Machado não apenas expõe os paradoxos de sua época, mas também nos convida a refletir sobre os paradoxos que continuam a moldar nossa existência.

3 de dezembro às 11:04  · 

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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Machado de Assis e a escravidão

20 de novembro de 2015 - 10h13 


Escrito pouco mais de dez anos após a abolição da escravatura, e publicado em Relíquias da Casa Velha (1906), o conto Pai contra mãe é o único em que Machado de Assis trata de forma direta, e crua, a barbárie da escravidão. Faz parte da obra da maturidade do escritor e revela, num texto curto, suas excepcionais qualidades de observador agudo das contradições de seu tempo. 



Arquivo

Nascido no Rio de Janeiro, Machado de Assis é considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos
Prosa Poesia e Artetraz o conto na íntegra, como parte do conteúdo especial do Portal Vermelhosobre o Dia da Consciência Negra, marcado nesta sexta-feira (20).

Pai contra mãe
A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.

Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", - ou "receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.

Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.

Cândido Neves, - em família, Candinho,- é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não aguentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.

Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.

Contava trinta anos. Clara vinte e dois. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras.

O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi - para lembrar o primeiro ofício do namorado, - tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado em demasia a patuscadas.

- Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto. - Não, defunto não; mas é que...

Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade.

- Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.

- Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara. Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.

A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço.

Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma cousa e outra; não tinha emprego certo.

Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia. porém, deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos.

- Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.

A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa, os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.

- Vocês verão a triste vida, suspirava ela. - Mas as outras crianças não nascem também? perguntou Clara. - Nascem, e acham sempre alguma cousa certa que comer, ainda que pouco... - Certa como? - Certa, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem gasta o tempo?

Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer. - A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau... - Bem sei, mas somos três. - Seremos quatro. - Não é a mesma cousa. - Que quer então que eu faça, além do que faço? - Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu é vaga. Você passa semanas sem vintém. - Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.

Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.

Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.

Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelos aluguéis.

Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem.

- É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas consequências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.

Cândido quisera efetivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.

A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.

- Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!

Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dois jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio. - Titia não fala por mal, Candinho. - Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem,
seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim...

Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor, - crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.

- Quem é? perguntou o marido. - Sou eu.

Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse.

- Não é preciso... - Faça favor.

O credor entrou e recusou sentar-se, deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.

- Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.

Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não alcançando mais que a ordem de mudança.

A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dois, para que Cândido Neves, no desespero da crise começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem.

Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dois dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. "Se você não a quer levar, deixe isso comigo; eu vou à Rua dos Barbonos." Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.

Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.

Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria maior a miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da Rua dos Barbonos.

Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que cobria o rosto para preservá-lo do sereno. Ao entrar na Rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo. - Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele. Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.

- Mas...

Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até ao ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona. - Arminda! bradou, conforme a nomeava o anúncio.

Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.

- Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! - Siga! repetiu Cândido Neves. - Me solte! - Não quero demoras; siga!

Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porta de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoites, - cousa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoutes.

- Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves.

Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes cousas. Foi arrastando a escrava pela Rua dos Ourives, em direção à da Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.

- Aqui está a fujona, disse Cândido Neves. - É ela mesma. - Meu senhor! - Anda, entra...

Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinquenta mil réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.

O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as consequências do desastre.

Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.

- Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração. 

Do Portal Vermelho, José Carlo Ruy, com conteúdo da Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro

http://www.vermelho.org.br/noticia/273017-11

sábado, 7 de novembro de 2015

Urariano Mota: Dom Quixote, o aniversário do maior clássico

6 de novembro de 2015 - 12h25 


O mundo culto celebra neste 2015 os 400 anos da publicação da segunda parte do Dom Quixote. A primeira edição foi publicada em 1605, a segunda em 1615. Na wikipédia o resumo das simplificações na internet se escreve:


Arquivo
 




O Dom Quixote é considerado a grande criação de Cervantes. O livro é um dos primeiros das línguas européias modernas e é considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola.” 

É muita modéstia para um dos maiores gênios que já houve. Ele é o expoente de toda literatura moderna. 

Como lembra a jornalista Sylvia Colombo:

“Esta segunda parte, que se celebra agora, traz a particularidade de levantar questões em torno do conceito de ‘autor’ e ‘personagem’, assim como sobre o significado a autoria naqueles tempos em que releituras e apropriações eram tão comuns. É preciso lembrar que Cervantes não tinha intenção de escrever esse segundo volume do Quixote até que o sucesso do primeiro provocasse uma enxurrada de obras apócrifas protagonizadas por seu herói. Quando veio à tona a de um Alonso Fernández de Avellaneda, publicada em 1614, fazendo imenso sucesso, Cervantes se incomodou e contra-atacou com a sua versão da continuação das aventuras do cavaleiro. Nela, denunciava de maneira irônica a versão apócrifa dentro da própria narrativa. A Espanha que surge nessa segunda parte também já é uma Espanha diferente, menos rural e migrando para as cidades.”

E aqui eu cito o maior criador da literatura que já houve, quando faz o seu personagem criticar a falsificação do Dom Quixote

“... seu dia de São Martinho há de chegar, como o chega a todo porco, pois as histórias inventadas tanto têm de boas e deleitosas quanto mais se aproximam da verdade ou de sua semelhança; e as verídicas, quanto mais verdadeiras, melhores são.” Que belo pensamento e lição literária, que alcança todas as falsificações literárias até hoje, em escritores vazios de experiência mas cheios da pretensão de possuírem uma fantasia imensa. As histórias inventadas são boas quanto mais próximas forem da verdade. 

Mas espero que por favor se evitem, no grande aniversário da segunda parte do Dom Quixote, as linhas de Cervantes recontadas, um crime não faz muito cometido por Ferreira Gullar. Como declarou Gullar ao Estadão: “Os diálogos longos e as descrições foram enxugadas”. Isso lembra mais um copidesque na velha redação do jornal. Brincadeira. A pretexto de um didatismo que pressupõe incapacidades, penso que não se deve adaptar um clássico para versões em quadrinhos ou a leituras mais simplificadas. Será o mesmo que furtar uma riqueza, na vã presunção de que um adolescente não entenda a imensa diversão que é ler Cervantes. E teremos um crime de falsificação, enfim. Todo jovem que ler essa adaptação pensará que conhece o Dom Quixote. 

No original de Cervantes, por exemplo, está escrito: 

“y más cuando llegaba a leer aquellos requiebros y cartas de desafíos, 
donde en muchas partes hablaba escrito: La razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi razón enflaquece, con que con razón me quejo de la vuestra fermosura. Y también cuando leía: los altos cielos que de vuestra divindad divinamente con las estrellas os fortifican y os hacen merecedora del merecimiento que merece la vuestra grandeza. Con estas razones perdía el pobre caballero el juicio. .”

Mas em Ferreira Gullar para o mesmo trecho:

“Encantado com a clareza da prosa e os volteios do estilo, o pobre cavaleiro foi perdendo o juízo”. 

Viram? Perderam-se a graça e a ironia magnífica de Cervantes. 

E aqui lembro o que observei uma vez sobre as adaptações de Machado de Assis para jovens: 

“Adaptar um clássico é o mesmo que esconder dos jovens o melhor do escritor, porque não se acredita que um adolescente seja tão inteligente quanto o indivíduo que adapta. Imaginem, é exatamente o contrário. Note-se que o problema não é só de forma, de linguagem, dos dribles, firulas e recursos de linguagem, é da visão de mundo enformada nessa prosa, inseparável.”

Quem assim age é semelhante ao personagem da anedota em que Einstein foi solicitado por um repórter, que insistente pedia A Teoria da Relatividade mais palatável. O paciente cientista se pôs então a explicar a sua teoria em palavras mais simples, recorrendo a imagens do cotidiano. E perguntava:

– Entendeu?

E o repórter respondia:

– Doutor Einstein, eu, sim. Mas os leitores… não haverá um modo mais simples na Relatividade? 

E o cientista voltava com novos recursos de imagens, para perguntar depois de bom tempo:

– Entendeu?

E o repórter, finalmente satisfeito:

– Sim, agora, sim.

E o grande Einstein desalentado:

– É, mas já agora não é a Teoria da Relatividade. 

Ou seja, o Dom Quixote recontado pode ser tudo, mas já não será o Dom Quixote. Espero que a celebração entre nós se dê pelo original, que é impagável. 

sábado, 5 de abril de 2014

Machado de Assis - SUAVE MARI MAGNO

SUAVE MARI MAGNO

Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão.

Arfava, espumava e ria,
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso,

Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.

                                            Machado de Assis
            Do livro: "Ocidentais", 1880, RJ

sábado, 1 de março de 2014

machado de assis e um poema sobre o Carnaval

Machado de Assis (Gazeta de Holanda) N.° 47 – 16 de fevereiro de 1888

Talvez o leitor não visse,
Entre editais publicados,
Uma boa gulodice?
Abra esses beiços amados.

Vamos, não tenha vergonha,
Estenda agora a linguinha,
Para que esta mão lhe ponha
Sobre ela esta cocadinha.

Disse nesse documento
A câmara que é vedado
Usar o divertimento
Entrudo, como é chamado.

Impôs as palavras duras
Do parágrafo e artigo
Do código de posturas,
Código já meio antigo.

A mim disse que a pessoa
Que outras pessoas molhasse,
Fosse a água má ou boa
Que das seringas jorrasse,

Incorreria na multa
De uns tantos mil-réis taxados,
E não ficaria inulta,
Se os não desse ali contados.

Porque iria nesse caso
Pagar suas tropelias
Na cadeia, por um prazo
De (no mínimo) dois dias.

E as laranjas, que se achassem
Na rua ou na estrada à venda,
Mandava que se quebrassem,
Como execrável fazenda.

Laranja, bem entendido,
Laranja, própria de entrudo,
Um globo de cera, enchido
Com água... às vezes, com tudo.

Ora, se o leitor compara
A exemplar compostura
Do povo (exemplar e rara)
Com o dizer da postura;

Se adverte que uma só pinga
De água não caiu na gente,
Que não houve uma seringa
Para acudir a um doente;

Que o belo colo das damas
Não viu o gesto brejeiro
De apagar-lhe internas chamas
Quebrando um limão de cheiro;

Conclui logo que a cidade
Obedece, antes de tudo,
A si (porque a edilidade
É ela) e deixou o entrudo.

Porém eu, que vi, em todos
Os anos, isto na imprensa,
Já desde o tempo dos godos
(João, com tua licença!);

E que, apesar de postura,
Vi seringas respeitáveis
De água cheirosa e água pura,
Terríveis e inopináveis;

Crioulas e molequinhos
Carregando em tabuleiros
Prontinhos e arrumadinhos
Infindos limões de cheiro;

Eu diversamente opino,
E digo que a lei se engana,
Se cuida ter no destino
Alguma ação soberana.

Recorda a mosca pousada
Na carroça, diz a fama,
Que, ao vê-la desatolada,
Cuidou tirá-la da lama.

Não, amiga lei. O entrudo
Desapareceu um dia
Entre calções de veludo,
Carnavalesca folia.

Reapareceu mais tarde;
Vingou por bastantes anos,
Com estrondo, com alarde,
Triunfos grandes e ufanos.

Chega a polícia de novo
E desterra o velho entrudo;
Troca de brinquedo o povo,
Fica somente veludo.

Mas quando houverem passado
O tempo e a policia, a ponta
Da orelha do desterrado
Entre bisnagas aponta.

E porque legem habemus,
Seja branda ou seja dura,
Anualmente veremos
A mesma inútil postura.

Fonte:
Obra Completa de Machado de Assis, Edições Jackson, Rio de Janeiro, 1937.
Publicado originalmente na Gazeta de Noticias, Rio de Janeiro, de 01/11/1886 a 24/02/1888.

http://singrandohorizontes.blogspot.pt/2014/02/machado-de-assis-gazeta-de-holanda-n-47.html

UM DIA DE ENTRUDO - Machado de Assis

BANCA DE TEXTO

UMA BIBLIOTECA PESSOAL

Era no tempo em que ao carnaval se chamava entrudo, o tempo em que em vez das máscaras brilhavam os limões de cheiro, as caçarolas dágua, os banhos, e várias graças que foram substituídas por outras, não sei se melhores se piores.


Dois dias antes de chegar o entrudo já a família de D. Angélica Sanches estava entregue aos profundos trabalhos de fabricar limões de cheiro. Era de ver como as moças, as mucamas, os rapazes e os moleques, sentados à volta de uma grande mesa compunham as laranjas e limões que deviam no domingo próximo molhar o paciente transeunte ou confiado amigo da casa.


D. Angélica tinha nessa época seus cinqüenta e nove anos. Nascera mais ou menos no tempo da conjuração de Tiradentes. Criada por um lavrador de Minas, D. Angélica adquiriu certos princípios liberais, mas perdeu-os em 1808, quando veio ao Rio de Janeiro e assistiu à entrada da corte real. Ainda que esta mudança nos princípios políticos de D. Angélica foi resultado de uma paixão por um arqueiro ou quer que seja da guarda real. D. Angélica pertencia, fisicamente falando, a essa classe de mulheres, capazes de matar um porco de uma cajadada. Além de possuir um par de espáduas atléticas, tinha um gênio de arremeter contra qualquer obstáculo e vencê-lo. Parece que o namorado desdenhava as mulheres alfenins, as criaturas quebradiças e moles. Gostava de uma robustez que indicava saúde e disposição para trabalhar. Angélica resumia tudo isso. Amaram-se e no fim de algum tempo celebrou-se o casamento, com aplauso de amigos e conhecidos. Pouco importa saber que fim levou o Sr. Tomás Sanches no tempo em que se passam as cenas que vou relatar. Basta saber que morreu quando de todo se lhe extinguiu a vida, coisa que provavelmente não lhe aconteceu sem perder a saúde. Demais, não é bom falar do finado Tomás Sanches ao pé de D. Angélica; a pobre senhora ainda hoje o chora. Mas não lhe falem de homem que mereça o respeito, o amor e a consideração, porque D. Angélica cita logo um caso do marido, que entre parêntesis, enriqueceu em pouco tempo.


Não ficou estéril a aliança de Sanches e Angélica. Cinco foram os frutos de tão abençoada união, dois do sexo masculino e três do sexo feminino.


Carlos e Benjamim se chamaram os rapazes; as raparigas receberam os nomes de Teresa, Ermelinda e Joana. Os sinais particulares desta prole eram os seguintes: Joana tinha o nariz muito comprido, Ermelinda era muita pequena, Teresa era alta e cheia. Quanto aos rapazes, a única diferença entre Carlos e Benjamim era que o primeiro ria à cara do segundo regularmente uma vez por semana, sem que o outro tirasse nunca desforra de semelhante afronta.


Ultimamente a afronta tinha sido tal que Benjamim achou prudente deixar de falar ao irmão. Havia já cinco dias que reinava entre ambos essa interrupção de relações diplomáticas, quando a festa do entrudo veio reconciliar tudo. No momento em que tomamos conhecimento com a família Sanches estão eles em boa harmonia despejando cera dentro das fôrmas de limões ou enchendo os que já estão prontos com água de cheiro.


Fora injustificável esquecimento deixar de mencionar entre os fabricantes de limões o jovem Batista, rapaz alegre e magro, dono de um armarinho na mesma rua em que moravam os Sanches, amigo de moças e até, dizem, namorado de Teresa. Citarei do mesmo modo uma prima de D. Angélica (42 anos) e uma sobrinha da dita (26), sendo que esta (D. Lucinda) era filha daquela (D. Maria).


Vinham para a mesa as caçarolas cheias de cera derretida, e todos aqueles operários mergulhavam nelas os limões e as laranjas, ou despejavam cera dentro de fôrmas de pau.


- Olhe, prima; este saiu bem bom, diz Lucinda.


- Já viu os meus? pergunta Teresa.


- Quantos tem você?


- Doze.


- Eu tenho nove.


- Eu cá já fiz vinte e quatro, exclama Carlos. O Benjamim só fez cinco.


- Mas é que eu não sei o que tem a minha fôrma, redargúi o pobre Benjamim envergonhado


- És um desastrado! não passas disto!


- Carlos! que é isso? Eu não quero bulha.


Estas palavras foram ditas por D. Angélica que nesse momento, tendo vindo de dentro com a prima D. Maria, contava-lhe não sei que história de legumes e escravos.


- Tia Maria hoje não tem feito nada, exclamam as raparigas Sanches.


- Pois já não fiz dois limões?


- Dois só! está bem aviada!


- Está bom, raparigas, dêem cá uma fôrma, não quero parecer que sou vadia.


D. Maria sentou-se e fez vagarosamente alguns limões. Houve algum tempo de silêncio, só interrompido pelo andar das escravas, a campainha da cancela da escada, o som do nariz do Batista que estava endefluxado, e nada mais.


D. Angélica, que andava de um lado para outro, aproximou-se da mesa e disse:


- Bem, acabem com isso por enquanto, que é preciso pôr a mesa.


- Já, mamãe! exclamaram as filhas.


- Pois então? são duas horas e meia.


Carlos aprovou in-petto a idéia de pôr a mesa, e D. Maria, que costumava jantar à uma hora, achou a resolução de D. Angélica acertadíssima.


- Tem razão, prima, se deixarmos estas meninas aqui, são capazes de ficar até amanhã.


- Não é conveniente, disse Batista com uma voz entrecortada pelas urgências do defluxo, não é conveniente interromper o trabalho enquanto há cera liquida. A cera é um produto que...


- Que não dá de jantar! interrompeu brutalmente Carlos pondo a fôrma de lado e levantando-se da mesa.


As moças insistiram e ficaram ainda um quarto de hora fazendo limões. Benjamim queria levantar-se também, mas um olhar de Lucinda o deteve e desde já qualquer leitor, ainda que não seja mais perspicaz que um chapéu, terá compreendido que os dois jovens se amavam.


A saída de Carlos agradou geralmente à sociedade, o filho mais velho de D. Angélica era um verdadeiro perturbador de festas. Ausente, reinou mais tranqüilidade; Batista pôde olhar mais vezes para Teresa, e Benjamim piscar mais livremente os olhos a Lucinda. Se Carlos estivesse presente, não hesitaria em dizer:


- Temos namoro! não?... Que é isso, Sr. Batista?... Olá prima, então?...


- Dizia eu que em 7 de Abril...


E outras frases como estas reduziam as faces dos culpados a verdadeiras inflamações de vergonha.


Batista sentiu-se até mais livre da voz, e proferiu a propósito do entrudo dois ou três axiomas, um dos quais declarou tê-lo ouvido de um padre, que era o homem mais sensato que conhecera.


- Sensato era o meu Tomás, acudiu D. Angélica; que juízo tinha ele! que cabeça de homem! Deus lhe fale n'alma. Contarei o seguinte caso. No tempo do 7 de Abril...


Nesse instante entrou na sala o esfomeado Carlos e vendo iminente uma história que provavelmente já conhecia, exclamou:


- Oh! mamãe? não se janta hoje?



- Eu sei, respondeu D. Angélica, estas meninas ainda aqui estão.


- Pois acabem com isso...


Carlos atirou-se à mesa e tal bulha fez que impediu o trabalho e a anedota. D. Angélica adiou a prova do bom juízo do finado Tomás Sanches, as moças deixaram a mesa, e a mucama veio pôr a mesa do jantar.


Aproveitando o intervalo, pois aceitara o oferecimento de D. Angélica para jantar, foi Batista alguns instantes ao armarinho para saber se havia novidade. Teresa foi logo à janela e trocou um sorriso com o namorado.


D. Maria sentou-se com Ermelinda a um canto para indagar se alguma coisa havia entre Teresa e Batista.


- Eu creio que há alguma coisa. Tu não sabes nada?


Ermelinda respondeu:


- Eu nada, titia.


- Mas é impossível que não haja, e se é exato falarei disto a tua mãe.


- Por que? perguntou Ermelinda sobressaltada.


- Não convém que tua irmã se case com um dono de armarinho... um pax vobis, uma posição inferior.


Ermelinda calou-se prometendo a si mesma ir contar tudo à irmã.


Carlos passeava pela sala de jantar, atirando de quando em quando bolas de papel ao irmão, que, por prudência, fingia estar contando as tábuas do assoalho.


Joana contava a Lucinda um namoro que tivera com um rapaz da rua do Piolho, enquanto a prima lançava de quando em quando um olhar a Benjamim.


- Muito custa a vir este jantar. Parece que nunca mais se acaba de pôr esta mesa. Tia Maria, já há de estar com uma fome!


Carlos dizia estas palavras tirando da mesa um pedaço de pão e mastigando para enganar o estômago.


- Não te pareça! disse D. Maria, por certo que estou com fome...


Finalmente ficou o jantar na mesa.


- Bem, vamos entrar em serviço.


- Não, senhor! disse D. Angélica, esperemos o Batistinha.


- Onde foi ele?


- Foi à casa.


- Esta agora! Havemos de estar em casa à espera de um estranho! e logo quem!


- Carlos! exclamou a mãe, tu hás de ser sempre um...


D. Angélica mastigou o epíteto. Carlos pondo as mãos nos bolsos da calça entrou a passear como um homem chegado ao último grau do desespero.


- Estou capaz de ir jantar a uma casa de pasto. 


- Pois vai!


Nesse momento ouviram-se passos na escada.


- Graças! disse Carlos. Chega o desejado.


Não era o desejado. Era o Sr. Tibúrcio Mendes, negociante de negros novos, homem taludo e bojudo, vermelho e asseado.


- Dá licença, D. Angélica? disse ele parando na escada.


- Entre, Sr. Tibúrcio. Bons olhos o vejam.


Na entrada o Sr. Tibúrcio foi cumprimentando rasgadamente a companhia.


- Faltava este cágado! disse entre si Carlos.


E já ruminava seriamente o projeto, anteriormente indicado, de ir jantar à casa de pasto, quando apareceu o dono do armarinho. Batista explicou a demora dizendo que a causa fora uma altercação com um sujeito a propósito de agulhas n. 5, coisa que não interessava absolutamente a ninguém, mas que todos ouviram com paciência cristã.


O jantar nada ofereceu de notável; os dois namoros continuaram como antes, isto é, dirigidos sempre com a máxima precaução por causa do grande desmancha-prazeres da casa. A única coisa que causou certa estranheza a Batista, que pela primeira vez se encontrava com Tibúrcio, foi a voracidade que este sujeito desenvolveu, a ponto de o deixar sem assado nem arroz.


Foi por ocasião do jantar que Tibúrcio declarou que fazia anos na terça-feira do entrudo, e, como fosse solteiro, D. Angélica convidou-o a festejar o dia jantando lá em casa. Tibúrcio não viu um olhar trocado entre Carlos e as irmãs. Prometeu que viria jantar.


Toda a tarde, manhã e a tarde do dia seguinte foram consagradas ao fabrico dos limões de cheiro, Tibúrcio assistiu até à noite ao trabalho das moças e dos rapazes. Como ele era amigo de conversar com mulheres, dificilmente se despregou da sala de trabalho. Foi muito contra a vontade que cedeu ao convite de D. Angélica que tinha a mania de jogar o solo. D. Maria também jogava e aceitou o convite. A mesa foi posta ao pé da mesa dos limões de cheiro.


Jogava-se o solo a grãos de milho, que é para os jogadores de profissão, o mesmo que, para os bêbados, beber água simples.


- Mas eu peço licença, disse Tibúrcio, para retirar-me as nove horas.


- É a hora em que tomamos chá, respondeu D. Angélica dando as cartas.


Passaram todos naquela mão. Como todos conversavam, o diálogo apresentava alguma curiosidade.


- Bolo?


- Pode vir!


- Dá cá cera!


- Dê-me o ás de paus.


- Onde está a fôrma?


- É furado?


- É seguro.


- Mano, não me quebre o limão.


- Corto.


- Olha, Lucinda, que bonito limão saiu este!...


- Rei...


- Água de cheiro?


- Valete...


- Não me pise os pés, Sr. Batista.


- É dama... Paguem!


- Dá cá o tabuleiro. Quem dá cartas?


- Pois eu cuidei que o solo estivesse furado, dizia Tibúrcio no fim deste diálogo. Os ouros estavam com a Sra. D. Maria, e se não se descarta do valete, bem podia ser que eu o encontrasse em quarto, e estava perdido.


- A prima jogou mal, dizia D. Angélica. Devia esperá-lo nos outros.


- Eu esperava nas copas.


- As copas estavam seguras.


Às nove horas terminou o jogo, serviu-se o chá, saiu Tibúrcio, e todos foram dormir.


Amanheceu o dia de domingo com um belíssimo sol; era um verdadeiro dia de entrudo. Desde manhã puseram-se os tabuleiros em ordem para a batalha. Carlos e Benjamim preparavam as caldeiradas dágua e duas panelas que mandaram para a cocheira. Nessa ocasião houve uma pequena altercação entre os dois irmãos; Carlos acabou puxando as orelhas a Benjamim, o qual, por dizer alguma coisa, disse que lhe daria uma facada, o que lhe valeu outro puxão de orelhas do irmão.


Triste inspiração foi a de Batista que marcou esse dia para pedir a mão de D. Teresa. A moça entendia que se devia aproveitar um dia alegre para achar D. Angélica de bom humor, verdadeiro engano porque D. Angélica, conquanto não jogasse o entrudo, achava prazer em ver brincar as raparigas e não prestava grande atenção a outras coisas.


O dia começou bem; alguns sujeitos que passavam foram alvo de meia dúzia de limões de cheiro que os deixaram um tanto úmidos; e mais nada.


Jantou-se mais cedo.


Às três horas e meia estavam as moças vestidas e prontas à janela; a sala estava cheia de tabuleiros com limões de cheiro.


Os rapazes ausentaram-se.


Correu assim uma hora sem incidente notável. Constante fogo de água trazia a rua agitada. Os gamenhos, munidos de limões iam atirando às senhoras que estavam às janelas, e estas correspondiam ao ataque com um vigor nunca visto.


Havia em casa de D. Angélica cerca de 1.200 limões; imaginem se o combate podia fraquear.


Ao cabo duma hora de combate, desapareceu Lucinda pelo interior da casa. D. Maria e D. Angélica que estavam assentadas na sala conversavam sobre os sucessos da sua mocidade. De quando em quando algum limão ia bater numa e noutra, o que as fazia rir.


D. Maria quis ir ao interior da casa e saiu por alguns instantes. Daí a pouco voltou espavorida.


- Jesus! Acuda-me prima Angélica! Credo! Vingança!


Surpresa geral. As moças voltaram-se para dentro e os rapazes vendo aquela muralha de costas fizeram uma descarga em regra.


- Que é? perguntou D. Angélica espantada. Será o canhoto?


- Qual, canhoto! quero vingança! que desaforo!


- Mas que é?


D. Maria estava sufocada; sentou-se, bebeu um pouco dágua e falou:


- Ia eu agora lá dentro, quando encontrei na sala de jantar a um canto, adivinhem o que? Encontrei seu filho Benjamim quebrando limões no ombro de minha filha! Que desaforo! Fiquei sem saber de mim... Isto se atura, prima? Cão! Ter o atrevimento de... Prima, manda dar uma sova no seu pequeno...


Neste tempo já Lucinda tinha entrado na sala e ouviu a narração da mãe com um espanto tão fingido que parecia um diplomata.


- Estás ai!... exclamou D. Maria. Deixe estar que me pagarás lá em casa!


- Mas que é?...


D. Angélica mandou chamar Benjamim.


O rapaz que estava na cocheira, correu ao chamado da mãe.


- Que é isso, Benjamim? pois então tu tens o desaforo, o atrevimento de não respeitar tua tia nem a minha casa...


Benjamim ficou mais admirado que se visse a cascata de Paulo Afonso; olhou para todos que tinham os olhos nele e perguntou:


- Mas que é mamãe? eu não sei de que fala.


D. Angélica referiu a acusação que lhe fazia D. Maria; o rapaz negou alegando que não saíra debaixo e apelou para o testemunho de um moleque, o qual, como era o portador das cartas entre os dois namorados, não teve dúvida em dizer que o jovem Benjamim desde que descera para a cocheira, não saíra de lá ocupado como estava em seringar os homens que passavam.


D. Angélica voltou-se para a prima.


- Você enganou-se, prima.


- Mas se eu vi!...


Carlos tinha subido também, e, ou para salvar o irmão a quem não tinha raiva, ou para terminar um incidente que perturbaria a festa, confirmou o dito do moleque.


Mas D. Maria que tinha visto, insistia e punha em dúvida a asserção dos sobrinhos e do moleque.


- Foi engano! diziam uns.


- Titia estava preocupada e pareceu-lhe ver...


- Qual engano nem preocupação! Pois eu vi.


Entrara no meio desta bulha o jovem Batista, trajando casaca, luvas de pelica, e gravata branca. Veio de sege para chegar intacto, apesar de morar perto Ouviu a discussão, informou-se do que era e concluiu que devia ser engano de D. Maria. Esta insistiu na afirmativa.


- Dá-se muitas vezes, disse Batistinha sentenciosamente, que a nossa imaginação figura objetos reais quando eles são simplesmente hipotéticos... A história tem um exemplo: Brutus dizem que viu a sombra de César. Foi naturalmente a impressão imaginária que lhe produziu a espécie de presença real. O órgão visual tem fenômenos extravagantes; os recentes trabalhos da ciência...


As moças voltaram as costas e foram para a janela, exceto Teresa que ficou ouvindo o discurso do namorado. Os rapazes desceram à cocheira.


Batista continuou o discurso. Como tinha lido uns livros de ciência, explicou às senhoras qual a organização do nervo ótico, e como por acaso falasse em olhos bonitos, lembrou-se D. Angélica de contar uma anedota acerca dos olhos do finado Sanches em 1834.


O incidente acabou assim, D. Maria convencida de que realmente fora imaginação sua.


- Agora, se D. Angélica quiser dar-me a honra de uma palavra em particular, disse Batista, ficar-lhe-ei sumamente penhorado.


- Agora reparo, disse D. Angélica. Que trajo para dia de entrudo!


- Minha senhora, respondeu Batista, os grandes sentimentos não conhecem entrudo


- Fala muito bem este moço, pensou D Maria.


A dona da casa foi com Batista para o interior.


- Minha senhora, disse Batista arrestando-se na sala diante de D. Angélica, muito há que eu nutro, dentro do meu coração, um destes sentimentos que, mal aplicados, podem produzir não só os infortúnios domésticos como até a ruína dos impérios, e, bem aplicados, são a verdadeira bem-aventurança deste mundo. O amor, minha senhora, é o que o bordão é para os cegos, o vento para os navegantes, a saúde para os enfermos, o espaço para os passarinhos...


- Então, ama?


- Loucamente. Seria um inferno este amor se não fosse retribuído. O que é um amor sem retribuição? É o abutre de Prometeu. Sou recompensado com igual amor ao meu: amor amore, diz a sentença latina.


- Que deseja de mim?


- A luz. A senhora tem a minha luz nas suas mãos; pode dar-ma se quiser. Amo sua filha D. Teresa, e desejo unir-me a ela pelos laços matrimoniais...


D. Angélica tinha percebido algum namoro entre a filha e o Batista, mas não cuidou que estivessem tão próximos do casamento. O que sobretudo a fez pasmar foi a escolha do dia. A este respeito observou Batista que, vindo a palavra entrudo do latim entroito, que quer dizer entrada, estava ele de acordo com o dia desejando entrar na família. O trocadilho despertou as recordações conjugais da Sra. D. Angélica, que citou mais uma anedota do finado Tomás Sanches.


- Quanto ao que me pede, concluiu ela, se Teresa quiser, não tenho razão que opor a uma união que desejo ver feliz e tranqüila.


- A senhora chega ao sublime! disse Batista.


Depois abrindo os braços:


- Minha mãe! exclamou ele.


D. Angélica abraçou-o cerimoniosamente, porque achava o rapaz romântico demais.


- Quando poderei ter resposta definitiva?


- Já, se quer; mas é melhor logo... Quando lhe...


Neste momento ouviu-se um grande grito, depois outro e outro; depois um barulho infernal. D. Angélica correu à sala para saber o que era; Batista foi atrás dela.


Na sala ninguém sabia a causa do barulho.


O barulho vinha da cocheira.


- Há de ser algum sujeito que os rapazes meteram no banho, disse D. Angélica trêmula. Ah! meu Deus! estes pequenos ainda me hão de dar algum desgosto grande!


Quis descer; mas Batista a impediu alegando gravemente que uma senhora nunca deve descer.


Os gritos continuaram ainda algum tempo. Depois cessaram; ouviu-se uma voz trêmula de frio lançar uma imprecação aos rapazes.


- Ah! meu Deus! que rapazes! que desgostos!


Subiu alguém a escada; daí a alguns segundos, entrava na sala o Sr. Tibúrcio, vestido de branco, mas todo molhado como se saísse do mar. Entrou respingando a sala toda.


- Jesus! que é isso?


- Ah! minha senhora, eis o estado em que me puseram os seus rapazes! Veja se isto não é um desaforo! Entrei com toda a confiança em sua casa, e os seus meninos, sem que eu lhes houvesse feito mal, agarram-me, metem-me dentro de uma gamela e despejam-me um barril de água por cima, ajudados por dois moleques!


A narração fez enraivecer D. Angélica e rir as raparigas. Efetivamente a figura do Tibúrcio era mais para rir que outra coisa. O homem bufava que parecia uma baleia.


Batista agradeceu ao céu ter vindo em ocasião em que encontrou os rapazes em cima, escapando assim a alguma caçoada.


Assentou-se o Tibúrcio, enquanto D. Angélica ia ver se havia roupa em casa que lhe servisse para mudar aquela.


Tibúrcio contava as suas impressões do banho a D. Maria, e Batista conversava com D. Teresa a quem deu a agradável notícia de que tudo estava arranjado.


De repente aparece Carlos à porta da sala, armado de uma grande seringa de folha de Flandres, pede silêncio às moças com um sinal, e deita um esguicho à nuca do Tibúrcio.


Tibúrcio soltou um grito, pegou na cadeira e removeu como pôde o corpo até à porta da sala; mas Carlos, que sabia o sistema dos antigos Partos, fugiu dando-lhe mais um esguicho pela cara.


- Não se zangue, disse D. Maria acalmando Tibúrcio que prometeu desancar o rapaz; isto afinal são brincadeiras de rapazes... Todos eles o respeitam muito.


- Não está mau o respeito!


D. Angélica voltou à sala.


- Sr. Tibúrcio, vá lá para o quarto da sala de costura; já lá mandei pôr alguma roupa.


Tibúrcio obedeceu.


D. Angélica mandou ordem terminante aos filhos que subissem.


Subiram.


- Que desaforo é esse, rapazes? disse ela.


- O que é mamãe? perguntaram ambos.


- Pois então vocês não respeitam um homem velho e sério, que nos visita? Isto é bonito?


- Mas foi uma brincadeira.


- Pois eu não quero mais essa brincadeira... Brinquem lá com quem quiserem mas não com as pessoas que vêm à minha casa.


Interveio o futuro genro de D. Angélica.


- Minha Senhora, eu estou convencido que estes dignos moços brincam como todos os da nossa idade, sem nenhuma intenção de ofensa. São jovens dignos de toda a estima; incapazes de ofender a quem quer que seja, mormente às pessoas que têm a honra de freqüentar esta casa.


- É verdade! disse Carlos...


- Portanto, continuou o advogado dos rapazes. releve-se-lhes um ato próprio do dia.


- Muito bem! exclamaram os dois rapazes aproximando-se de Batista para lhe agradecer a defesa.


Batista estendeu-lhes a mão.


Mas quando menos o esperava, viu-se agarrado pelos quatro braços vigorosos dos rapazes e levado pela sala fora e depois pela escada abaixo. O pobre moço gritava e protestava contra a perfídia e a ingratidão dos seus clientes, mas embalde! A voz de D. Angélica perdeu-se no meio do barulho; Teresa deitou a chorar; D. Maria benzeu-se; e no meio do tumulto apareceu na sala Tibúrcio; apertadíssimo numas calças de Carlos que lhe ficavam acima do tornozelo e numa jaqueta de Benjamim que lhe batia pelo meio das costas.


A figura fez rir ainda mais do que quando Tibúrcio apareceu molhado da cabeça até os pés.


- Que há de novo? Alguma nova travessura?


- Ah! Sr. Tibúrcio, exclamou D. Angélica; o senhor me há de embarcar estes dois rapazes que me põem doida; meta-os na presiganga!


- Pois não, D. Angélica! Mas que fizeram eles agora?


- Levaram para baixo o Sr. Batista.


- Que! pois tiveram também a audácia? Não admira! não me meteram no banho?


Tibúrcio sentiu uma espécie de satisfação em ver que não era a única vitima.


Pouco tempo depois subiu Batista, e, sem ousar aparecer na sala, pediu a D. Angélica que lhe desse alguma roupa que vestir.


Foi satisfeito.


D. Angélica mandou vir o bacalhau com que se castigavam os escravos e foi abaixo em pessoa.


- Andem! lá para cima! quando não... vai tudo a vergalho.


Os rapazes obedeceram.


D. Angélica não era só mulher de prometer; era mulher de cumprir.


A tarde caia; os rapazes adiaram a festa para os dias seguintes. Mudaram também de roupa e deixaram-se ficar na sala de jantar.


Batista voltou à sala um pouco envergonhado. Tibúrcio já estava mais calmo; D. Maria começou a rir e D. Angélica encaixou uma anedota a respeito de Sanches. As moças sentaram-se também.


- Gastaram todos os limões? perguntou D. Maria sem ver dois tabuleiros cheios.


- Todos, não, disse Ermelinda; ainda temos para amanhã.


- Isso, sim, disse Tibúrcio, isso é brincadeira que eu aprovo; o limão é delicado e diverte a gente.


- Diz muito bem, assentiu Batista. Mas o banho!


- É selvagem!


- É brutal!


- Deve acabar!


- E há de acabar!


- A civilização não comporta...


- Apoiado!


Os rapazes voltaram à sala. Tibúrcio dirigiu-se a D. Maria para dizer alguma coisa que o impedisse de olhar para os seus algozes; ao passo que Batista tirou o relógio, trouxe-o ao ouvido, deu-lhe corda, etc...., tudo para evitar o primeiro olhar dos filhos de D. Angélica.


Ninguém reparou que os rapazes traziam as mãos nos bolsos grandes dos paletós de brim.


Sentaram-se ambos a conversar. Ao principio nem Tibúrcio nem Batista lhes dirigiu a palavra; mas, convindo evitar o ridículo do amuo depois de banho, pouco e pouco foram conversando com eles e restabeleceu-se a confiança.


Não tardou porém que Carlos pregasse em Tibúrcio um rabo de papel, e Benjamim outro em Batista. O de Batista não foi visto logo pelas outras pessoas. Mas como Tibúrcio estava de costas para o grupo das moças, viram estas logo o apêndice posto por Carlos e riram alegremente. Tibúrcio desconfiou. Olhou para Carlos; este ficou sério.


- De que se riem as moças? perguntou Tibúrcio.


- Não sei, respondeu Carlos; deixe ver. Ah! é uma mancha de cal no seu paletó, deixe limpá-la.


Tibúrcio consentiu de boa-fé; e Carlos fingindo que limpava o paletó, quebrou-lhe um ovo nas costas.


Sentiu Tibúrcio que o rapaz não o limpava, antes o sujava, a gema entornou-se parte no chão, D. Angélica correra para Carlos, este correu pela sala, levantou-se Batista para intervir, mas arrastando também um rabo de papel; Benjamim aproveitou a ocasião e quebrou um ovo nas costas de Batista.


Não tenho forças para descrever o barulho que se seguiu a esta cena. O tumulto foi geral; só se acalmou indo os dois rapazes para um quarto onde D. Angélica os fechou a chave.


Com a noite veio o descanso. As visitas se foram embora, exceto D. Maria e a filha que resolveram ficar até quarta feira de Cinzas.


Pelas 9 horas da noite, D. Angélica foi soltar os prisioneiros. Achou-os jogando as cartas. Anunciou-se o chá e eles vieram para mesa, onde foram recebidos com um olhar furibundo da parte de Teresa, cujo namorado fora vitima das suas travessuras.


Quando se iam deitar o moleque que servia de intermediário entre Benjamim e Lucinda, foi aos dois rapazes e disse-lhes que precisava dizer uma coisa.


Levado ao quarto, disse que Batista tinha por costume pular de noite os quintais até o da casa de D. Angélica e conversar aí para a janela onde a sinhá moça Teresa ficava até muito tarde.


Esta comunicação inesperada tinha a seguinte explicação.


O moleque servia também de corretor entre Teresa e Batista; mas não tendo obtido deste as vantagens que esperava, e principalmente tendo-lhe ele recusado uma jaqueta nova que lhe pedira, entendeu que devia vingar-se assim.


Realmente, Batista podia dar-lhe uma ou duas jaquetas; mas como era muito econômico, entreteve o moleque na esperança e esse foi o seu mal.


Carlos ficou espantado com a notícia.


- Será verdade? perguntou ele a Benjamim.


- É nhonhô, insistiu o moleque, ele quer casar com sinhá moça Teresa, mas é um sovina...


- Virá ele hoje?


- Parece que vem.


Idéia infernal surdiu no espírito de Carlos. Era esperar o Romeu dos quintais e pregar-lhe nova peça.


- Um banho! disse o moleque quando Carlos consultava o irmão.


- Sim, um banho! disse Benjamim.


- Não, disse Carlos, coisa melhor; pensemos nisso. Enquanto os dois estavam em conciliábulo, as raparigas foram deitar-se.


Dormiam no mesmo quarto Lucinda e Teresa.


- Estou muito zangada com o Benjamim, disse Lucinda; não gostei que fizesse aquilo no teu... noivo.


- Cala a boca! não fales alto! Não foi ele só, foi o Carlos, que é sempre o autor destas idéias.


- Amanhã hei de passar uma sarabanda nos dois.


- Não digas nada, é melhor.


- Por que?


- Porque...


- Vais casar, bem sei.


Teresa sorriu.


- Depende de mim, disse ela.


- Titia já te perguntou alguma coisa?


- Nada.


- Mas há de falar...


- Amanhã, talvez.


- Sim, amanhã...


- Que é isto? Isto o que?


- Não ouviste um grito?


- Não; é uma coruja; estás medrosa.


- Pareceu-me.


As duas sentaram-se na cama.


- Que é que tu hás de dizer quando titia te perguntar se queres casar com o Batistinha?


- Velhaca! disse Teresa sorrindo.


- Por que, meu Deus?


- Quero saber também o que hás de dizer quando...


- Quando o que?


- Quando tua mãe te perguntar se queres casar com Benjamim...


- Ora, qual!... Mas vamos lá, dize...


- Eu responderei que é de meu gosto.


- Só isso?


- Pois então?


- Mas isso só não é bonito; é preciso dizer: Com toda a minha alma!


- Deixemos disso; é romântico demais.


Desta vez ouviu-se um sussurro no quintal. As duas chegaram à janela mas não viram ninguém.


- Não é nada, disse Lucinda.


Entraram outra vez e continuaram a conversar. No fim de dez minutos ouviu-se um assobio.


Teresa estremeceu.


- É ele!


Lucinda começou a despir-se.


- Pois então, disse ela, vai conversar enquanto eu me deito.


Teresa chegou à janela e agitou um lenço branco; Batista que já vinha pulando o último quintal, saltou à terra, aproximou-se do poço e começou a conversar debaixo com a namorada.


- Por que veio hoje? perguntou Teresa.


- Acha que fiz mal? disse Batista.


- Deve estar cansado.


- De que?


Teresa quis aludir ao banho mas receou envergonhar o rapaz. Por isso, sem responder à pergunta continuou:


- Mamãe ainda me não falou.


- Quando falará?


- Talvez amanhã.


- Que pretende dizer?


- Ora! que sim! diga-me outra vez; está certo de que foi bem recebido por ela?


- Perfeitamente; vi que ela compreendeu o meu amor; e como não, se é essa alma digna, essa alma celeste, todo cheia dos perfumes do paraíso?


Esta rajada lírica produziu um riso sufocado, que Batista atribuiu a Teresa, e esta a Lucinda. Mas Lucinda já dormia nessa ocasião.


- Riu-se de mim? perguntou Batista.


- Que pergunta! 


- Parece...


- Ah! não insulte aquela que vai ser sua esposa.


- Insultá-la? jamais... Não; eu daria o meu sangue para vingar aquele que a insultasse... Mas diga-me, Teresa, você está contente casando comigo?


- Oh! muito feliz!


- Eu também! Havemos de ter uma bela vida!


- Eu espero.


- Contanto que nos não visitem indiscretos, ah! principalmente seus irmãos. Que par de pelintras!


- Deixe-os.


- Oh! se os deixo! São dois pelintras sem iguais. Não compreendem que a dignidade da vida humana é respeitar os outros, porque o homem é feito à imagem de Deus, e quem insulta um homem e o desconceitua, ofende a Deus. Não acha. D. Teresa?


- Parece que sim; disse a moça já um pouco aborrecida com o ar tétrico que o namorado ia dando à conversa.


- Mas eu perdôo a esses rapazes; só o que desejo é que me não visitem...


- Será o que você quiser...


- Teresa, você me ama? 


- Muito.


- Para sempre?


- Para sempre. E você?


- Oh! eu! pergunta ao mar se ama a praia; ao zéfiro se ama a flor; à abelha se ama...


Não acabou a frase. Um esguicho anônimo lhe inundou a cara. Batista deu um pulo.


- Que é? perguntou a moça.


- Não sei... respondeu ele suspeitando estar descoberto.


- Mas que foi?


Batista não respondeu; imaginou logo que estava espiado e achou conveniente não dizer palavra e safar-se. Infelizmente, a noite estava escura e podia ele esbarrar-se com algum dos rapazes.


- Meu Deus! exclamou a moça. Que é?


- Nada...


- Alguma coisa há de ser.


- Descanse. Foi um espirro. Como ia dizendo, este momento aqueles seus manos são moços alegres mas dignos... Que galante idéia tiveram de me meter no banho!


- Isso é irônico, disse Teresa.


- Qual! é sincero! eu só me zango no momento; mas depois, reconheço logo que não há intenção de caçoar comigo...


Desta vez recebeu um esguicho por trás.


- Aí! disse ele.


- Mas que tem você? perguntou a namorada aflita...


- Nada! é um calo. São excelentes aqueles moços...


Outro esguicho nas pernas.


- São excelentes; continuou Batista tremendo de frio e de medo. Eu, se os encontrasse agora, abraçava-os.


Desta vez foram dois grandes esguichos. Batista teve idéia de pedir perdão; mas por um resto de pudor, não quis fazer figura triste diante da namorada.


Esta cada vez compreendia menos o rapaz. Os esguichos continuaram; ele falava entrecortando as frases; ela chegou a suspeitar que ele estivesse doido.


- Há de perdoar-me, disse ele, está fazendo um frio; vou-me embora.


- Já? 


- Já.


- Adeus.


- Adeus!


- Até amanhã.


Teresa fechou a janela; Batista olhou à roda de si, não viu ninguém e procurou aproximar-se do muro para saltar.


Nesse momento caiu-lhe sobre as costas uma caldeirada dágua.


- Ai! ai! gritou ele.


E saltou o muro.


Mas antes que pudesse segurar-se bem, sentiu as pernas presas por quatro braços vigorosos. Caiu arranhando as mãos no muro.


- Que me quereis? disse ele tremendo.


Abriu-se a janela e apareceu Teresa.


O rapaz foi arrastado berrando para uma grande gamela, já cheia dágua. A moça entrou dando um grito. Acordou Lucinda e ambas foram acordar o resto da família.


- Hão de ser os endiabrados! Que pecado cometi eu? exclamou D. Angélica saltando fora da cama.


Dentro de pouco tempo estavam todos a pé, com velas acesas na mão, e dirigiram-se para o fundo, abrindo as janelas que davam para o quintal.


D. Angélica, desceu munida de um vergalho, e apareceu no quintal onde se passava a tragicomédia.


Batista esperneava dentro da gamela. Os dois irmãos o prendiam enquanto o moleque lhe despejava baldes dágua.


- Que é isto? perguntou D. Angélica.


E avançou brandindo o vergalho.


O perigo era iminente.


Os dois rapazes agarraram em Batista.


Carlos sentiu uma vergalhada nas costas; outra vergalhada foi diretamente a Benjamim. Que fazer? Os dois pegam do corpo de Batista e fizeram dele escudo, de maneira que as vergalhadas que D. Angélica, cega de furor, cuidava dar nos filhos, quem as apanhava era o futuro genro.


Teresa desceu abaixo; e suspendeu o braço da mãe, quando já Batista sentira todo o peso do braço da viúva Sanches.


Cessou a pancadaria; Batista foi levado para cima, e D. Angélica perguntou como é que os dois rapazes tinham podido pilhar Batista no quintal para maltrata-lo assim.


Aqui estava o nó da situação.


Batista, não querendo confessar que fora conversar com a futura noiva, e temendo as revelações dos rapazes, disse que fora lá para tratar com eles uma caçoada, e que aquilo era uma brincadeira.


Ao mesmo tempo dirigiu um olhar suplicante aos moços, que confirmaram a história, escapando assim a uma infalível correção.


Nessa noite todos dormiram mal.


Quando no dia seguinte, Tibúrcio soube do fato, sorriu dizendo que também o Batista merecia a presiganga.


Acabou o entrudo, felizmente para o Batista, e a quaresma felizmente para ele e a noiva, que se casaram e dão-se muito bem.


Batista vendeu o armarinho, e joga o gamão numa botica todas as tardes.



publicado no Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1874
Imagem do topo: Augustuis Earle, Folguedos durante o carnaval no Rio de Janeiro,c.  1822- 1823, aquarela, National Library, Camberna, Australia 




Fonte: Contos Avulsos - Machado de Assis - org. de R. Magalhães Júnior - Editora Civilização Brasileira / Cia Brasileira de Livros - 1956

http://bancadetexto.blogspot.pt/2009/12/um-dia-de-entrudo-machado-de-assis.html