Mostrar mensagens com a etiqueta Napoleão Bonaparte. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Napoleão Bonaparte. Mostrar todas as mensagens

domingo, 30 de outubro de 2022

O DISCURSO DE PUTIN E NAPOLEÃO por Carlos Matos Gomes

 * Carlos Matos Gomes 

Através de dois camaradas que muito prezo recebi entre ontem e hoje dois textos importantes, “Napoleão Bonaparte, Sobre a Guerra — A arte da batalha e da estratégia” Apontamentos e notas de Bruno Colson, enviado pelo major-general Carlos Chaves Gonçalves e do major-general Raúl Cunha a tradução de elementos significativos do discurso de Vladimir Putin, no dia 27 de Outubro, no Clube Valdai, um think tank russo que se reúne nos arredores de Moscovo.

Os dois textos têm um elemento comum: a guerra. As causas da guerra, os objetivos da guerra e as consequências da guerra. A mim interessa-me, sempre me interessou, saber como terminam as guerras. Saber como se faz a guerra levou-me à Academia Militar e saber como se faz uma dada guerra, a guerra de guerrilha levou-me aos «comandos». Saber como terminam as guerras levou-me ao 25 de Abril de 1974, ao estudo, à investigação, à literatura.

Não sou um admirador de Napoleão, que perdeu a sua guerra, não atingindo o objetivo que se propôs e pelo qual combateu por toda a Europa, de Lisboa a Moscovo. (No tempo de Napoleão Moscovo era Europa. Agora, segundo a doutrina do secretário-geral da NATO, de que poucos saberão o nome e das afirmações da senhora Ursula Van Der Leyen, que surgiu do anonimato submisso de onde vêm geralmente os presidentes da Comissão Europeia já não é, transformou-se numa jangada, uma jangada de pedra, como a que Saramago ficcionou para a Península Ibérica.) O pensamento único Ocidental impôs que a Rússia deixasse de ser Europa, que se cindisse pelos montes Urais! Este corte ideológico e ditado por interesses alheios à Europa terá consequências. O discurso de Putin anuncia-as. É prudente conhecê-las.

Não sou admirador do francês que quis ser imperador da Europa, que venceu as potências continentais, exceto a Rússia, mas não conseguiu o império planetário que o seu ego imaginou, perdendo para a Inglaterra, a potência marítima, e logo numa batalha em terra, em Waterloo e para um general do Exército, Wellington, mas apoio a afirmação do autor do livro: “De certa maneira, todos os oficiais do mundo se identificam com ele (Napoleão), pois conferiu à profissão militar uma envergadura intelectual e um profissionalismo ainda hoje reivindicados.”

Napoleão Bonaparte não deixou umas «Memórias» estruturadas como tal, mas frases, depoimentos e pensamentos que foram reunidos no livro que recebi. Servem-me para comparar alguns elementos do pensamento do “pequeno Corso”, com o de Vladimir Putin (também ele de baixa estatura) no discurso de fundo que proferiu no Clube Valdai para todos os Estados do mundo e não apenas para o Ocidente.

O discurso é muito mais dirigido aos outros Estados do que ao Ocidente e é significativo que Putin não o tenha querido pronunciar na Assembleia Geral das Nações Unidas e que esta não tenha ambiente, nem se atribua a importância de ouvir o líder da Rússia que decidiu desarrumar o tabuleiro do xadrez mundial. Um sinal de fraqueza da organização e do estado do mundo. O discurso parece ser tão importante e desconcertante da verdade oficial que, prudentemente, a propaganda ocidental decidiu cobri-lo com um manto de silêncio. Palavras do diabo.

Um primeiro ponto comum entre Napoleão e Putin, o senso de ambos na análise de vantagens e inconvenientes de prosseguir uma guerra por parte de forças cercadas. O caso de Mântua, para Napoleão e o caso da Ucrânia (realmente cercada e sem possibilidade de sair do cerco, mesmo com o envolvimento massivo do verdadeiro inimigo da Rússia, os EUA e, por decisão desta, da UE) para Putin.

Sobre o cerco de Mântua, escreve Napoleão ao comandante do Exército Austríaco: “senhor, o bravo deve enfrentar o perigo, mas não a peste de um pântano. A sua cavalaria, tão preciosa, está sem forragem; a sua guarnição, tão numerosa, está mal alimentada; milhares de doentes precisam de um novo ar, de muitos medicamentos e de alimentos sadios: eis aí razões de destruição. Creio ser do espírito da guerra, do interesse dos dois exércitos, chegar a um acerto”.

Esse acordo era para Napoleão, como para Putin, que o chefe cercado lhe entregasse Mântua: “todos ganharemos com isto, e a humanidade ainda mais que nós.”

Putin, no discurso: “Sempre acreditei e ainda acredito no poder do bom senso”. “Estou convencido de que, mais cedo ou mais tarde, os novos centros da ordem mundial e o Ocidente terão que iniciar um diálogo sobre um futuro comum.” (o que apenas será possível com a resolução da guerra na Ucrânia)

Dir-se-á que em ambos os casos se trata de capitulação. É verdade. Mas em todos os casos de final de guerra se trata de capitulação. A finalidade da guerra é impor uma vontade pela força. Vencer é obrigar o inimigo a aceitar outra vontade. Capitular. Napoleão capitulou após Waterloo e sobre a capitulação, isto é, sobre o reconhecimento de que um dado exército ou Estado já não tem condições para resistir e alterar a situação a seu favor, desenvolveu conceitos que bem podiam servir ao Ocidente para utilizar na Ucrânia: “os generais “sábios e humanos” devem instruir o comandante de uma praça a não contar inutilmente com a defesa de uma derradeira posição e oferecer-lhe uma capitulação honrosa e vantajosa. Se ele se obstinar, sendo enfim forçado a render-se por completo pode-se usar contra ele e os seus todo o rigor do direito da guerra.” E acrescenta: “Se o comandante de uma praça decide enfrentar um ataque, sabe que põe em risco a vida de todas as pessoas que se encontram na praça, militares e civis, assim como as suas propriedades.” (Seria útil os mentores de Zelenski lerem esta frase de Napoleão).

A questão do futuro é para todos nós, o dito Ocidente, o ponto sobre o qual os europeus deviam concentrar as atenções. Qual a nova relação de forças entre potências no mundo? Como quer a Europa a partir de agora relacionar-se com os outros espaços políticos e civilizacionais se decidiu atirar para o campo do inimigo o Estado de maior superfície, com maiores reservas de recursos energéticos, com quem partilha a cultura, a história e a religião, além de fronteiras, de mares e da continuidade territorial, e submeter-se à direção da superpotência do outro lado do Atlântico e prioritariamente interessada no Pacífico, responsável pela ordem (desordem) mundial desde o final da II Guerra?

Napoleão qualificou os conflitos entre países europeus como guerras civis. Durante uma receção ao corpo diplomático e aos membros do parlamento britânico, numa Europa pacificada pelo tratado de Amiens, comentou com Charles James Fox, chefe do partido Liberal e partidário de uma aproximação com a França: “Existem apenas duas nações, o Oriente e o Ocidente. A França, a Inglaterra e a Espanha têm os mesmos costumes, a mesma religião, as mesmas ideias, até certo ponto. É apenas uma família. Aqueles que querem vê-las em guerra querem a guerra civil.”

A guerra na Ucrânia seria mais uma guerra civil europeia, se não fossem interesses fora da Europa a transformá-la numa guerra de civilizações e de superpotências. A submissão da União Europeia aos Estados Unidos também teve o efeito de transformar uma questão europeia numa questão de divisão do mundo. Foi mais um sucesso desta Comissão, além das sanções, da inflação, da deslocalização de indústrias, do desvio de recursos financeiros, das carências energéticas, do abandono das políticas de ambiente, do desperdício de recursos.

A longa manobra de instalação pelo Ocidente (os EUA e a Inglaterra) de um regime abertamente hostil à Rússia, disponível para integrar a NATO e a deixar instalar no seu território armas de primeiro ataque decisivo, junto à sua fronteira — numa repetição da manobra do Ocidente na Polónia — levaram a Rússia e Putin a concluir que o Ocidente não só os excluía, como os cercava para os destruir e fazer capitular.

O discurso de Putin é muito claro na desfiliação da Rússia do Ocidente e do seu posicionamento do “outro lado”, assumindo o novo campo, o do Oriente, num choque que ele apresenta com grande clareza e crueza: “Como disse Solzhenitsyn, o Ocidente é caracterizado por “uma contínua cegueira de superioridade”. E: “ A confiança do Ocidente na sua própria infalibilidade é uma tendência muito perigosa. O liberalismo mudou para além do entendimento até ao ponto do absurdo, quando os pontos de vista alternativos são declarados subversivos e ameaças à democracia.”

E, como corolário do seu pensamento: “O Ocidente reivindica para si todos os recursos da humanidade.” — “A civilização ocidental não é a única, a maioria da população está concentrada no Leste.” — Por fim: “O período de indisputado domínio do Ocidente nas questões mundiais está a terminar”.

Pensar o futuro é equacionar as consequências já visíveis das decisões da União Europeia e dos atuais líderes europeus de alinharem na estratégia dos EUA de separar a Rússia da Europa, de evitar que a Rússia pudesse ser uma parte decisiva do Ocidente em termos civilizacionais, culturais, políticos, económicos e militares.

Do discurso de Putin, como de há dias do de Xi Jiping, presidente da China no Congresso do Partido Comunista, conclui-se que para estas duas grandes entidades políticas o mundo está irremediavelmente dividido entre Ocidente e Oriente. É nesse cenário de opostos que eles agem a todos os níveis, o político, o económico, o militar. É nesse cenário que elaboram as suas estratégias. A Rússia e a China e todo o Oriente vêm o Ocidente como a continuação de um império colonial, de um domínio que eles não aceitam desde o final da Segunda Guerra e contra o qual lutam desde o Movimento Descolonizador.

A União Europeia (em boa parte através da Inglaterra e após o Brexit através de Úrsula Van Der Leyen) atirou a Rússia para o lado de lá. Acresce que é do lado de lá que se encontram as reservas de energia e de matérias-primas que durante meio milénio asseguraram o poder do lado de cá, do Ocidente. Acontece ainda que o Ocidente colonial não deixou muito boas referências em África, nem nas Américas do Centro e do Sul, nem na Ásia, o que quer dizer que muitos Estados desses espaços serão tentados a concordar com a leitura que Putin faz dele, do Ocidente. Acontece ainda, embora não seja doutrina do Ocidente, que o Oriente apresenta uma muito maior diversidade cultural, política e civilizacional que o Ocidente, maior oferta de visões do homem e do mundo, um maior e mais profundo número de religiões e essa diversidade ideológica, que vai do xintoísmo ao budismo, ao hinduísmo, ao islamismo, ao confucionismo, ao cristianismo ortodoxo, traduz-se em energia e em última análise em poder, apesar das gritantes desigualdades sociais. Mas, como se sabe da história, não foi a miséria e a desigualdade que impediram a Inglaterra de ser o maior poder mundial. ´

O pensamento único que se impôs no Ocidente, a crença na sua superioridade, que Putin referiu no discurso são empobrecedores e enfraquecedores. São sintomas de derrota a prazo. E as derrotas começam normalmente numa fase de decadência do pensamento.

domingo, 26 de agosto de 2012

“N.” de Ernesto Ferrero



HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!

Blog sobre todos os livros que eu conseguir ler! Aqui, podem procurar um livro, ler a minha opinião ou, se quiserem, deixar apenas a vossa opinião sobre algum destes livros que já tenham lido. Podem, simplesmente, sugerir um livro para que eu o leia! Fico à espera das V. sugestões e comentários! Agradeço a V. estimada visita. Boas leituras!



WEDNESDAY, FEBRUARY 29, 2012


“N.” de Ernesto Ferrero (Teorema)

Cláudia de Sousa Dias







Ernesto Ferrero é autor de vários romances , biografias ensaio e teatro. É, também, tradutor da obra de Gustave Flaubert  e Céline, para a língua italiana. Com “N.” recebeu o Prémio Strega 2000, uma das maiores distinções literárias daquele país. 

A obra de que aqui tratamos é um romance que se assemelha com características biográficas, acerca de Napoleão Bonaparte e relativo ao período de trezentos dias de exílio, na ilha de Elba.

O Autor é dono de uma escrita pautada por um discurso marcadamente diarístico, narrado pelo bibliotecário local, Martino Acquabona, de origem aristocrática e homem de saber e cultura invulgar.

A obra divide-se em capítulos, a descrever a lenta evolução dos dias que escorrem ao ritmo da insularidade local, porto de chegada e partida, quer dos ilhéus exilados quer dos estrangeiros, invasores. O porto é, assim, a principal fonte de obtenção de notícias para a Ilha e o único ponto de contacto com o exterior. Os movimentos portuários implicam sempre, de alguma forma, uma mudança na vida dos locais, marcando sempre, num ou noutro aspecto o término de um ciclo, seja para alguém em particular, seja para a população ou parte dela. À lentidão das horas que passam de forma pachorrenta nos intervalos do horário do tráfego portuário, está sempre presente o tédio e a indignação de exilados e locais, face à imposição a partir da capital, de um soberano que será a partir de então o Governador Local e cuja megalomania foi responsável pelo dizimar de toda uma geração de jovens rapazes e trabalhadores úteis.

O romance incide todo ele no exílio de Napoleão e sua corte em Elba durante os nove meses que precedem o seu desterro para Santa Helena, mais o epílogo que relata o desfecho narrado pelo sobrinho do protagonista.

Após a restauração da monarquia pelos Bourbon e a vitória de Nelson em Waterloo, Napoleão e a sua comitiva formada por generais, cortesãos, família e amigos próximos de lealdade férrea, continuam a ser uma ameaça para os vencedores: a “águia” está inquieta no seu ninho e demasiado próxima da Europa para ser inofensiva.

Martino Acquabona é o narrador e protagonista, uma personagem ficcional obcecada pela figura do mítico general. Tem o cargo de bibliotecário na Ilha, nomeado pelo próprio N., abreviatura de que se serve para despachar mais rapidamente as questões burocráticas, e que o narrador utiliza para se lhe referir no diário até mesmo para sua protecção pessoal: o mesmo diário que contém revelações algo embaraçosas para a personagem por ele biografada. Acquabona é oriundo de uma família nobre mas empobrecida e senhor de invulgar erudição, a qual também é secretamente invejada pelo general.

Na óptica deste narrador de invulgar talento literário, a comitiva de Napoleão chega à Ilha e instala-se arrogantemente, ocupando edifícios públicos ou expulsando algumas famílias ilustres das suas propriedades, pretendendo compensá-las mediante avultadas prestações pecuniárias mensais. Poderia, à primeira vista parecer um negócio vantajoso para estas famílias, mas na realidade trata-se de expropriações, já que não são apresentadas alternativas aos proprietários. Os ocupantes escolhem as melhores casas da região, pagando o respectivo aluguer, mas trata-se de uma situação que, dadas as circunstâncias, não deixa de ser humilhante para os respectivos donos. Quanto aos edifícios públicos, trata-se de ocupação pura e simples. Os membros da corte de Napoleão tornam-se os novos senhores da ilha, sempre vigiados de longe e pelo canto do olho pelos locais, que enganam o tédio a comentar os mais ínfimos detalhes do quotidiano do ex-Imperador e dos que o rodeiam, incluindo as ordens que dá, os impostos recém-criados, as mudanças de humor, as relações com amigos, inimigos, família, amantes. Tudo temperado com a proporção dada pelo rumor a apimentar a informação original. Nada escapa ao olhar de lince dos insulares, habituados a ver chegar e partir forasteiros, sabendo de antemão que, também para estes, um dia, será a vez de partir.

Mas à medida que avançamos nos capítulos, apercebemo-nos de que a relação obsessiva de amor-ódio que se estabelece entre o bibliotecário e o ex-general se agudiza gravemente com a chegada da bela e frívola Baronesa di Calabria…A partir de então, deixa de haver paz no dia-a-dia de Acquabona, incapaz de fazer frente à ordens e caprichos de N. Este continua a agir como se fosse ainda o Imperador, de facto é-o, embora só naquela Ilha, sentindo-se dono e senhor absoluto da vontade dos homens que aí habitam. E das respectivas mulheres.


Estrutura e Estilo no romance de Ferrero

A estrutura do romance de que aqui tratamos está directamente ligada ao tempo da acção, uma vez que os capítulos estão divididos em meses.

O arranque da acção dá-se com o prólogo, o qual consiste na descrição de um sonho de Acquabona em que este assassina o Imperador. O bibliotecário atribui a esta descrição o título de Reverie em forma de prólogo e cujo conteúdo consiste no verdadeiro desejo do protagonista, desejo esse que nunca chega a realizar. Ao longo da obra, o leitor, debate-se com o desejo de descobrir o motivo que despoleta tamanho ódio, sendo esta curiosidade, em grande parte, a mola que impulsiona a leitura da obra. Mas não só. À medida que se tenta decifrar as motivações para tão violenta reacção, deparamo-nos com uma estranha ambivalência de emoções por parte de Acquabona que vão desde um ódio profundo pela prepotência dos actos do ex-general, até a uma igualmente profunda admiração pelo respectivo génio e capacidade de planeamento. Mas tirando a força que assenta numa vontade de ferro e numa invulgar capacidade de cálculo e previsão, Martino Acquabona considera o novo Governador da Ilha um homem inferior, ao qual o desejo ilimitado de poder conseguiu exterminar por completo qualquer sentido de ética.

No discurso de Acquabona são transparecem as medidas tomadas pelo novo governo local, imbuídas de um estilo de liderança inequivocamente tirânico, apesar de disfarçadas com um manto de racionalidade – o despotismo, mascarado de moral, a avidez e ganância pessoais travestidas de acções direccionadas para as necessidades de desenvolvimento local, que se traduzem em avultados desvios de verbas públicas para os cofres particulares do governador e seus amigos.

A conclusão, à laia de epílogo, é-nos dada pela reflexão de Telémaco – um mês depois do desenrolar dos acontecimentos, isto é, escrita já num tempo fora do tempo da estória -, o sobrinho de Acquabona, herdeiro do Tio Martino.


A Mulher como o pomo da discórdia

Uma palavra para a personagem da Baronesa, a qual não se limita a exercer o sortilégio da própria beleza como a típica mulher fatal: a sedução advém-lhe não só dos atributos físicos, do requinte e da erudição, mas sobretudo de um desejo incomensurável de “ser livre”, dona do próprio destino. O caminho percorrido pela Baronesa revela a profunda ironia com que o Ernesto Ferrero revestiu o destino desta personagem, cujo maior desejo acaba por ser completamente mutilado ao procurar a libertação, submetendo-se à tirania do Governador.

O ritmo com que Ernesto Ferrero dota o discurso do bibliotecário Acquabona assemelha-se a uma valsa lenta: reflexivo, cheio de momentos de pausa, descritivo mas sem floreados. Não deixa, no entanto, de exprimir emoções turbulentas, fruto de um vincado sentido crítico, que lhe é dado por um misto de erudição clássica e saber científico, conhecendo em profundidade a maior parte das obras da biblioteca e de uma certa impaciência despoletada pela atitude prepotente do invasor. À mistura do racionalismo que lhe vem do conhecimento científico e da extensa cultura livresca associada à efervescência emotiva, dirigida ao ex-Imperador, ainda mais inflamada pela ardente paixão que nutre pela Baronesa, é cozinhado ao longo da trama um delicioso caldo de venenos que torna a leitura da obra irresistível. Como contraponto, o clima ameno e algo anestesianteda ilha do Mediterrâneo.

N. é assim um livro escrito para ser lido ao sabor dos dias insulares, em férias ritmadas pelo movimento de navios que acostem e partam indiferentes ao tédio das horas…


Cláudia de Sousa Dias
31.05.20
Blog d'humeur littéraire - Livres, lectures, romans, essais, critiques. La lecture comme source de plaisir, d'inspiration et de réflexion.


29.4.09



N. – Ernesto Ferrero

N, c’est Napoléon, ce monstre froid, cet orque assoiffé de sang et pour qui la vie humaine n’a pas de prix. Des morts par dizaines de milliers sur chaque champ de bataille, par millions au bout des campagnes qui n’ont eu d’autres objectifs que d’alimenter une volonté insatiable de grandeur et de puissance.



C’est ce bourreau que déteste M. Aquabono, lettré et féru de littérature française et qu’il voit débarquer sur son île d’Elbe, jusque là bien tranquille. Une île en ébullition et vite conquise, sans coup férir.



Le parti-pris de l’auteur est intéressant. Ce n’est pas au militaire, au Consul ou à l’Empereur qu’il s’adresse. C’est au petit roi déchu, émigré sous des cieux italiens, placés sous la férule des Anglais et à qui on a laissé un lopin de terre, loin de tout, pour jouer sans risques. Un épisode peu glorieux et mal connu de l’épopée napoléonienne.



Rapidement, à peine débarqué, N. n’aura de cesse que de réorganiser de fond en comble une île jusqu’ici endormie et profondément agricole. Il y mettra la même énergie et détermination qu’en toutes choses, gouvernant de façon inflexible, un objectif toujours en tête : revenir au pouvoir à Paris.



Accompagné de ceux qui lui sont resté fidèles (son fidèle Drouot en particulier), il va s’appliquer à amadouer les autochtones en les obligeant et saura parfaitement endormir la vigilance de ses geôliers par une politique active de rénovation profonde de l’île.



Ce sont des citernes d’eau qui sont mises en place, un système complet de traitement des eaux usées, des routes qui sont tracées, des palais construits, des fortifications consolidées. Une administration totale est mise sur pied ainsi qu’une marine militaire et une petite armée.



Mais N. est aussi un homme de lettres, non pas par amour (sait-il au moins ce qu’est l’amour ?), mais parce qu’il veut tout maîtriser dans l’art de la guerre : la géographie, l’histoire, les mathématiques (pour la balistique), la physique… Il lui faut donc un bibliothécaire pour s’occuper des superbes volumes qu’il a fait venir de ses bibliothèques impériales, plus ou moins au nez et à la barbe des Anglais.



C’est Aquabono qui se voit confier cette responsabilité, lui qui déteste N. pour des raisons éthiques et morales.



Mais à côtoyer le grand homme, bientôt c’est la haine intellectuelle va bientôt se transformer en authentique admiration. Celle de l’énergie inépuisable, celle de la volonté délibérée de revenir au pouvoir, le moment venu, celle du paternalisme dont N. use sans mesure pour parvenir à ses fins, celle du stratège brillant et manipulateur d’hommes, obtenant en tout, ce qu’il désire..



Comment faire quand on ne sait que servir loyalement, que l’on se prend à admirer un homme hors du commun et qu’en même temps on aimerait l’assassiner, pour protéger l’Europe de nouvelles saignées humaines ?



Pusillanime, Aquabono ne saura qu’être la proie de ses doutes, rêvant d’être celui qui aura tué le monstre. Pendant ce temps, N. réformera profondément Elbe et préparera son retour, éphémère, au pouvoir. Un homme d’esprit face à un homme brillant d’actions. U n combat perdu d’avance.



Dans ce livre à la fois d’histoire extraordinairement documenté et roman psychologique et historique, Ferrero sait nous emmener sur des chemins de traverse qui nous donne à voir Napoléon sous un jour différent et surtout, Napoléon, en tant qu’homme fait de chair et de sang, en proie à ses doutes, ses amertumes, ses regrets mais toujours tourné vers l’action, assoiffé d’avenir fait de gloire. Car il ne fur rien d’autre que cela : un mégalomane de génie, visionnaire, d’une énergie rare, au leadership que rien ne pouvait arrêter sauf son ambition dévorante.



Certes le livre, à force de détails et de minutie, est un peu long mais tout amateur d’histoire et tout passionné du grand homme, dont je suis, se doivent de lire ce roman à part.


. . .Il baby-Napoleone raccontato alla piccola Betsy
di Francesca Marani, la Repubblica, 26/05/2006


Lo spunto è storia. Napoleone, esiliato nel 1815 a Sant'Elena, fa amicizia con una tredicenne inglese, Betsy Balcombe.

La storia viene oggi raccolta e raccontata, curiosamente, in due versioni molto diverse. In un kolossal hollywoodiano in lavorazione, l'imperatore amerà Betsy (interpretata da Scarlett Johansson) di un amore tutt'altro che filiale.

In questo libro di Ernesto Ferrero, il più noto biografo italiano di Napoleone (dal suo bestseller N, è stato tratto un altro film, di Paolo Virzì, sull'esilio all'Isola d'Elba), la relazione fra Bonaparte e Betsy è assolutamente casta e diventa il punto di partenza per un romanzo sulla formazione dell'imperatore.

Il giovane Napoleone è appunto la storia dell'infanzia e dell'adolescenza di Bonaparte raccontata da lui stesso alla piccola amica. Gli anni in Corsica, i sorrisi e i rimproveri della madre, i fratelli e i loro giochi. Poi il primo "esilio", in collegio in Francia, e l'inizio di una nuova vita come giovane ufficiale.

Il libro è un lungo dialogo fra Betsy e Boney (così la ragazzina chiamava Napoleone), il romanzo intimo, e istruttivo, di un adolescente tenace, scritto per i ragazzi di due secoli dopo.


article.boston.com

'Napoleon' has charm enough to intrigue

December 20, 2007|Mark FeeneyGlobe Staff
    •  
    • Print
"Napoleon and Me" can't quite decide what it wants to be. Set on Elba during Napoleon's brief exile there, it has elements of costume spectacle, domestic comedy, period piece, drama of ideas, and that old French favorite, the sentimental education.
Certainly, the movie's 21-year-old hero, Martino (Elio Germano), stands in a long Gallic line. This is despite the fact that "Napoleon and Me" is based on an Italian novel, "N," by Ernesto Ferrero, and an Italian filmmaker, Paolo Virzi, directed it and helped write the screenplay.

As an imaginative creation, Martino is three parts Stendhal to one part Truffaut: impulsive, idealistic, smitten with being smitten. He's been enjoying a comically tempestuous affair with the much older Baroness Emilia (Monica Bellucci). An even greater passion is his hatred of the tyrant Napoleon. Martino has Romantic urges to go with his Enlightenment beliefs. He literally dreams of killing the deposed emperor.
Soon enough, he gets his chance - or chances. Martino's republican ideals have gotten him fired as a schoolteacher. One of his sister's suitors wangles him a job as Napoleon's literary secretary.
Alas, just as no man is a hero to a villain, neither is he a villain to his secretary. What Martino finds is not a tyrannous monster but a short, tubby man who's every bit as self-involved as he is. Daniel Auteuil, who plays Napoleon, bears a disconcerting resemblance to Joe Pesci wearing a fancy hat. This may or may not be intentional, but it has the desired effect, regardless. Martino's loathing is neutralized. Whether it should be is another matter. A much-admired teacher of Martino has his own ideas about imperial assassination - and the baroness about imperial seduction. These factors further complicate Martino's relationship with Bonaparte, who, lest we forget, will soon be meeting his Waterloo. Will Martino be meeting his?
"Napoleon and Me" is always lively and often charming. Virzi has a weakness for dark interiors, swoony camera movement, and Beethoven on the soundtrack (he uses the "Ode to Joy" to particularly vulgar effect). Neither Bellucci nor Auteuil takes things too seriously - while Germano, as befits his character, takes everything too seriously. That emotional imbalance is appropriate but also limiting.
The Museum of Fine Arts is presenting the film in conjunction with its exhibition "Symbols of Power: Napoleon and the Art of the Empire Style, 1800-1815." Museumgoers are better advised to see the movie before the show. Hors d'oeuvres, after all, are intended to be eaten before the meal itself - and "Napoleon and Me" is very much an hors d'oeuvre.
Mark Feeney can be reached at mfeeney@globe.com.