Mostrar mensagens com a etiqueta Portugal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Portugal. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Portugal, 1977.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016


Portugal, 1977.




         A Lucy é uma bem-disposta. E isso vê-se a cada instante, e a sua alegria amiga é tão boa e tão fantástica que só temos de agradecer-lhe por ter decidido animar, vai para muitos anos, este país melancólico, estupidamente taciturno, ó pátria capciosa. A Lucy Pepper nasceu em Inglaterra em 1970, mas vive em Lisboa com a família, sendo ilustradora e escritora, e uma grande cronista. Saudavelmente obcecada pela culinária portuguesa, já lhe dedicou outros livros. Agora, há poucos dias, lançouComo Não Morrer de Fome em Portugal. Histórias de uma inglesa apaixonada pelo nosso país. O livro é a Lucy, um tratado de boa disposição, inteligência e humor, a felicidade serena. Não fala só de comida, ainda que a comida seja prato principal, o leite-motivo. Trata da vida, da dela e doutra gente, e do bom que é estar vivo; sobretudo aqui, em Portugal. Do livro transcreveu-se uma pequena parte constante logo da abertura, o relato da primeira vinda de Lucy Pepper ao nosso país, com sete anos de idade.   
A primeira coisa que me lembro de «comer» em Portugal foi uma vitamina. Estávamos no Verão de 1977 e viemos visitar uns amigos da família que trabalhavam na embaixada britânica. 
Foi a primeira viagem ao estrangeiro, tanto para mim, como para a minha irmã. Eu tinha sete anos, ela cinco, e, depois de atravessarmos Espanha desde o ferry de Bilbau até à fronteira portuguesa, não ficámos com boa impressão de viajar para o estrangeiro. A meio caminho, passámos a noite num hotel em Valhadolide – que era estranhamente escuro e húmido –, onde a nossa cama se partiu. Depois atravessámos o assustador deserto espanhol, em que quase ficámos sem gasolina. O nosso Renault 17 TS, um carro que, em qualquer outro dia, ficaria bem nas mãos da dupla Starsky e Hutch, não impressionou tanto o senhor daquela bomba de gasolina no meio de nenhures quanto, segundo o meu pai, tinha impressionado os habitantes das várias aldeias por que passámos até lá chegar. Ele não aceitou o nosso dinheiro estrangeiro para pagar a gasolina. Naquela altura, só nos restavam escudos e libras, depois de um almoço inesperadamente caro em que tínhamos gasto as nossas últimas pesetas. Não me lembro do que foi esse almoço. Espero que tenha valido a pena. O «duelo» da gasolina foi muito tenso, com o senhor da bomba a recusar ferozmente o nosso dinheiro; e eu tinha a certeza quase absoluta de que íamos morrer ali, no deserto. Olhei para o horizonte à procura de abutres, enquanto os meus pais procuravam e caçavam pesetas eventualmente perdidas no carro. Em vão. Finalmente, depois de uns intermináveis dez minutos de terror, o senhor da bomba acedeu, aceitou uma nota de cinco libras e pudemos sair. Ainda havia a «pequena» questão do que iríamos comer nesse dia, no que restava da viagem. Felizmente para nós, e infelizmente para os abutres espanhóis, tínhamos trazido uma garrafa de concentrado de laranja e umas caixinhas de cereais para levarmos aos nossos amigos ingleses. Eu e a minha irmã jantámos flocos de milho e concentrado de laranja diluído numa garrafa de água. Os meus pais não comeram nada. Ainda hoje olho de lado para Espanha. 
À uma da manhã estávamos a chegar a Lisboa e, a dois quilómetros da cidade, na A1, o carro decidiu parar. O meu pai é veterinário. Ele «repara» animais, não repara carros. Ficou em pânico, em silêncio, não fazendo a mínima ideia do que fazer, para além de montar o triângulo internacional uns metros atrás do carro, abrir o capô e fingir ter o ar de quem sabe do que está à procura, para que a sua mulher e as suas filhas não desistissem dele, de vez. 
Incrivelmente, foi só um dos cabos da bateria. Tinha-se soltado do sítio. Sendo a bateria o único «órgão» interno de um carro que o meu pai entendia, recolocou o cabo e instantaneamente tornou-se um herói. Ele diz-me que esse foi, simultaneamente, o pior e o melhor dia da sua vida até esse ponto. Entrámos na cidade e, depois de pedir direcções, o taxista mais simpático do mundo leu o endereço e levou-nos todo o caminho até à porta da casa no Restelo, conduzindo à frente do nosso carro. Não pediu um tostão por isso. Nem um escudo, nem uma libra e, certamente, nem uma peseta. 
A casa era branca, cheia de buganvílias, e não havia deserto à vista. E os nossos amigos tinham uma empregada em casa. Nunca tinha ido a um sítio onde houvesse empregados domésticos e, por isso, fiquei espantada. Nesses quinze dias, sei que comi lulas e que gostei, porque me lembro de a minha mãe me dizer que já tinha comido lulas, sem saber que eram lulas, e que gostei das lulas. Não teria comido as lulas se soubesse que eram lulas. Obviamente, não sabia o que eram lulas, porque tinha sete anos e era inglesa. 
Mas não me lembro a que sabiam as lulas. Obviamente, a única coisa de que me lembro é a vitamina que a empregada obrigou todas as crianças a tomar, quer as da casa quer umas coitadas de umas inglesas visitantes, que não estavam à espera de nada, que nunca sequer tinham visto uma vitamina além daquelas de laranja, que só tinham vitamina C. As vitaminas da empregada eram daquela espécie horrenda que sabe a fermento de pão e provoca arrotos com esse sabor todo o resto do dia.
Passeámos, fomos ao Alentejo, ficámos numa pousada em Estremoz, que tinha umas camas antigas de quatro postes, procurámos abutres no horizonte e voltámos para Lisboa. Os meus pais viram um discurso de Mário Soares na televisão que durou duas horas, e isso é tudo o que me lembro de Portugal em 1977. Se calhar, são as viagens de terror que realmente impressionam as mentes das crianças de sete anos, mais do que umas férias fabulosas. 
Lucy Pepper 

http://malomil.blogspot.pt/2016/11/portugal-1977.html

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Portugal, 1958

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Portugal, 1958


Kinglsey  Amis (1922 / 1995)

O conhecido escritor inglês Kingsley Amis (1922-1995) publicou em 1958 a novela I Like It Here,  editada entre nós pela Cotovia, em 1990, com tradução de Maria Helder Valério, tendo por título Gosto Disto Aqui. Trata-se de uma obra de ficção, mas com um forte pendor autobiográfico, sendo produto da estadia de Amis entre nós. 

 
Mesão Frio 1958

         - A censura aqui é brava, não é? - perguntou Bowen,
         Gomes reagiu como um homem que sente uma dor súbita, cerrando os maxilares e respirando fundo. Como se sentisse dificuldade em deixar sair as palavras, disse: «Se não vos aborrecer, deixem-me falar-lhes um pouco deste país maravilhoso, do qual tenho a honra de ser cidadão. Sim, é verdade, tal como você disse, a censura é muito apertada. Todas as publicações, sejam de que género forem, têm que ir à censura. Não só jornais e coisas do género, embora possa dizer que estão incluídos periódicos desportivos, compreende, e revistas de decoração, etc. - todos são examinados, à procura de algo de que o regime não goste. Bom, não faz ideia do que isto implica. Se quiser fazer um peditório, ou coisa assim, uma coisa completamente inofensiva, primeiro tem que obter autorização para isso e, se tiver um prospecto impresso, ele vai automaticamente para as mãos do censor. E aquilo de que o censor não gosta - bom, é de tudo o que possa sugerir que alguma coisa não está bem algures; não importa o quê, nem onde. Não me refiro a queixas explícitas contra o Governo: por isso, vai-se para a prisão. Sabem quem treinou a nossa polícia secreta, aquele corpo de homens de élite? O defunto e chorado Himmler, com supervisão pessoal. Mas, voltando à censura: por exemplo, nunca se fala de saúde pública nos jornais, excepto para declarações piedosas dizendo que é maravilhosa, que não podia estar melhor - com os piores bairros de lata da Europa Ocidental à nossa porta, em Lisboa. Nem sequer se pode dizer que as coisas estão a melhorar, porque isso implica que não estão perfeitas. Outra coisa, os acidentes. Nunca são referidos. Vou dar um exemplo: vê esta rede de caminho de ferro?

         Bowen respondeu afirmativamente: estava situada ao longo da costa, ligando Lisboa e Cascais e, embora, mais elegante e mais rápida, lembrara-lhe muitas vezes o comboio tipo eléctrico que ligava Swansea (Rutland Street) a Mumbles Pier: também era o caminho de ferro mais antigo das Ilhas Britânicas.

- Ora bem - diga-me se o estiver a maçar, sim - parte do talude abateu, um belo dia, e o comboio chocou com ele. Um bebé morreu, e uma mulher morrei no hospital. Houve vários feridos graves, Agora repare. Só um jornal dei esta notícia, imagino que por descuido. Os nossos valentes polícias foram lá e encerraram o jornal durante um mês, como aviso. Um aviso para não faltar à política oficial de intrujar e mentir. - Gomes disse isto de modo bem-humorado, por cima do ombro, enquanto acenava e assobiava, a chamar o empregado. - É claro que todos os cartazes de cinema são censurados. No interesse da moral pública, obviamente. Reparem bem, para a próxima, e verão o carimbo. É a Igreja que está por trás disto. Por favor, não me interpretem mal: eu sou um católico fervoroso, ou pelo menos gosto de pensar que sou. Mas não posso perdoar aos bispos o estarem sempre do lado de Salazar em tudo. E os padres. Claro que há muitos padres bons. Mas para muitos deles, compreende, ser padre é uma maneira de escapar à pobreza - é ter finalmente algum dinheiro no bolso. Não há quaisquer sentimentos religiosos. Dois amigos meus, bons católicos, criaram uma sopa dos pobres na aldeia deles, perto de Braga: sopa grátis duas vezes por dia, e pão, para os filhos dos pobres. O padre pregou contra eles de cima do púlpito; era um golpe para o seu prestígio. Na verdade, a Igreja é bastante impopular em algumas áreas, especialmente entre os pobres. Há pouco tempo estavam a reconstruir, lá para o Sul, uma igreja que tinha ardido. Bom, os pobres de lá decidiram que tinham passado muito bem sem o padre a pregar-lhes. Decidiram embebedar-se todos uma noite, e deitaram tudo abaixo outra vez. Este tipo de coisas talvez o faça sorrir. A mim, entristece-me.

Kingsley Amis


sábado, 21 de abril de 2012

“Os Portugueses”, de Barry Hatton


Os Portugueses

Apesar da incapacidade para chegar a horas, da falta de civismo na estrada e de um bairrismo exagerado, traços da nossa personalidade enquanto povo, Portugal é, ainda assim, um país apaixonante.

No livro "Os Portugueses", Hatton relembra os principais momentos históricos que marcaram a nação, desde o período áureo dos Descobrimentos aos anos governados por Oliveira Salazar, sem esquecer a pela peculiar relação com Espanha, e termina com uma análise sobre a modernidade.

«A minha intenção é lançar algumas luzes sobre este enigmático canto da Europa, descrever as idiossincrasias que tornam único este adorável e, por vezes, exasperante país e procurar explicações, fazendo o levantamento do caminho histórico que levou os portugueses até onde estão hoje.», avança o autor na nota prévia da obra.

Paralelamente, a construção da identidade de Portugal enquanto povo e os vários estereótipos que (ainda) reinam além fronteiras são abordados e apresentados através de episódios vividos pelo autor ou por pessoas que lhe são próximas. De leitura obrigatória para todos quantos desconhecem a verdadeira alma lusa, portugueses ou não, "Os Portugueses" é uma obra obrigatória, escrita de forma apaixonada por um dos correspondentes mais antigos da imprensa internacional no nosso país.

Barry Hatton vive em Portugal há quase 25 anos. Correspondente da Associated Press em Portugal, o jornalista britânico revela no livro Os Portugueses aquilo que somos enquanto país e enquanto povo. Pelo menos aos olhos dos estrangeiros.


O Coiso Incorrecto

Correcto é um pleonasmo

“Os Portugueses”, de Barry Hatton


Barry Haton nasceu em Inglaterra, em 1963, mudou-se para Portugal em 1986, tornou-se correspondente da United Press Internacional, em Lisboa, em 1992 e é correspondente da Associated Press, desde 1997, cobrindo toda a actualidade portuguesa.


Trata-se, portanto, de um jornalista estrangeiro que decidiu estudar Portugal e os portugueses e relatar as suas conclusões neste livro, que não deixa de ser curioso.

Achei, sobretudo, que Haton conseguiu fazer um resumo muito bem feito da História do nosso país e que poderia ajudar muitos dos meus compatriotas a conhecer e perceber os acontecimentos históricos que nos marcaram.

Pena é que, aqui e ali, a língua portuguesa traia o jornalista britânico. Pena, também, que ninguém da editora tenha reparado nesses pequenos erros.

Só dois exemplos.

Na página 131: «(Antero de Quental) iniciou uma brilhantedigressão que permaneceria como um dos mais famosos discursos da história portuguesa» – não será “dissertação”, em vez de “digressão”?

Na página 171: «dezenas de milhar de pessoas (…) saíram para o aclamar (a Humberto Delgado) num electrificante comício de campanha no Porto» – não será “electrizante” em vez de “electrificante”?

Passando por cima dessas minudências, o livro lê-se muito bem e é um retrato certeiro de nós todos, com recurso a abundantes citações, desde Mark Twain a Fernando Pessoa.


Quando o dedo aponta a Lua, os idiotas olham para o dedo.

Os Portugueses, Barry Hatton, tradução de Pedro Vidal, Edições Clube do Autor. S.A. info@clubedoautor.pt,  Maio de 2011

Numa altura de gravíssima crise, que ninguém sabe como nem quando vai acabar, nada melhor, no meu entender, do que documentar-se na medida do possível, de forma a tentar compreender onde estamos e como chegámos a esta triste situação. Britânico há muito residente em Portugal, jornalista e excelente observador, Barry Hatton é casado com uma portuguesa, de quem tem três filhas, também portuguesas. O seu livro é, quanto a mim, uma suculenta, enriquecedora e amena leitura sobre o povo que sempre fomos e somos, numa linguagem irónica e fingidamente distanciada, como só os ingleses sabem usar. Eis cinco excertos selecccionados, assim a título de amuse-gueule, que é como quem diz acepipes, em linguagem pessoana.

"Quando disse à minha filha mais velha, nascida em Portugal, então com 15 anos, que estava a escrever este livro, a sua resposta imediata foi: "Oh pai! Não nos faças parecer um bando de saloios, que é o que toda a gente pensa de nós." Tinha alguma razão. Até mesmo os portugueses concordam por vezes com isso. Não é invulgar  ouvir um taxista português a vociferar contra a falta de habilidade para conduzir dos seus compatriotas, nesta linha: "Somos um bando de camponeses a viver numa cidade." E quando num avião cheio de portugueses se começa espontaneamente a bater palmas por causa da aterragem bem sucedida da aeronave, é palpável o embaraço de alguns dos seus compatriotas." (Pág. 26)

"Um amigo português contou-me que o dono de um restaurante que conhecia, enganou um casal de ingleses, levando-o a pagar um preço muito mais elevado do que a conta, por um prato de sardinhas. E gabava-se da história. Mas quando uma das maiores empresas turísticas britânicas se retirou, porque a região se tornara demasiado cara, os donos dos restaurantes foram a correr ter com o governo para que os salvasse."(Pág. 43)

"Um jornalista estrangeiro recém-chegado... ...que se esforçava por compreender o português, fez uma nota mental para pedir uma entrevista com um homem chamado "Pá", que nunca tinha visto, mas que era repetidamente mencionado sempre que as pessoas discutiam. Deve ser, pensou o meu colega, alguém poderoso, alguma figura obscura que puxa os cordelinhos atrás do cenário -um general, talvez. Ou um político ligado ao KGB." (Pág. 193)

"Em especial nas pequenas vilas rurais, onde as relações são mais pessoais do que oficiais, os políticos locais mantiveram as mãos metidas na bolsa da UE e entregaram-se a gastos estouvados e frívolos, que perpetuavam o patrocínio e o nepotismo. A criação de riqueza perene foi muito frequentemente negligenciada. O presidente do Tribunal de Contas reconheceu, em 2008, que"muitas infra-estruturas foram construídas para ninguém."Foram uma manifestação da síndrome de "pontes-para-nenhures". (Pág. 224)

"Uma atitude desdenhosa em relação à noção de ordem talvez seja mais visível na confusão rural de Portugal. As cidades da província parecem ter sido planeadas nas costas de um guardanapo de papel, durante o almoço. Mesmo os locais que contêm notáveis jóias arquitectónicas e históricas, como Tomar, com o seu Convento de Cristo, do século XII, estão desfigurados pela arquitectura urbana desleixada. "Tomar é feia!", suspirou a minha mulher (portuguesa), enquanto a atravessávamos de carro." (Pág. 228)

Gostou? Então está à espera de quê?! Se está em Tomar, ala direito à Livraria book.it do Modelo/Continente. Ontem ainda restavam cinco exemplares. No expositor central, à esquerda de quem entra, na face virada para o exterior, livros expostos com a lombada para cima, sensivelmente a meio. Boa sorte...e  boa leitura!