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domingo, 26 de agosto de 2012
“N.” de Ernesto Ferrero
segunda-feira, 1 de março de 2010
“Vinte e Zinco” de Mia Couto (Caminho)
HÁ SEMPRE UM LIVRO...à nossa espera!
Tuesday, January 12, 2010
“Vinte e Zinco” de Mia Couto (Caminho)

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Vinte e cinco é para vocês que vivem em bairros de cimento
para nós, negros pobres que vivemos
na madeira e zinco, o nosso dia
ainda está para vir.
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Jessumina, a adivinhadora
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Assim inicia o romance, com a fala da adivinhadora Jessumina, cujo discurso assume a alinha orientadora do romance. O desenvolvimento da trama processa-se segundo a dicotomia que mostra duas formas de viver o 25 de Abril de 1974 e da forma como viveram as consequências do evento. Os capítulos dividem-se por datas, pintam o quadro dos dias anteriores à Revolução e o rescaldo daqueles que se lhe seguiram. Para além de retratar o ambiente psicológico hipertenso de um período de fortes convulsões políticas, trata-se de um romance que aborda vários aspectos da condição feminina durante o Estado Novo, tanto entre as mulheres de origem portuguesa como africanas.
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Para os “brancos” de Jessumina – os de África mas sobretudo os que habitam a metrópole – pode ter sido o início de uma nova etapa, sob a bússola de um ideal chamado liberdade. Mas as consequências da mesma revolução demoram muito mais tempo a fazer-se sentir no povo dos bairros de zinco das antigas colónias, que sofrerá um longo e moroso processo de implementação e consolidação.
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O grande opositor a esta consolidação da liberdade é o status quo, representado pelo poder da polícia política -PIDE DGS – aqui representada por chefe da esquadra local, Lourenço de Castro.
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A prepotência de Lourenço de Castro, chefe da Delegação da PIDE local, fruto de uma educação ultra-conservadora, onde a sensibilidade é inibida, desde tenra idade, pelo autoritarismo e austeridade da figura paternal – representada por Joaquim de Castro.
Esta demissão, reflecte-se até mesmo no tom de voz, que aparece, logo na primeira página, e emergir da sombra, da penumbra do interior da casa, lamparinando no corredor, tremeluzindo. O neologismo introduzido por Mia, faz-nos perceber tratar-se de uma voz trémula, fraca. Mal o filho assoma à soleira da porta, Dona Margarida corre logo a agasalhá-lo, corre a buscar o pano para lhe colocar o pano debaixo do queixo para impedi-lo de se molhar, ao babar-se enquanto dorme.
Para o pai, Joaquim de Castro as mulheres não contam, isto é, estão longe de serem consideradas como seres susceptíveis de igualar os homens em termos de tomada de decisão ou iniciativa.
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A chegada a casa dos Castro a casa é um ritual, onde a matriarca desempenha, diariamente, os mesmos gestos, exclusivamente dedicados aos homens da casa.
Irene esbanja beleza, erotismo e expressividade no convívio com os habitantes nativos, ao comportar-se como uma simples turista e não como colonizadora, sendo a causa de grandes dores de cabeça a Lourenço.
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Irene enfrenta o sobrinho como um furacão: Pensas que tens o poder de matar? Pois esta gente, os pretos como lhes chamas, têm poderes que tu desconheces. Esses que mataste, estão ainda por aqui, deste lado da vida. Só matas os que eles deixam morrer.”
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É por esse motivo que julga acreditar que é a sombra desses mortos que assola o sono de Lourenço, e que se poderão reflectir num possível desejo de vingança dos vivos, impedindo-o de ter paz.
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Os mortos surgem-lhe frequentemente, também, sob a forma de terrores imaginários e obsessões dementes. O Autor serve-se da citação de Malraux, retirada da obra Voodoo in Haiti de 1959, para ilustrar o estado de espírito de Lourenço quando fica a sós com os seus pensamentos à noite.
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O Conflito
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O motor de desenvolvimento da trama gira à volta do mistério da estranha cegueira de Andaré Tchuvisco, grande amigo de Irene e artista plástico, acerca do qual se fala cripticamente desta forma:
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O cego não via para crer. Se os visuais enxergavam luzes, como não distinguiam penumbras que se sucedem? Cada ser tem duas margens, uma em cada lado do tempo.
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O romance desenvolve-se através de um discurso fluido, quase musical, marcado por uma profusão de marcas da oralidade, típicas da região, enriquecida pelo sincretismo linguístico e cultural que torna a estória apetecível e envolvente, sobretudo se lida em voz alta.
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O fio condutor desenrola-se através dos meandros de uma senda labiríntica, muitas vezes polvilhada de falsas pistas, que conduzem o leitor a um final surpreendente, através de um caminho de efabulações, distorções, frases sibilinamente crípticas, adágios, provérbios, oráculos e profecias.
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Por outro lado, a evocação de obscuros episódios do passado possibilita a descoberta de que o pior castigo para um crime horrendo é a exposição, a submissão ao julgamento impiedoso da opinião pública daquilo do que se quer, a todo o custo, esconder. A vergonha e a humilhação, decorrentes da exibição das fraquezas de quem se faz passar por um colosso, pressupõe a sua própria destruição. Logo, o passaporte para a libertação é a informação e o conhecimento daquilo que antes era secreto. O segredo será, portanto, o mais fiel aliado do crime e a omissão da informação, a mais eficaz forma de privação de liberdade. Por isso, a revelação, no sentido apocalíptico do termo, do impulso de humilhar, subjacente ao Desejo que se pretende esconder, é a melhor forma de concretizar este “vinte e zinco” na aldeia de Pebane, o qual se concretiza algum tempo depois do vinte e cinco de Abril em Lisboa.
A Revolução tarda a chegar a Moçambique, mas chega. Como a maré e o vento. Principalmente quando soprado por pessoas como Irene e Jessumina.
A mesma Revolução, nos bairros de zinco, começa por se manifestar com alterações subtis no quotidiano, na mudança nos procedimentos e na hierarquia, cuja consequência é a substituição das elites detentora de poder político.
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A mudança torna-se evidente a partir do momento em que Dona Margarida visita a adivinhadora Jessumina, para procurar ajuda. Começa, aqui, o processo de libertação da grande dama portuguesa, num primeiro acto de autonomia que não lhe é ditado por nenhum homem da família.
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Outro indicador é o desmantelamento da sede local da PIDE, com as suas alvas e imaculadas paredes, cuidadosamente branqueadas por Andaré Tchuvisco, de forma exibir uma imagem de limpeza em contraste com o chão vermelho, cuja tijoleira servia de camuflagem às manchas de sangue dos torturados.
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Mesmo não vendo, ou vendo sombras O cego se permitia altivez que nenhum outro negro exibia. E os brancos aceitavam, enfraquecidos pela sua deficiência.
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“Ser cego era a minha arma. Ninguém está autorizado a chatear um cego.”
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Apesar da cegueira, ainda que parcial, e ainda que só em termos físicos, de Andaré, este consegue caminhar com elegância. E dignidade. Além de continuar a desenhar figuras femininas, de belas formas arredondadas. Até porque, em relação àqueles que partem e deixam saudades, ao permanecer resistentemente entre os entes queridos – alguns deles a cuja morte assistiu na cadeia onde trabalhava a branquear as paredes e a lavar o chão –, Andaré afirma que: A vida é infinita. Mas nada é tão enorme quanto a morte.
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Sobre Irene, Andaré tem a perspicácia de constatar que Irene chegou a Pebane sem modos de ocupadora. Se comportava como era: estrangeira, vivendo em território colonial. O jovem artista plástico recorda-a ainda no tempo dos os amores com Marcelino, o belo mulato, mecânico de automóveis:
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A portuguesa era açucarosa, capaz de arredondar micaia.
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Marcelino em contrapartida, era um homem simples, pragmático: O mecânico era bom de afiar a existência. Sem paciência para mornices nem fios para meios panos. O universo para ele era simples: o bicho era hiena ou coelho (…), achava que o mundo tinha de ser cambalhotado.
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O ímpeto revolucionário era-lhe no entanto, refreado pelas pessoas mais temerosas como o Tio Custódio, em cuja garagem vivia:
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A política é desses incêndios que se acendem na casa do outro e quem arde é a nossa casa.
Para quem gosta de jogar pelo seguro, como é o caso do Tio Custódio, à sensação de insegurança está subjacente o medo da mudança que entende não trazer melhorias concretas, limitando-se a beneficiar os interesses de um grupo que não abrange as populações dos bairros de zinco. Possui a firme convicção de que os benefícios que são dados aos mais humildes, são-no sempre pela metade: A felicidade é um instante, um relâmpago fora da tempestade. Quem dá a chávena não dá a colher. E quando nos dão a luz, lá vem junto o túnel.
A experiência de uma vida dura e a constatação de um padrão na evolução do ciclo da vida na existência humana contribuem para o desenvolvimento de uma atitude céptica face a uma mudança radical, em termos políticos, que represente uma substancial melhoria na qualidade de vida dos cidadãos. Um intuição que lhe advém do conhecimento dos aspectos menos nobre da natureza humana.
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Seu medo era esse: que esses que sonhavam ser brancos segurassem os destinos do país. Proclamavam mundos novos (…) mas nada mudaria senão a cor da pele dos poderosos. A panela da miséria continuaria no mesmo lume. Só a tampa mudaria.
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O tio Custódio recusa, no entanto, a assimilação à cultura portuguesa, isto é, a ser despojado da sua cultura e forma de viver ancestrais. A afirmação da própria identidade cultural é a via que escolhe para vincar a sua forma, muito própria, de afirmar a sua independência face a qualquer potencial colonizador. Uma forma pacífica, mas inequívoca de assumir o seu lado revolucionário.
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Dona Graça, a mãe de Marcelino, representa as angústias da típica mãe africana, é a mulher que nunca chora, a não ser quando chove ,para deixar que as gotas de água se confundam com as lágrimas, escorrendo-lhe pelo rosto como contas de um rosário, lhe rosariando as faces.
O desaparecimento de Dona Graça, mãe de Marcelino, sem nunca ser encontrado o corpo é mais uma representação do imaginário presente na cultura africana acerca do que é a morte: desintegração ou transformação.
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Em relação a Dona Margarida, a necessidade de autonomia começa a fazer-se sentir e a germinar em si como uma gravidez, desde a visita a Jessumina, operando-se nela uma revolução interior a a partir do momento em que sabe o filho despojado do seu poder formal.
O cheiro carnal da terra africana chega a perturba-a assim como os murmúrios do Índico (…O Índico marmurava (…) ou seja, murmurava e murava a povoação). A dona Margarida angustiavam-na, também, o receio da seca, uma espécie de incêndio que emergia da guerra: …a seca castigava a savana em volta e o verde todo se exilara (…). A poeira subia como labaredas do chão morto. Aqui residem a suas motivações que desencadeiam o impulso de partir.
Por outro lado, a comida escasseia na localidade e os morcegos dedicam-se ao canibalismo. Da mesma forma, os antigos apoiantes do regime anterior denunciam-se um aos outros para serem indultados, na tentativa de esconder um passado sanguinário. Uma metáfora de que se serve o autor para caracterizar a venalidade das relações humanas em tempo de guerra ou em tempo de crise. Onde as vítimas se transformam em algozes. E algumas pombas em morcegos carnívoros.
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Na véspera de 25 de Abril, no presente romance de Mia Couto, a personagem Andaré recusa-se a fechar os olhos, sem permitir que lhe toquem na vista. O Autor recorre mais, uma vez a uma refinada metáfora de conotações políticas, referindo-se, desta vez, à distorção das percepções operada pelas classes detentoras do Poder. Andaré não permitirá que lhe toldem a “vista”, nem para o bem nem para o mal, persistindo na sua forma pessoal de ver as coisas. E de interpretá-las.
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Os brancos falam na ideia como uma coisa solar, que ilumina a mente. Mas a ideia, todos sabemos, pertence ao mundo do escuro, dessas profundezas de onde as vísceras nos conduzem…. A cultura africana privilegia o mundo inconsciente dos impulsos, das emoções, um mundo lunar, que vem um pouco ao encontro da ideia explicativa do comportamento de Freud.
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No colo de Jessumina – que faz com frequência as vezes de um divã de psicanalista –, Andaré é submetido a uma espécie de terapia de psicanálise, ao contar-lhe sonhos, visões, submetido como que a um transe hipnótico. Nestas “sessões”, o artista plástico visiona cataclismos, maremotos, cheias descomunais e uma alusão assustadora face à possibilidade de uma guerra civil eminente. Andaré sonha, no colo de Jessumina, com uma ave branca e vermelha, ameaçadora, como o mais terrível dos presságios de morte e guerra.
Na realidade, trata-se de uma figura mítica, Napolo, o monstro a cobra voadora, trazedora de tempestades e relâmpagos.
Para o capítulo que inicia com a data de 25 de Abril, o Autor escolhe a epígrafe contendo a previsão Shaka Zulu, o líder Zulu, sul-africano, popularizado na Guerra com os Boers e elemento fundamental na união tribal, para o fim do seu assassino:
Toda a terra ficará branca com a luz das estrelas e o céu será escondido pelas andorinhas.
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Os dias restantes
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No dia 26 de Abril, o dia imediato após a revolução, constata-se que, para haver evolução e mudança efectiva, o povo precisa de se instruir e figurar na história com a sua versão a ter o mesmo peso que a dos seus adversários.
Até que o leão aprenda a escrever, o caçador será sempre o único herói.
No capítulo que inicia com a data de 28 de Abril, o Autor destaca a caracterização das atitudes e personalidade colectiva dos portugueses colonizadores através do olhar de Jessumina:
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Os portugueses são pássaros de asas vigiadoras, mas que chocam contra luzes que eles mesmos inventam.
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Em 29 de Abril, através de um fragmento das memórias do Tio Custódio, fala-se da possibilidade de se morrer sem se esperar a visita da morte. Da morte que não era para ser ou que poderia ter sido evitada e só acontece quando se está no lugar errado à hora errada, fruto de uma descomunal arrogância e falta de visão.
…o que é triste é morrermos da morte de um outro (…) às vezes, uma outra morte por engano, cruza connosco. Assim é que é triste morrer (memórias do Tio Custódio).
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E de um total desprezo pela forma africana de ver as coisas: A Lourenço irritava esse sim e não de África, esse poder ser e não ser, essa líquida fronteira que separa o possível do impossível; como se a verdade nos trópicos se tornasse uma coisa fluida, escorregadia. O que agastava o português era o ser enganado sem nunca lhe chegarem a mentir.
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30 de Abril, é dia da libertação dos prisioneiros políticos data em que se constata um acinzentado e algo amargo sabor a vitória: Nossa tristeza é a seguinte: ganhamos sem chegarmos a ser vencedores.
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E, no epílogo, Andaré assume o papel de guardião do Tempo, consciente do efeito de erosão que este opera na memória colectiva e cujo pincel, o Vento, apaga as manchas de sangue nas paredes ao cobrir com areia a memória dolorosa da guerra.
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Cláudia de Sousa Dias
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segunda-feira, 27 de julho de 2009
Luís Sepúlveda - Um velho que lia romances de amor
Resumen de Un viejo que leía novelas de amor
.Interesante historia nos acerca el escritor chileno Luis Sepúlveda en su libro titulado “Un viejo que leía novelas de amor”, un relato que surgió como consecuencia de la propia experiencia de este autor que convivió durante siete meses con los indios shuar en la Amazonia ecuatoriana. Gracias a él, el autor no sólo recibió el Premio Tigre Juan, sino que, hasta el momento, también ha llegado a vender casi veinte millones de ejemplares.
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Si bien el nombre de esta obra permite obtener un dato importante sobre el contenido de esta propuesta literaria que ha sido traducida a más de veinte idiomas, leer cada etapa de esta narración que, finalmente, lleva a un “viejo” a disfrutar de las novelas románticas, representa un placer indescriptible para aquellos que aman los relatos de aventuras que incluyan alguans referencias históricas y geográficas.
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El protagonista de esta historia es Antonio José Bolívar Proaño, un hombre que vive en el interior de la selva amazónica, en un pueblo conocido como “El Idilio”, donde conoce a los indios shuar y, gracias a ellos y a sus costumbres, aprende a sobrevivir en la selva.
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Sin embargo, ese mundo que él disfruta no está libre del accionar del hombre. Producto de estas vivencias derivadas de la codicia y la injusticia de la “civilización”, es decir, de los cazadores que intentan destruir ese entorno, Bolívar Proaño decide refugiarse en la literatura, en especial, en las novelas de amor que, dos veces por año, le obsequia un dentista.
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Así como Frances Hodgson Burnett transmite a través de “El jardín secreto” una profunda reflexión acerca de la importancia de proteger y fomentar el desarrollo de la naturaleza, Luis Sepúlveda utiliza la historia de “Un viejo que leía novelas de amor” para despertar en el lector un espíritu comprometido, respetuoso y solidario hacia el entorno selvático amazónico.
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in Poemas del Alma
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Friday, September 15, 2006
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“O velho que lia romances de amor” de Luís Sepúlveda (ASA)
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A grande floresta amazónica, um dos locais do mundo onde sobrevivem espécies raríssimas de fauna e flora é o verdadeiro protagonista do romance, cuja mensagem é transmitida pelos olhos de António José Bolívar, o velho eremita que vive na floresta e que lê romances de amor. Esta personagem, aparentemente excêntrica, funde-se com a vida na floresta, vive em perfeita simbiose com os seus habitantes, humanos, animais e vegetais.
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A história da vida de António José Bolívar, inspirada, ao que tudo indica, em Chico Mendes, tenta incutir os valores que preconizam o respeito pela natureza e pelas tribos índias, no coração da selva, através de um romance sobre “o desconhecido mundo verde” como meio de sensibilização da opinião pública.
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Para António José Bolívar, a solidão na floresta é compensada pela companhia das novelas de amor, que lhe permitem resgatar o passado e mostrar-lhe as outras dimensões da paixão, estimulando a imaginação e ao mesmo tempo desencadear uma discussão literária no meio da selva pelos homens rudes – colonos e garimpeiros – a quem o velho lê as suas novelas de amor, para os distrair nas horas de tédio e solidão.
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Personagens
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Desde o médico dentista , anárquico convicto, com o sugestivo nome de Rubicundo Loachimín, cujos métodos primitivos de tratar dentes não conseguem afugentar-lhe a clientela por falta de alternativa, todas as personagens têm algo que nos parece exótico e excêntrico aos nossos olhos. Na realidade, numa aldeia como El Idilio as coisas não podiam passar-se de outra forma.
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Por exemplo, o Doutor Loachimín, passa a vida a vituperar o governo e as instituições para distrair os doentes dos movimentos das suas terríveis pinças, insultando-os quando mostram falta de coragem para enfrentar as suas tenazes sem anestesia. El Idílio é uma terra de tal forma isolada que apenas uma pequeníssima e precária embarcação fluvial assegura o transporte de víveres, medicamentos e pessoas assim como a comunicação com o exterior. El Idílio é tão isolada como a Macondo de Gabriel Garcia Marquez.
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O vilão do romance é o administrador da circunscrição, funcionário público venal, perito na arte da extorsão, gordo e sempre suado – característica que lhe valeu a alcunha de Babosa – prepotente com os fracos, untuoso e subserviente com os poderosos e endinheirados.
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O romance trata, ainda, do conflito entre as tribos índias e o homem branco – o drama da aculturação. Dentre as tribos índias destacam-se duas castas diferentes: a dos jíbaros, semi-aculturados e dependentes do álcool, marginalizados pelos xuar; os xuar, o povo da floresta que mantém as suas tradições, isolado na selva.
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Trama
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Quando surge o cadáver de um estrangeiro – gringo - no mato, Babosa tenta incriminar os xuar que atrapalham as suas actividades pouco lícitas e prepotentes ligadas à extorsão e ao trafico ilegal de espécies exóticas. Por outro lado, ao representar o poder local não resiste a manipular as eleições usando um método ancestral: o suborno.
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É, no entanto, desmentido pelo sábio da floresta, António José Bolívar – o velho que lê romances de amor. É detentor de um conhecimento profundo da fauna, da flora, dos hábitos e tradições das tribos locais, assim como do comportamento animal – um saber empírico adquirido ao longo de muitos anos de observação da vida na selva.
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Bolívar aprende a conviver com os xuar, torna-se quase num deles e aprende os seus conhecimentos de medicina, rituais religiosos e de caça, a forma de sobreviver na floresta tropical e o amor entre os xuar, onde se verifica a ausência de sentimentos de posse ou ciúme. Além de tudo isso, o velho romântico, goza de uma liberdade e independência absolutas, sem delas ter propriamente consciência.
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Os inimigos dos xuar e da floresta são, sobretudo, os colonos e os garimpeiros que perturbam, também a paz de Bolívar: “…os colonos devastavam a floresta construindo a obra-prima do homem civilizado: o deserto.”
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O homem branco vê, em contrapartida, como inimigo os seres da floresta: a onça, a jibóia, ou a tribo dos endiabrados micos – pequenos macacos que vivem no alto das árvores. Muito observadores e curiosos, estes primatas atacam em massa os turistas de máquina fotográfica, despojando-os de todo o tipo de objectos que lhes chamem a atenção ou que lhes desperte a curiosidade.
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O velho que lê romances de amor
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António José Bolívar é um homem idoso, de idade indeterminada, que gosta de poupar a dentadura postiça para a não desgastar, colocando-a apenas para comer ou falar – tal como alguém com a vista cansada faz com os óculos que usa só para ler.
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Os livros aparecem a José Bolívar como a vingança ou o bálsamo contra a opressão do meio – um “inferno verde que lhe arrebatara o amor e os sonhos”.
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É graças aos livros que ele descobre a beleza da linguagem, o sucedâneo de um amor perdido de uma bela morena que, segundo a descrição do retrato, muito se assemelha a Frida Kahlo.
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Ler era para o velho que passa quarenta anos da sua vida na floresta, a possibilidade de regressar ao mundo que abandonou, cristalizado num passado longínquo.
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António José Bolívar é ajudado pela professora da escola local, que lhe recomenda as obras e lhe faz as encomendas em troca da ajuda nas tarefas domésticas e na construção de um herbário.
Bolívar demonstra uma curiosidade inicial pela geometria e um desprezo pelos compêndios de história por considerá-los repletos de pedantismo, mas a sua paixão é a literatura, sobretudo os livros que falam de amor.
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A dada altura, lê tanto que começa a tornar-se crítico literário e a presidir a debates e tertúlias no meio da selva, junto dos garimpeiros e traficantes de espécies exóticas.
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António José Bolívar consegue tal façanha por dedicar escassas horas do dia ao sono e à sobrevivência e o resto do tempo livre aos romances, à semelhança dos intelectuais que frequentam os cafés de Paris, como Sartre, ou um escritor metódico e profissional como Gabriel Garcia Marquez – apesar da sua escassíssima instrução, Bolívar é um autodidacta. Um dos mais divertidos episódios da obra é aquele em que se gera uma acalorada discussão face à dificuldade em imaginar Veneza como uma cidade construída sobre as águas, que quase acaba numa rixa.
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O estilo
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A prosa de Sepúlveda é descritiva e, ao mesmo tempo, tão sensorial que parece que entramos pela selva dentro, juntamente com as personagens, fazendo lembrar as descrições de Herman Melville em Taipi ou Kipling em O Livro da Selva. Sobretudo na cena do ataque dos micos, que lembra os macacos no templo na obra do célebre escritor britânico.
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Em O velho que lia romances de amor o leitor quase que pode sentir, o calor húmido e opressivo da atmosfera das florestas das chuvas, cuja humidade se cola à pele, o desconforto dos pés a enterrarem-se na lama, a violência do caudal do aguaceiro na floresta tropical, o canto dos pássaros, os guinchos dos micos, o sabor exótico dos frutos da floresta.
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Ou visualizar o andar elástico da dos felinos, ouvir o miar irado da onça…ou ainda, imaginar o voo cortante dos galos das rochas, debaixo do peso da cortina de chuva dos trópicos, a neve a repousar na borda do vulcão andino, o peso das nuvens grávidas de chuva…
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O oposto do velho que lê romances ou novelas de amor é dado por Babosa que representa a boçalidade do homem branco que ao desconhecer totalmente o ambiente da floresta, comete toda a casta de imprudências e gaffes de maneira a fazer a floresta voltar-se contra si próprio revelando uma total incapacidade de adaptação.
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A arrogância de Babosa impede-o de aceitar as recomendações de Bolívar. Este finge aceitar o desafio de Babosa indo sozinho atrás da onça assassina.
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A precisão, a minúcia e o detalhe com que Bolívar estuda o comportamento do animal até ao movimento mais elementar descodificando-lhe as atenções é uma das cenas mais empolgantes da obra.
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O final é de uma dilacerante beleza, onde não há vencedores nem vencidos no confronto entre o homem dito civilizado e a selva.
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Um livro de denúncia e de protesto acerca de um homem que só nos romances de amor encontra o refúgio face à barbárie humana.
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Único e irresistível.
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Para ler de um só fôlego.
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Cláudia de Sousa Dias
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Ler AQUI a obra integral:
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Um velho que lia romances de amor
de Luis Sepúlveda - 2005 - 137 páginas
books.google.pt
