Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sábado, 18 de julho de 2026
Raquel Varela - [Ensino, exames e pedagogia]
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Miguel Sousa Tavares - A ‘selenação’: um fado lusitano
domingo, 14 de junho de 2026
Caitlin Johnstone - Toda a espécie humana foi transformada numa máquina geradora de lucros
sexta-feira, 29 de maio de 2026
António Rodrigues - A estupidez da inteligência artificial
O mundo que se conta a partir do que se diz.
* António Rodrigues
8 de Dezembro de 2022
“O problema não é só o de que a maioria de nós
luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho
incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente
dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês
A inteligência da desigualdade
É o furor da semana no domínio
dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que
consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das
sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços
demonstrados pelo ChatGPT
deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por
máquinas num futuro não muito distante.
O entusiasmo infantil com que
olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do
divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências
do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais
à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados
com a mortalidade.
Tem mais que ver com o impacto da
máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos
Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão
autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas
por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São
despedidos? Reciclados? Rejeitados?
Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S.
Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um
todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas
também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos
valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais
especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da
desigualdade nos países mais desenvolvidos.
O Peru aboliu a escravatura há
168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda
existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y
Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru
anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.
Esta informalidade económica, em
que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo
pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o
conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de
quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano
com a cumplicidade do Estado.
Mais de 3,4 milhões de
trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados,
mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa
as vítimas por não denunciarem os crimes.
Mesmo que o próprio ministro do
Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um
encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss
Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho
forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram
peso às palavras.
“Aqui temos um assunto de dignidade do ser
humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de
fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro,
que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo,
de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua
manutenção.
Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário
El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100
metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de
nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com
o ouro que eventualmente encontrarem.
Oito horas
Quase 140 anos passados desde que
o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há
maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução
tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais
horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria
ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.
As 35 horas semanais em França
ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos
para a semana das 32
horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.
Quando as oito horas laborais,
oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta,
defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços
com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos
que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho”
americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa
da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do
trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.
Como refere
Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com
segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir
trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu
horrivelmente mal”.
E a pandemia, que acentuou o
teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o
trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a
(auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da
sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou
ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e
mental.
Amanhã, tenho 15 minutos para
ti
As aplicações para gerir a nossa
vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil
milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à
frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser
humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia
para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E
mesmo assim queda curto.
“A gestão do tempo não é a solução, na verdade
é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy:
How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua
inglesa.
ocupação dos minutos, não visa
ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva,
fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas
para arranjar tempo para encaixar outras.
E o mais incrível é que, se
calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na
mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de
trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos,
o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível
burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são
tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.
A auto-ajuda, o empreendedorismo,
“o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando
transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal
do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex
machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos
para ti.
António Rodrigues - A minha vida por um ecrã — apagado
O mundo que se conta a partir do que se diz.
* António Rodrigues
29 de Maio de
2026
“Algumas das maiores empresas da história da
humanidade não lutam para ganhar a sua atenção ou para merecer a sua atenção.
Estão a tentar roubá-la”, Jonathan Haidt, psicólogo social norte-americano
A Suécia
assumiu a vanguarda no que diz respeito à digitalização da sua educação e quase
tão depressa como deu ecrãs às crianças para substituir o papel e a caneta,
diminuir a interacção pessoal e fornecer as bases para navegação à bolina dos
seus filhos nos mares da tecnologia está a arrepiar caminho e a regressar ao
básico da educação: livros, cadernos, esferográficas e professores de carne e
osso, com ecrãs desligados e fora da sala de aula.
A Suécia tinha
criado a educação do futuro até se ver a braços com um presente envenenado.
Depois de quedas abruptas nas provas internacionais de compreensão leitora, o
Ministério da Educação voltou aos manuais em papel, proibiu os ecrãs para
menores de seis anos e restringiu o uso de telemóveis durante o período de
aulas.
Os suecos não são os únicos a sentir na pele a necessidade de regressar em
força ao analógico. Estavam mais avançados que muitos outros, por isso, tiveram
os resultados antes, mas noutras latitudes começa-se a chegar às mesmas
conclusões.
Randi
Weingarten, presidente de uma das mais importantes associações de professores
dos Estados Unidos, a Federação Americana de Professores (AFT, na sigla em
inglês), dizia nesta semana, num discurso intitulado Devices down, eyes up, hands-on: 10
points to boost student learning and success in the AI era, que “as
crianças são resistentes, mas muitas vezes, não estão bem”, e uma das
principais causas para isso é que “estão afundadas em tecnologia”.
“O ritmo desta
revolução tecnológica tem sido vertiginosamente rápido e as crianças estão a
ficar queimadas”, disse Weingarten, antes de recomendar dez medidas para
defender os estudantes da disrupção causada pela inteligência artificial (IA).
“A ubiquidade da IA torna ainda mais importante o pensamento crítico e o
conhecimento aplicado. Os estudantes têm de ir além da memorização de factos e
aprender a verificá-los, desafiá-los e sintetizá-los em novas ideias.”
Higienização
O tema está
aberto a papers de investigadores até 25 de Setembro de 2026 e pretende
ajudar à discussão crítica sobre a forma como as imagens de guerra são geradas,
propagadas e recebidas nos ambientes de media, e como a sua “circulação,
enquadramento e modulação” acabam por influir na perspectiva da opinião pública
sobre os conflitos.
Criado pelo
Frontiers, um dos maiores sites abertos de estudos científicos de
revisão por pares, o tópico abre um leque enorme de possibilidades de abordagem
na cobertura de guerras, que podem ir da simples adulteração de imagens até aos
critérios editoriais usados na selecção do que transmitir e não transmitir, dos
ângulos para olhar e das perspectivas de análise.
“Os ritmos mediáticos e a densidade narrativa
não afectam só a percepção; podem também ter um papel no processo de tomada de
decisão política, da construção da legitimidade e a governança da informação em
tempos de conflito”, lê-se no site.
“À força de fazer desfilar as notificações, os
alertas e as imagens de guerra nos nossos ecrãs, muitos dão por si a não sentir
absolutamente nada”, escreve Nina Parage no site Psychologes. “Catástrofes climáticas, conflitos armados,
acontecimentos violentos: a actualidade ansiógena parece produzir um ruído de
fundo cruelmente banal.”
O uso cada vez maior de meios digitais para
travar as guerras, e a mediação editorial cada vez mais acentuada para as
mostrar, correm o risco de higienizar a morte e a destruição transformando
aquilo que deveria ser o último recurso da política, como uma forma banal de
impor as perspectivas de uns às perspectivas de outros.
E, como lembravam ainda recentemente, Lee-Ann
d’Alexandry, Fabien Girandola e Lionel Souchet num artigo no site The Conversation: “A psicologia social mostra que aquilo
que julgamos ‘aceitável’ não é nem natural nem estável: constrói-se
colectivamente, ao longo das interacções, dos discursos e das repetições.”
Atenção
A Meta, a
empresa de Mark Zuckerberg que detém o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e o
Threads, está avaliada em mais de um bilião de dólares (trillion em
inglês), mesmo não cobrando aos seus seguidores para interagirem na rede
social. Tudo porque “inventou um modelo de negócio que extrai atenção de quase
metade de todos os seres humanos e a vende a anunciantes”, diz Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa.
“Outros
sectores seguiram o mesmo caminho: videojogos, encontros, apostas — até o
investimento foi ludificado e optimizado para nos manter a olhar e a deslizar o
ecrã. Todos já tivemos a experiência de pegar no telemóvel, talvez por uma boa
razão, e, uma hora depois, darmos por nós a fazer scroll de forma
automática. Não é um acidente. É isso que os nossos telemóveis e aplicações
foram concebidos para fazer.”
Na sua
intervenção, na formatura da Universidade de Nova Iorque no dia 14, publicada
na revista The Atlantic, Haidt lembra o famoso discurso do
escritor David Foster Wallace na formatura do Kenyon College em 2005: “O
verdadeiro significado da educação para pensar, que supostamente devemos
receber num lugar como este, não é, realmente, sobre a capacidade de pensar,
mas sim sobre a escolha daquilo em que pensar.” Mais de 20 anos depois, há
muito sem Foster Wallace entre nós, “muitos homens poderosos e grandes empresas estão
a tentar tirar-vos essa opção”, afirmou Haidt.
Dar valor à nossa atenção é importante porque
se para a Meta vale um bilião de dólares, para nós é incalculável. Aceitar a
informação de mão beijada, os pensamentos já digeridos, os caminhos que os
ecrãs luminosos nos apontam como única via, condenam-nos à dependência, a
escolher lados, a atirar argumentos automáticos como bolas de neve (ou granadas
de mão), a perder tempo com o acessório quando outros ditam o essencial.
Como disse
Foster Wallace naquele dia, no Kenyon
College, “as realidades mais óbvias e importantes são, muitas vezes, as que
mais custa ver e discutir”.
Empatia
Uma das piores
expressões que o capitalismo cunhou é essa ideia de que nada é pessoal, são só
negócios. Argumento terrível que desresponsabiliza as empresas do seu papel
social, arranca-lhes o humanismo e prescinde da ética no seu comportamento,
pois tudo se resume à garantia do lucro para os seus accionistas.
Nestes tempos
política e economicamente conturbados, marcados pela instabilidade geopolítica
e pela aceleração tecnológica, os líderes empresariais precisam de tomar
decisões com janelas cada vez mais curtas e instáveis. “Nestas condições, a
carga cognitiva associada à tomada de decisões aumenta e a tolerância à
ambiguidade diminui”, escreve Merete Wedell-Wedellsborg, psicóloga clínica
especialista em psicologia organizacional. “Do ponto de vista da liderança,
aquilo que, em contextos estáveis, podia ser visto como ponderado e inclusivo
pode começar a parecer lento, indeciso ou avesso ao conflito.”
A empatia já
não abunda em muitos ambientes empresariais extremamente competitivos, em que
se tomam decisões com a faca nos dentes e a disposição de matar ou morrer.
Nestes tempos difíceis e de alto grau de imprevisibilidade, com muitas relações
profissionais estabelecidas e mantidas através de meios tecnológicos, os
terrenos para a empatia medrar tornam-se ainda mais estéreis.
No entanto,
como refere Wedellsborg no site do International Institute for
Management Development, “correr para declarar o fim da empatia arrisca criar
uma falsa dicotomia”, porque o que está em causa não é se “a empatia interessa,
mas como é integrada”. Abandonar a empatia na gestão poderá “erodir a
confiança, reduzir o esforço discricionário e estreitar a perspectiva — tudo
factores que podem tornar-se estrategicamente perigosos”.
Para a autora
de Battle Mind: How to Navigate in Chaos and Perform Under Pressure, a
inteligência emocional ainda é necessária. Neste mundo de força bruta e fria
tecnologia, é o garante da manutenção do lado humano do gestor. Até porque, se
se limitar a ser apenas máquina, máquinas haverá para o substituir.
quarta-feira, 27 de maio de 2026
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sexta-feira, 22 de maio de 2026
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2024
Rodrigo Guedes de Carvalho - A vida tal como ela não é
Nasci sem telemóveis sequer no horizonte da imaginação e também lá passo mais tempo do que o saudável
Somos um planeta inteiro de turistas japoneses. Lembram-se, certamente, há muitos anos, quando só se conseguiam fotografias com máquinas para o efeito. Eram caras e conferiam estatuto. Os pais aprendiam a fotografar o melhor que conseguissem, a fim de registar a evolução da família, com as férias em lugar especial. Era preciso saber focar, ajustar a luminosidade, ter intuição, olho e velocidade para apanhar o instantâneo dentro de um movimento. Fotografava-se com fé. A cruzar os dedos, na esperança de que tivesse ficado bem, o que só se saberia semanas depois, após a revelação em casa da especialidade.
Uma boa câmara fotográfica pendurada ao pescoço provocava curiosidade e alguma inveja. Depois vieram os japoneses e democratizaram. Nasceram marcas mais acessíveis ao bolso e à aselhice. Claro que não só de um mesmo país. Lá dos orientes. A expressão turistas japoneses era um óbvio lato sensu. Designava os que apareciam pela Europa a disparar a tudo o que mexia ou imóvel permanecia há séculos. Eram molhos de turistas em frente aos históricos monumentos, a carregar nos gatilhos sem cessar. Comentávamos duas coisas, se bem se recordam. Que iam de certeza ficar com uma tralha enorme de fotografias iguais. E, acima de tudo, que pareciam mais interessados em gravar o momento do que em vivê-lo. Adiavam para o diferido. Veriam depois, quando regressassem a casa.
Algumas décadas passadas, somos todos esse turista. Já nem vou à declaração que se tornou, ela própria, um cliché: hoje está toda a gente agarrada ao telemóvel, a toda a hora. E sim, está. Deixou de ser indicativo de juventude, de modernidade, de nova geração para novos tempos. Nasci sem telemóveis sequer no horizonte da imaginação e também lá passo mais tempo do que o saudável. Tal como o meu pai. Como certamente o meu avô, se ainda andasse por cá. É uma máquina maravilhosa, pelas possibilidades cada vez mais infinitas. Cliché número dois: é o mundo na palma da mão. O que me preocupa é o hipnótico. Talvez seja coisa minha, pois que tenho sérios problemas com a sensação de falta de controlo. Não gosto de me meter num carro que não serei eu a conduzir. Tal como sempre foi o único real desconforto com os aviões.
O concerto importa-me pouco, importa-me que o concerto contou com a minha presença, e tenho aqui horas infindas de provas para exibir
Aflige-me o que não depende de mim. Por isso refiro a palavra hipnose. Há toda uma biblioteca de Alexandria com relatos de assombrosas sessões em que pacientes com traumas fundos resolvem muito assunto da cabeça e coração com uma boa hora em que foram conduzidos por um doutor que hipnotiza. Não é para mim. Não, não é por receio de deixar sair muitos segredos. Não tenho muitos, muito menos dos interessantes. É mesmo porque não acredito. E julgo saber que a hipnose tem de encontrar um mínimo de recetividade. Salvam-se, espera-se, as boas intenções terapêuticas, mas ninguém pode negar que há um manobrador e um manobrado.
É aqui, nesta curva, nesta intersecção, que coloco o telemóvel, ou as tecnologias, por atacado. Espero conseguir sempre perceber o ponto, a linha perigosa em que deixo de retirar da máquina o que me interessou para permitir-lhe que seja ela a retirar-me comando, ou mesmo vontade. Quando a máquina, depois de anos a aprender as minhas buscas, me começa a alimentar à boca saborosas coincidências. Turistas japoneses? Gente que nos espantava porque só parecia interessada em ver o mundo num ecrã? Que grava em vez de viver? Por favor. Hoje é autorretrato da Humanidade inteira. Vejam qualquer imagem do público que enche pavilhões ou estádios em concertos. Um mar de luzinhas. Em permanência. Poucos olham para o palco com os olhos de ver, olhos para absorver, para transformar mais tarde numa memória gratificante, daquelas que com o tempo se modificam, como as nuvens arrastadas pelos ventos lá em cima. E como essa sucessão de incertezas sobre o que vivemos afinal nos dava espaço para construir, moldar, remendar sentimentos. Já ninguém quer isso. Não vão aos concertos para sentir ou viver, ou para experimentar estados de alma. O estado de alma limita-se à frieza de um profissional de TV em serviço. Música após música, escolhem o filtro, a cor, as legendas sim ou não. Estão a realizar um filme que não veem. Nem no momento, nem depois. Ou alguém me quer convencer que estas filmagens infindas de concertos serão depois apreciadas com muita calma em casa? Serão esquartejadas em clips, stories, reels, fotos com efeitos, cuja finalidade (que começou logo na compra do bilhete) é dizer aos companheiros da rede social: eu estive aqui, eu estive lá. O concerto importa-me pouco, importa-me que o concerto contou com a minha presença, e tenho aqui horas infindas de provas para exibir. Também tenho centenas de fotos de pequenos-almoços de hotel. Não me lembro bem o que comi ou se me soube bem. Mas aqui está a prova. Nunca saímos do quadro de Magritte — isto não é um cachimbo. As pessoas sorriam, que parvoíce, é perfeitamente um cachimbo. Não era. Era a pintura de um cachimbo.
Expresso SEMANÁRIO#2720 - 13/12/24
sexta-feira, 9 de agosto de 2024
Carlos Matos Gomes - Os atletas são os soldados de um regimento…
domingo, 4 de agosto de 2024
Raphael Machado - Escravos sem saber
* Raphael Machado
Se levarmos em consideração o
terror existencial do trabalho precário e intermitente, a omnipresença da
pornografia e da prostituição na internet, bem como o impulso pela substituição
da propriedade de bens, por serviços pagos mensalmente, vivemos num mundo menos
livre do que há cem anos atrás.
A uberização de
quase todos os trabalhos impede que o homem faça qualquer tipo de planeamento
existencial ou familiar. Ele nunca sabe se terá emprego amanhã. Existe, vive
com um terror constante, no fundo de sua mente, de que estará em situação de
indigência amanhã.
A pornificação generalizada
da sociedade, com a desconstrução da respeitabilidade do corpo, principalmente
do corpo feminino, pela indústria da pornografia, e a recente hipsterização da
prostituição através da popularização do OnlyFans, aponta para uma
realidade em que a “puta” é o único caminho possível para uma mulher. Nesse
caminho, o grau de degradação é inversamente proporcional à quantidade de
dinheiro recebido.
Enquanto isso, ninguém mais tem
casa, ninguém mais tem carro, ninguém mais compra CD, ninguém mais compra jogo
de videogame, (quase) ninguém mais compra livros, ninguém mais vai a
restaurantes ou ao cinema. Em boa parte do mundo, pelo menos, tudo isso é substituído
por algum tipo de “mensalidade”, a qual dá sempre uma falsa sensação de
propriedade e segurança, mas que não passa de uma máscara para a absoluta
despossessão do homem em relação a tudo – inclusive em relação à experiência
humana concreta e real (ir a um restaurante, ir ao cinema).
É a domínio do aluguel, do uber,
do streaming, dos ebooks, do iFood, etc. O
homem sai cada vez menos de casa (que não é sua mesmo), e vive de forma cada
vez mais virtual, tendo experiências que são sempre mediadas por uma tela. E
ninguém tem mais nada.
Mesmo o cortejo do sexo oposto
perdeu organicidade social, transformando-se em burocracia contratual através
do Tinder. Você se anuncia como um pedaço de carne num mercado,
para que outro pedaço de carne te avalie e demonstre interesse. É tão prático
quanto desumanizante. Mas na era do hiperfeminismo, pelo menos é um pouco mais
seguro do que a interação social normal.
E, como toda discussão foi
absorvida pela internet, precisamente na era do hipermoralismo, as redes
sociais bem poderiam ser resumidas a linchamentos diários contra qualquer um
que tenha violado algum suposto tabu de um dos principais rebanhos políticos.
Aos poucos, o virtual vai sendo
considerado mais importante que o real, a ponto de se levarem mais a sério as
indiscrições ou ofensas na internet do que danos e prejuízos concretos
acarretados no mundo real. Todo mundo policia todo mundo e é policiado por
linchadores em potencial.
O homem baniu, na maior parte do
mundo, a escravidão sob todas as formas. Anuncia-se a “liberdade” por todos os
cantos e, semanalmente, não faltam propagandistas para dizer que somos cada vez
mais livres e que estamos mais livres hoje, do que em qualquer outra geração.
Mas a condição do homem em
2024 parece-me apenas uma variação pós-moderna de antigas formas de escravidão
e subjugação. A vantagem dos escravos antigos, porém, é que eles tinham plena
consciência da falta de liberdade.
(Raphael Machado in Twitter 03/08/2024, revisão da Estátua)
domingo, 17 de setembro de 2023
Francisco Louçã - - O artificial torna-nos menos inteligentes
SEMANÁRIO Expresso #2655 - 15/9/23 Estado da Noção -
* FRANCISCO LOUÇÃ
A imersão na
colmeia digital já conseguiu resultados potentes. A vida virtual é uma
ansiedade, altera-nos a noção de tempo, promove a multiplicidade de tarefas
Imagine
que no Natal venha a estar disponível uma aplicação que lhe permite fazer a sua
própria música a partir de uma mistura de alguns acordes de Sérgio Godinho e
José Afonso, poemas da Garota Não e de Fausto Bordalo Dias e uns arranjos de
José Mário Branco. Tudo possível ao carregar simplesmente num botão. Haverá
direitos de autor que foram extorquidos? Nada daquilo será de sua lavra, mas
boa sorte para quem tentar disputar em tribunal a precedência artística, será
dificilmente identificável a inspiração de cada uma das componentes da mistura
— e a aplicação pode fazer duas diferentes com os mesmos ingredientes em
segundos. A indústria musical pode transmutar-se no futuro imediato e a
produção artística pode esgotar-se nesse processo. Esta possibilidade suscita
várias questões difíceis.
PRODUÇÃO E
MEIOS DE PRODUÇÃO
A primeira
questão é que o meio de produção é novo. A música que sairá dessa aplicação
será, ainda assim, um produto cultural, mas é uma nova forma de cultura, que
eleva o pastiche, além do roubo da propriedade intelectual, a um novo patamar.
A arte, neste caso, será só o simulacro da arte. Então, produzir-se-á mais não
se produzindo nada e a cultura será uma forma de incultura e a inspiração uma
artimanha. Para combater este risco, diversos escritores processaram as
empresas que oferecem aplicações de inteligência artificial — e há hoje uma
corrida nesse mercado — por terem treinado os seus algoritmos com textos seus
sem autorização. Piratearam para ensinar um programa a piratear.
As implicações
deste sistema são gerais. Antes mesmo da aplicação que estou a imaginar que
finja que somos bons músicos, já há uma que permite fingir que se é um
escritor, como o ChatGPT. Há já literatura escrita deste modo nas livrarias. E
há um pânico nas escolas entre quem se tinha empenhado em estimular a
criatividade, pedindo aos alunos que escrevessem ensaios, investigassem e
fundamentassem uma opinião, em vez do exame de cruzes. Tudo isso acabou, passou
a ser indistinguível um trabalho sério e um ficheiro cuspido por um algoritmo.
O sistema de ensino readaptar-se-á recuando ao tempo da chamada oral.
PRODUÇÃO E
REGULAÇÃO
A segunda
questão é o próprio modo de produção. A sociedade moderna regula a forma de
construir um automóvel ou outra máquina: há materiais aceitáveis e outros
recusados, os processos são patenteados e verificáveis. Em contrapartida,
produzem-se agora algoritmos inverificáveis, o meio de produção cultural do
século XXI. Aplicados à criação de artefactos, sejam textos, ou músicas, ou
jogos, o seu modo de tomar decisões não é escrutinável: é como se fôssemos proibidos
de saber como funciona a caixa de velocidades do automóvel.
O que tem sido
mais discutido é como este poder algorítmico gera comunidades autocentradas e
recompensa a escalada da agressividade emocional, de que os discursos de ódio
são felizes utilizadores. De facto, a hipercomunicação impede os modos
conhecidos de intermediação, supera em rapidez qualquer tentativa de
confirmação ou desmentido e é direcionável por uma caixa negra que, ao
contrário dos outros meios de produção que existem na sociedade moderna, é
extralegal, e, portanto, está acima do alcance da regulação. Mas há outra das
suas facetas que começa a merecer atenção: a ambição de nos absorver num mundo
virtual que ocupe a nossa vida desde crianças (no Reino Unido, um quarto das
crianças até aos quatro anos tem o seu aparelho para ver streaming). O projeto
Metaverso esmoreceu, mas foi só o primeiro lance deste jogo.
As
aplicações que parecem oferecer-nos um produto cultural estão de facto a mudar
o nosso padrão de atenção e a nossa capacidade de expressão
E, na verdade,
a imersão na colmeia digital já conseguiu resultados potentes. A vida virtual é
uma ansiedade, altera-nos a noção de tempo, promove a multiplicidade de tarefas
e impõe a necessidade de uma sociabilidade reconfortante pela trivialização da comunicação
permanente. Na base dessa transição está a colonização da nossa capacidade de
leitura e de concentração. A University College de Londres concluiu agora um
estudo de cinco anos sobre os hábitos de leitura a partir do registo das
pesquisas feitas por milhões de utilizadores em duas grandes bibliotecas, que
oferecem acesso a jornais, textos online e outros recursos digitais. A
conclusão é esmagadora: os leitores já não leem, saltitam, ou seja, são
conduzidos pelo algoritmo. Usam uma página ou duas de uma fonte, seguem para
outro texto, e isto “são sinais de uma nova forma de leitura, em que os
utilizadores buscam horizontalmente através de títulos e procuram resultados
imediatos. É como se estivessem online para evitar ler no sentido tradicional”,
dizem os autores do estudo.
Por esta razão,
a Suécia vai deixar de usar manuais escolares online, pois as crianças precisam
de aprender a ler um livro. O diretor de Educação da OCDE acrescenta que
“quanto maior e mais frequente for a utilização da tecnologia digital na sala
de aula, pior será o desempenho dos alunos [até] no teste de leitura digital”.
Assim, o meio de produção condiciona a nossa forma de aprender e de pensar, não
só na formatação da linguagem como também da nossa memória e imaginação. As
aplicações que parecem oferecer-nos um produto cultural, enganando os nossos
amigos, quanto às nossas capacidades musicais, ou os professores, quanto ao
estudo, estão de facto a mudar o nosso padrão de atenção e a nossa capacidade
de expressão. A inteligência artificial está a mudar a humanidade, tornando-a
mais estúpida.
segunda-feira, 7 de agosto de 2023
Carlos Matos Gomes - A religião do Ocidente não é a deste papa
* Carlos Matos Gomes
2023 08 07
Ese algum ou alguma dos e das coristas que matraquearam vulgaridades e sopraram bolas de sabão sobre a Jornada Mundial da Juventude tivesse perguntado qual a causa pela qual os jovens participantes estariam dispostos a lutar?
Os grandes eventos devem suscitar interrogações. Conta-se que quando Moisés desceu do Sinai com a tábua dos 10 Mandamentos, anunciando que estes lhe haviam sido entregues por Deus, um dos assistentes lhe terá perguntado porque não viera Deus em pessoa transmiti-los. A história não relata o que aconteceu ao interpelante.
As religiões são sempre a transmissão de uma mensagem através de um mensageiro. Os céticos consideram que os mensageiros são os autores das mensagens. e procuram decifrar as mensagens. Os crente acreditam no que os reconforta, o mensageiro é apenas um cantor de canções de embalar. As suas palavras são meros sons que lhes ameniza as angústias. Nas religiões das sociedades mais complexas os crentes que constituem a massa não têm direito de fazer perguntas incómodas aos grandes mensageiros. Resta-lhes ouvir e acreditar no que já acreditavam. Mas há, ou haveria a possibilidade de perguntar o que pensa quem está a meu lado. Não ouvi nem vi alguém a perguntar.
Eu perguntaria o que pensam os jovens católicos (em particular dos franceses) dos jovens suburbanos que participaram nos incêndios e conduziram os motins de há um mês nas cidades francesas. E o que pensam os jovens católicos (em particular os norte-americanos) do embargo a Cuba, da invasão do Iraque, do Afeganistão, e da Síria, esta que até tem uma respeitável comunidade cristã, e o que pensam os jovens italianos sobre os migrantes do norte de África, e aos jovens de África perguntaria o que pensam da extração de matérias-primas dos seus territórios por grandes companhias ocidentais e assim por diante, incluindo o que pensam os sul-americanos da desflorestação da Amazónia ou do genocídio dos indígenas. Havia tantas perguntas a fazer aos jovens que vieram a Lisboa!
Mas no. Os grandes meios de comunicação não estão interessados nas causas das coisas, mas no espetáculo das coisas. Reduziram a interpretação de um grande acontecimento social e político ao mais rasteiro folclore. À semelhança, aliás, do que fazem com o futebol, outro grande fenómeno social, um fenómeno social total, como as religiões, motivador de emoções, gerador de grandes negócios, de interesses de toda a ordem e que é reduzido pelos fabricantes de alienação a qualquer coisa do género: vinte e dois tipos/as de calções a correr atrás de uma bola. Perguntar a um jovem participante nas JMJ porque veio a Lisboa e ficar todo contente ao ouvir a resposta: Ver o papa, equivale a interpelar um adepto do futebol e perguntar-lhe porque veio e ele responder: Vim ver o Ronaldo. As horas em que as câmaras de televisão seguiram o carro do papa são as mesmas em que seguem o autocarro das equipas de futebol a caminho do estádio! Não é um acaso, é uma estratégia de neutralização de questões.
Não existe inocência nas abordagens que a comunicação social de massas faz aos grandes eventos, nem sequer a da incompetência dos repórteres e diretores de comunicação. O primarismo das questões é deliberado, nem é novo, aliás. Comparar o papa da Igreja Católica a uma estrela do futebol até tem antecedentes anedóticos aqui em Portugal, na figura do comendador Santos da Cunha, governador civil de Braga, beato e queirosianamente populista, que numa celebração do 28 de Maio de 1926 se virou para Salazar e lhe atirou com esta pérola: «Vossa Excelência é o Eusébio do governo!» Os atuais comunicadores, com Marcelo Rebelo de Sousa à cabeça não desmerecem de Santos da Cunha bem poderiam ter dito: Vossa santidade é o Messi da nossa Igreja!
Mas a JMJ foi e é mais do que aquilo que as instituições de poder político e religioso pretendem que os cidadãos dela se apercebam. A mensagem do papa esteve e está em contra corrente da ideologia dominante no Ocidente. Daí tudo ter sido feito para a silenciar debaixo do ruído dos fait divers, das bênçãos das criancinhas e dos atiradores nos telhados.
A mensagem do papa Francisco nas Jornadas Mundiais da Juventude centrou-se no “outro”, nos outros, na ideia de aceitar os outros, de servir os outros, numa proposta de generosidade. Esta mensagem é herética, porque a ideologia dominante no Ocidente é centrada no “eu”, no individualismo. Por isso a mensagem centrada no outro foi diluída pelos intérpretes numa calda de vulgaridades e de ridículo que começou logo com a sacudidela de Marcelo à chegada. Estava dado o mote pelo mais alto magistrado da Nação Católica aos jovens católicos. O papa é um boneco. Pensem no papa como uma representação do vosso mundo e não como um estímulo para questionarem os seus fundamentos.
Gostaria de perguntar o que pensam os jovens vindos para JMC do facto de Adam Smith, o filósofo considerado o pai das teorias económicas do capitalismo liberal, a religião dominante à escala global imposta pelo Ocidente cristão, autor de «A causa da riqueza das nações» considerar que o egoísmo das pessoas redunda no bem comum. Que o egoísmo é, então, o motor da sociedade cristã!
Adam Smith não se ficou pela simples enunciação do valor cristão do egoísmo. Explicitou as virtudes do individualismo e do egoísmo: “Na verdade, o indivíduo geralmente não tem intenção de promover o interesse público, nem sabe o quanto o promove. Ao preferir sustentar a atividade doméstica e individual que a destinada à sociedade exterior, ele tem em vista apenas a sua própria segurança; e, ao dirigir essa atividade de maneira que a sua produção seja a de maior valor possível, ele tem em vista apenas o seu lucro. O indivíduo é guiado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção.”
Isto é, para o grande teorizador do capitalismo em que vivemos, que tem por referência moral o cristianismo nas suas várias igrejas, incluindo a católica romana, “o facto de este fim (o lucro da sociedade) não fazer parte da intenção dos indivíduos nem sempre é o pior para a sociedade. Ao procurar o seu próprio interesse, o indivíduo frequentemente promove o da sociedade de maneira mais eficiente do que quando realmente tem a intenção de promovê-lo.”
Em resumo, o modelo de sociedade que os cristãos — Adam Smith era um cristão fervoroso — impuseram o mundo enaltece o egoísmo como meio de realização individual e o bem da sociedade apenas é considerado um eventual ganho complementar. As faculdades de economia das universidades católicas e cristãs em geral assentam as suas lições na teoria do egoísmo de Adam Smith e não na generosidade.
O que pensam estes jovens católicos do modelo de sociedade fundado por Adam Smith e que até ao presente tem aprimorado e radicalizado os seus princípios de lei da selva e de fé na “mão invisível”, a metáfora que se tornaria a figura mais famosa do liberalismo económico, da concorrência, da vitória dos mais fortes e com menos escrúpulos?
https://cmatosgomes46.medium.com/a-religi%C3%A3o-do-ocidente-n%C3%A3o-%C3%A9-a-deste-papa-c018f5a01245
sexta-feira, 2 de abril de 2021
António Guerreiro - A nossa condição zombie
CRÓNICA ACÇÃO PARALELA
* António Guerreiro
2 de Abril de 2021, 9:56
Muito antes da era zoom e da instalação do teletrabalho como regra geral, na qual entrámos em corrida forçada há cerca de um ano, já estava em acção o processo que nos transforma em zombies. Esta zombificação do mundo já estava latente numa fase anterior, quando ainda se preferia utilizar uma palavra da psiquiatria do século XIX, em vez de nomes inquietantes concedidos por filmes de género, e se falava de uma hipnose geral, isto é, dos poderes hipnotizadores, alucinatórios e fantasmagóricos dos media. Basta, aliás, declinar a palavra media no singular, e dizer medium, para que a esfera do mediúnico seja evocada e entremos assim na ZAD dos fantasmas (ZAD: zona a defender): onde começa o mundo da medialidade começa também a dança dos fantasmas e dos mortos-vivos.
Antes de Baudrillard ter
designado a “sociedade dos simulacros”, antes de Vilém Flusser ter definido as
“tecno-imagens”, antes de Debord ter configurado a “sociedade do espectáculo”,
antes da espectrologia do nosso tempo que até produziu leituras sofisticadas de
Marx, Günther Anders descreveu longamente, no seu livro de 1956 sobre o ser
humano como um ser antiquado (o título original é Die Antiquiertheit des Menschen; na tradução inglesa do
livro, Antiquiertheit é
traduzido por Outdatedness, e na
tradução francesa, por Obsolescence),
o modo como os media de massa nos condenam ao estatuto de zombies. É num
capítulo intitulado Considerações
Filosóficas sobre a Rádio e a Televisão que Günther Anders desenhou o
“mundo como fantasma” e apontou o que ele entendia ser o principal efeito
mediúnico da rádio e da televisão: o de fazer de cada consumidor “um
trabalhador em domicílio, não remunerado, que contribui para a produção do
homem de massa”. Noutro momento, Günther Anders utiliza a expressão “eremitas
de massa”.
Talvez seja conveniente apresentar Günther Anders: filósofo
e ensaísta alemão que viveu entre 1902 e 1992, o verdadeiro nome deste judeu
alemão é Günther Stern. Foi o primeiro marido de Hannah Arendt (entre 1929 e
1937), que conheceu quando ambos eram alunos de Heidegger. Com a ascensão do
nazismo, seguiu os passos de muitos outros intelectuais judeus: fugiu da
Alemanha, em 1933, para Paris (foi aí que se divorciou de Hannh Arendt) e de
Paris foi para os Estados Unidos, tendo regressado à Europa em 1950. A sua obra
só a partir do início deste século começou a ter uma forte projecção. O teor
apocalíptico dos seus textos sobre a ameaça da bomba atómica, no tempo da
guerra fria, assim como as cores negras com que pintou o progresso da
civilização técnica, fizeram com que fosse muitas vezes assimilado ao
pessimismo cultural que tinha tido uma forte expressão na Alemanha, após a
Primeira Guerra. Mas Günther Anders não pertenceu de facto a essa constelação
que também albergou alguns representantes da “revolução conservadora”, um ambiente
político-cultural do qual Anders sempre esteve distante.
Lido hoje o livro mais importante da obra de Günther Anders,
as suas teses e intuições parecem análises e descrições do nosso presente mais
imediato. “ A nossa normalidade é uma história de fantasmas”, escreveu ele,
para a seguir acrescentar: “Muitos habitantes do mundo real já foram
definitivamente vencidos pelos fantasmas e são já reproduções de fantasmas”. É
provável que as teses de Anders só recentemente tenham chegado ao momento em
que se tornaram legíveis. A
condição zombie, na época do zoom e do teletrabalho, deixou de ser um cenário
especulativo. Mas entre o mundo de Anders e aquele com que estamos
confrontados há uma linha de continuidade e de ascensão progressiva do zombie.
No início deste século começou-se a assistir em várias cidades do Estados
Unidos a marchas de indivíduos mascarados de zombies, de “corporate zombies”, que pareciam paradas carnavalescas. Numa delas,
em Wall Street, os manifestantes (silenciosos, sem pronunciar qualquer
mensagem) mascaram notas de banco do jogo do Monopólio, parodiando a pulsão
nutritiva do capitalismo financeiro. O filme de George Romero, A Noite dos Mortos-vivos ,
parece ter servido de inspiração a este “povo zombie” que foi mais longe do que
o simples “Occupy Wall Street”. A
palavra de ordem desta massa zombie era “Occupy
everything”.


