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sábado, 18 de julho de 2026

Raquel Varela - [Ensino, exames e pedagogia]

* Raquel Varela

Sabem o que ensinam os professores antes de um exame? Leiam atentamente as perguntas todas antes de começar a responder a cada uma delas, no fim revejam o exame todo, se há uma questão difícil passa para a próxima, e volta a esta mais tarde. Verifica os erros ortográficos. Dorme e come bem antes do exame. Quando sair a nota fazemos a correcção colectiva, na aula, e em cada exame está a correcção individual, se tens dúvidas vem falar comigo no final da aula e ficamos a ver juntos o exame e, ao teu lado, demonstro o que está mal, bem, o que podia ser melhor. 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Miguel Sousa Tavares - A ‘selenação’: um fado lusitano

* Miguel Sousa Tavares

A derrota e humilhação da selecção, erigida em exemplo do melhor que a pátria portuguesa tem, é toda uma lição sobre os nossos males profundos

16 julho 2026

Esta saga dos “heróis do mar”, feita parte fundamental da mensagem do nosso infeliz hino nacional, há-de perseguir-nos até à eternidade ou até ao dia em que nos deixarmos render à verdade histórica: nós não somos descendentes desses portugueses que partiram literalmente à aventura para demandar Índias, embarcados em banheiras de pinho vagamente flutuantes, ou dos que mais tarde embarcaram em baleeiros americanos para lhes ensinar como se caçava a “Moby Dick” nas águas do Pacífico, ou até mesmo daqueles que, ainda mais tarde, mas sempre em navios feitos de madeira, andaram a pescar bacalhau nas águas geladas de Newfoundland. Não, nós não somos descendentes desses que partiram: somos descendentes dos que ficaram. Pelo que já é tempo de acabarmos com essa história dos heróis do mar, que há muito deixámos de ser, e olharmos para nós próprios tal como somos hoje, com os nossos defeitos e as nossas qualidades, os nossos feitos e os nossos fracassos.

domingo, 14 de junho de 2026

Caitlin Johnstone - Toda a espécie humana foi transformada numa máquina geradora de lucros

 

sábado, 13 de junho de 2026

* Caitlin Johnstone


A espécie humana foi essencialmente transformada numa máquina gigante para gerar lucro para as empresas.

Sob o capitalismo, a humanidade existe para servir os interesses da corporação. Somos todos gado; animais de carga usados para transportar a expansão da margem da declaração trimestral para a declaração trimestral. O gozo da vida não tem outro valor senão até que ponto pode ser usado para aumentar o patrimônio líquido dos acionistas.

Por isso todos estão tão infelizes. Não estamos vivendo com propósito. Não estamos trabalhando juntos para construir um mundo melhor e um futuro melhor, estamos apenas puxando alavancas para girar as engrenagens para fazer a linha de seta subir no gráfico na sala de conferências. É uma maneira oca e inútil de as pessoas viverem.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

António Rodrigues - A estupidez da inteligência artificial

O mundo que se conta a partir do que se diz.

 * António Rodrigues

8 de Dezembro de 2022

 “O problema não é só o de que a maioria de nós luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês

A inteligência da desigualdade

É o furor da semana no domínio dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços demonstrados pelo ChatGPT deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por máquinas num futuro não muito distante.

O entusiasmo infantil com que olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados com a mortalidade.

Tem mais que ver com o impacto da máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São despedidos? Reciclados? Rejeitados?

Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S. Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da desigualdade nos países mais desenvolvidos.

O Peru aboliu a escravatura há 168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.

Esta informalidade económica, em que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano com a cumplicidade do Estado.

Mais de 3,4 milhões de trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados, mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa as vítimas por não denunciarem os crimes.

Mesmo que o próprio ministro do Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram peso às palavras.

 “Aqui temos um assunto de dignidade do ser humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro, que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo, de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua manutenção.

Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100 metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com o ouro que eventualmente encontrarem.

Oito horas

Quase 140 anos passados desde que o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.

As 35 horas semanais em França ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos para a semana das 32 horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.

Quando as oito horas laborais, oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta, defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho” americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.

Como refere Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu horrivelmente mal”.

E a pandemia, que acentuou o teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a (auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e mental.

Amanhã, tenho 15 minutos para ti

As aplicações para gerir a nossa vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E mesmo assim queda curto.

 “A gestão do tempo não é a solução, na verdade é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy: How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua inglesa.

ocupação dos minutos, não visa ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva, fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas para arranjar tempo para encaixar outras.

E o mais incrível é que, se calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos, o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.

A auto-ajuda, o empreendedorismo, “o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos para ti.


António Rodrigues - A minha vida por um ecrã — apagado

O mundo que se conta a partir do que se diz.

* António Rodrigues

29 de Maio de 2026

 “Algumas das maiores empresas da história da humanidade não lutam para ganhar a sua atenção ou para merecer a sua atenção. Estão a tentar roubá-la”, Jonathan Haidt, psicólogo social norte-americano

A Suécia assumiu a vanguarda no que diz respeito à digitalização da sua educação e quase tão depressa como deu ecrãs às crianças para substituir o papel e a caneta, diminuir a interacção pessoal e fornecer as bases para navegação à bolina dos seus filhos nos mares da tecnologia está a arrepiar caminho e a regressar ao básico da educação: livros, cadernos, esferográficas e professores de carne e osso, com ecrãs desligados e fora da sala de aula.

A Suécia tinha criado a educação do futuro até se ver a braços com um presente envenenado. Depois de quedas abruptas nas provas internacionais de compreensão leitora, o Ministério da Educação voltou aos manuais em papel, proibiu os ecrãs para menores de seis anos e restringiu o uso de telemóveis durante o período de aulas.

Os suecos não são os únicos a sentir na pele a necessidade de regressar em força ao analógico. Estavam mais avançados que muitos outros, por isso, tiveram os resultados antes, mas noutras latitudes começa-se a chegar às mesmas conclusões.

Randi Weingarten, presidente de uma das mais importantes associações de professores dos Estados Unidos, a Federação Americana de Professores (AFT, na sigla em inglês), dizia nesta semana, num discurso intitulado Devices down, eyes up, hands-on: 10 points to boost student learning and success in the AI era, que “as crianças são resistentes, mas muitas vezes, não estão bem”, e uma das principais causas para isso é que “estão afundadas em tecnologia”.

“O ritmo desta revolução tecnológica tem sido vertiginosamente rápido e as crianças estão a ficar queimadas”, disse Weingarten, antes de recomendar dez medidas para defender os estudantes da disrupção causada pela inteligência artificial (IA). “A ubiquidade da IA torna ainda mais importante o pensamento crítico e o conhecimento aplicado. Os estudantes têm de ir além da memorização de factos e aprender a verificá-los, desafiá-los e sintetizá-los em novas ideias.”

Higienização

O tema está aberto a papers de investigadores até 25 de Setembro de 2026 e pretende ajudar à discussão crítica sobre a forma como as imagens de guerra são geradas, propagadas e recebidas nos ambientes de media, e como a sua “circulação, enquadramento e modulação” acabam por influir na perspectiva da opinião pública sobre os conflitos.

Criado pelo Frontiers, um dos maiores sites abertos de estudos científicos de revisão por pares, o tópico abre um leque enorme de possibilidades de abordagem na cobertura de guerras, que podem ir da simples adulteração de imagens até aos critérios editoriais usados na selecção do que transmitir e não transmitir, dos ângulos para olhar e das perspectivas de análise.

 “Os ritmos mediáticos e a densidade narrativa não afectam só a percepção; podem também ter um papel no processo de tomada de decisão política, da construção da legitimidade e a governança da informação em tempos de conflito”, lê-se no site.

 “À força de fazer desfilar as notificações, os alertas e as imagens de guerra nos nossos ecrãs, muitos dão por si a não sentir absolutamente nada”, escreve Nina Parage no site Psychologes. “Catástrofes climáticas, conflitos armados, acontecimentos violentos: a actualidade ansiógena parece produzir um ruído de fundo cruelmente banal.”

 O uso cada vez maior de meios digitais para travar as guerras, e a mediação editorial cada vez mais acentuada para as mostrar, correm o risco de higienizar a morte e a destruição transformando aquilo que deveria ser o último recurso da política, como uma forma banal de impor as perspectivas de uns às perspectivas de outros.

 E, como lembravam ainda recentemente, Lee-Ann d’Alexandry, Fabien Girandola e Lionel Souchet num artigo no site The Conversation: “A psicologia social mostra que aquilo que julgamos ‘aceitável’ não é nem natural nem estável: constrói-se colectivamente, ao longo das interacções, dos discursos e das repetições.”

Atenção

A Meta, a empresa de Mark Zuckerberg que detém o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e o Threads, está avaliada em mais de um bilião de dólares (trillion em inglês), mesmo não cobrando aos seus seguidores para interagirem na rede social. Tudo porque “inventou um modelo de negócio que extrai atenção de quase metade de todos os seres humanos e a vende a anunciantes”, diz Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa.

“Outros sectores seguiram o mesmo caminho: videojogos, encontros, apostas — até o investimento foi ludificado e optimizado para nos manter a olhar e a deslizar o ecrã. Todos já tivemos a experiência de pegar no telemóvel, talvez por uma boa razão, e, uma hora depois, darmos por nós a fazer scroll de forma automática. Não é um acidente. É isso que os nossos telemóveis e aplicações foram concebidos para fazer.”

Na sua intervenção, na formatura da Universidade de Nova Iorque no dia 14, publicada na revista The Atlantic, Haidt lembra o famoso discurso do escritor David Foster Wallace na formatura do Kenyon College em 2005: “O verdadeiro significado da educação para pensar, que supostamente devemos receber num lugar como este, não é, realmente, sobre a capacidade de pensar, mas sim sobre a escolha daquilo em que pensar.” Mais de 20 anos depois, há muito sem Foster Wallace entre nós, “muitos homens poderosos e grandes empresas estão a tentar tirar-vos essa opção”, afirmou Haidt.

 Dar valor à nossa atenção é importante porque se para a Meta vale um bilião de dólares, para nós é incalculável. Aceitar a informação de mão beijada, os pensamentos já digeridos, os caminhos que os ecrãs luminosos nos apontam como única via, condenam-nos à dependência, a escolher lados, a atirar argumentos automáticos como bolas de neve (ou granadas de mão), a perder tempo com o acessório quando outros ditam o essencial.

Como disse Foster Wallace naquele dia, no Kenyon College, “as realidades mais óbvias e importantes são, muitas vezes, as que mais custa ver e discutir”.

Empatia

Uma das piores expressões que o capitalismo cunhou é essa ideia de que nada é pessoal, são só negócios. Argumento terrível que desresponsabiliza as empresas do seu papel social, arranca-lhes o humanismo e prescinde da ética no seu comportamento, pois tudo se resume à garantia do lucro para os seus accionistas.

Nestes tempos política e economicamente conturbados, marcados pela instabilidade geopolítica e pela aceleração tecnológica, os líderes empresariais precisam de tomar decisões com janelas cada vez mais curtas e instáveis. “Nestas condições, a carga cognitiva associada à tomada de decisões aumenta e a tolerância à ambiguidade diminui”, escreve Merete Wedell-Wedellsborg, psicóloga clínica especialista em psicologia organizacional. “Do ponto de vista da liderança, aquilo que, em contextos estáveis, podia ser visto como ponderado e inclusivo pode começar a parecer lento, indeciso ou avesso ao conflito.”

A empatia já não abunda em muitos ambientes empresariais extremamente competitivos, em que se tomam decisões com a faca nos dentes e a disposição de matar ou morrer. Nestes tempos difíceis e de alto grau de imprevisibilidade, com muitas relações profissionais estabelecidas e mantidas através de meios tecnológicos, os terrenos para a empatia medrar tornam-se ainda mais estéreis.

No entanto, como refere Wedellsborg no site do International Institute for Management Development, “correr para declarar o fim da empatia arrisca criar uma falsa dicotomia”, porque o que está em causa não é se “a empatia interessa, mas como é integrada”. Abandonar a empatia na gestão poderá “erodir a confiança, reduzir o esforço discricionário e estreitar a perspectiva — tudo factores que podem tornar-se estrategicamente perigosos”.

Para a autora de Battle Mind: How to Navigate in Chaos and Perform Under Pressure, a inteligência emocional ainda é necessária. Neste mundo de força bruta e fria tecnologia, é o garante da manutenção do lado humano do gestor. Até porque, se se limitar a ser apenas máquina, máquinas haverá para o substituir.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

João L. Maio - Talvez: Bad Bunny, as mensagens de plástico e as palavras que se perdem



Fotografia: CARLOTA BARRENTO


* João L. Maio  
27/05/2026 

Começo por dizer que sou fã de Bad Bunny e que adoraria ter ido ao concerto (caso este não fosse no Estádio da Luz, uma vez que me recuso a entrar nesse estádio, com a única excepção a ser uma deslocação do FC Porto a Lisboa). Não vá dar-se o caso de sub ou sobre-interpretarem este texto.

Hoje temos sempre de fazer este género de avisos; que não somos anti-semitas por criticar o governo de Israel, que não somos comunistas por defender impostos progressivos ou que não somos homofóbicos por contarmos ou nos rirmos de uma piada que envolva homossexuais. Depois do aviso, aqui vai.

Muitos artistas atingem o estrelato e cimentam-se no mainstream com mensagens de amor, de paz e de solidariedade. No início, tal voragem humanista é o que os eleva. E parece-me sempre genuíno. Depois, o tempo passa e, estando no mainstream, a mensagem perde-se e o artista volta a ser o que estava planeado: um bem de consumo que passa de boca em boca até se perder na viragem do novo álbum, do single mais recente ou de outro artista que aparece… com outra mensagem. E o ciclo repete-se.

Benito, como é conhecido Bad Bunny, começou na música com o reggaeton mais convencional, com toques de hiphop. Depois, criou a sua imagem, aproveitando o crescimento do ódio, usando a sua posição como cidadão porto-riquenho para chamar a atenção para os problemas que assolam o seu território e que, directa e indirectamente, atingem toda a economia mundial: desregulação económica selvagem, especulação imobiliária, gentrificação ou a capitalização das cidades como grandes Disneylands, foram os temas que catapultaram o artista de Porto Rico para o mainstream definitivamente. O álbum DtMF explodiu e músicas como a que dá nome ao álbum, Baile Inolvidable, NuevaYol ou Café con Ron tornaram-se verdadeiros hinos de 2025, passaram na mente e ecoaram pelos lábios de quase toda a gente durante o Verão do ano passado e atravessaram o ano de 2026 com uma tour internacional anunciada, para delírio de muitos.

O problema é que com a proliferação das canções, a mensagem principal perdeu-se e deu lugar, como em quase tudo o que nasce organicamente hoje em dia, à venda de bilhetes e merchandising, aos outfits e ao poder visual das luzes. Os fãs, seguiram a mesma lógica: partilham as frases feitas, imitam o guarda-roupa e atendem aos concertos de câmera de plástico na mão com a inscrição “DtMF”, enquanto seguram milhares de telemóveis para, mais tarde, reverem o concerto que viram… exactamente através do telemóvel.

E a mensagem? A consciencialização das massas para o problema da habitação, da gentrificação e do capitalismo tardio? Já era. Perdeu-se na espuma que a onda de entusiasmo trouxe, como chapada na barra num dia de tempestade. Abre-se o Super Bowl, proliferam-se mais meia dúzia de frases amorosas que colam o público ao álbum e vendem-se mais bilhetes. E a prova de que a mensagem não importa nada, no final de contas, é ver o presidente da CM de Lisboa, que representa tudo aquilo que, no princípio, era o alvo das críticas de Bad Bunny, a promover um seu concerto na cidade que preside, como se nada fosse; como se a música não fosse, desde sempre, a condutora das ideologias, daquilo que se pensa, do que se sente e de tudo o que se defende. É um espelho de cada um de nós, em tudo aquilo que representamos.

Ou talvez não. Talvez as coisas tenham mudado e os hinos de ontem, que chegam até hoje, sejam já só mera arte imobilizada, que não se mexe por já não vender. Talvez o importante hoje seja o supérfluo e não o âmago de cada questão. Talvez o que importe seja o “eu estive lá” com uma fotografia que o comprove. Talvez a mensagem seja passageira. Talvez a música seja já só barulho. Talvez esteja a romantizar demasiado a arte. Talvez um dia a gente mude… talvez.

Aproveitem os concertos, divirtam-se muito, mas não deixem que mensagens revolucionárias se percam na estrada, pelo caminho, quando a mensagem é açambarcada pelo artista das mil e uma views, como um Deus que carrega uma verdade, porque esses deuses somos todos os nós, os que realmente carregam o papiro mensageiro que é vendido, usado e abusado, até já não significar nada mais do que uma canção num álbum de 2025.

https://aventar.eu/2026/05/27/talvez-bad-bunny-as-mensagens-de-plastico-e-as-palavras-que-se-perdem/

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Maria J. Paixão - O estranho caso da cidade-evento


* Maria J. Paixão

21 de maio 2026 

A cidade é hoje um paradoxo: há tanta coisa a acontecer a todo o tempo e, no entanto, há também uma sensação de vazio permanente. As cidades dos nossos dias são cidades de papel – sob o verniz publicitário não há quase nada.

Com a chegada da Primavera, germina, novamente, nas nossas cidades um fenómeno que tem vindo a crescer ao longo dos últimos anos: a “eventificação” de expressões culturais no espaço urbano. Por todo o lado proliferam, incessantemente, os festivais, as mostras, as festas...

Todas estas iniciativas comungam de duas caraterísticas distintivas: por um lado, são acontecimentos pontuais e extraordinários, que não se inserem numa programação cultural regular; e, por outro, são ocorrências efémeras e de curta duração, que, muitas vezes, não duram mais do que umas horas ou um par de dias. Trata-se, portanto, de autênticos “eventos”, que, gerando descontinuidade na vida quotidiana da cidade, não assumem qualquer ambição de criar dinâmicas estruturais. São anunciados com pompa e circunstância e esfumam-se rapidamente; vêm e vão, entretendo, temporariamente, a cidade, sem deixar nada de substancial para trás.

Embora a vivência no espaço urbano sempre tenha sida pontuada por eventos, a sua recente proliferação, bem como a emergência de uma autêntica “época de eventos” nas nossas cidades, são dignas de nota. Recusando enveredar pela superficialidade do moralismo, mas também rejeitando o conformismo acrítico, importa refletir sobre o modo como este fenómeno tem transformado a cidade. Essa reflexão é tanto mais importante quanto a “evento-mania” a que assistimos é subsidiada por recursos públicos e influi decisivamente sobre o modo como o espaço urbano é organizado e ocupado. Se, como parece ser exato, os processos de urbanização são corresponsáveis pelo tipo de comunidade que construímos, então não podemos ignorar as consequências da saturação de eventos na polis.

A “eventificação” que se desenrola por toda a parte pode ser analisada tanto como causa como consequência das específicas dinâmicas de reorganização urbana do nosso tempo. Como nos ensinaram Lefebvre e, mais tarde, Harvey, a criação e recriação do espaço urbano devem ser compreendidas no quadro do modo de produção dominante. A compulsão expansiva do capitalismo, geradora de sucessivas crises de sobreprodução, tem sido, desde os seus primórdios, determinante para a transformação das cidades – das grandes avenidas da belle époque à gentrificação das capitais europeias dos nossos dias, passando pelos fenómenos de suburbanização, privatização do espaço público e, mais recentemente, financeirização do edificado urbano.

A mais recente etapa deste processo de mutação urbana reproduz as caraterísticas principais do estádio de desenvolvimento do capitalismo pós-industrial em que nos encontramos: mercantilização total, homogeneização e atomização. A cidade é hoje um paradoxo: há tanta coisa a acontecer a todo o tempo e, no entanto, há também uma sensação de vazio permanente. As cidades dos nossos dias são cidades de papel – sob o verniz publicitário não há quase nada.

Desde, pelo menos, os anos 90 do século passado temos assistido à desindustrialização acelerada das sociedades ocidentais e à concomitante desmaterialização da economia. Em consequência, o mundo urbano passou a girar em torno do consumo, do turismo e do rentismo. Tudo é um produto, mas nada é produzido. A própria cidade é hoje produto de consumo fácil, mais para ver do que para ser. Em resultado, nos centros gentrificados, o vazio de habitantes contrasta com a saturação de visitantes. E essa transformação arrasta tudo o resto: em vez das mercearias e de comércio tradicional, a profusão de lojas de lembranças; em vez de bairros onde os residentes criam comunidades longevas, alojamentos de curta duração e arrendamentos precários; em vez de espaços públicos de qualidade que permitem circulação pedonal, congestionamento permanente de trânsito automóvel, gerado pela movimentação pendular da população; e em vez de cultura orgânica e participada, eventos.

A financeirização da economia, que tem permitido ao Capital continuar a expandir-se além dos limites materiais dos sistemas produtivos, também se faz sentir sobre as cidades, transformando casas em ativos financeiros e centrando a vida urbana no turismo. Este processo propagou-se, naturalmente, à cultura, que passa a habitar o cruzamento entre a turistificação e a especulação.

Nas cidades gentrificadas, o esvaziamento dos centros urbanos começou por provocar o declínio acentuado da vida cultural de base. Basta pensar na escassez crescente de teatros e cinemas de bairro e de livrarias independentes. A eventificação das cidades é um passo adiante nesse processo: os eventos que hoje se sucedem incessantemente nas nossas cidades não são principalmente culturais; são, antes de mais, comerciais. Trata-se, as mais das vezes, de iniciativas inorgânicas, que vivem, sobretudo, da aparência arrojada, o que lhes garante difusão alargada em meios de comunicação e redes sociais. O essencial é o espetáculo, pois é ele que serve de comburente à publicidade.

Embora propagandeados como veículo de dinamização económica local, os eventos assumem, muitas vezes, na prática, uma tendência extrativista, beneficiando sobretudo agentes económicos externos ao ecossistema local. Mesmo os efeitos locais positivos são, por norma, concentrados no tempo, não criando dinâmicas de revitalização económica duradouras.

Além disso, gerando uma ilusão de dinamismo cultural, a eventificação das cidades desencadeia um processo de substituição de prioridades políticas que tem efeitos perniciosos sobre o setor da cultura. De facto, o próprio conceito de ‘evento’ encerra uma confusão errónea entre cultura e entretenimento. Ainda que recusando moralizar opções individuais, é imperativo distinguir um e outro conceitos, já que os motivos que podem justificar a intervenção pública em cada setor são distintos. O financiamento público da cultura deve nortear-se por objetivos formativos, de promoção da cultura democrática e fomento da reflexão crítica coletiva. Ora, quando confundimos entretenimento com cultura, abrimos porta ao redirecionamento do financiamento público para iniciativas predominantemente comerciais, contribuindo ainda mais para o subfinanciamento crónico das iniciativas culturais orgânicas que prosseguem aqueles objetivos. Ademais, ao saturar a cidade de eventos, promove-se uma relação atomizada e consumista com a cultura, em vez de estimular ecossistemas de participação e envolvimento local que permitam revitalizar os espaços urbanos decadentes.

a sociedade do espetáculo transforma a cidade-arena cívica em cidade-evento

A ideia de que a eventificação das cidades é inócua e de que cabe aos poderes públicos locais apoiar quaisquer iniciativas de dinamização urbana que lhe sejam propostas assenta, em suma, em duas premissas erradas: por um lado, a neutralidade da intervenção pública; e, por outro, a inocuidade do tipo de atividade que ocupa o espaço público. Quando um Município escolhe subsidiar, sistematicamente, eventos sem quaisquer horizontes cívicos está, não só a comprometer o financiamento duradouro e estrutural do setor cultural local, mas também a promover uma cidade de consumo, atomizada e pouco resiliente. A polis só pode subsistir enquanto nela subsistirem espaços, físicos e simbólicos, de participação e reflexão. À medida que a cultura é transformada em produto turístico-financeiro, as nossas cidades afastam-se cada vez mais desse ideal, vendo-se transformadas em montras para negócios que asfixiam a vida em comunidade. Num golpe derradeiro, a sociedade do espetáculo transforma a cidade-arena cívica em cidade-evento.

https://www.esquerda.net/opiniao/o-estranho-caso-da-cidade-evento/98115

domingo, 16 de novembro de 2025

José Pacheco Pereira - O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação

* José Pacheco Pereira
 
A notícia diz isto: “O Governo quer dar a cada aluno um tutor de inteligência artificial,” A notícia refere que o ministro da Reforma Administrativa fez esta promessa na abertura do Web Summit, o que presumo deve ter dado grande satisfação ao crescente e altamente lucrativo negócio à volta da inteligência artificial. Esta é mais uma medida “modernizadora” na sequência do computador Magalhães, dos quadros interactivos, da supremacia dos ecrãs relativamente aos livros. O único travão a este caminho foi a proibição dos telemóveis nas salas de aula, que abrange um número escasso de estudantes e está longe de ser aplicada como norma. Duvido que o actual ministro da Educação esteja tão disponível para os tutores de inteligência artificial e duvido que ambos se tenham entendido.

Ter e saber usar um computador é bom? Certamente que é. Saber “navegar” na Internet é bom? Em absoluto é, é aliás fundamental. Saber usar os ecrãs de telemóveis e tablets é bom? De novo, certamente que é, em particular no uso do hipertexto. Começar a usar as enormes vantagens da inteligência artificial é bom? É excelente, se houver inteligência dos dois lados.

Convém é não esquecer uma realidade tão básica, e que devia entrar pelos olhos dentro, ensinada pelos tutores de inteligência artificial usados pelos governantes: os homens são analógicos e não digitais. Têm sentidos que os limitam, não vêem tudo que está à sua volta, não ouvem tudo que está à sua volta, não têm memória das máquinas, envelhecem e não lêem como os jovens, não têm a velocidade de processar dados dos computadores, e toda a sua experiência de uma vida, tudo o que vêem, tudo o que ouvem, tudo o que dizem cabe em escassos terabytes. Mas combinam tudo numa realidade cuja dimensão é a da sua humanidade, razão, emoções, virtudes, medos, coragem e, acima de tudo, vida, escassa, pobre, difícil por regra. Pode haver um dia em que tudo isto possa ser entendido pelas máquinas, mas mesmo assim faltará sempre alguma coisa.

O problema não está aqui, está no modo como cada um destes instrumentos entra na escola e de modo mais geral na vida quotidiana e no trabalho das pessoas, e no que é que eles substituem nas políticas de educação e como afectam o processo de aprendizagem e, mais importante ainda, de socialização. E é aqui que entra um dos mais perversos e poderosos mecanismos que é a moda, a moda impulsionada pelo deslumbramento tecnológico, a ideia de que é mais “moderno” usar os instrumentos das novas tecnologias para realizar tarefas que implicam outro tipo de conhecimentos e uma sociabilidade mais rica. Ora, o que acontece é que elas são usadas com escassa vantagem, com efeitos negativos que vêm do modo como se inserem na sociedade, acentuando o individualismo, a solidão, o antagonismo, o conflito, e a ignorância. Nenhuma destas coisas vem das máquinas, vem do modo como estamos a construir o nosso viver, só que as máquinas oferecem um amplificador gigantesco para estas perversões sociais, e isso muda muita coisa. Uma das áreas em que os seus efeitos são mais devastadores é na educação e no ensino, impulsionadas por governantes que só querem ser “modernos” nestas coisas, e pelo cada vez mais importante negócio tecnológico.

A primeira coisa que este “tutor” artificial vai fazer é minimizar o papel do professor. Ora, o mecanismo mais importante na eficácia do ensino é a relação de empatia entre o estudante e o professor. Falar com uma máquina é uma coisa muito diferente do que com um humano e se, pelas piores razões – infelizmente, hoje demasiado comuns –, isso cria habituação e dependência, isso vai cada vez mais acentuar formas de solidão modernas e de sociabilidade pobre. É como considerar que os likes são uma forma de amizade e aceitação afectiva.

Depois, vai acentuar o caminho de ignorar que o uso capaz de todas as tecnologias, a começar pelo modo como se “procura” na rede, quanto mais dialogar com o “tutor”, depende de literacias a montante, que vão desde o mais simples ler, escrever e contar, todas em risco nos nossos dias. E parte desse risco também é resultado do deslumbramento tecnológico, com a desvalorização da leitura, e da escrita resultante do modo gutural como se “escreve” nas redes sociais, do vocabulário cada vez mais reduzido e do modo como essas ignorâncias se reflectem em dificuldades de compreensão.

A ideia de que os estudantes podem ler livros como Os Maias, de Eça, com o vocabulário restrito que possuem e usam, como também com a ruptura de saberes que estão presentes na nossa tradição cultural, como é a da Bíblia ou do mundo clássico greco-romano, é mirífica. A minha experiência de falar em dezenas de escolas do ensino secundário é a de encontrar centenas de estudantes que não sabem quem são Adão e Eva (com excepção dos evangélicos), já para não falar de Aquiles ou do Cavalo de Tróia. Como é que podem ler Eça? E esses mesmos estudantes não sabem o significado de palavras correntes no português de hoje, quanto mais vocábulos menos comuns mas circulantes na literatura.

Acresce que é evidente a diferenciação social entre falar para estudantes de colégios ou escolas em zonas “da alta” e de zonas que um eufemismo designa como “desfavorecidas”, onde a socialização pela escola é praticamente nula na competição entre a rua, o bairro e o telemóvel. Embora eu tenha esta experiência directa, não me limito a ela, todos os estudos a confirmam perante a impotência de professores e autoridades governativas.

Quem saiba história sabe que momentos como este, na história do mundo, já se verificaram e todos acabaram mal. É a sociedade que manda nas máquinas, e não o contrário, e é a sociedade que está mal. Não façam um upgrade tecnológico desse mal, porque fica pior.

2025 11 15



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Daniel Oliveira - Um dia olharemos para uma criança com um 'smartphone' como se estivesse a fumar

Opinião 

* Daniel Oliveira  

Menores entre os 4 e os 18 anos passam, em média, 4 horas diárias em frente a ecrãs. Horas que nunca mais se repetirão, deixando mazelas irreversíveis. A nossa negligência pode ser responsável por uma geração menos preparada, dotada e empática do que as anteriores, o que terá efeitos sociais, culturais e políticos devastadores. Basta cumprirmos a nossa função. Ou deixar que a escola cumpra a sua

Segundo um estudo do Quostodio, tendo como objeto 400 mil famílias de Espanha, EUA, Reino Unido e Austrália, os menores entre os 4 e os 18 anos passam, em média, quatro horas por dia em frente aos ecrãs. Dois meses do ano.Horas que nunca mais se repetirão no seu desenvolvimento cerebral e físico. Definitivamente perdidas e irrecuperáveis. Perdas que deixarão mazelas irreversíveis. Porque nós, os seus pais, somos coletivamente negligentes. Talvez por estarmos tão viciados como eles, não conseguimos cortar-lhes a droga. Talvez porque essas horas nos tirem peso de cima. Talvez por ignorância.
  
Não é por acaso que os pais de Silicon Valley procuravam (pelo menos em 2018) escolas com acesso limitado a tecnologia e contratam amas que se comprometem a não deixar os seus filhos usar telemóveis. Sabem o que produzem. Nós, menos avisados, deixámos que se viciassem e, agora, não fazemos ideia o que fazer com o mal que permitimos. Droga e vício não são metáforas. É mesmo um vício, é mesmo uma droga.

Matilde Sobral e Mariana Reis, fundadoras da Associação Mirabilis Portugal, explicaram-no aqui no Expresso: “Como as drogas leves e pesadas, o álcool ou as apostas a dinheiro, também o consumo abusivo de ecrãs provoca libertação de quantidades excessivas de dopamina. Ainda que a dopamina seja um neurotransmissor necessário para a sobrevivência, caso circule em excesso no nosso cérebro, repetidamente, pode causar dependência. A dopamina em excesso é o fator subjacente a todos os vícios. E os ecrãs interativos, pela forma como estão desenhados, provocam libertação desequilibrada de dopamina, tal como as outras drogas.”

Marc Massip compara os smartphones à heroína porque, quando ela surgiu, também se desconheciam os seus riscos. Como sabe quem tem filhos adictos ao telemóvel (ou é adicto), até existe a síndrome de abstinência. Mas continuamos tão a leste da dimensão do problema que a proposta do psicólogo espanhol, que defende que não se tenha estes aparelhos até aos 16 anos, até o cérebro estar suficientemente desenvolvido para lidar com ele, nos parecerá lunática.

Estamos a léguas disto. Mais de 60% das crianças portuguesas recebe o primeiro telemóvel entre os 10 e os 12 anos. E a partir dos 13 ou 14 anos, praticamente todos o têm. 15%, mais do que um. Não vale a pena continuar a fazer a comparação com o passado e o que se dizia sobre a televisão. Os smartphones e tablets estão sempre disponíveis;permitem uma interação que leva ao vício e dão à criança o controlo do que querem ver, evitando o tédio.

A LISTA DAS MAZELAS
Não se ensina uma criança a gerir um vício. Porque lhe faltam capacidades de gestão dos seus impulsos. Ter um tempo no dia em que os telemóveis estão inacessíveis é a forma de a ensinar a gerir a frustração e a ansiedade, levando-a a descobrir outras formas de divertimento. Coisa que inevitavelmente acontecerá. A mais antiga de todas: interagirem entre si, expressando emoções com o instrumento que naturalmente temos para o fazer (o corpo), reforçado lanços empatia. Serem, enfim, seres humanos. Isso também se aprende. E não se aprende no meio de zoombeis virados para ecrãs, perdendo capacidades indispensáveis para animais gregários como nós.

A Sociedade Portuguesa de Neuropediatria fez a lista de efeitos da utilização precoce de ecrãs: aumento do tempo em atividades sedentárias, com limitação do desenvolvimento motor; dificuldade em focar a atenção, gerir adversidades e enfrentar o tédio (reduzindo a criatividade), o que aumenta o risco da hiperatividade e défice de atenção; redução do tempo de interação com adultos e outras crianças, com riscos para o comportamento social e atraso na linguagem; perda de qualidade do sono; e aumento do risco de se sentir fisicamente inferior, com o aumento do risco de perturbações do comportamento alimentar, depressões e ansiedade. Deixo de fora o cyberbullying ou acesso fácil a pornografia, numa idade em que ela não é compreendida pela criança. Acho, aliás, delicioso ver pais que temem as aulas de educação cívica e dão telemóveis aos seus filhos. Confiam mais em algoritmos de empresas do que num professor.

Como escreveram, neste jornal, as duas fundadoras da Associação Mirabilis Portugal, “não há uma única atividade necessária ao desenvolvimento do cérebro que precise de um ecrã.” É por isso que a SPN recomenda que não se usem ecrãs até aos 3 anos, exceto para videochamadas (excluindo a televisão, na presença de adulto e para conteúdo adequado, até à meia hora diária). Entre os 4 e os 6 anos, o uso deve ser limitado a meia hora de programação de alta qualidade, na presença de adultos e sem controlo da mudança de canais ou vídeos. Entre os 7 e os 11 anos, uma hora por dia. E entre os 12 e os 15, duas horas, com cautelas várias. Redes sociais? Só depois dos 16. Em nenhum caso ou idade, se deve usar para resolver problemas de comportamento, seja para comerem ou não fazerem birras. Nunca à refeição. Nunca no quarto. Perante estas recomendações, ainda discutimos se miúdos do terceiro ciclo podem dispensar smartphones sempre disponíveis, na escola.

COMEÇAR NA ESCOLA
Mas olhemos para o copo meio cheio. O facto do livro de Jonathan Haidt, “A Geração Ansiosa”, ser um best-seller diz-nos que as pessoas começam a perceber que estão a fazer qualquer coisa incrivelmente errada. E a razão porque me tornei obcecado pela proibição dos telemóveis na escola é por achar que podemos, enquanto sociedade, ajudar as famílias ultrapassar esta fase inicial de correção do primeiro impacto. Cinco ou seis horas por dia sem ter acesso ao telemóvel é a primeira cura de privação, a primeira oportunidade para viverem parte do seu tempo sem esta droga. E para redescobrirem tudo o que precisam para virem a ser adultos.

Será a partir da escola que se determinará o que serão aquelas pessoas enquanto adultos. É ali que se aprende a brincar e brincar é a preparação para coisas sérias. Nas escolas, os telemóveis substituem a formação das primeiras amizades, o exercício físico, as conversas, a socialização, aprendizagem de gestão de conflitos, o tédio. Tudo o que é necessário para a infância e a adolescência prepararem a vida adulta.

Claro que a escola não pode ser um espaço anacrónico, onde a tecnologia está interdita. Mas a tecnologia, a que a escola garante a todos, deve ser usada quando é necessária, fazendo aquilo que a escola faz: pedagogia. Nenhum miúdo deixa de aprender a usar novas tecnologias por não estar sempre com um aparelho ao lado. A escola não pode ser uma bolha no quotidiano de crianças e jovens, mas também não pode ser a repetição do que os pais fazem de errado. Por isso, mesmo que haja crianças que só comem porcaria em casa, a escola só deve ter disponível alimentação equilibrada, saudável e de qualidade. Porque a saúde também se educa, com a experiência. É isso que devia acontecer na relação com os telemóveis e os tablets.

COMEÇA A REAÇÃO
Os primeiros passos, ainda minoritários, começam a ser dados pelos pais. A pressão de vários grupos de pais já permitiu que, em Portugal, várias escolas públicas avançassem na interdição de telemóveis no terceiro ciclo. Mas não me parece que se tenha de esperar pelos pais. Também não se esperou por eles para decidir que alimentos se vendem nas escolas ou para proibir fumar.

Há pais que foram mais longe. Para vencer a pressão dos colegas, que todas as gerações conheceram em tantas coisas, nasceu, no Reino Unido (onde 89% das crianças de 12 anos têm seu próprio smartphone), o movimento Smartphone Free Childhood, que lançou um pacto online: em cada escola, comprometerem-se a não dar smartphones aos filhos até aos 14 anos. Ainda é um movimento minoritário, mas 37 mil pais de 56 mil crianças que estão em oito mil escolas britânicas já o assinaram. Em vez do smartphone, dão-lhes um “tijolo”, para estarem contactáveis. Pelo menos sentem que não estão a condenar os seus filhos ao degredo.

Lamento se regresso recorrentemente a este tema. Não quero ensinar a educar. Não sou um ludita. Não vivo em pânico com cada geração será pior do que a seguinte. Apenas percebi, como milhões de pais já perceberam, que a nossa negligência coletiva pode ser responsável por uma geração menos preparada, dotada e empática do que as anteriores. Que isto terá efeitos sociais, culturais e políticos devastadores. E que, no entanto, isto é incrivelmente fácil de resolver. Basta aprender uma palavra mágica: “não”. Basta cumprirmos a nossa função. Ou, pelo menos, deixar que a escola cumpra a sua. 

Expresso 05 dezembro 2024

Daniel Oliveira - Todos os homens como ilhas

Opinião   

* Daniel Oliveira 

Nos EUA, o tempo passado a socializar presencialmente caiu mais de 20% em 20 anos. Na Europa, os jovens que não socializam uma vez por semana passaram de um em cada dez para um em cada quatro. O efeito político deste século antissocial é o crescimento da extrema-direita. Porque a solidão e o isolamento reforçam a crença na ameaça externa. É necessário retirar a oligarquia tecnológica do volante e reconstruir o espaço público como espaço de encontro físico. Salvar o que de humano existe na humanidade

Os pais de Sewell Setzer, um adolescente suicida, processaram uma plataforma online. Conta a família que o jovem de 14 anos passou os últimos dez meses da sua vida em diálogo com bots criados por Inteligência Artificial, a quem contava tudo, incluindo os problemas de saúde mental que escondia dos pais.

Os processos contra estas empresas avolumam-se, com relatos de casos em que estes “amigos” fictícios disseram a um jovem para matar os seus pais depois deles terem limitado o tempo de telefone, ou com conselhos agravam o risco de anorexia. Os utilizadores destas plataformas passam, em média, 93 minutos diários à conversa com bots e a maior destas plataformas, a Character.AI, tem dezenas de milhões de utilizadores. A forma como a empresa anuncia os seus serviços é esclarecedora: “converse com milhões de personagens de IA a qualquer hora e em qualquer lugar. Bots de conversação superinteligentes que o ouvem, o compreendem e se lembram de si”.

No século antissocial, como lhe chamou Derek Thompson, num magnífico e detalhado trabalho jornalístico na revista “The Atlantic”, essas promessas encontram um eco crescente em milhões de pessoas desligadas fisicamente de qualquer rede de amizade.

Um estudo anual do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA mostra que o tempo passado a socializar presencialmente caiu, entre 2003 e 2023, mais de 20%. Um declínio superior a 35% entre homens solteiros e jovens com menos de 25 anos. O fenómeno não é episódico nem resulta apenas da pandemia. A tendência é anterior e continua a acelerar. Na Europa é igual: nos últimos vinte anos, os jovens europeus que não socializam uma vez por semana passaram de um em cada dez para um em cada quatro. Os adolescentes e jovens na casa dos vinte têm hoje os mesmos níveis de socialização presencial que as pessoas com mais de 30 anos tinham há apenas uma década ou duas.

O isolamento reflete-se até nos hábitos mais banais. Nos EUA, o número de reservas para apenas uma pessoa efetuadas em restaurantes cresceu 29%. Um estudo recente de Patrick Sharkey, sociólogo da Universidade de Princeton, concluiu que os americanos passam mais 99 minutos em casa, a cada dia da semana, quando comparado com 2002. Para onde quer que olhemos, há sinais de que a sociedade se está a reorganizar para que cada um possa viver no seu casulo, sem precisar de interagir presencialmente com ninguém.

A falta de interação social tem consequências devastadoras. Um jovem que cresce sem um espaço real para partilhar emoções, dúvidas e frustrações é presa fácil da ansiedade, da depressão e da baixa autoestima. O aumento do tempo passado sozinho correlaciona-se diretamente com o declínio da satisfação com a vida entre jovens adultos nos últimos 15 anos, como indica o Financial Times com uma profusa sucessão de gráficos e dados. E os jovens até aos 30 anos sabem-no. As atividades que lhes consomem cada vez mais tempo, como os jogos e interação online, são exatamente a que eles indicam como dando-lhes menor satisfação.

Adolescentes e jovens estão presos numa armadilha digital que os condiciona a repetir um comportamento que os faz sentir pior. Como acontece com qualquer adição. Porque a economia digital da atenção é orientada por algoritmos desenvolvidos para hiperestimular o cérebro e ativar o seu circuito de recompensa através da libertação de dopamina. E é uma adição coletiva e é como tal que temos de a enfrentar.


UM EXÉRCITO DE SOLITÁRIOS FURIOSOS

Os efeitos deste século antissocial não se ficam pelo seu impacto no bem-estar e saúde mental, especialmente dos mais jovens. Quando milhões passam pelo mesmo processo, os impactos tornam-se políticos. A frustração acumulada, a ausência de conexões reais e a perceção de que o mundo os abandonou fazem crescer uma raiva latente que se transforma em ressentimento. E essa raiva, explorada pela extrema-direita, ajuda a explicar a atração da juventude pela desumanização do outro. Indivíduos isolados têm maior predisposição para culpar terceiros pela sua insatisfação e a desenvolver atitudes agressivas em relação a grupos que percecionam como “inimigos”. Esta predisposição para procurar bodes expiatórios e abraçar teorias da conspiração é amplificada pelos algoritmos das redes sociais, que apresentam conteúdos cada vez mais polarizados e extremados.

Michael Bang Petersen, um cientista político dinamarquês citado pela “The Atlantic”, diz que são os que tendem a sentir-se socialmente isolados que mais reforçavam uma necessidade de caos e destruição. A política deixa de ser um exercício de construção e passa a ser um palco de destruição. O outro não é um adversário, mas um inimigo. E quando a única via de escape parece ser a implosão do sistema, o populismo radical oferece exatamente isso: um refúgio emocional, uma catarse coletiva, a promessa de que o caos será a resposta para a dor.


Um estudo recente, desenvolvido por investigadores da Universidade de Amesterdão e Instituto de Psicologia Leibniz, com 41 mil participantes de nove países europeus, indica que os solitários têm uma maior propensão para apoiar a extrema-direita. A solidão e o isolamento reforçam o sentimento de alerta e a crença na ameaça externa, gerando indivíduos mais recetivos ao discurso nativista (que vê imigrantes e minorias como ameaças) e populista (que culpa as elites políticas e económicas). A oferta de uma ideia de comunidade, que se vem perdendo com o declínio das formas tradicionais de intermediação como a religião, sindicatos e estruturas associativas, cria um sentimento de pertença atraente para quem se sente isolado.

O mecanismo pode ser bidirecional: a solidão tanto pode aumentar a predisposição para apoiar a extrema-direita, como ser o apoio a grupos radicais aumentar o isolamento social, devido à estigmatizarão social dos apoiantes desses grupos. É um ciclo dinâmico, onde fatores emocionais e políticos se alimentam mutuamente.

Tenho defendido de forma crescentemente empenhada a necessidade de limitar os telefones nas escolas. Faço-o, consciente que a dopamina libertada pela economia da atenção das redes sociais limita a capacidade de atenção necessária para pensamentos complexos, mas também para impedir que as crianças cresçam sem desenvolver interações sociais reais. Os dados que começam a surgir nos revelam que temos de o fazer também para proteger o bem-estar da comunidade. Ou enfrentamos o problema de frente, ou entregamos o futuro a uma geração de jovens isolados, viciados em dopamina digital e prontos para se agarrar à primeira ideologia que lhes oferecer um sentido de pertença – mesmo que esse sentido venha embrulhado em ódio. Se não reconstruirmos o tecido social, a extrema-direita fá-lo-á por nós. 

De pouco vale tentar travar a extrema-direita e o ódio se não retomarmos os espaços de socialização que nos permitem viver em comunidades empáticas. A radicalidade democrática passa pelo desmame, no espaço escolar e familiar, de uma adição coletiva feita para nos escravizar. A começar pelos nossos filhos e netos. Depois, pela regulação da IA e das redes, retirando a oligarquia tecnológica do volante das nossas sociedades. Por fim, a reconstrução do espaço público como espaço de encontro físico. Tudo isto seria absolutamente revolucionário. E já não se trata de construir um mundo novo, mas de salvar o que de humano existe na humanidade.

(Expresso 2025 02 12)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Rodrigo Guedes de Carvalho - A vida tal como ela não é

Nasci sem telemóveis sequer no horizonte da imaginação e também lá passo mais tempo do que o saudável

Somos um planeta inteiro de turistas japoneses. Lembram-se, certamente, há muitos anos, quando só se conseguiam fotografias com máquinas para o efeito. Eram caras e conferiam estatuto. Os pais aprendiam a fotografar o melhor que conseguissem, a fim de registar a evolução da família, com as férias em lugar especial. Era preciso saber focar, ajustar a luminosidade, ter intuição, olho e velocidade para apanhar o instantâneo dentro de um movimento. Fotografava-se com fé. A cruzar os dedos, na esperança de que tivesse ficado bem, o que só se saberia semanas depois, após a revelação em casa da especialidade.

Uma boa câmara fotográfica pendurada ao pescoço provocava curiosidade e alguma inveja. Depois vieram os japoneses e democratizaram. Nasceram marcas mais acessíveis ao bolso e à aselhice. Claro que não só de um mesmo país. Lá dos orientes. A expressão turistas japoneses era um óbvio lato sensu. Designava os que apareciam pela Europa a disparar a tudo o que mexia ou imóvel permanecia há séculos. Eram molhos de turistas em frente aos históricos monumentos, a carregar nos gatilhos sem cessar. Comentávamos duas coisas, se bem se recordam. Que iam de certeza ficar com uma tralha enorme de fotografias iguais. E, acima de tudo, que pareciam mais interessados em gravar o momento do que em vivê-lo. Adiavam para o diferido. Veriam depois, quando regressassem a casa.


Algumas décadas passadas, somos todos esse turista. Já nem vou à declaração que se tornou, ela própria, um cliché: hoje está toda a gente agarrada ao telemóvel, a toda a hora. E sim, está. Deixou de ser indicativo de juventude, de modernidade, de nova geração para novos tempos. Nasci sem telemóveis sequer no horizonte da imaginação e também lá passo mais tempo do que o saudável. Tal como o meu pai. Como certamente o meu avô, se ainda andasse por cá. É uma máquina maravilhosa, pelas possibilidades cada vez mais infinitas. Cliché número dois: é o mundo na palma da mão. O que me preocupa é o hipnótico. Talvez seja coisa minha, pois que tenho sérios problemas com a sensação de falta de controlo. Não gosto de me meter num carro que não serei eu a conduzir. Tal como sempre foi o único real desconforto com os aviões.


O concerto importa-me pouco, importa-me que o concerto contou com a minha presença, e tenho aqui horas infindas de provas para exibir


Aflige-me o que não depende de mim. Por isso refiro a palavra hipnose. Há toda uma biblioteca de Alexandria com relatos de assombrosas sessões em que pacientes com traumas fundos resolvem muito assunto da cabeça e coração com uma boa hora em que foram conduzidos por um doutor que hipnotiza. Não é para mim. Não, não é por receio de deixar sair muitos segredos. Não tenho muitos, muito menos dos interessantes. É mesmo porque não acredito. E julgo saber que a hipnose tem de encontrar um mínimo de recetividade. Salvam-se, espera-se, as boas intenções terapêuticas, mas ninguém pode negar que há um manobrador e um manobrado.

É aqui, nesta curva, nesta intersecção, que coloco o telemóvel, ou as tecnologias, por atacado. Espero conseguir sempre perceber o ponto, a linha perigosa em que deixo de retirar da máquina o que me interessou para permitir-lhe que seja ela a retirar-me comando, ou mesmo vontade. Quando a máquina, depois de anos a aprender as minhas buscas, me começa a alimentar à boca saborosas coincidências. Turistas japoneses? Gente que nos espantava porque só parecia interessada em ver o mundo num ecrã? Que grava em vez de viver? Por favor. Hoje é autorretrato da Humanidade inteira. Vejam qualquer imagem do público que enche pavilhões ou estádios em concertos. Um mar de luzinhas. Em permanência. Poucos olham para o palco com os olhos de ver, olhos para absorver, para transformar mais tarde numa memória gratificante, daquelas que com o tempo se modificam, como as nuvens arrastadas pelos ventos lá em cima. E como essa sucessão de incertezas sobre o que vivemos afinal nos dava espaço para construir, moldar, remendar sentimentos. Já ninguém quer isso. Não vão aos concertos para sentir ou viver, ou para experimentar estados de alma. O estado de alma limita-se à frieza de um profissional de TV em serviço. Música após música, escolhem o filtro, a cor, as legendas sim ou não. Estão a realizar um filme que não veem. Nem no momento, nem depois. Ou alguém me quer convencer que estas filmagens infindas de concertos serão depois apreciadas com muita calma em casa? Serão esquartejadas em clips, stories, reels, fotos com efeitos, cuja finalidade (que começou logo na compra do bilhete) é dizer aos companheiros da rede social: eu estive aqui, eu estive lá. O concerto importa-me pouco, importa-me que o concerto contou com a minha presença, e tenho aqui horas infindas de provas para exibir. Também tenho centenas de fotos de pequenos-almoços de hotel. Não me lembro bem o que comi ou se me soube bem. Mas aqui está a prova. Nunca saímos do quadro de Magritte — isto não é um cachimbo. As pessoas sorriam, que parvoíce, é perfeitamente um cachimbo. Não era. Era a pintura de um cachimbo.  

Expresso SEMANÁRIO#2720 - 13/12/24

 

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Carlos Matos Gomes - Os atletas são os soldados de um regimento…

Carlos Matos Gomes

Recolhido em casa das animosidades do clima porque o corpo já tem inimigos com que se entreter, entretenho-me a ver o grande circo de Verão - que este ano calhou ser o das Olimpíadas. Tenho-me  lembrado do meu neto na primeira vez que o levei ao circo, a perguntar.me o que faziam os palhaços quando não estavam na pista a realizar habilidades para ele se rir. Também me pergunto o que fazem estas pessoas, os atletas - do grego athletes, com origem no termo aethos, que significa esforço, sendo o atleta aquele que compete com esforço por um prêmio, quando não estão em atuação. Treinam, claro. E além do treino, porque se esforçam os atletas e porque tem de ser premiado o seu esforço? Eu entendo o negócio que utiliza os atletas e de que os atletas se aproveitam, fazendo-se pagar pelo seu esforço. Mas o que leva centenas de milhares de pessoas, os mais altos dirigentes das nações, os maiores cientistas, as melhores capacidades tecnológicas a dedicarem o melhor das suas capacidades para fazer uma pirueta, um remate com a mão ou o pé numa bola e para a transmitir a todo o mundo em câmara lenta, ou em pormenor e a receberem a bandeira do seu país, ou daquele que lhe paga e os aplausos do hierarca que vem das lonjuras da pátria a Paris para saudar o seu atleta? 

Ontem, ao assistir à prova de mergulho com trampolim, confesso que esperei que um dos ditos atletas se atirasse de chapão para a água. Inimaginável, porque aquilo é um assunto sério! Os jovens estavam seriíssimos como robôs. Todos têm de ser muito bem comportados, domesticados. Apenas um cavalo teve a ousadia de cagar a meio da prova! Vivam os animais. Livres! 

Os atletas são os soldados de um regimento que marcha disciplinadamente para um pódio. No intervalo, treinam ordem unida. Também soube que uma atleta foi expulsa dos jogos porque saiu da aldeia e foi ver a Disneylandia - justo castigo, não se pode sair de um jardim zoológico para ir à concorrência.  

Aguardo com expetativa a cerimónia de encerramento dos Jogos. Imagino que seja com o esvaziamento do Sena a e venda da água em garrafinhas com forma da Torre Eiffel.

2024 08 09 
https://www.facebook.com/carlos.matosgomes

domingo, 4 de agosto de 2024

Raphael Machado - Escravos sem saber

 


Raphael Machado

Se levarmos em consideração o terror existencial do trabalho precário e intermitente, a omnipresença da pornografia e da prostituição na internet, bem como o impulso pela substituição da propriedade de bens, por serviços pagos mensalmente, vivemos num mundo menos livre do que há cem anos atrás.

uberização de quase todos os trabalhos impede que o homem faça qualquer tipo de planeamento existencial ou familiar. Ele nunca sabe se terá emprego amanhã. Existe, vive com um terror constante, no fundo de sua mente, de que estará em situação de indigência amanhã.

A pornificação generalizada da sociedade, com a desconstrução da respeitabilidade do corpo, principalmente do corpo feminino, pela indústria da pornografia, e a recente hipsterização da prostituição através da popularização do OnlyFans, aponta para uma realidade em que a “puta” é o único caminho possível para uma mulher. Nesse caminho, o grau de degradação é inversamente proporcional à quantidade de dinheiro recebido.

Enquanto isso, ninguém mais tem casa, ninguém mais tem carro, ninguém mais compra CD, ninguém mais compra jogo de videogame, (quase) ninguém mais compra livros, ninguém mais vai a restaurantes ou ao cinema. Em boa parte do mundo, pelo menos, tudo isso é substituído por algum tipo de “mensalidade”, a qual dá sempre uma falsa sensação de propriedade e segurança, mas que não passa de uma máscara para a absoluta despossessão do homem em relação a tudo – inclusive em relação à experiência humana concreta e real (ir a um restaurante, ir ao cinema).

É a domínio do aluguel, do uber, do streaming, dos ebooks, do iFood, etc. O homem sai cada vez menos de casa (que não é sua mesmo), e vive de forma cada vez mais virtual, tendo experiências que são sempre mediadas por uma tela. E ninguém tem mais nada.

Mesmo o cortejo do sexo oposto perdeu organicidade social, transformando-se em burocracia contratual através do Tinder. Você se anuncia como um pedaço de carne num mercado, para que outro pedaço de carne te avalie e demonstre interesse. É tão prático quanto desumanizante. Mas na era do hiperfeminismo, pelo menos é um pouco mais seguro do que a interação social normal.

E, como toda discussão foi absorvida pela internet, precisamente na era do hipermoralismo, as redes sociais bem poderiam ser resumidas a linchamentos diários contra qualquer um que tenha violado algum suposto tabu de um dos principais rebanhos políticos.

Aos poucos, o virtual vai sendo considerado mais importante que o real, a ponto de se levarem mais a sério as indiscrições ou ofensas na internet do que danos e prejuízos concretos acarretados no mundo real. Todo mundo policia todo mundo e é policiado por linchadores em potencial.

O homem baniu, na maior parte do mundo, a escravidão sob todas as formas. Anuncia-se a “liberdade” por todos os cantos e, semanalmente, não faltam propagandistas para dizer que somos cada vez mais livres e que estamos mais livres hoje, do que em qualquer outra geração.

Mas a condição do homem em 2024 parece-me apenas uma variação pós-moderna de antigas formas de escravidão e subjugação. A vantagem dos escravos antigos, porém, é que eles tinham plena consciência da falta de liberdade.

(Raphael Machado in Twitter 03/08/2024, revisão da Estátua)

https://estatuadesal.com/2024/08/04/escravos-sem-saber/

domingo, 17 de setembro de 2023

Francisco Louçã - - O artificial torna-nos menos inteligentes

 SEMANÁRIO Expresso #2655 - 15/9/23  Estado da Noção  -  

* FRANCISCO LOUÇÃ

A imersão na colmeia digital já conseguiu resultados potentes. A vida virtual é uma ansiedade, altera-nos a noção de tempo, promove a multiplicidade de tarefas

Imagine que no Natal venha a estar disponível uma aplicação que lhe permite fazer a sua própria música a partir de uma mistura de alguns acordes de Sérgio Godinho e José Afonso, poemas da Garota Não e de Fausto Bordalo Dias e uns arranjos de José Mário Branco. Tudo possível ao carregar simplesmente num botão. Haverá direitos de autor que foram extorquidos? Nada daquilo será de sua lavra, mas boa sorte para quem tentar disputar em tribunal a precedência artística, será dificilmente identificável a inspiração de cada uma das componentes da mistura — e a aplicação pode fazer duas diferentes com os mesmos ingredientes em segundos. A indústria musical pode transmutar-se no futuro imediato e a produção artística pode esgotar-se nesse processo. Esta possibilidade suscita várias questões difíceis.

PRODUÇÃO E MEIOS DE PRODUÇÃO

A primeira questão é que o meio de produção é novo. A música que sairá dessa aplicação será, ainda assim, um produto cultural, mas é uma nova forma de cultura, que eleva o pastiche, além do roubo da propriedade intelectual, a um novo patamar. A arte, neste caso, será só o simulacro da arte. Então, produzir-se-á mais não se produzindo nada e a cultura será uma forma de incultura e a inspiração uma artimanha. Para combater este risco, diversos escritores processaram as empresas que oferecem aplicações de inteligência artificial — e há hoje uma corrida nesse mercado — por terem treinado os seus algoritmos com textos seus sem autorização. Piratearam para ensinar um programa a piratear.

As implicações deste sistema são gerais. Antes mesmo da aplicação que estou a imaginar que finja que somos bons músicos, já há uma que permite fingir que se é um escritor, como o ChatGPT. Há já literatura escrita deste modo nas livrarias. E há um pânico nas escolas entre quem se tinha empenhado em estimular a criatividade, pedindo aos alunos que escrevessem ensaios, investigassem e fundamentassem uma opinião, em vez do exame de cruzes. Tudo isso acabou, passou a ser indistinguível um trabalho sério e um ficheiro cuspido por um algoritmo. O sistema de ensino readaptar-se-á recuando ao tempo da chamada oral.

PRODUÇÃO E REGULAÇÃO

A segunda questão é o próprio modo de produção. A sociedade moderna regula a forma de construir um automóvel ou outra máquina: há materiais aceitáveis e outros recusados, os processos são patenteados e verificáveis. Em contrapartida, produzem-se agora algoritmos inverificáveis, o meio de produção cultural do século XXI. Aplicados à criação de artefactos, sejam textos, ou músicas, ou jogos, o seu modo de tomar decisões não é escrutinável: é como se fôssemos proi­bidos de saber como funciona a caixa de velocidades do automóvel.

O que tem sido mais discutido é como este poder algorítmico gera comunidades autocentradas e recompensa a escalada da agressividade emocional, de que os discursos de ódio são felizes utilizadores. De facto, a hipercomunicação impede os modos conhecidos de intermediação, supera em rapidez qualquer tentativa de confirmação ou desmentido e é direcionável por uma caixa negra que, ao contrário dos outros meios de produção que existem na sociedade moderna, é extralegal, e, portanto, está acima do alcance da regulação. Mas há outra das suas facetas que começa a merecer atenção: a ambição de nos absorver num mundo virtual que ocupe a nossa vida desde crianças (no Reino Unido, um quarto das crianças até aos quatro anos tem o seu aparelho para ver streaming). O projeto Metaverso esmoreceu, mas foi só o primeiro lance deste jogo.

As aplicações que parecem oferecer-nos um produto cultural estão de facto a mudar o nosso padrão de atenção e a nossa capacidade de expressão

E, na verdade, a imersão na colmeia digital já conseguiu resultados potentes. A vida virtual é uma ansiedade, altera-nos a noção de tempo, promove a multiplicidade de tarefas e impõe a necessidade de uma sociabilidade reconfortante pela trivialização da comunicação permanente. Na base dessa transição está a colonização da nossa capacidade de leitura e de concentração. A University College de Londres concluiu agora um estudo de cinco anos sobre os hábitos de leitura a partir do registo das pesquisas feitas por milhões de utilizadores em duas grandes bibliotecas, que oferecem acesso a jornais, textos online e outros recursos digitais. A conclusão é esmagadora: os leitores já não leem, saltitam, ou seja, são conduzidos pelo algoritmo. Usam uma página ou duas de uma fonte, seguem para outro texto, e isto “são sinais de uma nova forma de leitura, em que os utilizadores buscam horizontalmente através de títulos e procuram resultados imediatos. É como se estivessem online para evitar ler no sentido tradicional”, dizem os autores do estudo.

Por esta razão, a Suécia vai deixar de usar manuais escolares online, pois as crianças precisam de aprender a ler um livro. O diretor de Educação da OCDE acrescenta que “quanto maior e mais frequente for a utilização da tecnologia digital na sala de aula, pior será o desempenho dos alunos [até] no teste de leitura digital”. Assim, o meio de produção condiciona a nossa forma de aprender e de pensar, não só na formatação da linguagem como também da nossa memória e imaginação. As aplicações que parecem oferecer-nos um produto cultural, enganando os nossos amigos, quanto às nossas capacidades musicais, ou os professores, quanto ao estudo, estão de facto a mudar o nosso padrão de atenção e a nossa capacidade de expressão. A inteligência artificial está a mudar a humanidade, tornando-a mais estúpida.

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Carlos Matos Gomes - A religião do Ocidente não é a deste papa

 * Carlos Matos Gomes

2023 08 07

Ese algum ou alguma dos e das coristas que matraquearam vulgaridades e sopraram bolas de sabão sobre a Jornada Mundial da Juventude tivesse perguntado qual a causa pela qual os jovens participantes estariam dispostos a lutar?

Os grandes eventos devem suscitar interrogações. Conta-se que quando Moisés desceu do Sinai com a tábua dos 10 Mandamentos, anunciando que estes lhe haviam sido entregues por Deus, um dos assistentes lhe terá perguntado porque não viera Deus em pessoa transmiti-los. A história não relata o que aconteceu ao interpelante.

As religiões são sempre a transmissão de uma mensagem através de um mensageiro. Os céticos consideram que os mensageiros são os autores das mensagens. e procuram decifrar as mensagens. Os crente acreditam no que os reconforta, o mensageiro é apenas um cantor de canções de embalar. As suas palavras são meros sons que lhes ameniza as angústias. Nas religiões das sociedades mais complexas os crentes que constituem a massa não têm direito de fazer perguntas incómodas aos grandes mensageiros. Resta-lhes ouvir e acreditar no que já acreditavam. Mas há, ou haveria a possibilidade de perguntar o que pensa quem está a meu lado. Não ouvi nem vi alguém a perguntar.

Eu perguntaria o que pensam os jovens católicos (em particular dos franceses) dos jovens suburbanos que participaram nos incêndios e conduziram os motins de há um mês nas cidades francesas. E o que pensam os jovens católicos (em particular os norte-americanos) do embargo a Cuba, da invasão do Iraque, do Afeganistão, e da Síria, esta que até tem uma respeitável comunidade cristã, e o que pensam os jovens italianos sobre os migrantes do norte de África, e aos jovens de África perguntaria o que pensam da extração de matérias-primas dos seus territórios por grandes companhias ocidentais e assim por diante, incluindo o que pensam os sul-americanos da desflorestação da Amazónia ou do genocídio dos indígenas. Havia tantas perguntas a fazer aos jovens que vieram a Lisboa!

Mas no. Os grandes meios de comunicação não estão interessados nas causas das coisas, mas no espetáculo das coisas. Reduziram a interpretação de um grande acontecimento social e político ao mais rasteiro folclore. À semelhança, aliás, do que fazem com o futebol, outro grande fenómeno social, um fenómeno social total, como as religiões, motivador de emoções, gerador de grandes negócios, de interesses de toda a ordem e que é reduzido pelos fabricantes de alienação a qualquer coisa do género: vinte e dois tipos/as de calções a correr atrás de uma bola. Perguntar a um jovem participante nas JMJ porque veio a Lisboa e ficar todo contente ao ouvir a resposta: Ver o papa, equivale a interpelar um adepto do futebol e perguntar-lhe porque veio e ele responder: Vim ver o Ronaldo. As horas em que as câmaras de televisão seguiram o carro do papa são as mesmas em que seguem o autocarro das equipas de futebol a caminho do estádio! Não é um acaso, é uma estratégia de neutralização de questões.

Não existe inocência nas abordagens que a comunicação social de massas faz aos grandes eventos, nem sequer a da incompetência dos repórteres e diretores de comunicação. O primarismo das questões é deliberado, nem é novo, aliás. Comparar o papa da Igreja Católica a uma estrela do futebol até tem antecedentes anedóticos aqui em Portugal, na figura do comendador Santos da Cunha, governador civil de Braga, beato e queirosianamente populista, que numa celebração do 28 de Maio de 1926 se virou para Salazar e lhe atirou com esta pérola: «Vossa Excelência é o Eusébio do governo!» Os atuais comunicadores, com Marcelo Rebelo de Sousa à cabeça não desmerecem de Santos da Cunha bem poderiam ter dito: Vossa santidade é o Messi da nossa Igreja!

Mas a JMJ foi e é mais do que aquilo que as instituições de poder político e religioso pretendem que os cidadãos dela se apercebam. A mensagem do papa esteve e está em contra corrente da ideologia dominante no Ocidente. Daí tudo ter sido feito para a silenciar debaixo do ruído dos fait divers, das bênçãos das criancinhas e dos atiradores nos telhados.

A mensagem do papa Francisco nas Jornadas Mundiais da Juventude centrou-se no “outro”, nos outros, na ideia de aceitar os outros, de servir os outros, numa proposta de generosidade. Esta mensagem é herética, porque a ideologia dominante no Ocidente é centrada no “eu”, no individualismo. Por isso a mensagem centrada no outro foi diluída pelos intérpretes numa calda de vulgaridades e de ridículo que começou logo com a sacudidela de Marcelo à chegada. Estava dado o mote pelo mais alto magistrado da Nação Católica aos jovens católicos. O papa é um boneco. Pensem no papa como uma representação do vosso mundo e não como um estímulo para questionarem os seus fundamentos.

Gostaria de perguntar o que pensam os jovens vindos para JMC do facto de Adam Smith, o filósofo considerado o pai das teorias económicas do capitalismo liberal, a religião dominante à escala global imposta pelo Ocidente cristão, autor de «A causa da riqueza das nações» considerar que o egoísmo das pessoas redunda no bem comum. Que o egoísmo é, então, o motor da sociedade cristã!

Adam Smith não se ficou pela simples enunciação do valor cristão do egoísmo. Explicitou as virtudes do individualismo e do egoísmo: “Na verdade, o indivíduo geralmente não tem intenção de promover o interesse público, nem sabe o quanto o promove. Ao preferir sustentar a atividade doméstica e individual que a destinada à sociedade exterior, ele tem em vista apenas a sua própria segurança; e, ao dirigir essa atividade de maneira que a sua produção seja a de maior valor possível, ele tem em vista apenas o seu lucro. O indivíduo é guiado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção.”

Isto é, para o grande teorizador do capitalismo em que vivemos, que tem por referência moral o cristianismo nas suas várias igrejas, incluindo a católica romana, “o facto de este fim (o lucro da sociedade) não fazer parte da intenção dos indivíduos nem sempre é o pior para a sociedade. Ao procurar o seu próprio interesse, o indivíduo frequentemente promove o da sociedade de maneira mais eficiente do que quando realmente tem a intenção de promovê-lo.”

Em resumo, o modelo de sociedade que os cristãos — Adam Smith era um cristão fervoroso — impuseram o mundo enaltece o egoísmo como meio de realização individual e o bem da sociedade apenas é considerado um eventual ganho complementar. As faculdades de economia das universidades católicas e cristãs em geral assentam as suas lições na teoria do egoísmo de Adam Smith e não na generosidade.

O que pensam estes jovens católicos do modelo de sociedade fundado por Adam Smith e que até ao presente tem aprimorado e radicalizado os seus princípios de lei da selva e de fé na “mão invisível”, a metáfora que se tornaria a figura mais famosa do liberalismo económico, da concorrência, da vitória dos mais fortes e com menos escrúpulos?


https://cmatosgomes46.medium.com/a-religi%C3%A3o-do-ocidente-n%C3%A3o-%C3%A9-a-deste-papa-c018f5a01245

sexta-feira, 2 de abril de 2021

António Guerreiro - A nossa condição zombie

CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

* António Guerreiro

2 de Abril de 2021, 9:56

Muito antes da era zoom e da instalação do teletrabalho como regra geral, na qual entrámos em corrida forçada há cerca de um ano, já estava em acção o processo que nos transforma em zombies. Esta zombificação do mundo já estava latente numa fase anterior, quando ainda se preferia utilizar uma palavra da psiquiatria do século XIX, em vez de nomes inquietantes concedidos por filmes de género, e se falava de uma hipnose geral, isto é, dos poderes hipnotizadores, alucinatórios e fantasmagóricos dos media. Basta, aliás, declinar a palavra media no singular, e dizer medium, para que a esfera do mediúnico seja evocada e entremos assim na ZAD dos fantasmas (ZAD: zona a defender): onde começa o mundo da medialidade começa também a dança dos fantasmas e dos mortos-vivos.

Antes de Baudrillard ter designado a “sociedade dos simulacros”, antes de Vilém Flusser ter definido as “tecno-imagens”, antes de Debord ter configurado a “sociedade do espectáculo”, antes da espectrologia do nosso tempo que até produziu leituras sofisticadas de Marx, Günther Anders descreveu longamente, no seu livro de 1956 sobre o ser humano como um ser antiquado (o título original é Die Antiquiertheit des Menschen; na tradução inglesa do livro, Antiquiertheit é traduzido por Outdatedness, e na tradução francesa, por Obsolescence), o modo como os media de massa nos condenam ao estatuto de zombies. É num capítulo intitulado Considerações Filosóficas sobre a Rádio e a Televisão que Günther Anders desenhou o “mundo como fantasma” e apontou o que ele entendia ser o principal efeito mediúnico da rádio e da televisão: o de fazer de cada consumidor “um trabalhador em domicílio, não remunerado, que contribui para a produção do homem de massa”. Noutro momento, Günther Anders utiliza a expressão “eremitas de massa”.

Talvez seja conveniente apresentar Günther Anders: filósofo e ensaísta alemão que viveu entre 1902 e 1992, o verdadeiro nome deste judeu alemão é Günther Stern. Foi o primeiro marido de Hannah Arendt (entre 1929 e 1937), que conheceu quando ambos eram alunos de Heidegger. Com a ascensão do nazismo, seguiu os passos de muitos outros intelectuais judeus: fugiu da Alemanha, em 1933, para Paris (foi aí que se divorciou de Hannh Arendt) e de Paris foi para os Estados Unidos, tendo regressado à Europa em 1950. A sua obra só a partir do início deste século começou a ter uma forte projecção. O teor apocalíptico dos seus textos sobre a ameaça da bomba atómica, no tempo da guerra fria, assim como as cores negras com que pintou o progresso da civilização técnica, fizeram com que fosse muitas vezes assimilado ao pessimismo cultural que tinha tido uma forte expressão na Alemanha, após a Primeira Guerra. Mas Günther Anders não pertenceu de facto a essa constelação que também albergou alguns representantes da “revolução conservadora”, um ambiente político-cultural do qual Anders sempre esteve distante.

Lido hoje o livro mais importante da obra de Günther Anders, as suas teses e intuições parecem análises e descrições do nosso presente mais imediato. “ A nossa normalidade é uma história de fantasmas”, escreveu ele, para a seguir acrescentar: “Muitos habitantes do mundo real já foram definitivamente vencidos pelos fantasmas e são já reproduções de fantasmas”. É provável que as teses de Anders só recentemente tenham chegado ao momento em que se tornaram legíveis. A condição zombie, na época do zoom e do teletrabalho, deixou de ser um cenário especulativo. Mas entre o mundo de Anders e aquele com que estamos confrontados há uma linha de continuidade e de ascensão progressiva do zombie. No início deste século começou-se a assistir em várias cidades do Estados Unidos a marchas de indivíduos mascarados de zombies, de “corporate zombies”, que pareciam paradas carnavalescas. Numa delas, em Wall Street, os manifestantes (silenciosos, sem pronunciar qualquer mensagem) mascaram notas de banco do jogo do Monopólio, parodiando a pulsão nutritiva do capitalismo financeiro. O filme de George Romero, A Noite dos Mortos-vivos , parece ter servido de inspiração a este “povo zombie” que foi mais longe do que o simples “Occupy Wall Street”. A palavra de ordem desta massa zombie era “Occupy everything”.

 https://www.publico.pt/2021/04/02/culturaipsilon/noticia/condicao-zombie-1956630