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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Porque me tornei comunista, por Pablo Picasso

*  Pablo Picasso

A minha entrada no Partido Comunista constitui um passo lógico na minha vida e no meu trabalho, um passo que lhes dá significado. Através do desenho e da cor tenho procurado um conhecimento mais profundo do mundo e dos homens, para que esse conhecimento sirva para nos libertar. Sempre expressei, à minha maneira, o que considerava mais verdadeiro, mais justo e melhor, e portanto mais bonito, mas durante a opressão e a insurreição percebi que isso não era suficiente, que eu tinha que lutar não só com meus pincéis, mas com todo o meu ser. Uma “inocência” peculiar havia anteriormente impedido de compreendê-lo.

Tornei-me comunista porque o nosso Partido se esforça mais do que qualquer outro para conhecer e construir o mundo, tornando os homens pensadores mais claros, livres e felizes. Tornei-me comunista porque os comunistas são os mais corajosos da França, da União Soviética e da minha pátria: Espanha. Nunca me senti mais livre ou completo do que desde que ingressei no partido. Enquanto espero o momento em que a Espanha me possa receber novamente, o Partido Comunista Francês será uma pátria para mim. Nele me encontrei novamente com todos os meus amigos – os grandes cientistas Paul Langevin e Frédéric Joliot-Curie, os grandes escritores Louis Aragon e Paul Éluard, e tantos rostos bonitos dos insurgentes em Paris. Mais uma vez me sinto entre meus irmãos.


* Carta enviada por Pablo Picasso ao jornal New Masses de Nova York, em outubro de 1944, comunicando seu ingressar no Partido Comunista da França.

http://aspalavrassaoarmas.blogspot.com/2021/01/porque-me-tornei-comunista-por-pablo.html


http://aspalavrassaoarmas.blogspot.com/2021/01/porque-me-tornei-comunista-por-pablo.html

sábado, 30 de janeiro de 2021

Carta de Patrice Lumumba a sua esposa




Minha querida esposa,

Eu estou escrevendo estas palavras a você, não sabendo se elas um dia chegarão em suas mãos, ou se estarei vivo quando você as ler.
Ao longo da minha luta pela independência de nosso país nunca duvidei da vitória de nossa causa sagrada, da qual eu e os meus companheiros temos dedicado todas as nossas vidas.
Mas a única coisa que nós queremos para o nosso país é o direito a uma vida digna, a dignidade sem pretensões e a independência sem restrições.
Isso nunca foi o desejo dos colonialistas belgas e de seus aliados ocidentais, estes que receberam, direta ou indiretamente, aberta ou secretamente, apoio de alguns oficiais dos cargos superiores das Nações Unidas, o corpo sobre o qual nós colocamos toda a nossa esperança quando recorremos a ele para obter ajuda.
Eles seduziram alguns dos nossos compatriotas, compraram outros e fizeram de tudo para distorcer a verdade e manchar nossa independência.
O que eu posso dizer é o seguinte, que eu, – vivo ou morto, livre ou preso – não é o que importa.
O que importa é o Congo, nosso povo infeliz, cuja independência está sendo espezinhada.
É por isso que eles nos trancaram na prisão e por esta razão eles mantém-nos longe do povo. Contudo, minha fé continua indestrutível.
Eu sei e sinto profundamente em meu coração que mais cedo ou mais tarde meu povo irá se livrar de seus inimigos internos e externos, que eles levantar-se-ão como um só e dirão “Não!” ao colonialismo, a fim de conquistar sua dignidade em uma terra livre.
Nós não estamos sozinhos. A África, Ásia, os povos livres e os povos que lutam pela sua liberdade em todos os cantos do mundo estarão sempre lado a lado com os milhões de congoleses que não desistirão da luta enquanto houver um colonialista ou um de seus mercenários em nosso país.
Para meus filhos, que eu estou deixando e que, talvez, não os veja novamente, eu quero dizer que o futuro do Congo é esplêndido e que eu espero deles, assim como todo congolês, o cumprimento da tarefa sagrada de restaurar a nossa independência e nossa soberania.
Sem dignidade não há liberdade, sem justiça não há dignidade e sem independência não existem homens livres.
Crueldade, insultos e tortura jamais poderão forçar-me a implorar por misericórdia, porque eu prefiro morrer de cabeça erguida, com uma fé indestrutível e uma profunda crença no destino de nosso país, do que viver submisso e renunciar aos princípios que são sagrados para mim.
O dia virá quando a história falar. Mas não será a história que será ensinada em Bruxelas, Paris, Washington ou nas Nações Unidas.
Será a história que será ensinada nos países que terão se libertado dos colonialistas e de seus fantoches.
A África irá escrever sua própria história e tanto no Norte como no Sul será uma história de glória e dignidade.
Não chores por mim. Eu sei que meu atormentado país será capaz de defender sua liberdade e sua independência.

Vida longa ao Congo!
Vida longa à África!

Da Prisão Thysville,
Patrice Lumumba

Traduzido por Igor Dias

http://territorioafricano.blogspot.com/2017/09/carta-de-patrice-lumumba-sua-esposa.html

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

cartas de fernando pessoa a ofélia


CARTAS A OFÉLIA

  
Ophélia foi a namorada de Fernando Pessoa durante duas fases: de 1 de Maio a 29 de Novembro de 1920 e de 11 de Setembro de 1929 a 11 de Janeiro de 1930, embora o contacto entre os dois se mantenha cordial, mas esporádico, até à morte do Poeta.  

folha de poesia

artes, ideias e o sentimento de si

 

CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 27 DE ABRIL DE 1920
     
     
Meu Be«be»zinho lindo:
     
Não imaginas a graça que te achei hoje á janella da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos).
     
Tenho estado muito triste, e além d'isso muito cansado - triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil d'essas pessoas; não ralhando contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado...
     
Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de em tudo seres de uma opinião contraria á minha. No escriptorio eras mais dócil, mais meiga, mais amorável.
     
Enfim...
     
Amanhã passo  á mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu apparecer à janella?
     
Sempre e muito teu
     
assinatura de Fernando Pessoa
     
     
     
     
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 31 DE MAIO DE 1920
     
     
Bebezinho do Nininho-ninho:
     
Oh!
     
Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei muito da catinha dela. Oh!
     
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos.
     
Oh! O Nininho é pequenininho!
     
Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia se havia carros, combinei tá aqui às seis ho'as.
     
Amanhã, a não sê qu'o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e meia. [desenho de uma meia] (isto é a meia das cinco e meia).
     
Amanhã o Bebé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim?
     
Jinhos, jinhos e mais jinhos.
     
assinatura de Fernando Pessoa
     
     
     
   
   
   
   
CARTA A OPHÉLIA QUEIROZ – 25 DE SETEMBRO DE 1929
   
   
Exma. Senhora D. Ophélia Queiroz:
    
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.ª — considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) — que V. Ex. ª está proibida de:
(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.
   
Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.ª a pegar na imagem mental, que acaso tenha formado do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.
   
Cumprimenta V. Ex. ª
   
Álvaro de Campos
eng. Naval
   
   
   
   
   
   
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 9 DE OUTUBRO DE 1929
   
   
     Terrivel Bébé
   
      Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é  sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que a havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece ser impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim .
assinatura de Fernando Pessoa 


 
Cartas de Amor, Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa, Ática, 1978 (3ª ed. 1994)

http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2008/11/05/ofelia.aspx


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ler aqui o integgral das cartas
http://recursos.wook.pt/recurso?&id=3516367

domingo, 27 de dezembro de 2009

Cartas, de Antônio Vieira


Digestivo nº 386 >>> Cartas, de Antônio Vieira

Pouca gente leu o Imperador da Língua — Fernando Pessoa, por exemplo, leu. Mas, no Brasil, parece que menos gente ainda leu o Padre Vieira. Os Sermões ficaram famosos nas aulas de literatura, afinal, estamos falando do maior escritor do barroco brasileiro, mas suas últimas edições não fizeram o estardalhaço que deveriam e — na onda de Deus, um delírio — alguém pode ficar meio desconfiado de ler, justamente, um sermão... O importante, nessas horas, é lembrar Ariano Suassuna, que afirmou ler Euclides da Cunha não por seus erros em ciência e sociologia, mas pela beleza de estilo. Suassuna acrescentou, ainda, que preferia o nosso Euclides a Gilberto Freyre — que, efetivamente, "acertava" mais, porém, esteticamente, interessava menos. As Cartas, de Vieira, que a editora Globo agora lança, com prefácio de Alcir Pécora, podem servir, portanto, de "segunda chance", para quem se interessou pelo Padre nas aulas de literatura (ou nos versos de Pessoa), tentou os Sermões, mas, por conta do zeitgeist, não mergulhou no estilo do jesuíta. As cartas, propriamente ditas, são quase — o que chamaríamos hoje de — "cartas comerciais", relatórios, prestações de contas, a começar pela primeira: quando Vieira, impressionando seus superiores já aos 16 anos, redigiu, de próprio punho, uma longa carta sobre os feitos da Companhia de Jesus na colônia. Felizmente, para nós, mesmo quando tentava soar objetivo (se essa expressão, aliás, existisse), Vieira se derramava, "se colocava" sempre e compunha painéis vastíssimos. "Imperadores", como ele, nascem só um a cada século. Vale a pena, portanto, abandonar os soldados rasos da literatura contemporânea e cavalgar, altivamente, no estilo do Padre, que balançou, até, o "moderno" Pessoa.
>>> Cartas de Antônio Vieira
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Cartas, V.1

Autor: VIEIRA, ANTONIO (PADRE)
Organizador: AZEVEDO, JOAO LUCIO DE
Editora: GLOBO
Assunto: BIOGRAFIAS, DIÁRIOS, MEMÓRIAS E CORRESPONDÊNCIAS



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Sinopse

Este é o primeiro volume, de três, das 'Cartas do padre Antônio Vieira'. A presente edição conta com uma apresentação do especialista brasileiro em Vieira da atualidade, Alcir Pécora - que, além de comentar a edição original, o conteúdo das cartas e seu contexto histórico e biográfico, também analisa o estilo epistolar da época em geral e de Vieira em particular.


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Saiu na Imprensa:

O Estado de S. Paulo  /   Data: 2/8/2008
Cartas com esperança e com afeto
Primeiro volume de correspondências do padre jesuíta, organizado por João Lúcio de Azevedo, ganha edição inédita no Brasil
Francisco Quinteiro Pires
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Com esperança e com afeto. Todas as cartas de padre Antônio Vieira apresentam esses recursos para conquistar a simpatia do destinatário. “Mas suas correspondências não têm nada de estritamente pessoal, ou íntimo, da forma como pensamos hoje”, diz Alcir Pécora, um dos maiores especialistas brasileiros em Vieira, cujos 400 anos de nascimento são comemorados neste ano. Ele assina o prefácio do primeiro volume de "Cartas" (Globo, 484 págs.), organizado pelo historiador português João Lúcio de Azevedo e editado pela primeira vez no Brasil.
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“Vieira via basicamente o ato de escrever como um ato negocial, uma forma de atuação fortemente política”, diz Pécora. Essa concepção, no entanto, não impedia o jesuíta de usar recursos emocionais para conquistar a boa disposição do leitor. Ele imprimia um “temperamento” às correspondências, por meio das quais estimulava uma partilha solidária com o destinatário, transformado em cúmplice. Se existe um caráter particular nas correspondências, ele aparece no comprometimento, até a medula, do jesuíta com suas crenças religiosa e política. “A meu ver, o destinatário virtual ou ideal de todas as cartas de Vieira é o Príncipe, aquele que exercia no momento o mand
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Padre Antônio Vieira acreditava na idéia de uma monarquia cristã universal. Ele via o império português como o Estado que concretizaria essa monarquia no mundo todo. Era o Quinto Império, fundado por um rei português, um longo período de paz na terra, antes da chegada ao anti-Cristo e do Juízo Final. “Pode-se dizer que essa crença está pressuposta em todas as cartas”, diz Pécora. “Mas sempre de forma dramática, problemática, por vezes contrariada, por vezes no limite do desengano.” O volume 1 contém a carta conhecida como Esperanças de Portugal, V Império do Mundo, de 29 de abril de 1659. O Tribunal do Santo Ofício de Coimbra se baseou nela para acusar Vieira.
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A esperança no Quinto Império teria de vir com a graça dos céus, mas ela só se concretizaria se o rei de Portugal a transformasse numa razão de Estado. “Esta, entretanto, na perspectiva de Vieira, invariavelmente faltava ao governo português.” Pécora lembra que o jesuíta se valia das cartas para reforçar “o corpo místico” do poder imperial. O padre Antônio Vieira (1608-97) chamava para si a missão de interpretar os sinais divinos para daí aconselhar o rei que lhe desse ouvidos. Não à toa, d. João IV, seu protetor, foi um dos principais correspondentes.
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Alcir Pécora explica que Antônio Vieira obedecia a procedimentos ditados pela Companhia de Jesus para escrever as cartas. Era a ars dictaminis, que previa a seguinte divisão da estrutura do texto: salutatio (saudação ou cumprimento); captatio benevolentiae (obtenção de simpatia ou boa disposição); narratio (narrativa e relação); petitio (pedido, solicitação); e conclusio (fecho, conclusão). Embora sejam práticas de escrita convencionais, as cartas e os sermões têm diferenças no que se refere às suas determinações. “No sermão, o fundamental é a demonstração de um tema extraído do Evangelho do dia, tendo em vista o calendário litúrgico e o tempo histórico vivido pelo auditório”, diz Pécora. “Nas cartas, o que conta é a composição de uma narrativa que desemboca num pedido: os procedimentos de conquista são mais desenvolvidos”, completa.
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Autor de "História de Antônio Vieira", a mais completa biografia do jesuíta, dividida em dois tomos, João Lúcio de Azevedo adotou um procedimento cronológico de organização. O volume 1 reúne 93 cartas, escritas entre 1646 e 1661, disposta em cinco seções. Previsto para ser lançado em outubro, o 2 apresenta 321 correspondências, redigidas entre 1662 e 1673, distribuídas em duas seções. Previsto para dezembro, o terceiro volume tem 305 epístolas, escritas entre 1674 e 1697, dividido em cinco seções. Pouquíssimas cartas surgiram depois dessa organização, feita entre 1925 e 1928. Os três volumes são considerados a compilação mais sólida das cartas de Antônio Vieira.
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 Sobre o autor:

AZEVEDO, JOAO LUCIO DE
João Lúcio de Azevedo nasce em 1855 em Portugal e morre em 1933. Aos 18 anos, embarca para Belém do Pará, onde torna-se caixeiro de uma grande livraria, da qual viria a ser chefe ao casar-se com a filha do proprietário. Autodidata, aprende várias línguas e começa a escrever suas obras. Ainda no Pará, publica cinco artigos que, reunidos, formariam seu primeiro livro Estudos de História Paraense. Depois de morar alguns anos em Paris, volta a Portugal iniciando o período mais produtivo, publicando diversas obras importantes, como O Marques de Pombal e a sua época, História de Antônio Vieira, A evolução do sebastianismo e História dos cristãos-novos portugueses. Organiza ainda a melhor edição das cartas do Padre Antônio Vieira. Um dos maiores historiadores portugueses do início do século XX, é editado regularmente em Portugal até hoje. Amigo dos historiadores brasileiros Capistrano de Abreu e Oliveira Lima, dedicou-lhes seu livro Épocas de Portugal Econômico. 
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Carta aos amigos - Gabriel Garcia Márquez


(foto de JP)

Carta aos amigos

"Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse um fragmento de vida, possivelmente não diria tudo o que penso mas em definitivo pensaria tudo o que digo. Daria valor as coisas, não pelo que valem, senão pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais se detêm, despertaria quando os demais dormem. Escutaria quando os demais falam, e como desfrutaria um bom sorvete de chocolate! Se Deus me obsequiasse um fragmento de vida, vestiria simples, me atiraria de bruços ao sol, deixando des- coberto, não somente meu corpo senão minha alma. Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo, esperaria que saísse o sol. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que lhes ofereceria à lua. Regaria com minhas lágrimas as rosas, para sentir a dor de seus espinhos, e o encarnado beijo de suas pétalas... Deus meu, se eu tivesse um fragmento de vida... Não deixaria passar um só dia sem dizer as pessoas que quero, que as quero. Convenceria a cada mulher ou homem de que são meus favoritos e viveria enamorado do amor. Aos homens lhes provaria quão equivocados estão ao pensar que deixam de enamorar-se quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de enamorar-se! A criança lhe daria asas, porém lhe deixaria que sozinho aprendesse a voar. Aos velhos lhes ensinaria que a morte não chega com a velhice senão com o esquecimento. Tantas coisas tenho aprendido de vocês, os homens... Tenho aprendido que todo o mundo quer viver no topo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Tenho aprendido que quando um recém nascido aperta com seu pequeno punho, pela primeira vez, o dedo do pai, o tem apanhado para sempre. Tenho aprendido que um homem só tem o direito de olhar a outro com o olhar baixo quando há de ajudar-lhe a levantar-se. São tantas coisas as que tenho podido aprender de vocês, porém real- mente de muito não haverão de servir, porque quando me guardarem dentro dessa mala, infelizmente estarei morrendo"
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(Gabriel Garcia Márquez)

sábado, 29 de agosto de 2009

De expugnatione Lyxbonensi (Da captura de Lisboa) -


De expugnatione Lyxbonensi

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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De expugnatione Lyxbonensi (em português Da captura de Lisboa) é o nome pelo qual é conhecida uma carta em latim escrita por um cruzado que participou do cerco e conquista de Lisboa em 1147, durante a Segunda Cruzada. A tomada de Lisboa aos mouros foi realizada por uma força conjunta de cruzados oriundos do norte da Europa e portugueses sob comando do rei Afonso Henriques. A carta descreve com riqueza de detalhes as negociações políticas entre o rei e os cruzados estrangeiros, assim como as ações militares que levaram à conquista de Lisboa, sendo a principal fonte histórica da conquista da cidade.

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Índice

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Autoria

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A carta começa com uma fórmula abreviada de saudação: Osb. de Baldr. R. salutem. As ambiguidades do latim medieval fazem com que seja difícil saber quem foi o autor e quem o destinatário. Tradicionalmente a carta é atribuída a Osb. de Baldr. e é dirigida a R.; porém também é possível que tenha sido escrita por R. e dirigida a Osb.. Este Osb. é Osberno (ou Osberto) de Bawdsey (Suffolk). R. é identificado por alguns como um presbítero inglês chamado Raul.

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Seja quem for o autor, o importante é que era um cruzado de formação religiosa (um clérigo ou presbítero) oriundo da Inglaterra ou da Normandia, e que foi testemunha ocular dos acontecimentos da tomada de Lisboa aos mouros em 1147. A qualidade do latim empregado por ele e as características do texto indicam que era um homem culto.

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Texto

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Na carta, o autor descreve a conquista desde as fases preparatórias até o período imediatamente posterior à tomada da cidade. Os cruzados, oriundos principalmente da Inglaterra, Gales, Normandia, Condado da Flandres, norte da França e Renânia (Alemanha), a caminho da Terra Santa, aportam na cidade do Porto, no norte de Portugal, em junho de 1147. Os cruzados são recebidos pelo bispo do Porto, Pedro Pitões, enviado do rei Afonso Henriques, que tenta convencê-los em ajudar os portugueses na conquista de Lisboa.

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O próprio rei português se encontra com os cruzados nos arredores de Lisboa e faz um discurso para convencê-los de participar na conquista da cidade. Também o condestável inglês, Hervey de Glanville, faz um discurso e termina de convencer as tropas. O autor da carta reproduz todos esses discursos, ainda que seja impossível saber com que grau de exatidão. As palavras do bispo e do rei apelam tanto ao espírito da cruzada contra os inimigos muçulmanos (a Reconquista era considerada parte das Cruzadas) quanto à promessa de botim da rica cidade de Lisboa. No acordo final o rei também se compromete a que os cruzados que assim desejassem se pudessem estabelecer em terras na região de Lisboa, onde estariam isentos de impostos. O arcebispo de Braga, João Peculiar, dirige um discurso aos lisboetas tentando convencê-los a que se rendam sem luta, mas estes se recusam. Este último discurso é muito interessante por explicitar claramente a justificação moral da Reconquista, ou seja, que os mouros haviam tomado injustamente as terras cristãs durante a invasão muçulmana da península Ibérica no século VIII.

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O longo cerco começa em julho de 1147. O autor descreve em detalhe vários momentos de tensão ocorridos nesse período entre os cruzados, causados especialmente pela rivalidade entre os anglo-normandos por um lado e os flamengos e alemães por outro. De maneira geral, o autor anglo-normando descreve de maneira favorável o comportamento dos seus compatriotas e denigra a dos flamengos e alemães. A relação com as tropas portuguesas também é tensa por vezes.

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De expugnatione Lyxbonensi também reproduz cartas dos mouros, traduzidas do árabe, interceptadas pelos sitiadores. Numa delas, enviada pelo rei mouro de Évora e destinada aos moradores de Lisboa, o rei eborense recusa-se a ajudá-los na luta contra os cristãos, com a desculpa de não quebrar um acordo de paz que havia feito com Afonso Henriques.

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Depois de muito esforço, os sitiadores conseguem derrubar parte dos muros da cidade e constroem uma máquina de cerco - uma torre dotada de ponte -, que debilita enormemente as defesas da cidade, levando finalmente os lisboetas a renderem-se aos cristãos. O acordo de rendição com os mouros é negociado por Fernão Cativo, por parte do rei, e Hervey de Glanville, um dos condestáveis dos anglo-normandos. Desacordos sobre o botim geram mais tensão e mesmo violência entre os cristãos, sendo necessárias novas negociações para acordar a divisão das riquezas da cidade.

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Finalmente, no dia 25 de outubro, a cidade é adentrada pelos cruzados. Apesar de que Afonso Henriques ordenou que os habitantes fossem bem tratados, o autor do texto informa que as tropas flamengas e alemãs massacraram a muitos habitantes da cidade sem razão, matando inclusive o bispo moçárabe da Lisboa muçulmana, enquanto que os anglo-normandos comportaram-se com mesura, respeitando os acordos. Já espoliada de seus pertences de valor, a população moura é obrigada a abandonar Lisboa.

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Na parte final a carta descreve entre outras coisas a restauração da diocese de Lisboa e a eleição do seu primeiro bispo, o também cruzado Gilberto de Hastings. Também faz referência ao abandono pelos mouros do Castelo de Sintra e do Castelo de Palmela após a conquista de Lisboa.

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Manuscrito

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O manuscrito latino da carta conserva-se atualmente no Corpus Christi College da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Várias traduções tanto ao português como ao inglês foram publicadas.

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Ver também

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Referências e ligações externas

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