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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Stalin e o discurso de Churchill sobre a Cortina de Ferro



Iosif Stalin, entrevista sobre o discurso de Churchill sobre a Cortina de Ferro. 14 de março de 1946.

Nesta entrevista encenada para um jornal, Stalin respondeu ao discurso de Winston Churchill em Fulton, "Os Nervos da Paz", com a advertência de que uma "cortina de ferro" havia descido sobre a Europa. Ocorrendo logo após o discurso de Stalin sobre a eleição de 9 de fevereiro e pouco antes do "Longo Telegrama" de George F. Kennan, a troca de mensagens ajudou a definir o vocabulário inicial da Guerra Fria. Stalin retratou Churchill como um belicista que promovia um bloco anglófono, defendeu a predominância soviética na Europa Oriental como uma necessidade de segurança baseada no sacrifício em tempos de guerra e insistiu que a política soviética era pacífica, enquanto a "resistência" ocidental era provocativa.

Fonte original: Pravda, 14 de março de 1946.

P: Qual a sua avaliação do recente discurso do Sr. Churchill nos Estados Unidos da América?

A. Considero isso um ato perigoso, calculado para semear a discórdia entre os estados aliados e dificultar sua colaboração.

P: Pode-se considerar que o discurso do Sr. Churchill causou prejuízo à causa da paz e da segurança?

A. Certamente. A essência da questão é que o Sr. Churchill agora assume a posição de um belicista. E o Sr. Churchill não está sozinho nisso; ele tem amigos não só na Inglaterra, mas também nos Estados Unidos da América.

É importante notar que Churchill e seus aliados lembram muito, nesse aspecto, Hitler e seus aliados. Hitler iniciou a tarefa de desencadear a guerra proclamando a teoria racial, declarando que apenas os povos que falavam alemão constituíam uma nação plena. Churchill também iniciou a tarefa de desencadear a guerra com uma teoria racial, afirmando que apenas as nações que falam inglês são nações plenas, destinadas a governar os destinos do mundo inteiro. A teoria racial alemã levou Hitler e seus aliados ao ponto de que os alemães, como a única nação plena, deveriam dominar as demais nações. A teoria racial inglesa leva Churchill e seus aliados à conclusão de que as nações de língua inglesa, como as únicas nações plenas, deveriam dominar o resto das nações do mundo.

Em essência, o Sr. Churchill e seus amigos na Inglaterra e nos EUA apresentaram às nações não anglófonas algo como um ultimato: reconheçam voluntariamente nossa dominância e então tudo estará em ordem; caso contrário, a guerra é inevitável.

Mas as nações derramaram seu sangue ao longo de cinco anos de guerra cruel pela liberdade e independência de seus países, e não para trocar o domínio de Hitler pelo domínio de Churchill. É totalmente provável, portanto, que as nações não anglófonas, que incluem a grande maioria da população mundial, não concordem em aceitar uma nova escravidão.

A tragédia do Sr. Churchill é que ele, como um conservador inveterado, não entende essa verdade simples e óbvia.

Não há dúvida de que a postura do Sr. Churchill é uma postura de guerra, um apelo à guerra com a URSS...

P: Como o senhor avalia a parte do discurso do Sr. Churchill em que ele ataca a ordem democrática nos estados europeus que são nossos vizinhos e em que critica as relações de boa vizinhança que foram estabelecidas entre essas nações e a União Soviética?

A. Esta parte do discurso do Sr. Churchill é uma mistura de elementos de difamação, grosseria e falta de tato.

O Sr. Churchill declara que "Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste, Sófia – todas essas cidades famosas e as populações da região circundante estão na esfera soviética e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não só à influência soviética, mas também, em grande medida, ao crescente controle de Moscou". O Sr. Churchill caracteriza tudo isso como as ilimitadas "tendências expansionistas" da União Soviética.

Não é preciso muito esforço para demonstrar que aqui o Sr. Churchill difama de forma grosseira e impudente tanto Moscou quanto os estados vizinhos da URSS mencionados anteriormente.

Em primeiro lugar, é completamente absurdo falar de controle exclusivo da URSS em Viena e Berlim, onde existem Conselhos de Controle Aliados compostos por representantes de quatro estados e onde a URSS detém apenas um quarto dos votos...

Em segundo lugar, não se deve esquecer as seguintes circunstâncias. Os alemães lançaram a invasão da URSS através da Finlândia, Polônia, Romênia, Bulgária e Hungria. Os alemães conseguiram lançar a invasão por esses países porque neles existiam governos, na época, hostis à URSS. Como resultado da invasão alemã, a União Soviética perdeu cerca de sete milhões de pessoas para sempre em combate contra os alemães e, também devido à ocupação alemã, no exílio forçado de cidadãos soviéticos para trabalhos forçados na Alemanha. Escusado será dizer que a União Soviética perdeu várias vezes mais pessoas do que a Inglaterra e os Estados Unidos da América juntos. Possivelmente, existe uma inclinação em alguns lugares para relegar ao esquecimento esses sacrifícios colossais do povo soviético, que garantiram a libertação da Europa do jugo de Hitler. Mas a União Soviética não pode esquecê-los. Pode-se perguntar o que há de surpreendente no fato de a União Soviética querer segurança no futuro, em suas tentativas de garantir que nesses países existam governos que mantenham relações leais com a União Soviética? Será possível, sem perder o juízo, caracterizar esses esforços pacíficos da União Soviética como tendências expansionistas do nosso Estado?

O Sr. Churchill declara ainda que "os partidos comunistas, que eram insignificantes em todos esses estados do Leste Europeu, ganharam poder exclusivo..."

Como se sabe, a Inglaterra é agora governada por um governo de partido único, o Partido Trabalhista, que impede os demais partidos de participarem do governo inglês. Churchill chama isso de democratismo autêntico. Polônia, Romênia, Iugoslávia, Bulgária e Hungria são governadas por um bloco de vários partidos — de quatro a seis — que garante à oposição, se mais ou menos leal, o direito de participar do governo. Churchill chama isso de totalitarismo, tirania, estado policial...

O Sr. Churchill quer que a Polônia seja governada por Sosnkowski e Anders, a Iugoslávia por Mikhailovich e Pavelich, a Romênia pelo Príncipe Stirbey e Radescu (todos não comunistas; Pavelich era um nazista croata), a Hungria e a Áustria por algum rei da Casa de Habsburgo, e assim por diante. O Sr. Churchill quer nos assegurar que esses senhores dos esconderijos fascistas podem garantir o "democratismo pleno". Esse é o "democratismo" do Sr. Churchill.

O Sr. Churchill se aproxima da verdade quando fala do crescimento da influência dos Partidos Comunistas na Europa Oriental. Deve-se notar, porém, que ele não é totalmente preciso. A influência dos Partidos Comunistas está crescendo não apenas na Europa Oriental, mas em quase todos os países europeus onde o fascismo já predominou (Itália, Alemanha, Hungria, Bulgária, Romênia, Finlândia) ou onde houve ocupação alemã ou italiana (França, Bélgica, Holanda, Noruega, Dinamarca, Polônia, Tchecoslováquia, Iugoslávia, Grécia, União Soviética, etc.).

O crescimento da influência dos Partidos Comunistas não pode ser considerado acidental. É um fenômeno completamente regular. A influência dos Partidos Comunistas está crescendo porque, nos piores anos da dominação fascista na Europa, os comunistas se mostraram lutadores confiáveis, corajosos e abnegados contra o regime fascista, pela liberdade do povo...

Essas são as leis do desenvolvimento histórico.

É claro que o Sr. Churchill não gosta desse desenrolar dos acontecimentos e, freneticamente, soa o alarme, o chamado às armas... Não sei se o Sr. Churchill e seus amigos conseguirão, após a Segunda Guerra Mundial, organizar uma nova campanha militar contra a "Europa Oriental". Mas, se conseguirem, o que é improvável, visto que milhões de "pessoas comuns" se mantêm vigilantes em defesa da paz, então pode-se afirmar com certeza que serão derrotados, como foram derrotados no passado, há vinte e seis anos.

Fonte: Robert H. McNeal, ed., Lenin. Stalin. Khrushchev. Voices of Bolshevism (Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1963), pp. 120-123.

https://soviethistory.msu.edu/1947/cold-war/cold-war-texts/stalin-on-churchills-iron-curtain-speech/

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Discurso num encontro de trabalhadores ferroviários… em 1927



8 DE FEVEREIRO DE 2024

* Estaline

Discurso num encontro de trabalhadores ferroviários… em 1927

 Um amigo enviou-me um texto, que vale a pena divulgar pelas suas características: clareza, rigor, perspetiva histórica sem a qual a consciência de classe dificilmente é assimilada: passado, presente e futuro vistos como um processo esclarecido pelo marxismo. É isso que encontramos em Marx, Lenine, etc., que encontramos exemplarmente nos textos de Álvaro Cunhal.

A reconstrução da soviética após “guerra civil” – era uma prioridade absoluta. Deste contexto fazia parte o desenvolvimento ferroviário, então – mesmo hoje… - uma tecnologia avançada. Num país sem capitalistas, o papel dos trabalhadores, era a base de tudo o resto.

Em nenhum outro lugar do mundo aconteceu que um enorme país agrário atrasado se tenha tornado um país industrial sem roubar colónias, sem roubar países estrangeiros ou sem grandes empréstimos e créditos de longo prazo do exterior.

Olhe-se para a história do desenvolvimento industrial da Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, e irá entender-se que é exatamente esse o caso [roubaram colónias, roubaram países estrangeiros e pegaram grandes empréstimos e créditos de longo prazo do exterior].

Mesmo os EUA, o mais poderoso de todos os países capitalistas [capital erguido através da espoliação e genocídio dos nativos e da escravização de milhões de africanos], foram forçados após a Guerra Civil Americana, durante 30 a 40 anos, a abastecer a sua indústria com empréstimos e créditos de longo prazo do exterior e a saquear os Estados e ilhas adjacentes.

Podemos seguir esse caminho "experimentado e testado"? Não, não podemos, porque a natureza do poder soviético não tolera roubos coloniais, e não há razão para contar com grandes empréstimos e créditos de longo prazo. A velha Rússia, a Rússia czarista, caminhava para a industrialização de outra forma: contraindo empréstimos esclavagistas e concedendo concessões onerosas nos principais ramos de nossa indústria.

Quase todo o Donbass, mais da metade da indústria de São Petersburgo, o petróleo de Baku e uma série de ferrovias, para não mencionar a indústria de eletricidade, estavam nas mãos de capitalistas estrangeiros. Era o caminho da industrialização às custas dos povos e contra os interesses da classe trabalhadora.

É claro que não podemos seguir este caminho: não lutámos em vão contra o jugo do capitalismo, não derrubamos o capitalismo para voluntariamente irmos para o jugo do capitalismo. Só resta um caminho, o caminho das nossas próprias poupanças, o caminho da economia socialista, o caminho da gestão prudente para acumular os fundos necessários para a industrialização do nosso país. Não há outras palavras: esta tarefa é difícil.

Mas, apesar das dificuldades, já estamos resolvendo. Sim, camaradas, quatro anos depois da guerra civil, já estamos resolvendo esse problema. Essa é a questão, camaradas, e essas são as nossas principais conquistas. Conseguimos lançar as bases de uma nova indústria com base nas nossas próprias poupanças. Desta forma, conseguimos erguer um edifício grandioso de nova indústria socialista graças ao nosso trabalho. Essa é a nossa principal conquista, camaradas.

Diz-se que este edifício grandioso tem algumas falhas, que algures ao virar da esquina o lixo ainda não foi varrido, etc. Tudo isso é verdade. Mas a construção grandiosa de uma nova indústria está sendo erguida ou não? Sim, está sendo construída.

Este edifício está a ser construído apenas à custa do nosso trabalho ou não? Sim, à custa do nosso esforço. Não está claro que em termos de construção económica, em termos de industrialização, já estamos atingindo o nível principal e fundamental? Essa é a base das nossas conquistas.

Alguns dos camaradas estão inclinados a atribuir estes sucessos apenas ao nosso Partido. Isso, aliás, explica por que alguns companheiros elogiam o nosso Partido sem medida. Alguns dos comunistas não são avessos a vangloriar-se e a ser vaidosos, um pecado que infelizmente ainda existe.

É claro que a política basicamente correta do nosso Partido desempenhou o papel mais importante na consecução desses êxitos. Mas a política do nosso Partido não valeria um centavo se não tivesse o apoio real das massas de trabalhadores sem partido.

É isso que torna o nosso Partido de facto forte, porque tem o apoio das massas trabalhadoras não partidárias. Isso não pode ser esquecido, camaradas".

Fonte: Coordenação dos Núcleos Comunistas (Espanha) DISCURSO EN UNA REUNIÓN DE TRABAJADORES DEL FERROCARRIL. 1 de marzo de 1927, Pravda No. 51.

domingo, 18 de dezembro de 2022

Jorge Figueiredo - A Biblioteca de Estaline, por Geoffrey Roberts

* Jorge Figueiredo

Stalin's Library foi escrito por um professor de história irlandês da Universidade de Cork, Geoffrey Roberts. Trata-se de um homem de formação conservadora que julgou conveniente acrescentar-lhe um subtítulo: “A Dictator and his books”. A sua ambição é fazer uma biografia (intelectual) daquele dirigente soviético através dos livros por ele lidos. A abordagem é pelo menos original e o autor tem credenciais como perito em história soviética. Anteriormente publicara uma biografia do general Jukov (Stalin's General) e uma obra com mais fôlego: Stalin's Wars: From World War do Cold War.

Os viéses da sua abordagem são evidentes logo na primeira linha da introdução, em que classifica Estaline como “um dos mais sangrentos ditadores da história” (sic). A afirmação é factualmente errada pois houve muitos outros chefes de Estado que o superaram. Poderia ter-se referido a Churchill, por exemplo, que foi responsável por muitíssimo mais mortes do que Estaline; ou pelo rei dos belgas que com a tecnologia do século XIX conseguiu matar mais de dois milhões de habitantes do Congo; ou por Napoleão Bonaparte que dizimou exércitos inteiros. E isso sem remontar à história mais antiga como os massacres de Gengis Khan (século XIII) e de Tamerlão (ou Timur) no século XV (diga-se de passagem que hoje Timur é considerado o herói nacional do Uzbequistão, com direito a uma enorme estátua na praça principal de Tashkent e a um mausoléu em Samarcanda).

Naturalmente, nos meios em que se move autor, diabolizar Estaline é obrigatório pois dá garantias de “respeitabilidade académica” & carreira. Entretanto, abstraindo esse parti pris, merece exame o aspecto principal da sua investigação. O autor teve acesso a muita documentação e entrevistou numerosas pessoas em Moscovo, beneficiando-se de trabalhos anteriores já feitos. A sua estimativa é de que a biblioteca de Estaline continha ao todo cerca de 25 mil livros. Note-se que “biblioteca” neste caso é mais um conceito do que uma realidade física pois estava espalhada por vários locais.

Um dos pontos com interesse é que grande parte dos seus livros continham anotações (pometki, em russo) do próprio Estaline, o que é uma indicação espontânea dos seus graus de interesse nas obras que lia. Elas podiam ser simples sublinhados, sinais de exclamação, de riso (“ah, ah”), de desprezo (“tagarelice”, “absurdo”, “lixo”, “asqueroso”, “patife”), efusivas (“sim, sim”, “concordo”, “bom”, “acertou em cheio”, “certo”), dubitativas (“m da”, que numa tradução livre poderia ser “realmente?”, “tem certeza?) ou organizativas (numeração de tópicos). Uma anotação frequente era o “NB”, do latim nota bene (atenção), mas muitas vezes havia frases inteiras com juízos mais elaborados. Verificava-se também que a leitura de certas obras foi abandonada, talvez com menosprezo, pois as anotações foram só nas primeiras páginas e nas conclusões.

A parte principal da biblioteca ficava na casa de campo (dacha) de Estaline próxima do Kremlin, a 10 minutos de viagem. Durante a II Guerra, quando a tropa nazi se aproximava de Moscovo, toda a biblioteca foi encaixotada e despachada para Samara (a 1000 km) – mas o próprio Estaline permaneceu o tempo todo em Moscovo. Após a sua morte o PCUS considerou transformar aquela dacha num museu dedicado a Estaline, mas a ideia foi posteriormente vetada por Krushov. Em consequência, e lamentavelmente, a biblioteca foi parcialmente dispersa por vários organismos estatais.

Estaline era um leitor voraz e, como diz Roberts, “raramente lia para confirmar o que já sabia ou acreditava. Ele lia para aprender algo novo”. A gama dos seus interesses era vasta. Além dos clássicos do marxismo, tinha especial interesse por história russa e de outros países, história e estratégia militar, biografias, memórias, diplomacia, filosofia, economia política, finanças, agricultura, indústria, a questão nacional, estatísticas, etc. A pedido da sua bibliotecária chegou a fazer um sistema de classificação/arrumação da sua biblioteca, com cerca de 30 tópicos (p. 66 do livro).

Ele também lia cuidadosamente o que escreviam os seus inimigos: as obras de Trotsky constavam na sua biblioteca. Os três volumes da auto-biografia de Bismarck, o grande mestre da realpolitik, foram por ele lidos e anotados minuciosamente. As quatro obras de Genrik Leer, estratega do século XIX considerado como o Clausewitz russo, foi por ele estudado. Mas o seu teórico de estratégia favorito parece ter sido Boris Shaposhnikov, um antigo oficial czarista que aderiu ao Exército Vermelho em 1918. O que mais apreciava em Shaposhnikov era a combinação da grande estratégia com pormenores organizacionais críticos. Por outro lado, Estaline tinha consciência das suas limitações pois chegou a pedir a um professor de filosofia especialista em Hegel que lhe desse explicações acerca da dialética hegeliana (fica-se a pensar se algum dos nossos governantes contemporâneos se atreveria a uma tal proeza).

No campo da literatura propriamente dita, Estaline também lia por prazer. Tinha um vasto conhecimento da literatura clássica russa (Gogol, Pushkin, Dostoievsky, Turgeniev, ...) e estrangeira: Shakespeare, Heine, Balzac, V.Hugo, Guy de Maupassant e outros escritores da Europa ocidental. Entretanto, não apreciava o vanguardismo pois considerava-o como pouco acessível à massa dos leitores. O romance A Mãe, de Gorki, estava todo anotado por Estaline, mas o que realmente o excitou foi a frase de um personagem, ex-camponês tornado operário:   “Ajude-me! Deixe-me ter livros – livros que quando um homem os ler já não seja capaz de descansar. Que coloquem um ouriço espinhento nos seus cérebros. Diga às pessoa da cidade que escrevem para escreverem também para os aldeões. Que escrevam uma verdade tão candente que faça ferver a aldeia, que o povo até corra para a morte” (p. 94).

Estaline considerava que se podia aprender de reacionários e que não se deveria confundir um escritor com a sua obra artística. Deu como exemplo o Almas mortas, romance de Gogol cujo título refere-se aos servos da sociedade czarista:   “Gogol foi sem dúvida um reacionário. Ele era um místico. Era contra a abolição da servidão... Mas... a verdade artística das Almas mortas de Gogol teve um enorme impacto sobre várias gerações da intelligentzia revolucionária... As visões de mundo dos escritores não deveriam ser confundidas com o impacto das suas obras sobre os leitores” (p. 179). Esta visão nuançada é plasmada na sua tese acerca da autonomia relativa da super-estrutura social em relação à sua base económica – uma contribuição positiva para a filosofia marxista, pois demarca-a do determinismo económico bruto.

Um capítulo do livro de Roberts é dedicado ao papel de Estaline como editor. Ele editava textos com clareza e precisão. Muitas obras escritas por comissões de especialistas na verdade foram tão fortemente editadas por ele que poderia ser considerado como co-autor das mesmas. É o caso da Breve história do Partido Comunista da União Soviética (1938), o volume dois da História diplomática (1941); a 2ª edição da sua breve biografia (1947); o folheto Falsificadores da história (1948) e o manual soviético Economia política (1954). Se fosse preciso resumir, os seus critérios de edição talvez pudessem ser:   1) Manter as coisas tão simples quanto possível; 2) Evitar palavras desnecessárias num manual didático; 3) Ter em atenção o público-alvo a que se destina a obra; 4) Concentrar-se no assunto tratado; 5) Considerar que são as ideias que importam, não os indivíduos – ideias num contexto teórico.


Em resumo: Mesmo com os preconceitos deste sovietólogo irlandês, Stalin's Library é um livro que se pode ler com interesse e proveito. Apesar da vontade permanente de denegrir a figura de Estaline, não se pode deixar de observar que Roberts tem um fascínio pelo objeto do seu estudo. Transparece no livro que a bagagem de leitura ciclópica de Estaline, a seriedade com que estudava os assuntos e a sua capacidade de trabalho gigantesca em tantas e tão diversas frentes do conhecimento humano suscitaram a sua admiração.

18/Dezembro/2022

Esta resenha encontra-se em resistir.info

18/Dez/22

https://resistir.info/jf/resenha_bibl_est.html

domingo, 7 de março de 2021

Filipe Chinita - Stalin

* Filipe Chinita


stalin
ou
de sobre
o movimento.comunista
1.
quer queiramos
quer não
- como tantos
outros -
staline
foi também
um dos nossos
2.
e
não
um... qualquer
3.
ainda que
- nenhum!
nem um
só!
é
um...
qualquer -
4.
e
todos... eles!
fazem parte da (nossa) história.
por muito que alguns
sempre os queiram
apagar de nós
e da própria
vida
.
fj
13.38
06.03.2021
5.
eu
penso e sinto
- porque nada está resolvido
ao contrário do que
me dizem -
que é absolutamente necessário
que nos punhamos de acordo
quanto ao (seu)
real.concreto
papel
.
quanto
ao PCUS
.
para
a construção
do socialismo na URSS
.
para
a determinante vitória
na 2ª grande guerra mundial
.
e
para
a força.afirmação.e queda
do movimento comunista
internacional
6.
porque
sem se porem/nos pormos
de acordo
sobre
ele
e
sobre esta questão central
- que
até estar plenamente resolvida
(sempre!) nos diminui.rá
aos olhos de
todos -
nunca mais! o movimento
internacional.comunista
medrará
com
a força
a verdade
a determinação e a pujança
que tanta falta
lhe (e nos)
faz
7.
para
podermos
voltar a ser a vanguarda
revolucionária
(não
de um só.país)
mas do inteiro
mundo
___________________________________________
8.
diga-se...
que eu me considero marxista-leninista
fundamentalmente na forma
dialéctica e histórica
de pensar e agir
individual e
colectiva.
mente
sobre
tudo
sobre
todas as cousas
da vida e da morte
9.
diga-se... ainda
que tenho imensas dúvidas
que não tenha sido stalin
quem pela primeira vez
usou
as
expressões
'marxista-leninista'
e 'marxismo-leninismo'
das quais quasi.todos
hoje nos ar.rogamos
ser
dando-lhe depois inteiro uso
em todos os seus discursos
10.
sim
porque decerto
não foi marx
que se disse marxista
nem lénine
que se disse leninista
nem trostky
que se disse trokstista
nem stáline... stalinista
nem mao... maoísta
nem ho... hochimista
nem fidel... fidelista
nem che... guevarista
nem álvaro... cunhalista
e assim por diante
11.
e eu...
pensando
por tudo... o que eles
nos deixaram escrito e aprendido
penso sempre - dialecticamente -
pela minha própria.cabeça
com tudo o que deles...
aprendi
13.
e
como
mas como?!
com tal craveira de homens!
de pensamento e acção na sua história
espalhados... por todo o planeta terra
pode estar tão tristonho.tão 'mal visto'
tão 'mal.dito' e quasi.'moribundo'...
o ideal comunista
pelo inteiro
mundo
14.
quando
nenhum outro ideal
maior.mais nobre
e mais belo
pode um
humano
humano
ter
_______________________________________________
15.
eu quero! é unidade
- no pensamento
e na acção -
e
não
divisão
16.
porque foi sempre! a divisão
(esse mal-estar - interno...)
que (sempre) nos matou
a nós.próprios
17.
e
sem
resolvermos
isso...
nunca!
poderemos
ir além
.
18.
ao
além...
concreto e real
que desde sempre! nos acometemos:
o comunismo.no inteiro.planeta.terra
.
fj
15.02
07.03.2021
19.
por vezes
mais parece
que a contínua discórdia e divisão
nos está na 'massa do sangue'...
20.
e isso... claro! deixa-nos sempre!
mui mal vistos... aos olhos
de quem de fora
nos observa...
21.
esperando
connosco
poder
seguir
22.
avançando...!
unidos.de contínuos.colectivos
entrelaçados.braços
dados
23.
até
à vitória.final
24.
em que
o comunismo
seja enfim! a juventude
de um.mesmo.outro
mundo
25.
e humano!

Filipe enviou a mensagem: Ontem às 16:52

sábado, 7 de novembro de 2015

Indicação Bibliográfica: a Revolução Russa e a luta pelo socialismo

7 de novembro de 2015 - 8h21 


Esta bibliografia apresenta um conjunto de opiniões, comunistas e não comunistas, sobre a história do socialismo. Está voltada basicamente para a URSS, primeira e mais importante experiência socialista do século 20, que apresenta ao estudioso um conjunto maior de problemas.


Por José Carlos Ruy




Trata-se de uma lista inicial, aproximativa, com enormes falhas. Indica algumas obras básicas disponíveis em livrarias ou em boas bibliotecas. Não compartilho o preconceito acadêmico de que a quantidade de livros consultados aumenta o esclarecimento de qualquer questão. Entretanto, nas obras abaixo relacionadas, o interessado poderá “cascalhar” os fatos e as interpretações para poder, com eles, moldar sua compreensão sobre o assunto.


Algumas obras gerais, consagradas, têm destaque nesta bibliografia. Entre elas, as histórias da URSS e do Partido Comunista (Bolchevique) da URSS (textos 1 e 31), as obras de Charles Bettelheim (textos 18 a 21), de Trotsky (texto n139) e de Eric Hobsbawm (texto 63).


A natureza oficial dos textos 1 e 31 torna-os instrumentos da luta política pela consolidação do socialismo na URSS. Eles são esclarecedores sobre os rumos tomados pelos vitoriosos. São assim documentos históricos fundamentais. Sua natureza oficial contudo torna estes textos pouco úteis como instrumento de informação histórica isenta.


Charles Bettelheim, por sua vez, é considerado – juntamente com Carr e Isaac Deutscher – um dos principais historiadores acadêmicos da URSS. Sua obra, fartamente documentada, foi construída ao longo de quarenta anos de pesquisas em arquivos soviéticos e estrangeiros. Marxista, opõe-se à ortodoxia soviética recusando as avaliações comuns que colocam a figura de Stalin no centro da evolução da primeira experiência socialista da humanidade e posicionam-se contrariamente ou favoravelmente àquele dirigente soviético. Contra avaliações desta espécie, Bettelheim preconiza o estudo das condições históricas da construção do socialismo, como única forma de esclarecimento dos rumos daquela experiência. Ele defende teses controversas, entre elas a de que a revolução bolchevique teria sido, na verdade, uma revolução capitalista, inaugurando um padrão de acumulação e desenvolvimento diferente do padrão clássico, europeu e americano.


Edward H. Carr talvez seja o autor do mais vasto empreendimento historiográfico sobre a revolução russa e a construção do socialismo na URSS. Fiel ao empirismo tradicional dos historiadores ingleses, ele – que foi funcionário do Foreign Office em 1916 e professor do Trinity College de Cambridge desde 1955 – elaborou um extenso e ricamente documentado relato factual da revolução russa, cujo primeiro volume foi publicado na Inglaterra em 1950. Foi muito amigo de outro historiador inglês, Isaac Deutscher, sendo influenciado por suas ideias trotskistas.


O livro de Trotsky – como outros escritos seus anos de exílio, depois de 1928 – centra-se na polêmica contra a direção soviética e os rumos que ela passou a imprimir à construção do socialismo. Neste sentido, tem o caráter de contraponto à história oficial, sendo também – por sua vez – a história “oficial” não só para os trotskistas, mas também de muitos opositores (socialistas ou burgueses) do stalinismo.


Finalmente, a História do Marxismo, organizada e dirigida por Eric Hobsbawm, merece uma referência aqui. Trata-se de um painel dos principais temas do marxismo e do debate sobre a construção do socialismo desde Marx e Engels até nosso tempo. Embora extremamente valiosa, esta obra tem dois problemas. Em primeiro lugar, abriu espaço a autores não marxistas, que escreveram alguns dos ensaios. Depois, a obra foi escrita sob hegemonia de autores eurocomunistas. Apesar destas limitações, tem ensaios úteis.


Esta indicação bibliográfica foi organizada (faz mais de vinte anos) por blocos temáticos. Ela não é – nem poderia ser – exaustiva, mas apenas uma indicação introdutória para o estudo do socialismo e da Revolução Russa de 1917. Para facilitar a consulta, ao final de cada bloco estão indicados os números dos textos correspondentes.


1. O debate da revolução Russa


A Rússia czarista era a mais atrasada das potências europeias. Ali, o peso do passado feudal ainda muito recente era grande, e o país permanecia dominado por uma monarquia absolutista. Sua classe operária se contava aos milhões, mas a base da população era camponesa, meio em que predominavam o analfabetismo e o preconceito religioso.


Para os bolcheviques, sua revolução seria o estopim para a revolução europeia, encarada como necessária para viabilizar a construção do socialismo. Mas a revolução europeia, que se esboçou na Alemanha, Áustria e Hungria, foi derrotada, e os bolcheviques tiveram de enfrentar a tarefa de construir o socialismo em uma nação muito atrasada. Outras questões também se colocaram. Rompendo com a posição ortodoxa da II Internacional, de que a etapa intermediária entre a Revolução Burguesa e a Revolução Proletária é necessariamente longa, Lênin mostrou que – ao contrário – na revolução russa essas etapas eram complementares, e que a revolução proletária é consequência da revolução democrático-burguesa.


Lênin também compreendia que, no quadro do atraso russo, o caráter da revolução era necessariamente contraditório, ao mesmo tempo proletário e democrático-burguês: a aliança operário-camponesa exprime esse caráter, uma vez que, no campo russo, segundo Lênin, a revolução não era ainda socialista, mas burguesa.


A questão da ditadura do proletariado e seu alcance, um tema que abrange desde as críticas da socialdemocracia contra o fechamento da Assembleia Constituinte e o rompimento da legalidade burguesa, o debate daquilo que alguns consideravam “excessos revolucionários”, até a posição trotskista, em 1920, de militarizar os sindicatos e o trabalho nas fábricas (textos: 1, 18, 22, 24a, 24d, 25, 31, 39, 48, 56, 57, 62, 73, 75, 76, 77, 83, 84a, 84b, 84c, 84d, 84e, 84j, 86, 92, 93, 102, 105, 112, 115, 129, 139, 141, 143, 149)


2. O debate da revolução nos países atrasados


De certa forma, este debate amplia, aprofunda e generaliza o tema do item 1, estendendo suas conclusões para a luta anticolonial.


Os textos aqui referidos dão apenas uma discreta introdução ao tema, pois a bibliografia existente é vasta (textos: 1, 2, 3, 13, 24c, 82, 86, 87, 115, 122)


3. Mencheviques versus bolcheviques, ou socialdemocracia versus revolução


Bolcheviques e mencheviques estiveram em campos opostos desde praticamente a fundação do partido socialdemocrático russo. Divergiam inicialmente sobre a natureza do partido e do vínculo entre ele e seus militantes; sobre a natureza das lutas operárias anteriores à revolução (para os mencheviques deviam ser lutas econômicas e os bolcheviques lutavam para transformá-las em luta política contra o czarismo e contra o capitalismo).


As divergências acentuaram-se quando o czarismo, depois da revolução de 1905, foi obrigado a aceitar a criação de um parlamento muito limitado e controlado pela monarquia. Para os mencheviques, era uma conquista democrática que devia ser mantida a todo custo. 


O rompimento entre as duas correntes ocorreu quando, com a Primeira Guerra Mundial, os mencheviques alinharam-se à orientação da socialdemocracia europeia, e apoiaram a burguesia russa no esforço bélico. Mais tarde, com a revolução de fevereiro, e a dualidade de poderes que se seguiu a ela (sovietes versus parlamento burguês), os mencheviques apoiaram o governo provisório burguês e se esforçaram para esvaziar o poder político dos sovietes (textos: 14, 26, 30, 49, 59, 75, 84i, 89, 94, 113, 117, 129, 130)


4. A revolução mundial e o socialismo num só país


A consciência do fracasso da revolução europeia levou a liderança soviética a formular a tese, logo no começo dos anos 1920, do socialismo num só país.


Além de ligar-se à discussão sobre a revolução russa (item 1), este debate apresentou alguns aspectos particulares.


Em primeiro lugar, um grupo de revolucionários, liderado por Trotsky, pensava que a decisão rompia com o compromisso internacionalista do socialismo e do marxismo, e a defesa da revolução permanente e do internacionalismo passou a ser uma das características do trotskismo.


Em segundo lugar a tese teve grande influência na Internacional Comunista e na condução da política exterior soviética. Os interesses da defesa nacional da URSS e da defesa da construção do socialismo naquele país passaram a guiar as decisões sobre o apoio (ou oposição) às iniciativas revolucionárias no exterior (textos: 1, 2, 3, 13, 21, 24c, 24e, 24h, 24i, 24n, 29, 31, 32, 51, 58, 81, 82, 87, 100, 109, 110, 114, 120, 123, 138, 149).


5. A internacional comunista


Concebida por Lênin para suceder à II Internacional, socialdemocrata, e levar adiante o programa revolucionário que ela havia abandonado, a III Internacional nasceu formalmente em março de 1919. Alguns críticos pensam que, desde os anos 1930 até sua desmobilização, em 1943, a Internacional Comunista foi mero instrumento de política exterior do Estado Soviético (textos: 2, 3, 21, 24c, 24h, 24i, 24n, 25, 29, 32, 56, 109, 110, 125, 126). 


6. A NEP


Adotada pelo X Congresso do Partido Comunista em março de 1921, a Novaia Ekonomitcheskaia Politika (Nova Política Econômica, ou NEP), eliminou o comunismo de guerra, substituiu a requisição forçada de produtos agrícolas por um imposto em espécie e, ao mesmo tempo, restabeleceu a economia monetária, o comércio interno e autorizou o funcionamento de pequenas empresas capitalistas. Encarada por Lênin como um recuo temporário para reorganizar a economia e facilitar, depois, a retomada do desenvolvimento socialista, a NEP durou até 1929 – toda a década de 1920, portanto. Sua crise, acelerada depois de 1927, suscitou forte debate a respeito da natureza e do ritmo da industrialização, da conveniência de manutenção de um setor de economia de mercado sob o socialismo, dos rumos a serem adotados no desenvolvimento agrícola, e da atitude perante os camponeses enriquecidos (a burguesia rural constituída pelos kulaks) (textos: 1, 15, 18, 19, 24b, 24f, 25, 30, 31, 44, 60, 84t, 124, 125, 126).


7. A luta pela planificação, pela industrialização e pela coletivização da terra


No final dos anos 1920 a liderança bolchevique estava dividida. Alguns pensavam que devia ser mantido um setor de economia de mercado ao lado de um setor socializado da economia. A industrialização devia ter um ritmo lento, voltada basicamente para a produção de bens de consumo, e a coletivização no campo devia conviver com fazendas mercantis particulares, cuja produção podia ser livremente comercializada depois de descontados os impostos.


Para outra corrente de dirigentes, a industrialização básica (com a implantação de indústrias de bens de produção) era a prioridade principal, à qual deviam subordinar-se as demais atividades econômicas. Paralelamente, a burguesia rural devia ser suprimida e a introdução de fazendas coletivas devia ser acelerada.


O primeiro plano quinquenal foi adotado em 1926. Mas o debate entre liberdade de mercado versus planificação centralizada só se tornou intenso a partir do segundo plano quinquenal, baseado na exigência de industrialização acelerada.


Muito rico, esse debate econômico é esclarecedor dos rumos que, nos anos seguintes, a sociedade soviética trilhou (textos: 1, 17, 18, 19, 21, 24b, 24f, 24j, 25, 30, 31, 33, 34, 60, 61, 119, 124, 125, 126 e 142).


8. O debate econômico da construção do socialismo


Outros temas aparecem no debate econômico entre os comunistas, além daqueles citados nos itens 6 e 7 (NEP, industrialização e coletivização do campo).


As possibilidades de sobrevivência do capitalismo, a crise de 1929, a necessidade de aumento da produtividade do trabalho (e, em consequência, a avaliação positiva do taylorismo), a natureza da lei do valor sob o socialismo, a permanência de relações mercantis na transição do capitalismo para o comunismo, a planificação da economia foram algumas das questões que aprofundaram o debate econômico (textos: 4, 5, 15, 18, 19, 20, 21, 24b, 24f, 24j, 24l, 25, 30, 34, 46, 108, 124, 126, 134).


9. A organização do trabalho e os sindicatos


Qual o papel dos sindicatos numa sociedade que constrói o socialismo? Para os bolcheviques, essa foi uma questão importante.


Alguns propuseram pura e simplesmente a militarização dos sindicatos e das fábricas; outros queriam a plena autonomia dos sindicatos e o controle operário das fábricas.


A introdução de incentivos materiais, de pagamento por produção, o sthakanovismo e o taylorismo (isto é, a mais desenvolvida forma de divisão do trabalho sob o capitalismo) causaram grandes debates (textos: 22, 23, 24l, 26, 45, 60, 85, 130)


10. O trotskismo e a oposição de “esquerda”


A oposição de esquerda, que se esboçou nos anos 1920, opôs-se à subordinação dos sovietes ao Estado e ao Partido.


Manifestou-se em alguns episódios dramáticos, como a revolta dos marinheiros em Kronstadt. Enfatizavam a necessidade do controle operário, da autonomia da organização popular e a iniciativa das massas - alguns, mais radicais, eram “basistas” para quem as estruturas partidárias nada valiam ante a iniciativa das massas.


Mas foi em Leon Trotsky, um dos principais dirigentes da Revolução de 1917, que a oposição ao governo soviético encontrou o líder reconhecido, com grande capacidade teórica e organizativa, e que por mais tempo esteve à sua frente.


Essa atividade encontrou apoio não só em remanescentes da oposição de “esquerda”, mas também em libertários e anarquistas europeus, e em revolucionários que se chocavam com o que consideravam como o autoritarismo do governo soviético e com aquilo que chamavam “burocratização” do primeiro Estado operário (textos: 10, 22, 23, 24l, 24m, 26, 37, 45, 57, 76, 80, 85, 124, 130, 138, 139, 140, 141, 142, 146).


11. Stalin e o stalinismo


Dirigente da facção vitoriosa na luta pelo legado de Lênin, Stalin foi – como reconhecem mesmo seus adversários – o mais fiel aplicador do programa de desenvolvimento socialista definido pelo fundador do estado soviético. Responsável pela consolidação do socialismo, não vacilou ante decisões muitas vezes duras e implacáveis. O próprio Lênin se referiu a ele, em sua “Carta ao Congresso” (24-12-1922), pedindo para o cargo de secretário-geral alguém que fosse “mais tolerante, mais leal, mais correto, mais atento com os camaradas, menos caprichoso etc.” que Stalin.


De qualquer modo, Stalin dirigiu a URSS no período dramático, da industrialização acelerada, da coletivização do campo, e da pior guerra jamais enfrentada até então por algum povo, a invasão nazista de 1941 a 1945. Nesse período, conduziu o esforço vitorioso que superou aqueles obstáculos.


Figura central para a avaliação da experiência soviética, a análise de seu desempenho deve ser desapaixonada, contra ou a favor (textos: 1, 2, 20, 21, 24m, 25, 29, 30, 31, 33, 36, 40, 47, 72, 78, 80, 88, 90, 91, 95, 98, 99, 106, 107, 116, 125, 126, 127, 128, 135, 136, 141).


12. Os processos de Moscou e o terror


O grande expurgo no Partido e no Estado, ocorrido nos anos 1930 – nos famosos “processos de Moscou” – afastou muitos antigos revolucionários, e em alguns casos chegou mesmo à sua eliminação física.


Controversos, esses processos têm defensores e opositores apaixonados. O depoimento do embaixador norte-americano Joseph Davis (que assistiu a eles) é, entretanto, favorável à direção bolchevique. De qualquer forma, aqueles processos romperam com uma antiga tradição bolchevique, que vinha do tempo de Lênin: jamais usar a pena de morte para resolver dissenções partidárias (textos: 1, 16, 20, 21, 30, 31, 33, 101, 118).


13. Estado e Democracia


A questão da democracia é um dos temas mais tradicionais entre os comunistas. Sua discussão vem dos tempos de Marx e Engels. A tomada do poder pelos bolcheviques e o início da construção de um Estado operário têm colocado, porém, esta questão em outro patamar.


Algumas medidas tomadas provisoriamente pelo governo soviético, como a proibição de partidos e jornais oposicionistas, a censura, e controle sobre a sociedade civil – impostas pela situação de guerra civil que o país vivia quando foram adotadas – tornaram-se depois dogmas intocáveis. O reforço do poder estatal, a pretexto de, assim, trabalhar para a eliminação do Estado, foi outra distorção cujas raízes estão nos tempos da guerra civil (textos: 1, 16, 18, 20, 21, 24g, 24m, 25, 30, 31, 33, 75, 84f, 84g, 84l, 84m, 84n, 84o, 84p, 84q, 84r, 84s, 95, 101, 106, 107, 124, 134).


14. Partido e centralismo democrático


O Partido Comunista confundiu-se, gradualmente, com o Estado soviético. Com o tempo, sobrepôs-se a ele, tornando-se a instância dirigente incontestável. Elemento destacado da vanguarda da classe operária, o partido sobrepôs-se, também, à própria classe, apresentando-se como seu representante e procurador.


Quando os partidos de oposição foram proibidos e, mais tarde, quando as facções foram proibidas dentro do Partido Bolchevique, feneceu o rico debate que caracterizou aquela agremiação, e que fez sua força e aguçou seu gume revolucionário.


Uma consequência dessa mudança foi a desfiguração do centralismo democrático que, nos tempos de Lênin, era o exercício pela direção partidária da delegação obtida nos congressos e reuniões gerais. Essa atividade de direção democrática – e fiscalizada pelo partido – transformou-se numa caricatura que tornou intocáveis e indiscutíveis as opiniões e decisões da direção partidária (textos: 1, 18, 19, 20, 21, 24g, 24m, 25, 30, 31, 57, 74, 84g, 84h, 84l, 84m, 84o, 84p, 84q, 84r, 84s, 95, 101, 106, 107, 124, 134).


15. Arte, ciência e cultura


A revolução russa de 1917 suscitou um rico florescimento artístico, cultural e científico nos anos 1920. Mais tarde, a valorização de uma arte, de uma ciência e de uma produção cultural “proletárias”, em contraposição à produção cultural e científica “burguesas”, impediu o desenvolvimento daquelas tendências.


O zdanovismo, que levou à consideração de que apenas na URSS, estado proletário, é que poderiam surgir ideias geniais e inovadoras, foi um freio ao desenvolvimento científico e cultural. Não puderam prosperar pesquisas como as do psicólogo Lev Vygotsky, estudos de física quântica (fundamentais para a eletrônica moderna), a química de Linnus Pauling, o estudo das obras de Sigmund Freud e da psicanálise, a realização de pesquisas genéticas etc.


A transformação mecanicista da cultura em um campo de combate político teve consequências drásticas não apenas para cientistas e artistas (e muitos foram perseguidos e impedidos de trabalhar) mas, principalmente, para a sociedade soviética que, em consequência, ficou atrasada em muitos campos do conhecimento. E, principalmente, o próprio marxismo – pensamento rico, criador e em permanente evolução – teve seu desenvolvimento severamente contido por uma compreensão acanhada e mecanicista da dialética e da luta de classes no campo da cultura, da arte e da ciência (textos: 27, 47, 64, 97, 121, 127, 128, 131, 132, 145, 148, 150, 151)


16. As guerras mundiais e a guerra fria


O tratado de Brest Litovsky, logo após a tomada do poder pelos bolcheviques, em 1918, foi a primeira grande controvérsia sobre as relações do novo regime com potências estrangeiras hostis ao poder operário.


A recusa em apoiar a guerra, que uniu os bolcheviques e a esquerda revolucionária em 1914, traduziu-se agora na necessidade imperiosa de chegar a uma paz que, mesmo injusta, permitisse a tomada de fôlego e a reorganização das forças para a consolidação dos avanços obtidos.


No período entre guerras, às vésperas da segunda grande deflagração, essa necessidade de paz para a reconstrução do país orientou a política exterior soviética, culminando no episódio controverso do pacto de não agressão com a Alemanha nazista (1939).


Vitoriosa na Segunda Guerra Mundial – e nação que sofreu o maior custo material e humano na luta contra a agressão nazifascista – a URSS emergiu como uma das potências mundiais envolvidas, agora, em outra guerra, a “guerra fria” movida pelos países capitalistas e suas elites não só contra o antigo bloco socialista, mas contra os comunistas em todo o mundo (textos: 11, 21, 33, 35, 42, 50, 110, 111, 120, 123, 133, 135).


17. O Revisionismo


Fenômeno antigo do marxismo, cujos primeiros sinais se manifestaram no final do século XIX, logo após a morte de Engels, nas teses defendidas por Eduard Bernstein, o revisionismo preconiza o abandono da vida revolucionária para a transformação social e construção do socialismo, e enfatiza a coexistência pacífica, a luta meramente eleitoral e parlamentar, e a ilusão em uma evolução gradual e indolor do capitalismo para o socialismo. Ele se manifestou abertamente no vértice da liderança soviética principalmente após a morte de Stalin (1953) tendo sido adotado como política oficial não declarada desde o XX Congresso do PCUS (1956). Apesar disso, ele está enraizado no próprio desenvolvimento assumido pela transição para o comunismo na URSS desde os anos 1920.


Depois de 1985, com a subida de Mikhail Gorbachev ao poder, a política revisionista se aprofundou e se converteu em apologia do capitalismo e em uma aberta defesa de sua restauração (textos: 6, 7, 8, 12, 14, 28, 38, 41, 52, 53, 54, 66, 67, 68, 70, 78, 79, 91, 94, 96, 105, 136, 144).


18. O social-imperialismo


Muitos críticos da diplomacia soviética encaram a defesa do socialismo num só país e a hegemonia soviética na Internacional Comunista como sinais típicos da política exterior de grande potência.


Embora discutíveis, essas críticas indicam a política exterior soviética do final da Segunda Guerra Mundial, quando a URSS participou da Conferência de Yalta, onde as potências vitoriosas dividiram o mundo em áreas de influência. 


Mas foi sob o domínio dos revisionistas, depois da década de 1950, que essa política de grande potência teria passado a impor seus interesses políticos e econômicos às nações sob sua área de influência (textos: 44, 66, 68, 69, 70, 81, 87).


19. O debate sobre a natureza da URSS


Já nos anos 1920 nas polêmicas entre os bolcheviques havia quem encarasse com reservas o caráter socialista da URSS. Os trotskistas, por sua vez, denunciavam a “degeneração” do Estado proletário e sua “burocratização”.


Embora importante, esse debate foi secundário até os anos 1960, quando o predomínio revisionista forçou os estudiosos marxistas a encarar de frente a questão. Surgiram então as teses do socialismo real (que contrapunham o socialismo realmente existente, com suas limitações, ao sonho utópico de um sistema igualitário), do capitalismo de Estado, da restauração capitalista etc. (textos: 18, 19, 20, 21, 31, 41, 43, 44, 104, 105, 125, 126, 137, 147).


20. Obras gerais


Além das obras gerais já referidas na Introdução a esta indicação bibliográfica, outros autores se dedicaram ao estudo da URSS e podem iluminar alguns aspectos importantes de sua evolução. São obras úteis não só para o estudo sistemático, mas também para consulta eventual (textos: 1, 18, 19, 20, 21, 24, 25, 42, 63, 66, 103, 139).


21. Memórias e biografias


A leitura direta das obras dos principais atores do drama histórico representado pela construção do socialismo no século XX é indispensável. Essa leitura é complementada com proveito pelo estudo de suas biografias e das reminiscências daqueles que conviveram com eles. O conhecimento de suas vidas, das circunstâncias em que se envolveram na luta revolucionária, do papel que desempenharam nos momentos decisivos da história, é extremamente útil para uma avaliação isenta e precisa dos acontecimentos (textos: 30, 36, 37, 40, 42, 55, 56, 71, 72, 90, 92, 101, 143, 146).


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84 (a a t). Lênin, Vladimir I.: 84a – As Teses de Abril; 84b – Cartas de Longe; 84c – Cartas Sobre Tática; 84d – As Tarefas do Proletariado em Nossa Revolução; 84e – A Catástrofe que nos Ameaça e Como Lutar Contra Ela; 84f – As Tarefas Imediatas do Governo Soviético; 84g – As Eleições à Constituinte e a Ditadura do Proletariado; 84h – A Crise do Partido; 84i – O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo; 84j – À População; 84l – Sobre a Democracia e a Ditadura; 84m – Que é poder soviético; 84n – Contribuição ao Problema da Ditadura; 84o – Carta ao Congresso; 84p – Páginas do Diário; 84q – Sobre a Cooperação; 84r – Como deve ser Organizada a Inspeção Operária e Camponesa; 84s – Mais Vale Pouco e Bom; 84t – Sobre o Imposto em Espécie - Existem várias edições destas obras, individualmente ou em coletâneas
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**Publicado originalmente em Princípios, nº 24, 1992. Para esta edição, foram feitas pequenas alterações.

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