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sábado, 29 de novembro de 2025
António Guerreiro - Dos debates aos comentários
25 de Novembro: entrevista a Vasco Louerenço
"Os sobrinhos dos 'falcões' da extrema-direita acham
que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar no 25 de Novembro"
25 nov,2025
ENTREVISTA A VASCO LOURENÇO || Foi um dos homens que ajudaram a travar a insubordinação de 1975 e que, meio século depois, recusa vê-la promovida a “segundo 25 de Abril”, que também fez. Vasco Lourenço regressa ao dia em que os paraquedistas ocuparam bases, os comandos subiram à Ajuda e a extrema-direita sonhou com um novo 28 de Maio — para explicar porque é que, na sua leitura, quem hoje celebra o 25 de Novembro está, afinal, a comemorar a própria derrota
Cinquenta anos depois, o 25 de Novembro continua a ser um
dia em disputa: a direita política tenta elevá-lo a feriado, a esquerda
desconfia de qualquer tentativa de o colocar ao lado do 25 de Abril e, pelo
meio, sobrevivem memórias de soldados, paraquedistas, comandos, reuniões em
Belém e plenários intermináveis em quartéis à volta de Lisboa.
Vasco Lourenço, um dos Capitães de Abril e rosto do
chamado Grupo dos Nove — os vencedores de então, em novembro de 1975 —, lembra
esse dia como quem fala de uma ferida que não chegou a romper o corpo todo mas
deixou cicatriz. “No essencial, foi uma insubordinação militar. Mas, da forma
como aconteceu, nós tivemos a perceção de que estávamos perante uma tentativa
de golpe de Estado. E respondemos como se fosse um golpe.” Meio século
depois, o
coronel é taxativo numa linha que o aproxima de muitos dos “derrotados”:
“Equiparar o 25 de Novembro ao 25 de Abril é uma injúria ao 25 de
Abril".
Para se perceber o que está em causa é preciso voltar a
1975, ao tempo do PREC, das greves em cadeia, dos parlamentos cercados, das
ocupações de terras no Alentejo, dos atentados bombistas da extrema-direita e
de uma revolução que ainda não sabia bem onde parar. Nas ruas pesavam o PCP e a
extrema-esquerda, nas sombras operavam redes terroristas como o MDLP, nos
bastidores moviam-se as embaixadas em plena Guerra Fria e, dentro das Forças
Armadas, o MFA (Movimento das Forças Armadas) estava rachado entre quem queria
prolongar o ímpeto revolucionário e quem defendia a entrega da democracia aos
partidos.
O 25 de Novembro nasce dessa divisão: para uns, um golpe
falhado; para outros, uma “clarificação de poderes” entre fações militares.
Para quase todos, o
episódio que fecha o ciclo revolucionário e estabiliza o sistema saído de Abril.
É neste contexto dividido, outrora divido, que entra a
voz de Vasco Lourenço, hoje com 83 anos e para quem o 25 de Novembro começa na
crise dos paraquedistas: uma decisão “criminosa” do chefe do Estado-Maior da
Força Aérea, que extingue a força paraquedista, deita milhares de militares no
limbo e desencadeia uma cadeia de desconfianças, equívocos e manobras
partidárias que acaba com bases ocupadas, oficiais presos e quartéis sob cerco.
Otelo Saraiva de Carvalho, na versão de Vasco Lourenço,
não estava a preparar um golpe comunista — estava a tentar proteger os seus
homens, é traído no caminho e apanhado no olho do furacão. Do outro lado, o
Grupo dos Nove, com Eanes à cabeça, reage a uma insubordinação que interpreta
como golpe iminente. Entre uns e outros há ainda os “falcões” da direita
militar e civil, “que queriam sangue, queriam um novo 28 de Maio, queriam
caminhar para uma ditadura” e que chegaram a pressionar para bombardear unidades
militares pelo ar. “Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra
civil”, considera Vasco Lourenço.
Por isso, quando hoje se fala sobre vencedores e
vencidos, o coronel devolve a resposta para fora dos rótulos fáceis. A
extrema-esquerda sai do “comboio” institucional, o PCP perde peso mas mantém-se
no sistema, a extrema-direita não consegue ilegalizar comunistas nem
transformar o contragolpe em contrarrevolução e fica com uma derrota que tenta
reescrever meio século depois. “Eles aparecem com o chapéu de vencedores mas
foram vencidos porque não atingiram aquilo que queriam”, diz Vasco Lourenco. O
que sobra, na sua síntese, é outra coisa: “O vencedor do 25 de Novembro é o 25
de Abril”. O programa do MFA cumpre-se, a Constituição é aprovada, a democracia
consolida-se — e é precisamente essa memória que está outra vez em disputa num
tempo em que, nas palavras de Vasco Lourenço, “os netos e sobrinhos dos
‘falcões’” regressam ao Parlamento, reivindicam o 25 de Novembro e tentam fazer
dele um aríete contra o próprio espírito de Abril.
Lembra-se daquele dia, do 25 de Novembro de 1975?
Perfeitamente. Coincidentemente, foi o dia em que eu mudei
para a casa onde ainda hoje vivo. [Risos] Eu vivia numa casa no Estoril,
aluguei essa casa nova e fui viver para lá, para a casa onde ainda hoje vivo.
Mas o dia foi de tal maneira intenso que, em Belém [no Palácio de Belém], a
certa altura, eu disse qualquer coisa como 'epá, lá se vai a minha mudança de
casa'. E houve alguém que respondeu 'pá, a gente vai ajudar-te'. Não foi
preciso. A minha mulher ficou encarregada da mudança e desenrascou-se. Portanto,
de facto, é um dia marcante, um dia muito marcante. Um dia que recordo
intensamente, que vivi por dentro e que foi fundamental para a construção do 25
de Abril.
Se tivesse de explicar hoje à maioria da população — que
já não tem tão presente o que foi o 25 de Novembro — diria que foi uma
tentativa de golpe de Estado? Ou sobretudo uma insubordinação militar que
ganhou dimensão e que o coronel e outros camaradas conseguiram travar? O que é
que foi, exatamente, o 25 de Novembro?
Se me coloca a questão assim, eu diria que, no essencial,
foi uma insubordinação militar. Mas, face à forma como foi feita e à perceção
que nós tivemos, do lado em que estávamos, a sensação era a de que estávamos
perante uma tentativa de golpe de Estado. E, portanto, nós respondemos como se
tivéssemos pela frente uma tentativa de golpe de Estado. Felizmente,
resolveu-se — faço sempre questão de o sublinhar — mais politicamente do que
militarmente, ainda que a existência da força militar tivesse uma importância
fundamental. Agora, o objetivo de quem tomou a iniciativa e deu início às ações
no 25 de Novembro, na minha leitura, não era o de fazer um golpe de Estado. Era
o de alterar a correlação de forças dentro do Conselho da Revolução [órgão
político-militar criado após o 25 de Abril]. Mas a forma como tudo se fez —
quando prenderam comandantes de unidades e, inclusivamente, um membro do
Conselho da Revolução, que era o general Freire, da Força Aérea —, para nós
aquilo era um golpe militar. É como digo: depois dos jogos é fácil acertar no
Totobola, antes dos jogos é que é difícil. Portanto, quando olhámos para o que
tínhamos pela frente, vimos uma tentativa de golpe de Estado. Hoje, analisando
com o recuo do tempo, chego à conclusão de que não houve tentativa de golpe de
Estado nenhuma.
Este episódio é marcante também porque, a seguir ao 25 de
Novembro, vem a consolidação do 25 de Abril. Mas, como em quase todos os
momentos da História, há vencedores e vencidos — não sei se “derrotados” é uma
palavra demasiado dura. O Vasco Lourenço fez parte dos vencedores, unanimemente
considerados vencedores, o Grupo dos Nove [ala moderada do MFA], de onde saem
figuras que depois marcam a democracia portuguesa, como o general Ramalho
Eanes. Otelo Saraiva de Carvalho é um dos vencidos? O coronel já disse que
Otelo, mais do que derrotado, foi traído. Porquê?
Vamos lá ver. O Otelo estava numa onda de extremismo também,
de radicalização. Ele é confrontado com a decisão do Conselho da Revolução em
ser substituído no comando da Região Militar de Lisboa por mim. Porque ele
acumulava as duas funções: o COPCON [Comando Operacional do Continente, força
militar criada após o 25 de Abril] e a Região Militar de Lisboa. E é
substituído apenas no comando da Região Militar de Lisboa. Mas há uma ação
que eu considero - apesar de ser feita, teoricamente, do 'nosso' lado - criminosa:
a ação do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, o general Morais e Silva, que
era do meu curso na Academia Militar. Ele extingue a Força Paraquedista, deixa
os paraquedistas entregues a cinco oficiais e aos sargentos e leva para
Cortegaça [base da Força Aérea na zona de Ovar] 123 oficiais. E, ao mesmo
tempo, extingue por despacho a Força Paraquedista. Não tinha poder para o fazer
— tinha de ser o Conselho da Revolução —, mas o que é facto é que o fez e
começou a pôr as coisas em marcha nesse sentido. Os paraquedistas ficaram
aflitos, muitos deles com o espectro do desemprego. Eram cerca de 1500 a 2000,
eu já não sei dizer exatamente quantos eram, mas era muita gente. O comandante
dos paraquedistas vai pedir ao Otelo proteção, para ver se se encontrava uma
solução para eles não serem dissolvidos. E o Otelo prometeu que ia fazer isso e
faz, de facto, uma proposta ao Conselho da Revolução, ao Presidente da
República e ao chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que era o
general Costa Gomes, no sentido de a Força Paraquedista, em vez de ser extinta,
ser atribuída ao COPCON.
Uma solução pacífica, portanto.
Sim, era uma solução relativamente pacífica. Tinha a
oposição do Morais e Silva e dos seus apaniguados, mas a generalidade do
Conselho da Revolução, a começar no Presidente da República — e comigo incluído
—, concordava com isso. Só que se levanta um problema que vem complicar tudo. O
COPCON não tinha autonomia administrativa. Não tinha meios para assegurar
salários, subsistência, alimentação, etc.. E então qual era a solução possível?
Os paraquedistas eram colocados na Região Militar de Lisboa e a Região Militar
de Lisboa atribuía-os, operacionalmente, ao COPCON. Mas era a Região Militar de
Lisboa que ficava com eles administrativamente. E isso era pacífico. Só que,
entretanto, o que estava na ordem do dia era a substituição do Otelo no comando
da Região Militar de Lisboa por mim e essa questão foi posta de lado, 'depois
tratamos disso'.
Mas a tensão foi aumentando.
A questão é que o PCP, nessa luta de provocações permanentes
de um lado e do outro - e de querer ganhar peso no Conselho da Revolução, de
alterar a correlação de forças -, convence os paraquedistas. O PCP tinha uma
estrutura clandestina forte dentro dos sargentos paraquedistas - e não só -,
mas neste caso específico dos paraquedistas - de que, se o Vasco Lourenço for
nomeado para comandar a Região Militar de Lisboa, ele não vai aceitar essa
solução. E vocês ficam tramados, ficam mesmo dissolvidos. O que era falso. O
que era falso! E isso leva os paraquedistas a revoltarem-se. A certa altura,
convencem o Otelo de que os paraquedistas precisam de mandar equipas de
informação, de esclarecimento, às unidades da Força Aérea para defenderem a
'justa luta', como se dizia, contra o chefe do Estado-Maior da Força Aérea. E o
Otelo dá-lhes luz verde para isso, para irem fazer sessões de esclarecimento.
Inclusivamente, quando lhes dá luz verde, comenta com dois oficiais, dois
capitães da Força Aérea que estão com ele, 'oxalá isto não seja o motivo para
os ‘Nove’ nos caírem em cima, porque o Vasco Lourenço está farto de me alertar
para eu não me meter em aventuras dessas, porque, se nós tentarmos algum golpe,
ele tem condições para nos cair em cima, para nos responder, portanto vão lá
fazer as sessões de esclarecimento mas façam de maneira que isso não dê essa
justificação'.
Só que transformaram as sessões de esclarecimento em
ocupações, não é? Na Base Aérea de Tancos, na Base Aérea de Monte Real, na Base
Aérea do Montijo. E no Comando da 1.ª Região Aérea, em Monsanto. Quatro...
O problema foi esse: elas transformaram-se noutra coisa. E
nós, a partir daí, reagimos como se tivéssemos pela frente uma tentativa de
golpe de Estado. O Otelo, ao mesmo tempo que diz 'pronto, vão lá fazer os
esclarecimentos', vai para casa. Portanto, ele nunca sabe da transformação em
ações de força. Vai para casa e, portanto, os paraquedistas — que vão
convencidos de que vão fazer sessões de esclarecimento e que não têm noção da
manobra interna dos agentes que planeiam isto — ficam convencidos de que o Otelo
os abandonou e que os traiu. Quando, no fim, o Otelo é que é traído por quem
transforma a ida de equipas de esclarecimento em equipas de ação de força.
Ali bem perto do Palácio de Belém, onde muitos de vocês
foram chamados pelo Presidente da República, cá mais em cima, na Calçada da
Ajuda, acabam por morrer três pessoas: o tenente José Coimbra e o furriel
Joaquim Pires, dos Comandos, e o aspirante miliciano José Bagagem. Normalmente
fala-se pouco das vítimas destes episódios. Porque é que a violência escalou
ali e acabou por não escalar noutros sítios?
Porque, entretanto, as unidades que se sublevaram, que
tomaram algumas ações, recuaram todas e todas aceitaram ficar à ordem do Costa
Gomes. Todas. Menos a unidade de Lanceiros 2 [Regimento de Lanceiros 2, unidade
de cavalaria do Exército], da Polícia Militar. Essa unidade não está metida em
golpe nenhum. Eles não perceberam o que é que se estava a passar. E, como a
unidade era, enfim, uma balbúrdia — como eu dizia —, ninguém comandava ninguém,
eram plenários atrás de plenários, eles não obedeceram à ordem que eu lhes
transmiti pelo telefone — ao Campos Andrade, que era o comandante — para se
apresentarem em Belém. Era só atravessar a Calçada e apresentarem-se em Belém,
ao Costa Gomes. Eles não o fizeram e permitiram que os 'falcões', que estavam a
querer sangue, conseguissem sangue.
Quando fala de “falcões” está a falar da extrema-direita?
Sim. Porque nós tínhamos depois duas frentes. Tínhamos a
frente contra a esquerda, que se resolveu politicamente, como eu disse, e
tínhamos, debaixo do nosso chapéu-de-chuva, aparentemente ligados
umbilicalmente ao Grupo dos Nove, um grupo que queria sangue, queria um novo 28
de Maio [golpe militar que levou à ditadura em 1926]. E tentou, por exemplo,
fazer bombardear, pela Força Aérea, três unidades. E o Eanes [então comandante
operacional] conseguiu evitar.
E aí seria um banho de sangue.
Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra
civil. Se isso começasse, tínhamos a guerra civil à porta.
Mas voltemos às mortes na Ajuda.
Foram três minutos.
Três minutos?
Se, três minutos antes, o Campos Andrade me tivesse dito
'pronto, vamos aí entregar-nos', não havia nenhuma morte. Mas, quando ele me
disse isso, a força dos Comandos já tinha avançado. Tinham combinado, comigo e
com o Eanes, que a partir das oito da noite estavam autorizados a avançar com
uma força. Mas a força já tinha avançado e, depois, por razões e por formas que
eu não explico — não quero entrar em pormenores —, houve transmissões do Eanes
para o Jaime Neves [comandante do Regimento de Comandos] que não funcionaram em
determinada altura, mas afinal funcionaram muito bem. O que é facto é que não
foi possível evitar esse confronto. E o confronto dá-se, morrem — não se sabe
bem como — três militares. A ideia que há é que os dois comandos são mortos por
atiradores que estavam em Cavalaria 7 [Regimento de Cavalaria 7, unidade
estacionada junto a Belém], que era a unidade que estava do lado da
Presidência, mesmo ao lado da Presidência. Portanto, daí, os esquerdistas
atiram sobre eles. E também há a ideia de que terão sido atiradores civis, que
estavam nos prédios ali, que atiraram sobre eles. É uma das dúvidas que ficam:
quem é que atirou? Porque não foi a Polícia Militar que atirou contra os
Comandos para matar os dois comandos. E há uma bala perdida que mata um oficial
de Administração Militar que estava dentro do Regimento de Polícia Militar.
Porque aquilo era, de facto, uma balbúrdia, todos os dias ia para lá gente que
não pertencia à unidade.
Era um aspirante miliciano que pertencia a Queluz.
Sim, sim. Há três mortos, portanto. E depois nós conseguimos
— como eu digo, o tal milagre funcionou —... As comunicações do Eanes com o
Jaime Neves funcionaram e eu, por telefone, com o Campos Andrade, e o Eanes com
o Jaime Neves, conseguimos parar o fogo de um lado e do outro. E pronto, houve
essa situação.
E, quando a Ajuda cai, quando Lanceiros 2 cai, caiu a
tentativa de insubordinação, de “golpe”? Era o último reduto?
Não. A tentativa de insubordinação já tinha caído. Como eu
digo, Lanceiros não estava em qualquer tentativa sequer de insubordinação;
estavam naquela de 'nós obedecemos ao Presidente da República'. Então, se
obedecem ao Presidente da República, apresentem-se aqui. A ordem do Presidente
da República — e fui eu que a transmiti ao Campos Andrade — era essa:
apresentem-se aqui. E eu estou, desde a meia-noite até às oito e tal da manhã,
a chatear o Campos Andrade. E ele é sempre 'mais um plenário, mais um plenário',
porque aquilo era uma balbúrdia, ninguém decidia. E pronto, não obedeceram e
deram origem a isso.
O coronel Vasco Lourenço tentou, ao longo do tempo,
trazer clareza sobre o que foi o 25 de Novembro. Tal como Ramalho Eanes e
outras figuras que o viveram por dentro também o fizeram. Mas a verdade é que o
25 de Novembro, 50 anos passados, parece hoje ainda mais politizado. Parece
haver uma ala política, no Parlamento, mais à direita do que à esquerda, que
tenta transformar o 25 de Novembro em algo talvez maior do que aquilo que ele
foi. Ou seja, é importante na consolidação da democracia, mas não é equiparável
ao 25 de Abril. É assim?
O que é que se passou? Passou-se, como eu lhe disse, que os
'falcões' — foi assim que eu os designei e continuo a designar — queriam sangue
e queriam avançar para um regime de supressão de liberdades. Por exemplo,
queriam ilegalizar o PCP, queriam claramente um novo 28 de Maio, queriam
caminhar para uma ditadura. Isso é confirmado, inclusivamente, no ano passado
numa entrevista que o Pacheco de Amorim [deputado do Chega, antigo quadro do
MDLP, movimento bombista de extrema-direita] deu e em que revela que, no dia
29, tem uma conversa telefónica com o Jaime Neves e que o Jaime Neves lhe diz
'conseguimos alguma coisa, não conseguimos tudo aquilo que queríamos mas
conseguimos alguma coisa'. Portanto, a extrema-direita queria mais disto, do 25
de Novembro. Mas a imagem que sai dali, a principal imagem, é que os grandes
derrotados são o Partido Comunista e a extrema-esquerda. A extrema-esquerda, de
facto, é totalmente derrotada, naquela altura sai do “comboio”, sai do processo
institucional. O PCP é um vencido aparente mas não deixa de ser também um
vencedor, porque se mantém no sistema, não é ilegalizado, mantém-se no Governo,
inclusivamente, mantém-se na Assembleia Constituinte [assembleia eleita em 1975
para redigir a Constituição] e a Constituição é aprovada. Mas a imagem que
muita gente tentou transmitir é a de que o 25 de Novembro se tinha limitado a
correr com o PCP e com a extrema-esquerda.
Não é totalmente verdade.
Em parte é. Parou as tentativas do PCP de radicalização.
Isso é verdade. Mas só isso. E isso foi o que ficou. Mas, ao mesmo tempo, o que
é facto é que parou também a tentativa da extrema-direita, dos 'falcões', de
radicalização. Depois, é evidente que a situação política foi derrapando, ou
deslizando, lentamente para a direita. Estamos na situação em que estamos hoje.
E, então, o que a extrema-direita quer é dizer agora que eles foram os
vencedores do 25 de Novembro. Não foram. Eles foram vencidos! Eles aparecem com
o chapéu de vencedores mas foram vencidos porque não atingiram aquilo que
queriam. E, portanto, o que eu digo — eu, como um dos militares que estiveram
envolvidos e que todos os anos, no 25 de Novembro, assumem essa condição — é
que o 25 de Novembro foi o que faltou ao 5 de Outubro [de 1910, aquando da
proclamação da República] para que não houvesse o 28 de Maio. O 25 de Novembro
é aquilo que consegue fazer com que o 25 de Abril seja cumprido no seu
essencial. No sentido de 'refundar' tudo: tudo continuou, é aprovada a
Constituição, como estava previsto, e entrámos num regime democrático. Mas eles
hoje parecem esquecer e querem apresentar-se como vencedores. A narrativa que
querem impor é 'a única coisa que se fez no 25 de Novembro foi parar a esquerda'.
Não é verdade. E eu pergunto: mas vocês querem comemorar o quê? A vossa
derrota? Vocês foram derrotados. E depois há situações absolutamente fantoches,
como a nomeação de uma comissão para fazer comemorações que já estão a ser
feitas, organizadas pelas comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril.
Epá, é isso que eu contesto. Porque acho que, de facto, o 25 de Novembro deve
ser assinalado, mas o 25 de Novembro tem a particularidade de ser o último
acontecimento em que se tentou, claramente, derrubar o 25 de Abril. As outras
duas tentativas foram, claramente, da direita: o 28 de Setembro [de 1974, uma
crise política em torno de uma manifestação da “maioria silenciosa” convocada
por António de Spínola] e o 11 de Março [de 1975, a tentativa de golpe chefiada
por Spínola também]. O 25 de Novembro é a última e, aparentemente, quem ataca é
só a esquerda, mas a extrema-direita também atacou — e também foi vencida. Não
se deu tanto por isso mas aconteceu.
Coronel Vasco Lourenço, uma pergunta muito simples. Toda
a gente o conhece como um Capitão de Abril, uma figura fundamental da nossa
democracia em 1974 e depois em 1975. Para si, quando alguém diz “o 25 de
Novembro é igual ao 25 de Abril e tem de ser equiparado” — quando pedem feriado
para este dia, por exemplo —, essa posição faz sentido?
Acho que é uma injúria ao 25 de Abril. Mas repare: o
problema é que esses que dizem isso, logo no dia 25 de Abril de 1974 começaram
a conspirar contra o 25 de Abril. E nós tivemos várias fases de conspiração
desses contra o 25 de Abril. Em termos concretos, as fases principais foram o
28 de Setembro e o 11 de Março. O 25 de Novembro acaba com determinada bagunça,
acaba com muita confusão, acaba com as tentativas de implantação, no terreno,
de um 'poder popular', de uma 'democracia popular', acaba com aqueles que,
também no terreno, queriam que aqui se instalasse um regime tipo socialismo
ortodoxo. Mas acaba também com a ideia de que os setores à direita podem
atingir os seus objetivos.
O vencedor do 25 de Novembro é o 25 de Abril, é isso?
Sim, é o 25 de Abril que sai reforçado. O programa que o MFA
tinha apresentado a 25 de Abril é cumprido, há finalmente condições para isso.
Agora, as democracias são isto: há sempre deslizes, a coisa vai deslizando e
continua a deslizar hoje. Eu lembro-me de uma frase que se dizia na altura,
quando a situação estava a deslizar, 'nós fomos capazes de fazer frente ao
Vasco Gonçalves [general e primeiro-ministro entre 1974 e 1975, figura da ala
esquerda do MFA, associado ao “gonçalvismo” e politicamente próximo do PCP] em
determinada situação e agora não estamos a ser capazes de fazer frente a este
deslizar suave para a direita?' Mas a democracia é isto. Hoje chegamos a um
ponto em que há, formalmente, democracia — ainda se vota —, mas está no poder
gente que parece querer soluções não democráticas, apesar de lá ter chegado
democraticamente.
São os netos dos “falcões”?
[Risos] Sim, sim. Sim. São os netos e são os sobrinhos. O
Nuno Melo [líder do CDS-PP e atual ministro da Defesa] acho que é sobrinho de
um cónego, o cónego Melo [Eduardo Melo Peixoto, padre bracarense ligado à
mobilização anticomunista no Minho e frequentemente associado às redes
bombistas de extrema-direita ELP/MDLP], que foi um 'falcão' civil mas foi um
'falcão'. Aliás, nos 30 anos do 25 de Abril, deu uma entrevista em que disse
que estava preparado um golpe deles para o dia 30 de novembro e, portanto, o 25
de Novembro antecipou-se [risos]. Mas nós temos o Pacheco de Amorim, que foi um
dos dirigentes do MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal, rede
terrorista/bombista de extrema-direita responsável por centenas de atentados no
PREC]. Portanto, não são só os netos e os sobrinhos, há alguns próprios
'falcões' que estão no terreno, no poder, e estão a tentar…
Insubordinar-se.
Insubordinar-se. E alcançar aquilo que não conseguiram
alcançar na altura. Os 'falcões' e os sobrinhos dos 'falcões' da
extrema-direita acham que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar
no 25 de Novembro. Acham agora que há condições para isso, pronto. No que me
diz respeito, faço-lhes frente.
sexta-feira, 28 de novembro de 2025
William Schryver - O Presidente da Paz Imaginário
* William Schryver
27 de novembro de 20- 25
Uma das afirmações mais comuns sobre o governo Trump 45 é
que "ele não iniciou nenhuma guerra nova".
Isso é comprovadamente FALSO.
Durante seu primeiro mandato, Trump se tornou o principal
agente causal de todos os conflitos atuais com a Rússia, a China, o Irã e a
Venezuela.
Ele não apenas manteve a trajetória desses conflitos
estabelecida pelas administrações americanas anteriores, como também aumentou
drasticamente a tensão e acelerou o ritmo da marcha para a guerra.
Ucrânia
Na Ucrânia, entre 2017 e 2021, os preparativos já iniciados
para a #MãeDeTodosOsExércitosPorProcuração foram ampliados e acelerados a um
nível sem precedentes.
Quase duas dezenas de bases secretas de inteligência dos EUA
foram estabelecidas em todo o leste da Ucrânia. Um grande número de militares
ucranianos participou de programas de treinamento EUA/OTAN. Oficiais ucranianos
foram instruídos no uso de comunicações EUA/OTAN e dados de
inteligência/vigilância/reconhecimento (ISR). Uma cadeia de comando foi
estabelecida de Kiev até o quartel-general EUA/OTAN na Base Aérea de Ramstein,
na Alemanha. Armamento pesado americano foi pré-posicionado na Polônia, e acordos
preliminares foram firmados com antigos países do Pacto de Varsóvia (muitos
deles agora membros da OTAN) para fornecer à Ucrânia artilharia, blindados,
munições e aeronaves de combate soviéticos.
As tropas ucranianas foram introduzidas ao uso de mísseis
guiados antitanque Javelin, obuseiros M-777 de 155 mm e sistemas de lançamento
múltiplo de foguetes HIMARS.
Algumas aeronaves soviéticas antigas da Força Aérea
Ucraniana foram modificadas para transportar e lançar mísseis dos EUA/OTAN.
O enorme complexo de fortificações na região de Donbass foi
ampliado e reforçado.
Alguns milhares de "contratados" dos EUA/OTAN
foram integrados às forças armadas ucranianas, com preferência para as brigadas
neonazistas mais radicais, consideradas as unidades de "elite" das
Forças Armadas da Ucrânia.
O foco estratégico durante todo o governo Trump foi concluir
a preparação das forças armadas ucranianas para atacar e esmagar os
separatistas pró-Rússia em Donbass e, em seguida, retomar a Crimeia, que os
russos haviam tomado após o golpe de Estado liderado pelos Estados
Unidos em Kiev, em 2014 – e que foi formalmente reintegrada à
Federação Russa como resultado de um referendo popular com ampla maioria.
Trump chegou a se gabar de ter sido ele quem começou a armar
os ucranianos em uma escala muito maior do que Obama jamais havia feito.
“Fui eu quem forneceu os mísseis Javelin. Lembram-se dos
famosos Javelins? Fui eu. Não foi o Obama. Não foi o Biden. Não foi ninguém
mais. Fui eu. E eles destruíram muitos tanques com esses Javelins. A expressão
era: 'Obama deu lençóis'. E eu forneci os Javelins. Isso foi muito importante
na época. Foi no começo, quando as pessoas disseram: 'Uau, isso é
impressionante!'. Bem, aquilo era equipamento americano. Sem equipamento
americano, esta guerra teria terminado muito rapidamente.”
Presidente Donald J. Trump, Conferência de Imprensa no Salão
Oval, 26 de fevereiro de 2025
Aqui está o vídeo completo de onde foi retirada a citação
acima:
Este é um fato irrefutável: o governo Trump 45 acelerou e
tornou inevitável a guerra cujo estopim final foi aceso no início de fevereiro
de 2022, quando os ucranianos iniciaram uma escalada de artilharia em larga
escala contra o que alegavam ser posições da milícia de Donbass, mas que eram
indistinguíveis de alvos civis aleatórios.
A combinação de todos esses fatores obrigou os russos a agir
de forma decisiva (e mais cedo do que desejavam) para ampliar sua presença
estratégica na região.
Todos aqueles que afirmam que Trump não tem culpa na guerra
na Ucrânia ou desconhecem os inúmeros fatos objetivos, ou os negam.
Diversas vozes geopolíticas proeminentes já alertavam sobre
a possibilidade de uma guerra na Ucrânia mesmo antes de Victoria Nuland, John
McCain, Lindsey Graham e outros marcharem pelas ruas da Kiev conquistada em
2014.
E durante toda a guerra civil que se seguiu, até a
intervenção russa no final de fevereiro de 2022, agentes de inteligência e
forças especiais dos EUA/OTAN atuaram na Ucrânia, apoiando as movimentações
militares do governo de Kiev em Donbass.
A crise tornou-se cada vez mais aguda ao longo do primeiro
mandato de Trump, mesmo quando os objetivos gêmeos de subjugar o Donbass e
retomar a Crimeia se tornaram cada vez mais evidentes.
Como publiquei no
Twitter em abril de 2021:
A Ucrânia tem duas opções: aceitar seu papel como um
estado-tampão ou ser desmembrada. Se os EUA a incitarem a tentar subjugar o
Donbass, a Rússia irá separar o leste da Ucrânia e assimilá-lo — e não há
*nada* que os EUA possam fazer para impedir isso.
Na verdade, as grandes guerras geoestratégicas entre
Estados-nação sempre levam décadas para se concretizar. Assim
foi no caso da guerra na Ucrânia.
Mas a trajetória inevitável da guerra foi traçada durante
o PRIMEIRO mandato de Donald Trump na Casa Branca. Trump é mais responsável
pela Guerra da Ucrânia do que Joe Biden pela sua caneta automática. Ao menos
Trump demonstrou um grau modesto de coerência em seu primeiro mandato.
A aparição de Joe Biden, atordoada e confusa,
simplesmente assistiu, estupefata, aos eventos há muito predestinados passarem
diante de seus olhos vazios.
China
Uma das primeiras ações de Trump após sua posse em 2017 foi
anunciar a venda para Taiwan de mísseis antinavio Harpoon, mísseis de defesa
aérea naval SM-2 e SM-3, torpedos MK-48 e sistemas de radar avançados.
Em 2019, com grande alarde, Trump anunciou a venda de 66
caças F-16V para Taiwan.
Em 2020, Trump anunciou a venda de ainda mais mísseis
antinavio Harpoon, sistemas HIMARS e drones MQ-9B.
Durante seu primeiro mandato, Trump também enviou cerca de
300 operadores das forças especiais do Exército e da Marinha dos EUA para
Taiwan. Desde o início de seu segundo mandato, esse número aumentou para mais
de 500, incluindo contingentes substanciais em Penghu e na ilha de Kinmen, que
fica a apenas dez quilômetros da costa chinesa.
b
O estacionamento permanente de um batalhão inteiro de tropas
americanas em Taiwan era algo sem precedentes antes do primeiro mandato de
Trump. E, compreensivelmente, é considerado pela China uma provocação sem
precedentes. Consequentemente, os preparativos chineses para uma possível
guerra em suas águas territoriais e arredores foram intensificados
consideravelmente.
E, naquela que é possivelmente a sua jogada estrategicamente
mais mal aconselhada, Trump 45 iniciou a guerra comercial e retórica com a
China, que continua até os dias de hoje.
Já circulam rumores generalizados de que o Departamento de
Guerra dos EUA está preparando um bloqueio naval às importações de energia da
China — um ato de completa loucura.
Irã
Trump, em conjunto com os israelenses, iniciou a grande
guerra com o Irã, que continua até hoje — embora atualmente esteja em um de
seus intervalos típicos.
Naquele que considero o ato de guerra mais descarado de seu
primeiro mandato, Trump ordenou o assassinato do general iraniano Qasem
Soleimani, em 3 de janeiro de 2020, no aeroporto de Bagdá.
Soleimani estava em missão diplomática em Bagdá a convite do
primeiro-ministro iraquiano, Adil Abdul-Mahdi, que atuava como intermediário
entre os sauditas e os iranianos, que trabalhavam para reduzir a escalada dos
ataques com drones e mísseis realizados por milícias iraquianas contra bases
americanas no Iraque e a Zona Verde em Bagdá.
Soleimani estava viajando para entregar a resposta oficial
do Irã a uma proposta de mediação da Arábia Saudita.
Em 31 de dezembro de 2019, aparentemente em apoio a essas
iniciativas saudita-iranianas para amenizar a situação no Iraque, o presidente
Trump fez um telefonema pessoal para o primeiro-ministro iraquiano,
Abdul-Mahdi. O líder iraquiano, por sua vez, telefonou para Soleimani para
combinar uma reunião na Zona Verde, em Bagdá, marcada para a manhã de 3 de
janeiro de 2020.
Soleimani e sua pequena comitiva viajaram abertamente em um
voo comercial e foram recebidos no aeroporto pelo líder da milícia iraquiana
Abu Mahdi al-Muhandis e alguns outros iraquianos. Enquanto Soleimani,
al-Muhandis e outros oito se deslocavam do aeroporto para a Zona Verde em dois
veículos, um drone americano MQ-9 Reaper disparou mísseis Hellfire, reduzindo
todos eles a escombros.
O presidente Trump ordenou diretamente o ataque e,
posteriormente, vangloriou-se publicamente de sua perfídia.
Soleimani era considerado um herói nacional no Irã e,
possivelmente, a segunda figura política mais poderosa e influente do país na
época, atrás apenas do aiatolá Khamenei.
Os iranianos ficaram justificadamente indignados.
Em 8 de janeiro de 2020, o Irã lançou um ataque com mísseis
balísticos contra a base aérea americana de Ayn al-Asad, no Iraque. Cerca de 15
mísseis balísticos iranianos atingiram a base com uma precisão impressionante,
embora fosse evidente que o ataque tinha um caráter meramente demonstrativo e
que os iranianos evitaram deliberadamente matar soldados americanos.
Ainda assim, a potência do ataque claramente surpreendeu
tanto os americanos quanto os israelenses, resultando em uma diminuição dos
ataques dos EUA e de Israel contra alvos iranianos até 1º de abril de 2024,
quando os israelenses mataram sete oficiais da Guarda Revolucionária Iraniana
em um ataque com mísseis contra a embaixada iraniana em Damasco.
Duas semanas depois (13 e 14 de abril de 2024), os iranianos
lançaram um ataque massivo e sem precedentes com mísseis contra Israel. Isso
levou diretamente a uma série de confrontos entre Israel e Irã que ocorreram ao
longo dos meses seguintes, culminando na chamada Guerra
dos Doze Dias entre os EUA/Israel e o Irã, de 13 a 24 de junho de
2025.
É claro que é preciso entender que esta guerra entre os
EUA/Israel e o Irã AINDA NÃO acabou. Ela está apenas em um breve hiato, e há
indícios nos últimos dias de que Israel está planejando novos ataques contra o
Irã.
Mas não se enganem, o evento catalisador para essa guerra
drasticamente intensificada com o Irã foi o assassinato traiçoeiro de Qasem
Soleimani por Trump em 3 de janeiro de 2020.
Venezuela
Trump começou a expressar publicamente seu desejo de entrar
em guerra contra a Venezuela e de se apoderar de seu petróleo, no máximo, em
julho de 2017. Isso se tornou um tema recorrente para ele, culminando na
tentativa fracassada de golpe de Estado de 2019 contra Nicolás
Maduró, quando os EUA tentaram instalar o fantoche Juan Guaidó como líder da
Venezuela.
Trump
teria dito:
“Não entendo por que não estamos olhando para a Venezuela.
Por que não estamos em guerra com a Venezuela?”
“É com esse país que deveríamos entrar em guerra. Eles têm
todo esse petróleo e estão bem na nossa porta dos fundos.”
A linguagem belicosa de Trump em relação à Venezuela
continuou durante todo o seu primeiro mandato e, como resultado, os aliados de
longa data da Venezuela, Rússia, China e Irã, começaram a fortalecer de forma
mais agressiva as capacidades militares venezuelanas, antecipando um eventual
ataque dos EUA e uma potencial invasão do país sul-americano que detém as
maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.
Agora, enquanto escrevo aqui no Dia de Ação de Graças de
2025, os Estados Unidos posicionaram uma enorme frota naval e uma força de
desembarque de fuzileiros navais na costa da Venezuela, e parece quase certo
que as operações militares contra o regime de Maduro começarão em breve, com o
objetivo declarado de instalar um novo governo fantoche cuja suposta líder, a
ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, preparada pela CIA,
pediu explicitamente uma invasão americana da República Bolivariana e prometeu
permitir que os EUA assumam o controle do petróleo, ouro e outras riquezas
minerais da Venezuela.
O Comando Sul (SOUTHCOM) chegou a produzir um vídeo
promocional bem elaborado para a próxima guerra contra a Venezuela:
O Presidente da Paz Imaginário
Trump, consumido por sua própria ânsia de se tornar um
laureado com o Prêmio Nobel da Paz, vem afirmando há meses ter encerrado nada
menos que oito guerras imaginárias.
Na realidade, o presidente Donald J. Trump demonstrou ser um
dos presidentes americanos mais propensos a agir impulsivamente que já vi
(Eisenhower ainda era presidente quando eu nasci).
Incrivelmente, ele optou por entrar em conflito com os
adversários mais poderosos que os EUA enfrentaram desde a Segunda Guerra
Mundial: Rússia, China e Irã. E, pior ainda, catalisou a formação de uma aliança
militar e econômica imbatível entre essas três potências
civilizacionais em ascensão, mesmo enquanto o poderio militar americano se
deteriorava ao seu ponto mais baixo desde o pós-Segunda Guerra Mundial.
É claro que a maioria dos americanos possui conhecimento e
compreensão sobre a guerra e o poderio militar dos EUA, tal como retratado
durante décadas em filmes de Hollywood e videogames. Portanto, quando Trump se
vangloria de ser a maior força militar dos Estados Unidos na história da
humanidade, a vaidade americana é facilmente convencida de que não há nação na
Terra que os EUA não possam subjugar com uma mão amarrada nas costas.
Nem Donald Trump, nem muitos americanos, percebem que não há
mais guerras fáceis para lutar. Mas essa verdade perturbadora será exposta para
todos verem daqui até o fim do último mandato do Presidente da Paz Imaginário.
quinta-feira, 27 de novembro de 2025
hélder moura - (559) Que fazer com os pobres que não querem deixar de ser pobres?
- hélder
moura
- 26.11.25
Cuidar dos necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do Estado.
A imagem do pobre como submisso, bendito,
sentado à porta da paróquia, mantem-se até ao século XIV.
A pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública.
Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza, Josiah Child.
O egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos.
Os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou
morrer.
O princípio em que assenta o sistema político-económico dos
EUA (e evidentemente não só), nação cristã orientada por princípios cristãos,
com impostos baixos e sem assistência social, é que cuidar dos
necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do
Estado.
Foi, apesar de tudo, o que sobrou da Idade Média
cristã que tinha em pé de igualdade ricos, poderosos e pobres. Embora
respeitando os ricos, elogiava os pobres por estarem mais próximos do reino do
Céu. A ética medieval, não só tolerava a mendicidade como ainda a glorificava,
o que é bem patente na existência das ordens mendicantes (grupos de monges
dedicados profissionalmente a serem pobres).
Os pobres (mendigos, doentes, órfãos e rameiras) eram
considerados livres de qualquer responsabilidade social, servindo para que os
demais pudessem exercer a virtude da caridade.
Esta imagem da época em que o pobre é
apresentado como submisso, bendito, sentado à porta da paróquia,
vai ser totalmente abalada pela peste negra do século XIV. Dois
terços da população desaparecem, escasseia a mão-de-obra sobretudo nas cidades,
dá-se a fuga dos campos e da submissão feudal, os súbditos transformam-se em
pessoas que se deslocam.
A imagem é agora a do sobrevivente
que vai de um lado para o outro, como lhe aprouver, trabalhando onde puder,
descobrindo o valor dos seus braços.
A pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de
ordem pública: os mandantes preocupavam-se não por eles serem pobres, mas
por se poderem movimentar livremente, o que significava poderem reunir-se,
pressionarem, revoltarem-se.
A pobreza passa a ser tema de assunto em livros e
discussões. Surge o Tratado do socorro dos pobres de Luís
Vives com a sua proposta de criação de ‘casas de Caridade’ para
os acolher, ou seja, para os fixar, imobilizar e controlar.
Introduz dois conceitos que se vão revelar importantes: o
da responsabilidade social da república para com os pobres, e o
da obrigatoriedade do trabalho para todos os acolhidos nas casas de
Caridade.
Ao mesmo tempo, os humanistas e os reformadores protestantes
proclamam que o homem, ao ser dono do seu destino, passava a ser o único
responsável por determinar como viria a ser a sua vida.
O pobre, ao ser pobre porque queria, porque não tinha
vontade suficiente, só demonstrava ou a sua fraqueza interior, ou então que tal
era o desejo de Deus para que a sua vida fosse de sofrimento.
O conteúdo da ideia da caridade até então predominante
encontrava-se esvaziado.
Em 1601, Isabel I vai publicar
a primeira das Leis dos Pobres, Poors Law, criando ao mesmo
tempo as casas de trabalho, workhouse. Todo o pobre que fosse
fisicamente útil teria de se acolher obrigatoriamente na workhouse da
paróquia em que estivesse registado. Ali, eram obrigados a trabalhar a troco de
um salário de subsistência.
Por toda a Europa surgiram idênticos lugares de trabalho,
onde a troco de um salário mínimo se mantinham vivos os trabalhadores. Esta
prática de estabelecimentos estatais de trabalho foram o embrião do
aparecimento das grandes empresas privadas.
Os séculos XVII e XVIII prosseguem
nesta procura incessante do método para controlar a sociedade, agora já sem ser
através do chicote ou das amputações. Algumas pérolas destas ‘preocupações’:
“A fome domesticará os animais mais ferozes,
ensinará aos mais perversos a decência, a obediência e a sujeição. No geral, só
a fome poderá levar a ajoelhar (os pobres) e a obrigá-los a trabalhar”,
Joseph Townsed, na Dissertation on the Poor Laws.
“Se se lhes fizer a vida impossível, o número de
mendigos reduzir-se-á: um método ainda mais rápido é pela utilização de
arsénico, que seria até uma forma mais suave se fosse permitido”, Thomas
Carlyle.
“Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para
com Deus e a Natureza’’, segundo o bem-intencionado Josiah Child.
No século XX, o matemático John F. Nash (interpretado
por Russell Crowe no filme Mentes Brilhantes), vai concluir,
aplicando a ‘teoria dos jogos’, que qualquer ser humano convertido
num jogador isolado do resto do mundo, ganharia sempre que se
comportasse de uma forma totalmente egoísta, não se coibindo de trair toda
a confiança em si depositada e a palavra dada.
Segundo Nash, num mundo de pessoas isoladas, egoístas e
racionais, era perfeitamente possível criar um sistema que desse satisfação a
todos os jogadores, utilizando apenas como único incentivo a ambição pessoal de
cada um.
A conclusão mais geral que se retira do seu trabalho é
que o egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos,
podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos. Este é o conhecido
e famoso ‘equilíbrio
de Nash’ (1950).
Ficou assim demonstrado que é possível, e até
desejável, a existência de uma sociedade de indivíduos racionais e isolados,
uma sociedade de indivíduos livres, mas controlados e regulados pelo seu
próprio egoísmo, sem leis nem polícias.
No século XXI, em princípios de novembro
de 2025, uma americana branca (Nikalie
Monroe) vai fazer no TikTok uma experiência social em que, fingindo ser uma
mãe desesperada por uma lata de leite em pó para o seu bebé com fome, liga para
42 igrejas nos Estados Unidos, documentando quais as
respostas que foi obtendo, quais as igrejas que foram prestáveis e quais as
que não foram. A grande maioria dos locais de culto que contactou recusou-se a
ajudar.
Um dos poucos locais de culto a oferecer-se imediatamente
para a ajudar foi uma mesquita na Carolina do Norte, que não só concordou em
ajudá-la imediatamente, como também lhe perguntou qual o tipo específico de
fórmula infantil de que necessitaria.
Quando a jornalista internacional australiana Caitlin
Jonhstone publicou um post no X sobre
o assunto, diz ela que recebeu “uma
enxurrada de mensagens a dizer que não se deve esperar que a igreja
simplesmente distribua esmolas aos necessitados, afirmando que qualquer pessoa
que não consiga alimentar o seu próprio filho deve arranjar um emprego e
alimentá-lo por conta própria”.
E que “Não acham que os pobres devam receber comida do
governo. Não acham que os pobres devam receber comida da igreja. Se os pobres
infringirem a lei para obter alimentos, querem que sejam presos durante anos.
Acham mesmo que os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou
morrer.”
Definitivamente, o conteúdo da ideia de caridade deixou de
existir.
Eduardo Maltez Silva - É sempre assim que começa ...
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
António José Rodrigues - Os revanchistas de Novembro de 1975
A decisão do
governo da AD de constituir uma comissão para comemorar os 50 anos do 25 de
Novembro configura mais um capítulo da operação de falsificação e de deturpação
da história, por parte daqueles que nunca se conformaram com a Revolução de
Abril. Na verdade, 50 anos depois aí temos muitos dos herdeiros do regime de
Salazar e Caetano, agora de forma aberta, a animarem as comemorações do 25 de
Novembro, os mesmo que foram objecto das benesses do fascismo, e que são hoje,
no Governo e fora dele, os protagonistas da defesa dos interesses do grande
capital.
A tentativa de
apagar da memória do povo o 25 de Abril e substituí-lo pelo 25 de Novembro está
bem patente nas afirmações do ministro da Defesa Nuno Melo, o homem forte das
comemorações, as quais foi decidido alongar o período das comemorações por mais
cinco meses, até Maio de 2026, para assegurar «que outras datas e
acontecimentos só possíveis porque houve o 25 de Novembro venham a ser
consideradas, como sejam a aprovação da Constituição da República e as eleições
legislativas que deram lugar à primeira legislatura em 25 de Abril de 1976».
Afirmações confirmadas na Resolução do próprio Governo.
Uma subtil mas
pura mentira, considerando que as primeiras eleições legislativas decorrem da
Assembleia Constituinte, realizadas em Abril de 1975, em pleno período
revolucionário, e foram fruto da Revolução de Abril. Eleições que a
contra-revolução quis adiar para impor uma solução referendária
anti-democrática, à laia da Constituição de 1933, elaborada a partir de cima e
sem a participação dos eleitos pelo povo. O objectivo em prolongar até Abril as
reaccionárias comemorações para assinalar as eleições de 1976 anunciadas como
as primeiras, é claro: identificar o processo revolucionário como um período
ditatorial. Exemplo de que o 25 de Novembro não pôs fim ao processo iniciado em
25 de Abril, como pretendiam as forças reaccionárias, foi a aprovação e a entrada
em vigor da Constituição da República, traduzindo, não apenas, o resultado dos
trabalhos da Assembleia Constituinte, mas o resultado da luta do povo português
e das forças revolucionárias.
Daí que a
Constituição da República ainda hoje, apesar de amputada por sucessivas
revisões constitucionais promovidas pelo PS e PSD, continue a manter conteúdos
profundamente progressistas, e por isso a ser o alvo preferencial da direita de
todos os matizes. Os partidos de direita perseguem o objectivo de rever a
Constituição da República, procurando retirar princípios e valores que esta
encerra e atentar contra os direitos nela inscritos, com o supremo objectivo de
consumar a reconfiguração do Estado ao serviço dos interesses do grande capital
nacional e estrangeiro.
O «verão
quente» de 1975, que antecedeu o 25 de Novembro, foi um período caracterizado
por uma profunda crise político-militar, com graves repercussões no plano
económico e social e que, no essencial, resultou da ruptura no campo
democrático, com os dirigentes socialistas a assumirem uma posição de reserva e
oposição à evolução do processo revolucionário e a liderarem um processo de
divisão, quer do movimento democrático quer do movimento popular e sindical em
que a acção provocatória do 1.º de Maio de 1975 é momento marcante. Mas também
pela cisão no MFA, entre o Grupo dos Nove e a Esquerda
militar, que conduziria à desagregação e paralisação das estruturas
superiores do Movimento das Forças Armadas (MFA). Um objectivo há muito
perseguido pelas forças de direita e da social-democracia, do Grupo dos
Nove, mas também de sectores esquerdistas agrupados em torno de Otelo
Saraiva de Carvalho, ao mesmo tempo que a Esquerda militar perdia
posições importantes nos centros de decisão político-militar.
Uma situação
que permitiu que se desenvolvesse um conjunto de acções contra-revolucionárias
na tentativa de inverter o curso da Revolução de Abril, nomeadamente recorrendo
ao terrorismo, de forma organizada, procurando semear a intranquilidade e o
pânico, isolar as forças de esquerda, desestabilizar a situação política e pôr
em causa a própria democracia. Uma acção terrorista que atingiu sobretudo o PCP
e os sindicatos, e de que é impossível desligar, como pretendem alguns, as
acções e iniciativas políticas que caracterizaram o chamado «verão quente» de
1975.
O balanço
destas acções é público e conhecido. Em Julho tiveram lugar 86 actos
terroristas, dos quais 33 assaltos, pilhagens e incêndios de Centros de
Trabalho do PCP e outras 23 tentativas repelidas. Acções acompanhadas do
lançamento de bombas, fogos postos e agressões. Em Agosto, mais de 153 acções,
das quais 82 assaltos e destruições de Centros de Trabalho (55 do PCP e 25 do
MDP/CDE), 39 incêndios, 15 bombas, 23 agressões.
Neste quadro, o
25 de Novembro de 1975 foi o corolário de um longo período de instabilidade, em
que o agravamento da crise político-militar e a ofensiva contra-revolucionária
decorrem em paralelo, nomeadamente com a queda do V Governo Provisório e o afastamento
do general Vasco Gonçalves, também das estruturas superiores das Forças Armadas
e do MFA. O afastamento de Vasco Gonçalves era um objectivo há muito
perseguido, como nos retrata António Avelãs Nunes no seu livro O
Novembro que Abril não merecia: «A pedido do grupo de Melo Antunes,
Carlucci pressionava Costa Gomes no sentido de demitir o V Governo Provisório,
substituindo o Primeiro-Ministro e afastando os comunistas do novo Governo, e
instava os embaixadores da França, RU, e RFA para que também eles pressionassem
Costa Gomes (“temos agora de nos interrogar de que lado está Costa Gomes ou, em
qualquer caso, se ainda vale a pena preservá-lo”)».
Este longo
processo que antecedeu o 25 de Novembro foi também marcado por várias
tentativas e acções contra-revolucionárias, em que se destacam o golpe Palma
Carlos, o 28 de Setembro e o 11 de Março, através das quais os seus autores e
cúmplices as procuraram sempre justificar como sendo respostas a tentativas ou
golpes do PCP. O 25 de Novembro não foi excepção.
Das várias
provocações montadas neste período com o objectivo de responsabilizar os
comunistas e o movimento operário e contra eles atear a ira popular, o assalto
à Embaixada de Espanha é profundamente ilustrativo, enquanto o terrorismo
bombista ganhava também um lugar de destaque, com a activa participação de
militares e políticos, bem como de organizações como o MDLP-Movimento
Democrático de Libertação de Portugal, inspirado e chefiado por Spínola, e o
ELP-Exército de Libertação de Portugal, entre outras organizações terroristas e
contra-revolucionárias que actuavam a partir do estrangeiro, nomeadamente do
Brasil e de Espanha.
O 25 de
Novembro foi sustentado numa grande aliança contra-revolucionária, internamente
muito fragmentada e que contou com o importante contributo de Mário Soares,
principal promotor de uma vergonhosa campanha anti-comunista, realizada na base
da mentira e de processos de intenções irreais, do PS e do Grupo dos
Nove, onde participavam fascistas declarados e outros reaccionários
radicais, cujo objectivo era a instauração de uma nova ditadura, que tomasse
violentas medidas de repressão, nomeadamente, a ilegalização e destruição do
PCP.
A verdade é
que, após o golpe do 25 de Novembro, a rápida tomada de consciência dos
militares democratas dos riscos que a democracia corria, nomeadamente aqueles
que tendo combatido a Esquerda militar não se identificavam
com a direita reaccionária, conduziu à criação de uma nova linha de defesa da
democracia, designadamente no seio das Forças Armadas, e impediu que o 25 de
Novembro liquidasse a revolução portuguesa e as suas conquistas. Importa, a
propósito, relembrar o papel do esquerdismo e de forças como o
MRPP, a AOC ou o PCP(m-l) que se aliaram ao PSD e ao CDS, e acabaram por se
revelar agentes da direita e da extrema-direita, sem esquecer que destes
partidos emergiu um número infindável de figuras, de que Durão Barroso será o
expoente máximo pelos elevados cargos que exerceu no plano nacional e
internacional, mas que se estende por um número infinito de políticos,
jornalistas, «comentadores» e «analistas», que hoje se albergam no bloco
central de interesses e continuam, «coerentemente», anticomunistas e ferozes
defensores do grande capital, que havia sido derrotado no 25 de Abril e no 11
de Março.
O 25 de
Novembro, ao contrário do que muitos dos seus protagonistas disseram e
escreveram e alguns continuam a insinuar, não foi um golpe promovido pelo PCP,
pela Esquerda militar ou pela «ala gonçalvista» do MFA, mas
sim um golpe militar contra-revolucionário, fruto de uma cuidada e longa
preparação, no quadro de um tumultuoso processo de rearrumação de forças no
plano político e militar.
Álvaro Cunhal,
no livro A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A
contra-revolução confessa-se), explica que, «como a orientação e acção do
PCP e os acontecimentos provassem que não tinha havido nem golpe nem tentativa
de golpe do PCP, inventou-se a tese do "recuo" – a
história de que o PCP, vendo que o seu golpe militar, já desencadeado, iria
falhar, recuou e desistiu do golpe. Essa tese do "recuo do PCP" é
condimentada com uma insultuosa afirmação de Mário Soares: que o PCP teria
lançado o golpe, mas, vendo que ia ser derrotado, deixou no terreno os
esquerdistas "abandonados pelo PC" à sua sorte e à repressão (Maria
João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução). Falsidade e calúnia
retomada por Freitas do Amaral (O Antigo Regime e a Revolução).
Explique-se.
Esta invencionice, como argumento, deturpa dois factos reais: Um,
as orientações dadas pela Direcção do PCP na noite de 24 para 25 a algumas das
suas organizações para não se deixarem arrastar em atitudes ou na participação
em aventuras esquerdistas de confronto militar (casos do Forte de Almada e do
RAL1). Outro, uma conversa telefónica na mesma noite de 24 para 25
entre o Presidente da República Costa Gomes e o secretário-geral do PCP, Álvaro
Cunhal, em que este, tendo tomado a iniciativa do contacto, nos termos
habituais da ligação institucional com a Presidência da República, comunicou ao
Presidente, desmentindo especulações em curso, que o PCP não estava envolvido
em qualquer iniciativa de confronto militar e insistia em apontar a necessidade
de uma solução política».
O PCP teve uma
acção incansável no sentido de evitar o confronto, expressa em intervenções do
seu secretário-geral, comunicados da sua Comissão Política e em variados
documentos incluindo no próprio jornal Avante!, apontando uma saída
política para a crise, propondo e concretizando encontros com todos os
sectores, do PS (que recusou) aos agrupamentos esquerdistas, da Esquerda
militar ao Grupo dos Nove e a militares esquerdistas
ligados ao COPCON, embora sem resultados práticos.
Uma proposta
que não obteve respostas, até porque o PS e os seus aliados tinham prosseguido
as encenações e provocações com o objectivo de atingir e responsabilizar o PCP:
primeiro, o caso do jornal República com os trabalhadores a
tomarem posição contra a direcção do jornal e a orientação política por este
seguida, tendo os dirigentes socialistas e os responsáveis do República, como
então afirmou o PCP, «elementos mais do que suficientes para saberem que é uma
calúnia tão torpe como absurda o atribuírem a responsabilidade da posição dos
trabalhadores do jornal ao PCP»; depois, as manifestações no Patriarcado,
resultado de algumas justas reivindicações profissionais do trabalhadores
da Rádio Renascença não terem encontrado, por parte da
hierarquia da Igreja, qualquer perspectiva de solução, com os comunistas a
condenarem «todos os actos e atitudes que representam uma ofensa aos
sentimentos religiosos do nosso povo». Na altura, o PCP sublinhou ainda «que
sempre tem defendido e continua a defender a liberdade religiosa» sem, contudo,
deixar de registar com preocupação uma nota pastoral dos Bispos, considerando-a
uma «clara intromissão negativa na actual situação política, o que só poderá
agudizar as dificuldades existentes».
Os
acontecimentos do 25 de Novembro, porventura, nunca teriam acontecido se os
golpistas liderados por Spínola não tivessem sido derrotados em 11 de Março,
uma derrota que originou a imediata tomada de decisões históricas como a
institucionalização do Movimento das Forças Armadas (MFA), a extinção da Junta
de Salvação Nacional e do Conselho de Estado, a criação do Conselho da
Revolução, a nacionalização da banca, dos seguros e de empresas como a TAP, a
CP, a CIDLA, a SACOR, e ainda o aumento do Salário Mínimo Nacional para quatro
mil escudos. A democracia portuguesa escolhe o rumo do socialismo.
Após a derrota
do golpe de 11 de Março, em «meados de Julho» de 1975, como nos relata o
insuspeito historiador José Freire Antunes (antigo deputado e dirigente do
PPD/PSD) no livro O segredo do 25 de Novembro, o então major
Ramalho Eanes, usando o nome de «João Silva», faz um contacto telefónico com o
tenente-coronel Tomé Pinto, que se encontrava na 2.ª repartição do Estado-Maior
do Exército. Era o pontapé de saída para a constituição do «Grupo Militar» que haveria
de promover o golpe do 25 de Novembro.
Curiosamente, o
mesmo Tomé Pinto, agora tenente-general na reforma, foi escolhido por
Nuno Melo para presidir à comissão das comemorações dos 50
anos do 25 de Novembro.
O golpe do 25
de Novembro significou a criação de uma nova situação política, uma viragem à
direita na vida nacional, mas os mais ambiciosos objectivos
contra-revolucionários foram derrotados. A força e a dinâmica do movimento
operário e popular e a intervenção esclarecida do PCP foram factores
determinantes para a contenção do golpe. Em lugar de reprimido e ilegalizado, o
PCP continuou no Governo e a reforçar a sua influência social e política. A
aprovação da Constituição e a sua entrada em vigor constituiu um factor de
primeiro plano para travar os planos golpistas. Será com a formação do primeiro
governo constitucional do PS sozinho, mas de facto aliado à direita, que se
virá a institucionalizar o processo contra-revolucionário.
Revolução de Abril, Edição Nº 399 - Nov/Dez 2025
https://omilitante.pcp.pt/pt/399/447/2218/Os-revanchistas-de-Novembro-de-1975.htm?
