sábado, 29 de novembro de 2025

António Guerreiro - Dos debates aos comentários

* António Guerreiro~

Os debates na televisão entre os vários candidatos à Presidência da República seguem um modelo que se aproxima do stand-up. Mesmo que os candidatos nada façam para cumprirem os protocolos e as exigências desta forma de espectáculo, eles são coercivamente enquadrados nele e avaliados pelo grau de competência demonstrado na performance por um júri que representa o papel da opinião pública e encena uma versão abreviada daquilo que desde o Iluminismo se chama “espaço público”. O júri é composto por um conjunto de pessoas designadas como “comentadores” cuja tarefa é encerrar o espectáculo com os seus juízos críticos e apreciações quantificadas.

Neste modelo de debate procura-se um ganhador e um perdedor. E ganha sempre quem revela mais destreza na eloquência, quem consegue ter alguma habilidade para argumentar e um certo sentido da dialéctica (qualidades, aliás, cada vez mais escassas) naquele ambiente muito pouco favorável a tais realizações. Ali, muito embora pareça que se trata de política, a despolitização é a regra.

O júri cumpre um papel essencial: é ele que, em última instância, dá sentido às performances. Sem ele, o espectáculo da contenda ficaria incompleto e seria muito mais desinteressante. É preciso sublinhar o clash, promovê-lo, encontrar no discurso político um sentido agónico. As polarizações que caracterizam o ambiente político em que vivemos, os tropismos que fazem emergir os extremos, têm os seus utensílios retóricos reconhecidos e valorizados. São eles os mais valorizados e a eles recorrem com frequência os participantes nestes debates porque têm uma eficácia táctica. Esses instrumentos tácticos dominam os debates e asseguram a vitória a quem melhor se servir deles. E a táctica é o que os comentadores observam com mais facilidade, logo, o que garante nota alta.

Na época em que a crítica literária e da arte tinha adquirido uma enorme pujança, impôs-se a ideia de que os juízos sobre a poesia têm mais valor do que a própria poesia (e poesia vale aqui pela arte em geral). Hegel, nas suas lições de Estética, explica porquê: porque a obra de arte deixou de satisfazer as necessidades “espirituais” que nela tinham encontrado as épocas precedentes; e, por isso, na sua “suprema destinação”, a arte chegou ao seu fim. Assim é hoje com a política e o debate político: manifestações de um final de festa.

Em tempos de despolitização, o que tem algum valor e suscita o interesse da audiência são os juízos sobre os debates e as performances dos seus protagonistas. Os comentadores mostram, mesmo se não têm consciência disso, o estado de exasperação do discurso político. São convocados por um vazio que lhes coube em jeito de missão preencher. E são afectados pelo demónio da reversibilidade: eles comentam o discurso dos candidatos ou estes calculam o seu discurso para resultar num comentário? Quando a noção de época correspondia a um tempo histórico muito mais longo e a um “espírito” que a autonomizava e lhe conferia sedimentação, instituiu-se a ideia de que há períodos de decadência; e a proliferação do comentário seria a marca mais conspícua desses períodos (refiro-me, evidentemente, a um género de comentários cuja manifestação é uma literatura e uma filosofia secundárias). O barroco trans-histórico e os finais de século serviram com alguma verosimilhança essa ideia de decadência.

A desvalorização da linguagem política é o sintoma de uma doença, um mal-estar da democracia.

O conceito de pós-democracia, como sabemos, fez o seu caminho com alguma indefinição, mas, ainda assim, de maneira útil. Já estamos habituados a que, sempre que o prefixo “pós” se impõe como declinação de algo novo, mas que resulta de uma profunda inflexão do antigo, a certa altura se comece a pensar em modo “des”. É o que já está a acontecer com a democracia: a pós-democracia já começa a ser um conceito pouco útil e já há quem coloque a hipótese da “des-democracia” (devemo-la às análises da autoria da norte-americana Wendy Brown, professora de Ciência Política na Universidade da Califórnia).

A desdemocracia já se manifesta de outra maneira que não é a de um mal-estar da democracia: não é um mal infligido por causas exteriores, mas uma doença interna que decorre do seu desenvolvimento interior. A ascensão de sentimentos fascistas e o desejo autoritário, isto é, de uma ordem governada por uma personalidade autoritária (fazendo coincidir a política com uma psicologia), configuram uma desdemocracia em curso, uma democracia que se está a desfazer a partir do seu interior, num processo de degenerescência que faz nascer o desejo autoritário.

in Público, 28/11/2025

https://www.publico.pt/2025/11/28/culturaipsilon/cronica/debates-comentarios-2155997

25 de Novembro: entrevista a Vasco Louerenço

"Os sobrinhos dos 'falcões' da extrema-direita acham que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar no 25 de Novembro"

Tiago Palma

25 nov,2025

ENTREVISTA A VASCO LOURENÇO || Foi um dos homens que ajudaram a travar a insubordinação de 1975 e que, meio século depois, recusa vê-la promovida a “segundo 25 de Abril”, que também fez. Vasco Lourenço regressa ao dia em que os paraquedistas ocuparam bases, os comandos subiram à Ajuda e a extrema-direita sonhou com um novo 28 de Maio — para explicar porque é que, na sua leitura, quem hoje celebra o 25 de Novembro está, afinal, a comemorar a própria derrota


Cinquenta anos depois, o 25 de Novembro continua a ser um dia em disputa: a direita política tenta elevá-lo a feriado, a esquerda desconfia de qualquer tentativa de o colocar ao lado do 25 de Abril e, pelo meio, sobrevivem memórias de soldados, paraquedistas, comandos, reuniões em Belém e plenários intermináveis em quartéis à volta de Lisboa.

Vasco Lourenço, um dos Capitães de Abril e rosto do chamado Grupo dos Nove — os vencedores de então, em novembro de 1975 —, lembra esse dia como quem fala de uma ferida que não chegou a romper o corpo todo mas deixou cicatriz. “No essencial, foi uma insubordinação militar. Mas, da forma como aconteceu, nós tivemos a perceção de que estávamos perante uma tentativa de golpe de Estado. E respondemos como se fosse um golpe.” Meio século depois, o coronel é taxativo numa linha que o aproxima de muitos dos “derrotados”: “Equiparar o 25 de Novembro ao 25 de Abril é uma injúria ao 25 de Abril". 

Para se perceber o que está em causa é preciso voltar a 1975, ao tempo do PREC, das greves em cadeia, dos parlamentos cercados, das ocupações de terras no Alentejo, dos atentados bombistas da extrema-direita e de uma revolução que ainda não sabia bem onde parar. Nas ruas pesavam o PCP e a extrema-esquerda, nas sombras operavam redes terroristas como o MDLP, nos bastidores moviam-se as embaixadas em plena Guerra Fria e, dentro das Forças Armadas, o MFA (Movimento das Forças Armadas) estava rachado entre quem queria prolongar o ímpeto revolucionário e quem defendia a entrega da democracia aos partidos.

O 25 de Novembro nasce dessa divisão: para uns, um golpe falhado; para outros, uma “clarificação de poderes” entre fações militares. Para quase todos, o episódio que fecha o ciclo revolucionário e estabiliza o sistema saído de Abril.

É neste contexto dividido, outrora divido, que entra a voz de Vasco Lourenço, hoje com 83 anos e para quem o 25 de Novembro começa na crise dos paraquedistas: uma decisão “criminosa” do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, que extingue a força paraquedista, deita milhares de militares no limbo e desencadeia uma cadeia de desconfianças, equívocos e manobras partidárias que acaba com bases ocupadas, oficiais presos e quartéis sob cerco.

Otelo Saraiva de Carvalho, na versão de Vasco Lourenço, não estava a preparar um golpe comunista — estava a tentar proteger os seus homens, é traído no caminho e apanhado no olho do furacão. Do outro lado, o Grupo dos Nove, com Eanes à cabeça, reage a uma insubordinação que interpreta como golpe iminente. Entre uns e outros há ainda os “falcões” da direita militar e civil, “que queriam sangue, queriam um novo 28 de Maio, queriam caminhar para uma ditadura” e que chegaram a pressionar para bombardear unidades militares pelo ar. “Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra civil”, considera Vasco Lourenço.

Por isso, quando hoje se fala sobre vencedores e vencidos, o coronel devolve a resposta para fora dos rótulos fáceis. A extrema-esquerda sai do “comboio” institucional, o PCP perde peso mas mantém-se no sistema, a extrema-direita não consegue ilegalizar comunistas nem transformar o contragolpe em contrarrevolução e fica com uma derrota que tenta reescrever meio século depois. “Eles aparecem com o chapéu de vencedores mas foram vencidos porque não atingiram aquilo que queriam”, diz Vasco Lourenco. O que sobra, na sua síntese, é outra coisa: “O vencedor do 25 de Novembro é o 25 de Abril”. O programa do MFA cumpre-se, a Constituição é aprovada, a democracia consolida-se — e é precisamente essa memória que está outra vez em disputa num tempo em que, nas palavras de Vasco Lourenço, “os netos e sobrinhos dos ‘falcões’” regressam ao Parlamento, reivindicam o 25 de Novembro e tentam fazer dele um aríete contra o próprio espírito de Abril.

Lembra-se daquele dia, do 25 de Novembro de 1975?

Perfeitamente. Coincidentemente, foi o dia em que eu mudei para a casa onde ainda hoje vivo. [Risos] Eu vivia numa casa no Estoril, aluguei essa casa nova e fui viver para lá, para a casa onde ainda hoje vivo. Mas o dia foi de tal maneira intenso que, em Belém [no Palácio de Belém], a certa altura, eu disse qualquer coisa como 'epá, lá se vai a minha mudança de casa'. E houve alguém que respondeu 'pá, a gente vai ajudar-te'. Não foi preciso. A minha mulher ficou encarregada da mudança e desenrascou-se. Portanto, de facto, é um dia marcante, um dia muito marcante. Um dia que recordo intensamente, que vivi por dentro e que foi fundamental para a construção do 25 de Abril.

 

Se tivesse de explicar hoje à maioria da população — que já não tem tão presente o que foi o 25 de Novembro — diria que foi uma tentativa de golpe de Estado? Ou sobretudo uma insubordinação militar que ganhou dimensão e que o coronel e outros camaradas conseguiram travar? O que é que foi, exatamente, o 25 de Novembro?

Se me coloca a questão assim, eu diria que, no essencial, foi uma insubordinação militar. Mas, face à forma como foi feita e à perceção que nós tivemos, do lado em que estávamos, a sensação era a de que estávamos perante uma tentativa de golpe de Estado. E, portanto, nós respondemos como se tivéssemos pela frente uma tentativa de golpe de Estado. Felizmente, resolveu-se — faço sempre questão de o sublinhar — mais politicamente do que militarmente, ainda que a existência da força militar tivesse uma importância fundamental. Agora, o objetivo de quem tomou a iniciativa e deu início às ações no 25 de Novembro, na minha leitura, não era o de fazer um golpe de Estado. Era o de alterar a correlação de forças dentro do Conselho da Revolução [órgão político-militar criado após o 25 de Abril]. Mas a forma como tudo se fez — quando prenderam comandantes de unidades e, inclusivamente, um membro do Conselho da Revolução, que era o general Freire, da Força Aérea —, para nós aquilo era um golpe militar. É como digo: depois dos jogos é fácil acertar no Totobola, antes dos jogos é que é difícil. Portanto, quando olhámos para o que tínhamos pela frente, vimos uma tentativa de golpe de Estado. Hoje, analisando com o recuo do tempo, chego à conclusão de que não houve tentativa de golpe de Estado nenhuma.

 

Este episódio é marcante também porque, a seguir ao 25 de Novembro, vem a consolidação do 25 de Abril. Mas, como em quase todos os momentos da História, há vencedores e vencidos — não sei se “derrotados” é uma palavra demasiado dura. O Vasco Lourenço fez parte dos vencedores, unanimemente considerados vencedores, o Grupo dos Nove [ala moderada do MFA], de onde saem figuras que depois marcam a democracia portuguesa, como o general Ramalho Eanes. Otelo Saraiva de Carvalho é um dos vencidos? O coronel já disse que Otelo, mais do que derrotado, foi traído. Porquê?

Vamos lá ver. O Otelo estava numa onda de extremismo também, de radicalização. Ele é confrontado com a decisão do Conselho da Revolução em ser substituído no comando da Região Militar de Lisboa por mim. Porque ele acumulava as duas funções: o COPCON [Comando Operacional do Continente, força militar criada após o 25 de Abril] e a Região Militar de Lisboa. E é substituído apenas no comando da Região Militar de Lisboa. Mas há uma ação que eu considero - apesar de ser feita, teoricamente, do 'nosso' lado - criminosa: a ação do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, o general Morais e Silva, que era do meu curso na Academia Militar. Ele extingue a Força Paraquedista, deixa os paraquedistas entregues a cinco oficiais e aos sargentos e leva para Cortegaça [base da Força Aérea na zona de Ovar] 123 oficiais. E, ao mesmo tempo, extingue por despacho a Força Paraquedista. Não tinha poder para o fazer — tinha de ser o Conselho da Revolução —, mas o que é facto é que o fez e começou a pôr as coisas em marcha nesse sentido. Os paraquedistas ficaram aflitos, muitos deles com o espectro do desemprego. Eram cerca de 1500 a 2000, eu já não sei dizer exatamente quantos eram, mas era muita gente. O comandante dos paraquedistas vai pedir ao Otelo proteção, para ver se se encontrava uma solução para eles não serem dissolvidos. E o Otelo prometeu que ia fazer isso e faz, de facto, uma proposta ao Conselho da Revolução, ao Presidente da República e ao chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que era o general Costa Gomes, no sentido de a Força Paraquedista, em vez de ser extinta, ser atribuída ao COPCON.

 

Uma solução pacífica, portanto.

Sim, era uma solução relativamente pacífica. Tinha a oposição do Morais e Silva e dos seus apaniguados, mas a generalidade do Conselho da Revolução, a começar no Presidente da República — e comigo incluído —, concordava com isso. Só que se levanta um problema que vem complicar tudo. O COPCON não tinha autonomia administrativa. Não tinha meios para assegurar salários, subsistência, alimentação, etc.. E então qual era a solução possível? Os paraquedistas eram colocados na Região Militar de Lisboa e a Região Militar de Lisboa atribuía-os, operacionalmente, ao COPCON. Mas era a Região Militar de Lisboa que ficava com eles administrativamente. E isso era pacífico. Só que, entretanto, o que estava na ordem do dia era a substituição do Otelo no comando da Região Militar de Lisboa por mim e essa questão foi posta de lado, 'depois tratamos disso'.

 

Mas a tensão foi aumentando.

A questão é que o PCP, nessa luta de provocações permanentes de um lado e do outro - e de querer ganhar peso no Conselho da Revolução, de alterar a correlação de forças -, convence os paraquedistas. O PCP tinha uma estrutura clandestina forte dentro dos sargentos paraquedistas - e não só -, mas neste caso específico dos paraquedistas - de que, se o Vasco Lourenço for nomeado para comandar a Região Militar de Lisboa, ele não vai aceitar essa solução. E vocês ficam tramados, ficam mesmo dissolvidos. O que era falso. O que era falso! E isso leva os paraquedistas a revoltarem-se. A certa altura, convencem o Otelo de que os paraquedistas precisam de mandar equipas de informação, de esclarecimento, às unidades da Força Aérea para defenderem a 'justa luta', como se dizia, contra o chefe do Estado-Maior da Força Aérea. E o Otelo dá-lhes luz verde para isso, para irem fazer sessões de esclarecimento. Inclusivamente, quando lhes dá luz verde, comenta com dois oficiais, dois capitães da Força Aérea que estão com ele, 'oxalá isto não seja o motivo para os ‘Nove’ nos caírem em cima, porque o Vasco Lourenço está farto de me alertar para eu não me meter em aventuras dessas, porque, se nós tentarmos algum golpe, ele tem condições para nos cair em cima, para nos responder, portanto vão lá fazer as sessões de esclarecimento mas façam de maneira que isso não dê essa justificação'.

 

Só que transformaram as sessões de esclarecimento em ocupações, não é? Na Base Aérea de Tancos, na Base Aérea de Monte Real, na Base Aérea do Montijo. E no Comando da 1.ª Região Aérea, em Monsanto. Quatro...

O problema foi esse: elas transformaram-se noutra coisa. E nós, a partir daí, reagimos como se tivéssemos pela frente uma tentativa de golpe de Estado. O Otelo, ao mesmo tempo que diz 'pronto, vão lá fazer os esclarecimentos', vai para casa. Portanto, ele nunca sabe da transformação em ações de força. Vai para casa e, portanto, os paraquedistas — que vão convencidos de que vão fazer sessões de esclarecimento e que não têm noção da manobra interna dos agentes que planeiam isto — ficam convencidos de que o Otelo os abandonou e que os traiu. Quando, no fim, o Otelo é que é traído por quem transforma a ida de equipas de esclarecimento em equipas de ação de força.

 

Ali bem perto do Palácio de Belém, onde muitos de vocês foram chamados pelo Presidente da República, cá mais em cima, na Calçada da Ajuda, acabam por morrer três pessoas: o tenente José Coimbra e o furriel Joaquim Pires, dos Comandos, e o aspirante miliciano José Bagagem. Normalmente fala-se pouco das vítimas destes episódios. Porque é que a violência escalou ali e acabou por não escalar noutros sítios?

Porque, entretanto, as unidades que se sublevaram, que tomaram algumas ações, recuaram todas e todas aceitaram ficar à ordem do Costa Gomes. Todas. Menos a unidade de Lanceiros 2 [Regimento de Lanceiros 2, unidade de cavalaria do Exército], da Polícia Militar. Essa unidade não está metida em golpe nenhum. Eles não perceberam o que é que se estava a passar. E, como a unidade era, enfim, uma balbúrdia — como eu dizia —, ninguém comandava ninguém, eram plenários atrás de plenários, eles não obedeceram à ordem que eu lhes transmiti pelo telefone — ao Campos Andrade, que era o comandante — para se apresentarem em Belém. Era só atravessar a Calçada e apresentarem-se em Belém, ao Costa Gomes. Eles não o fizeram e permitiram que os 'falcões', que estavam a querer sangue, conseguissem sangue.

 

Quando fala de “falcões” está a falar da extrema-direita?

Sim. Porque nós tínhamos depois duas frentes. Tínhamos a frente contra a esquerda, que se resolveu politicamente, como eu disse, e tínhamos, debaixo do nosso chapéu-de-chuva, aparentemente ligados umbilicalmente ao Grupo dos Nove, um grupo que queria sangue, queria um novo 28 de Maio [golpe militar que levou à ditadura em 1926]. E tentou, por exemplo, fazer bombardear, pela Força Aérea, três unidades. E o Eanes [então comandante operacional] conseguiu evitar.

 

E aí seria um banho de sangue.

Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra civil. Se isso começasse, tínhamos a guerra civil à porta.

 

Mas voltemos às mortes na Ajuda.

Foram três minutos.

 

Três minutos?

Se, três minutos antes, o Campos Andrade me tivesse dito 'pronto, vamos aí entregar-nos', não havia nenhuma morte. Mas, quando ele me disse isso, a força dos Comandos já tinha avançado. Tinham combinado, comigo e com o Eanes, que a partir das oito da noite estavam autorizados a avançar com uma força. Mas a força já tinha avançado e, depois, por razões e por formas que eu não explico — não quero entrar em pormenores —, houve transmissões do Eanes para o Jaime Neves [comandante do Regimento de Comandos] que não funcionaram em determinada altura, mas afinal funcionaram muito bem. O que é facto é que não foi possível evitar esse confronto. E o confronto dá-se, morrem — não se sabe bem como — três militares. A ideia que há é que os dois comandos são mortos por atiradores que estavam em Cavalaria 7 [Regimento de Cavalaria 7, unidade estacionada junto a Belém], que era a unidade que estava do lado da Presidência, mesmo ao lado da Presidência. Portanto, daí, os esquerdistas atiram sobre eles. E também há a ideia de que terão sido atiradores civis, que estavam nos prédios ali, que atiraram sobre eles. É uma das dúvidas que ficam: quem é que atirou? Porque não foi a Polícia Militar que atirou contra os Comandos para matar os dois comandos. E há uma bala perdida que mata um oficial de Administração Militar que estava dentro do Regimento de Polícia Militar. Porque aquilo era, de facto, uma balbúrdia, todos os dias ia para lá gente que não pertencia à unidade.

 

Era um aspirante miliciano que pertencia a Queluz.

Sim, sim. Há três mortos, portanto. E depois nós conseguimos — como eu digo, o tal milagre funcionou —... As comunicações do Eanes com o Jaime Neves funcionaram e eu, por telefone, com o Campos Andrade, e o Eanes com o Jaime Neves, conseguimos parar o fogo de um lado e do outro. E pronto, houve essa situação.

 

E, quando a Ajuda cai, quando Lanceiros 2 cai, caiu a tentativa de insubordinação, de “golpe”? Era o último reduto?

Não. A tentativa de insubordinação já tinha caído. Como eu digo, Lanceiros não estava em qualquer tentativa sequer de insubordinação; estavam naquela de 'nós obedecemos ao Presidente da República'. Então, se obedecem ao Presidente da República, apresentem-se aqui. A ordem do Presidente da República — e fui eu que a transmiti ao Campos Andrade — era essa: apresentem-se aqui. E eu estou, desde a meia-noite até às oito e tal da manhã, a chatear o Campos Andrade. E ele é sempre 'mais um plenário, mais um plenário', porque aquilo era uma balbúrdia, ninguém decidia. E pronto, não obedeceram e deram origem a isso.

O coronel Vasco Lourenço tentou, ao longo do tempo, trazer clareza sobre o que foi o 25 de Novembro. Tal como Ramalho Eanes e outras figuras que o viveram por dentro também o fizeram. Mas a verdade é que o 25 de Novembro, 50 anos passados, parece hoje ainda mais politizado. Parece haver uma ala política, no Parlamento, mais à direita do que à esquerda, que tenta transformar o 25 de Novembro em algo talvez maior do que aquilo que ele foi. Ou seja, é importante na consolidação da democracia, mas não é equiparável ao 25 de Abril. É assim?

O que é que se passou? Passou-se, como eu lhe disse, que os 'falcões' — foi assim que eu os designei e continuo a designar — queriam sangue e queriam avançar para um regime de supressão de liberdades. Por exemplo, queriam ilegalizar o PCP, queriam claramente um novo 28 de Maio, queriam caminhar para uma ditadura. Isso é confirmado, inclusivamente, no ano passado numa entrevista que o Pacheco de Amorim [deputado do Chega, antigo quadro do MDLP, movimento bombista de extrema-direita] deu e em que revela que, no dia 29, tem uma conversa telefónica com o Jaime Neves e que o Jaime Neves lhe diz 'conseguimos alguma coisa, não conseguimos tudo aquilo que queríamos mas conseguimos alguma coisa'. Portanto, a extrema-direita queria mais disto, do 25 de Novembro. Mas a imagem que sai dali, a principal imagem, é que os grandes derrotados são o Partido Comunista e a extrema-esquerda. A extrema-esquerda, de facto, é totalmente derrotada, naquela altura sai do “comboio”, sai do processo institucional. O PCP é um vencido aparente mas não deixa de ser também um vencedor, porque se mantém no sistema, não é ilegalizado, mantém-se no Governo, inclusivamente, mantém-se na Assembleia Constituinte [assembleia eleita em 1975 para redigir a Constituição] e a Constituição é aprovada. Mas a imagem que muita gente tentou transmitir é a de que o 25 de Novembro se tinha limitado a correr com o PCP e com a extrema-esquerda.

 

Não é totalmente verdade.

Em parte é. Parou as tentativas do PCP de radicalização. Isso é verdade. Mas só isso. E isso foi o que ficou. Mas, ao mesmo tempo, o que é facto é que parou também a tentativa da extrema-direita, dos 'falcões', de radicalização. Depois, é evidente que a situação política foi derrapando, ou deslizando, lentamente para a direita. Estamos na situação em que estamos hoje. E, então, o que a extrema-direita quer é dizer agora que eles foram os vencedores do 25 de Novembro. Não foram. Eles foram vencidos! Eles aparecem com o chapéu de vencedores mas foram vencidos porque não atingiram aquilo que queriam. E, portanto, o que eu digo — eu, como um dos militares que estiveram envolvidos e que todos os anos, no 25 de Novembro, assumem essa condição — é que o 25 de Novembro foi o que faltou ao 5 de Outubro [de 1910, aquando da proclamação da República] para que não houvesse o 28 de Maio. O 25 de Novembro é aquilo que consegue fazer com que o 25 de Abril seja cumprido no seu essencial. No sentido de 'refundar' tudo: tudo continuou, é aprovada a Constituição, como estava previsto, e entrámos num regime democrático. Mas eles hoje parecem esquecer e querem apresentar-se como vencedores. A narrativa que querem impor é 'a única coisa que se fez no 25 de Novembro foi parar a esquerda'. Não é verdade. E eu pergunto: mas vocês querem comemorar o quê? A vossa derrota? Vocês foram derrotados. E depois há situações absolutamente fantoches, como a nomeação de uma comissão para fazer comemorações que já estão a ser feitas, organizadas pelas comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril. Epá, é isso que eu contesto. Porque acho que, de facto, o 25 de Novembro deve ser assinalado, mas o 25 de Novembro tem a particularidade de ser o último acontecimento em que se tentou, claramente, derrubar o 25 de Abril. As outras duas tentativas foram, claramente, da direita: o 28 de Setembro [de 1974, uma crise política em torno de uma manifestação da “maioria silenciosa” convocada por António de Spínola] e o 11 de Março [de 1975, a tentativa de golpe chefiada por Spínola também]. O 25 de Novembro é a última e, aparentemente, quem ataca é só a esquerda, mas a extrema-direita também atacou — e também foi vencida. Não se deu tanto por isso mas aconteceu.

 

Coronel Vasco Lourenço, uma pergunta muito simples. Toda a gente o conhece como um Capitão de Abril, uma figura fundamental da nossa democracia em 1974 e depois em 1975. Para si, quando alguém diz “o 25 de Novembro é igual ao 25 de Abril e tem de ser equiparado” — quando pedem feriado para este dia, por exemplo —, essa posição faz sentido?

Acho que é uma injúria ao 25 de Abril. Mas repare: o problema é que esses que dizem isso, logo no dia 25 de Abril de 1974 começaram a conspirar contra o 25 de Abril. E nós tivemos várias fases de conspiração desses contra o 25 de Abril. Em termos concretos, as fases principais foram o 28 de Setembro e o 11 de Março. O 25 de Novembro acaba com determinada bagunça, acaba com muita confusão, acaba com as tentativas de implantação, no terreno, de um 'poder popular', de uma 'democracia popular', acaba com aqueles que, também no terreno, queriam que aqui se instalasse um regime tipo socialismo ortodoxo. Mas acaba também com a ideia de que os setores à direita podem atingir os seus objetivos.

 

O vencedor do 25 de Novembro é o 25 de Abril, é isso?

Sim, é o 25 de Abril que sai reforçado. O programa que o MFA tinha apresentado a 25 de Abril é cumprido, há finalmente condições para isso. Agora, as democracias são isto: há sempre deslizes, a coisa vai deslizando e continua a deslizar hoje. Eu lembro-me de uma frase que se dizia na altura, quando a situação estava a deslizar, 'nós fomos capazes de fazer frente ao Vasco Gonçalves [general e primeiro-ministro entre 1974 e 1975, figura da ala esquerda do MFA, associado ao “gonçalvismo” e politicamente próximo do PCP] em determinada situação e agora não estamos a ser capazes de fazer frente a este deslizar suave para a direita?' Mas a democracia é isto. Hoje chegamos a um ponto em que há, formalmente, democracia — ainda se vota —, mas está no poder gente que parece querer soluções não democráticas, apesar de lá ter chegado democraticamente.

 

São os netos dos “falcões”?

[Risos] Sim, sim. Sim. São os netos e são os sobrinhos. O Nuno Melo [líder do CDS-PP e atual ministro da Defesa] acho que é sobrinho de um cónego, o cónego Melo [Eduardo Melo Peixoto, padre bracarense ligado à mobilização anticomunista no Minho e frequentemente associado às redes bombistas de extrema-direita ELP/MDLP], que foi um 'falcão' civil mas foi um 'falcão'. Aliás, nos 30 anos do 25 de Abril, deu uma entrevista em que disse que estava preparado um golpe deles para o dia 30 de novembro e, portanto, o 25 de Novembro antecipou-se [risos]. Mas nós temos o Pacheco de Amorim, que foi um dos dirigentes do MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal, rede terrorista/bombista de extrema-direita responsável por centenas de atentados no PREC]. Portanto, não são só os netos e os sobrinhos, há alguns próprios 'falcões' que estão no terreno, no poder, e estão a tentar…

 

Insubordinar-se.

Insubordinar-se. E alcançar aquilo que não conseguiram alcançar na altura. Os 'falcões' e os sobrinhos dos 'falcões' da extrema-direita acham que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar no 25 de Novembro. Acham agora que há condições para isso, pronto. No que me diz respeito, faço-lhes frente.

 

https://cnnportugal.iol.pt/25-de-novembro/vasco-lourenco/os-sobrinhos-dos-falcoes-da-extrema-direita-acham-que-podem-alcancar-agora-o-que-nao-conseguiram-alcancar-no-25-de-novembro/20251125/69247264d34e3caad84ba133? 

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

William Schryver - O Presidente da Paz Imaginário

 * William Schryver

27 de novembro de 20- 25

Uma das afirmações mais comuns sobre o governo Trump 45 é que "ele não iniciou nenhuma guerra nova".

Isso é comprovadamente FALSO.

Durante seu primeiro mandato, Trump se tornou o principal agente causal de todos os conflitos atuais com a Rússia, a China, o Irã e a Venezuela.

Ele não apenas manteve a trajetória desses conflitos estabelecida pelas administrações americanas anteriores, como também aumentou drasticamente a tensão e acelerou o ritmo da marcha para a guerra.

Ucrânia

Na Ucrânia, entre 2017 e 2021, os preparativos já iniciados para a #MãeDeTodosOsExércitosPorProcuração foram ampliados e acelerados a um nível sem precedentes.

Quase duas dezenas de bases secretas de inteligência dos EUA foram estabelecidas em todo o leste da Ucrânia. Um grande número de militares ucranianos participou de programas de treinamento EUA/OTAN. Oficiais ucranianos foram instruídos no uso de comunicações EUA/OTAN e dados de inteligência/vigilância/reconhecimento (ISR). Uma cadeia de comando foi estabelecida de Kiev até o quartel-general EUA/OTAN na Base Aérea de Ramstein, na Alemanha. Armamento pesado americano foi pré-posicionado na Polônia, e acordos preliminares foram firmados com antigos países do Pacto de Varsóvia (muitos deles agora membros da OTAN) para fornecer à Ucrânia artilharia, blindados, munições e aeronaves de combate soviéticos.

As tropas ucranianas foram introduzidas ao uso de mísseis guiados antitanque Javelin, obuseiros M-777 de 155 mm e sistemas de lançamento múltiplo de foguetes HIMARS.

Algumas aeronaves soviéticas antigas da Força Aérea Ucraniana foram modificadas para transportar e lançar mísseis dos EUA/OTAN.

O enorme complexo de fortificações na região de Donbass foi ampliado e reforçado.

Alguns milhares de "contratados" dos EUA/OTAN foram integrados às forças armadas ucranianas, com preferência para as brigadas neonazistas mais radicais, consideradas as unidades de "elite" das Forças Armadas da Ucrânia.

O foco estratégico durante todo o governo Trump foi concluir a preparação das forças armadas ucranianas para atacar e esmagar os separatistas pró-Rússia em Donbass e, em seguida, retomar a Crimeia, que os russos haviam tomado após o golpe de Estado liderado pelos Estados Unidos em Kiev, em 2014 – e que foi formalmente reintegrada à Federação Russa como resultado de um referendo popular com ampla maioria.

Trump chegou a se gabar de ter sido ele quem começou a armar os ucranianos em uma escala muito maior do que Obama jamais havia feito.

“Fui eu quem forneceu os mísseis Javelin. Lembram-se dos famosos Javelins? Fui eu. Não foi o Obama. Não foi o Biden. Não foi ninguém mais. Fui eu. E eles destruíram muitos tanques com esses Javelins. A expressão era: 'Obama deu lençóis'. E eu forneci os Javelins. Isso foi muito importante na época. Foi no começo, quando as pessoas disseram: 'Uau, isso é impressionante!'. Bem, aquilo era equipamento americano. Sem equipamento americano, esta guerra teria terminado muito rapidamente.”

Presidente Donald J. Trump, Conferência de Imprensa no Salão Oval, 26 de fevereiro de 2025

Aqui está o vídeo completo de onde foi retirada a citação acima:

Este é um fato irrefutável: o governo Trump 45 acelerou e tornou inevitável a guerra cujo estopim final foi aceso no início de fevereiro de 2022, quando os ucranianos iniciaram uma escalada de artilharia em larga escala contra o que alegavam ser posições da milícia de Donbass, mas que eram indistinguíveis de alvos civis aleatórios.

A combinação de todos esses fatores obrigou os russos a agir de forma decisiva (e mais cedo do que desejavam) para ampliar sua presença estratégica na região.

Todos aqueles que afirmam que Trump não tem culpa na guerra na Ucrânia ou desconhecem os inúmeros fatos objetivos, ou os negam.

Diversas vozes geopolíticas proeminentes já alertavam sobre a possibilidade de uma guerra na Ucrânia mesmo antes de Victoria Nuland, John McCain, Lindsey Graham e outros marcharem pelas ruas da Kiev conquistada em 2014.

 

E durante toda a guerra civil que se seguiu, até a intervenção russa no final de fevereiro de 2022, agentes de inteligência e forças especiais dos EUA/OTAN atuaram na Ucrânia, apoiando as movimentações militares do governo de Kiev em Donbass.

A crise tornou-se cada vez mais aguda ao longo do primeiro mandato de Trump, mesmo quando os objetivos gêmeos de subjugar o Donbass e retomar a Crimeia se tornaram cada vez mais evidentes.

Como publiquei no Twitter em abril de 2021:

A Ucrânia tem duas opções: aceitar seu papel como um estado-tampão ou ser desmembrada. Se os EUA a incitarem a tentar subjugar o Donbass, a Rússia irá separar o leste da Ucrânia e assimilá-lo — e não há *nada* que os EUA possam fazer para impedir isso.

Na verdade, as grandes guerras geoestratégicas entre Estados-nação sempre levam décadas para se concretizar. Assim foi no caso da guerra na Ucrânia.

Mas a trajetória inevitável da guerra foi traçada durante o PRIMEIRO mandato de Donald Trump na Casa Branca. Trump é mais responsável pela Guerra da Ucrânia do que Joe Biden pela sua caneta automática. Ao menos Trump demonstrou um grau modesto de coerência em seu primeiro mandato.

A aparição de Joe Biden, atordoada e confusa, simplesmente assistiu, estupefata, aos eventos há muito predestinados passarem diante de seus olhos vazios.

China

Uma das primeiras ações de Trump após sua posse em 2017 foi anunciar a venda para Taiwan de mísseis antinavio Harpoon, mísseis de defesa aérea naval SM-2 e SM-3, torpedos MK-48 e sistemas de radar avançados.

Em 2019, com grande alarde, Trump anunciou a venda de 66 caças F-16V para Taiwan.

 

Em 2020, Trump anunciou a venda de ainda mais mísseis antinavio Harpoon, sistemas HIMARS e drones MQ-9B.

Durante seu primeiro mandato, Trump também enviou cerca de 300 operadores das forças especiais do Exército e da Marinha dos EUA para Taiwan. Desde o início de seu segundo mandato, esse número aumentou para mais de 500, incluindo contingentes substanciais em Penghu e na ilha de Kinmen, que fica a apenas dez quilômetros da costa chinesa.

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O estacionamento permanente de um batalhão inteiro de tropas americanas em Taiwan era algo sem precedentes antes do primeiro mandato de Trump. E, compreensivelmente, é considerado pela China uma provocação sem precedentes. Consequentemente, os preparativos chineses para uma possível guerra em suas águas territoriais e arredores foram intensificados consideravelmente.

E, naquela que é possivelmente a sua jogada estrategicamente mais mal aconselhada, Trump 45 iniciou a guerra comercial e retórica com a China, que continua até os dias de hoje.

Já circulam rumores generalizados de que o Departamento de Guerra dos EUA está preparando um bloqueio naval às importações de energia da China — um ato de completa loucura.

Irã

Trump, em conjunto com os israelenses, iniciou a grande guerra com o Irã, que continua até hoje — embora atualmente esteja em um de seus intervalos típicos.

Naquele que considero o ato de guerra mais descarado de seu primeiro mandato, Trump ordenou o assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, em 3 de janeiro de 2020, no aeroporto de Bagdá.

 

Soleimani estava em missão diplomática em Bagdá a convite do primeiro-ministro iraquiano, Adil Abdul-Mahdi, que atuava como intermediário entre os sauditas e os iranianos, que trabalhavam para reduzir a escalada dos ataques com drones e mísseis realizados por milícias iraquianas contra bases americanas no Iraque e a Zona Verde em Bagdá.

Soleimani estava viajando para entregar a resposta oficial do Irã a uma proposta de mediação da Arábia Saudita.

Em 31 de dezembro de 2019, aparentemente em apoio a essas iniciativas saudita-iranianas para amenizar a situação no Iraque, o presidente Trump fez um telefonema pessoal para o primeiro-ministro iraquiano, Abdul-Mahdi. O líder iraquiano, por sua vez, telefonou para Soleimani para combinar uma reunião na Zona Verde, em Bagdá, marcada para a manhã de 3 de janeiro de 2020.

Soleimani e sua pequena comitiva viajaram abertamente em um voo comercial e foram recebidos no aeroporto pelo líder da milícia iraquiana Abu Mahdi al-Muhandis e alguns outros iraquianos. Enquanto Soleimani, al-Muhandis e outros oito se deslocavam do aeroporto para a Zona Verde em dois veículos, um drone americano MQ-9 Reaper disparou mísseis Hellfire, reduzindo todos eles a escombros.

O presidente Trump ordenou diretamente o ataque e, posteriormente, vangloriou-se publicamente de sua perfídia.

Soleimani era considerado um herói nacional no Irã e, possivelmente, a segunda figura política mais poderosa e influente do país na época, atrás apenas do aiatolá Khamenei.

Os iranianos ficaram justificadamente indignados.

Em 8 de janeiro de 2020, o Irã lançou um ataque com mísseis balísticos contra a base aérea americana de Ayn al-Asad, no Iraque. Cerca de 15 mísseis balísticos iranianos atingiram a base com uma precisão impressionante, embora fosse evidente que o ataque tinha um caráter meramente demonstrativo e que os iranianos evitaram deliberadamente matar soldados americanos.

Ainda assim, a potência do ataque claramente surpreendeu tanto os americanos quanto os israelenses, resultando em uma diminuição dos ataques dos EUA e de Israel contra alvos iranianos até 1º de abril de 2024, quando os israelenses mataram sete oficiais da Guarda Revolucionária Iraniana em um ataque com mísseis contra a embaixada iraniana em Damasco.

Duas semanas depois (13 e 14 de abril de 2024), os iranianos lançaram um ataque massivo e sem precedentes com mísseis contra Israel. Isso levou diretamente a uma série de confrontos entre Israel e Irã que ocorreram ao longo dos meses seguintes, culminando na chamada Guerra dos Doze Dias entre os EUA/Israel e o Irã, de 13 a 24 de junho de 2025.

É claro que é preciso entender que esta guerra entre os EUA/Israel e o Irã AINDA NÃO acabou. Ela está apenas em um breve hiato, e há indícios nos últimos dias de que Israel está planejando novos ataques contra o Irã.

Mas não se enganem, o evento catalisador para essa guerra drasticamente intensificada com o Irã foi o assassinato traiçoeiro de Qasem Soleimani por Trump em 3 de janeiro de 2020.

Venezuela

Trump começou a expressar publicamente seu desejo de entrar em guerra contra a Venezuela e de se apoderar de seu petróleo, no máximo, em julho de 2017. Isso se tornou um tema recorrente para ele, culminando na tentativa fracassada de golpe de Estado de 2019 contra Nicolás Maduró, quando os EUA tentaram instalar o fantoche Juan Guaidó como líder da Venezuela.

Trump teria dito:

“Não entendo por que não estamos olhando para a Venezuela. Por que não estamos em guerra com a Venezuela?”

“É com esse país que deveríamos entrar em guerra. Eles têm todo esse petróleo e estão bem na nossa porta dos fundos.”

A linguagem belicosa de Trump em relação à Venezuela continuou durante todo o seu primeiro mandato e, como resultado, os aliados de longa data da Venezuela, Rússia, China e Irã, começaram a fortalecer de forma mais agressiva as capacidades militares venezuelanas, antecipando um eventual ataque dos EUA e uma potencial invasão do país sul-americano que detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.

Agora, enquanto escrevo aqui no Dia de Ação de Graças de 2025, os Estados Unidos posicionaram uma enorme frota naval e uma força de desembarque de fuzileiros navais na costa da Venezuela, e parece quase certo que as operações militares contra o regime de Maduro começarão em breve, com o objetivo declarado de instalar um novo governo fantoche cuja suposta líder, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, preparada pela CIA, pediu explicitamente uma invasão americana da República Bolivariana e prometeu permitir que os EUA assumam o controle do petróleo, ouro e outras riquezas minerais da Venezuela.

 

O Comando Sul (SOUTHCOM) chegou a produzir um vídeo promocional bem elaborado para a próxima guerra contra a Venezuela:

O Presidente da Paz Imaginário

Trump, consumido por sua própria ânsia de se tornar um laureado com o Prêmio Nobel da Paz, vem afirmando há meses ter encerrado nada menos que oito guerras imaginárias.

Na realidade, o presidente Donald J. Trump demonstrou ser um dos presidentes americanos mais propensos a agir impulsivamente que já vi (Eisenhower ainda era presidente quando eu nasci).

Incrivelmente, ele optou por entrar em conflito com os adversários mais poderosos que os EUA enfrentaram desde a Segunda Guerra Mundial: Rússia, China e Irã. E, pior ainda, catalisou a formação de uma aliança militar e econômica imbatível entre essas três potências civilizacionais em ascensão, mesmo enquanto o poderio militar americano se deteriorava ao seu ponto mais baixo desde o pós-Segunda Guerra Mundial.

É claro que a maioria dos americanos possui conhecimento e compreensão sobre a guerra e o poderio militar dos EUA, tal como retratado durante décadas em filmes de Hollywood e videogames. Portanto, quando Trump se vangloria de ser a maior força militar dos Estados Unidos na história da humanidade, a vaidade americana é facilmente convencida de que não há nação na Terra que os EUA não possam subjugar com uma mão amarrada nas costas.

Nem Donald Trump, nem muitos americanos, percebem que não há mais guerras fáceis para lutar. Mas essa verdade perturbadora será exposta para todos verem daqui até o fim do último mandato do Presidente da Paz Imaginário.

https://imetatronink.substack.com/p/the-imaginary-peace-president? 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

hélder moura - (559) Que fazer com os pobres que não querem deixar de ser pobres?


  •  hélder moura
  •  26.11.25

Cuidar dos necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do Estado.

A imagem do pobre como submisso, bendito, sentado à porta da paróquiamantem-se até ao século XIV.

 A pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública.

Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza, Josiah Child.

O egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos.

Os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou morrer.

O princípio em que assenta o sistema político-económico dos EUA (e evidentemente não só), nação cristã orientada por princípios cristãos, com impostos baixos e sem assistência social, é que cuidar dos necessitados é responsabilidade da igreja e dos serviços de caridade, e não do Estado.

Foi, apesar de tudo, o que sobrou da Idade Média cristã que tinha em pé de igualdade ricos, poderosos e pobres. Embora respeitando os ricos, elogiava os pobres por estarem mais próximos do reino do Céu. A ética medieval, não só tolerava a mendicidade como ainda a glorificava, o que é bem patente na existência das ordens mendicantes (grupos de monges dedicados profissionalmente a serem pobres).

Os pobres (mendigos, doentes, órfãos e rameiras) eram considerados livres de qualquer responsabilidade social, servindo para que os demais pudessem exercer a virtude da caridade.

Esta imagem da época em que o pobre é apresentado como submisso, bendito, sentado à porta da paróquia, vai ser totalmente abalada pela peste negra do século XIV. Dois terços da população desaparecem, escasseia a mão-de-obra sobretudo nas cidades, dá-se a fuga dos campos e da submissão feudal, os súbditos transformam-se em pessoas que se deslocam.

imagem é agora a do sobrevivente que vai de um lado para o outro, como lhe aprouver, trabalhando onde puder, descobrindo o valor dos seus braços.

pobreza começa a aparecer como um ‘problema’ de ordem pública: os mandantes preocupavam-se não por eles serem pobres, mas por se poderem movimentar livremente, o que significava poderem reunir-se, pressionarem, revoltarem-se.

A pobreza passa a ser tema de assunto em livros e discussões. Surge o Tratado do socorro dos pobres de Luís Vives com a sua proposta de criação de ‘casas de Caridade’ para os acolher, ou seja, para os fixar, imobilizar e controlar.

Introduz dois conceitos que se vão revelar importantes: o da responsabilidade social da república para com os pobres, e o da obrigatoriedade do trabalho para todos os acolhidos nas casas de Caridade.

Ao mesmo tempo, os humanistas e os reformadores protestantes proclamam que o homem, ao ser dono do seu destino, passava a ser o único responsável por determinar como viria a ser a sua vida.

O pobre, ao ser pobre porque queria, porque não tinha vontade suficiente, só demonstrava ou a sua fraqueza interior, ou então que tal era o desejo de Deus para que a sua vida fosse de sofrimento.

O conteúdo da ideia da caridade até então predominante encontrava-se esvaziado.

 

Em 1601Isabel I vai publicar a primeira das Leis dos Pobres, Poors Law, criando ao mesmo tempo as casas de trabalho, workhouse. Todo o pobre que fosse fisicamente útil teria de se acolher obrigatoriamente na workhouse da paróquia em que estivesse registado. Ali, eram obrigados a trabalhar a troco de um salário de subsistência.

Por toda a Europa surgiram idênticos lugares de trabalho, onde a troco de um salário mínimo se mantinham vivos os trabalhadores. Esta prática de estabelecimentos estatais de trabalho foram o embrião do aparecimento das grandes empresas privadas.

 

 Os séculos XVII e XVIII prosseguem nesta procura incessante do método para controlar a sociedade, agora já sem ser através do chicote ou das amputações. Algumas pérolas destas ‘preocupações’:

 “A fome domesticará os animais mais ferozes, ensinará aos mais perversos a decência, a obediência e a sujeição. No geral, só a fome poderá levar a ajoelhar (os pobres) e a obrigá-los a trabalhar”, Joseph Townsed, na Dissertation on the Poor Laws.

 “Se se lhes fizer a vida impossível, o número de mendigos reduzir-se-á: um método ainda mais rápido é pela utilização de arsénico, que seria até uma forma mais suave se fosse permitido”, Thomas Carlyle.

 “Pôr os pobres a trabalhar é um dever do homem para com Deus e a Natureza’’, segundo o bem-intencionado Josiah Child.

 

No século XX, o matemático John F. Nash (interpretado por Russell Crowe no filme Mentes Brilhantes), vai concluir, aplicando a ‘teoria dos jogos’, que qualquer ser humano convertido num jogador isolado do resto do mundo, ganharia sempre que se comportasse de uma forma totalmente egoísta, não se coibindo de trair toda a confiança em si depositada e a palavra dada.

Segundo Nash, num mundo de pessoas isoladas, egoístas e racionais, era perfeitamente possível criar um sistema que desse satisfação a todos os jogadores, utilizando apenas como único incentivo a ambição pessoal de cada um.

A conclusão mais geral que se retira do seu trabalho é que o egoísmo de um indivíduo isolado não conduzirá fatalmente ao caos, podendo até estabilizar um sistema de vários indivíduos. Este é o conhecido e famoso ‘equilíbrio de Nash’ (1950).

 Ficou assim demonstrado que é possível, e até desejável, a existência de uma sociedade de indivíduos racionais e isolados, uma sociedade de indivíduos livres, mas controlados e regulados pelo seu próprio egoísmo, sem leis nem polícias.

 

 No século XXI, em princípios de novembro de 2025, uma americana branca (Nikalie Monroe) vai fazer no TikTok uma experiência social em que, fingindo ser uma mãe desesperada por uma lata de leite em pó para o seu bebé com fome, liga para 42 igrejas nos Estados Unidos, documentando quais as respostas que foi obtendo, quais as igrejas que foram prestáveis ​​e quais as que não foram. A grande maioria dos locais de culto que contactou recusou-se a ajudar.

Um dos poucos locais de culto a oferecer-se imediatamente para a ajudar foi uma mesquita na Carolina do Norte, que não só concordou em ajudá-la imediatamente, como também lhe perguntou qual o tipo específico de fórmula infantil de que necessitaria.

Quando a jornalista internacional australiana Caitlin Jonhstone publicou um post no X sobre o assunto, diz ela que recebeu “uma enxurrada de mensagens a dizer que não se deve esperar que a igreja simplesmente distribua esmolas aos necessitados, afirmando que qualquer pessoa que não consiga alimentar o seu próprio filho deve arranjar um emprego e alimentá-lo por conta própria”.

E que “Não acham que os pobres devam receber comida do governo. Não acham que os pobres devam receber comida da igreja. Se os pobres infringirem a lei para obter alimentos, querem que sejam presos durante anos. Acham mesmo que os pobres devem simplesmente deixar de ser pobres ou morrer.

 

Definitivamente, o conteúdo da ideia de caridade deixou de existir.

https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/559-que-fazer-com-os-pobres-que-nao-222717

Eduardo Maltez Silva - É sempre assim que começa ...




*   Eduardo Maltez Silva
 
 ·
É sempre assim que começa: não com um ditador a bater à porta, mas com pequenos sinais que a sociedade finge não ver.

Uma criança brasileira entra na escola e sai dela sem dois dedos, depois de meses a pedir ajuda que ninguém quis ouvir, a direção encolhe os ombros. 

Um jovem bombeiro é violado num quartel que deveria ser símbolo de coragem, com os seus superiores a gravar o vídeo da humilhação. 

Centenas de imigrantes são empurrados pelo Estado para a ilegalidade, para alimentarem máquinas de lucro de máfias que corrompem funcionários do estado. 

Militares da GNR são detidos por proteger redes que transformam pessoas desesperadas em escravos descartáveis.

Empresários sem escrúpulos pagam 80 euros por mês a um imigrante que o próprio Estado força a permanecer ilegal, apenas para alimentar os apetites de ódio que nos mergulharam nesta desumanização do outro.

Nada disto acontece porque “algo correu mal”. 

Acontece precisamente porque está a correr como alguns querem: uma sociedade desenhada para que os de cima pisem os de baixo, para que a violência pareça normal e a indiferença, inevitável.

E esta normalização do mal não nasceu do nada.

Foi semeada, regada e fertilizada por um discurso político que, há anos, ensina o país a culpar os mais fracos em vez de olhar para cima.

Há um padrão a consolidar-se, a humilhação dos fracos pelos fortes. 

Uma hierarquização moral, racial, económica, étnica e ideológica.

A paranoia colectiva repete sempre o mesmo refrão: o inimigo é o imigrante, o cigano, o pobre, a mãe solteira, o sem-abrigo, a pessoa que chega sem nada.

É nesses alvos — e nunca nos verdadeiros predadores — que a extrema-direita treina a raiva do país.

Quem está em baixo é convidado a pisar quem está ainda mais em baixo, com a promessa que assim sobe mais alto.

E assim, a crueldade pinga da política para a sociedade, e da sociedade para as instituições.

Nada disto é acaso; tudo isto é ideologia em prática.

Quando a extrema-direita repete que há “pessoas que valem menos”, que há “portugueses de primeira” e “intrusos”, que os problemas do país se resolvem “limpando” quem está em baixo, está a ensinar uma ética perversa.

Essa ética infiltra-se nos corredores das escolas, nos balneários dos quartéis, nas empresas de trabalho temporário, nas esquadras e até nos partidos que antes se diziam moderados.

De repente, já ninguém estranha um pacote laboral feito para o topo esmagar o fundo, nem uma reforma fiscal criada para aliviar os muito ricos e sufocar quem depende da escola pública ou do SNS.

O Estado desprotege imigrantes, impedindo a sua legalização para que possam ser explorados. 

Os impostos descem para quem tem mais, os serviços descem para quem tem menos. 

A justiça torna-se suave para os poderosos e brutal para os vulneráveis. 

As escolas dividem-se entre as dos meninos ricos e as dos meninos pobres.

Dividir. Hierarquizar. Dominar.

E a tragédia maior é que muitos dos que repetem estas ideias não percebem que estão a entregar a própria vida aos poderosos.

Defendem bilionários que nunca conhecerão, atacam trabalhadores iguais a si, culpam imigrantes que fazem os empregos que eles recusam e entregam o país a elites que só prosperam porque há uma massa de gente ocupada a odiar-se mutuamente.

O fascismo funciona sempre assim: recruta os fracos para proteger os fortes, oferecendo apenas a ilusão de poder — o poder de pisar alguém.

A sociedade dá sinais antes de implodir. Os partidos sociais-democratas e humanistas perdem eleições, nasce um ódio visceral por tudo o que seja socialismo, sem que a maioria perceba o que isso quer dizer.

A democracia vai sendo abafada por algoritmos, por TikToks de ódio, por influencers políticos que transformam racismo, xenofobia e violência num produto viral.
 
Os berros abafam a lógica.   

E esse veneno espalha-se até contaminar tudo: famílias, escolas, instituições, partidos, a linguagem do dia-a-dia... as nossas próprias crianças e jovens.

Quando finalmente acordamos, já a crueldade deixou de chocar. Já o discurso hierarquizante se tornou norma. Já a exploração passou a ser tratada como inevitável.

E um país que se habitua a esmagar os mais fracos não tarda a descobrir que a esmagadora maioria vive do lado dos esmagados... mas, nessa altura, será tarde demais.

2025 11 26
https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

António José Rodrigues - Os revanchistas de Novembro de 1975

*  António José Rodrigues

A decisão do governo da AD de constituir uma comissão para comemorar os 50 anos do 25 de Novembro configura mais um capítulo da operação de falsificação e de deturpação da história, por parte daqueles que nunca se conformaram com a Revolução de Abril. Na verdade, 50 anos depois aí temos muitos dos herdeiros do regime de Salazar e Caetano, agora de forma aberta, a animarem as comemorações do 25 de Novembro, os mesmo que foram objecto das benesses do fascismo, e que são hoje, no Governo e fora dele, os protagonistas da defesa dos interesses do grande capital.

A tentativa de apagar da memória do povo o 25 de Abril e substituí-lo pelo 25 de Novembro está bem patente nas afirmações do ministro da Defesa Nuno Melo, o homem forte das comemorações, as quais foi decidido alongar o período das comemorações por mais cinco meses, até Maio de 2026, para assegurar «que outras datas e acontecimentos só possíveis porque houve o 25 de Novembro venham a ser consideradas, como sejam a aprovação da Constituição da República e as eleições legislativas que deram lugar à primeira legislatura em 25 de Abril de 1976». Afirmações confirmadas na Resolução do próprio Governo.

Uma subtil mas pura mentira, considerando que as primeiras eleições legislativas decorrem da Assembleia Constituinte, realizadas em Abril de 1975, em pleno período revolucionário, e foram fruto da Revolução de Abril. Eleições que a contra-revolução quis adiar para impor uma solução referendária anti-democrática, à laia da Constituição de 1933, elaborada a partir de cima e sem a participação dos eleitos pelo povo. O objectivo em prolongar até Abril as reaccionárias comemorações para assinalar as eleições de 1976 anunciadas como as primeiras, é claro: identificar o processo revolucionário como um período ditatorial. Exemplo de que o 25 de Novembro não pôs fim ao processo iniciado em 25 de Abril, como pretendiam as forças reaccionárias, foi a aprovação e a entrada em vigor da Constituição da República, traduzindo, não apenas, o resultado dos trabalhos da Assembleia Constituinte, mas o resultado da luta do povo português e das forças revolucionárias.

Daí que a Constituição da República ainda hoje, apesar de amputada por sucessivas revisões constitucionais promovidas pelo PS e PSD, continue a manter conteúdos profundamente progressistas, e por isso a ser o alvo preferencial da direita de todos os matizes. Os partidos de direita perseguem o objectivo de rever a Constituição da República, procurando retirar princípios e valores que esta encerra e atentar contra os direitos nela inscritos, com o supremo objectivo de consumar a reconfiguração do Estado ao serviço dos interesses do grande capital nacional e estrangeiro.

O «verão quente» de 1975, que antecedeu o 25 de Novembro, foi um período caracterizado por uma profunda crise político-militar, com graves repercussões no plano económico e social e que, no essencial, resultou da ruptura no campo democrático, com os dirigentes socialistas a assumirem uma posição de reserva e oposição à evolução do processo revolucionário e a liderarem um processo de divisão, quer do movimento democrático quer do movimento popular e sindical em que a acção provocatória do 1.º de Maio de 1975 é momento marcante. Mas também pela cisão no MFA, entre o Grupo dos Nove e a Esquerda militar, que conduziria à desagregação e paralisação das estruturas superiores do Movimento das Forças Armadas (MFA). Um objectivo há muito perseguido pelas forças de direita e da social-democracia, do Grupo dos Nove, mas também de sectores esquerdistas agrupados em torno de Otelo Saraiva de Carvalho, ao mesmo tempo que a Esquerda militar perdia posições importantes nos centros de decisão político-militar.

Uma situação que permitiu que se desenvolvesse um conjunto de acções contra-revolucionárias na tentativa de inverter o curso da Revolução de Abril, nomeadamente recorrendo ao terrorismo, de forma organizada, procurando semear a intranquilidade e o pânico, isolar as forças de esquerda, desestabilizar a situação política e pôr em causa a própria democracia. Uma acção terrorista que atingiu sobretudo o PCP e os sindicatos, e de que é impossível desligar, como pretendem alguns, as acções e iniciativas políticas que caracterizaram o chamado «verão quente» de 1975.

O balanço destas acções é público e conhecido. Em Julho tiveram lugar 86 actos terroristas, dos quais 33 assaltos, pilhagens e incêndios de Centros de Trabalho do PCP e outras 23 tentativas repelidas. Acções acompanhadas do lançamento de bombas, fogos postos e agressões. Em Agosto, mais de 153 acções, das quais 82 assaltos e destruições de Centros de Trabalho (55 do PCP e 25 do MDP/CDE), 39 incêndios, 15 bombas, 23 agressões.

Neste quadro, o 25 de Novembro de 1975 foi o corolário de um longo período de instabilidade, em que o agravamento da crise político-militar e a ofensiva contra-revolucionária decorrem em paralelo, nomeadamente com a queda do V Governo Provisório e o afastamento do general Vasco Gonçalves, também das estruturas superiores das Forças Armadas e do MFA. O afastamento de Vasco Gonçalves era um objectivo há muito perseguido, como nos retrata António Avelãs Nunes no seu livro O Novembro que Abril não merecia: «A pedido do grupo de Melo Antunes, Carlucci pressionava Costa Gomes no sentido de demitir o V Governo Provisório, substituindo o Primeiro-Ministro e afastando os comunistas do novo Governo, e instava os embaixadores da França, RU, e RFA para que também eles pressionassem Costa Gomes (“temos agora de nos interrogar de que lado está Costa Gomes ou, em qualquer caso, se ainda vale a pena preservá-lo”)».

Este longo processo que antecedeu o 25 de Novembro foi também marcado por várias tentativas e acções contra-revolucionárias, em que se destacam o golpe Palma Carlos, o 28 de Setembro e o 11 de Março, através das quais os seus autores e cúmplices as procuraram sempre justificar como sendo respostas a tentativas ou golpes do PCP. O 25 de Novembro não foi excepção.

Das várias provocações montadas neste período com o objectivo de responsabilizar os comunistas e o movimento operário e contra eles atear a ira popular, o assalto à Embaixada de Espanha é profundamente ilustrativo, enquanto o terrorismo bombista ganhava também um lugar de destaque, com a activa participação de militares e políticos, bem como de organizações como o MDLP-Movimento Democrático de Libertação de Portugal, inspirado e chefiado por Spínola, e o ELP-Exército de Libertação de Portugal, entre outras organizações terroristas e contra-revolucionárias que actuavam a partir do estrangeiro, nomeadamente do Brasil e de Espanha.

O 25 de Novembro foi sustentado numa grande aliança contra-revolucionária, internamente muito fragmentada e que contou com o importante contributo de Mário Soares, principal promotor de uma vergonhosa campanha anti-comunista, realizada na base da mentira e de processos de intenções irreais, do PS e do Grupo dos Nove, onde participavam fascistas declarados e outros reaccionários radicais, cujo objectivo era a instauração de uma nova ditadura, que tomasse violentas medidas de repressão, nomeadamente, a ilegalização e destruição do PCP.

A verdade é que, após o golpe do 25 de Novembro, a rápida tomada de consciência dos militares democratas dos riscos que a democracia corria, nomeadamente aqueles que tendo combatido a Esquerda militar não se identificavam com a direita reaccionária, conduziu à criação de uma nova linha de defesa da democracia, designadamente no seio das Forças Armadas, e impediu que o 25 de Novembro liquidasse a revolução portuguesa e as suas conquistas. Importa, a propósito, relembrar o papel do esquerdismo e de forças como o MRPP, a AOC ou o PCP(m-l) que se aliaram ao PSD e ao CDS, e acabaram por se revelar agentes da direita e da extrema-direita, sem esquecer que destes partidos emergiu um número infindável de figuras, de que Durão Barroso será o expoente máximo pelos elevados cargos que exerceu no plano nacional e internacional, mas que se estende por um número infinito de políticos, jornalistas, «comentadores» e «analistas», que hoje se albergam no bloco central de interesses e continuam, «coerentemente», anticomunistas e ferozes defensores do grande capital, que havia sido derrotado no 25 de Abril e no 11 de Março.

O 25 de Novembro, ao contrário do que muitos dos seus protagonistas disseram e escreveram e alguns continuam a insinuar, não foi um golpe promovido pelo PCP, pela Esquerda militar ou pela «ala gonçalvista» do MFA, mas sim um golpe militar contra-revolucionário, fruto de uma cuidada e longa preparação, no quadro de um tumultuoso processo de rearrumação de forças no plano político e militar.

Álvaro Cunhal, no livro A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se), explica que, «como a orientação e acção do PCP e os acontecimentos provassem que não tinha havido nem golpe nem tentativa de golpe do PCP, inventou-se a tese do "recuo" – a história de que o PCP, vendo que o seu golpe militar, já desencadeado, iria falhar, recuou e desistiu do golpe. Essa tese do "recuo do PCP" é condimentada com uma insultuosa afirmação de Mário Soares: que o PCP teria lançado o golpe, mas, vendo que ia ser derrotado, deixou no terreno os esquerdistas "abandonados pelo PC" à sua sorte e à repressão (Maria João Avillez, Soares. Ditadura e Revolução). Falsidade e calúnia retomada por Freitas do Amaral (O Antigo Regime e a Revolução).

Explique-se. Esta invencionice, como argumento, deturpa dois factos reais: Um, as orientações dadas pela Direcção do PCP na noite de 24 para 25 a algumas das suas organizações para não se deixarem arrastar em atitudes ou na participação em aventuras esquerdistas de confronto militar (casos do Forte de Almada e do RAL1). Outro, uma conversa telefónica na mesma noite de 24 para 25 entre o Presidente da República Costa Gomes e o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, em que este, tendo tomado a iniciativa do contacto, nos termos habituais da ligação institucional com a Presidência da República, comunicou ao Presidente, desmentindo especulações em curso, que o PCP não estava envolvido em qualquer iniciativa de confronto militar e insistia em apontar a necessidade de uma solução política».

O PCP teve uma acção incansável no sentido de evitar o confronto, expressa em intervenções do seu secretário-geral, comunicados da sua Comissão Política e em variados documentos incluindo no próprio jornal Avante!, apontando uma saída política para a crise, propondo e concretizando encontros com todos os sectores, do PS (que recusou) aos agrupamentos esquerdistas, da Esquerda militar ao Grupo dos Nove e a militares esquerdistas ligados ao COPCON, embora sem resultados práticos.

Uma proposta que não obteve respostas, até porque o PS e os seus aliados tinham prosseguido as encenações e provocações com o objectivo de atingir e responsabilizar o PCP: primeiro, o caso do jornal República com os trabalhadores a tomarem posição contra a direcção do jornal e a orientação política por este seguida, tendo os dirigentes socialistas e os responsáveis do República, como então afirmou o PCP, «elementos mais do que suficientes para saberem que é uma calúnia tão torpe como absurda o atribuírem a responsabilidade da posição dos trabalhadores do jornal ao PCP»; depois, as manifestações no Patriarcado, resultado de algumas justas reivindicações profissionais do trabalhadores da Rádio Renascença não terem encontrado, por parte da hierarquia da Igreja, qualquer perspectiva de solução, com os comunistas a condenarem «todos os actos e atitudes que representam uma ofensa aos sentimentos religiosos do nosso povo». Na altura, o PCP sublinhou ainda «que sempre tem defendido e continua a defender a liberdade religiosa» sem, contudo, deixar de registar com preocupação uma nota pastoral dos Bispos, considerando-a uma «clara intromissão negativa na actual situação política, o que só poderá agudizar as dificuldades existentes».

Os acontecimentos do 25 de Novembro, porventura, nunca teriam acontecido se os golpistas liderados por Spínola não tivessem sido derrotados em 11 de Março, uma derrota que originou a imediata tomada de decisões históricas como a institucionalização do Movimento das Forças Armadas (MFA), a extinção da Junta de Salvação Nacional e do Conselho de Estado, a criação do Conselho da Revolução, a nacionalização da banca, dos seguros e de empresas como a TAP, a CP, a CIDLA, a SACOR, e ainda o aumento do Salário Mínimo Nacional para quatro mil escudos. A democracia portuguesa escolhe o rumo do socialismo.

Após a derrota do golpe de 11 de Março, em «meados de Julho» de 1975, como nos relata o insuspeito historiador José Freire Antunes (antigo deputado e dirigente do PPD/PSD) no livro O segredo do 25 de Novembro, o então major Ramalho Eanes, usando o nome de «João Silva», faz um contacto telefónico com o tenente-coronel Tomé Pinto, que se encontrava na 2.ª repartição do Estado-Maior do Exército. Era o pontapé de saída para a constituição do «Grupo Militar» que haveria de promover o golpe do 25 de Novembro.

Curiosamente, o mesmo Tomé Pinto, agora tenente-general na reforma, foi escolhido por Nuno Melo para presidir à comissão das comemorações dos 50 anos do 25 de Novembro.

O golpe do 25 de Novembro significou a criação de uma nova situação política, uma viragem à direita na vida nacional, mas os mais ambiciosos objectivos contra-revolucionários foram derrotados. A força e a dinâmica do movimento operário e popular e a intervenção esclarecida do PCP foram factores determinantes para a contenção do golpe. Em lugar de reprimido e ilegalizado, o PCP continuou no Governo e a reforçar a sua influência social e política. A aprovação da Constituição e a sua entrada em vigor constituiu um factor de primeiro plano para travar os planos golpistas. Será com a formação do primeiro governo constitucional do PS sozinho, mas de facto aliado à direita, que se virá a institucionalizar o processo contra-revolucionário.


Revolução de AbrilEdição Nº 399 - Nov/Dez 2025

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