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sábado, 28 de dezembro de 2024

Crônicas Históricas · - Dados perturbadores da Idade Média

Ao visitar o Palácio de Versalhes em Paris, Nota-se que o sumptuoso palácio não tem banheiros. Na Idade Média, não havia escovas de dentes, perfumes, desodorizantes, e muito menos papel higiênico. Os excrementos humanos eram jogados pelas janelas do palácio. Em um feriado, a cozinha do palácio conseguiu preparar um banquete para 1500 pessoas. sem a mínima higiene.

Nos filmes atuais vemos as pessoas dessa época abanar ou abanar... A explicação não está no calor, mas no mau cheiro que eles emitiam sob as saias (que foram feitas de propósito para conter o cheiro das partes íntimas, pois não havia higiene). Também não era costume tomar banho devido ao frio e quase inexistência de água corrente. Só os nobres tinham lacaios para abaná-los. para dissipar o mau cheiro que o corpo e a boca expiravam, além de afugentar os insetos.

Aqueles que estiveram em Versalhes admiraram os enormes e belos jardins que, naquele momento, não só eram contemplados, mas usados como sanita nas famosas baladas promovidas pela monarquia, porque não havia banheiros.

Na Idade Média, a maioria dos casamentos ocorreram em junho (para eles, o início do verão). A razão é simples: o primeiro banho do ano era tomado em maio; então, em junho, o cheiro das pessoas ainda era tolerável. No entanto, como alguns cheiros já começaram a incomodar, as noivas levavam buquês de flores perto dos corpos para cobrir o fedor. Daí a explicação da origem do buquê de noiva.

Os banheiros eram tomados em uma banheira enorme cheia de água quente. O chefe da família teve o privilégio do primeiro banho em água limpa. Depois, sem trocar a água, chegavam os outros na casa, por ordem de idade, mulheres, também por idade e, finalmente, crianças. Os bebês eram os últimos a tomar banho. Quando chegava a sua vez, a água na banheira estava tão suja que era possível matar um bebê lá dentro.

Os telhados das casas não tinham céu e as vigas de madeira que os seguravam eram o melhor lugar para os animais: cães, gatos, ratos e escaravelhos mantivessem-se aquecidos. Quando chovia, as fugas obrigaram os animais a saltar para o chão.

Os que tinham dinheiro tinham pratos de lata. Certos tipos de alimentos oxidaram o material, fazendo com que muitas pessoas morram por envenenamento. Lembremos que os hábitos higiênicos da época eram terríveis. Os tomates, sendo ácidos, foram considerados venenosos por muito tempo, as xícaras de lata eram usadas para beber cerveja ou whisky; essa combinação, por vezes, deixava o indivíduo "no chão" (numa espécie de narcolepsia induzida pela mistura de bebida alcoólica com óxido de estanho).

Alguém que passasse na rua pensaria que ele estava morto, então eles recolhiam o corpo e preparavam-se para o funeral. Depois colocou o corpo na mesa da cozinha por alguns dias e a família ficava olhando, comendo, bebendo e esperando para ver se o morto acordava ou não. Daí que os mortos são velados (velatório ou velório), que é a vigília ao lado do caixão.  Inglaterra é um país pequeno, onde nem sempre havia lugar para enterrar todos os mortos. Depois abriam-se os caixões, removiam-se ossos, colocavam-se em ossários e o túmulo era usado para outro cadáver.

Às vezes, ao abrir os caixões, notava-se que havia arranhões nas tampas do interior, o que indicava que o homem morto tinha sido enterrado vivo. Assim, ao fechar o caixão, surgiu a ideia de amarrar uma tira do pulso do falecido, passar por um buraco feito no caixão e amarrá-la a um sino. Depois do enterro, alguém ficava de serviço perto do túmulo por alguns dias. Se o indivíduo acordasse, o movimento do seu braço tocaria o sino. E seria "salvo pela campanha", uma expressão usada por nós até hoje.

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Livro gratuito reúne cartuns da Revolta da Vacina


Jornalista reúne ilustrações publicadas nos jornais sobre rebelião em 1904. Hoje, receio de se vacinar volta a ser empecilho no controle da proliferação do coronavírus.

Publicado 18/02/2021 16:02

O movimento antivacina em pleno século 21 no transcorrer da pandemia de Covid-19 fez com que a sociedade relembrasse um dos casos mais emblemáticos da saúde pública no Brasil: a rebelião no Rio de Janeiro contrária à decisão do governo de vacinar a população no combate à febre amarela, em 1904 – conhecida como Revolta da Vacina.

Além da falta de informações que favorece a suspeita contra o imunizante, outros elementos contribuíram para a Revolta da Vacina. A desastrosa reforma urbana que expulsava os pobres da região central sem considerar os fatores socioeconômicos e culturais é um dos exemplos que podem ser citados para a explosão da revolta. Mas o medo da população em ser inoculada com um vírus foi o argumento final para a resistência à campanha de vacinação em 1904.

Quase 120 anos depois, o receio de se vacinar volta a ser um empecilho para controlar a proliferação de um vírus. Apesar da evolução da ciência, que proporciona diversos estudos sobre os benefícios e segurança da vacinação, e do acesso à informação, é preciso novamente convencer o brasileiro a se vacinar.

Para ter uma noção do que se passou em 1904, no último grande marco de resistência aos imunizantes, o jornalista curitibano Eduardo Aguiar reuniu charges e cartuns sobre o tema. As ilustrações, com alto poder de síntese e capacidade de comunicação, auxiliam-nos a compreender a percepção geral do movimento na época. Na Hemeroteca da Biblioteca Nacional, ele pesquisou os principais veículos de comunicação do Rio, então capital federal.

Aguiar selecionou 60 cartuns para ilustrar os sentimentos que percorriam a cidade: medo, desconfiança, revolta. Aliado à reprodução das charges e ilustrações, Eduardo produziu um texto para contextualizar algumas imagens para o leitor do século 21. Uma boa parte dos personagens da política da época, por exemplo, sumiu do imaginário popular.

O resultado é o livro Revolta da Vaccina, disponível de graça na Internet.


Em comparação com o momento atual, é possível destacar diferenças claras. O governo que estipulava a obrigatoriedade da vacina era do sanitarista Oswaldo Cruz, que enxergava na pandemia um risco de vida elevado para milhares de pessoas. A imprensa e população, assim como alguns intelectuais e políticos, repreendiam a campanha de vacinação.

Atualmente, o próprio governante, o presidente Jair Bolsonaro, critica e diminui a importância da vacina contra a Covid-19. Além de comprar poucas doses, o governo federal anuncia a não-obrigatoriedade da vacina sob o pretexto de liberdade individual e investe em medicamentos sem eficácia comprovada no combate à doença.


Daqui a cem anos, os cartuns de hoje poderão ser vistos como uma representação do momento atual do país e da grave crise causada pelo coronavírus, que seria amenizada com uma campanha de vacinação eficiente e massiva.


Clique aqui para baixar o livro.  http://zelig.digital/revoltadavacina/ 

Fonte: Plural

https://vermelho.org.br/2021/02/18/livro-gratuito-reune-cartuns-da-revolta-da-vacina/

domingo, 15 de março de 2020

António Barreto - Emergência e razão

  António Barreto

15 de Março de 2020, 8:22

Os responsáveis pela pandemia e por esta loucura gerada à sua volta são os chineses, o respectivo governo, as suas forças armadas, os seus industriais e os seus comerciantes. Internamente, aproveitam para reforçar a ditadura. Externamente, perturbam o mundo inteiro, fazem mal aos Estados Unidos e aos Europeus, promovem as vendas dos seus produtos farmacêuticos e fazem subir os preços dos seus produtos industriais e electrónicos. Quanto ao número de chineses mortos, ou se trata de mentira descarada permitida pela censura daquele país, ou então é verdade, mas não tem muita importância, dado que eles têm uma noção diferente da vida e da morte das pessoas e que, de qualquer maneira, há tantos chineses!

Como é cada vez mais evidente e provado em relatórios secretos, foi um acidente ocorrido nas instalações chinesas de investigação e produção de vírus e bactérias destinados à guerra biológica e que de qualquer maneira teriam o mundo ocidental como destino.

Na verdade, as várias explicações fornecidas ao público são geralmente boatos destinados a encobrir a verdadeira razão: a origem está de facto nas instalações fabris chinesas destinadas a produzir armas biológicas de destruição maciça, mas tratou-se da execução de um plano deliberado de ameaça às economias e às políticas ocidentais, com o intuito de os obrigar a aceitar as regras e as condições chinesas para os mercados internacionais.

Tem custado muito a ser averiguado, mas já há alguma evidência capaz de sustentar o argumento de que foi este o mais bem urdido plano russo para destruir o ocidente liberal e democrático, facto visível nas quase nulas taxas de mortandade e de contágio verificadas na Rússia.

Tudo leva a crer que tenham sido os grupos islâmicos, moderados ou radicais, que assim conseguiram, pela primeira vez na história, cancelar milhares de missas e outras liturgias católicas através de toda a cristandade, especialmente preparadas para as festividades da Páscoa.

Há provas de que foram os judeus, mais uma vez, que melhor souberam aproveitar o vírus chinês, a fim de ameaçar os europeus e árabes, seja porque não são solidários com o Estado de Israel, seja porque aceitam fazer Jogos Olímpicos e Campeonatos de futebol em países muçulmanos.

A pandemia descontrolada é evidentemente alimentada pelas comunidades racializadas do mundo inteiro (especialmente negros e ameríndios), na mais clara e eficaz campanha de descrédito da civilização ocidental e europeia.

Trata-se de uma das mais conseguidas campanhas de terrorismo jamais concebidas e postas em prática, que não só vai destruir a serenidade em muitos países, desviar as atenções da segurança interna fazendo-as concentrar na segurança sanitária e atacar frontalmente alguns dos países mais ferozmente inimigos do terrorismo, designadamente os Estados Unidos e a China. É aliás surpreendente que ninguém tenha reparado que até agora não morreu um só dirigente dos movimentos terroristas e ninguém, daqueles grupos, tenha sido infectado.

Os principais responsáveis por esta verdadeira paranóia são evidentemente os laboratórios farmacêuticos, os produtores de vacinas e de desinfectantes que esperam ganhar milhares de milhões com este desvario. Não se sabe se foram eles que produziram e espalharam o vírus, ou se apenas se limitaram a aproveitar a oportunidade para fomentar a neurose e estimular as despesas colossais já em curso. Mas que são os primeiros responsáveis pela histeria não sobram dúvidas.

Como é evidente, esta alegada pandemia não é mais do que obra dos movimentos e grupos de extrema-direita, dos nacionalistas, da supremacia branca e dos racistas de todas as comunhões, na tentativa de destruir as liberdades de deslocação, os fluxos de refugiados e emigrantes, a miscigenação das populações a e integração das minorias.

Não há dúvidas de que este fenómeno, se não foi causado, foi pelo menos aproveitado pelas forças liberais e ultraliberais, a começar pelos grupos privados de hospitais e medicamentos, com o objectivo de destruir os serviços nacionais de saúde e todos os serviços públicos de saúde, protecção e educação.

Tem sido uma verdadeira conspiração dos governos ocidentais que, aproveitando-se de um acidente sanitário chinês, fabricaram uma autêntica crise internacional e têm vindo a promover um pânico colectivo que não tem outro fim que não seja o de desviar as atenções das populações e da comunicação social para os graves problemas políticos, sociais e económicos dos respectivos países e dos sistemas democráticos aí vigentes.

A psicose colectiva e o pavor das multidões foram fenómenos induzidos pelo governo português, a fim de desviar a atenção do público e de não reflectir nos verdadeiros problemas do povo e dos trabalhadores.

Está claro que foram os sindicatos, designadamente os de funcionários públicos e de professores, os principais responsáveis pela neurose, com a intenção de beneficiar de umas semanas de precaução, mas, na verdade, ganhar umas férias pagas e pelo menos duplicar a duração das férias de Páscoa.

A paranóia persecutória está a ser alimentada pelo governo português que, não vendo como resolver os seus problemas de maioria parlamentar e de governabilidade, melhor não viu do que desencadear esta crise artificial com o objectivo de reforçar o seu poder e de reduzir o espaço de manobra dos seus adversários.

As farmácias, as drogarias e os supermercados, assim como as lojas dos chineses, têm alimentado o alarme, esvaziam artificialmente as prateleiras e colocam cartazes nas montras anunciando produtos esgotados, pois assim limpam stocks e vendem produtos fora de prazo.

As redes sociais e os órgãos de comunicação exclusivamente on-line decidiram demolir definitivamente os jornais ainda impressos em papel e, graças à sua superioridade de fornecimento de notícias ao minuto, torná-los simplesmente obsoletos.

Só não vê quem não quer!



* Victor Nogueira
Isto é humor negro? É um texto para acreditar e levar a sério? Quem sofre de iliteracia vais mesmo acreditar nesta amálgama? A sua publicação no inFaceLocked levaria ao seu imediato  banimento por violar os "misteriosos" "Padrões da Comunidade"?

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Manuel Loff - A Peste



OPINIÃO
A peste
Relida hoje, A peste é uma terrível lição do modelo de sociedade em que vivemos, em que nos tornámos, submetidos a golfadas cada mais globalizadas de medo, uma desinformação catastrofista que toma conta não só das redes sociais, como aparece disfarçada de “informação responsável” nos media ditos convencionais.

27 de Fevereiro de 2020, 5:59

Oran, Argélia francesa, anos 40. Foi onde Albert Camus situou a sua narrativa sobre os efeitos que uma epidemia tem no comportamento coletivo. [Agradeço à Maria Abreu Pinto aconselhar-me a novela.] No dia em que o número de vítimas mortais atingiu a trintena, as autoridades decidem “declarar o estado de peste” por tempo indeterminado e fechar a cidade: ninguém pode entrar, ninguém pode sair. “A partir desse momento”, conta o narrador, “pode-se dizer que a peste foi um problema de todos nós. Até então, apesar da surpresa e inquietação (...), cada um dos nossos concidadãos tinha mantido a sua atividade como podia. (...) Mas, uma vez fechadas as portas, todos nos apercebemos termos sido apanhados no mesmo saco”. “A primeira coisa que a peste trouxe aos nossos concidadãos foi o exílio” — o dos que, antes do bloqueio da cidade, haviam podido sair, e o exílio interior de quem ficara, “reduzidos à nossa condição de prisioneiros, ao nosso passado, e se mesmo alguns de nós se sentissem tentados a viver no futuro, rapidamente desistiriam, tanto quanto lhes era possível, ao sentir as feridas que a imaginação inflige àqueles que nela confiam”.

Relida hoje, A peste é uma terrível lição do modelo de sociedade em que vivemos, em que nos tornámos, submetidos a golfadas cada mais globalizadas de medo, uma desinformação catastrofista que toma conta não só das redes sociais, como aparece disfarçada de “informação responsável” nos media ditos convencionais. “Os media há muito exploram [a nossa perceção das ameaças] para captar a nossa atenção. (...) Em âmbitos como a política ou a saúde, a desinformação é particularmente nefasta porque nos pode levar a tomar decisões contrárias aos nossos próprios interesses sem ter conciência disso”, como lembra Ferran Lalueza (Universidade Aberta da Catalunha, Público.es, 25.2.2020).

Tudo quanto sabemos do contágio do coronavírus (processos, rapidez, efeitos) já o sabíamos há muito do banal vírus da gripe; ambos têm um grau de letalidade semelhante, muito inferior ao de epidemias anteriores (gripe A, das aves) com cujo alarme já então injustificado parece que não aprendemos nada. Doença originada num Oriente recorrentemente visto como fonte de ameaça (a China-das-doenças, como o Islão-do-terrorismo), ela tem-nos contagiado a todos da mesma paranóia descrita pelos cronistas do século XIV, ou do XVI, ou de tantos momentos da história anterior aos sistemas públicos de saúde, cheias de uma crueldade que tende a propagar-se muito mais célere que a solidariedade humana. Depois de vermos as aterradoras medidas de contenção social que o governo chinês tomou em regiões inteiras, cidadãos ucranianos repatriados da China apedrejados em protesto contra o seu regresso, chineses maltratados em cidades italianas, sujeitas, por sua vez, mal os primeiros casos se detetaram, a esquemas (frequentemente improvisados pelas autoridades locais contra o parecer das autoridades sanitárias) de controlo policial dos acessos, supermercados esvaziados, cancelamento de manifestações (culturais, desportivas, políticas) e transportes, escolas e fronteiras fechadas — as da Rússia com a China, da Áustria com a Itália, dentro de horas provavelmente de todas dentro da UE... Ontem, a ponderada diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, conseguiu ainda duvidar da utilidade de “medidas desta natureza [que] só devem ser tomadas se trouxerem benefício efetivo para a saúde pública” (Antena 1, 26.2.2020); ao primeiro viajante que se confirme ter trazido de fora a doença, pedirão a cabeça dela...

Até parece que acabámos de descobrir os vírus e as suas formas habituais de contágio! De que serve fechar fronteiras, exigir que se mostrem passaportes, encostar um termómetro a uma testa de um qualquer de nós assintomático? De alguma coisa serve. Serve para continuar a alimentar esta cultura do medo coletivo que tem alastrado desde o 11 de Setembro. O medo, sabemo-lo há muito, “é um indicador de poder (...) uma emoção essencial na arte de governar”. O que agora se faz é “tentar despolitizá-lo”, como se ele não fosse uma forma de “enquadramento que retira responsabilidades e que pode chegar a aniquilar”, cumprindo o velho “lema de todos os dirigentes na história do mundo: fazer temer, em vez de fazer crer — sem nunca fazer compreender” (P. Boucheron, C. Robin, R. Payre, L'exercice de la peur, 2015).

Não surpreende que estes sejam tempos de racismo e de neofascismo.

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O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Historiador

sábado, 19 de dezembro de 2009

A vacina - Alice Vieira

 

A vacina

A vacina

Jornal de Notícias - 2009-11-07

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O meu amigo António acaba de receber uma carta avisando-o de que, a partir do dia tal, deverá ir ao centro de saúde, das tantas às tantas, para lhe ser administrada a dose da vacina a que tem direito.
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O meu amigo António é mais novo do que eu, professor recentemente reformado. Solteiro e sem filhos, vive sozinho lá no seu casarão numa pequena cidade dos arredores de Lisboa, entre quadros, livros e música. O meu amigo António não é obeso, não tem asma, não tem nenhuma doença crónica, não sofre de coisa nenhuma em especial e, evidentemente, não está grávido.
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O meu amigo António não guia táxi, não é deputado, não atende ao balcão, e não pratica enfermagem nos tempos livres. Além disso, o meu amigo António teve a asiática em pequenino ("foi uma festa, fecharam as escolas todas!") e parece que isso garante uma certa imunidade à gripe A.
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O meu amigo António olhou para a carta, leu-a e releu-a, e de repente começou a sentir-se mal. Muito mal mesmo. Porque, sendo uma pessoa absolutamente saudável, o meu amigo António sofre de uma doença absolutamente incurável: é hipocondríaco em altíssimo grau.
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E neste momento anda a incomodar meio mundo (médico de família, médicos da urgência a que costuma recorrer, família, amigos chegados, meio chegados, afastados, afastadíssimos, vagamente conhecidos) para que lhe digam a verdade. Ou seja: ele deve estar muito mal e não sabe. Ele deve estar em risco de patinar e toda a gente lhe anda a esconder o seu estado.
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"Ó doutor, o doutor já me conhece, eu aguento, juro que aguento, mas não me esconda nada! Se os serviços de saúde me convocaram - e olhe aqui, não há dúvida, é o meu nome todo… - é porque devem saber mais do que eu… Diga-me lá, doutor: é grave?"
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O pobre do médico já lhe disse quinhentas vezes que ele não tem nada, está em óptimas condições de saúde, até a tensão é a de um jovem, nem colesterol alto, nada de nada. Mas ele não se conforma: se os serviços de saúde o chamaram, é porque é prioritário; se é prioritário é porque alguma coisa de mal deve ter…
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De vez em quando telefona-me e, em voz cava, pergunta: "Já te chamaram?" E eu vou sempre dizendo que não, mas ele que não perca a esperança, um dia destes se calhar lembram-se de que tive hepatite C há 50 anos, e um cancro já lá vão mais de 20 - e também me consideram prioritária.
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Mas ontem o António telefonou muito mais animado. Assim como se lhe tivessem tirado um peso de cima. É que segundo leu nos jornais, parece que os centros de saúde lá da cidade dele receberam doses da vacina que nunca mais acabam, e por isso vai ser tudo vacinado a eito. Respirou ele fundo e respirámos nós. A vacina pode vir a ser-lhe muito eficaz a prevenir a gripe, mas ia-o matando de coração.
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