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domingo, 31 de maio de 2026

Margarida Davim - Os ricos também choram

 


 Opinião Tudo é política

* Margarida Davim

No lobby da festa apareceram pequenas garrafinhas, daquelas que costumam ser usadas para servir bebidas, cheias de urina, com a cabeça calva de Bezos no rótulo, numa alusão às regras da Amazon que tornam um inferno uma simples ida à casa de banho durante um turno. Junto à passadeira vermelha, os manifestantes gritaram uma frase que resume bem o momento em que as descidas de impostos aos mais ricos se traduzem diretamente na falta de cuidados a todos os outros. “We need healthcare, not a another billionaire.”

Os vestidos de caudas impossíveis, os corpetes ao estilo de armaduras, as maquilhagens exageradas e os cabelos meticulosamente penteados ficaram subitamente expostos ao seu ridículo vazio. Era possível vê-lo nas caras dos convidados, que tentavam fugir rapidamente ao protesto que se desenrolava à porta. “Devias ter vergonha, Jeff Bezos”, lançava, com uma dignidade atordoante, uma mulher negra de 72 anos, que continua a ter de trabalhar num armazém da Amazon para viver, apesar da idade avançada. “Nós merecemos essa festa, nós merecemos muito mais do que recebemos”, avisava Mary Hill, projetada no arranha-céus, sem medo de ameaçar um dos senhores do mundo. “Há força nos números e há muitos mais de nós do que de vocês, bilionários.” Na rua, as pessoas comuns passavam e olhavam com um sorriso de admiração para aquela mulher franzina que subitamente tinha alcançado o tamanho de um gigante e, com a sua força, reduzia o multimilionário à sua imensa fragilidade de homem sozinho, capaz de ser esmagado pelos mesmos que oprime e explora.

O protesto não mudou o mundo. Um protesto sozinho nunca muda nada. Mas alguma coisa tremeu. E a prova disso chegou, pouco depois, quando o milionário CEO da empresa americana Vornado, Steven Roth, mostrou o quão temida e poderosa é esta mensagem ao comparar o slogan “tax the rich” a – imagine-se – um “discurso de ódio”. Roth teve a infelicidade de denunciar este ódio de classe na mesma semana em que saiu nos Estados Unidos um estudo que mostra que cerca de metade dos americanos não ganha, trabalhando, o suficiente para viver. “Os ricos”, disse ele ao New York Times, “são o epíteto do sonho americano. Estão no topo da pirâmide económica americana por uma razão. Deviam ser louvados e alvo de gratidão”, defendeu o milionário, para quem a simples ideia de que a sua riqueza deve ser taxada é semelhante a uma “tirada racista”.

A desfaçatez com que se compara um pedido de justiça social a ataques racistas só é possível graças a uma construção ideológica que associa riqueza – mesmo a mais desmedida – a mérito, ao mesmo tempo que se cria a ilusão de que a fortuna é um estatuto acessível a quem se esforce. A última década foi a era da pornografia da riqueza. Os média e as redes sociais encheram-se de imagens a que chamaram “aspiracionais”, ao mesmo tempo que as marcas de luxo encontravam formas de vender produtos aos menos abonados para que de alguma maneira eles se sentissem parte de um clube no qual nunca iriam verdadeiramente entrar. Os restaurantes passaram a ser gourmet. Os hotéis transformaram-se em boutiques. E uma massa de gente da classe trabalhadora ganhou assim a ilusão de estar mais perto de ser rica.

Esse é o truque. Que penses que és rico porque compraste um Tesla ou um BMW, porque foste de férias para um resort qualquer, porque podes dar-te ao luxo de ir aos restaurantes da moda, porque tens um salário de diretor, seguro de saúde e regalias. Isso não é ser rico. Parece que é, sobretudo quando há tanta gente que mal chega ao final do mês, tanta gente a adiar consultas médicas porque não pode pagá-las, tanta gente sem ter como pagar uma casa. Mas este truque é tão bem feito que até esses, tantas vezes muito perto de serem pobres, se sentem quase ricos, porque esgotaram as poupanças num iPhone ou andaram a amealhar o ano inteiro para uma semana em regime de “tudo incluído”.

E esse truque é importante precisamente por aquilo que nos disse Mary Hill, a trabalhadora que arrasta a sua velhice num armazém da Amazon para viver. “Porque há força nos números.” Porque há milhões e milhões de trabalhadores e apenas 12 pessoas que concentram mais de metade da riqueza da Humanidade. Repitam comigo: 12 pessoas. E pensem sobre isso de cada vez que acharem que são ricos ou que um dia vão ser ricos. Porque essa ideia é o que vos tem empobrecido. É graças a essa ideia que todos os dias perdemos direitos no trabalho, na saúde, na educação, na habitação. É essa ideia que permite que mais de metade da riqueza do mundo esteja nas mãos de uma dúzia.

O algoritmo do Instagram começou a mostrar-me memes sobre como os níveis de desigualdade regressaram a um ponto só comparável com o período antes da Revolução Francesa. Lembram-se da Revolução Francesa da “igualdade, liberdade, fraternidade” e das guilhotinas? O tal CEO americano deve ter-se lembrado e, por isso, tremeu. E por isso acusou de racismo quem só pede um mundo um pouco mais justo, quem só pede que haja uma maior distribuição da riqueza que existe e é criada todos os dias por quem trabalha. Quando pela primeira vez em décadas alguém aparece e os desafia de frente, a primeira reação é gritar “crime de ódio”, sem se lembrarem das vezes que escarneceram os “wokes” que lutavam contra a discriminação de minorias. Afinal, não existe minoria mais minoritária do que a dos milionários.

Na TVI, passa agora uma telenovela com o título Os Ricos Também Choram. É uma versão de um drama mexicano que se estreou em 1979, precisamente quando começou no mundo a onda que há mais de 40 anos tenta desmantelar as políticas públicas de redistribuição da riqueza. O título é comovente. Mas talvez o “também” esteja a mais. Afinal, humanos são só aqueles que ascendem ao topo da pirâmide. Louvemos o seu mérito e estejamos gratos pela sua existência. 

22.05.2026  

https://visao.pt/opiniao/tudo-e-politica/2026-05-22-os-ricos-tambem-choram-cronica-de-margarida-davim/

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Prabhat Patnaik - O ataque mundial aos trabalhadores




Proposição da “supply-side economics”:   “Os ricos trabalham melhor se lhes pagarem mais, enquanto os pobres trabalham melhor se lhes pagarem menos”.

*  Prabhat Patnaik [*]


Sob o capitalismo tardio, há um ataque ao povo trabalhador que faz lembrar o capitalismo inicial e este ataque é mundial, não só no terceiro mundo como também nos países capitalistas avançados. O ataque ocorre a três níveis:   económico, político e ideológico.

O assalto a nível económico tem sido muito falado e é o resultado tanto do aumento da inflação como do grande aumento do desemprego que atualmente afligem o mundo capitalista. A inflação mais elevada foi iniciada por um aumento espontâneo das margens de lucro administrado pelo grande capital, em particular nos Estados Unidos, que depois se espalhou por todo o mundo capitalista (o mecanismo desta propagação não será discutido aqui, mas num artigo posterior); e o aumento do desemprego é o resultado conjunto tanto da crise capitalista mundial como das tentativas oficiais de conter a inflação em todo o lado à custa da classe trabalhadora, reduzindo deliberadamente o emprego. A esperança oficial é que a força negocial dos trabalhadores seja suficientemente reduzida pelo aumento do desemprego, de modo a que não possam negociar salários monetários mais elevados para compensar a subida dos preços, o que acabaria por fazer com que a inflação se atenuasse.

O capitalismo nos primeiros anos da Revolução Industrial na Grã-Bretanha, já salientado por historiadores como Eric Hobsbawm, caracterizou-se por um aumento da pobreza; do mesmo modo, o capitalismo tardio também está a assistir hoje a um aumento do nível de privação absoluta para os trabalhadores. Joseph Stiglitz argumentou que o salário médio real de um trabalhador americano do sexo masculino em 2011 era ligeiramente inferior ao de 1968; com a atual inflação, os salários reais de hoje seriam ainda mais baixos do que em 2011 e, portanto, também em comparação com 1968. Se acrescentarmos a isto o maior desemprego atual nos EUA em comparação com 1968 (a taxa de desemprego oficial camufla este facto, uma vez que não tem em conta a redução da taxa de participação dos trabalhadores devido ao “efeito do trabalhador desencorajado” que funciona num período de desemprego elevado), não restam muitas dúvidas quanto ao aumento do empobrecimento entre os trabalhadores americanos. O mesmo se pode dizer dos trabalhadores de outros países capitalistas avançados. Em países como a Índia e o resto do Terceiro Mundo, há provas claras de um declínio do nível nutricional da população, medido pelo declínio da absorção per capita de cereais alimentares (considerando a soma dos cereais diretamente consumidos, utilizados como alimento para produtos animais e transformados em produtos alimentares) no período desde a década de 1980. Daqui se pode inferir um aumento inequívoco do nível absoluto de pobreza entre os trabalhadores. Por conseguinte, não se pode duvidar do ataque económico aos trabalhadores do mundo capitalista, sobretudo aos trabalhadores pobres.

Contudo, este ataque económico é impossível de sustentar sem restringir os direitos políticos do povo trabalhador; ou seja, sem um ataque político simultâneo contra eles. E esse ataque político tomou a forma do neofascismo que emergiu em grande escala por todo o mundo capitalista. Líderes neofascistas encabeçam regimes em muitos países agora, de Milei na Argentina, a Meloni na Itália, a Trump nos EUA, a Modi na Índia, a Orban na Hungria, a Erdogan na Turquia, para não mencionar Netanyahu em Israel, embora ele esteja em uma categoria própria; e em muitos outros países formações neofascistas estão na expectativa de tomar o poder, como o AfD na Alemanha e o partido de Marine Le Pen na França (neste último caso, frustrado até agora por uma Esquerda Unida).

O ataque político contra o povo trabalhador desencadeado por estas formações neofascistas combina a repressão direta dos trabalhadores e dos sindicalistas e a redução legal dos direitos dos trabalhadores com uma mudança de discurso, de ódio ao "outro", a alguma minoria infeliz e criando aversão entre ela e a maioria. Uma tal mudança de discurso não só relega para segundo plano as questões da vida material quotidiana dos trabalhadores, como também os divide em função de linhas religiosas ou étnicas (com repúdio ao "outro"escolhido), de modo a que não consigam montar uma resistência unida contra a privação económica que lhes foi infligida.

No entanto, para além deste ataque económico e político contra os trabalhadores, o que se torna agora particularmente notório é o ataque ideológico. Este também não se limita a comentários ocasionais feitos por esta ou aquela pessoa. Esses comentários contra os trabalhadores estão a ser feitos em todo o mundo, o que sugere o surgimento de uma conjuntura de ataque ideológico contra os trabalhadores.

Na Índia, face a esta carência económica, várias formações políticas, tentando adquirir poder político num regime económico incapaz de produzir mais emprego, têm oferecido transferências às populações. Estas transferências, demasiado pequenas para anular o empobrecimento económico do povo trabalhador (caso contrário, não teríamos assistido à privação nutricional mencionada anteriormente), foram, no entanto, atacadas pelos neofascistas no poder e pelo Primeiro-Ministro Modi como sendo “borlas” ("freebies"). Embora o próprio partido no poder tenha sido forçado, por compulsões eleitorais, a oferecer tais transferências à população, este ataque às transferências foi agora retomado por outros. O empresário que tinha pedido recentemente uma semana de 90 horas para os trabalhadores (pretendendo, de facto, criar um ambiente do tipo Auschwitz nas fábricas indianas), interveio, alegando que tais transferências, ou “brindes”, como ele também optou por lhes chamar, induzem as pessoas a não trabalhar. E agora também um juiz do Supremo Tribunal aderiu a este coro, sugerindo que as transferências impedem as pessoas de trabalhar, uma vez que podem ficar em casa, sem fazer nada e continuar a receber a sua “borla”. Se este juiz do Supremo Tribunal tivesse tornado obrigatório que o governo oferecesse empregos decentes às pessoas em vez de transferências, então a questão teria sido diferente; mas as suas observações foram feitas apenas contra as transferências, não a favor da oferta de emprego decente.

É claro que essas pessoas argumentariam que os empregos existem, mas são escassos; mas não só não apresentam provas para tal afirmação, como também não apresentam provas sobre o nível dos salários que estão a ser oferecidos para esses empregos que dizem estar a faltar. A própria Organização Internacional do Trabalho (OIT) constatou que na Índia existe uma grave falta de oportunidades de emprego digno. Os dados do governo sobre o emprego são gravemente errados, porque mostram que o trabalho não remunerado das mulheres em empresas familiares está a crescer, e este crescimento é contado como crescimento do emprego; mas este crescimento reflete a falta de emprego remunerado noutros locais e, por conseguinte, constitui aquilo a que os economistas geralmente chamam “desemprego disfarçado”.

Exatamente o mesmo ataque ideológico contra os trabalhadores está a ocorrer também nos EUA. Elon Musk, que dirige o “Department of Government Efficiency” (DOGE) criado por Donald Trump, é propenso, pelas suas observações, a efetuar cortes nos benefícios do Medicaid, Medicare e Segurança Social para os pobres, uma apreensão expressa pelo Senador Bernie Sanders recentemente (MR online, 13/Fevereiro). E este ataque às transferências para os pobres está a ser levado a cabo, segundo Sanders, a fim de que o dinheiro possa ser desviado para a concessão de reduções fiscais aos ricos, entre os quais se encontram pessoas como o próprio Musk, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg.

Trata-se de uma ofensiva ideológica de grande envergadura, que se enquadra nos princípios da chamada “supply-side economics”. John Kenneth Galbraith, o economista liberal, disse que a essência da “economia do lado da oferta” era a proposição de que “os ricos trabalham melhor se lhes pagarem mais, enquanto os pobres trabalham melhor se lhes pagarem menos”. Isto está a ser propagado agora por pessoas como Trump e Musk.

No entanto, há aqui uma ironia. A prossecução desta ideologia, que procura justificar que se tire dinheiro aos pobres para o dar aos ricos, só vai agravar ainda mais a crise capitalista. Uma vez que os pobres consomem mais por cada dólar que recebem, em comparação com os ricos, essa redistribuição apenas significará uma maior contração da procura de consumo agregado; e uma vez que o investimento dos capitalistas depende do crescimento esperado do mercado que, por sua vez, depende da experiência real de crescimento do mercado, simplesmente dar-lhes benefícios fiscais não aumentará o seu investimento nem um bocadinho. O resultado líquido será uma redução da procura agregada (considerando o consumo e o investimento em conjunto), o que só irá agravar a crise.

John Maynard Keynes, nos anos 30, que era um defensor do capitalismo e receava que algo como a Revolução Bolchevique pudesse ultrapassá-lo no Ocidente, havia sugerido que, para salvar o sistema capitalista, era necessário aumentar a procura agregada através do esforço governamental; aquilo a que estamos a assistir no capitalismo contemporâneo é exatamente o oposto disto, o que terá sem dúvida implicações políticas de grande alcance.

23/Fevereiro/2025  
Cartoon, autor desconhecido.

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2025/0223_pd/worldwide-assault-working-people

https://resistir.info/patnaik/patnaik_23fev25.html

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Pobres dos nossos ricos - Mia Couto






Mia Couto - Poeta Moçambicano

POBRES DOS NOSSOS RICOS
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A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos.

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Mas ricos sem riqueza.

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 Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados.

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 Rico é quem possui meios de produção.

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Rico é quem gera dinheiro e dá emprego.

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 Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. ou que pensa que tem.

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 Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.

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A verdade é esta: são demasiados pobres os nossos "ricos".

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Aquilo que têm, não detêm.

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Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros.
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É produto de roubo e de negociatas.
 
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 Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram.

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Vivem na obsessão de poderem ser roubados.
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Necessitavam de forças policiais à altura.
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 Mas forças policiais à altura acabariam por lança-los a eles próprios na cadeia.

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Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade.

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Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem (...)


 

MIA COUTO

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Enviado por Júlio Pêgo
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psicoarte

Psicopintura

psicoescultura

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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

D'Ali e D'Aqui

Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão

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(António Aleixo)
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E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?” Uma pergunta que nunca teve resposta. (Almeida Garrett)
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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O valor da riqueza

Clicar na imagem para aumentar
* Almeida Garrett


Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

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Almeida Garrett, in 'Viagens na minha Terra'

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imagem - «Publico novamente a "Pirâmide do Sistema Capitalista", enviadapelo amigo Ricardo Melo, agora atualizada para os tempos modernos e corrigida. Clique na figura para vê-la em tamanho real»
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