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sábado, 13 de junho de 2026

Pedro Tadeu - A REVOLUÇÃO, AFINAL, COMEÇA NA PRAIA?

 * Pedro Tadeu 

Antes de o capitalismo se desenvolver plenamente, foi necessário separar os produtores diretos dos seus meios de produção. Camponeses que tinham acesso à terra, a baldios, a instrumentos de trabalho ou a formas comunitárias de sobrevivência foram desapossados. Sem terra, nem recursos próprios, passaram a depender do salário. Ao mesmo tempo, a propriedade fundiária, o dinheiro e os instrumentos produtivos concentraram-se nas mãos de proprietários e capitalistas.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Pedro Tadeu - Qual é a história política de Carlos Brito?

* Pedro Tadeu

 
Carlos Brito foi militante do PCP durante quase 50 anos, mas deixou de o ser há mais de 25 anos. Com toda a enorme admiração que tenho pela pessoa que ele foi; com todo o respeito pela forma heróica com que ele lutou contra o fascismo (que me faz sentir pequenino); com todo o mérito que teve enquanto deputado constituinte e líder parlamentar; com toda a ótima relação pessoal, próxima, diária, amiga, que criámos entre 1992 e 1996 quando ele foi meu diretor no jornal “Avante!”; com todo o prazer que tive quando, depois disso, nos vimos algumas vezes; com tudo o que de bom há a dizer sobre este homem inteligente, sensível, talentoso e culto, não posso deixar de sublinhar isto: com ou sem razão, com ou sem motivo, Carlos Brito deixou o meu partido há muito tempo e um terço da sua vida política foi feita fora do PCP – e isso, politicamente, é relevante.

Sim, Carlos Brito está na história do PCP e essa história não pode nem deve ser apagada, deve ser sublinhada, sobretudo em tempos de tentativa de apagamento dos horrores do fascismo português ou de transformação da Revolução dos Cravos num processo de loucura coletiva. Mas na história política de Carlos Brito também não pode ser apagado o percurso que ele fez depois de abandonar o PCP.

Quando Brito saiu do partido, no ano 2000, não teve um comportamento democrático.

Brito lutou pelas suas ideias dentro do PCP, teve meios e oportunidades de as divulgar e de as defender a partir de uma posição interna privilegiada, uma posição de poder. Teve, ainda, a seu favor, o contexto político de recontextualização do ideal comunista e um enorme interesse do jornalismo pela luta interna do PCP, que favorecia as posições dos chamados “renovadores”, mas que esconjurava os outros militantes com o palavrão “ortodoxos”.

Carlos Brito, com toda a legitimidade, foi à luta pela modificação do que achava estar errado, mas perdeu essa luta. Não perdeu por poucos, perdeu por muitos: a esmagadora maioria dos militantes comunistas rejeitou claramente essas ideias. Carlos Brito não foi democrático ao não se conformar com a derrota, ao não aceitar a posição da maioria. Cheguei a dizer-lhe isso e a lembrar-lhe aqueles que, tendo tomado posições semelhantes à sua, decidiram que era mais útil para a democracia portuguesa continuarem a militância no PCP.

Quando saiu, provavelmente, Brito sentiu-se magoado, desrespeitado, sobretudo quando lhe aplicaram uma sanção disciplinar. É humano e compreensível, todos temos ego, e isso não o torna melhor ou pior pessoa, mas não lhe dá mais razão política – na verdade, as ideias que Brito defendeu foram aplicadas, depois do fim do bloco soviético, em inúmeros partidos comunistas e quase todos colapsaram rapidamente. O projeto de Carlos Brito e dos renovadores teria morto quase imediatamente o PCP – 26 anos depois, isso está comprovado na vida real – e as razões da atual decadência eleitoral dos comunistas só muito lateralmente terão a ver com o debate desse tempo.

Quando vejo chusmas de insultos ao PCP por causa de um curto comunicado onde, objetivamente, só se elogia Carlos Brito, vejo sobretudo um ataque político abusivo e hipócrita. Sim, acho que o comunicado poderia ter sido mais generoso, menos racional e mais emocional, mas, caramba, foi respeitoso para com este grande português e, o que é compreensivelmente mais importante para o PCP, respeitou os outros grandes portugueses que, ao contrário de Brito, decidiram continuar a militar no partido mesmo tendo, no passado, perdido as suas batalhas políticas.

15 Mai 2026

https://www.dn.pt/opiniao-dn/qual-a-histria-poltica-de-carlos-brito

domingo, 19 de abril de 2026

O pecado original de Pacheco Pereira

Pacheco Pereira não se arrepende do frente-a-frente com Ventura: “Se fosse hoje, repetiria”

Em declarações ao DN, José Pacheco Pereira defende sem hesitações a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeita as críticas de quem considera que saiu a perder. Para o historiador, discutir o populismo à distância é um erro: “Tem mesmo de se meter a mão na massa”, diz, depois de ter enfrentado o líder do Chega. E recusa uma “espécie de snobismo intelectual”.

Alexandra Tavares-Teles

16 Abr 2026,  

“Estou muito contente com o que fiz e se fosse hoje repetiria”. José Pacheco Pereira defende sem reservas a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeitou as críticas de quem entende que o historiador perdeu ao aceitar o frente-a-frente transmitido pela CNN Portugal na noite de 13 de abril, depois de Ventura ter insistido na tese de que houve mais “presos políticos” após o 25 de Abril do que em vésperas da revolução, afirmação que Pacheco Pereira classificou publicamente como uma “comparação absurda”.

Sim, tem mesmo de se meter a mão na massa”, afirmou, sublinhando que não aceita a ideia de que o combate político ao populismo se faça à distância. “Não alinho nessa posição. Se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal. Em casos destes, é preciso sujar as mãos”, acrescentou.

O historiador respondeu assim à metáfora, repetida nos últimos dias em artigos de opinião e comentários nas redes sociais, de que “nunca se deve lutar com um porco”, fórmula usada por vários observadores para criticar o tom do confronto com o líder do Chega,  com comentadores a argumentarem que o frente-a-frente acabou por arrastar Pacheco Pereira para o terreno preferido de Ventura.

Mas o antigo dirigente do PSD recusa a conclusão. “A ideia de que não devemos rebaixar-nos tem a ver com medo. Há muito medo”, diz o historiador. E vai mais longe: “A história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente Nacional, esse caminho, inicialmente seguido,  foi depois revertido por uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação.”

Para Pacheco Pereira, o erro está precisamente em deixar o espaço público livre para esse tipo de discurso. “Há uma esquerda que assume uma espécie de snobismo intelectual - eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com eles. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas pessoas que me abordam depois daquele debate”, relatou. “É um número muito significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas  que não se sentem representadas.”

Segundo o historiador, a reação popular ao debate mostrou que existe um sentimento de vazio no campo democrático perante a ascensão do discurso populista. “Vêm ter comigo com uma certa dose de emoção e essa emoção tem a ver com o facto de não se sentirem representadas nesses outros debates”, afirmou, defendendo que o confronto direto é uma forma de responder a esse mal-estar.

Pacheco Pereira considera ainda que o frente-a-frente teve uma utilidade concreta: "expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito. E só isso foi uma enorme vantagem”, concluiu Pacheco Pereira, sustentando que o debate permitiu tornar visível, de forma mais nítida, a leitura que o líder do Chega faz da democracia saída da Revolução dos Cravos. Ainda que lamente: “O mais grave é que as frases mais significativas que o Ventura disse, inclusivamente que o 25 de Abril era miserável, ninguém as reproduziu”.

https://www.dn.pt/pol%C3%ADtica/pacheco-pereira-no-se-arrepende-do-frente-a-frente-com-ventura-se-fosse-hoje-repetiria#google_vignette

 

Opinião DN

O pecado original de Pacheco Pereira

Paulo Guinote, Professor do Ensino Básico

16 Abr 2026

Não sou dos que acha que não vale a pena “debater com fascistas”, estando em causa André Ventura. Porque ele é, antes de mais, um político oportunista, demagogo mais do que populista (ele só promete tudo às “pessoas de bem”, o que reduz muito o universo…) e porque, em alguns contextos, é essencial desmascarar as mentiras e mistificações que algumas figuras apresentam como verdades irrevogáveis e, nesse particular, Ventura está longe de ser o único mistificador no activo.

André Ventura só é “fascista” nos momentos em que esse tipo de discurso ou atitude se revelam vantajosos para a angariação de votos. Ou de apoios de bastidores. Ou de financiamentos. Porque já o vimos ser um pouco de tudo: cristão devoto (mais ou menos católico), proto-sindicalista empedernido (do apoio a sindicatos de polícias, ao esquecido anúncio da criação de uma nova federação sindical), nacionalista dos quatro costados, a par de atlantista bissexto. Pactua com grupos neo-nazis, desde que isso não ganhe destaque público e é acérrimo inimigo dos corruptos, a menos que lhe facilitem ancoragem financeira. Ora, qualquer “fascista” digno desse apodo teria vergonha de colocar cartazes com mensagens que depois se tentam reinterpretar de forma manhosa.

O “verdadeiro fascista” não pratica o toca-e-foge ou o desdisse-o-que disse. Ventura é apenas um simulacro para os tempos que temos, marcados pela promoção de produtos para consumo mediático de massas, se possível com aroma a “sangue”, não interessando se é coerente no percurso, desde que pareça “assertivo” de cada vez que faz uma curva ou inversão de marcha. Se pode ser perigoso, chegando-se muito ao poder? Sim, se isso corresponder ao abrir de portas à peculiar confederação de interesses que congregou graças ao seu sucesso no mercado político-mediático.

Pacheco Pereira sabe isto, pois foi claro quando declarou que nunca qualificou Ventura como fascista. Mas equivocou-se ao considerar que um debate entre os dois serviria para algo mais do que produzir audiências ao canal anfitrião. Porque podem muitos bater no peito que nunca assistiriam a tal confronto que a curiosidade mórbida vence quase sempre essas proclamações. O único “vencedor” do debate foi, pois, a CNN Portugal.

Ao desafiar Ventura, Pacheco Pereira cometeu um duplo erro de cálculo: concedeu ao seu interlocutor um estatuto de equivalência intelectual que, gostemos mais ou menos do trajecto de JPP, muito poucos reconhecem e achou que seria possível uma espécie de “duelo de cavalheiros”. Achou que apresentando “regras”, isso impediria o atropelamento no discurso ou o escorregar para a luta na lama retórica. Acreditou que apelando à apresentação de “factos” isso teria o mesmo significado para o seu oponente. Considerou que levando livros e documentação variada conseguiria “provar” uma verdade, cuja validade a outra parte não reconhece. A Ventura chega um punhado de fotocópias para fazer o seu número e exibir indignação. Pacheco Pereira pensou que a racionalidade calma venceria a emoção encenada. Enganou-se.

Todos cometemos erros, por arrogância intelectual, por inconsciência das circunstâncias ou má avaliação das qualidades, próprias e alheias. Pacheco Pereira parece não ter percebido que nada tinha a ganhar com este debate e Ventura nada a perder. Foi esse o seu pecado original.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

https://www.blogger.com/blog/post/edit/7624295442706210520/3893848410623296261


Ventura sabe que mentiu?

Pedro Tadeu, Jornalista

17 Abr 2026,  

No debate, segunda-feira na CNN, com Pacheco Pereira, André Ventura disse que os políticos “do sistema” não admitem os crimes políticos do pós-25 de Abril e citou conclusões do Relatório da Comissão de Averiguação de violências sobre presos sujeitos às autoridades militares”, o chamado “Relatório das Sevícias” – mas ao fazê-lo desmentiu-se a si próprio.

Esse relatório, publicado em julho de 1976, foi elaborado por indicação do Conselho da Revolução no rescaldo do 25 de Novembro de 1975. Este facto foi omitido por Ventura.

O documento foi um instrumento político dos vitoriosos desse último golpe e muito do que lá se diz não está devidamente sustentado, nem inclui a defesa das pessoas e instituições acusadas de serem autoras das ditas sevícias. É parcial e duvidoso, mas, sem dúvida, também conterá verdades.

O ponto central para esta discussão não é esse. O ponto é que, ao contrário do argumento de Ventura, o regime democrático que o 25 de Abril criou em 1974 já discutia abertamente, a nível oficial e menos de dois anos depois, os abusos que o próprio regime teria cometido, coisa que durante 48 anos de fascismo português nunca aconteceu – de resto, o dito relatório está disponível, para toda a gente, no site da Presidência da República, não está escondido.

Portanto, quando André Ventura afirma que em 50 anos de democracia a classe política dominante não admitiu a existência de abusos de Direitos Humanos no pós-25 de Abril está a mentir e contradiz-se quando apresenta como prova um relatório que até foi elaborado por alguns atores do dia 25 de Abril de 1974, como, por exemplo, o jornalista Francisco Sousa Tavares.

Outra manipulação de André Ventura é a de dizer que nunca Salazar e Caetano assinaram ordens de prisão, o que só teria acontecido no pós-25 de Abril.

Nem Salazar, nem Caetano precisavam de escrever ordens de prisões políticas porque as davam verbalmente. Por exemplo, Silva Pais, que foi diretor da PIDE a partir de 1962, aparece mencionado 119 vezes nas agendas de audiências individuais de Salazar, que saiu do poder seis anos depois. Dá quase 20 vezes por ano.

Ventura queixou-se de que houve três mil presos políticos a seguir ao 25 de Abril e que 30 mil pessoas fugiram do país.

Em 1974, segundo a Comissão de Extinção da PIDE/DGS, havia 3000 agentes da polícia política e mais de 20 mil informadores (os chamados “bufos”). Se a isto somarmos vários militares, polícias, membros da Legião Portuguesa, muitas outras autoridades como governadores civis, ministros, secretários de Estado, altos funcionários públicos, quadros das comissões de censura, juízes dos tribunais plenários e alguns outros milhares de pessoas que participavam ativamente, mesmo de forma indireta, nas estruturas de repressão política do regime fascista, teremos de perguntar: “Poderia uma revolução que deita abaixo um regime repressor manter as pessoas que exerciam essa repressão em liberdade?”

Na verdade, até seria de esperar que houvesse mais prisões e mais fugas, mas, apenas 17 meses depois, tal como André Ventura acabou por dizer, quase todos estavam livres ou começavam a voltar. E isso demonstra a tolerância do 25 de Abril.

Mais de 30 mil resistentes e patriotas não tiveram essa sorte durante o fascismo. Álvaro Cunhal, por exemplo, amargou mais de 11 anos na cadeia e só se libertou porque fugiu do Forte de Peniche. Esteve 14 anos fora do seu país... até ao 25 de Abril.

Como é que se pode comparar uma coisa com a outra?!

https://www.dn.pt/opiniao-dn/ventura-sabe-que-mentiu

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Pedro Tadeu - TEMOS DE SER VASSALOS OU ESCRAVOS DE TRAMP?

🤔
Por Pedro Tadeu - Jornalista 

"Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra coisa.” Esta frase de protesto contra o presidente norte-americano, Donald Trump, dita na segunda-feira em Davos no Forum Económico Mundial, pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart de Wever, desvenda, por um lado, como as elites europeias sempre aceitaram pacificamente uma subserviência com características medievais face aos Estados Unidos da América e, por outro lado, como não desejam o fim desta forma de feudalismo e aceitam ter um suserano desde que ele, magnânimo, lhes dê algumas benesses.

Durante décadas a União Europeia e o Reino Unido viveram numa condição de subserviência estratégica, disfarçada de aliança e parceria. A narrativa que nos contaram após o fim da União Soviética era a de que passava a vigorar uma “ordem internacional baseada em regras”. A União Europeia até integrou a definição no artigo 21.º do Tratado da UE, mas ligou-a ao cumprimento do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Contudo, essa ordem continha, desde o seu início, a semente da hegemonia norte-americana, que sempre se esteve nas tintas para a ONU.~

Tivemos assim a intervenção da NATO na Jugoslávia (1999). Esta ação não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, a Carta da ONU. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos a invasão do Iraque pela coligação liderada pelos EUA e pelo Reino Unido em 2003, também sem aprovação do Conselho de Segurança, baseada em justificações falsas, como a alegação de armas de destruição massiva. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos intervenções com “mudança de regime” e uso abusivo de mandados da ONU, como foi o caso da Líbia, em 2011. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Temos o caso do embargo a Cuba. Desde 1962, os EUA mantêm um embargo e, ano após ano, a ampla maioria dos países vota na Assembleia Geral da ONU a condenação dessa política. Os europeus, vassalos, aceitam a vontade norte-americana.

Temos casos de duplo-padrão na adesão às instituições jurídicas internacionais. Por exemplo, a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (UNCLOS): os EUA não ratificaram o tratado, mas invocam as suas disposições em patrulhas de “liberdade de navegação” no Mar do Sul da China.

O mesmo se passa no caso do Tribunal Penal Internacional (TPI): os EUA recusaram aderir ao Estatuto de Roma, mas apoiam o recurso ao TPI contra lideranças de países adversários.

E há o duplo-critério. Um exemplo recorrente é a relação dos EUA com Israel, que viola imensas resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia-Geral, mas tem uma garantia de excecionalidade que até lhe permitiu fazer um verdadeiro genocídio em Gaza.

Os europeus são cúmplices e participantes de tudo isto.

Esta subserviência política, esta aceitação de um sistema de “regras” definidas por Washington, foi consentida e alimentada durante décadas pelos europeus, muito antes de Trump decidir que quer ficar com a Gronelândia, de raptar o presidente da Venezuela, de fazer uma “ONU privada” com o seu Conselho da Paz e de querer dominar todo o continente americano. É uma “ordem internacional baseadas em regras” variáveis, como acontece desde o fim da Guerra Fria, mas agora com vítimas que se achavam donas do mundo e se vêem agora no papel de vassalos ou, pior, de escravos.~

Por mim, nem vassalagem, nem escravidão.


23 Jan 2026

 https://www.dn.pt/opiniao/temos-de-ser-vassalos-ou-escravos-de-trump

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Pedro Tadeu - Os tribunais estão mesmo loucos?

 * Pedro Tadeu, Jornalista

OPINIÃO 

29 maio 2024  

A empresa dona dos hipermercados Continente, a Sonae, anunciou em março que o ano passado obteve um lucro de 357 milhões de euros. A semana passada publicitou que este ano, nos primeiros três meses, já soma 25 milhões de euros em lucros, um pouco melhor que em igual período de 2023.

 Esta fantástica contabilidade do grupo liderado por Cláudia Azevedo é capaz de ter de sofrer uma retificação em baixa pois o Supremo Tribunal de Justiça decidiu que o Continente terá de devolver a um funcionário do hipermercado a quantia de 365,7 euros que reteve do salário desse homem.

O Jornal de Notícias de quarta-feira passada explicou que em 2021 o trabalhador (a empresa trata-o, num comunicado, por “colaborador”, mas parece, pelo relato que se segue, que ele trabalhava mais e colaborava menos) meteu a farda de trabalho num saco de plástico para a levar quando se preparava para sair. Foi retido e confrontaram-no com a acusação de roubo do dito saco de plástico. O trabalhador devolveu o saco de plástico, que custou à empresa 2 cêntimos, e saiu.

O Continente, porém, achou que o caso não devia acabar aqui: decretou uma suspensão de 15 dias ao trabalhador, a perda de 15 dias de antiguidade e a cassação de metade do salário de um mês: os tais 365,7 euros. Note-se que este “colaborador” trabalhava há imensos anos no Continente, tinha a classificação de “operador especializado” e auferia um salário de 735 euros, apenas mais 70 euros que o salário mínimo nacional de 2021.

O trabalhador não colaborou na sua própria punição e recorreu, inconformado, para o Tribunal de Sintra. Pois o douto juiz (ou juíza, não sei) que analisou o caso achou que a punição imposta ao trabalhador era “proporcional, adequada e necessária”.

 O trabalhador continuou a não colaborar e recorreu para a Relação. Desta vez o tribunal achou que “roubar” meio salário a um homem por ele ter “roubado” um saco de 2 cêntimos nada tinha de proporcional, adequado ou necessário e mandou o Continente reverter a decisão e pagar o que devia ao seu empregado.

Depois foi o Continente a recorrer para o Supremo, onde perdeu em toda a linha - só que, entretanto, passaram-se três anos e, imagino, o ambiente para aquele trabalhador, que entretanto se reformou, deve ter sido bem difícil.

Num comunicado que o Continente emitiu depois da notícia ser conhecida é dito que esse “colaborador” trabalhou 23 anos na empresa, que teve “outros processos” sublinhando que, neste caso do saco de plástico, o primeiro tribunal e o Ministério Público, na Relação e no Supremo, deram razão ao hipermercado - assim como quem insinua: “Nós não estamos malucos, até houve vários magistrados do nosso lado.”

E aqui está o ponto onde queria chegar: como é possível tantos doutos e respeitáveis togados acharem razoável, ou, melhor, acharem “proporcional, adequada e necessária” uma suspensão de 15 dias e a apreensão de metade de um salário por causa da porcaria de um saco de plástico de dois cêntimos?

Como é evidente, não há aqui uma questão técnico-jurídica que impelisse, sem apelo nem agravo, uma decisão favorável à impudência do Continente, pois quer o Tribunal da Relação quer o Supremo Tribunal encontraram os fundamentos jurídicos para dar razão ao trabalhador.

Como também é evidente, as posições que estes juízes e procuradores da República tomaram basearam-se sobretudo na convicção que formaram sobre a credibilidade dos testemunhos que ouviram, dos factos que apuraram e do discernimento ideológico com que traduzem o mundo nas suas inteligências.

Há, parece-me, uma geração de magistrados que, à partida, está mentalmente disponível para acreditar mais num administrador ou num diretor de Recursos Humanos de uma grande empresa do que num trabalhador que ganha pouco mais do que o salário mínimo.

Há uma geração de magistrados que acha “proporcional, adequado e necessário” o livre arbítrio com que as grandes empresas andam a tratar os trabalhadores “menores”. Dá ideia que, desde que não os espanquem, quase tudo é aceitável para meter essa “escumalha na ordem”.

Há uma geração de magistrados que, claramente, foi educada num preconceito de classe, no fiel respeitinho pelo grande “empreendedor” (para os pequenos empresários a coisa fia mais fino) e na preconceituosa desconfiança para com o “colaborador”.

Quando essa geração de magistrados for maioritária nos Tribunais da Relação e no Supremo, trabalhadores que tentem levar do Continente, sem pagar, um saco de plástico de dois cêntimos só podem esperar um veredicto: “Olho na rua! A bem da Nação.”

https://www.dn.pt/7410947079/os-tribunais-estao-mesmo-loucos/

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Pedro Tadeu - Os nossos políticos são cobardes?

OPINIÃO
21 fevereiro 2024

* Pedro Tadeu
Jornalista

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, imitando o que outros ministros europeus fizeram na sequência da morte, tremendamente suspeita, de Alexei Navalny, opositor do presidente russo Vladimir Putin, chamou o embaixador da Rússia ao seu ministério para que fossem prestados esclarecimentos... Muito bem!

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, que se saiba, ainda não chamou ao seu ministério o embaixador de Israel no nosso país para pedir esclarecimentos sobre a morte de 10 mil a 30 mil civis (conforme as fontes) e o valor de quase dois milhões de deslocados, imensas vítimas inocentes provocadas pela retaliação de Israel ao ataque do Hamas de 7 de outubro que, por seu lado e perante indignação geral, matou 1200 pessoas... Muito mal!

Note-se que, no caso da Palestina, aos mortos e deslocados acrescenta-se uma situação humanitária catastrófica em Gaza: faltam ali medicamentos, comida, água, combustível e os hospitais estão em colapso, como vemos, todos os dias, nas TV.

A União Europeia (e Portugal por arrasto) está a tornar banal a utilização contraditória do argumento da Defesa dos Direitos Humanos para tornar efetivas as decisões políticas mais desumanas da sua história, contrariando claramente a sua retórica oficial.

Para além das sanções e das denuncias de violações de Direitos Humanos só se fazerem se forem cometidas pelos “inimigos do Ocidente” e se ignorarem ou escamotearem as que são cometidas por “Aliados” - e o caso da brandura inconsequente com que os Governos europeus analisam o que Israel tem feito é o exemplo mais pungente de como a hipocrisia política mata -, a própria União Europeia começa a tornar legal, dentro do seu próprio território, a violação de Direitos Humanos.

Temos agora o exemplo noticiado há dias de um texto que está pronto para ser aprovado em abril pelo Parlamento Europeu e que preconiza uma série de medidas severas para conter a imigração.

Uma dessas medidas chega ao ponto de prever que crianças, de qualquer idade, acompanhadas ou não pelas famílias, e que sejam requerentes de asilo, podem ser presas durante três meses desde que os estados que as recebam as declarem “perigos para a segurança nacional”, numa violação que a muita gente parece clara da Convenção das Nações Unidas para os Direitos das Crianças.

Numa notícia sobre isso que li no jornal Público diz-se que esse Pacto sobre Migração e Asilo prevê ainda a recolha de dados biométricos, como impressões digitais, a partir dos 6 anos de idade, e permite o recurso à “coação” contra crianças que se recusem a deixar recolher os seus dados.

Mais: as crianças podem ser devolvidas livremente ao país de origem desde que ele seja considerado um “país seguro” e nessa lista incluem-se países com problemas de perseguição a minorias ou com situações de violência social frequente, como a Tunísia, Turquia, Albânia ou Índia.

Outro dado inaceitável: os irmãos já não contarão para figurar em processos de reunificação de famílias, só os pais - se estes não estiverem presentes, os irmãos podem ser separados.

Estamos, portanto, a autorizar que um dia possa haver na União Europeia campos de concentração de crianças refugiadas ou requerentes de asilo... o antigo presidente norte-americano Donald Trump deve estar a rir-se do que os europeus disseram dele quando tentou fazer algo similar na fronteira com o México.

É tristemente significativo que nos debates eleitorais das últimas semanas as grandes questões internacionais, apesar de o mundo estar a arriscar-se a um conflito global, tenham ficado quase completamente ausentes das discussões entre líderes partidários - o medo de analisar seriamente o desvario atual é a prova da reduzida estatura política da maioria dos intervenientes.

Por outro lado, o fechar de olhos e a recusa em vetar os cada vez mais frequentes abusos da União Europeia em matéria de Direitos Humanos - com que a mesma UE enche a boca para condenar o resto do mundo - é a demonstração da cobardia prevalecente nos palácios do poder, nossos e da restante Europa “democrática”.

https://www.dn.pt/5001258510/os-nossos-politicos-sao-cobardes/

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Pedro Tadeu - Alguém ainda vota em partidos?

* Pedro Tadeu

 

O Partido Socialista que propôs ao Presidente da República substituir o primeiro-ministro demissionário, António Costa, pelo governador do banco de Portugal, Mário Centeno, para assim se manter no poder. É o mesmo PS que agora exige novas eleições na Madeira e recusa que o demissionário Miguel Albuquerque seja substituído por outra pessoa da coligação que venceu as eleições regionais em setembro?

O PSD de Luís Montenegro, que recusou a continuação do Governo de maioria absoluta do PS, após a demissão de António Costa, exigindo eleições antecipadas, é o mesmo Partido Social Democrata que agora implora a Marcelo Rebelo de Sousa a aceitação da nomeação de um substituto para Miguel Albuquerque, sem antecipação de eleições, para o partido se manter a governar a Madeira?

E o CDS de Nuno Melo, é o mesmo CDS que agora na Madeira defende o contrário do que o seu líder nacional defendeu em dezembro, após a renúncia de António Costa?


E o Presidente da República, que anunciou publicamente ir dissolver a Assembleia da República quase dois meses antes da concretização formal dessa intenção, é o mesmo Marcelo Rebelo de Sousa que não revela o que vai fazer sobre o futuro político madeirense, por estar impedido de dissolver a Assembleia Regional da Madeira durante os próximos dois meses?

 Estas contradições evidentes na prática política recente são uma consequência de uma distorção do regime que já vem de longe: em teoria, nas eleições, os portugueses votam em partidos que apresentam candidatos “amarrados” a um programa político com projetos e medidas que pretendem aplicar. Em tese, portanto, o voto não é nas pessoas que lideram esses partidos, mas sim nas ideias que esses partidos defendem. Se essa “tese” fosse levada à prática, a saída de um líder de um Governo recentemente eleito quase nunca implicaria a convocação de novas eleições, pois poderia credivelmente ser substituído por outro político do mesmo partido ou coligação que tivesse subscrito o programa votado pelos portugueses.

O problema é que a batalha política das ideias foi, desde muito cedo na nossa democracia, substituída pela luta entre pessoas da política, e, apesar de o voto ser em partidos, a verdade é que o peso político individual dos candidatos “esmaga” o volume dos programas eleitorais, que até parecem não ter qualquer importância para o resultado do sufrágio.

 Assim, aquilo que os líderes partidários prometem em campanha fica associado à sua pessoa e não ao seu partido - nós, nos media, até falamos muitas vezes em “candidatos a primeiro-ministro”, que é algo que nem existe - e é por isso que, quando o líder de um Governo tem de se demitir, ocorre um desabamento no suporte ao seu partido que favorece a realização de eleições antecipadas, mesmo quando o anterior ato eleitoral foi há muito pouco tempo.

 O culto generalizado da personalidade política, em vez do culto das ideias políticas, é, portanto, amigo da instabilidade, coisa que, contraditoriamente, tanto assusta os mais poderosos deste país que implementaram este comportamento político - mas os seus efeitos perniciosos são, infelizmente, muito maiores.

 Um deles é este: uma população treinada durante décadas, como é o caso, a preocupar-se mais com a aparência política dos líderes partidários do que com a substância política das propostas dos partidos é mais facilmente enganada por fenómenos de demagogia, mentira e manipulação; compreende mal o combate político, os debates parlamentares e não compara soluções alternativas para os mesmos problemas; é menos participativa na vida cívica, mais crente em soluções “simples” e alinha facilmente em discursos de medo, de segregação ou de ilusória radicalidade.

 O culto da personalidade, em vez do culto do partido, corrompe a democracia.

 André Ventura, neste momento, é em Portugal um beneficiário dessa degradação, comum no ocidente, mas antes dele muitos outros souberam usar em seu proveito este intencional esvaziamento social das ideias políticas - por isso, agora, não deviam queixar-se, pois estão a colher o que semearam durante 50 anos.


 Jornalista

DN 2924 01 31

https://www.dn.pt/2951359661/alguem-ainda-vota-em-partidos/


quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Pedro Tadeu - Um pacifista é um energúmeno?

 OPINIÃO

*  Pedro Tadeu
 
Se comentarmos que o Hamas cometeu um crime contra a Humanidade com os ataques de 7 de outubro passado, somos humanistas.

Se enunciarmos que o Governo de Israel não tem o direito de matar indiscriminadamente civis palestinianos na Faixa de Gaza, somos nazis.

Se nos indignarmos pelos 1400 mortos assassinados pelo Hamas, estamos do lado do bem.

Se nos revoltarmos com as 6500 pessoas mortas pelas Forças de Defesa de Israel, estamos do lado do mal.


Se afirmarmos que o povo judeu foi vítima do Holocausto, somos elogiados por não esquecermos a História.

Se dissermos que os palestinianos são vítimas de opressão e liquidação sistemática há 75 anos, estamos a justificar o terrorismo.


Se chorarmos a morte das crianças israelitas mortas, somos boas pessoas.

Se nos indignarmos com o muito maior número de crianças palestinianas liquidadas, somos uns selvagens.


Se referirmos que a Faixa de Gaza está sob bloqueio terrestre, aéreo e marítimo desde 2005, perguntam-nos qual a relevância disso.

Se aludirmos ao ataque suicida de 2001 à discoteca Dolphinarium em Telavive, que matou 21 pessoas, somos pertinentes.

Se condenarmos a invasão russa da Ucrânia por violar a Carta das Nações Unidas, somos uns democratas.

Se indicarmos as múltiplas violações da Carta das Nações Unidas cometidas por Israel, somos extremistas.

Se apoiarmos a acusação do Tribunal Internacional Penal a Vladimir Putin, somos pela Justiça.

Se sugerirmos uma investigação do mesmo tribunal a Benjamin Netanyahu, somos maluquinhos.

Se condenarmos o bombardeamento russo de um centro comercial numa cidade ucraniana, somos pela civilização.

Se apontarmos o dedo à morteirada mortal de um hospital na Faixa de Gaza, estamos a fazer o jogo do inimigo.

Se qualificarmos o corte de água, eletricidade e combustíveis a dois milhões de pessoas em Gaza como um crime de guerra, não compreendemos, burros, a complexidade da situação.

Se citarmos a lista de ataques armados e as centenas ou milhares de mortos que desde 2014 o Governo Ucraniano cometeu sobre as populações civis das regiões russófonas do seu país, estamos, na melhor das hipóteses, a complicar aquilo que é simples ou, alternativamente, a mentir descaradamente.

Se exigirmos a retirada imediata das tropas russas da Ucrânia, estamos do lado certo da História.

Se apelarmos a um cessar-fogo em Gaza para permitir a entrada de ajuda humanitária, levamos com a suspeita de cumplicidade com o fundamentalismo islâmico.

Se reivindicarmos a libertação imediata dos reféns capturados pelo Hamas, somos bestiais.

Se pedirmos a libertação do jornalista Pablo González, preso há 20 meses na Polónia sem acusação formal, somos umas bestas.

Se salientarmos o voto a favor de 120 países, contra de 14 e mais 41 abstenções de uma resolução da Assembleia-Geral da ONU a pedir um cessar-fogo em Gaza, temos a visão geopolítica errada.

Se sublinharmos que a mesma Assembleia-Geral da ONU aprovou, com 141 votos a favor, 7 contra e 32 abstenções a exigência de retirada russa da Ucrânia, temos a visão geopolítica certa.

Se aceitarmos acriticamente aquilo que o poder norte-americano entende dever ser a organização do mundo, somos inteligentes.

Se criticarmos toda esta esquizofrenia bipolar que nos está a levar para uma guerra mundial, somos estúpidos - aliás, quem hoje em dia defende a paz é mesmo crismado de coisas piores... mas podem pôr-me nessa lista de energúmenos.

Jornalista

https://www.dn.pt/opiniao/um-pacifista-e-um-energumeno-17263531.html

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Pedro Tadeu - Quais foram os agentes provocadores da revolta no Brasil?

* Pedro Tadeu

11 Janeiro 2023 — 

Tratar os milhares de pessoas que invadiram e vandalizaram o complexo de edifícios dos Três Poderes em Brasília como "terroristas", como vi um grande número de comentadores fazerem, parece-me trair a suposta racionalidade democrática que esse epíteto pretende demonstrar - não distinguir massas populares manipuladas dos agentes provocadores dessa manipulação, que levam tantas pessoas a agirem como turba destruidora, parece-me mesmo um exercício antidemocrático.

Aquilo que estou a designar por "agentes provocadores" desta sublevação, desta recusa em aceitar um resultado eleitoral livre e justo, abrange um espetro largo de pessoas, ideias e instituições e existem, com nuances, tanto no Brasil, como nos Estados Unidos, como em Portugal. Estão mesmo por todo o lado.

Há "agentes provocadores" de primeira linha nesta ação no Brasil: os políticos bolsonaristas mais radicais que ajudaram à sua organização, os empresários que a financiaram ou os polícias e militares que deliberadamente a permitiram.

Há "agentes provocadores" de segunda linha, bastante mais difíceis de dissipar: o estado de espírito que gera esta mobilização para a pancadaria advém da capacidade de convencer estas pessoas de estarem a viver numa sociedade em que são enganadas pelo governo, onde as eleições são fraudulentas, onde os políticos do regime democrático são quase todos corruptos, onde há uma suposta campanha moral contra a família tradicional, onde se sugere que quem é patriota é perseguido, onde se apregoa que o "verdadeiro cristianismo" é acossado, onde se acusa o Sistema Educativo de "corromper" as mentes dos alunos, onde se convence que os subsídios para os pobres desempregados vêm de dinheiro "roubado" aos que trabalham, onde se assegura que quem tem mérito é prejudicado, onde se propagandeia que a liberdade está limitada.

Esta segunda linha de "agentes provocadores" da sublevação é alimentada por igrejas pentecostais, por propagandistas das redes sociais, por extremistas organizados, por fanáticos fascistas, por militares saudosistas da ditadura brasileira, por empresários gananciosos e por justiceiros iluminados.

E há, também, uma terceira linha de "agentes provocadores" para esta violência que é culturalmente secular e que as democracias, erradamente, não combatem e, até, promovem: a crença de que o êxito das sociedades depende de um líder esclarecido, de um privilegiado que tudo resolve, e não de um esforço coletivo e participado de toda gente; a convicção de que o direito à liberdade permite o abuso sobre o outro e a formação de "tribos" identitárias de combate supremacista sobre outras "tribos"; a aceitação da submissão geral a um poder superior, seja ele divino, politico ou económico, como sendo essa "a ordem natural das coisas".

A esta loucura toda associam-se, no entanto, gravosas contribuições geradas dentro do próprio regime democrático, uma quarta linha de "agentes provocadores": de facto, a corrupção existe; de facto as desigualdades sociais agravam-se; de facto a política é suja; de facto há uns que comem tudo e outros que não comem nada; de facto elegem-se cada vez mais indivíduos do que propostas políticas; de facto a sociedade globalizada tenta eliminar o patriotismo da equação socioeconómica, reduzindo-o ao estatuto de amor de uma equipa de futebol (ver estes agressores vestidos com a camisola amarela da seleção brasileira diz tudo...); de facto o Sistema Educativo não equipou as populações para resistirem por si mesmas à manipulação ideológica; de facto a única resposta contra a polarização do debate público tem sido uma sucessiva tentativa de o censurar e não de resolver os problemas que ele revela; de facto, a intolerância insuportável contra as minorias sexuais e étnicas gerou uma serie de soluções discriminatórias positivas que põem pobre contra pobre, em vez de unir todos os pobres contra quem os explora; de facto é a divisão violenta entre os mais desfavorecidos que serve os interesses de quem manipula estas pessoas para vir a dominar, em regime absoluto, a riqueza geral criada pelo povo.

A democracia, enquanto funcionar assim, terá sempre opositores violentos.

https://www.dn.pt/opiniao/quais-foram-os-agentes-provocadores-da-revolta-no-brasil-15635684.html 


quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Pedro Tadeu - Qual é a mãe do escândalo da TAP?

* Pedro Tadeu

04 Janeiro 2023 

Há uma recorrente promiscuidade, uma indistinção, uma confusão entre as missões da gestão pública e da gestão privada que me parecem ser uma das várias bases de escândalos como o que animou em Portugal o final do ano 2022.

Como os leitores sabem, o motivo desse clamor, que desembocou na demissão do ministro Pedro Nuno Santos, foi o incompreensível pagamento de 500 mil euros de indemnização a uma gestora demissionária da nacionalizada TAP, que a seguir foi presidir a outra empresa pública e dali caminhou para efémera secretária de Estado.

Esse pagamento teve como base uma discutível interpretação da lei que retirou o apuramento do valor dessa compensação dos regulamentos dos contratos dos gestores públicos (por aí o pagamento a Alexandra Reis, se devido, seria sempre muito menor) para a colocar na alçada do Código das Sociedades Comerciais.

Não me interessa aqui debater o específico valor jurídico dessa interpretação, interessa-me antes analisar o mecanismo que, simplesmente, suscita o levantamento dessa hipótese: esse mecanismo, errado e enraizado, pressupõe que a gestão de uma empresa pública, no fundo, não difere muito da gestão de uma empresa privada.


Essa confusão começa nas missões que os governos dão aos gestores. Nas últimas décadas a boa ou má reputação de um gestor público decorre mais de um determinado resultado financeiro do que do resultado qualitativo do serviço que é prestado.

A gestão da Caixa Geral de Depósitos, por exemplo, é mais avaliada nos comentários nos jornais e da classe política dominante pela capacidade de obtenção de lucros do que, por hipótese, pela capacidade de prestar serviços bancários em zonas desfavorecidas, por um eventual papel de regulador indireto do mercado, pela qualidade de atendimento ao cliente, pelas normas gerais de concessão de crédito ou, até, pelo valor das comissões que cobra aos clientes...


"Ter empresas públicas dominadas por critérios de gestão privada e empresas privadas a prestarem serviço público tem uma consequência lógica: corrompe o próprio conceito de serviço público. É a mãe de muitas outras corrupções."

Outro caso: a gestão da RTP responde mais vezes ao julgamento da opinião pública pelas despesas que apresenta e pelas receitas que obtém do que pela missão, deveras complexa, que a televisão e as rádios públicas contratualmente têm de cumprir. Essa missão junta necessidades coletivas de serviço público com a obrigação de atingir amplas audiências, tudo isso dependente de um financiamento periclitante. Mas, na verdade, para a "bolha mediática", o que interessa é saber quais os políticos que aparecem no Telejornal e, no final do ano, se há ou não há prejuízos. Esta situação "de facto" e não "de jure" acaba por obrigar a RTP, na prática, a ter de seguir muitos critérios de gestão, de produção e de edição típicos de um operador privado.

Do outro lado desta confusão temos o exemplo dos CTT: a distribuição de correio, que foi privatizada em 2011, presta agora um serviço público cuja degradação de qualidade é evidente e pronunciada (vivo isso quotidianamente), suscitou o fecho de centenas de postos de correios e permitiu o despedimento de milhares de trabalhadores. O resultado financeiro é bom para os acionistas, mas a básica correspondência não-prioritária só nos chega... quando chega.


A missão da gestão da TAP, nacionalizada e na expectativa de uma reprivatização, está também corrompida por essa confusão, similar à de outras empresas. Ela apresentará em breve resultados financeiros positivos, mas falha no serviço: por exemplo, diminuiu a sua oferta no Porto, cobra preços muito elevados para voos com destino à Madeira e aos Açores, serve mal o Porto Santo e países onde há muitos emigrantes portugueses.

A sua gestão, supostamente pública, acha ainda que os contratos com administradores devem estar sujeitos as regras de confidencialidade, remunerados ao nível das maiores concorrentes e com crónico direito a prémios. Despede outros trabalhadores com indemnizações reduzidas, pagas a prestações. Corta fatias de salários dos funcionários que ficam. As entidades reguladoras e o poder político admitem a normalidade de tudo isto - todos eles infetados pelo "vírus" dos critérios dos privados aplicados no público.

Não admira, por isso, que todo o processo de despedimento de Alexandra Reis da TAP reproduza práticas milionárias de gestores de grandes empresas capitalistas - um hábito escandaloso, mesmo no setor privado que, lembro-me bem, quase todos os dirigentes ocidentais juraram ir acabar quando aconteceu a crise financeira internacional de 2008.

Ter empresas públicas dominadas por critérios de gestão privada e empresas privadas a prestarem serviço público tem uma consequência lógica: corrompe o próprio conceito de serviço público. É a mãe de muitas outras corrupções.

Jornalista
https://www.dn.pt/opiniao/qual-e-a-mae-do-escandalo-da-tap-15594850.html

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Pedro Tadeu - Marcelo está a pedir-nos o impossível?

* Pedro Tadeu
28 Abril 2021 — 00:10

O  que Marcelo Rebelo de Sousa pede aos portugueses - que olhem para a História do país "sem autojustificações" nem "autoflagelações excessivas" - parece-me um objetivo bem-intencionado, mas...

Lembro-me de um exemplo que me parece lapidar: em 2012, uma universidade grega resolveu refazer o julgamento de Sócrates.

Estou a falar do filósofo grego, condenado à morte há 2420 anos por três razões principais: não aceitar os deuses gregos, promover falsos deuses e, com a divulgação das suas ideias, corromper a juventude. Em resumo, era ímpio, e isso, nessa altura, naquele sítio, era crime.

Os académicos gregos convidaram 10 juízes para apreciarem os factos, arranjaram advogados de acusação e de defesa para argumentarem, puseram historiadores qualificados a servirem de testemunhas e pediram sentenças que estivessem de acordo com as leis gregas da época, para respeitar o enquadramento espaço/tempo desse acontecimento.

Cinco juízes declararam Sócrates inocente. Cinco juízes declararam-no culpado, embora sem motivo para uma sentença de pena capital.

Portanto, mesmo passados mais de dois mil anos sobre os factos, quando não há razão para particulares paixões político-ideológicas associadas à questão, a análise das ocorrências e a elaboração de um juízo moderno subordinado à mentalidade da Antiguidade levou a conclusões, entre gente qualificada, diametralmente opostas.

Se olharmos para a realidade que preocupa o nosso Presidente da República, a tarefa que ele propõe é ainda mais difícil e divisora do que a dos juízes convocados pelos académicos gregos.

Como se pode pedir a um preso político do Estado Novo e à sua família, aos seus descendentes, que aceite o repto do Presidente da República na forma de olhar esse passado, quando é o próprio líder do Estado democrático que nunca diz o nome do objetivo da luta que levou essa pessoa à cadeia e à tortura: o derrube do fascismo?

Como pode Marcelo Rebelo de Sousa, "filho de um governante na Ditadura", como se apresentou, pedir a esta pessoa, e às suas famílias, o pressuposto de que o fascismo, que dominou boa parte das suas vidas, afinal não existiu, houve "apenas" uma... "Ditadura" (e com "D" maiúsculo, tal como o Presidente a escreve)?

Como se pode pedir a um descendente de escravos de há 200 anos, ou de contratados de há 80 anos, ou de mortos na guerra colonial de há 60 anos, ou de um espancado por um capataz numa roça há 50 anos, um juízo "menos apaixonado" sobre o colonialismo?

Como pode o Presidente da República de Portugal achar que pedir aos colonizadores para olharem "tanto quanto possível" para este tempo com "os olhos dos antigos colonizados" não corre, contraditoriamente, o risco de dar um sinal de condescendência paternalista totalmente insuportável para o "antigo colonizado"?


Como, por outro lado, se pode pedir a uma família de colonizadores, proprietários ou altos funcionários durante décadas em África, regressada a Portugal apenas com a roupa que trazia no corpo, que ache o mundo pós-colonial em geral e o processo português em particular um avanço civilizacional? É de certeza muito rara essa aceitação, mesmo que a pura racionalidade e educação a recomendem.

Até quando se olha para um passado bastante mais distante a serenidade não impera. Basta ver os insultos na internet sempre que vem ao de cima uma discussão ligada à Guerra Civil de 1832-1834 e sobre a legitimidade na sucessão ao trono na época: historiadores e políticos de direita e esquerda a trocar "mimos" emocionais, absolutistas de um lado e liberais do outro, miguelistas irritados, maçons indignados e um eterno refazer da História a tentar diabolizar o outro lado.

A pacificação destas polémicas históricas só se consegue quando elas deixarem de ter importância no presente, e isso está longe de acontecer.

O esforço do Presidente da República com o seu discurso no 25 de Abril tem vários méritos - é humano, procura ser justo, tenta o bom senso -, mas pensar que é possível olhar a História sem a "infetar" com a ideologia política do presente - seja a ideologia dominante, sejam as ideologias alternativas - é pedir aquilo que a humanidade, ao longo da História, nunca fez.

Este debate histórico, dominado pela luta político-ideológica do presente, por muito duro que seja, tem de continuar, e durante muito tempo.


Jornalista
https://www.dn.pt/opiniao/marcelo-esta-a-pedir-nos-o-impossivel-13619174.html

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Pedro Tadeu - Carlos Carvalhas foi um bom líder do PCP?

* Pedro Tadeu


O PCP tem ódio ao culto de personalidade (que identifica como um dos "cancros" que corromperam o ideal socialista nos países do Leste) e valoriza a organização coletiva da sua atividade. Por isso limita muito as homenagens a indivíduos: Marx, Engels, Lénine e Álvaro Cunhal são exceções, mas mais ancoradas no estudo da obra que produziram do que propriamente no elogio das suas qualidades pessoais.

Tenho, no entanto, que dizer que estou convencido que o PCP só vai conseguir comemorar os 100 anos de existência graças a Carlos Carvalhas e à equipa que com ele dirigiu o partido, enquanto foi secretário-geral, de 1992 a 2004 - pensemos só em quantos partidos comunistas, por esse mundo fora, praticamente morreram, precisamente nessa época...

A capacidade da direção de Carvalhas - no meio de um furacão de divisões, conflitos internos, crises existenciais, dúvidas ideológicas, lutas pelo poder - em conciliar o que parecia inconciliável, a firmeza em manter a unidade do partido, a lucidez em se focar na ação política concreta, a estratégia de não desamparar o trabalho sindical e autárquico, a brilhante atividade parlamentar, a lisura em enfrentar a crítica, a coragem em aceitar decisões difíceis (incluindo a expulsão de alguns militantes destacados) e a coerência em manter a organização e o cunho ideológico marxista-leninista do PCP garantiram, mais do que a sobrevivência, a relevância do partido na sociedade portuguesa, em contraste com a falência de quase todos os outros partidos congéneres da Europa ocidental.

Recorde-se que, para além dos problemas internos do PCP, a direção de Carvalhas enfrentou a perda mundial da credibilidade ideológica de tudo o que tivesse matriz socialista, face à ascensão e hegemonia do liberalismo globalizante.

Carvalhas apanhou o fim da era de Cavaco Silva primeiro-ministro e toda a era de António Guterres que, sem maioria absoluta, só negociava à direita e ostracizava o PCP, apontado pela esquerda não comunista e pela generalidade dos analistas políticos da época como um partido ultrapassado, em decadência e em vias de extinção, tal como os partidos irmãos de Espanha, França, Itália, para além da maioria dos partidos do Leste.

Foram os tempos do auge do dinheiro fácil vindo com os fundos europeus; da propaganda massiva a favor da entrada de Portugal no euro "para apanhar o comboio da Europa", como então se dizia; da ilusão de progresso dada pela Expo 98, pelo Euro 2004 e pelas imensas autoestradas; da vulgarização dos hipermercados, dos grandes centros comerciais e do consumismo maluco; foi um aumento geral de bem-estar na população que escondeu problemas estruturais que à primeira crise séria vieram de novo ao de cimo e, como insistia em denunciar o PCP, iludiam a "a natureza exploradora, opressora, agressiva e predadora do capitalismo".

Foi também o início do Bloco de Esquerda, de uma esquerda radical sem problemas em renegar ou em secundarizar a herança da Revolução de Outubro na Rússia e capaz de erguer bandeiras novas, de matriz não proletária, mas atraentes para grandes fatias de eleitorado, e que aproveitava para navegar a onda da suposta decadência do PCP.

Tudo estava contra o Partido Comunista Português, mas a direção de Carlos Carvalhas conseguiu muito melhores resultados do que os vaticínios da época previam, não só eleitorais como de manutenção de níveis de militância, de capacidade de intervenção e de mobilização de massas.

Claro que o mérito maior dessa aptidão para se manter relevante na sociedade portuguesa, quando tudo parecia encaminhar o PCP para a desintegração, deve-se, sobretudo, aos próprios militantes do partido, à forma como ali se trabalha e se organiza, à cultura política herdada e ao enraizamento na sociedade portuguesa - mas Carvalhas liderou esses tempos e esse facto não pode ser ignorado.

E, no fim, quando o seu partido decidiu que deveria substituir o secretário-geral, ninguém viu Carlos Carvalhas, nem Octávio Teixeira nem Vítor Dias (as "estrelas"mediáticas do PCP da época) a "andar por aí" para assombrar a direção sucessora de Jerónimo de Sousa.

Com a saída, agora, de Carlos Carvalhas do Comité Central saem também pessoas que ajudaram a assegurar a relevância do PCP: Carlos Gonçalves (que estava agora na Comissão Política, mas trabalhou diretamente com Carvalhas quando ele foi secretário-geral), Luísa Araújo (membro do Secretariado e uma mulher muito prestigiada no PCP), Agostinho Lopes (que, entre muitas outras coisas importantes, ajudou à sustentação teórica do partido). Já antes tinham saído muitos outros históricos do partido, como, por exemplo, Domingos Abrantes, agora Conselheiro de Estado. Outros morreram, como Ruben de Carvalho. E há muito mais gente que não posso estar aqui a enumerar.


E, claro, noutras frentes, há também outros notáveis a sair agora do organismo mais importante do PCP entre congressos, como Arménio Carlos, ex-líder da CGTP, Francisco Melo, da Editorial "Avante!", e muitos outros; para um total de quase trinta saídas - tudo pessoas que merecem igualmente um lugar na história do partido.

O PCP detesta homenagens a indivíduos, mas eu, jornalista livre, pedindo desculpa aos leitores, como também sou militante de base do PCP e tenho a sorte de me deixarem escrever isto no DN, acho que devo, na hora em que ele sai do Comité Central, um agradecimento ao secretário-geral que foi Carlos Carvalhas. Aqui fica.

27 Novembro 2020 — 07:00

https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/pedro-tadeu/carlos-carvalhas-foi-um-bom-lider-do-pcp-13081605.html

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Pedro Tadeu - Ai "Notre Dame"!... o trabalho está a matar-nos?



17.4.19

«Ao longo de mais de um século um grande estaleiro juntou, seis vezes por semana, uma média diária de 300 homens. Alguns começaram, ainda crianças, a trabalhar ali. Muitos deles também morreram naquele local, sem conhecerem mais nada deste mundo.

Eles eram artífices especializados num ofício, ensinado em segredo por um mestre. Eles foram exclusivos toda a vida, dedicada, apenas, a um monumento ao segredo da conceção divina do filho de Deus.

Lentamente, penosamente, ergueram pedra a pedra, fundiram ferro a ferro, juntaram tábua a tábua, chumbaram vidro a vidro, "toc toc!", "tac tac!", "tic tic!" e construíram, penosamente, sabiamente, à mão, com ferramentas de artesão, os gigantescos corpos principais da Catedral de
Notre Dame de Paris.

Há 850 anos trabalhava-se enquanto houvesse luz, do nascer ao pôr-do-sol. Tal como a catequese cristã afirma ter sido um direito do Criador do mundo, os criadores da Catedral de Notre Dame descansaram aos domingos. E, ao longo de cada ano, aproveitaram uma quarentena de feriados para honrar santos, reverenciar Jesus ou Maria e armazenar no coração algum descanso retemperador.

Durante um dia de trabalho cada homem tinha direito a parar uma hora para almoçar e, a meio da tarde, a outros 15 minutos para beber... de preferência vinho, a bebida da falsa força.

O pagamento do salário, para quem tinha direito a ele, era diário e ninguém concebia remunerações por feriados, folgas ou férias.

A vida de um construtor de Notre Dame, no século XII ou no século XIII, era, para qualquer um de nós, cidadãos ocidentais deste mundo do século XXI, insuportável.

Mas ser trabalhador na construção de Notre Dame nos séculos XII ou XIII era, simultaneamente, uma das melhores vidas possíveis dos homens que Deus teve a graça de não fazer nascer como filhos das classes superiores da sociedade feudal e cristã.

Foram milhares os trabalhadores que ergueram a Catedral de Notre Dame de Paris. Um incêndio, talvez atiçado por um fósforo, um cigarro, uma faísca, algo milésimo, mínimo, minúsculo, arriscou esta segunda-feira destruir uma enorme obra da Humanidade.

A vitória dos bombeiros que salvaram a estrutura principal de Notre Dame salvou a memória de um enorme sacrifício de vidas, que a ignorância sobre o real número de mortos sucumbidos às falhas da construção ou a ausência de contagem de almas condenadas a uma existência confinada à pequena Île de la Cité, nos anos de 1163 a 1267, escamoteia da maior parte dos livros de História.

Todos os grandes edifícios construídos pela Humanidade, das pirâmides do Antigo Egipto aos arranha-céus de Nova Iorque, do Mosteiro dos Jerónimos ao Convento de Mafra, resultaram da imposição do sacrifício, da dedicação da vida, da inaceitável morte, do glorioso compromisso de milhões e milhões de trabalhadores.

Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, não morre apenas a memória da arte ou da engenharia que a germinaram. Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, falece também a memória do trabalho e desvanece um registo das etapas de progresso social que nos trouxeram até aqui.

E o que é o trabalho, hoje, aqui? É o trabalho com direitos, com horários, com pausas, com folgas, com salários, com férias pagas? Ou é um tempo em que as coisas parecem andar séculos para trás, até à época do trabalho quase escravo que ergueu Notre Dame?

Que tempo é este, que leva os jornais do século XXI a alertar: "O trabalho está a matar pessoas e ninguém se importa"?»

Gravura - Uma ilustração da Catedral de Notre Dame, no século XIX - litogravura de Nicolas Chapuy
Cartoon -  "Sadness", por Antonio Rodriguez