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sexta-feira, 17 de julho de 2026

Miguel Sousa Tavares - A ‘selenação’: um fado lusitano

* Miguel Sousa Tavares

A derrota e humilhação da selecção, erigida em exemplo do melhor que a pátria portuguesa tem, é toda uma lição sobre os nossos males profundos

16 julho 2026

Esta saga dos “heróis do mar”, feita parte fundamental da mensagem do nosso infeliz hino nacional, há-de perseguir-nos até à eternidade ou até ao dia em que nos deixarmos render à verdade histórica: nós não somos descendentes desses portugueses que partiram literalmente à aventura para demandar Índias, embarcados em banheiras de pinho vagamente flutuantes, ou dos que mais tarde embarcaram em baleeiros americanos para lhes ensinar como se caçava a “Moby Dick” nas águas do Pacífico, ou até mesmo daqueles que, ainda mais tarde, mas sempre em navios feitos de madeira, andaram a pescar bacalhau nas águas geladas de Newfoundland. Não, nós não somos descendentes desses que partiram: somos descendentes dos que ficaram. Pelo que já é tempo de acabarmos com essa história dos heróis do mar, que há muito deixámos de ser, e olharmos para nós próprios tal como somos hoje, com os nossos defeitos e as nossas qualidades, os nossos feitos e os nossos fracassos.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Carlos Matos Gomes - Os atletas são os soldados de um regimento…

Carlos Matos Gomes

Recolhido em casa das animosidades do clima porque o corpo já tem inimigos com que se entreter, entretenho-me a ver o grande circo de Verão - que este ano calhou ser o das Olimpíadas. Tenho-me  lembrado do meu neto na primeira vez que o levei ao circo, a perguntar.me o que faziam os palhaços quando não estavam na pista a realizar habilidades para ele se rir. Também me pergunto o que fazem estas pessoas, os atletas - do grego athletes, com origem no termo aethos, que significa esforço, sendo o atleta aquele que compete com esforço por um prêmio, quando não estão em atuação. Treinam, claro. E além do treino, porque se esforçam os atletas e porque tem de ser premiado o seu esforço? Eu entendo o negócio que utiliza os atletas e de que os atletas se aproveitam, fazendo-se pagar pelo seu esforço. Mas o que leva centenas de milhares de pessoas, os mais altos dirigentes das nações, os maiores cientistas, as melhores capacidades tecnológicas a dedicarem o melhor das suas capacidades para fazer uma pirueta, um remate com a mão ou o pé numa bola e para a transmitir a todo o mundo em câmara lenta, ou em pormenor e a receberem a bandeira do seu país, ou daquele que lhe paga e os aplausos do hierarca que vem das lonjuras da pátria a Paris para saudar o seu atleta? 

Ontem, ao assistir à prova de mergulho com trampolim, confesso que esperei que um dos ditos atletas se atirasse de chapão para a água. Inimaginável, porque aquilo é um assunto sério! Os jovens estavam seriíssimos como robôs. Todos têm de ser muito bem comportados, domesticados. Apenas um cavalo teve a ousadia de cagar a meio da prova! Vivam os animais. Livres! 

Os atletas são os soldados de um regimento que marcha disciplinadamente para um pódio. No intervalo, treinam ordem unida. Também soube que uma atleta foi expulsa dos jogos porque saiu da aldeia e foi ver a Disneylandia - justo castigo, não se pode sair de um jardim zoológico para ir à concorrência.  

Aguardo com expetativa a cerimónia de encerramento dos Jogos. Imagino que seja com o esvaziamento do Sena a e venda da água em garrafinhas com forma da Torre Eiffel.

2024 08 09 
https://www.facebook.com/carlos.matosgomes

domingo, 23 de junho de 2024

A propósito dos mitos sobre os jogos olímpicos


Les Echos 23

Lembrar que Pierre de Coubertin era misógino, racista, colonialista, reacionário e amigo dos nazis.

Na verdade, por natureza, na sua visão de mundo, só existem dominantes e dominados: “Existem duas raças distintas: a dos homens com olhar franco, músculos fortes e andar confiante, e a dos doentes com o seu rosto resignado e humilde, com ar derrotado

Felizmente, especifica o mestre, “a primeira característica essencial do Olimpismo moderno é que ele é uma religião”. O seu culto permitirá estabelecer, insiste em muitas ocasiões, uma “higiene integral do espírito” para pôr fim a estes defeitos da sociedade moderna que são - desordenadamente alcoolismo, o anarquismo, o socialismo, o erotismo, a pornografia… substituído para sempre pelo “prazer saudável” da “alegria muscular” que leva ao “apaziguamento”.

Poderíamos perguntar-nos por que prestidigitação o nome deste profeta fascista foi dado a dezenas e dezenas de estádios e faculdades, a centenas de lugares espalhados por toda a República Francesa. O facto é ainda mais perturbador porque os últimos Jogos a que Pierre de Coubertin participou, os organizados por Hitler em Berlim em 1936, constituíram uma espécie de apoteose na sua colaboração com o pior."

2024 06 23

Selo emitido em Frnaça, 1956, homenageando Pierre de Coubertin

https://www.facebook.com/profile.php?id=100013444540574

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

João Miguel Tavares - Como destruir um grande clube de futebol

OPINIÃO

A proposta de alteração dos estatutos resultou das reuniões realizadas pelo conselho superior do clube. Ou seja, é o conselho  que as está a propor aos sócios.

* João Miguel Tavares
16 de Novembro de 2023

Aprende-se muito com as cenas de pancadaria na Assembleia Geral Extraordinária do Futebol Clube do Porto, porque estamos a assistir à lenta destruição da instituição que dominou o futebol português desde a década de 80. O mais curioso é isto: essa destruição acontece não por causa do ódio dos inimigos do FC Porto, mas por causa do excesso de amor dos seus sócios – os sócios do FCP gostam tanto de Jorge Nuno Pinto da Costa que se tornaram cegos a todas as barbaridades que a sua direcção tem vindo a cometer nos últimos anos, e à catástrofe que tem sido a gestão do clube.


Todos os grandes clubes portugueses têm enormes passivos, mas só o FC Porto se encontra em situação de falência técnica. Na diferença entre passivos e activos, o Benfica tem capitais próprios positivos no valor de 113 milhões de euros. O Sporting regressou a terreno positivo na época de 2022/23, com 8,9 milhões. O FC Porto está a anos-luz dos seus rivais: tem capitais negativos no valor de 176 milhões de euros. O resultado agravou-se em 64 milhões apenas na última época.

Em qualquer empresa, um CEO com estes números seria corrido de imediato. No FC Porto, decidiu avançar-se com uma mudança de estatutos que reforça ainda mais os poderes da actual direcção. Centro-me numa única medida, bem elucidativa da deriva para o abismo: a inacreditável possibilidade de os membros dos órgãos sociais do FC Porto passarem a realizar negócios com o próprio clube.

Até agora, esses negócios eram obviamente incompatíveis: um dirigente não pode realizar negócios com a empresa que dirige. Seria bar aberto para todos os abusos e para a transferência de dinheiro em proveito próprio ou da família. No entanto, se os novos estatutos do FC Porto forem aprovados, essa limitação cairá: o negócio passa a ser possível “quando seja do manifesto interesse do clube”, uma formulação de tal maneira subjectiva que praticamente tudo passará a ser permitido.

Mas o mais extraordinário – e o que me levou a escrever este texto – é isto: essa proposta de alteração dos estatutos resultou das reuniões realizadas pelo conselho superior do clube. Ou seja, é o conselho superior que as está a propor aos sócios. E o conselho superior do FC Porto não é um qualquer órgão obscuro – ele é composto por gente mui ilustre da cidade do Porto, e não só.

Na lista dos seus membros efectivos surge, em primeiro lugar, o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira. Em terceiro, Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia (agora condenado à perda de mandato por um crime de peculato). Em quarto lugar está o actual líder do PSD, Luís Montenegro. Em quinto lugar, o comentador Pedro Marques Lopes. Em oitavo, o ministro da Saúde, Manuel Pizarro. E lá para o meio da lista ainda encontramos o deputado do PS Tiago Barbosa Ribeiro.

Estas pessoas não têm com certeza nada que ver com a organização da assembleia geral, nem com a inconcebível utilização da claque dos Super Dragões para intimidar os desgraçados dos sócios que se opõem aos novos estatutos. Mas já que são políticos que andam por aí, e muitos deles vão iniciar em breve uma campanha eleitoral, deviam pronunciar-se publicamente sobre o caso. Será que pessoas como Rui Moreira, Manuel Pizarro ou Luís Montenegro propuseram mesmo aos sócios do FC Porto agravar o nepotismo e a endogamia do clube? Eu não sou sócio da casa, mas sou um eleitor português. Há por aí tantos microfones à disposição – digam-me lá, que quero muito saber.

O autor é colunista do PÚBLICO

Jornalista

https://www.publico.pt/2023/11/16/opiniao/opiniao/destruir-clube-futebol-2070376

sábado, 5 de abril de 2008

Prendas, política e futebol


* João Marques dos Santos, Advogado

O Calcanhar de Aquiles



Triste País este onde nunca chegam ao fim gravíssimas denúncias de corrupção, mas se mobiliza legiões para apurar se foram oferecidos relógios.


1. A pulsão eleitoralista que todos os nossos governantes trazem encaixada nas suas cabeças é tão inexorável como a herança genética. Não há nada que a trave ou desvie do seu caminho. Na hora própria ela se manifesta-se sempre em toda a sua exuberância. Como a natureza na Primavera. Mas este ano o milagre começou mais cedo. De um dia para o outro o espectáculo começou. O ‘socialismo’ rejuvenesceu. Acordámos e tínhamos em casa uma inesperada prenda. Fruto da época. A baixa da taxa máxima do IVA num fantástico 1%. Como os ‘brindes’ oferecidos aos árbitros de futebol para os ‘enganar’. E mais virão. Muitas. Para todos os gostos e feitios. O ciclo cumprir-se-á.


Menezes, surpreendido pela precocidade destes efeitos feéricos, perturba-se e queixa-se.


De tudo, para não variar. Porque já entendeu que o seu PSD é um carro de combate avariado. Agora, queixa-se da televisão pública. E não se queixa das privadas porque não rende. Atacar a TV pública é que é bom porque é atacar, simultaneamente, Sócrates, o Governo e o PS. A pouco santa trindade da nossa política. É claro que todos os governos têm a tentação de manipular a informação. É um facto histórico que já interiorizámos e a que quase somos insensíveis. Mas Menezes devia começar por se queixar de si próprio. Por ser incapaz de captar a atenção dos jornalistas (e do País) pela positiva. Por não conseguir fazer com que todos os órgãos de Comunicação Social tenham equipas de reportagem sempre no seu encalço. Por nos condenar à pasmaceira, ao lugar comum e à desesperança. Por não nos surpreender com as suas soluções. Por quase nos fazer esquecer que o PSD existe como alternativa. E, neste enquadramento, o que Menezes faz é um patético apelo para que olhem para ele. Não pede mais. Nem quer melhorar a qualidade da TV do Estado, que é muito melhor do que ele com o seu ‘complexo do desgraçadinho’ pretende fazer crer. Já o conseguiu. Minimamente. Se não for capaz de fazer melhor, tente outra vez.


2. A Liga de Futebol Profissional resolveu dar um arzinho da sua graça. Só por graça, bem entendido. Depois de anos e anos a olhar para o lado à espera de que os tribunais fizessem o seu trabalhinho (dela, Liga), lembrou-se de que afinal também tem uma Comissão Disciplinar. Fê-lo por várias razões: por julgar que Pinto da Costa está fragilizado. Por sentir que a família Loureiro pode estar ferida de morte. Por ter a certeza de que nem Boavista nem União de Leiria têm quem chore por eles. Por o FCP se estar a marimbar para perder seis ou mais pontos e provavelmente não levar a gracinha a mal. Mas, sobretudo, por julgarem que estão protegidos por um guarda-chuva que se chama ‘Apito Dourado’. Oportunismo, do pior.


Epílogo: triste País este onde nunca chegam ao fim gravíssimas denúncias de corrupção envolvendo muitos milhões, mas se mobilizam legiões de investigadores durante anos a fio para apurar se foram oferecidos ou não a alguns árbitros, não Ferraris, nem apartamentos ou contas bancárias em offshores, mas apenas uns reluzentes relógios ou outras prendinhas de enganar tolos ou ainda a generosa companhia de prestimosas damas altamente especializadas nas mais modernas técnicas de prestação de refinados prazeres sexuais a preços módicos.


Quem brinca com quem?

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in Correio da Manhã - 04 Abril 2008 - 09.00h

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ilustração de Robson Minghini em pca.org.br/guia_do_voluntario

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