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sábado, 6 de junho de 2026

Luís Osório - O dia em que começámos a traficar escravos

                                     

* Luís Osório 


POSTAL DO DIA
1.
Orgulho-me da nossa História.
Dos nossos heróis, mas também dos cobardes, dos que morreram anónimos, dos loucos e maquiavélicos.
Uma História, das famílias e dos países, é sempre uma soma de interesses e sentimentos contraditórios.
Fomos o primeiro país a abolir a pena de morte e o último a abandonar a escravatura.
Fomos os precursores da diplomacia moderna e o resistimos mais do que ninguém a matar o colonialismo.
2.
De todas as personagens da nossa epopeia, talvez o Infante D. Henrique seja o mais difícil de compreender – mesmo sendo um homem do seu tempo e, por isso, impossível de comparar a partir dos nossos valores e padrões.
Por um lado, o estratega que criou os alicerces da expansão e do Império. O que com engenho desenvolveu as caravelas e a moderna cartografia, o que conquistou Ceuta e dobrou o Bojador.
Por outro lado, o que sacrificou o irmão mais novo em Tânger ou o que enriqueceu à custa do tráfico de escravos instituindo a escravatura como um negócio de Estado.
3.
Só há muito pouco tempo li a Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara, a sua descrição do primeiro grande desembarque em Lagos, no verão de 1444.
Dos negros a serem desempilhados da caravela.
Das grilhetas e correntes.
Dos chicotes a cortarem o corpo de mães que esperneavam para que os filhos delas não se separassem.
Dos gritos que Zurara descreve como impossíveis de esquecer.
E do Infante D. Henrique montado a cavalo a ver tudo e a ter o privilégio de ser o primeiro a escolher os pretos que levava para as suas terras e as mulheres que levava para as suas casas.
E depois a fazer as contas aos que restavam, aos que eram comprados – o Infante ganhava vinte por cento em cada venda, o seu quinto consagrado na lei.
Havia também os que não eram vendidos, os que não tinham valor, os que eram mortos e sangrados em valas comuns como animais inférteis.
4.
O Mercado de Escravos é um museu que vale a pena visitar em Lagos, a cidade portuária que foi o primeiro santuário de escravos da Europa moderna.
A face oculta dos Descobrimentos.
Passaram muitos anos, que são poucos.
Um sopro de tempo na escala humana.
Um sopro ainda menor na escala da vida no planeta.
Se experimentares ler a crónica de Zurara, e se fechares os olhos, conseguirás ouvir nitidamente os gritos daquelas mães e o Infante a trote num cavalo que não era alado.
LO

2026 06 06
https://www.facebook.com/luis.osorio.940/posts/postal-do-dia-o-dia-em-que-come%C3%A7%C3%A1mos-a-traficar-escravos1orgulho-me-da-nossa-his/27663786879891636/

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Luís Osório - A história de amor de Carlos Paredes com a jovem guitarrista por quem se apaixonou


* Luís Osório 

Na última semana antes do 25 de Abril, a história de uma amor improvável entre o génio Carlos Paredes e a jovem guitarrista por quem se apaixonou

1.

Conheci Carlos Paredes quando ele já só podia sorrir.

Em criança tinha estado com ele várias vezes, mas aí não conta, aí os adultos passam pelos filhos dos amigos como vinha vindimada, dão beijinhos e abraços, mas os beijinhos e abraços não são, na maior parte das vezes, vínculos de futuro.

O grande mestre da guitarra portuguesa era amigo do meu pai.

E foi nessa condição, de filho do meu pai, que a Luísa Amaro, sua companheira me desafiou para o ir ver ao Lar Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa.

Corria o ano de 1994 ou 1995, por aí.

Fez trinta anos que entrei no seu quarto e ele me sorriu.

Já não falava, mas ouvia música.

E ainda via televisão.

2.

Infelizmente não voltaria a tocar.

A doença neurológica deixou-o dependente de cuidados durante nove anos.

Entrou no lar em 1993 e partiu no verão de 2004.

Quando a notícia chegou aos ouvidos dos portugueses alguns julgavam que já tinha morrido.

Acontece-nos muito, não é?

Deixamos de aparecer e morremos antes de morrer.

Carlos Paredes, o génio mais humilde que este país já conheceu, a partir de certa altura foi para dentro. Tinha os olhos abertos, mas já não via, deixara de sorrir.

Mas Luísa Amaro esteve sempre à beira da sua cama.

Caminhou para o lar todos os dias durante nove anos.

3.

Carlos convidara-a para tocar com ele.

Luísa acabara de fazer 25 anos e era uma enorme esperança da guitarra portuguesa. Católica e empenhada na carreira apaixona-se por Paredes depois do primeiro espetáculo que fizeram juntos.

Viveram dez anos dedicados um ao outro.

E depois Luísa viveu mais dez anos totalmente dedicada a Carlos Paredes.

Luísa Amaro, é justo que se diga, sofreu na pele o preconceito de uma sociedade que condenava as mulheres a serem párias.

Ouviu de tudo e ouviu até de alguns músicos – que estava com Carlos por interesse, que desejava aproveitar-se do seu nome e projeção, que não tinha direito a nada se ele morresse.

4.

Só que Carlos Paredes caiu numa cama e deixou de ser falado.

E ouvido.

Mas Luísa Amaro caminhou todos os dias para aquela cama onde se sentava, onde punha música, onde tocava para ele as partituras que compunha, onde lhe contava de temas domésticos, onde esperou até ao último minuto que voltasse a sorrir.

Nesta última semana antes do 25 de Abril quis recordar Paredes.

E homenagear essa extraordinária compositora, guitarrista e mulher de Carlos Paredes a quem voltarei a aplaudir no meu monólogo na Figueira da Foz.

2024 04 16

https://antena1.rtp.pt/programas-antena-1/a-historia-de-amor-de-carlos-paredes-com-a-jovem-guitarrista-por-quem-se-apaixonou

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Luís Osório - Quando Jerónimo de Sousa nos abraça

* Luís Osório


1.
Jerónimo de Sousa é um homem especial.
Mas não digam que é boa pessoa.
(apesar de ser boa pessoa)
Não digam que sempre gostaram dele
(apesar de poder ser mesmo verdade o que dizem)
Não digam coisas que, sendo certas, nos desviam do que foi e é a sua vida.

2.
Jerónimo é um operário metalúrgico.
E um comunista.
E apesar de deputado há quase 50 anos, continua a combater pela dignidade dos trabalhadores numa qualquer fábrica em que os seus ideais lhe saltem à vista.
Alguns talvez não acreditem.
Mas se não acreditam é porque nunca vos apertou a mão.
Ou abraçou.
Ou porque nunca estiveram com ele numa fábrica.
Quando nos aperta a mão percebemos o peso do trabalho operário.
Quando nos abraça percebemos que o faz com o que carrega, com a poesia de todos os que combateram e já não estão.
Quando está numa fábrica percebemos que está como se fosse a sua casa, os operários (comunistas ou não) são uma parte de si, mais do que os passos perdidos de um parlamento que conhece como as suas mãos, mas onde não sente pertencer por inteiro.


3.
Não digam que é uma boa pessoa pois isso é menorizar o combate de uma vida.
Jerónimo é uma boa pessoa – e como se sente que o é –, mas é no combate que o reconhecemos. E nesse combate é inclemente e daria a sua vida sem uma hesitação que fosse.
Jerónimo é um homem que se comove.
Com a dureza de princípios de um comunista, mas com a leveza de um coração que não esconde as lágrimas (mesmo que as lágrimas não sejam visíveis para os que lhe estão próximos).
Um dia telefonou-me depois de um “Postal” que dediquei aos meus amigos comunistas.
“Olá, Luís. É o Jerónimo. Só para te dizer que foi muito bonito o que escreveste. E para te dizer que estamos na expetativa de que a Benedita seja comunista”.
 

4.
Naquele postal eu publicara a fotografia da minha filha Benedita com o braço direito no ar.
A Benedita, neta mais nova do meu pai, um comunista convicto.
É por isso, em nome do respeito que os comunistas nos merecem, que o combate do Jerónimo (e de tantos outros e outras) nos merece, que devemos nestas horas complicadas desejar que possa sair do hospital com vontade de continuar a abraçar o mundo e de continuar o combate.
Comunistas e não comunistas, como eu.
Que possamos dar o abraço, Jerónimo.

Meu amigo.
 
E hoje camarada.

LO
 
 No blog «As palavras são armas», de Cid Simões 
12 DE JANEIRO DE 2022
A adversidade conjuga esforços e sentimentos
“POSTAL DO DIA” de Luís Osório (tirado do facebook)