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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

autobiografia de joão césar monteiro

* João César Monteiro


«Tive infância caprichosa e bem nutrida, no seio de uma família fortemente dominada pelo espirito, chamemos-lhe assim, da 1 ª República. Escusado será dizer que abundavam os dichotes anti-clericais, muito embora o meu pai desejasse que eu viesse a seguir a carreira eclesiástica. Em suma: não se percebia nada. Pelo menos à primeira vista.

Por volta dos 16 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

Tendo finalmente conseguido dissipar toda a fortuna na satisfação de brutais apetites, o meu garboso pai veio a falecer vitimado por cruel ataque cardíaco, deixando-me, perplexo e sem um chavo, a coçar a cabeça. Era chegada a hora de dar o corpinho ao manifesto, como a maior parte das pessoas. Filho que era de meu pai, atravessei senhorialmente muitos e variados empregos, mas em breve me apercebi que já não podia olhar o mundo da mesma maneira. Fui até Paris para ensaiar até onde me era possível ir. Não me era possível ir muito longe. Meses depois, «ayant connu pas mal de choses», era repatriado.

Em 1960, encontrei o Sr. Seixas Santos que teve a bondade de me ensinar um pouco do muito que sabe de cinema. O Sr. Vasconcelos andava ao mesmo e parecia fazer progressos que, infelizmente (para ele), o futuro ainda não comprovou.

No ano seguinte, trabalhei como assistente de realização do Sr. Perdigão Queiroga e admito que poderia ter aprendido mais qualquercoisinha se não tivesse sido tão presunçoso.

Em 1963, na injusta qualidade de bolseiro da Fundação Calouste Gu1benkian, parti para Londres e fim de frequentar a London School of Film Technique. Suponho que nunca por aquela escola passou aluno tão mau, mas nesse passo não tive grandes culpas no cartório: é que de facto os ingleses não nasceram para o cinema. Aliás, ainda não percebi muito bem para que é que os ingleses nasceram. Deve com certeza ser pela mesma razão que nasceram os percevejos, as baratas e o pão integral, vulgo pão que o diabo amassou. A estadia em Londres, essa foi extremamente divertida, sobretudo no salutar plano das doces amizades; contudo, no regresso à Pátria, o meu pavoroso aproveitamento escolar foi muito sentido, como vergonhosa acção, por provincianas carpideiras a quem nunca passará pelas cabeças, tão chorosas dos mal gastos dinheirinhos da Gulbenkian, que a estupidez e a incompetência assentam arraiais em qualquer parte do mundo, inclusive no coração de Londres, sob o pomposo nome de London School of Film Technique.

Em 1965, conheci o Paulo Rocha e os seus «Verdes Anos», o Fernando Lopes e o seu «Belarmino». Tomei-me de amizade pelo Fernando e de amores pelo filme do senhor Rocha, cujos hábitos de anacoreta o tornavam pouco acessível.

Nesse mesmo ano, tentei pôr de pé um projecto de filme em 16 m/m, intitulado «Quem espera por sapatos de defunto morre descalços». Dois dias de filmagens e rabinho entre as pernas. Falta de xis. Esse ano negro não findaria, no entanto, sem que deixasse a meio o primeiro filme publicitário que me enfiaram nas unhas: de como, graças ao Não-sei-quê, fazer desaparecer em três penadas o mau cheiro do sovaco, e me internassem num hospício para acalmar as febres.

De novo na vida civil, os meus excessos ultra-românticos, temperados pela mais nobre profundidade sentimental, tiveram enfim (ai filhas de Sidon) a justa consagração, o que não me livrou de amouchar durante um ano, como escriba de Filmes Castello Lopes, Lda.

Em 1968, após um reconfortante período em que descobri que mães há muitas e pai só um, o celeste, dei mostras de, para além do instinto de conservação, possuir muitos outros bons instintos e fui finalmente recomendado ao produtor Ricardo Malheiro. Foi, pois, na mais desregrada euforia que fiz o filmezinho sobre Dona Sophia. Pouco tempo volvido (ó desgraça!), o Malheiro ia à falência ou, o que vinha a dar ao mesmo, a falência ia ao Malheiro. Sem grande proveito, tentei ainda a publicidade. Desesperadamente. Três ou quatro filmes, uma viagem, hélas! à Guiné, e disse.

No ano seguinte, estimulado por algumas boas vontades (saudades), resolvi repegar no projecto «Quem espera por sapatos de defunto morre descalço», cujas filmagens se arrastaram ao longo de dois anos. Numa altura em que eu já deitava o filme pelos olhos, a Fundação Gu1benkian concedeu-me (obrigadinho) um subsidio de $$$$$$$$$$$$$$$$... 180 contos, divididos em 3 prestações. Aqui, tive a tentação de dar uma volta. Pedi ao Vasconcelos para filmar dois planos que faltavam ainda ao filme, e fui. Itália e a inevitável Paris. Esgotada a finança, voltei para acabar o filme, receber a última prestação e partir outra vez, ora de comboio, ora à boleia, consoante a inspiração: Barcelona, Marselha, Florença, Milão, Como, Cernobbio, Paris.

Entretanto, o filme começou por ser relativamente mal recebido junto do Mecenas (quereriam ópera por 180 contos?), continuou, pateado num festival no Sul de Espanha e foi friamente acolhido pelos críticos presentes em Nice, aquando da chamada Semaine du Jeune Cinéma Portugais. Foi pena, porque me teria dado jeito, sobretudo no que toca à fruição de algumas benesses locais, mas já que não pôde ser, paciência! Tirando isso, aproveitei a estadia niceoise para comprar um lindo fato de banho de duas peças com a nota de 100 francos que o João Bénard me emprestou e ameacei partir uma garrafa de tinto na cabeça do Cunha Teles que, impensadamente, me chamou oportunista. Não sou uma natureza agressiva, antes pelo contrário, mas ser insultado por um manhoso negociante é coisa que me põe fora de mim. Detesto a promiscuidade e ensinaram-me a guardar escrupulosamente as distâncias. Por uma única e bem simples exigência: a de manter intacta e intocada e minha pessoa, para além da consciência de todos os meus erros e imperfeições. Levo, as mais das vezes, esta fantochada com o riso no costado, mas não é por acaso que, cada vez mais, me dou com menos pessoas.

Arrumados definitivamente os «Sapatos» iniciei, no Verão passado, «A Sagrada Família», que espero terminar por um destes dias. Presumo que não lhe estará reservada melhor sorte que a do filme anterior, mas devo confessar que a considero uma experiência relativamente importante, se não, e com certeza que não, no plano global de um cinema português, pelo menos, no plano particular do meu próprio cinema e na exacta medida em que, por um lado, discute e corrige dialècticamente o filme anterior e, por outro, prepara já o filme seguinte.

O filme seguinte chama-se «A Tempestade», baseia-se no poema dramático de Shakespeare e na ópera de Purcell e será perpetrado numa Arrábida pintada a Robbialac se, como se espera, a edilidade local não levantar intransponíveis obstáculos. Quanto mais não seja, há que atender aos relevantes serviços que a prestimosa tinta, que é só a que mais pinta e que mais dura, tem prestado ao colorido da Nação.

Que pensar de tudo isto? Em primeiro lugar, que a vida está má para os pobres. Depois que, nisto ou naquilo, vivemos todos muito ocupados, inclusive na falta de ocupação. Por último, que enquanto, pela parte que me toca, passo o tempo, como agora e aqui, a acariciar o meu dilatado egozinho e a fornecer de mim imagens razoavelmente aliciantes, como estas, existem pessoas bem mais obscuras que, discreta e devotadamente se vão ocupando de mim e do meu glorioso destino o que, aliás, não é novo. Parece que tem sido uma constante da História.

Assim sendo, resta-me reconhecer a solidão moral de uma prática cinematográfica cavada na dupla recusa de ser uma espécie de carro de aluguer da classe mais favorecida e, o que é mais grave, de trocar essa profunda exigência por toda e qualquer forma de demagogia neo-fadista que transporte e venda a miserável ilusão de servir outra coisa.» (Cais do Olhar)

https://www.facebook.com/karipande/posts/2637330799648457

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Confesso que vivi, por Pablo Neruda


Confieso que he vivido (br / ptConfesso que vivi) é um livrode cariz autobiográfico, escrito ao longo de vários anos pelo autorchileno Pablo Neruda, e publicado postumamente no ano de1974.
Foi publicado pela primeira vez em Portugal pelas Publicações Europa-América, em abril de 1975. No Brasil foi publicado como "Confesso que Vivi — Memórias", pela Difel — Difusão Editorialem 1978.

Repercussão 

Segundo pesquisa do Instituto do Livro Espanhol, o livro (na versão original em espanhol) figurou em segundo lugar na lista dos dez mais vendidos na Espanha no ano de 1975.[1]

Sinopse 

Ao longo de 340 páginas, o laureado com o Prêmio Nobel da Literatura de 1971 descreve o trajecto da sua vida, recorrendo a uma prosa salpicada de imagens poéticas que prende facilmente a atenção do leitor. A obra divide-se em diversos capítulos correspondentes a outras tantas fases da vida do poeta:
  • O jovem provinciano - sobre a infância e a adolescência passadas na província;
  • Perdido na cidade - sobre os tempos universitários, já em Santiago;
  • Os caminhos do mundo - sobre o início da carreira diplomática e a primeira viagem ao Oriente;
  • A solidão luminosa - sobre as suas impressões da Índia, do Ceilão e do Sudeste Asiático;
  • A Espanha no coração - sobre a estadia em Espanha, como cônsul do Chile em Barcelona, e o seu relacionamento com poetas como Lorca e Alberti;
  • Saí a procurar caídos - sobre a Guerra Civil Espanhola e a ajuda de Neruda para que alguns republicanos espanhóis pudessem fugir para o exílio;
  • México florido e espinhoso - sobre as suas memórias do México e as suas impressões da Segunda Guerra Mundial;
  • A pátria em trevas - sobre o seu regresso ao Chile e à passagem pelo Peru;
  • Princípio e fim de um desterro - sobre o seu desterro que o levou à União Soviética e à China;
  • Navegação com regresso - sobre a sua prisão em Buenos Aires e nova viagem ao Oriente no final da década de 1950;
  • A poesia é um ofício - onde reflecte sobre a sua obra e algumas das personalidades que o marcaram;
  • Pátria doce e pura - sobre o seu regresso à pátria, a subida de Allende ao poder e o Golpe de Estado de 1973.
As derradeiras páginas deste último capítulo foram escritas no curto intervalo de tempo, de apenas doze dias, entre o golpe de Estado de 11 de setembro e a morte de Neruda em 23 do mesmo mês. Nessas linhas, o poeta fala de forma amargurada das esperanças derrubadas pela violência dos militares e das memórias do seu amigo Salvador Allende.

Referências

  1. Ir para cima
     Folha de S.Paulo, Ilustrada, p.5, 28 de Janeiro de 1976 - Acessado em 29 de Dezembro de 2011.


https://pt.wikipedia.org/wiki/Confesso_que_Vivi


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Lanterna Mágica, uma autobiografia de Ingmar Bergman



The Magic Lantern

Book, 1987


Stockholm: Norstedts Förlag, 1987


Bergman's first autobiography. The book has a non-chronological structure, with altering chapters on childhood, theatre work, the tax affair in 1976, marriage crises, teenage summers in Nazi Germany, encounters with artists like Laurence Olivier, Greta Garbo, and Herbert von Karajan. Despite the title, the book contains quite little information on Bergman's filmmaking.



Diário de Notícias

ARTES

'Lanterna Mágica' os laços de família de Ingmar Bergman

por
pedro mexia13 Janeiro 2005

Na sua autobiografia Lanterna Mágica (1988, ed. port. Caravela, trad. Alexandre Pastor), Ingmar Bergman não surge afastado e obscuro, mas apostado numa evocação directa, frontal, acessível, mesmo um pouco crua nos detalhes e na linguagem. Depois do resumo feito em Fanny e Alexandre (1984), Bergman acrescenta uma adenda escrita sobre o seu mundo pessoal, certamente marcado pelo remorso e «desprovido de qualquer alegria» mas estranhamente próximo e humano, feito de «amor, patetice, traição, ira, comicidade, tédio».
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Escrito em saltos cronológicos sucessivos, Lanterna Mágica acumula anotações, recordações de infância, sonhos, episódios aparentemente soltos. No começo está essa «lanterna mágica» que Ingmar, em criança, trocou com o irmão ao preço de uns tantos soldadinhos. É a imagem de uma vida dedicada à imagem, bem como de uma constante transfiguração de motivos pessoais, mágicos mas dolorosos. Desse modo, encontramos ao longo destas páginas o retrato complexo do pai, severo pastor protestante, e o retrato magoado da mãe, feito a partir de fotografias. A iniciação sexual de Bergman. Os seus problemas de saúde. Os casamentos e infidelidades. O teatro, da paixão por Strindberg à burocracia estatal. O incessante combate com Deus. As simpatias da família pelo nacional-socialismo. A perseguição fiscal movida pela Suécia ao cineasta de sucesso O assassinato de Olof Palme. O mestre Sjostrom. O encontro com Chaplin e Garbo. O elogio a Tarkovsky. A musa Liv Ullmann.
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Bergman não se detém sobre os seus filmes em termos de «temas» e «significados». Porém, nas detalhadas referências pessoais encontramos quase todos os «temas» e «significados» que serão depois continuamente retomados, filme após filme. Em dois momentos Lanterna Mágica assume mesmo uma feição cinematográfica, de ficção de câmara opressiva mas surdamente poética. Numa cena real (com o pai) e noutra imaginária (com a mãe), Bergman enfrenta o psicodrama familiar que define tantos dos seus filmes. De forma sempre brutal, com «máscaras em vez de rostos, histeria em vez de sentimentos, vergonha e culpa em vez de ternura e perdão».

CineSom.

Música e Cinema, não necessariamente nessa ordem.


Lanterna Mágica, biografia de Ingmar Bergman.

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Terminei essa semana a leitura de “Lanterna Mágica”, autobiografia do diretor Ingmar Bergman. E como se já não bastassem os comentários apaixonados que teci no twitter durante as duas últimas semanas que estive em companhia do livro, vou, aqui, dar-lhes minhas impressões finais.
Após assistir três filmes do diretor – O Sétimo Selo, Morangos Silvestres e Juventude – tive a impressão da qual muitos falam: para se ter a plenitude na interpretação de seus filmes, deve-se compreender a vida de Bergman.
Lançada por uma acanhada editora no Brasil – a Editora Nórdica – a edição do livro que não contêm mais que 300 páginas é, mesmo com todos os erros, louvável. Louvável porque o idioma original é sueco, portanto, por dificuldades lingüísticas, a distância entre o leitor e o autor seria grande – pelo menor desleixo do tradutor. Salvo alguns erros de datilografia e notas de tradutor inconvenientes, a Editora Nórdica cumpre bem seu papel.
Robban_Andersson_XP_Scanpix_HR_100_70_ingmar_bergmPois bem. Escrito em 1989, já isolado na Ilha de Färo, o diretor relembra-sa de particularidades da juventude e de sua experiência como cineasta. No início da leitura já podemos observar um assunto que tanto perdura na filmografia do diretor: a morte. Relatando sua infância, Bergman é carinhoso ao lembrar de sua ama-de-leite que desapareceu – divulgando-nos depois, que a mesma suicidou-se após descobrir estar grávida. A morte do irmão é, com pesar, relatada – mesmo que numa breve passagem. Mas o falecimento que causa mais remorso no autor é o de sua mãe. Dedicando o último capítulo à mesma, é com melancolia que se lembra de sua submissão perante o marido agressivo. O que pode ser visto no longa-metragem intitulado “Karin’s Face”, por meio de fotografias pessoais de sua mãe.
joi de vivre que, depois do casamento, deram lugar a passividade e melancolia.
E é também pelo pai, que Bergman retrata suas particularidades no livro. Os castigos e humilhações por este empregado, foram constantes e resultaram no que ele chama de “personalidade bergmaniana”. A frieza e falta de empatia para com seus parentais. O que causa remorso no filho pedante e, posteriormente, no pai ausente.
E em meio às relações amorosas turbulentas, uma paixão sucintamente detalhada pelo autor é o teatro. Suas passagens à vários teatros como diretor, seu perfeccionismo, atores preferidos… E Strindberg, romancista tão venerado pelo autor – e tão encenado em suas peças. E a tal “Lanterna Mágica”, também. Uma espécie de projetor que o garoto Bergman troca com o irmão por soldados de chumbo e que lhe proporcionam pequenas experiências cinematográficas importantes.
O caminho percorrido até se tornar diretor de cinema, a desilusão com a Hollywood americana, o processo do Estado da Suécia contra o diretor, o isolamento na ilha de Färo. Tudo dito sem pudores.
É indiscutível que vários diretores empregam vivências pessoais na concepção de seus filmes, mas Bergman foi o que mais fez uso de tal façanha. Os elementos oníricos que tanto vemos presentes em suas obras foram criados em base de experiências do diretor – como a cena inicial de “Morangos Silvestres”.
Por fim: a sinceridade com a qual o autor se abre no relato de sua vida faz com que “Lanterna Mágica” não seja apenas um livro para os interessados na carreira cinematográfica. São relatos humanizados – os mesmos que fazem de “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, uma obra venerada.
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Ingmar Bergman (1918- ) - O cinema transcendental 


A obra de Ingmar Bergman compõe um dos mais ricos e essenciais capítulos da história do cinema.  Como poucos, o diretor se apropriou da linguagem para realizar um conjunto significativo que transcende a própria experiência cinematográfica.  Abordando temas intrínsecos à existência humana  – como desejo, morte e religiosidade –, o cineasta rompeu as fronteiras do cinema sueco e atingiu a universalidade.  

A relação de Bergman com o cinema antecede seu trabalho como profissional. Antes de estrear na tela, já havia descoberto o cinema como forma de expressão e até de sobrevivência. Aos 9 anos, no natal de 1927, não resistiu à tentação de ver o irmão presenteado com um projetor e sugeriu uma barganha definitiva para o futuro de sua vida:  trocou um exército de chumbo pelo cinematógrafo.  

Filho de pastor luterano, amargou uma criação autoritária, baseada em conceitos relacionados ao pecado, confissão, castigo, perdão e indulgência.  Em sua autobiografia, Lanterna mágica, Bergman faz relatos impressionantes. Sempre que contava uma mentira recebia castigos constrangedores, como desfilar vestido de menina ou ser trancafiado num armário.  É nesse período que vivencia sentimentos como vergonha ou humilhação, tão explorados em seus filmes.  

A iniciação profissional do diretor se deu através de um dos patriarcas do cinema sueco, Victor Sjostrom, homenageado em Morangos Silvestres, em que Sjostrom interpreta o protagonista que perde a noção da memória face à iminência da morte.  

Do mestre, diretor do clássico O Vento, com Lilian Gish, Bergman herdou a compreensão da natureza como elemento de sustentação drmática.  É o que ocorre, por exemplo, em Monika e o Desejo, onde o verão inunda a trama de sensualidade.Foi esse filme, por sinal, que despertou o interesse de Woody Allen pelo diretor sueco.  

Embora Bergman seja quase sempre lembrado por suas obsessões mais frequentes, como o passar do tempo, a morte e a impossibilidade de comunicação, presentes em filmes como Luz de inverno, O Sétimo SeloO Silêncio, Persona e tantos outros, o conhecimento mais aprofundado de sua obra revela um autor de talentos múltiplos. O Olho do diabo, Sorrisos de uma noite de Amor e Para não falar de todas essas mulheres são filmes de um bom-humor surpreendente, sobretudo quando se sabe que são filmes do mesmo autor de Vergonha, Face a face e Da Vida das Marionetes.  



Com larga experiência teatral (foi diretor do Teato Municipal de Goteborg , do Teatro de Malmoe e até hoje continua encenando), Bergman trabalhou em seus filmes com uma equipe que praticamente não se alterou. Harriet Andersson, Erland Josephson, Max Von Sydow, Ingrid Thulin, Liv Ullman e o insuperável Gunnar Bjornstrand são apenas alguns dos nomes imortalizados pelo seu cinema.  


Sem eles, não existiria essa obra feita a base de rostos, gritos, silêncios e sussurros. Apesar da fama mundial, Bergman não usufrui do mesmo prestígio na terra natal, a Suécia. Acusado de burlar o fisco, em meados da década de 70, caiu em desgraça.  Desde então, vive recluso na ilha de Faro, de onde só sai para encenar suas peças teatrais ou realizar especiais para a tevê. Fanny e Alexander, Oscar de 1985, foi seu último trabalho para o cinema. 

Ricardo Cota, 33, é crítico de cinema do Jornal do Brasil há oito anos, com passagens pelas revistas Cinemin, Set, Tabu, Cinema e IstoÉ, além do jornal O Dia. Foi autor dos cursos Bergman/Woody Allen: Dois Cineastas Face a Face; Huston/Coppola: Os jogadores;e O Cinema Cantado, Breve História dos Musicais.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

José Viale Moutinho ~ autobiografia


 Biografia

Poderei não ter sido assim
- arremedo autobiográfico
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Retrato de José Viale Moutinho, da autoria de Siza Vieira (2004)
Eu não fazia parte do elenco da peça, estava sentado na coxia da terceira fila, talvez perdido entre dois blues, mas ergui-me da poltrona e galguei os degraus para o proscénio. Chabela Vargas cantava nas minhas veias? O Manuel Freire era a voz da razão, soava Paul Robson no Old Man River. A sala ainda estava iluminada e situei-me logo ali. Mostrei à vontade ao erguer uma perna e pousar a alpargata sobre a caixa do ponto, impedindo que ele iniciasse a leitura murmurada da comédia, a comédia que se encontrava em cartaz. E declarei aos que procuravam sentar-se nas poltronas correspondentes aos seus bilhetes, o meu nome e acrescentei que chegara, havia muito, de uma ilha perdida no Atlântico, e que eu nascera quando os canhões começavam a calar-se pela segunda vez em todo o mundo. Falei que estava agora a lançar raízes na ilha, a Ilha do Ogre, mas arrepiei caminho. Um gracioso, num dos camarotes, perguntou em falsete se eu queria dizer que nascera na Madeira em meados de 1945. Aplaudiram-no, mas a mim apetecia-me, como sempre, dizer as coisas de modo mais sinuoso, acrescentando ser filho de um homem do Douro, extraordinário efabulador, desinteressado das vinhas e dos olivais da família, dele e de uma inglesa, que levara como dote, uns brincos de sua mãe e memórias de uma riqueza palaciana, carregada de preconceitos, inclusive de classe.
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Rua da Carreira, 174, Funchal (onde nasceu o autor). Desenho a lápis do escultor Ricardo Velosa.
Assim, entre a realidade quotidiana e as memórias ficcionadas, ou apenas inacreditáveis, montes de livros, férias no Douro, onde os personagens eram escritos por mim sobre as histórias de meu pai, e a figura mítica de um avô, que andava pelos campos em misteriosos trabalhos que eu não entendia muito bem. Ah, e as pessoas, já sentadas nas suas poltronas, impacientavam-se porque, segundo diziam, eu estava a impedir o início da representação. Teria sido muito simples se se erguesse o pano, surgisse o primeiro cenário e os actores começassem a função, naqueles jogos de deixas garantidos pelo homenzinho da caixa sobre a qual eu tinha pousado a alpargata.
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Na verdade, eu nem precisava de cenários nem de mais actores ou de que quem quer me sussurrasse os passos da minha vida, que eu me dispusera a contar naqueles momentos. Havia um foco que percorria a sala e, de quando em quando, mas cada vez mais insistentemente, se fixava em mim. Eu calculava que uma certa percentagem do sucesso que ali pudesse ter assentaria no facto dos gordos serem considerados pessoas bem dispostas. A plateia, mulheres e homens de rostos atónitos, era constituída por gente que me parecia demasiado magra. Nas histórias de meu pai havia sempre um frade imponente e eu imaginava-o sentado a uma grande mesa, e eles, bocas abertas, olhos bugalhudos, vendo as suas poderosas mãos agitando talhadas de presunto, coxas de capões assados, côdeas de broa, pernis de porco negro, grandes malgas de vinho tinto, um bródio à antiga! E aquele frade era eu, possivelmente o meu fantasma. Essa era a maneira que tinha de lhes mostrar bem saber como entrar na dimensão por onde andaria, com as mesmas glórias, vícios, vaidades e saberes de sempre. E se um lugar há dentro da minha cabeça, que, cuido como poiso da memória de toda a família, esse é o Quarto dos Santos da casa dos meus avós. Havia aí um oratório, com a Senhora do Campo, milhares de velas de cera, cujo arder empestava até ao corredor, uns diplomas que davam alguns dos avós como terceiros de ordens e de confrarias, centenas de figuras de santos, anjos e arcanjos, suponho quase todos apócrifos, uma espécie de santíssimo exército a vigiar a fé da minha avó e de todas as velhas murmuradeiras nas rezas e jaculatórias ao quotidiano toque das Trindades.
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Eu tinha um fascínio por aquilo tudo e, de noite, vinha do meu quarto, espreitar aquela população prodigiosa, que parecia adquirir vida com o tremular das lamparinas eternamente acesas. Havia ainda o gavetão de uma cómoda onde eram guardadas umas esporas douradas, cuja origem ninguém condescendia em contar-me. Numa caixa de velas, era guardado um enorme revólver de espigão, hoje aqui a defender alguma papelada dos ventos do Porto que me devassam o lugar de trabalho.
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Vivi em Espinho, onde se passeavam vários fantasmas, o de Amadeo e o de Laranjeira, de um pintor espanhol que tinha uma orelha de cera e uma escritora de romances cor-de-rosa. Como professor, no Colégio de S. Luís, tive o novelista José Marmelo e Silva, uma lição de intelectual que encolhia os ombros à glória efémera. Em segredo, falava-se muito do assassínio de um médico comunista, Ferreira Soares. E ali havia uma feira enorme e cheia de sugestões, que era a minha perdição às segundas, quando escutava romances de cego, a conversa fiada dos vendedores de banha de cobra com a jibóia ao pescoço, transportada numa mala de cartão, cobra que comia coelhos vivos à nossa vista. Um corcunda vestindo de branco, com um tabuleiro ao pescoço, rondava o colégio, expressão sardónica, a guinchar: «Chupa-chupa, caramelo, estica!» Um perfeito do colégio pedia-nos calendários para os trocar por copos de vinho numa taberna ao fundo da rua. E as incursões ao estranho universo do mosteiro de Grijó, em cuja quinta, parte do cenário de um romance de Júlio Dinis, dizia-se, passei a odiar leite quente quando o parvo do moço da vacaria ordenhou umas sujas tetas lançando-me jactos de leite branco, espesso, gorduroso, directamente para a boca escancarada.
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De Espinho, de Almendra, mudei-me para o Porto, o que eu aprendia parecia-me que era o arrastar de uma espada do tamanho da que é atribuída a Afonso Henriques e está no Museu de Soares dos Reis. Ganhei mais o gosto da História e de alguns caminhos da Antropologia. Entrei para o Jornal de Noticias, em cujo suplemento literário já colaborava. Fiz a via-sacra dos hospitais, da morgue, dos acidentes, das lixeiras. A primeira grande entrevista foi com o Eugénio de Andrade. Eu já sabia que não levava a melhor com a puta da Censura, mas procurava iludi-la. Comecei a ir a Lisboa, onde conheci alguém que foi decisivo na minha vida de escritor, o Urbano Tavares Rodrigues. Colaborava no República. Em 1966, mando imprimir um livro de prosa poética, O Corredor, capa do Zé Rodrigues. A exemplo não sei de que poeta francês, ainda não sabia do gesto semelhante do Trindade Coelho, queimei a edição toda! Nem um exemplar tenho, só se salvaram quatro páginas de provas. Dois anos depois saiu Natureza Morta Iluminada, uma narrativa, 32 páginas, ilustrada pelo pintor Fernando de Oliveira, meu compadre. Irritei-me muito com um idiota a quem ofereci o livro e, dez dias depois, me disse que andava a lê-lo! Depois, de 1975 a 2003, estive no Diário de Notícias.
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Fraternalmente, conto com o António Rebordão Navarro, o Marco, o Méndez Ferrín, o Manuel Maria, a Fedra Santos, o Fernando Lanhas e alguns outros mais. Em relevo tenho dívidas antigas com a Ana Hatherly, mesmo com o Michel Butor, e modernas com o José da Cruz Santos, mais recentes ainda com o Edgar Silva. Poderia contar mais coisas, mesmo sobre amigos deportados em campos de concentração nazis, mas para quê? E aqueles que ficaram pelo caminho?
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Bem, na verdade, há um estranho silêncio no teatro, afinal um dos muitos teatros que arderam sem eu ter dado por ela. Andei pelo mundo, entre bruxas da Chã de Ferreira e meigas galegas, escutei histórias mágicas por toda a parte, até contei caveiras nos tzompantlis e bailei o danzón em Veracruz, escrevi muitos livros, e apetece-me continuar a escrevê-los. Vivi intensamente o 25 de Abril, conheci a Liberdade. E fui vidente em Seide, vi Camilo à janela de sua casa quando lá fui receber o Grande Prémio do Conto por aquele livro Cenas da Vida de um Minotauro. Acenou-me, daí eu ter começado a falar logo com ele, o que levou os presentes – o Zé Manel Mendes, o Navarro, a Cristina Robalo Cordeiro e Aníbal Pinto de Castro – julgaram ser boutade e não era senão uma aparição pagã privada. Por isso, na pedra de Seide apareceu o meu nome.
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Andei pelo associativismo cultural, mas desencantei-me. Porém, estou encantado noutro nível, pois aos 60 anos, ainda agora cumpridos, continuo apaixonado e não só pela vida. E cá ando, atraído pelos muitos rostos de um universo plural. A História parece que, cada vez me absorve mais, em termos de testemunho e de base para ficção, da Guerra Civil de Espanha aos campos de concentração. Depois, por um bando de pardais que se renova, escrevo para a miudagem. E quando julgava que não tinha mais nada a fazer nessa área, a minha afilhada Francisca, sem se aperceber, contratou-me para eu reaprender a encarar a vida, e a missão está atribuída e não posso esmorecer.
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Ah, mas afinal isto não é teatro coisa nenhuma, estou é encafuado no velho  Quarto dos Santos. As lamparinas é que provocam estas visões e a herança das fábulas potencia a memória. E quanto não disse, sem o esconder! De quando em longe, sento-me à mesa com um bom amigo de infância, o Jorge Carvalho, da Quinta do Mocho. Ou com o Zé Ilídio. Ou com os meus primos das duas partes paternas, por um lado a Uli e o Tony, e por outro a tribu dos Trabulos, com as Márcias, o Toneca, a Mariazinha, o Zé Luís, por aí fora. Mas, nestas ladeiras que calcorreio por receita médica, penso muito nos que vão ficando pelo caminho – o Adriano, a Fernanda e o Fernando, a Maria Virgínia, o António Sampaio, o Egito, o Veiga Leitão, o Eugénio, o Companheiro Vasco, o Manuel Maria, o Uxio, tantos outros. Mas também penso na bela maneira de encarar a vida de uns amigos especiais – o patriarca Francisco Mangas, que me ensinou a pescar, o Tony, um primo do fundo dos séculos, e o grande João Cid, pintor, poeta, neto do Manuel, íntimo do António Nobre.
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Ah, mas já não está aí ninguém? Pois, nunca aí esteve ninguém. Também me vou embora, só me resta ser o escritor e o bonhomme que me parece sempre fui.
José Viale Moutinho

sábado, 17 de dezembro de 2011

Thomas Edward Lawrence ~ Os Sete Pilares da Sabedoria


Todos os homens sonham, mas não da mesma forma. Os que sonham de noite, nos recessos poeirentos das suas mentes, acordam de manhã para verem que tudo, afinal, não passava de vaidade. Mas os que sonham acordados, esses são homens perigosos, pois realizam os seus sonhos de olhos abertos, tornando-os possíveis. — T.E. Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria.


Seven Pillars of Wisdom (em português, Os Sete Pilares da Sabedoria) é um clássico da literatura mundial, designado por Winston Churchill como "um dos maiores livros já escritos na língua inglesa". Narra a participação de seu autor, Thomas Edward Lawrence, conhecido universalmente como Lawrence da Arábia, no movimento nacionalista árabe contra a dominação turca, como parte do esforço britânico na Primeira Guerra Mundial para derrotar a Alemanha, da qual a Turquia era aliada.
Seu título é uma alusão a uma frase da Bíblia, no Livro dos Provérbios (IX,1).
Escrito originalmente em 1919, Lawrence perde os manuscritos na Estação ferroviária de Reading. Uma segunda versão é finalizada no ano seguinte, mas, insatisfeito com o resultado, o autor a destrói. Finalmente em 1926, Lawrence escreve uma terceira versão, revisada por George Bernard Shaw e distribuído em uma edição artesanal restrita a amigos e escritores. Foi publicado pela primeira vez em 1935.
O escritor britânico E.M. Forster assim resume seu conteúdo: "Descreve a revolta na Arábia contra os turcos, vista por um inglês que nela tomou parte. No que seria aparentemente uma simples crônica militar, Lawrence da Arábia teceu um painel inusitado de retratos, descrições, filosofias, emoções, aventuras e sonhos. Para levar a cabo sua missão, serviu-se de uma extraordinária erudição, uma memória impecável, um estilo que ele próprio inventou...uma total desconfiança em si mesmo e uma fé ainda maior".
Em 1962 o épico do deserto é levado às telas de cinema. Sob a direção de David Lean, o filme Lawrence of Arabia ganhou sete oscars e a consagração do American Film Institute como um dos dez melhores filmes de todos os tempos.
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Title

The title comes from the Book of Proverbs, 9:1: "Wisdom hath builded her house, she hath hewn out her seven pillars" (KJV). Prior to the First World War, Lawrence had begun work on a scholarly book about seven great cities of the Middle East,[2] to be titled Seven Pillars of Wisdom. When war broke out, it was still incomplete and Lawrence stated that he ultimately destroyed the manuscript.
The Seven Pillars of Wisdom rock formation inWadi Rum
Later, during the Arab Revolt of 1917–18, Lawrence based his operations in Wadi Rum (now a part of Jordan), and one of the more impressive rock formations in the area was named by Lawrence "The Seven Pillars of Wisdom".[citation needed] In the end, Lawrence decided to use this evocative title for the memoirs he penned in the aftermath of the war.
While the title might seem better suited to the former book than the latter, a line from the dedicatory poem (to "S.A.", possibly Selim Ahmed) at the start of the book helps explain Lawrence's interpretation of the Biblical "seven pillars" and their relevance to the Arab Revolt:
I loved you, so I drew these tides of

Men into my hands

And wrote my will across the

Sky and stars

To earn you freedom, the seven

Pillared worthy house,
That your eyes might be
Shining for me
When we came

Death seemed my servant on the
Road, 'til we were near
And saw you waiting:
When you smiled and in sorrowful
Envy he outran me
And took you apart:
Into his quietness

Love, the way-weary, groped to your body,
Our brief wage
Ours for the moment
Before Earth's soft hand explored your shape
And the blind
Worms grew fat upon
Your substance

Men prayed me that I set our work,
The inviolate house,
As a memory of you
But for fit monument I shattered it,
Unfinished: and now
The little things creep out to patch
Themselves hovels
In the marred shadow
Of your gift.
A variant last line of that first stanza—reading "When we came"—appears in some editions; however, the 1922 Oxford text (considered the definitive version; see below) has "When I came". The poem originated as prose, submitted by letter to Robert Graves, who edited the work heavily into its current form, rewriting an entire stanza and correcting the others.
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External links

Obras



To S.A.


I loved you, so I drew these tides of men into my hands and wrote my will across the sky in stars
To earn you Freedom, the seven-pillared worthy house, that your eyes might be shining for me
                                              When we came.


Death seemed my servant on the road, till we were near and saw you waiting:
When you smiled, and in sorrowful envy he outran me and took you apart:
                                        Into his quietness.


Love, the way-weary, groped to your body, our brief wage ours for the moment
Before earth's soft hand explored your shape, and the blind worms grew fat upon
                                            Your substance.


Men prayed me that I set our work, the inviolate house, as a menory of you.
But for fit monument I shattered it, unfinished: and now
The little things creep out to patch themselves hovels in the marred shadow
                                              Of your gift.

Mr Geoffrey Dawson persuaded All Souls College to give me leisure, in 1919-1920, to write about the Arab Revolt. Sir Herbert Baker let me live and work in his Westminster houses.
The book so written passed in 1921 into proof; where it was fortunate in the friends who criticized it. Particularly it owes its thanks to Mr. and Mrs. Bernard Shaw for countless suggestions of great value and diversity: and for all the present semicolons.
It does not pretend to be impartial. I was fighting for my hand, upon my own midden. Please take it as a personal narrative piece out of memory. I could not make proper notes: indeed it would have been a breach of my duty to the Arabs if I had picked such flowers while they fought. My superior officers, Wilson, Joyce, Dawnay, Newcombe and Davenport could each tell a like tale. The same is true of Stirling, Young, Lloyd and Maynard: of Buxton and Winterton: of Ross, Stent and Siddons: of Peake, Homby, Scott-Higgins and Garland: of Wordie, Bennett and MacIndoe: of Bassett, Scott, Goslett, Wood and Gray: of Hinde, Spence and Bright: of Brodie and Pascoe, Gilman and Grisenthwaite, Greenhill, Dowsett and Wade: of Henderson, Leeson, Makins and Nunan.
And there were many other leaders or lonely fighters to whom this self-regardant picture is not fair. It is still less fair, of course, like all war-stories, to the un-named rank and file: who miss their share of credit, as they must do, until they can write the despatches.
T. E. S.
Cranwell, 15.8.1926

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