Mostrar mensagens com a etiqueta José Gameiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Gameiro. Mostrar todas as mensagens

domingo, 22 de setembro de 2024

José Gameiro - Os pais não são amigos dos filhos

* José Gameiro

Psiquiatra e piloto

Seria impensável há poucas gerações que os filhos comentassem opções amorosas ou de outro tipo, dos pais
 
19 setembro 2024 

Otítulo pode parecer chocante, para os que pensam que o papel e a responsabilidade dos pais é serem solidários, compreensivos, educadores, cuidadores dos seus filhos. Sem dúvida que quase todos somos, fazemos tudo por eles, sofremos quando eles sofrem, apoiamos quando mais ninguém é capaz de o fazer.

Mas a relação dos pais com os filhos tem evoluído. Na infância nada de muito substancial terá mudado, a mais significativa alteração é a muito maior responsabilização dos homens. Os estereótipos clássicos, figura afetuosa e figura de autoridade, tendem a esbater-se, de uma forma em que os dois papéis se confundem e são solidários entre si.

O papel da família enquanto fonte de modelos relacionais, de transmissão de valores, até de endogamia social, tem vindo a sofrer uma notável mudança, em que outros atores podem ser de grande importância. Quantas vezes queremos falar com os filhos sobre questões mais sensíveis, como a questão sexual, e ouvimos, já sei tudo. Relações sexuais, cuidados a ter, preservativos, pílula do dia seguinte e outras tretas, como eles, por vezes, nos dizem.

Posso estar a ser injusto ou exagerado, mas instalou-se, nalgumas famílias, um novo paradigma. Os pais e os filhos são amigos. Esta relação pressupõe que são iguais, falam de igual para igual, tentando que desapareça, não a autoridade, que naturalmente na vida adulta dos filhos já quase não existe, mas que seja uma relação em que nos aceitamos uns aos outros, tal como os amigos fazem, sem críticas, sem remoques, com total abertura de todas as confidências.

Seria impensável há poucas gerações que os filhos comentassem opções amorosas ou de outro tipo, dos pais. Atualmente, qualquer comentário sobre um genro ou uma nora, feito discretamente, a casa vem abaixo. A própria relação dos avós com os netos é frequentemente condicionada e vigiada. No entanto, os filhos permitem-se opinar sobre estilos de vida e outras formas de estar dos pais, como se estivessem numa roda de amigos e dissessem, mas tu és parvo ou quê?

Há pais que vão atrás disto. Engolem sapos, em nome da paz familiar, encostando-se cada vez mais às tábuas, desculpem-me a imagem tauromáquica. Os que o fazem, ou decidem que passaram a ser amigos dos filhos, ou foram obrigados a prescindir de um valor secular, a responsabilidade, até à morte, de mostrarem os valores que têm, mesmo que aceitem que tudo mudou e nada era como dantes. É esta confusão entre culturas geracionais e desrespeito por uma autoridade, sempre discutível, mas necessária, que tem feito com que, por vezes, vemos famílias em que não conseguimos reconhecer os laços de sangue. Exagerado, com certeza.  

Quando num casal acontece um divórcio e a constituição de uma nova relação, o receio de alguns dos futuros “nubentes” acerca da reação dos filhos pode ser assustadora, como se os filhos tivessem qualquer direito de opinar sobre as escolhas amorosas dos pais. Se numa roda de amigos, podemos dizer, eh pá, vais viver com essa gaja ou com esse gajo, que disparate, fazer o mesmo em relação aos pais é considerar que o à vontade, à vontadinha, como agora se diz, é completo.

Podem pensar e bem, que isto é conversa de velho. Mas não é só. Confundir filhos adultos, com direito à sua vida e as suas opções, com amigos, pode ser mais prático e calmo do que manter a hierarquia, mas não se esqueçam que eles são nossos filhos e que, em situações limite, não nos querem como amigos, querem-nos como pais.

https://expresso.pt/opiniao/2024-09-19-os-pais-nao-sao-amigos-dos-filhos-2b013641

sábado, 18 de dezembro de 2021

José Gameiro - Natal sem pandemia

DIÁRIO DE
UM PSIQUIATRA

 José Gameiro 


Apesar de há um ano a maior parte das famílias se ter reunido, decidimos ficar sozinhos

“Se calhar o que eu lhe vou dizer vai chocá-lo. Não me leve a mal, isto é apenas um desabafo e um pedido de absolvição.” Pensei, será que ao fim de tantos anos desta profissão já me olham como se fosse um padre? Reconheço que alguns que são bem mais eficazes do que nós. Compreendem, fazem pensar, discutem alternativas e absolvem, ou pelo menos as pessoas sentem-se menos culpadas depois de conversarem. Não precisei de a esclarecer, era obviamente uma metáfora.

— Confesso, desculpe retiro o confesso, mas não consigo encontrar outra palavra. Os Natais para mim nunca foram grande coisa. Na infância eram bons, a excitação dos presentes, a família toda reunida, a noite em quase não se dormia. Depois vieram as confusões. Mãe para um lado, pai para outro. Lembro-me perfeitamente de pensar que não queria crescer, depois claro que compreendi, mas dizia aos meus pais que mais valia terem estado quietos, porque é que casaram? Mas pela boca morre o peixe e casei-me. Não me venho queixar do meu marido, mas quando o conheci vinha com brindes. Sabe o que é?

Acenei com a cabeça e um sorriso, mas não lhe disse que atualmente uma parte significativa do trabalho com famílias e casais tem a ver com “os meus, os teus e os nossos” e as confusões inerentes a estas dinâmicas.

— Nem sempre foi fácil a relação com as minhas enteadas, ainda por cima sempre viveram mais connosco do que a mãe e o padrasto. Mas quando começou a pandemia a situação inverteu-se. A mãe vive fora da cidade, numa casa grande, cheia de espaço, foi mais fácil estarem lá e terem aulas virtuais. Ficámos os dois sozinhos, nunca tivemos filhos e não estou arrependida, pelo que vejo à minha volta, só dão chatices. Essa coisa do instinto maternal é uma grande treta.

Penso que a senhora não se apercebeu, mas qualquer coisa me incomodou na frase dela, apesar de nunca se falar do instinto paternal. Já é tempo de os homens terem algum instinto, além do sexual...

— Mas onde é quero chegar é ao Natal. Nunca consegui convencer o meu marido a irmos embora, só os dois para qualquer lado quentinho. Já não tenho pais, ele também não, mas sempre me disse que não conseguia estar sem as filhas. Eu até posso perceber, mas sempre foi uma grande seca. Ir levar as meninas, ir buscar as meninas, fazer centenas de quilómetros em dois dias, só para comemorar um dia do ano... Não lhe sei explicar, mas nunca consegui ter uma ligação forte com as minhas enteadas. Deve ser a falta de laços biológicos, vocês é que sabem explicar.

Não respondi a esta afirmação/pergunta, mas sei que nem sempre é assim, algumas destas famílias até criam laços fortes, mas não podem ter o progenitor que está do outro lado a dificultar-lhes a vida.

— Com a pandemia, e apesar de no último Natal a maior parte das famílias se ter reunido, decidimos que era mais prudente ficarmos sozinhos. Ajudou muito o ter feito uma surpresa. Um dos poucos países que continuava aberto era o México. Uns dias de sonho, uma verdadeira lua de mel, só os dois. O meu maior desejo era que voltasse a haver confinamento. Não desejo mal a ninguém, mas foi tão bom.

Estava na altura de voltar a falar na absolvição.

— O meu papel não é culpar as pessoas, bem basta a culpa que carregam, tantas vezes injusta. Penso que é mais tentar compatibilizar os seus desejos com a realidade, com o menor sofrimento possível.

Enganei-me na “deixa” que lhe dei.

— Bem me parecia que me iria ajudar. Qual é a sugestão que me faz para ter uma boa desculpa para convencer o meu marido a ir para o calor?

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2564/html/revista-e/vicios/diario-de-um-psiquiatra/natal-sem-pandemia

sexta-feira, 9 de julho de 2021

José Gameiro - Querida escrivaninha

DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA, 

* José Gameiro   

Não te vou abandonar na rua, como se faz aos tarecos velhos, à espera que alguém os leve

Na hora da despedida acho justo escrever-te e agradecer tudo o que viveste comigo ao longo destes muitos anos. Desculpa a minha ignorância, não percebo nada de estilos de móveis, sei que tens classe com a tua madeira nobre, os teus pés com aplicações em bronze, mas para mim será sempre a minha inha, como te chamei desde criança.

Sim, porque na altura, os pais não deixavam fazer os trabalhos de casa esparramados nos sofás ou deitados na cama. Não havia redes sociais que nos distraíssem dos deveres, mas nesta hora devo falar verdade, nas tuas gavetas escondia o “Cavaleiro Andante”, o “Tintim” e o “Zorro”, que lia às escondidas. Não me recordo com que idade comecei a usar-te, talvez oito, nove anos. Mas lembro-me bem que as primeiras cartas de amor que escrevi, tive-te como companheira.

Eram em papel grosso, enviadas em envelopes forrados e escritas com tinta permanente, numa caneta Parker, que o meu avô me tinha oferecido, quando fiz a 4ª classe. Quando chegava o fim do verão, poucos amores resistiam à distância e, era por carta, que acabavam. Com uns amigos, criámos um modelo tipo, ainda hoje utilizado por alguns...

És boa demais para mim, não te mereço, nunca irás ser feliz na minha companhia...

Claro que acontecia ser “despedido” antes de enviar a carta. Nessa circunstância a resposta também estava tipificada. Mudas de namorado, como quem muda de camisa, não me mereces, continua assim que não vais longe.

O machismo misturado com o despeito não conseguiam esconder a zanga, muito maior do que a mágoa. E a inha lá continuava a assistir a estas parvoíces adolescentes, impávida e serena.

Também foste testemunha das minhas falhadas incursões pela poesia, quando me sentava à tua frente a tentar escrever poemas parvos, que depois enviava para o Juvenil do “Diário de Lisboa”, onde passavam pelo crivo exigente do Mário Castrim. Rapidamente percebi que as rimas não eram o meu forte e fiquei-me pelos poemas práticos, tipo, “por ti o meu coração tem taquicardia e arritmia”. Acho que o primeiro abandono a que te vetei foi quando entrei para Medicina. Podes ter pensado que terá sido por termos muitos e grandes livros, podes ter sido influenciada pela “voz do povo” que diz que o curso é muito difícil, desculpa, mas agora vou-te contar toda a verdade.

O curso não é dos mais fáceis, mas permite uma vida muito boa. Pelo menos no meu tempo, uma boa nota a Anatomia, que exigia 18 horas de estudo diário, durante dois meses, garantia praticamente o curso. Os livros eram grandes, mas a verdadeira razão de te ter abandonado foi que não podias ter quatro pessoas à tua volta... Cada disciplina tinha o seu campeonato de bridge e também as suas sabatinas. Desculpa, inha, ficaste reduzida a depósito de canetas e lápis velhos, papéis abandonados e clipes que um dia seriam usados, mas que nunca saberia onde os tinha guardado.

Quando saí de casa dos meus pais abandonei-te pela primeira vez, mas ficaste à guarda de quem me criou e visitava-te todas as semanas. Nem sempre olhava para ti, eu sei, no entanto, renasceste quando vieram os netos. Quando os avós brincavam com os miúdos aos ovos da Páscoa, ou no Natal havia um presente mais especial, era dentro de ti que estavam guardados. Apesar de todas estas justificações reconheço que não soube reconhecer tudo o que fizeste por mim na minha infância e juventude. É quase como a ingratidão que, em certas fases da vida, tontas, sentimos por quem nos cá trouxe.

Não te vou abandonar na rua, como se faz aos tarecos velhos, à espera que alguém os leve, vais ter um destino mais elegante. Depois de ouvir os meus filhos, todos estiveram de acordo, deves ir para casa de quem seja capaz de cuidar de ti e estimar-te, tal como foi o comboio elétrico e um dia irá a biblioteca.

Vais ser licitada e o teu valor transformado em mais uma viagem.

https://expresso.pt/opiniao/2021-07-09-Querida-escrivaninha-b502487a

sexta-feira, 2 de abril de 2021

José Gameiro - ESPECULAÇÃO SOBRE AS FILHAS...

DIÁRIO DE
UM PSIQUIATRA

POR JOSÉ GAMEIRO

A igualdade de géneros tem feito um caminho significativo, mas ainda muito longe do desejável

Há uma frase corrente no léxico da psicologia das famílias, provavelmente injusta, mas que tem força: tudo o que mete miúdas é uma grande confusão. Está ligada àquela ideia de que os rapazes são mais “pontapé na bola” e se preocupam menos com as sensibilidades das relações. As raparigas, desde muito pequenas, são mais recetivas às mensagens negativas dos seus pares, sofrendo com o que sentem serem pequenas críticas. Na adolescência, são mais discriminadas pelo seu aspeto físico, pela sua forma de vestir, pelos seus comportamentos face aos rapazes. Apesar de se ter feito um longo caminho para a igualdade, ainda no meio masculino uma rapariga mais desinibida em termos relacionais pode ser considerada pouco fiável. A divisão, na minha geração, entre as raparigas para casar e as outras não está completamente ultrapassada. Falo com jovens que se sentem intimidados se a rapariga é, logo no início da relação, muito ativa, como se a sua passividade fosse uma espécie de selo de garantia de bom comportamento futuro.

Desde há dezenas de anos que se publicam investigações que procuram correlacionar o risco de divórcio dos casais com o facto de terem uma filha primogénita. Alguns destes trabalhos punham como hipótese a insatisfação do casal por não ter um filho varão... Creio que na nossa cultura isto está ultrapassado, ainda que ter filhos de ambos os sexos, o chamado casalinho, continue a ser um desejo de muitos casais. Recentemente, uma equipa de Melbourne e Atlanta estudou, através dos registos nacionais, a relação entre os divórcios, ter uma filha mais velha na fratria e a sua idade no momento da separação. É na adolescência que este risco aumenta. Até aos 12 anos do primeiro filho, não encontraram diferenças nos casais com rapaz ou rapariga primogénito. A partir dos 13 anos, há clara separação entre a taxa de divórcios, com um pico nos 15 anos da rapariga. O risco de divórcio aumenta cerca de 15%. No entanto, se olharmos para os números dos 0 aos 18 anos, as taxas não são diferentes de uma forma significativa.

Se não podemos contestar os valores numéricos deste trabalho, acreditando que a sua metodologia é correta, mais difícil se torna encontrar uma explicação. A hipótese dos autores centra-se nas dificuldades em lidar com os comportamentos das adolescentes. Existiriam muito mais desacordos entre os pais sobre como lidar com a autoridade, os limites, as formas de vestir, do que em relação aos rapazes. Esta dificuldade seria maior da parte dos pais do que das mães. A ser assim, os preconceitos em relação às raparigas continuam a ser significativos, sendo muito mais fácil a autonomização dos rapazes na adolescência. Todos temos a noção de que os rapazes têm liberdade de movimentos mais cedo do que as raparigas. Estas ainda hoje, nalgumas famílias, são muito coartadas na sua liberdade de movimentos noturnos...

É uma evidência na clínica que as raparigas se intrometem muito mais na relação dos pais, tentando provocar alianças ora com um ora com o outro, numa tentativa de criarem conflitos, com o consequente ganho secundário. Evidentemente que os rapazes também o fazem, mas, sendo menos atingidos pelas limitações comportamentais, têm menos necessidade de o fazer. Este “meter-se” é ainda mais evidente nas chamadas novas famílias, em que os filhos vivem alternadamente com um dos progenitores e os seus novos cônjuges. As raparigas são muito mais persistentes do que os rapazes em quererem voltar a unir os pais e assumem de uma forma mais competente o seu papel “destruidor” da nova relação. Ser mais capaz de refletir sobre os sentimentos, de cuidar das relações, de estar atento aos sinais dos outros pode ser muito bom, mas pode transformá-las em “reguladoras” de relações, com poder excessivo. Uma especulação final: a igualdade de géneros tem feito um caminho significativo, mas ainda muito longe do desejável. O mesmo poder-se-á dizer do poder feminino nas famílias?

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2527/html/revista-e/vicios/diario-de-um-psiquiatra/especulacao-sobre-as-filha

domingo, 28 de fevereiro de 2021

José Gameiro - Um hino à vida

DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA
 
* José Gameiro  

Sempre tive alguma atração pela passagem para o outro lado, para o nada absoluto

Não posso dizer que sempre quis ser médico. Talvez tenha sido pelos meus 15 anos, depois de uma doença grave da minha avó. Marcou-me muito a relação com o colega que a tratava e que falava comigo como se eu fosse um adulto. Explicava-me todos os procedimentos e, quando ela já estava melhor, fez-me uma visita guiada à enfermaria. Pude então ver de relance um quarto em que estava um doente cheio de tubos e fios. Mal eu sabia que viria a ser intensivista.

Fiz o curso sem sobressaltos, concorri ao Internato de Medicina Interna e fiquei. Durante esta fase estagiei nos CI e aí tive a certeza absoluta que a minha vida iria ser ali. Além daquela muito divulgada ideia que salvamos vidas no limite, sempre tive alguma atração pela passagem para o outro lado, para o nada absoluto. Conheci-a nesses meses. Transpirava segurança e a calma de quem já tinha tratado centenas de doentes, muito graves. Tinha uma máxima que nunca mais esqueci, “aqui não se fala da morte, nunca se sabe se os doentes nos ouvem”.

Passaram dois anos até ficar efetivo no hospital. E voltei para a unidade onde tinha aprendido. Mal sabia eu o que me esperava... Ela já era a chefe. Nos primeiros meses, os doentes eram os habituais, politraumatizados graves, com multifalência de órgãos, sépsis, cardiovasculares, complicações pós-cirurgia. Trabalho de rotina, duro, mas satisfatório, uma urgência interna semanal, com a responsabilidade de todos os doentes. E veio a pandemia. Os primeiros doentes muito graves, a tristeza de perdermos alguns e a alegria, quase euforia, de tirarmos muitos do fundo.

A pouco e pouco o ambiente foi mudando. Tornámo-nos mais próximos, por vezes quase confidentes. Os pequenos intervalos para um café ficavam, por vezes, parecidos com festas de finalistas. Claramente o stresse tinha de sair por algum lado. Uns cantavam, outros contavam anedotas, cada vez mais arrojadas. Depois voltávamos a vestir os fatos de proteção individual e ficávamos ultrafuncionais, com gestos seguros, a cumprir os protocolos há muito estabelecidos.

Tínhamos instituído equipas de dois, para alguns procedimentos. Um pouco como trabalham dois pilotos num cockpit de avião. Um faz e o outro verifica.

Foi ao puncionar uma artéria mais difícil que senti a mão dela a guiar a minha. Mesmo com luvas, não me foi indiferente. Fez um sorriso aberto, que só vi nos olhos, por trás da viseira.

— Vês como é fácil, já fizeste tantas, estás cansado, a mão tremia-te.

Seguimos para a doente seguinte. Uma senhora com 90 anos, sedada há duas semanas e ainda com um prognóstico muito fechado. Antes de ser entubada pediu-nos para, sempre que possível, lhe deixarmos junto ao ouvido o telefone. Tinha muitas playlists, se pudéssemos ir mudando, agradecia. Na dúvida, tentámos respeitar. De Bach a Mozart, passando pelos Beatles e Rolling Stones, ouviu tudo. Enquanto a observávamos trauteámos a ‘Michele’.

Parecia estar a ser um dia, não direi leve, mas sem nenhuma tragédia, quando os alarmes dispararam. Um jovem internado há dois dias, em paragem cardíaca. Os gestos foram automáticos, na sucessão protocolada das intervenções. Ainda conseguimos reanimá-lo, mas, depois, perdemo-lo para sempre. Foi o único jovem que não resistiu, na nossa unidade. Disse-me que, ao fim de tantos anos, não conseguia habituar-se àquilo. Que um velho morra é a lei da vida, agora um miúdo, com a vida toda à frente, é muito injusto. Preciso de ir beber um copo, vens comigo?

Hesitei, mas fui. Levou-me para um local com uma vista deslumbrante sobre a foz do Tejo.

— É aqui que venho quando preciso de pensar em mim. Nunca deixes de pensar em ti, se o fizeres as coisas correm mal.

Encostou a cabeça no meu ombro e pegou na minha mão. O que aconteceu depois apaguei.

Segui, quase à risca, uma das orientações das UCI.

O que acontece aqui dentro, não passa lá para fora.

Mas é sempre um hino à vida.

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2522/html/revista-e/vicios/diario-de-um-psiquiatra/um-hino-a-vida

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

José Gameiro - Vou ter saudades


DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA

 * José Gameiro

Uma tarde, estava a lanchar no quarto, foi-se embora discretamente, como sempre viveu

Escrever sobre a relação com os doentes, em psiquiatria, não é fácil. Há uma ideia feita de que somos um bocado malucos e se decidimos ser psiquiatras alguma coisa de estranho temos. Nalguns casos é bem verdade... Costumo dizer, entre família e amigos, que só sou psiquiatra se me pagarem. Enquanto cidadão, posso reagir sem filtros, como qualquer de nós.

Mas ainda é mais difícil escrever sobre alguém que desapareceu subitamente e com quem tinha uma relação especial. Conheci-a há 35 anos. Foi enviada por um colega, estava eu, jovem psiquiatra, a iniciar o consultório. Durante todo este tempo acompanhei-a ou semanalmente, ou quinzenalmente. Apenas com interrupções para as férias ou quando precisou de cuidados mais intensivos.

Teve períodos muito difíceis, a viver numa realidade alternativa, em que fui frequentemente envolvido, e períodos de acalmia, em que parecia, aos olhos de um leigo, estar bem. Mas a doença não pára, apesar de muito termos evoluído no seu tratamento. A capacidade afetiva vai ficando mais pobre, os interesses cada vez mais restritos, o isolamento social e, por vezes, familiar, progressivo. O mundo fica confinado dentro da pessoa e quando ‘vem cá fora’ é frequentemente sobre a forma de delírio.

Esteve casada pouco tempo, tentou algumas vezes viver sozinha, mas não conseguia e descompensava. O acolhimento familiar foi a solução, mas não isento de problemas de quem queria ser autónoma mas não conseguia. Foi, nas fases mais complicadas, injusta para a família, mas nunca lhe faltou o apoio.

Quando, há uns anos, tive consultório em casa, nos períodos mais difíceis batia à porta a meio da noite, assustada com os seus demónios, à procura de proteção. Nas minhas férias, perguntava sempre quantas horas de avião durava a viagem, se lhe podia enviar uma mensagem quando chegasse... Tinha uma grande preocupação com a minha saúde. Se estava tudo bem, se já me tinha vacinado contra a gripe, se fazia análises regularmente. Mas nunca foi intrusiva. Não perguntava nada sobre a minha vida, nem fazia, como alguns doentes fazem, ‘interrogatórios’ às secretárias. Acabada a consulta, ficava a conversar com elas, numa espécie de segunda sessão.

Com o empobrecimento da sua vida emocional, o nosso diálogo era cada vez mais reduzido e rotineiro. Até que teve uma ideia que alimentou as consultas durante estes últimos anos. A sua formação era de filosofia, mas sempre gostou de história de arte. Propôs-me fazer um curso. Mandei vir os livros que me indicou e durante seis anos, preparou fichas, feitas à mão, em duplicado, que conservo em caixas que me ofereceu. Não seguia uma ordem cronológica e falámos sobretudo de pintores e escultores. Na última ‘aula’ estudámos Ingres, um discípulo de David.

A sua vida, além das coisas básicas, era a preparação destas fichas. Pouco ou nada sabia do que se passava em Portugal e no mundo. Com a pandemia, tudo ficou igual, já vivia há muito confinada. Nos últimos meses convencia-a a comprar uma televisão, que via no quarto. Passado umas semanas disse-me: “O que se passa lá fora interessa-me pouco, prefiro estudar e ler.”

Uma tarde, estava a lanchar no quarto, foi-se embora discretamente, como sempre viveu.

Vou ter saudades.

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2515/html/revista-e/vicios/diario-de-um-psiquiatra/vou-ter-saudades

sábado, 2 de janeiro de 2021

José Gameiro - Passagem do ano


DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA
  
* José Gameiro

“Senhor doutor, venho cá porque não sei o que hei de fazer à minha vida. Na minha idade já devia saber, era ficar sossegado e rezar para ter saúde até ao fim.”

Não me canso de ouvir histórias originais, e esta ‘cheirou-me’ logo que ia ser bem diferente. Quase todos os psiquiatras têm um lado coscuvilheiro, com a vantagem de o conseguir pôr a render...

“Tenho 82 anos, sou um tipo saudável, enviuvei há três anos, vivo sozinho, mas tenho grande apoio dos meus filhos e netos. Sou completamente autónomo, ainda tenho alguns amigos e amigas, com quem me encontro, mas, antes que me pergunte, digo-lhe já que não voltei a ter mulher. Bem, não é bem assim, já vai perceber que o que me traz cá não é bem uma namorada, mas não anda longe.”

Já tinha a garantia de que ia ouvir uma boa história, só faltava adivinhá-la.

“Sempre procurei ajudar os meus filhos com os netos, agora faço-o com os bisnetos. Sabe como é, ir buscar à escola, levar à natação, uma vez ou outra ficam lá em casa quando os avós não podem. Há uns três meses, a minha bisneta mais velha, que já tem 8 anos, disse-me que tinha de fazer uma redação sobre o bisavô. Fiquei espantado, mas a mãe explicou-me que ela falava muito com a professora sobre mim e sobre a minha vida. Passei uma tarde com a bisneta, a contar-lhe histórias da minha vida. O meu tempo em África, as minhas aventuras no deserto, as minhas viagens para locais aonde, naquela época, pouca gente ia. Claro que também lhe falei da minha profissão, mas nunca foi muito interessante. Sempre lidei com uns chatos da finança, que só queriam ganhar dinheiro e não conseguiam ter uma conversa de jeito. Passaram uns dias e, com espanto, a professora pediu se me importava de lá ir contar estas histórias para a classe. Confesso-lhe que fiquei contente. Não é para me gabar, mas sempre tive jeito para falar com crianças. Não começou bem, devia ter arranjado uma desculpa para me vir embora.”

Perguntei ingenuamente: “Foi maltratado?”

“Não, de todo”, respondeu. “É mais nova do que eu, não sei se se lembra do que era o estereotipo das professoras primárias? Feias, zangadas, sempre prontas a dar-nos com o ponteiro na cabeça. Deparei-me com uma mulher linda, com uns olhos verdes que transbordavam ternura. Mas não sou tonto, pensei: ‘Podia ser minha neta, deixa-te de ideias e porta-te bem.’ Foi uma conversa muito animada, os miúdos fartaram-se de fazer perguntas, sobretudo sobre África. Levei o computador e mostrei-lhes umas fotos de animais. Contei-lhes a história da proteção dos gorilas na Floresta Impenetrável no Uganda. Ficaram a saber um pouco da raça humana, que mata os que querem proteger as outras espécies. Ficámos um pouco a conversar no intervalo depois da aula e já na despedida convidou-me para almoçar. Gostava de ouvir mais histórias de África. Hesitei uma fração de segundo, mas disse-lhe que sim. Levou-me a um desses restaurantes com comida de fusão, o couvert vinha numa caixa de Lego. Já não me lembro se comi robalo com salsichas ou bacalhau com caviar, só sei que saí de lá completamente doido. Desconfio que estou a ficar senil. Pode-me fazer uma avaliação cognitiva?”

“Posso ouvir o resto da história e depois decidimos?”, perguntei.

“O senhor doutor é que sabe. Mas tenho alguma urgência. No fim desse almoço, perguntou-me se tinha gostado? Disse-lhe que sim. Propôs-me jantarmos lá na noite de fim do ano.”

“Qual é o problema”, quis saber.

“É muito sério. Quando aceitei o convite, os restaurantes fechavam às 2h da manhã. Agora têm de fechar às 22h30. O convite mudou para casa dela, assim podemos acabar à hora que quisermos. Continua a ter dúvidas sobre a necessidade de avaliar o meu estado mental?”

“Tenho mesmo a certeza de que está muito bem”, disse-lhe. “Só lhe vou passar uns comprimidos, que vão tirar a ansiedade de desempenho. A partir de hoje toma um todos os dias. E agradeça à covid.” Boa passagem de ano.

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2514/html/revista-e/vicios/diario-de-um-psiquiatra/passagem-do-ano


domingo, 27 de dezembro de 2020

José Gameiro - Saudades do Mário


* José Gameiro

DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA

Não sou, por natureza, desconfiado, mas não fiquei tranquilo. De manhã perguntei-te

Conheci-te numa daquelas idas à Figueira da Foz. Os meus pais habituaram-nos desde pequeninos a ir passar umas semanas à praia. Dizem-me, não me lembro, que fui lá fazer um ano. O ar do mar fazia-nos bem, abria-nos o apetite, outros tempos, outras crenças. O meu Pai só estava connosco poucos dias, nesse tempo as férias não abundavam e ele tinha um pequeno comércio, que tinha de fechar a porta, quando se ausentava. Morreu cedo, esgotado. Criou, com a minha Mãe, seis filhos. Ficou-me o “vício” dessa praia. Quando fui estudar para Coimbra, enfim, quando fui para a Universidade, estudar era um eufemismo, sempre que podia e tinha uns escudos, ia para a Figueira. Nunca me consegui desligar daquele mar, daquela água gelada e, depois de ti, quando te conheci. Já lá vão uns anos. Lembro-me como se fosse hoje. Um acaso, que esteve quase para não acontecer, fez encontrar-te. Nem me apetecia muito sair, as noitadas anteriores tinham dado cabo de mim, mas aos 20 anos parece que a energia nunca se esgota e, sabes bem, não tínhamos aditivos, era só a vontade de viver e não perder uma única pitada da vida. Ia com um grupo de malta a passear na Marginal, quando tu passaste com uma amiga. Tentavas acender um cigarro, a nortada era forte. Dei-te lume e disse uma daquelas frases, para ver se pega... — Venham connosco, podem precisar de lume mais vezes. Naquele tempo ainda não havia o conceito de assédio, se fosse hoje poderia ter acabado mal... O namoro durou dois anos, até casarmos. Naquele tempo a malta casava, era a única hipótese de viver juntos, sobretudo se fosse necessária alguma ajuda parental. Não foi fácil convencer-te a irmos para o interior, uma pequena vila da Beira, um forno no verão, um gelo no inverno. Mas era lá que podia ter clientela como advogado e para ti seria fácil ser professora. E assim foi. Os nossos primeiros anos foram fáceis. Até achavas graça conhecer gente diferente, habituada à dureza daquele clima, mas leal e com uma qualidade rara nas grandes urbes, a solidariedade. Nunca ficámos sem apoio nos momentos difíceis, fosse ficarem umas horas com as crianças, fosse qualquer outro apoio. Adoravas os miúdos, teus alunos, sentia-te feliz, tínhamos uma vida fácil, éramos um casal de sucesso. No verão íamos sempre para a Figueira, passar duas semanas. Tu revias as tuas amigas, eu recordava os tempos de estudante, com os colegas que continuavam a ser adeptos daquela praia. Quando voltávamos, sentia-te sempre um bocado triste, mas as rotinas faziam-te voltar ao que eras. Num desses regressos continuavas triste, diferente, arisca, irritada, sem paciência para mim e para os filhos. Chegou o inverno e a situação agravou-se. Pensei que uma saída nas férias de Natal te faria bem. Fomos à neve com os miúdos. Ficavas no quarto a ler todo o dia, mal falavas comigo. Uma noite acordei contigo a falar. Como sempre acontece nos sonhos, não consegui perceber nada do que dizias, mas uma palavra percebi claramente, Mário. Não sou, por natureza, desconfiado, mas não fiquei tranquilo. De manhã perguntei-te. Garantiste que não conhecias nenhum Mário, que eu estava a delirar. Sosseguei, mas não por muito tempo. Já na nossa terrinha voltaste a falar de noite e o gajo voltou a ser nomeado. Disse-te, basta, ou me explicas o que se passa na tua vida ou acabamos mal. Voltaste a insistir que não tinhas ninguém, que me amavas com a mesma força do início. Passei por cima do exagero e decidi utilizar a técnica, que tinha visto numa série de televisão.

Debaixo da nossa cama coloquei um gravador, ativado pela voz, com um software inovador, que decifra a salada de palavras. Arrastarei a culpa até ao final dos meus dias. Sou uma má pessoa, nunca me perdoarei ter duvidado de ti. Tantas vezes me tinhas falado dele, abriste-te comigo, confessaste que tinhas muitas saudades, confiaste em mim. Só um tipo do interior profundo, que não é capaz de perceber as saudades do MAR.

https://expresso.pt/opiniao/2020-12-24-Saudades-do-Mario


domingo, 19 de julho de 2020

José Gameiro - Quo Vadis

DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA, POR JOSÉ GAMEIRO

Era o que faltava que impedissem a nossa liberdade de circulação. Acabámos detidas

Puseram-me aqui. Parece que há por aí muitos vírus, já vão em 19... Que disparate, sempre existiram vírus. Porque é que agora lhes dão um número? Devem achar que aparece um todos os dias. São uns ignorantes. Fecharam tudo, cafés, restaurantes, até cabeleireiros... Como é que eu vou arranjar o cabelo? A única coisa que acho bem que tenham fechado são as fronteiras. Nunca deviam ter sido abertas, não ouviram dizer que de Espanha nem bom vento nem bom casamento?

No meu tempo, alguém tinha medo de um vírus? Um bicho tão pequenino, temos cá dentro aos milhões. Ninguém me tira da cabeça que fizeram isto para acabar com os velhos. Toda a gente pensa que morrem por causa do vírus, mas não é verdade. Morrem de tristeza. Ficaram isolados, sem poderem ver os filhos e os netos. Falam com eles através daquelas coisas modernas, as crianças mais pequenas têm medo e fogem.

Estou aqui há três meses, disseram-me que tinham de fazer obras lá em casa. Pedi para a Maria vir comigo, mas não deixaram. Que aqui teria tudo, era só pedir. Isto é só velhos e velhas. Querem-me dar beijos, era o que faltava, depois de o meu marido morrer mais ninguém me tocou. E ele tocava-me tão bem. Mas fiz aqui uma amiga. Já não é muito nova, tem 94, menos três do que eu, mas está um bocado acabada. Parece minha mãe.

Começámos a conversar e descobri que ainda somos primas afastadas, tivemos o mesmo bisavô. As duas, muito fartas de aqui estar, congeminámos uma aventura. Uma noite fingimos que tomávamos os comprimidos que nos dão para dormir e ficámos acordadas até ao silêncio total. Sabíamos que a empregada passava pelas brasas num dos sofás da sala. Vestimos a melhor roupa que tínhamos e esgueirámo-nos para a rua. Sem máscaras — já não temos idade para andar mascaradas —, fomos a pé até ao centro. As ruas completamente desertas, eis que aparece um carro da polícia.

“Mas o que é que as senhoras andam a fazer na rua a esta hora? Onde é que moram?” Recusámos responder a todas as perguntas. Era o que faltava que impedissem a nossa liberdade de circulação. Acabámos detidas, depois de termos sido ameaçadas de coimas e outros disparates. “Se não fosse a vossa idade, iam dormir ao posto, até de manhã as levarmos ao tribunal.”

Explicámos que não tinha problema, sempre íamos conhecer uns rapazes novos. Acederam. Foi uma noite bem animada. Às sete da manhã chegou o alarme do lar. Duas velhas tinham desaparecido, era uma vergonha. Os nossos amigos explicaram que tínhamos sido capturadas. Lá fomos ao tribunal. Sem a minha colega de aventura saber, tinha avisado antes um amigo meu que percebe imenso de Direito Constitucional. Ele tinha-me dito: “Faz tudo o que te apetecer. Eu defendo-te. Eles não sabem fazer as leis, é tudo inconstitucional.”

O delegado do Ministério Publico, um rapaz ainda novo, começou a falar connosco como se fôssemos atrasadas mentais. “Então as meninas andaram a passear?” Disse ao advogado oficioso: “S.f.f., dite para a ata: se o senhor delegado continuar neste tom, terá uma queixa no Conselho Superior da Magistratura.” O homem não gostou. “Peço que se aplique a coima e que, se as senhoras” — passámos a ser crescidas — “voltarem a fazer o mesmo, incorrem no crime de desobediência.”

Foi nesta altura que entrou o meu amigo. Levantaram-se todos, senhor professor para aqui, senhor professor para ali, os salamaleques habituais da Justiça. Tinham sido todos seus alunos. O resto da sessão foi breve. O meu amigo argumentou a total inconstitucionalidade daqueles estados que eles inventaram, catástrofe, calamidade e mais não sei o quê.

Claro que nenhum deles queria proferir uma sentença que fosse parar ao Tribunal Constitucional. Tive pena, dar-me-ia muito gozo. Mas talvez tenham aprendido que não podem fazer o que querem com os velhos. A partir daquele dia, o bicho passou a chamar-se Quo Vadis.


segunda-feira, 22 de junho de 2020

José Gameiro - A vidente e a pandemia


DIÁRIO DE
UM PSIQUIATRA


* José Gameiro 

Ao longo desta pandemia tenho-me lembrado muito desta história

Há muitos anos tive uma doente que era vidente. Acompanhava pessoas que a procuravam com os mais variados problemas da vida. Dava-lhes apoio, tinha uma capacidade empática fora de vulgar, mas também, um bom senso notável. Cada vez que se apercebia que quem a procurava tinha sérios problemas mentais encaminhava para um psiquiatra ou psicólogo.

Recebi vários doentes que me referenciava e eram sempre situações clínicas complexas ou que poderiam tornar-se graves sem tratamento. Um dia foi ela que me procurou. Estava triste, cansada, tinha parado a sua atividade, disse-me que não conseguia ajudar as pessoas. “Sabe o que mais me custa, quando estou exausta? Prever o futuro.” Dei-lhe uma resposta de bom senso: “Mas ninguém consegue prever o futuro...”

Explicou-me que estava completamente enganado. “Claro que não acerto completamente, mas frequentemente fico lá perto.” Como é que consegue isso, perguntei. “É muito simples, as minhas previsões condicionam parcialmente as atitudes da pessoa. Se eu lhe digo, por exemplo, que vai conhecer um príncipe encantado, ela fica mais predisposta a que isso aconteça.” Fiquei por aqui e não lhe perguntei nada acerca do meu futuro... Ao longo da pandemia tenho-me lembrado muito desta história. Será possível prevenir o futuro, condicionando-o?

Se quisermos pensar no que nos aconteceu, sem recorrer a raciocínios epidemiológicos, feitos com a melhor das boas vontades, mas com uma alta dose de aleatório, temos uma forma mais simples de o fazer. Ao confinarmos uma grande parte da população, tentámos condicionar o futuro. Mas será possível que uma tão grave decisão política tivesse sido tomada utilizando a mesma ‘epistemologia’ de uma vidente?

Imaginemos que não queremos encontrar alguém, que temos a certeza de que nos irá fazer mal. Naturalmente, evitamos todos os caminhos, situações, contextos em que a probabilidade de encontro seja a mais próxima possível do zero. Mas, no limite, a única forma segura de o fazer é não sairmos de casa e não deixar ninguém lá entrar. Os que tentaram fazer de forma diferente, talvez numa atitude de indiferença perante o perigo — vamo-nos encontrar tantas vezes que acabamos por criar defesas —, ‘espalharam-se’. Os exemplos não faltam, Reino Unido, Suécia, Suíça foram alguns dos países com taxas de letalidade muito mais altas do que nós. Estes países optaram por pensar que sabiam. Utilizaram o conhecimento de outros vírus e aplicaram-no cegamente. Uns persistiram no erro, outros arrepiaram caminho, mas já era tarde.

Agora, passados mais de três meses, é fácil dizer que a estratégia da vidente, foi boa mas não suficiente. Se alguém, responsável, se tivesse lembrado dos lares e não tivessem metido os pés pelas mãos, com a obrigatoriedade de usar máscara, os resultados teriam sido melhores. Desde cedo que se soube que o maior risco é a idade, variável, cada vez mais evidente, mas por razões que me escapam (constitucionais, discriminatórias?), os mais velhos foram pouco protegidos. Ou seja, com o tempo, a epistemologia da vidente foi sendo afinada. Quando se soube que só cerca de 10% dos infetados o tinham sido em contexto social, cerca de 35% tinham sido infetados nos lares e que a taxa de mortalidade dos mais de 70 anos é de cerca de 17% foi possível estratificar melhor o risco.

Tivemos a sorte e o saber de não deixar passar muito tempo, entre afirmar que seria uma situação semelhante à da gripe e perceber que não percebíamos quase nada do que estava a acontecer. Tal como a vidente que ganha a sua vida a prever o imprevisível, mas que tenta condicionar o futuro, nós fechámos as portas e pusemos uma pancarta a dizer: “Não entras.”

Talvez esta pandemia nos faça mais humildes e nos leve a aceitar melhor que percebemos muito pouco do que se está a passar. Mas a incerteza não é muito popular. Uma boa e dramática lição de vida.