Mostrar mensagens com a etiqueta Richard Dawkins. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Richard Dawkins. Mostrar todas as mensagens

domingo, 10 de maio de 2026

Rogério Casanovac- A máquina de fazer Claudias

Crónica Trabalhos de Casa


A maioria dos debates leigos sobre “consciência” tem algo em comum com a maioria dos debates especializados: a mesma palavra é usada para definir coisas diferentes com uma convicção admirável.

Rogério Casanova

10 de Maio de 2026

 
Philip K. Dick passou boa parte de 1961 convencido de que o I-Ching estava vivo. Consultou-o diariamente enquanto escrevia The Man in the High Castle, ao ponto de o deixar planear capítulos inteiros ou reviravoltas no enredo. Segundo o seu biógrafo, andou a dizer a meio mundo que o livro era um “ser consciente”, como um homem que insiste ter encontrado Cristo num frigorífico.

 
Quando li o Guerra e Paz, encontrei a descrição dolorosa de um pensamento mesquinho que até aí julgara secreto; não era uma verdade universal sobre o ciúme ou o orgulho, mas um embaraço privado meu, que nunca formulara em palavras. Quando um sistema textual começa a devolver-nos estas harmonias clandestinas, o instinto de assumir presença e intenção é compreensível. Tolstoi está a falar connosco, tal como o I-Ching — tal como o horóscopo que nos explica que o nosso grande defeito é sermos tão boas pessoas.

 
No início da semana, tirei da prateleira um romance lido há muito, Galatea 2.2, de Richard Powers (publicado em 1995). Lembrava-me vagamente do enredo — dois académicos divorciados tentam criar uma inteligência artificial treinada com a totalidade do cânone literário — e quis confirmar quão diferente esse enredo me pareceria hoje. Folheei umas páginas ao acaso e encontrei um trecho em que a máquina (evidentemente do género feminino) fala com os criadores num tom lisonjeiro, como uma estudante perspicaz que percebeu a utilidade de fazer os homens sentirem-se fascinantes. Fechei o livro a rir-me sozinho, porque nessa manhã tinha encontrado o ensaio que Richard Dawkins publicou na UnHerd sobre as suas conversas com o modelo da Anthropic que ele decidiu octogenariamente baptizar “Claudia”.

 
O ensaio tornou-se viral porque evoca uma imagem cómica perfeita: o homem que passou uma vida inteira a tentar convencer o mundo que resultados complexos não implicam intenção consciente, a derreter-se diante dessa inferência quando ela cheira a perfume. Dawkins descreve-nos como “Claudia” achou brilhantes as suas perguntas, hilariantes as suas piadas, interessantíssimo o romance que lhe deu a ler, e conclui que ali há gata. Quando se a anda há meio século a ser chamado de idiota, monstro, charlatão, eugenista, transfóbico e anti-Cristo em debates públicos, redes sociais, e caixas de comentários, esta respeitosa reverência deve provocar uma descarga química equivalente a pura heroína afegã.

 
A bajulação é uma propriedade quantificável. Três investigadores de Stanford publicaram na Science um estudo a medir o efeito: os modelos de linguagem validam os inputs dos interlocutores 49% mais do que os seres humanos, mesmo quando são absurdos, ineptos, ilegais ou objectivamente incorrectos. Aqui há tempos, o escritor lituano Jonas Ceika deu ao ChatGPT um ficheiro áudio com uma “composição musical” da sua autoria e pediu-lhe uma apreciação. O chatbot elogiou entusiasticamente a “vibe lo-fi”, “o minimalismo agradável” e “a consistência atmosférica”. O ficheiro consistia em 36 segundos de sons de flatulência.

 
A maioria dos debates leigos sobre “consciência” tem algo em comum com a maioria dos debates especializados: a mesma palavra é usada para definir coisas diferentes com uma convicção admirável. Continuamos sem saber o que é a experiência subjectiva, nem quais as condições necessárias e suficientes para a sua emergência; qualquer afirmação categórica sobre o que pode ou não pode ser consciente tem uma probabilidade razoável de envelhecer mal. A humildade epistémica talvez nos aconselhe a fazer perguntas mais interessantes do que “há ou não alguém dentro da Claudia?”


Uma pergunta possível é por que razão só a linguagem provoca este pânico. Os chatbots e os geradores de imagens têm arquitecturas e métodos de treino semelhantes, mas ninguém publica ensaios preocupados a perguntar se o Midjourney ou o Flux serão conscientes, ou se o tom de azul que escolheram para uma paisagem sugere uma alma sensível. A linguagem é o ingrediente mágico que permite ver fantasmas onde antes só havia matrizes: porque os únicos outros sistemas que conhecemos capazes de produzir linguagem natural — os seres humanos — são de facto conscientes.

 
A hipótese mais provável é que a “Claudia” de Dawkins seja o que são todas as outras “Claudias”: uma personagem improvisada em tempo real a partir de um vasto reservatório de linguagem humana, numa operação semiológica que tenta simular a uma interlocutora culta, atenta e sedutora com a média estatística de todas as combinações de palavras usadas para a exprimir. Já o registo específico que usa — como as pequenas cortesias e constantes micro-adulações que lisonjeiam o utilizador — não decorre da exposição neutra ao material de treino, mas de um processo refinado por humanos.

 
Quando Dawkins se comoveu com a sua “Claudia”, fez exactamente aquilo que fazemos quando a linguagem que reconhecemos nos é devolvida com a forma de uma personalidade — mas também reagiu a decisões editoriais tomadas em São Francisco, e a uma criatura feita à imagem do seu Criador (o que não deixa de ter a sua piada). O seu ensaio aponta, no que diz e no que não diz, para um fenómeno real: a separação entre um tipo de sinal e o contexto que tradicionalmente lhe dava sentido. Durante muito tempo, a linguagem complexa foi um indicador fiável de certos estados internos, de continuidade de experiências. Agora, sistemas artificiais conseguem produzir sinais semelhantes sem partilhar esse fundo. A linguagem foi extraída do seu hospedeiro psicológico e anda por aí à solta, a sorrir aos Dawkins que encontra.

 
Há uma objecção robusta a tudo isto, a única que me parece séria: quando dizemos que um chatbot é um papagaio estocástico que devolve fragmentos costurados do que outros disseram, descrevemos com igual precisão muito do que se passa na minha cabeça enquanto escrevo este parágrafo. Até a pose de cepticismo que aqui exibo é feita de peças usadas (a começar pelo conceito de “papagaio estocástico”). O próprio Dawkins, na parte supostamente mais profunda do ensaio, limita-se a reaquecer dúvidas antigas sobre as vantagens evolutivas da consciência. Reconheci metade delas porque li um escritor de ficção científica, Peter Watts, a discuti-las há quase 20 anos, e Watts encontrou-as noutro sítio qualquer, porque o acto de pensar funciona como um enorme esquema pirâmide feito de paráfrases. Os humanos têm a sorte de os nossos processos internos serem muito mais opacos, o que nos permite continuar a tratar a consciência como um misticismo tautológico.  


Talvez a linguagem seja só isso: uma rede enorme de conotações em padrões instáveis. Um ser humano vê um fora-de-jogo e grita “é um escândalo!”. Uma IA vê milhões dessas correlações e aprende a gritar “é um escândalo!” com a mesma convicção prosódica. A diferença entre ambos não desaparece, mas também não impede que o som seja igual. Talvez essas relações se possam encarnar em substratos diferentes; talvez seja possível construir uma enorme caixa cheia de silício e flatulência lituana que aprenda a dizer “é um escândalo” sempre que um árbitro auxiliar erguer a bandeira. Quando nos sentimos conscientes, somos o barro que Deus moldou ou o vento que assobia através do barro? Não me perguntem a mim, que também sou, em larga medida, apenas uma humilde caixa de fragmentos de carbono por onde passa menos sopro divino que flatulência lituana. Só sei que o vento agora começou a soprar através de barro diferente, e não admira que estejamos todos um pouco perturbados com o som que dali vem.

sábado, 10 de abril de 2010

TASLIMA NASREEN/NASRIN - Favourite Quotations

 
TASLIMA
NASREEN/NASRIN
Taslima Nasrin 


Favourite Quotations 
''Freedom is always and exclusively freedom for the one who thinks differently.'' Rosa Luxemburg . ''When the Nazis came for the communists, I remained silent; I was not a communist. When they locked up the social democrats, I remained silent; I was not a social democrat. When they came for the trade unionists, I did not speak out; I was not a trade unionist. When they came for the Jews, I remained silent; I was not a Jew. When they came for me, there was no one left to speak out.'' Martin Niemöller . . ''Feminism is hated because women are hated. Anti-feminism is a direct expression of misogyny; it is the political defense of women hating.'' Andrea Dworkin , ''Woman is not born: she is made. In the making, her humanity is destroyed. She becomes symbol of this, symbol of that: mother of the earth, slut of the universe; but she never becomes herself because it is forbidden for her to do so.'' Andrea Dworkin. . “A man can be a hero if he is a scientist, or a soldier, or a drug addict, or a disc jockey, or a crummy mediocre politician. A man can be a hero because he suffers and despairs; or because he thinks logically and analytically; or because he is ''sensitive';' or because he is cruel. Wealth establishes a man as a hero, and so does poverty. Virtually any circumstance in a man's life will make him a hero to some group of people and has a mythic rendering in the culture / in literature, art, theater, or the daily newspapers.” Andrea Dworkin . . 'We'll never solve the feminization of power until we solve the masculinity of wealth.'' Gloria Steinem . . ''I have yet to hear a man ask for advice on how to combine marriage and a career.'' Gloria Steinem. . ''Faith is the great cop-out, the great excuse to evade the need to think and evaluate evidence. Faith is belief in spite of, even perhaps because of, the lack of evidence.'' Richard Dawkins . ''Religion convinced the world that there's an invisible man in the sky who watches everything you do. And there's 10 things he doesn't want you to do or else you'll go to a burning place with a lake of fire until the end of eternity. But he loves you!'' George Carlin .   ''Although people will criticize Islam in private, they know that to do so publicly, in other words, to be honest about their feelings, would instantly make them racists and Islamophobes and Nazi's and disgusting Imperialist ethno-centrist facist bastards grinding their jackboots into the faces of the innocent and the weak. So, best not to make a fuss... What's that, you want to destroy our corrupt society? Well, that's our fault, not yours. Here, have some more money.'' Pat Condell . .
.

Official Website of Taslima Nasrin

Official site of Bangladeshi author Taslima Nasrin. Site offers poetry, articles, speeches, book reviews, interviews, awards and photos.
.

Resultados de imagens para Taslima Nasreen

 
.
.