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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Lídia Borges - Da companhia

* Lídia Borges 

Até há pouco era bom ser sozinho.
Mesmo não sendo sozinho
saber como fazer para ser sozinho:
um recanto qualquer onde a luz não magoasse,
uma música miúda para encostar a cabeça,
um bloco de notas, um lápis…

Quando escrevo, esqueço-me
mesmo que pela lembrança,
seja o esquecimento.
Não há como chegar inteiro ao presente
Sem calcorrear o passado.

O pior de tudo agora é
saber como ir ao Futuro.
Mas… havemos de ir ao futuro,
assim nos garante Filipa Leal, num poema,
e eu acredito. Eu acredito.

Todavia acontece que nesta primavera
sem marços, sem nardos
as palavras massacram-me, molestam-me
e as leituras ardem-me nos olhos
como lágrimas artificiais às quais
faço sérias alergia.

E de repente,
gostava que me pegassem no braço,
de pegar noutro braço
e outros braços se dessem
e, por um dia que fosse,
sermos muitos os “da companhia”.

O que eu mais queria,
nesta primavera sem marços nem nardos,
era abraçar as pessoas todas da minha rua.

[Mas onde estão as pessoas todas
da minha rua que as não oiço,
que as não sinto?]
_________________

sábado, 18 de maio de 2019

Lídia Borges - Coisa

* Lídia Borges


Havia um linguista consagrado,
na rua onde morava,
que abominava a palavra “coisa”.
Dizia cada coisa da palavra coisa!
Dizia, por exemplo, que “coisa”
designa substância e como tal tem nome:
pedra, nuvem, árvore…
Logo a pedra, revoltada…
que, também ela, tem nome:
granito, xisto, ardósia…
e logo o granito ameaçador:
pois que seu apelido, 
e nomes próprios:
amarelo capri, giallo antico, arabesco…
e a nuvem… cirro, cúmulos, nimbus...
e a árvore…

E tão convincente foi a argumentação
que nunca mais a coisa foi coisa,
e passou a ser, quase sempre,
a nomeação exata
do inominável.
Que coisa!...


Lídia Borges
in "Seara de Versos"

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Lídia Borges - No tempo em que os poemas falavam

Lídia Borges

No tempo em que os poemas falavam
havia uma madrugada para florir
um aroma de alecrim em cada mão
em cada olhar inocente uma prece
um povo inteiro a rogar redenção.

Calam-se agora os poetas ao verem
paradas as naus, e o mesmo povo
contente, co’ a liberdade de dar
aos vampiros de sempre,
sua carne, seu sangue em dádiva
consciente.

Cale-se então o poeta
que estrangeiro se sente
no seio da própria gente.
 Lídia Borges
"Seara de Versos"

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Lídia Borges - Folhas Secas

* Lídia Borges

E quando os meninos da escola
Atraídos pela luz inconfundível do outono
Vierem procurar folhas secas,
Encontrarão palavras.
Umas baloiçando em meios círculos
Bêbadas de prazer.
Outras tapetes de cores estendidas ao sol
Umas vendaval outras brisa, umas lume outras água.

Hão de querer coleciona-las, os meninos.
Hão de querer colá-las em forma de poema
Numa página do caderno.

Hão de ficar espantados
Quando os pássaros vierem
Fazer ninho na folhagem dos poemas
Ali plantados

in “Baile de Cítaras”

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Lídia Borges - Coisas da terra, coisas do mundo

* Lídia Borges


primeiro, o poeta 
busca o absoluto. Não tenham dúvida:
o poeta busca o absoluto.
mas depressa o absoluto
suplica remedição

e o que era a alegria de viver
transforma-se na luta por estar vivo
em alegria

isto pensa o poeta
descendo uma calçada de maio
até ao âmago da comoção

estar ali
ouvir a paz rosada das rosas
as voltas ansiosas das abelhas
pela doçura do pólen
carregado de mel

sentir em êxtase 
o tremular da claridade
a subir, de folha em folha
até aos topo destas coisas 
que nos vêm da terra

das outras coisas 
das que nos chegam do mundo
um arrepio profundo

um fio de sangue
um grito aflito
uma sirene em contramão
a rasgar a noite, a paz, o coração...

e o poeta tropeça 
na mansidão 
dos ecos de maio
que em desmaio

lhe fogem da mão.