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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Daniel Oliveira - A bebedeira suicida do PSD

* Daniel Oliveira

Montenegro está a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca política

11 junho 2026  

Ométodo diz da função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate, impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco, para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.

Quanto à política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era, unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização, tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo. Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção. E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a oportunidades, apenas pune quem nela está.

A política do ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9) e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e, depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo: tática, tática e mais tática.

Costa desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável, o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim, Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca política.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-06-11-a-bebedeira-suicida-do-psd 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Susana Peralta - Chega e o seu financiamento

* Susana Peralta

Há uma ironia deliciosa, daquelas que fariam rir se não fizessem chorar, na narrativa Venturiana do "povo contra as elites".

André Ventura discursa contra o "sistema de interesses instalados" num hotel de luxo em Cascais onde o quarto mais barato custa mais que o salário mínimo de meio mês. Proclama-se voz dos abandonados e esquecidos enquanto janta em Monsanto com barões, condes e marqueses que financiam a sua cruzada populista com transferências de cinco dígitos. Promete "limpar Portugal" da corrupção enquanto esconde da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) os nomes de quem realmente paga as contas do CHEGA.

É teatro. Obviamente. Mas é teatro tão bem encenado, com cenografia tão convincente, que milhares acreditam. Acreditam que o homem financiado pela família Champalimaud — donos dos CTT, de hotéis de luxo, de participações no que resta do império BES — é verdadeiramente o paladino do povo. Que o político apoiado por comerciantes de armas, especuladores imobiliários e aristocratas ligados a redes bombistas do pós-25 de Abril é genuinamente anti-sistema. É preciso uma suspensão de descrença digna de ópera Wagneriana.

Mas talvez o mais fascinante não seja a hipocrisia — essa é banal, universal, transversal ao espectro político. O fascinante é a elegância com que o esquema funciona. A precisão cirúrgica com que as políticas do Chega servem exactamente os interesses de quem o financia, enquanto a narrativa pública fala de outra coisa completamente diferente. É engenharia social de alto nível. Merece, no mínimo, análise.

Comecemos pelos factos. Não as teorias da conspiração, não as especulações — os factos duros, documentados, publicados por jornalistas que fizeram o trabalho aborrecido de ler extractos bancários e cruzar transferências.

A família Champalimaud, nas suas várias ramificações aristocráticas e empresariais, transferiu dezenas de milhares de euros para o Chega entre 2021 e 2022.

Manuel Carlos de Melo Champalimaud, maior accionista dos CTT na altura, dez mil euros. Miguel de Mendia Montez Champalimaud, dono do The Oitavos (esse hotel de luxo onde Ventura faz comícios anti-elite), valores não especificados mas documentados. Miguel Vilardebó Sommer Champalimaud, dez mil. Mafalda Mendia Champalimaud, dez mil, repetidos. Eduardo Guedes Queiroz Mendia, ex-administrador da Espart (o braço imobiliário do Grupo Espírito Santo, aquele que implodiu levando as poupanças de milhares), também contribuiu generosamente.

Não são os únicos. João Maria Ribeiro Bravo, empresário que vende armas e helicópteros ao Estado português e que recentemente foi alvo de buscas da PJ na operação "Torre de Controlo" sobre alegado cartel de helicópteros, não só deu cinco mil euros como organizou almoços de angariação para o Chega. Miguel Costa Félix, do sector imobiliário e turismo, 2500 euros. Isto é apenas aquilo que fácilmente se consegue confirmar e validar (apenas a ponta do novelo).

Pedro Maria Cunha José de Mello, também presente. E há mais — condes, marqueses, barões, gente com títulos que pensávamos extintos mas que afinal andam por aí, vivos, ricos, e a financiar o partido que promete defender os pobres contra os poderosos.

Alguns destes financiadores têm histórias particularmente saborosas. Miguel Sommer Champalimaud esteve implicado na tentativa de golpe spinolista de Setembro de 1974. Francisco Van Uden, monárquico na linha de sucessão ao trono, foi chefe operacional do ELP (Exército de Libertação de Portugal), organização terrorista de extrema-direita responsável por atentados no pós-revolução. Eduardo de Melo Mendia, quinto conde de Mendia, aparece nos Paradise Papers. Luís Mendia de Castro, quarto conde de Nova Goa, movimenta-se em instituições financeiras. São pessoas sérias. Gente de bem. Defensores da ordem, da hierarquia, da propriedade. Exactamente o tipo de aristocracia financeira que qualquer populista genuíno combateria até à morte.

Mas Ventura não combate. Ventura agradece. E retribui.

Porque aqui está o verdadeiro génio do esquema: as políticas do Chega alinham-se perfeitamente com os interesses de quem o financia, mas essa ligação nunca é explicitada. Nunca é discutida. Fica escondida nas entrelinhas dos programas eleitorais, camuflada por retórica sobre "povo", "nação", "soberania".

É preciso ler com atenção — e poucos lêem — para perceber que o partido que se apresenta como defensor dos trabalhadores tem no seu programa a privatização de tudo o que o Estado ainda controla.

Leiamos, então. Directamente do programa do Chega, página 45: "Ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços, sejam eles serviços de Educação ou Saúde, ou sejam os bens vias de comunicação ou meios de transporte". Não é ambíguo. Não é metafórico. É literal. O Chega defende que o Estado se retire completamente da provisão de serviços. Saúde? Privada. Educação? Privada. Transportes? Privados. Tudo.

Página 49, sobre saúde especificamente: "o Estado não deverá, idealmente, interferir como prestador de bens e serviços no Mercado da Saúde mas ser apenas, um árbitro imparcial e competente".

Traduzindo do economês para português: acabar com o SNS. Não reformá-lo. Não melhorá-lo. Acabar com ele. Transformá-lo num sistema de seguros privados onde quem tem dinheiro tem saúde e quem não tem azar. Exactamente o modelo americano que está a fazer a esperança de vida nos EUA decrescer pela primeira vez em décadas entre países desenvolvidos. Exactamente o que beneficiaria os grandes grupos de saúde privada. Exactamente o que poderia interessar a quem tem investimentos nessas áreas.

E a flat tax? Ah, a flat tax. A Iniciativa Liberal teve o bom senso de recuar nesta barbaridade fiscal depois de economistas a trucidarem publicamente. O Chega não. Mantém no programa a taxa única de IRS de 15%, com ambição declarada de chegar a 0%. Para quem ganha 800 euros por mês, isto é desastroso — pagaria mais impostos que no sistema actual. Para quem ganha 10.000, 50.000, 100.000 euros por mês, é o paraíso fiscal. Uma redistribuição massiva de riqueza de baixo para cima, dos que trabalham para os que especulam, dos assalariados para os rentistas.

E o IMI? Também a 0%, segundo Ventura. Beneficiando essencialmente quem? Os grandes proprietários. As famílias com património imobiliário massivo. As fortunas fundiárias. Não as pessoas que compraram penosamente um T1 nos subúrbios. Essas pagariam através do IVA — que o Chega quer aumentar, concentrando a tributação no consumo, o imposto mais regressivo que existe, aquele que pesa mais sobre quem ganha menos.

Há um padrão aqui. Um padrão claro, documentado, verificável. As políticas do Chega beneficiam sistematicamente os ricos. Os muito ricos. Os obscenamente ricos. Privatização de serviços públicos? Óptimo para quem pode comprar os activos privatizados. Flat tax? Maravilhoso para quem ganha rendimentos de capital. Fim do IMI? Perfeito para grandes proprietários. Parcerias público-privadas na saúde? Excelente para grupos privados do sector. Desregulamentação do mercado imobiliário? Fantástico para especuladores.

E para o "povo" que Ventura diz representar? Para os trabalhadores precários, os jovens sem casa, os reformados com pensões miseráveis, as famílias que dependem do SNS porque não têm dinheiro para seguros privados? Para esses, o programa do Chega oferece o quê exactamente? Retórica. Indignação. Inimigos convenientes — imigrantes, ciganos, "esquerdalha". Mas soluções concretas que melhorem as suas vidas? Nenhumas. Pelo contrário: políticas que as piorariam drasticamente.

Isto não é acidente. Não é incompetência. Não é Ventura a ser ingénuo e a deixar-se capturar por interesses que não compreende. É design. É o modelo de negócio. Mobilizar os ressentimentos legítimos das classes trabalhadoras — que existem, que são reais, que merecem atenção — e canalizá-los não para políticas redistributivas que melhorariam as suas vidas, mas para uma agenda que serve os interesses da elite financeira e aristocrática que financia o movimento. É o velho truque. Tão velho quanto a própria política. Tão eficaz quanto sempre foi. Dar aos pobres um inimigo mais pobre ainda (o imigrante, o "subsidiodependente") enquanto se rouba o que resta da sua protecção social para entregar aos ricos. É como funcionou o fascismo. Como funciona o populismo autoritário em todo o lado. Prometem ordem, nação, tradição. Entregam desregulamentação, privatização, transferência de riqueza para cima.

E funciona porque a narrativa é convincente. Porque Ventura é bom no que faz — mobilizar emoção, criar identificação, performar autenticidade. Porque os media amplificam sem contexto. Porque os adversários políticos respondem com indignação moral em vez de exposição factual. Porque a maioria das pessoas não vai ler os programas eleitorais, os extractos bancários, as investigações jornalísticas. Vão apenas ouvir o discurso, ver as imagens, sentir a raiva.

E há tanto por que estar com raiva. Legitimamente. O sistema político português falhou muita gente. A precariedade é real. Os salários são vergonhosos. A habitação é inacessível. Os serviços públicos estão degradados. As instituições perderam credibilidade. Tudo isto é verdade. Tudo isto precisa de resposta. Mas a resposta do Chega não é resposta — é exploração. É pegar nessa raiva legítima e usá-la para implementar exactamente as políticas que piorarão os problemas que a geraram.

Porque quem pensa que privatizar o SNS vai melhorar o acesso à saúde dos pobres é ingénuo ou desonesto. Quem acredita que uma flat tax vai beneficiar trabalhadores precários não percebe matemática básica. Quem imagina que acabar com a regulação do mercado de trabalho vai aumentar salários desconhece história económica elementar. Estas não são soluções. São transferências de riqueza e poder para quem já tem demasiado de ambos.

E os financiadores do Chega sabem disto. Obviamente. Não são estúpidos. São, na verdade, bastante inteligentes. Investiram em Ventura porque viram uma oportunidade. Viram um talento performativo raro combinado com ausência de escrúpulos ideológicos. Viram alguém que podia mobilizar massas enquanto servia interesses de classe. Viram o veículo perfeito para uma agenda que nunca ganharia eleições se fosse apresentada honestamente.

Porque se Manuel Champalimaud se candidatasse às eleições com o programa "vou privatizar os CTT, o SNS, a educação pública, e baixar os impostos aos ricos", seria trucidado nas urnas. Mas Ventura pode propor exactamente isso — desde que embrulhe em bandeiras, hinos, retórica nacionalista, e acuse os outros de serem as verdadeiras elites. É marketing genial. É terrível. Mas é genial.

E nós, espectadores mais ou menos cúmplices, assistimos. Alguns indignados, outros entusiasmados, a maioria apenas cansada. Partilhamos os escândalos, comentamos as polémicas, esquecemos os detalhes. Porque os detalhes são aborrecidos. Extractos bancários são aborrecidos. Programas eleitorais são aborrecidos. Análise de políticas fiscais é aborrecida. Ler este artigo é aborrecido. Muito mais fácil ver Ventura a gritar, a apontar dedos, a prometer limpeza e ordem.

E enquanto isso, os Champalimauds, os Bravos, os Mendias, os condes e marqueses, vão transferindo os seus cinco e dez mil euros. Jantam em Monsanto. Almoçam no Oitavos. Financiam o homem do povo. E sorriem, imagino, com aquele sorriso de quem sabe que fez um bom investimento. Porque afinal, por uns milhares de euros — que para eles são trocos, loose change, o que gastam num fim-de-semana em Saint-Tropez — estão a comprar políticas que lhes valerão milhões.

É um esquema elegante. Eficiente. Rentável. E completamente legal. Porque em 2017, PS, PSD, PCP, BE e PEV votaram para abolir os limites de donativos a partidos. Abriram as portas. Deixaram o dinheiro fluir livremente. E agora surpreendem-se — ou fingem surpreender-se — que haja quem aproveite.

O Chega esconde nomes da lista de financiadores entregue à Entidade das Contas. Omite doações. "Esquece-se" de reportar transferências. E não há consequências. Porque não há fiscalização real. Porque a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) tem três pessoas para fiscalizar todos os partidos. Porque o sistema foi desenhado para não funcionar. Porque a opacidade convém a todos. E assim continuamos. Ventura grita contra as elites. As elites financiam Ventura. O povo aplaude. Os ricos enriquecem. O SNS definha. Os salários estagnam. As casas ficam inacessíveis. E daqui a uns anos, quando as políticas do Chega forem implementadas — se forem —, quando os hospitais públicos forem entregues a privados, quando a flat tax transferir mais milhares de milhões para o topo, quando a última rede de protecção social for desmantelada, talvez olhemos para trás e perguntemo-nos como é que deixámos isto acontecer.

Mas provavelmente não. Provavelmente estaremos demasiado ocupados com a próxima indignação, o próximo escândalo, o próximo inimigo conveniente que Ventura nos apontar. Porque o espetáculo não pára. Nunca pára. E nós somos simultaneamente audiência e combustível, vítimas e cúmplices.

Bem-vindos ao populismo do século XXI. Onde os paladinos do povo têm contas nas Ilhas Caimão e os defensores dos trabalhadores jantam com marqueses. Onde a retórica é de esquerda mas as políticas são de direita radical. Onde tudo é performance, nada é real, e os únicos que ganham são precisamente aqueles contra quem o populista diz lutar.

É deprimente. É previsível. É evitável. Mas não será evitado. Porque evitá-lo exigiria ler os programas, seguir o dinheiro, conectar os pontos. E isso dá trabalho. Muito mais trabalho que partilhar mais um vídeo de Ventura e sentirmo-nos indignados ou validados.

Então os Champalimauds continuarão a transferir. Ventura continuará a gritar. O povo continuará a acreditar. E os condes continuarão a sorrir, porque afinal descobriram a formula perfeita: comprar uma revolução popular que serve os interesses da aristocracia.

É quase poético. Se não fosse trágico.

https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/02/chega-e-o-seu-financiamento-um-artigo.html
***
Por Carlos Esperança - fevereiro 19, 2026

quinta-feira, 7 de março de 2024

Dulce Maria Cardoso - Un juguete frágil en manos toscas (excerto)


*  Dulce Maria Cardoso 

Los portugueses tendrán que pronunciarse en las elecciones del domingo sobre el lugar de la extrema derecha de Chega y sobre la herencia de la dictadura de Salazar


Como nasce o populismo? O que alguém sedento por holofotes precisa fazer para chamar a atenção? Como e por que começamos a prestar atenção “aquela pessoa”?

Para começar, “aquela pessoa” fala alto, interrompe os outros e é desrespeitoso. Ela age assim porque está indignada, com raiva. Sendo um bom ator e um bom comunicador, ele dá a impressão de que não tem filtros, que é autêntico, mesmo que minta descaradamente. A competição desenfreada que a sociedade exige de nós leva-nos a recriar as nossas relações com os outros, distanciando-nos da necessidade primordial que temos de não nos sentirmos sozinhos. Portanto, somos atraídos por aqueles que parecem, mesmo sabendo que não são, genuínos. Nós os recompensamos com nossa atenção e, muitas vezes, com nosso carinho. Permitimos que “essa pessoa” desafie códigos sociais ou mesmo leis. Há também quem aprecie. A selvageria “daquela pessoa” funciona como prova de sua independência e pode ser interpretada como um sinal de bravura. Para captar a atenção dos outros e mantê-la a longo prazo, “essa pessoa” deve escolher cuidadosamente as razões da sua indignação e raiva. Assim, demoniza dois grupos: um minoritário ou desprotegido e outro poderoso. O grupo dos poderosos inclui todos os seus adversários políticos. A suposta bravura com que pretende atacar os poderosos mascara a desprezível covardia com que persegue os desprotegidos. Para os populistas de direita, o grupo desprotegido é quase sempre constituído por imigrantes que, convenientemente e na sua maioria, não são eleitores.

“Essa pessoa” afirma que os grupos demonizados são a fonte de todo o mal e que devem ser odiados e perseguidos. Portanto, “aquela pessoa” não é considerada um agressor, mas sim uma vítima que atua em legítima defesa, querendo ser porta-voz de uma multidão de vítimas que tenta recrutar para a sua “guerra santa”. A vitimização que promove, misturando vítimas reais com falsas vítimas, é uma arma muito perigosa: além de ser uma poderosa estratégia empática, torna as verdadeiras vítimas ainda mais vulneráveis.

No entanto, esta manipulação “daquela pessoa” resultaria numa farsa inútil se não houvesse um mal-estar geral na sociedade, fruto, sobretudo, de uma injustiça económica e social imperdoável. Neste contexto, é fácil capitalizar o descontentamento dos cidadãos: aqueles que se sentem abandonados estão mais dispostos a ouvir “aquela pessoa”, que insiste em dizer que não tem responsabilidade pelas causas que levam a esse descontentamento. O abandono é o terreno onde emergem os populismos incipientes. Outros partidos externos ao governo também têm à sua disposição o mesmo terreno e têm à sua disposição a mesma possibilidade de manipulação , mas não prosperam nem definham. Para evitar tal fim, “essa pessoa” deve ser um comunicador competentemente histriónico e demagógico, elogiado pelas redes sociais e explorado pelos meios de comunicação social, e não ter escrúpulos em perseguir injustamente a minoria ou os grupos desprotegidos que escolhem demonizar. Hoje, em Portugal, o populismo de direita prospera mais facilmente do que o populismo de esquerda pelas opções que ambos têm nessa escolha: mais facilmente contribui para a incitação ao ódio contra os imigrantes do que, por exemplo, contra os proprietários (apesar da valor obsceno das rendas) ou aos empregadores (apesar dos baixos salários).~

07 MAR 2024 

https://elpais.com/opinion/2024-03-07/un-juguete-fragil-en-manos-toscas.html?
 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Ricardo Araújo Pereira - Bem-vindos a mais um esclarecedor debate



Bem-vindos a mais um esclarecedor debate

* Ricardo Araújo Pereira

Humorista

08 FEVEREIRO 2024

Bom, eu gostaria de começar por dizer que...

— Não, isso é falso.

— Desculpe, eu estava a falar.

— Ah, pois. Não quer ouvir. Não quer ouvir. Não quer ouvir.

— O que eu estava a dizer era que...

— Não quer ouvir.

— ...o meu partido considera que...

— Não quer ouvir.

— ...bom, assim é impossível.

— Pois, é, porque não quer ouvir.

— Se eu puder completar o meu raciocínio...

— Eu sei que custa. Eu sei que custa.

— Nós temos uma proposta para resolver o problema da habitação.

— Ai é? Então e esta folha A4 que eu trouxe que é a fotocópia de uma notícia antiga?

— A proposta consiste em...

— Não, mas olhe aqui esta fotocópia de uma notícia antiga que eu trouxe.

— ...investir em habitação pública.

— Não quer falar sobre esta notícia antiga, não é? Não interessa. Não pode negar. Isto veio nos jornais.

— Ainda ontem li no jornal que as propostas do seu partido levam o país à ruína.

— Desculpe lá, isso só pode ser para nós nos rirmos. Os jornais só dizem mentiras.

— Não, desculpe lá.

— Não, desculpe lá.

— Não, desculpe lá.

— Não, desculpe lá.

— Não interrompa, por favor. Eu não o interrompi.

— Não quer ouvir, não é? Não quer ouvir.

— O seu partido tem nas suas listas de candidatos a deputados pessoas que foram constituídas arguidas por serem suspeitas de crimes.

— Mas a minha gravata é azul.

— O que é que isso tem a ver com o que eu disse?

— É mentira?

— Não tem nada a ver com o que eu disse.

— Mas é mentira? Responda à pergunta. É mentira?

— Posso falar?

— Não quer responder. A verdade incomoda, não é? Por isso é que as sondagens dão um péssimo resultado ao seu partido.

— As últimas sondagens também dão o seu partido a descer.

— As sondagens são uma vigarice e têm o único objectivo de prejudicar o meu partido. A sondagem que interessa é o voto do povo, nas urnas. O povo é que interessa.

— O povo tem dado maiorias a outros partidos, que não o seu.

— O povo não percebe nada, está completamente dependente da máquina do Estado, por isso é que vota sempre nos mesmos.

— Posso falar?

— Ai, coitadinho. A vítima. Lá vêm as queixinhas. Isto é política, habitue-se. É por causa deste tipo de político que o país está como está. O Parlamento tem deputados a mais, que não estão lá a fazer nada.

— É o caso do seu grupo parlamentar, que aprovou zero propostas.

— É mentira.

— Que propostas é que aprovaram?

— Nenhuma, porque não nos deixaram. Chumbaram as nossas propostas de propósito.

— Está a queixar-se? Então isso não é política? Desculpe, isto é uma bandalheira.

— Não é, não. Eu e o meu partido viemos precisamente para acabar com a bandalheira. Agora vou defecar na mão e arremessar-lhe as fezes.

 

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia



quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Manuel Loff - Votos a sério, e não sondagens

OPINIÃO

Como se percebe desde 2019, os governos PS-contas-ditas-certas foram verdadeiras fábricas de extremistas de direita.

Manuel Loff

7 de Fevereiro de 2024 

Num país em que votam 40 a 60% dos eleitores, e onde as empresas de sondagens veem dois terços dos inquiridos a não lhes responder, vale a pena ver com atenção como votou meio milhão de pessoas nos Açores e, em setembro passado, na Madeira. Muito mais fiável que sondagens.

As eleições nas ilhas mostram que, ao contrário dos últimos anos, há muito mais gente a votar. Mais do que nas regionais de 2019 e 2020, mas mais ainda do que nas legislativas de 2022. Motivo de sobra para tomar estas eleições como indício fiável das tendências políticas. E confirmam o que já sabíamos: que o PS está irremediavelmente em queda. Muito pronunciada na Madeira: em setembro perdeu 40% dos votos das regionais de 2019 e um terço dos votos que obteve para a Assembleia da República (AR) em 2022. Nos Açores, o PS perde menos, compensado em parte pela descida do BE. Por outro lado, a AD não descola do que já tinha: já estava em perda (-2%) na Madeira, está estancada nos Açores (+0,1%), onde, é verdade, reúne muito mais apoio do que nas legislativas. A IL estancou também, com resultados sempre muito abaixo dos que obtém nas mesmas regiões para a AR.

Isto é também o que tradicionalmente acontece com o BE, que, ao contrário dos demais partidos, teve resultados muito diferentes num arquipélago e no outro: subida na Madeira em setembro, descida muito pronunciada nos Açores. É já comum que o BE obtenha maus resultados quando o PS pretende recuperar o poder à direita, como agora acontecia. À CDU acontece, normalmente, o mesmo, mas desta vez as coisas correram melhor: contrariou tudo o que as sondagens para a AR têm previsto, subindo significativamente na Madeira e conservando o que tinha nos Açores, em ambos os casos acima dos maus resultados das legislativas de 2022. A campanha eleitoral vai ser decisiva para recuperar muitos dos votos que se perderam para a maioria absoluta do PS – e que, afinal, serviram só para facilitar o caminho ao Chega.

Os resultados da extrema-direita confirmam que (ainda) está em fase ascendente, mas nada a ver com o que as sondagens indicam. Recordemos que há dias o estudo do Iscte/ICS dizia que o Chega poderia triplicar a sua votação (de 7% para 21%) para a AR, quando os resultados finais, reais, das eleições regionais dão-no a ficar muito abaixo disso: com menos abstenção agora que em 2022, o Chega sobe de 6,1% para 8,9% na Madeira e de 5,9% para 9,2% nos Açores. Ventura fez ambas as campanhas, o escândalo Albuquerque já se tinha dado quando os açorianos votaram. Não há bola de neve alguma. O Chega só conta porque sem ele não há maioria de direita. Mais nada.

Todos os estudos dizem que não são os trabalhadores pobres que votam Chega; exatamente como aconteceu nos anos do fascismo clássico (1922-45), é nestes setores das classes médias e médias altas que há muita gente disponível para votar neles

Apoiado na cultura política do ressentimento e do ódio que povoa as redes sociais, levado ao colo por muitos dos media que fazem capas sucessivas com os seus dirigentes e que sobrerrepresentam Ventura como se ele já tivesse os resultados que só as sondagens lhe dão, o Chega tem sido muito beneficiado por um mal-estar difuso, especialmente nas classes médias baixas e em setores profissionais da administração e dos serviços públicos que pagam hoje o preço que há muito pagam já os trabalhadores precários e/ou do salário mínimo, esmagados por salários baixos, por privatizações que tudo encarecem e pela omissão do Estado em limitar preços e rendas que a maioria não consegue suportar. Todos os estudos dizem que não são os trabalhadores pobres que votam Chega; exatamente como aconteceu nos anos do fascismo clássico (1922-45), é nestes setores das classes médias e médias altas que há muita gente disponível para votar neles. A aposta de Ventura é evitar discutir políticas sociais que corrijam a desigualdade e puxar o debate para o medo da perda de estatuto, ou para a demonização dos mesmos trabalhadores imigrantes que asseguram uma grande parte do bem-estar da classe média.

Como se percebe desde 2019, os governos PS-contas-ditas-certas foram verdadeiras fábricas de extremistas de direita. Não são os únicos: Macron é melhor ainda do que eles. Para travar a extrema-direita, qual PS nem meio PS. Como aconteceu sempre que o fascismo avançou, só uma frente social construída em torno dos direitos do trabalho, da luta por todas as formas de igualdade e contra o racismo. É um dever democrático nos 50 anos do 25 de Abril.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2024/02/07/opiniao/opiniao/votos-serio-nao-sondagens-2079496

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Manda quem pode, obedece quem deve

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024



 Com a campanha eleitoral em estado particularmente avançado e atingindo um tom de certo modo encarniçado, saltou para a ribalta mais um caso de suspeita evidente de corrupção envolvendo o chefe do governo regional da Madeira e o presidente da câmara municipal do Funchal, duas figuras gradas do PSD que não sabe bem o que mais prometer a fim de conseguir enfiar a mão no pote após oito longos e impaciente anos de jejum. Fica-se com a sensação de que foi vingança do PS, já que é o governo que manda na polícia judiciária e, depois do farto subsídio, não haverá outro remédio senão responder prontamente.

De boas promessas e de boas intenções está o Inferno cheio

A coisa promete ser renhida até ao fim e ninguém estranhe, como já foi alertado por diversas vezes, que a presente campanha para as legislativas do próximo dia de 10 de Março venha a revelar-se um tanto ou quanto feia; vai valer tudo, arrancar olhos caso seja necessário. Toda a gente espera que o principal homem de mão, na Madeira, do dito “principal partido” da oposição, no Continente, coloque o cargo à disposição, à semelhança de Costa que parece não ter hesitado e por razões aparentemente mais difusas, porque a situação para o Montenegro será a partir de agora cada vez mais preta, e lá se irão as promessas de tudo e mais um par de botas.

Quanto a promessas e de pretensas boas intenções está o Inferno cheio, e não deixa de ser ridículos os leilões de promessas fáceis prometidas por todos os partidos, uma verdadeira feira, desde do que ainda se encontra no governo, passando pelos partidos ditos da “direita moderada” e aos intitulados de “extrema esquerda” e “extrema-direita”, esquecendo-se de que as políticas seguidas nos países da União Europeia são determinadas por Bruxelas. E temos de ser realistas, porque é neste quadro que os partidos portugueses se movem, sendo tudo o resto mera demagogia, e rasca. E o que diz Bruxelas?

Ora, no recente encontro do Fórum Económico Mundial (54º), realizado em Davos, a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen não se engasgou nem trincou a língua no seu discurso onde explanou clara e detalhadamente as linhas mestres da política a seguir: os sectores públicos (governos) e privados devem colaborar intimamente; a principal preocupação para os próximos dois anos será o combate à “desinformação e falsa informação” e não o clima; “os próximos anos exigirão que pensemos da mesma forma”, acredita que o poder comum das democracias e dos negócios estará no centro desta forma única de pensar; como a Rússia, no seu entender, está a perder a guerra na Ucrânia e a falhar nos seus objetivos económicos e diplomáticos, o belicismo europeu irá impor-se.

Em relação à forma de cooperação entre governos e empresas serão estas a ditar as leis, promessas de subidas do salário mínimo e médio, seja os mil euros do salário já este ano ou para 2028, seja os 1750 euros do salário médio para o final da legislatura, partindo do princípio que chegará ao fim, o que é pouco provável, os partidos terão de perguntar primeiro se os patrões e as empresas estão dispostos a fazê-lo, já que a cooperação tem que funcionar, e os patrões portugueses já foram explícitos sobre o assunto: o salário mínimo de 1000 euros é difícil sem aumento da produtividade – primeiro venha o porco, quanto ao chouriço logo se vê!

O PSD deixa transparecer que está com a consciência pesada quanto aos idosos, deve ainda estar lembrado dos cortes que efectuou nas pensões e nas idades de reforma para a “peste grisalha”, então desunha-se em promessa de aumentos, complementos e outros apoios. No entanto, os restantes partidos não lhe ficam atrás, até houve um que prometeu reforma mínima igual ao salário mínimo, outros apostam mais na descida da idade para aposentação e o novel chefe socialista uma das primeiras coisas que fez foi visitar centros de terceira idade, também se esquecendo – esta gente come muito queijo! – do número de mortes de idosos abandonados durante a pandemia e em lares ilegais. Para quando uma rede pública de lares ou de cuidados continuados?

Em referência à economia, cujo estado de saúde não está tão bem como o governo o pinta, as promessas são descabeladas: a recauchutada AD jura a pés juntos que a descida gradual do IRC irá garantir um bónus de 5 mil milhões de euros às empresas, o que permitirá subir o PIB em 3,4% até 2028 e à custa predominantemente do aumento da procura interna. Ora, se os salários são baixos, o poder de compra dos portugueses encontra-se continuamente a degradar-se e os patrões não estão abertos à ideia de subir substancial e antecipadamente os salários, como é que isso poderá ser feito?

Aumentar a produção, induzir o crescimento económico, e aqui fala-se do crescimento da riqueza dos patrões, através de aumento das exportações, como se tem tentado fazer até agora, como isso será efectuado se atendermos a  duas razões: primeiro, a União Europeia está a entrar em recessão económica, a denominada “locomotiva da Europa”, a Alemanha, tem a economia estagnada há uma série de trimestres e não se prevêem melhorias, bem pelo contrário; segundo, a economia portuguesa tem-se transformado num prolongamento da economia espanhola desde a entrada no euro, o que explica que nos últimos vinte anos, tempo do euro, o PIB nacional tem crescido a uma taxa média anual de 1%, isto é, metade do da economia do outro lado da fronteira, cada vez menos fronteira. Como é?

A crise da democracia e a crise dos seus órgãos de propaganda

“Para a comunidade empresarial global, a principal preocupação para os próximos 2 anos não será o conflito ou o clima. É desinformação e falsa informação, seguidas de perto pela polarização nas nossas sociedades” – Ursula von der Leyen no 54º Fórum Económico Mundial, 16 Janeiro 2024

A economia capitalista nacional não está lá muito bem, mas o resto não estará lá muito melhor. Se pegarmos no assunto que mais preocupa a senhora von der Leyen, a questão de toda a gente seguir o mesmo pensamento, sem lugar para dissidências ou alternativas, com o objectivo de evitar ou abafar a contestação social, então a situação é calamitosa. Os media mainstream nacionais, propriedade de um pequeno punhado de grupos económicos, estão pela rua da amargura e o caso Global Media Group, adquirido recentemente por um fundo de investimento mafioso, diz bem da realidade, e será apenas a ponta do iceberg. As posições dos diversos partidos do establishment quanto ao apoio a esta imprensa falida e desacreditada diz bem da natureza política e de classe desses partidos.

Antes de mais, devemos lembrar os 15 milhões de euros que o governo do PS/Costa enterrou nos media para, alegadamente, fazer publicidade institucional, mas na prática foi comprar a adesão à política seguida e aplicada quanto ao combate da pandemia, onde se esturricaram alguns milhares de milhões de euros na compra de vacinas, material de protecção, máscaras e serviços aos lóbis da saúde privada e também, com o mesmo pretexto, na recapitalização de empresas falidas ou à beira de tal. E ainda não se falava da crise do Global Media Group e Marcelo defendia o apoio estatal aos media privados, melhor dizendo, aos meios de propaganda do regime. O ex-presidente do Parlamento também já alvitrou a alteração da Lei de Imprensa. Provavelmente, os media mainstream serão benevolentes com o PS nesta campanha eleitoral.

E a seguir, e apontando as medidas defendidas pelos partidos do sistema quanto à forma de salvação de órgãos de informação que o povo português pouco lê ou vê, tirando as telenovelas, e onde pouco ou nenhum dinheiro gasta, porque também o não tem, concluímos que o consenso reina entre todos. O PS e BE são unânimes em enfiar directamente dinheiro nos órgãos de propaganda da burguesia, os restantes também aprovam mas com algumas condições, que são mais de forma do que substância, e o PCP até terá alvitrado a nacionalização do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias, dando a entender que são os “alicerces fundamentais da democracia”, como disse uma ex-deputada socialista, chegando a defender um “pacto de regime alargado” sobre os media. Mas pergunta-se, democracia e liberdade de expressão para quem, para os trabalhadores ou para as elites e seus negócios como aponta von der Leyen?

E quanto a democracia, esta não está melhor que os seus órgãos de propaganda, vai-se auto-descridibilizando, e aqui todos os partidos com assento na Assembleia da República estão unidos, e fortemente, incluindo o que se autoproclama de “anti-sistema”. O Parlamento, no seu último plenário, aprovou por unanimidade e em tempo recorde o projecto de lei que alarga ajudas de custo para os próprios deputados… e com retroactivos até agosto de 2023. É o fartar vilanagem! E vêm agora os falsos moralistas do costume gritar aqui d’el rei! que o ex-militante e ex-deputado pelo PSD, agora cabeça de lista do Chega, terá recebido 75 mil euros de subsídios e ajudas de custa por ter dado como residência Angola e não Coimbra ou Lisboa, onde passa a maior parte do tempo. Afinal, são todos subsídio-dependentes, ou seja, mamam todos na mesma teta.

Os cada mais frequentes casos de corrupção, na maior das vezes corrupção passiva de titular de cargo político, quer dizer que os políticos governantes foram corrompidos por alguém, no caso da Madeira os políticos terão sido por gente ligada aos negócios da construção civil e do turismo, acusação geralmente associada a suspeitas de “prevaricação, abuso de poder, participação económica em negócio ou atentado contra o Estado de Direito”, contribuem para descredibilização do regime. Quando esta democracia perfaz meio centenário de existência, vão realizar-se eleições antecipadas para a Assembleia da República e para a Assembleia Regional dos Açores e, muito provavelmente e em breve, também para a Assembleia Regional da Madeira, caso o governo regional venha a cair, como parece vir a acontecer. Não deixa de ser uma forma irónica de confirmar a solidez do regime.

Fica evidente, só não vê quem não quer ou não lhe interessa, que a classe política do regime não passa de uma casta que, para além de parasitária, funciona como gestora dos negócios do capitalismo. São todos uns meros funcionários que de imediato são descartados se não cumprirem com a missão, e logo substituídos por outros. Alguns são mais espertalhaços e não se deixam apanhar; outros, ou por inépcia ou por arrogância e excesso de confiança, são apanhados com a mão na massa. A fila para candidato ao pote parece não ter fim e as eleições servem somente para refrescar as fileiras, e quando é. Nunca foi tão verdadeira como no tempo presente a velha máxima salazarista do “Manda quem pode, obedece quem deve”: manda o poder económico, esteja ele (grande capital financeiro) sedeado em Bruxelas ou situado em Portugal, os políticos avençados obedecem.

Imagem: "Os pica-paus" em henricartoon

Postado por O BÁRBARO às 15:34 

https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2024/01/manda-quem-pode-obedece-quem-deve.html


quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Bárbara Reis - SIC e CNN e aquele partido

LIVRE DE ESTILO

Uma newsletter de Bárbara Reis sobre o outro lado do jornalismo e dos media.

Bárbara Reis

31 de janeiro de 2024 

É fácil criticar as televisões: fazem coisas boas, mas vivem para as audiências, cortam a palavra a políticos para a darem a futebolistas, fazem maratonas de directos sem nada de novo, alimentam a superficialidade, copiam os jornais.

É tudo sabido.

O que me traz aqui hoje é a cobertura que as televisões estão a fazer do Chega.

Não escrevi "Chega" no título e optei pela fórmula "RAPiana" do Programa cujo nome estamos legalmente impedidos de dizer. Podia dizer "Chega" – e o Chega agradecia – mas não vale a pena.

Vou dar dois exemplos de como as televisões estão a ajudar o Chega a crescer. É literal.

Não terá reparado, mas na quarta-feira, dia 24, o Chega anunciou que ia fazer um "congresso eleitoral" no sábado, 27, em Sacavém, entre as 15h e as 19h, para apresentar "as linhas fundamentais" do seu programa eleitoral. Como o partido teve um congresso há duas semanas, o anúncio causou estranheza. Mais um congresso?

O que fizeram os media com este anúncio?

Às 19h20, o Correio da Manhã publicou uma notícia com o título ‘Cortar a direito pela decência’: André Ventura aponta critério do Chega sobre casos de corrupçãoA notícia tem 1500 caracteres e refere o "Congresso Eleitoral do Chega", mas em nenhum momento fala das "linhas fundamentais" do programa eleitoral do partido, as tais que iam ser apresentadas.

A seguir, às 19h42, a agência Lusa publicou uma peça, com o título Eleições: Ventura acusa PSD de incoerência e PS de preparar ‘maior ataque à justiça’ se vencer. Tem 2200 caracteres e, de novo, nem uma palavra para as "linhas fundamentais". Que tenha visto, só a Rádio Renascença publicou esse "take" da Lusa. Muitos media optaram por ignorar, não publicaram a Lusa e não enviaram repórteres para Sacavém.

O que fizeram as televisões nesse sábado com o congresso-que-não-era-um-congresso? Um festim.

A SIC Notícias fez um directo do pseudo-congresso às 16h19. Três minutos. Às 17h37 fez um novo directo. Mais três minutos. Mal acaba o directo, entrevista a uma analista, Cátia Moreira de Carvalho, da Universidade do Porto – a investigadora num canto e imagens do "congresso" em dois terços do ecrã. Mais cinco minutos.

A seguir, Paulo Baldaia e Maria João Marques aparecem a comentar. O quê? O Chega. No rodapé: "Chega realiza convenção eleitoral". O que ocupa a maior parte do ecrã? Ventura, claro. Falam até às 18h18, quando Ventura começa o discurso – que é um comício, não é a apresentação de "linhas fundamentais".

Das 18h18 às 18h23, a SIC Notícias dá o discurso em directo. Mais cinco minutos. A seguir, os comentadores regressam e voltam a comentar o Chega. Já vamos em quantos minutos sobre um congresso que não é um congresso? Corta para publicidade e, às 19h08, a SIC Notícias emite uma peça sobre o discurso de Ventura. Mais dois minutos. Seguido de quê? Da análise de Sebastião Bugalho e Miguel Morgado. Sobre o quê? Ventura. Estamos nisto até às 19h21.

Na CNN, a festa foi parecida. Entre as 18h e as 20h30, o Chega e Ventura estão perto de omnipresentes. Às 18h16, Sara de Melo Rocha, pivot, diz "por falar em extrema-direita", como forma de anunciar que a estação vai "acompanhar a apresentação do programa eleitoral", Ventura já está a falar no não-congresso e entra em directo.

O líder do Chega está a dizer que "o país ficará espantado", pela positiva, com o seu programa eleitoral, há muitas palmas, mas "linhas fundamentais", zero. Até às 18h21, Ventura fala em directo sobre a "podridão", "degradação" e "corrupção", no seu habitual retrato de Portugal como o país mais decadente do planeta.

pivot Melo Rocha corta o directo e resume: "Para já, ainda não há medidas apresentadas". Percebe-se o esforço. Mas alguém acreditou que ia haver? A maioria dos media não acreditou e nem foi a Sacavém.

Cinco minutos depois, o Chega regressa à CNN, com dois comentadores, Miguel Pinheiro e Paulo Ferreira. Como antes, os dois disseram coisas úteis e incisivas. Ferreira disse que está "curioso para ver o programa eleitoral do Chega" para "perceber a consistência das políticas", "e já agora", que "propostas exequíveis têm" – como quem diz, ainda não vimos nenhuma. Pinheiro desmonta a hipocrisia da proposta do Chega para a TAP e faz um alerta – o silêncio dos partidos sobre a Madeira, que deixam Ventura a falar sozinho, tem um resultado: "Estendem o tapete vermelho a Ventura."

Será verdade: os partidos têm uma quota-parte de responsabilidade. E as televisões, qual é a sua quota? Os dois falam do Chega até às 18h31. O noticiário da CNN prossegue. Às 19h lá regressa o Chega, a criticar o PSD. Mais um minuto. Às 19h16, mais dois comentadores, André Macedo e Miguel Santos Carrapatoso, e aparece de novo Ventura em directo a fechar o "congresso" com a bandeira de Portugal ao ombro.

A seguir, das 20h16 às 20h31, a CNN entrevista dois constitucionalistas: Jorge Bacelar Gouveia (que foi à última academia de Verão do Chega) e Luís Menezes Leitão (cujo assistente na Universidade de Lisboa era João Lemos Esteves, fã incondicional do Chega e director de sites de extrema-direita dedicados a propagar fake news). Não digo que a CNN não os oiça como especialistas em Constituição, mas os dois ao mesmo tempo e durante 15 minutos?

Volta a crise na Madeira – foi na sexta-feira que o presidente da câmara do Funchal anunciou a demissão – e a CNN anuncia uma peça para as reacções. São 20h31 e o pivot diz: "Seguimos para reacções políticas." Quem abre a sequência de reacções? Acertou: o Chega. Ventura fala do "congresso" durante um minuto inteiro. Só depois vem a reacção do PS, IL, BE e Livre. Já agora, daria uma newsletter mais longa comparar os minutos (muitíssimo menos) que as televisões deram neste mesmo sábado ao Livre, que teve um congresso – verdadeiro, foi o 13.º, durou dois dias e debateu-se o programa –, e ao PS, que teve um fórum (a palavra escolhida) para discutir propostas, durante o qual Pedro Nuno Santos anunciou propostas novas e concretas.

Já terá perdido a paciência com tanto pormenor. Isto é só um exemplo: um pseudo-evento e duas televisões. O Chega cresce por muitas razões. As televisões não podem pôr a cabeça na areia e fazer de conta que nem sabem do que estamos a falar.

https://www.publico.pt/2024/01/31/newsletter/livre-estilo


Pedro Tadeu - Alguém ainda vota em partidos?

* Pedro Tadeu

 

O Partido Socialista que propôs ao Presidente da República substituir o primeiro-ministro demissionário, António Costa, pelo governador do banco de Portugal, Mário Centeno, para assim se manter no poder. É o mesmo PS que agora exige novas eleições na Madeira e recusa que o demissionário Miguel Albuquerque seja substituído por outra pessoa da coligação que venceu as eleições regionais em setembro?

O PSD de Luís Montenegro, que recusou a continuação do Governo de maioria absoluta do PS, após a demissão de António Costa, exigindo eleições antecipadas, é o mesmo Partido Social Democrata que agora implora a Marcelo Rebelo de Sousa a aceitação da nomeação de um substituto para Miguel Albuquerque, sem antecipação de eleições, para o partido se manter a governar a Madeira?

E o CDS de Nuno Melo, é o mesmo CDS que agora na Madeira defende o contrário do que o seu líder nacional defendeu em dezembro, após a renúncia de António Costa?


E o Presidente da República, que anunciou publicamente ir dissolver a Assembleia da República quase dois meses antes da concretização formal dessa intenção, é o mesmo Marcelo Rebelo de Sousa que não revela o que vai fazer sobre o futuro político madeirense, por estar impedido de dissolver a Assembleia Regional da Madeira durante os próximos dois meses?

 Estas contradições evidentes na prática política recente são uma consequência de uma distorção do regime que já vem de longe: em teoria, nas eleições, os portugueses votam em partidos que apresentam candidatos “amarrados” a um programa político com projetos e medidas que pretendem aplicar. Em tese, portanto, o voto não é nas pessoas que lideram esses partidos, mas sim nas ideias que esses partidos defendem. Se essa “tese” fosse levada à prática, a saída de um líder de um Governo recentemente eleito quase nunca implicaria a convocação de novas eleições, pois poderia credivelmente ser substituído por outro político do mesmo partido ou coligação que tivesse subscrito o programa votado pelos portugueses.

O problema é que a batalha política das ideias foi, desde muito cedo na nossa democracia, substituída pela luta entre pessoas da política, e, apesar de o voto ser em partidos, a verdade é que o peso político individual dos candidatos “esmaga” o volume dos programas eleitorais, que até parecem não ter qualquer importância para o resultado do sufrágio.

 Assim, aquilo que os líderes partidários prometem em campanha fica associado à sua pessoa e não ao seu partido - nós, nos media, até falamos muitas vezes em “candidatos a primeiro-ministro”, que é algo que nem existe - e é por isso que, quando o líder de um Governo tem de se demitir, ocorre um desabamento no suporte ao seu partido que favorece a realização de eleições antecipadas, mesmo quando o anterior ato eleitoral foi há muito pouco tempo.

 O culto generalizado da personalidade política, em vez do culto das ideias políticas, é, portanto, amigo da instabilidade, coisa que, contraditoriamente, tanto assusta os mais poderosos deste país que implementaram este comportamento político - mas os seus efeitos perniciosos são, infelizmente, muito maiores.

 Um deles é este: uma população treinada durante décadas, como é o caso, a preocupar-se mais com a aparência política dos líderes partidários do que com a substância política das propostas dos partidos é mais facilmente enganada por fenómenos de demagogia, mentira e manipulação; compreende mal o combate político, os debates parlamentares e não compara soluções alternativas para os mesmos problemas; é menos participativa na vida cívica, mais crente em soluções “simples” e alinha facilmente em discursos de medo, de segregação ou de ilusória radicalidade.

 O culto da personalidade, em vez do culto do partido, corrompe a democracia.

 André Ventura, neste momento, é em Portugal um beneficiário dessa degradação, comum no ocidente, mas antes dele muitos outros souberam usar em seu proveito este intencional esvaziamento social das ideias políticas - por isso, agora, não deviam queixar-se, pois estão a colher o que semearam durante 50 anos.


 Jornalista

DN 2924 01 31

https://www.dn.pt/2951359661/alguem-ainda-vota-em-partidos/


sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Francisco Mendes da Silva - Ventura não se moderou. Pelo contrário

 OPINIÃO


O Ventura que vimos na convenção é um líder puramente Schmittiano, que recorre às tácticas e aos temas típicos do extremismo de direita.

Francisco Mendes da Silva

19 de Janeiro de 2024, 6:24

Há cerca de vinte anos, numa pista de dança, quando a inevitável Nowhere Fast dos Fire Inc. atingia o seu clímax final – “Godspeed! Godspeed! Godspeed! Speed us away!” –, um amigo aproximou-se e cantou-me ao ouvido: “Carl Schmitt! Carl Schmitt! Carl Schmitt! Schmitt us away!” Eu sabia que a canção era um exemplo do chamado “rock wagneriano”, mas foi aquela sugestão homofónica que na minha cabeça transformou para sempre o alvoroço dramático dessa Cavalgada das Valquírias pop num hino fascista cómico e acidental.

Carl Schmitt caiu em desuso depois da desgraça dos autoritarismos de direita do século XX, dos quais tinha sido o grande pensador político e jurídico. Foi também com base na sua tese de que a política assenta na divisão entre “amigos” e “inimigos” que as ditaduras europeias justificaram que o papel de um líder não é o de descobrir modos de convivência pacífica entre todos os membros de uma comunidade (como defendem em geral as doutrinas do liberalismo político), mas a de identificar os inimigos internos e externos que devem ser expulsos da comunidade.

Vale a pena estar atento à actual popularidade de Schmitt nas franjas radicais do pensamento da direita e da esquerda, ambas ansiosas por “grelhas de análise” que as ajudem a superar a democracia liberal.

No último domingo, não consegui evitar franzir ironicamente o sobrolho quando percebi pelos directos televisivos que Nowhere Fast foi a banda sonora escolhida para o momento festivo de encerramento da convenção do Chega, ela própria disparada dos altifalantes num volume autoritário que praticamente impediu os representantes dos partidos convidados de comentarem os trabalhos. Hugo Soares que o diga.

Não pretendo retirar conclusões exageradas de uma escolha musical, muito menos com base numa historieta pessoal. Aliás, para os militantes do Chega, salvo porventura Diogo Pacheco de Amorim e mais uma ou duas excepções, “Carl Schmitt” é o treinador do Benfica.

Só que, se há conclusão da convenção que me parece realmente exagerada, apesar de consensual nos analistas, é a de que André Ventura se “moderou” (só porque deixou de falar de ciganos, castração química e prisão perpétua).

Discordo. O Ventura que vimos na convenção é um líder puramente Schmittiano, que recorre às tácticas e aos temas típicos do extremismo de direita. Não só o contemporâneo, mas também o de há cem anos. Todo o seu discurso e programa servem para construir uma base social de apoio própria dos partidos extremistas, assente na divisão “amigo” vs. “inimigo”.

De resto, os “inimigos” a perseguir são os “parasitas” de sempre: os estrangeiros, os imigrantes, as minorias étnicas e raciais, os “subsídio-dependentes” e as elites degeneradas, a começar pelos banqueiros (ontem com a arma do antissemitismo, hoje com a da taxação agressiva). Tudo com base na mentira sobre a gravidade iminente dos problemas, para dar ao eleitorado mais susceptível a ideia de que existe uma solução política simples para a sua sensação difusa de insegurança.

Às vezes discute-se se o Chega é fascista. Os termos habituais desse debate são bastante absurdos, porque para a comparação se utilizam as características dos partidos fascistas quando o fascismo já estava organizado numa simbologia, numa liturgia e numa ideologia sobre a comunidade e o Estado.

Em que é que o Chega não encaixa nesta definição?

É óbvio que o Chega não tem uma organização de juventude militarizada nem uma proposta revolucionária sobre a ordem constitucional do país (ainda que as suas ideias sobre a redução drástica do número de deputados e o reforço do presidencialismo, embrulhadas no slogan da “IV República”, apontem claramente para uma visão caudilhista da legitimidade política).

O problema é que essa precisão científica sobre o que o fascismo acabou por ser esquece o que o fascismo começou por ser, quando construiu a sua base social de apoio. Como escreveu o historiador A.J.P. Taylor nos anos 50, “o fascismo é a verbalização do irracional, pelo que a tentativa de o reduzir a parâmetros racionais se derrota a si mesma”. No seu âmago, a característica central do fascismo foi o incitamento a uma “psicologia da indignação”, a uma “sensação de agravo social”, a uma “barafunda de emoções sombrias e incoerentes”, e à “violência sobre os elementos considerados exteriores à comunidade”. Em que é que o Chega não encaixa nesta definição?

Todas as democracias têm bolsas de descontentamento contra o “sistema”. É uma energia catártica, não necessariamente negativa, que não é canalizada sempre pelos mesmos. Pode sê-lo pela direita ou pela esquerda, por partidos inorgânicos ou até por partidos ideológicos. Nem sempre há uma coincidência absoluta entre o posicionamento desejado pelos partidos e a utilidade que o povo vê neles. Quando a ideologia é suficientemente marginal e irredutível, a sua real mais-valia, aos olhos do eleitorado, é a de oferecer um voto “de protesto” contra a “situação”. É por isso que muita da energia populista capturada hoje pelo Chega já o foi no passado pelo PCP e pelo BE.

Muita da energia populista capturada hoje pelo Chega já o foi no passado pelo PCP e pelo BE

No entanto, André Ventura é de longe o que parece vir a ser mais recompensado enquanto líder anti-sistema. Há várias razões para isso: o seu talento raro para a demagogia, a onda populista internacional, a desnecessidade de mediação oferecida pelas redes sociais, a degradação da imagem dos políticos, a incapacidade crónica de os sucessivos governos darem satisfação às necessidades das pessoas em aspectos centrais das suas vidas.

Mas há um outro motivo pelo qual ele é tão apelativo para o eleitorado que procura um megafone do ressentimento. É que ele não se limita a ser um demagogo rotineiro, como os que há por sistema no sistema. Ventura vai mais longe e usa a fórmula de sucesso dos verdadeiros extremistas. Não escolhe a fonte do agravo, não se agarra só aos instintos da direita. Tanto se atira aos pobres da imigração e dos subsídios como aos ricos dos bancos e das gasolineiras. É esse populismo de escopo largo, pouco preocupado em ser coerentemente “de direita”, que o faz crescer tanto.

E é esse crescimento que ameaça levá-lo à orla do poder, acolhido por quem se convenceu de que, no país da guerra permanente entre dois blocos políticos, inaugurado em 2015 por António Costa, toda a direita é coerente entre si na missão de infligir ao PS a vingança que tarda. Eis, hoje, o ressentimento mais determinante da política em Portugal.

O autor é colunista do PÚBLICO

Advogado

 https://www.publico.pt/2024/01/19/opiniao/opiniao/ventura-nao-moderou-contrario-2077357

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Daniel Oliveira -A política não é uma fábrica de “conteúdos”

OPINIÃO -  

*  Daniel Oliveira 

(Expresso 2023 12 27)

Houve um tempo em que a comunicação social relatava as campanhas, agora quer ser guionista. Os candidatos não devem ser donos absolutos da narrativa política, sem o incómodo de perguntas que perturbam a propaganda. Mas não têm de cumprir o papel de atores em polémicas diárias para encher chouriços

 

Esta campanha promete ser a mais longa de sempre. E temo que em vez disso permitir um maior esclarecimento sobre o programa de cada partido ou para conhecer os líderes de cinco partidos (dos oito com assento parlamentar) que concorrem pela primeira a legislativas – Pedro Nuno Santos, Luís Montenegro, Rui Rocha, Mariana Mortágua e Paulo Raimundo –, sirva para deixar os eleitores exaustos, desmotivando-os. Porque o efeito dos ciclos noticiosos de 24 horas não tem sido manter as pessoas mais informadas, mas cansá-las mais depressa.

É natural que, quando saímos de uma maioria absoluta e se espera um período de forte instabilidade política, com dificuldade em construir maiorias de governo, o tema das alianças e dos entendimentos esteja em cima da mesa. O crescimento do Chega, a fragilidade da liderança do PSD, a chegada de Pedro Nuno Santos e a possibilidade de refazer a “geringonça”, tudo empurra para esse tema. Mas a três meses e meio de campanha têm de ser mais do que isso. Até por sabermos que, quando os resultados eleitorais vierem e estivermos num impasse, muito do que foi dito será necessariamente desdito. Temos de falar de grandes escolhas para o país, quando é certo que quase todos os protagonistas serão diferentes.

Infelizmente, já se percebeu o que as televisões, que acabam por marcar o ritmo de todo o processo mediático, nos reservam. Com um ritmo noticioso permanente e a necessidade de ter tema para comentar a cada hora, é preciso inventar uma polémica diária. O modelo tem sido sempre a mesma e promete repetir-se em dose aditivada. Já começou, aliás.

Um repórter que acompanha o líder de um partido faz uma pergunta, quase sempre sem qualquer conteúdo relevante para o futuro do país. O repórter que acompanha a campanha adversária pede, tantas vezes por indicação do editor, reação à resposta do outro. O jornalista que acompanha o primeiro pede nova reação ao primeiro sobre a resposta do segundo. E dez comentadores passam horas a discutir o tema de que ninguém se lembrará daí a uma semana. Os lugares em que as perguntas são feitas – uma fábrica, uma cidade, um centro de investigação –, pensados pelas campanhas como ilustração de uma determinada mensagem, proposta ou crítica, passam a ser paisagem, a que se faz uma referência rápida. Podia ser ali ou num estúdio.

Na realidade, toda a campanha podia ser, para as televisões, feita em estúdio. Sem povo, sem vida, sem outros intervenientes que não fossem os políticos e os jornalistas. Sem outros temas que não fossem os que a própria comunicação social escolhe e onde os políticos perdem a sua própria vontade e cumprem o dever de preencher a programação de televisões em confronto por audiências.

Esta colonização da política pela comunicação social é especialmente evidente quando os lideres são obrigados a participar em dezenas de debates em estúdio (se se seguir um modelo inicialmente pensado para cinco partidos, e não oito, chegaremos este ano aos absurdos 24 debates), tempo que retiram à interação com os eleitores.

Houve um tempo em que a comunicação social relatava as campanhas, agora passou a ser guionista das campanhas. A escolha dos temas não corresponde mais ao interesse geral do que se fossem os políticos a escolher. É determinada pelas audiências, o que implica polémicas de consumo fácil e rápido.

O ecossistema mediático atual, totalmente dominado pela rapidez superficial de televisões em confronto por uma audiência cada vez mais escassa – a restante migrou para as bolhas das redes sociais, onde o algoritmo do ódio trata de radicalizar os eleitores -, promove a superficialidade política. E neste ambiente, safam-se os que, na política, dependem da superficialidade.

Há uns dias, e só o pude ver porque vi na rede social do partido, Paulo Raimundo bem tentou resistir às insistentes perguntas dos jornalistas sobre as declarações de Passos Coelho, as afirmações de Pedro Nuno Santos sobre a “geringonça”, umas frases de Rui Rocha sobre Pedro Nuno Santos e outras de Mariana Mortágua sobre cenários eleitorais. Os jornalistas procuravam, desesperados, um novo ping-pong entre dois protagonistas, fossem eles quais fossem. E, também desesperadamente, o líder do PCP tentava que as decolações que passassem na televisão fossem sobre temas substanciais. Não é o único que tenta, quase sempre sem conseguir furar a barreira de fait-divers imposta pela comunicação social. Raimundo estava na fábrica da Matutano, no Carregado, mas, para as televisões, aquele lugar não passava de um cenário a dar colorido aos ecrãs. Raimundo estava ali para falar de leis laborais, cortes na remuneração das horas extraordinárias e as condições em que se trabalha por turnos neste país, coisas que afetam a vida concreta das pessoas concretas que não habitam nos estudos das televisões.

O esforço do PCP ou de qualquer outro partido raramente é bem-sucedido. Os jornalistas acham que os políticos têm o dever de seguir o seu guião e que não o fazer é sinal de desrespeito pela liberdade de imprensa. Mas é mesmo isto que os políticos devem começar a fazer. De preferência nos diretos, quando a edição não permite retirar tudo o que não cabe na história que já vinha escrita de casa.

Os candidatos não devem ser donos absolutos da narrativa política, sem o incómodo de perguntas que perturbam a propaganda. Mas também não têm de cumprir o papel de atores em polémicas diárias para encher chouriços nas programações dos canais de notícias e em telejornais com duas intermináveis horas. Até porque, no fim da campanha, serão os mesmos jornalistas, editores, diretores e colaboradores daqueles canais a explicar que tudo aquilo foi uma perda de tempo, uma campanha vazia, confrontos sem ideias nem propostas. Que, enfim, são campanhas como estas que desmobilizam os eleitores. Pois bem, está na altura dos candidatos escreverem o seu próprio guião. A liberdade de imprensa não está em causa quando aqueles que elegemos não aceitem ser apenas “conteúdo” do negócio mediático.

https://expresso.pt/opiniao/2023-12-27-A-politica-nao-e-uma-fabrica-de-conteudos-8e234320


quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Daniel Oliveira - Diretas do PS: algum amor próprio

OPINIÃO

Daniel Oliveira

“Thatcher procurou tirar a Grã-Bretanha do marasmo”. E assim Keir Starmer fez da protagonista contrarreforma neoliberal referência ideológica do Labour. Isto é importante quando por aí se fala de radicalismo. Mesmo que o centro-esquerda aceite os dogmas desde então instituídos, pelo menos não erga estátuas a Thatcher. E não faça do que a direita tolera a bitola da “moderação”. Algum amor próprio

“Thatcher procurou tirar a Grã-Bretanha do marasmo, libertando o nosso empreendedorismo natural. Tony Blair reinventou um partido trabalhista obsoleto e desatualizado para aproveitar o otimismo do final dos anos 90.” O que Thatcher disse uma vez por provocação – que o New Labour e Tony Blair tinham sido as suas maiores conquistas – o atual líder dos trabalhistas, Keir Starmer, escreveu como tese no The Telegraph. Dá a Thatcher, uma das principais responsáveis pela contrarreforma neoliberal, o estatuto de referência ideológica do que outrora foi o centro-esquerda. Não foi o primeiro. O muito relevante trabalhista Peter Mandelson já tinha dito, em 2002, em defesa da terceira via de Blair: “economicamente, somos todos thatcheristas”.

Estou muito longe do escândalo que tomou alguns deputados do Labour. Acho, aliás, que o texto de Starmer, apesar da sua confrangedora banalidade – inevitável quando decidimos ser subproduto de outros – na defesa da “terapia de choque” que impôs ao seu partido, de uma louvável honestidade. As suas únicas divergências com os conservadores, e apenas com parte deles, é a renegociação dos termos do Brexit e se a imigração se resolve com acordos com Ruanda ou com medidas um pouco menos desumanas. Talvez Thatcher subscrevesse as duas.

No essencial, a crítica aos conservadores é falharem na sua própria agenda. É isto que o Labour tem a oferecer: disputar aos conservadores o legado de Thatcher. Porque assume que esse é o único eleitorado em disputa. O resto está agrilhoado aos trabalhistas, sem outra alternativa política. É importante debater esta assunção orgulhosa de uma derrota histórica quando por aí anda uma discussão vazia sobre radicalismo.

Pedro Nuno Santos é radical por propor alguma coisa que não esteja alinhada com a agenda programática tradicional do Partido Socialista? Nada me ocorre. É radical por não ter apagado a “geringonça” do seu legado? Quem assim acha é cínico e pouco astuto. Cínico, porque quase todos (curiosamente, os maiores críticos da “geringonça”, que ficaram fora dela, apoiam o ex-ministro) deveram os seus lugares no governo a esse entendimento. A começar por José Luís Carneiro. Pouco astuto, porque ignoram que esses arranjo político sustentou o governo mais bem avaliado deste século que deixou excelentes memórias para os portugueses, reforçadas pela instabilidade da maioria absoluta. Quanto muito, o seu radicalismo terá a ver com questões de temperamento, relacionadas com a sua impulsividade. E aí, falta ao termo o rigor que o torne digno de debate.

A questão que interessa é a que abre este texto. Dois acontecimentos do último quartel do século XX marcaram a derrota da social-democracia (alguém distribua uns livros a alguns dos nossos “liberais”, para que saibam o que o termo significa): o papel de Thatcher (até com recurso à repressão) e Reagan na desregulação e financeirização da economia, que nos atira para crises cíclicas cada vez mais próximas e na desindustrialização do ocidente, que oferece as democracias à extrema-direita; e a queda do muro de Berlim, que retirou ao centro-esquerda (chame-se “social-democracia”, “socialismo democrático” ou “trabalhismo”) o lugar charneira no sistema político e ao Estado Social o papel de dique ao “perigo comunista”.

Depois destes dois acontecimentos, Blair, Schroeder e Clinton foram, curiosamente, aceleradores do processo de liberalização da economia global. Não foram apenas thatcheristas. Foram para lá de Thatcher. Só não tiveram de fazer o combate pela hegemonia ideológica neoliberal porque foram suas crias. O resultado é conhecido: depois de um domínio da Europa, a social-democracia, muitíssimo enfraquecida, resume-se a um vago apelo à decência social num terreno europeu cada vez menos favorável. Não foi derrotada, recorreu à eutanásia.

Este contexto levou a um desequilíbrio que favoreceu, naturalmente, a extrema-direita – com uma esquerda derrotada, do centro até à ponta, não há, ao contrário do que se tem dito, um crescimento dos “extremismos” na Europa. Porque sem a ala mais centrista, a esquerda ficou acantonada na resistência, tendo boa parte optado por resumir as novas conquistas à chamada agenda “identitária”, ela própria filha bastarda do liberalismo individualista. Porque a alternativa ao neoliberalismo passou a ser a sua versão musculada, só aparentemente social, que culpa os imigrantes e os mais pobres por todos os males. E porque o debate político se desequilibrou para a direita. Enquanto um social-democrata típico defendia, sem qualquer problema, a presença do Estado na economia, propor, hoje, que o Estado tenha uma presença em setores estratégicos indispensáveis é sinal de radicalismo. E não aceitar os dogmas do thatcherismo é ser um radical.

Qualquer tentativa de descolar disto é tratada como manifestação de radicalismo até chegarmos ao ponto de medidas de regulação do mercado da habitação em vigor em países com governos liberais serem “soviéticas” e “chavistas”. É isto que se faz num confronto pela hegemonia política: tornar excêntrico o centro, para o ocupar. Desse ponto de vista, os temas culturais são uma bênção, porque permitem que se tome como consensual o status quo económico, matando a política no que ela tem de mais fraturante – a distribuição dos recursos.

Nesta campanha, José Luís Carneiro tem servido de lebre para o que a direita vai fazer na campanha. É natural que ataque aquele que tem sido apontado como provável vencedor e que esse se dedique a atacar a direita. É o que fazem os que vão atrás e à frente. Mas ao escolher esta clivagem – e não apenas a impulsividade e alguns episódios do passado recente de Pedro Nuno Santos, por exemplo –, Carneiro contribui, conscientemente ou não, para retirar autonomia ideológica (e não tanto estratégica) ao Partido Socialista. Faz do que a direita tolera e não tolera a bitola da “moderação”. Torna excêntrica parte do centro-esquerda.

Carneiro acha que está em melhor circunstâncias para vencer eleições porque agrada mais a eleitores que nunca votariam no PS, pelo menos neste momento. Na realidade, depois de oito anos de poder, a primeira dificuldade dos socialistas será mobilizar os seus próprios eleitores. E isso faz alguém que lhes agrade mais – está aí a vantagem de Pedro Nuno Santos – mas, acima de tudo, que tenha alguma coisa mobilizadora para dizer.

A maior identificação com os eleitores do PS faz de Pedro Nuno Santos um radical? Se assim fosse, o debate poderia ser se o PS quer ser mais do que intérprete secundário da agenda de terceiros num país onde, ainda por cima, o centro-esquerda é liderante. Quem nos dera que o espaço de manobra que a nossa atual democracia permitisse uma polémica de espectro tão largo. Quereria dizer que a nossa democracia ainda nos oferecia muitas alternativas e que a extrema-direita não continuaria a ser destino do voto desistente.

Ganhe quem ganhar este fim de semana, o espartilho europeu inviabiliza programas verdadeiramente social-democratas e até a promoção de um capitalismo nacional que permita uma verdadeira industrialização e não a mera competição por via fiscal ou pela liberalização laboral. Seria preciso muitíssimo mais do que uma liderança mais à esquerda no PS para vencer os bloqueios europeus a uma agenda social-democrata ou apenas contrária ao neoliberalismo. Com a atual correlação de forças, Pedro Nuno Santos seria destruído em meses, se o tentasse.

Com o atual estado do debate mediático, Pedro Nuno Santos fará no País, se vencer a luta interna, o que fez no partido: ir buscar quem, à sua direita, lhe ofereça um certificado de moderação. E se vencer e houver uma maioria de esquerda, uma política diferente da dos últimos quatro anos exigiria uma correlação de forças semelhante à de 2015, permitindo que o líder do PS fosse o ponto de equilíbrio entre os partidos mais à esquerda e o centro. Não me parece um cenário previsível. E não são as lideranças que determinam estas coisas. Se fossem, António Costa nunca teria sido o obreiro do primeiro entendimento à esquerda em Portugal. São, antes de tudo, as circunstâncias.

A única coisa que faz de Pedro Nuno Santos um radical é aquilo que fez com que alguns poderes se indispusessem com ele: não dar a mão aos Alfredo Casimiro, David Neelman e Lacerda Machado desta vida. Infelizmente, e é neste ponto que estamos, o debate português não é sobre linhas ideológicas. É sobre o capitalismo rentista que ainda nos domina, seja por herança da ditadura, seja porque é o lugar que o modelo de concentração europeia nos reserva. Um modelo ancorado nas rendas de antigas empresas do Estado semi-monopolistas e, esgotado esse filão, na privatização de serviços públicos com procura inelástica, recebendo as devidas rendas do Estado.

Não sabemos se Pedro Nuno Santos terá o engenho e a competência para resistir a esta cultura política, sabendo que quem o faz tem mais dificuldade em conquistar o estatuto da “discreta competência” reservada aos que nunca compram guerras para nunca se magoarem. Mas o debate sobre o novo aeroporto, em que Luís Montenegro está refém de Arnaut e das rendas que Passos (e antes dele o PS) distribuíram a monopólios privados, dá centralidade ao tema. Mas nada disto tem a ver com radicalismo.

Talvez a única clivagem que ainda exista na militância do PS, para lá dos pequenos jogos de interesses pessoais que sempre movem os partidos de poder, até seja, em parte, geracional. Há uma geração que entrou para o PS depois da derrota histórica da social-democracia na Europa. Quer, no sentido metafórico do gesto, que o centro-esquerda não erga estátuas a Thatcher. Não que faça grande diferença quando aceita boa parte dos dogmas desde então instituídos. Mas que sobre um pouco de amor próprio, à falta de melhor. Basta ouvir quem elogia José Luís Carneiro e a quem ele quer agradar (chama “sociedade civil” ao aparato mediático) para perceber que é mesmo só disso que se trata: algum amor próprio. 

https://expresso.pt/opiniao/2023-12-14-Diretas-do-PS-algum-amor-proprio-a4ab06bd