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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Carlos Coutinho - Auschwitz I, II e III


Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945

 * Carlos Coutinho

Carlos Coutinho

10 h  · 

NÃO raro, dois grandes escritores italianos, um ateu e outro judeu, um célebre com o seu “A Lua e as Fogueiras” e outro com “É Isto Um Homem?”, um nascido em 1908 e chamado Cesare Pavese e outro em 1923 para ficar com o nome Italo Calvino, mas ambos sepultados em Turim, um guerrilheiro antifascista (partigiano) que passou um ano encarcerado no Sul da Itália (em Barcaleone, Reggio Calabria), suicidando-se em 1950, depois de escrever “Ofício de Viver”, e outro nascido nos arredores de Havana, Cuba, transitando para Siena em menino com seus os pais judeus e, pouco depois, enviado para o Sul da Polónia ocupada, como prisioneiro dos nazis em Auschwitz, onde viu e sofreu todos os horrores, até ser libertado pelo Exército Vermelho, em 1945.

De Cesare é forçoso anotar que nasceu em Santo Stefano Belbo no dia 9 de setembro de 1908 e faleceu em Turim a 9 de agosto de 1950, tinha eu uns inocentes 7 anitos menos 15 dias e muita energia duriense para a brincadeira aldeã com os outros miúdos de Fornelos. Comprometeu-se de corpo e alma na luta armada antifascista, o que lhe rendeu um pavoroso ano de cárcere no Sul da península. 

Nessa época, iniciou o seu diário “O Ofício de Viver” (Il Mestiere di Vivere”), uma autocrítica largamente desenvolvida em reflexões sobre a sua arte, os seus processos criativos e o sentido da existência da sua própria existência. 

Há que acrescentar que Pavese já não era um desconhecido quando, em 1936, publicou “Lavorare Stanca” (Trabalhar cansa), porque já havia dado à estampa vários estudos sobre casos da literatura norte-americana clássica e contemporânea, reunidos posteriormente num volume publicado postumamente em 1951 (La letteratura americana e altri saggi), além de se notabilizar como tradutor muito fiel de Daniel Defoe, Charles Dickens, Herman Melville, James Joyce, Sinclair Lewis, John dos Passos, Gertrude Stein e William Faulkner.

Legou ao mundo uma obra valiosíssima: “A lua e as fogueiras” (1958); “Antes que o galo cante” (1959); “O ofício de viver”, diário (1935-1950); “A guitarra quebrada”, romance (1960); “Entre mulheres sós” (196?); “O diabo sobre as colinas” (1962); “Férias de Agosto” (1965); “A Praia” (1965); “O Verão” (1965); “Terras do meu país” (1969); “O camarada” (1974); “Trabalhar cansa” (1998); e “Diálogos com Leucó” (2007).

Trabalhou com Italo Calvino na Einaudi, onde desempenhou um papel fundamental, como, aliás, o judeu que amparou e guiou, quando voltou da Provinz Oberschlesien, Regierungsbezirk Kattowitz, Landkreis Bielitz, a oeste de Cracóvia onde Hiter montou o complexo de campos de concentração de Auschwitz, abrangendo uma grande área industrial rica em recursos humanos e naturais. 

Havia um total de 48 campos no complexo. Os maiores eram Auschwitz I, Auschwitz II–Birkenau e Auschwitz III–Monowitz ou Buna, um campo de trabalhos forçados. 

O centro administrativo do complexo ficava em Auschwitz I, onde cerca de 70 mil pessoas morreram, na sua maioria polacos étnicos e prisioneiros soviéticos. 

Auschwitz II era o campo de extermínio ou Vernichtungslager, onde não menos 960 mil judeus, 75 mil polacos e 19 mil ciganos foram assassinados. Auschwitz III-Monowitz servia como campo de trabalho para a fábrica Buna-Werke, do conglomerado industrial IG. 

O escritor e químico Primo Levi, sobrevivente de um ano de confinamento em Auschwitz III-Monowitz e autor de “É isto um homem?”, livro de leitura angustiante sobre o que Primo viu no campo de extermínio industrializado que tinha sobre o portão de entrada “Arbeit macht frei” ( Trabalhar liberta).

A SS selecionava alguns prisioneiros, geralmente criminosos alemães, como supervisores com privilégios (os chamados kapos, alguns deles judeus que assim pensavam safar-se e minorar o sofrimento dos outros). Judeus e prisioneiros soviéticos eram geralmente os tratados da pior maneira. 

Todos os encarcerados tinham que trabalhar nas fábricas de armas associadas ao complexo, à exceção dos domingos, reservado para limpeza e banho. Dos primeiros 10 mil prisioneiros de guerra soviéticos internados, apenas algumas centenas deles sobreviveram aos cinco primeiros meses. 

No porão do bloco ficavam as celas da fome", onde os presos ficavam sem receber comida ou água, até que morressem. Aí ficavam também as celas escuras", que tinham apenas um pequeno espaço na parede para respirar e portas sólidas; os prisioneiros colocados nestas celas permanentemente na escuridão iam gradualmente sufocando à medida que o oxigénio ia rareando dentro delas. 

Às vezes, os guardas da SS acendiam velas para fazer o oxigénio acabar mais depressa; muitos dos ali aprisionados eram suspensos com as mãos amarradas para trás por horas ou mesmo dias, o que fazia que, com o passar do tempo, suas clavículas fossem deslocadas.

Em 3 de setembro de 1941, o subcomandante SS-auptsturmführer Karl Fritzsch fez uma primeira experiência bem-sucedida com 600 prisioneiros de guerra soviéticos e 150 polacos, trancando-os dentro de um dos porões do bloco 11 e gaseando-os com Zyklon-B um pesticida altamente letal à base de cianureto, com que a Bayer fez bom negócio.

Foi aí que finalmente começou a Solução Final para o problema judeu, o seu extermínio como povo que os israelitas agora tentam por outros meios concretizar na Palestina ocupada, especialmente na Faixa de Gaza. 

A primeira câmara de gás de Auschwitz era conhecida como a Pequena Casa Vermelha, uma pequena construção de tijolos convertida em instalação de gaseamento, que intensamente matou, a partir de março de 1942. Uma segunda construção, a Pequena Casa Branca, também foi convertida em câmara de gaseamento, algumas semanas depois.

No começo de 1943, estava eu para nascer, os nazis resolveram ampliar a capacidade de gaseamento em Birkenau. O crematório II, originalmente construído como câmara mortuária, com necrotérios no porão e fornos no mesmo nível do solo, foi convertido numa fábrica de assassinatos, colocando-se uma porta à prova de gás no necrotério e adicionando entradas para o Zyklon-B e aparelhos de ventilação para remover os cadáveres. 

Este sistema começou a funcionar em março. O crematório III foi construído para usar o mesmo método. Os fornos IV e V, planeados exclusivamente como centros de gaseamento, foram construídos na primavera-verão de 1943, dois meses antes do meu nascimento, já funcionavam plenamente. 

Os kapos e os Sonderkommandos eram prisioneiros com privilégios: os primeiros tinham a obrigação de manter a ordem nos alojamentos e os segundos preparavam os recém-chegados imediatamente selecionados para morrer – geralmente as crianças, os anciãos e os doentes – nas câmaras de gás, seguindo depois os seus corpos para os fornos. 

Os subcampos femininos foram construídos em Budy, Pławy, Zabrze, Gleiwitz I, II, III, Rajsko e Lichtenwerden. Eram chamados de Aussenlager (campo externo), Nebenlager (campo de extensão) e Arbeitslager (campo de trabalho).

No total, cerca de 7 mil membros das SS foram designados para servirem em Auschwitz durante toda a existência dos campos. A principal autoridade geral ali era o Departamento de Economia da SS, conhecido como SS-Wirtschafts-Verwaltungshauptamt ou SS-WVHA; dentro do WVHA, estava o Departamento D que comandava diretamente as atividades.

A Gestapo, que viria a dar aulas à nossa PIDE, também mantinha um grande escritório em Auschwitz, com funcionários e oficiais uniformizados. No seu corpo médico, Joseph Mengele deu cartas e fez experiências com intenção científica. 

Uma orquestra de prisioneiras, a Orquestra Feminina de Auschwitz, era forçada a tocar grotescamente uma música alegre, à medida que os prisioneiros passavam pelos portões a caminho do trabalho. Esta orquestra foi criada pela supervisora-SS do campo feminino, Maria Mandel que, pelas suas atrocidades, ficou conhecida como A Besta. A Bayer, então uma subsidiária da IG Farben, comprava prisioneiros de Birkenau para servirem de cobaias nos testes de novas drogas.

Heissmeyer, que considerava os judeus como animais de laboratório, comandava experiências em crianças e fez diversas experiências hdiondas, injetando bacilos vivos da tuberculose diretamente nos pulmões dos prisioneiros, na tentativa de conseguir uma vacina para a terrível doença que tantos europeus e asiáticos matou. 

No Julgamento de Nuremberga, o ex-comandante do campo entre 1940 e 1943, Rudolph Höss, declarou que Adolf Eichmann lhe tinha falado de 2,5 milhões de mortos, mas admite-se que tenham sido cerca de 4 milhões, nas contas do Museu Estatal de Auschwitz. 

Os negacionistas do Holocausto dizem que isso não passa de um mito. 

Várias indústrias alemãs construíram as suas fábricas na área, para aproveitarem o trabalho escravo proporcionado por Morowitz, criando os seus próprios subcampos, destacando-se, além da Bayer, a Siemens-Schuckert e a indústria de armamentos Krupp AG, dirigida por Alfried Krupp, um membro da família e carrasco SS. 

Uma “filósofa” judia, Hannah Arendt, que foi secretária e amante de um reitor nazi, Heidegger, foi proibida de entrar em Israel, porque, além do mais, inventou o conceito de “banalidade de mal” que absolve todos os beleguins hitlerianos, já que eles “se limitavam a cumprir ordens dos seus superiores”. 

Peço desculpa a quem foi lendo este apontamento até aqui chegar, porque talvez tenha sofrido tanto como eu a pesquisar e a reduzir ao mínimo possível o resultado das minhas irreprimíveis pesquisas. 

Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945

2024 12 19

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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Italo Calvino . A OVELHA NEGRA

SEXTA-FEIRA, 31 DE AGOSTO DE 2018


A propósito… “Havia um país onde todos eram ladrões.”

A OVELHA NEGRA

Havia um país onde todos eram ladrões. À noite, cada habitante saía com a gazua e a lanterna, e ia roubar a casa de um vizinho. Regressava de madrugada, carregado, e encontrava a sua casa vazia.
E assim todos viviam em concórdia e sem se lastimarem, pois um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por diante, até que se chegava ao último que roubava o primeiro. O comércio naquele país só era praticado como trapaça, tanto por quem vendia como por quem comprava. O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súbditos, e os súbditos por sua vez só se preocupavam em fraudar o governo. Assim a vida prosseguia sem tropeços, e não havia nem ricos nem pobres.

Não se sabe como aconteceu, mas neste país havia um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, ficava em casa a fumar e ler romances. Vinham os ladrões, viam a luz acesa e não entravam.

Essa situação durou pouco: pois foi preciso fazê-lo compreender que, se queria viver sem fazer nada, não era razão para impedir que os outros não trabalhassem, pois cada noite que ele ficava em casa era uma família que não comia no dia seguinte.

Diante desses argumentos, o homem honesto não se podia opor. E começou também a sair de noite para voltar de madrugada, mas não andava a roubar. Era honesto, não havia nada a fazer. Ia até à ponte ver a água a correr. Voltava a casa e encontrava-a vazia.

Em menos de uma semana o homem honesto encontrava-se sem um tostão, sem comida e sem nada em casa. Mas até aí tudo bem, porque era culpa sua; o problema estava em que o seu comportamento criava grande confusão. Porque se ele se deixava roubar e não roubava, havia sempre alguém que voltando para casa de madrugada, encontrava a casa intacta: a casa que o homem honesto devia ter roubado.

Deste modo, os que não eram roubados ficavam mais ricos que os outros e passaram a não querer roubar. E, além disso, os que vinham para roubar a casa do homem honesto encontravam-na sempre vazia; ficando cada vez mais pobres.

Entretanto, os que enriqueceram habituaram-se, eles também, a ir de noite até a ponte, para ver a água passar. Isso aumentou ainda mais a confusão, pois muitos outros ficaram ricos e muitos outros empobreceram.

Ora, os ricos perceberam que, indo de noite até à ponte, mais tarde ficariam pobres. E pensaram: “paguemos aos pobres para irem roubar para nós”. Fizeram contratos, estabeleceram-se salários, percentagens e, naturalmente, continuaram a ser ladrões procurando enganarem-se uns aos outros, mas como sempre acontece, os ricos tornavam-se cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

Havia ricos tão ricos que já não precisavam de roubar nem de mandar roubar para continuarem a ser ricos. Mas, se deixassem de roubar, ficariam pobres porque os pobres os roubariam. Então pagaram aos pobres entre os mais pobres, para defenderem os seus bens dos outros pobres, e assim instituíram a polícia e construíram as prisões.

Deste modo, poucos anos depois do aparecimento do homem honesto, não se falava de roubar ou de ser roubado, mas somente de ricos e pobres. E, no entanto, continuavam todos a serem ladrões.

Honesto, tinha havido aquele, mas que morreu de fome.
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A Ovelha Negra é um conto de Ítalo Calvino, extraído do livro Um general na biblioteca.l na biblioteca. 


http://aspalavrassaoarmas.blogspot.com/2018/08/a-proposito-havia-ais-onde-todos.html

sábado, 16 de outubro de 2010

AS CIDADES INVISÍVEIS - ÍTALO CALVINO (Carmen Montesino)

 a Sábado, 16 de Outubro de 2010 às 1:12

Depois de ter caminhado sete dias através de bosques, quem vai para Bauci não consegue vê-la e no entanto já lá chegou. São as finíssimas andas que se elevam do solo a grande distância umas das outras e se perdem acima das nuvens que sustêm a cidade. Sobe-se com escadotes. No chão os habitantes raramente se mostram: têm já tudo de que precisam lá em cima e preferem não descer. Nada da cidade toca o solo, à excepção daquelas pernas compridíssimas de fenicóptero em que assenta e, nos dias luminosos, uma sombra perfurada e angulosa que se desenha na folhagem.

Três hipóteses se põem sobre os habitantes de Bauci:

que odeiam a Terra;
que a respeitam a ponto de evitar qualquer contacto;
que a amam tal como ela era antes deles e com binóculos e telescópios apontados para baixo não se cansam de passá-la em resenha, folha a folha, pedra a pedra, formiga a formiga, comtemplando fascinados a sua própria ausência.
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Magritte, Rene (1898 - 196).
Le Château des Pyrénées (1959)
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3 pessoas gostam disto.
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Carmen Montesino
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http://www.youtube.com/watch?v=8VPTEfUVUL8
há 11 horas 
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Carmen Montesino 
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http://www.youtube.com/watch?v=JEgkJdSwidg
há 11 horas · 
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Victor Nogueira O meu primeiro encontro e "encanto" pelo Calvino foi com esses contos do fantástico "O Visconde Cortado ao Meio", "O Barão Trepador" e "Cavaleiro Inexistente". Adoro o Magritte e tenho uma foto que me tiraram a mim a a uma amiga minha em Vila Nova de Cerveira, debaixo duma escultura parecida com esta pedra :-)
há 11 horas · 
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Carmen Montesino Bom dia, Victor! Fiz uma pesquisa ... ; - )
há 2 horas ·
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Victor Nogueira Ah! Só agora reparei nos vídeos. Estava ainda a semi-a -d omir quando vi o presente videal. Grato pela gentileza adivinhal, que rima com divinal :-)
há 8 minutos ·
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Italo Calvino/Yann Tiersen- "Se infelice è l'innamorato.."

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furbetta7 | 2 de Setembro de 2009
"Se infelice è l'innamorato che invoca baci di cui non sa il sapore, mille volte più infelice è chi questo sapore gustò appena e poi gli fu negato." Italo Calvino

musica: Yann Tiersen, Goodbye Lenin - Mother -
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"A CIDADE E O CÉU" de Ítalo Calvino

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ma1408ma | 4 de Outubro de 2008

CONTRADIÇÕES do Centro de Ribeirão Preto.
- ENSAIO FOFOGRÁFICO/Set.2008 -
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Italo Calvinoo

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Leitura Partilhada.
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Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006
  ITALO CALVINO-BIOGRAFIA MINIMA
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O escritor italiano Italo Calvino não nasceu na Itália, mas em Santiago de Las Vegas, Cuba, a 15 de outubro 1923, onde seus pais estavam de passagem.

Passou sua infância em San Remo. Em 1941, matriculou-se na faculdade de agronomia de Turim, mas o desenrolar da II Guerra Mundial acabou levando Calvino a participar da resistência ao fascismo.

Em 1947, lançou sua primeira obra, Il Sentiero dei Nidi di Ragno, uma novela neo-realista inspirada em sua participação na Resistência Italiana e na luta dos partigiani. Na mesma linha é seu segundo livro, Ultimo Viene il Corvo.

São livros nos quais o pensamento da Resistência Italiana aparece em quase todas as páginas, com a narração de histórias que Calvino colheu durante sua participação nos conflitos. A forte influência do neo-realismo nos primeiros textos de Calvino se deve à predominância do movimento na Itália e à grande presença de autores como Cesare Pavese e Elio Vittotini, sem dúvida alguma os escritores mais significativos dos anos que vão de 1930 a 1950 (esta última data do suicídio de Pavese).

Ao final da II Guerra, Calvino foi morar em Turim, onde se doutorou em Letras com uma tese sobre Joseph Conrad. Em seguida, passou a trabalhar para o jornal comunista L'Unità, depois, trabalhou como editor da Eunadi.

É só a partir dos anos 50 que Calvino passa a escrever as obras que o tornariam famoso internacionalmente. Seus primeiros grandes sucessos são Visconde Partido ao Meio*, Cavaleiro Inexistente e O Barão nas Árvores*.

Estes livros podem ser compreendidos dentro de uma tendência que podemos chamar de reformística e fantástico-iluminista. Em Visconde Partido ao Meio, conta-se a história de um homem que acaba dividindo-se em dois: um totalmente bom, outro totalmente mau; em Cavaleiro Inexistente, narra-se a história de uma cavaleiro que não existe, em seu lugar há apenas uma armadura que se diz cavaleiro; em O Barão nas Árvores, o protagonista Cosimo de Rondò, depois de se revoltar com a obrigação de tomar uma sopa de escargots, passa a viver suspenso nos ramos das árvores, "no meio do caminho entre o céu e a terra, em ótima posição de ver e julgar", segundo nos diz Luperini, no Tomo II do seu Il Novecento.

Calvino cria nestes livros, segundo o professor Carmelo Distante, "um mundo fantástico onde os personagens vivem longe da realidade e da história, exatamente para subtraí-los aos condicionamentos deformantes que estas exercem".

Carmelo Distante afirma que Calvino inventa "um mundo onde não é possível realizar os sonhos e as esperanças, não restando outro caminho à razão eà fantasia que o contemplá-lo e observá-lo do alto se estas mesmas querem tomar consciência do como é feito e do porquê é feito desse modo".

Em 1956, Calvino se desliga do Partido Comunista e publica seu primeiro trabalho de literatura infantil, Quem Ficar Zangado Primeiro Perde. Neste livro o escritor também transforma a realidade em fábula. O (bom) humor é o objeto mágico central, que substitui as soluções tradicionais dos contos de fada, como árvores ou animais encantados.

O duplo sentido do título sugere a ironia maior de Calvino, que usa a estrutura dos contos maravilhosos para entreter as crianças. Em entrevista, Calvino declarou, certa vez, que escrever um texto "é um ato que deve obedecer a certas regras ou transgredi-las deliberadamente". Para ele, o aspecto lúdico e o humor são "metodologicamente necessários, pois colocam tudo em discussão, até o que se acabou de dizer".

De 1959 a 1966 ele editou, junto a Elio Vittorini, a revista de esquerda Il Menabò di Letteratura, que produziu uma seqüência de importantes debates sobre o papel dos intelectuais frente à crise das ideologias e sobre o problema específico da profissão de escritor.

Em 1972, publica o livro Cidades Invisíveis, no qual o veneziano Marco Pólo conta ao conquistador Kublai Khan todas as viagens que já havia feito. O livro é um desdobrar de territórios e uma viagem pelo reino da linguagem. Mostra a qualidade de um trabalho extremamente depurado que forma, ao final, uma metrópole atemporal e superpovoada de sentidos.

Calvino mostra em Cidades Invisíveis um império sem fim e sem forma, um domínio que se destrói e se reconstrói. São lugares que abrem, se bifurcam e nunca são iguais. Anastirma, Diomira, Dorotéia, Isaura, Maurília, Zaíra, Zenóbia e outras tantas.

Suas praças, ruas, vielas, pessoas gostos e cheiros que não podem ser representados totalmente no papel, ou na voz de Marco Pólo, o eterno estrangeiro."Se um viajante numa noite de inverno", publicado em 1979, é um dos mais elogiados romances de Calvino. Uma obra de ficção que empreende uma reflexão sobre a linguagem do romance, rastreando e ironizando as múltiplas direções da narrativa contemporânea. Em seu livro seguinte Palomar, publicado em 1983, Calvino afirma que "tudo aquilo que os modelos procuram modelar é sempre um sistema de poder; mas, se a eficácia do sistema se mede pela sua invulnerabilidade e capacidade de durar, o modelo se torna uma espécie de fortaleza cujas muralhas espessas ocultam aquilo que está fora".

Em seu livro Seis Propostas para o Próximo Milênio, onde há na verdade apenas cinco propostas, o escritor fala da leveza, da rapidez, da exatidão, da visibilidade e da multiplicidade."O mais das vezes, minha intervenção se traduziu por uma subtração do peso; esforcei-me por retirar peso, ora às figuras humanas, ora aos corpos celestes, ora às cidades; esforcei-me sobretudo por retirar peso à estrutura da narrativa e à linguagem."

O último livro de Calvino lançado no Brasil é Um General na Biblioteca, uma reunião de contos. Calvino morreu no dia 19 de setembro de 1985, na cidade de Siena, na Itália, aos 61 anos, de hemorragia cerebral. Italo Calvino é, talvez, o maior de todos os aprendizes de Borges. É, assim como seu mestre, um artesão das ilusões, incluindo a da originalidade. Deixou um legado que está além da delicadeza que marca suas obras.

Fez uma literatura que mostra ao leitor a maneira como foi feita, que mostra a sua natureza mágica, lúdica. A obra de Calvino não esconde os truques utilizados pelo autor. É uma literatura sincera, delicada e extremamente ágil. O que a aproxima de seu criador, pois Calvino foi, apesar das muitas mudanças na carreira e nas escolhas literárias, um humanista durante toda a sua vida, mantendo sempre uma postura ética e generosa.
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Renato Roschel
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Os titulos das traducoes em portugues de Portugal destes livros sao, respectivamente, "O Visconde Cortado ao Meio" e "O Barao Trepador"
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Joana