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sábado, 28 de dezembro de 2024

Crônicas Históricas · - Dados perturbadores da Idade Média

Ao visitar o Palácio de Versalhes em Paris, Nota-se que o sumptuoso palácio não tem banheiros. Na Idade Média, não havia escovas de dentes, perfumes, desodorizantes, e muito menos papel higiênico. Os excrementos humanos eram jogados pelas janelas do palácio. Em um feriado, a cozinha do palácio conseguiu preparar um banquete para 1500 pessoas. sem a mínima higiene.

Nos filmes atuais vemos as pessoas dessa época abanar ou abanar... A explicação não está no calor, mas no mau cheiro que eles emitiam sob as saias (que foram feitas de propósito para conter o cheiro das partes íntimas, pois não havia higiene). Também não era costume tomar banho devido ao frio e quase inexistência de água corrente. Só os nobres tinham lacaios para abaná-los. para dissipar o mau cheiro que o corpo e a boca expiravam, além de afugentar os insetos.

Aqueles que estiveram em Versalhes admiraram os enormes e belos jardins que, naquele momento, não só eram contemplados, mas usados como sanita nas famosas baladas promovidas pela monarquia, porque não havia banheiros.

Na Idade Média, a maioria dos casamentos ocorreram em junho (para eles, o início do verão). A razão é simples: o primeiro banho do ano era tomado em maio; então, em junho, o cheiro das pessoas ainda era tolerável. No entanto, como alguns cheiros já começaram a incomodar, as noivas levavam buquês de flores perto dos corpos para cobrir o fedor. Daí a explicação da origem do buquê de noiva.

Os banheiros eram tomados em uma banheira enorme cheia de água quente. O chefe da família teve o privilégio do primeiro banho em água limpa. Depois, sem trocar a água, chegavam os outros na casa, por ordem de idade, mulheres, também por idade e, finalmente, crianças. Os bebês eram os últimos a tomar banho. Quando chegava a sua vez, a água na banheira estava tão suja que era possível matar um bebê lá dentro.

Os telhados das casas não tinham céu e as vigas de madeira que os seguravam eram o melhor lugar para os animais: cães, gatos, ratos e escaravelhos mantivessem-se aquecidos. Quando chovia, as fugas obrigaram os animais a saltar para o chão.

Os que tinham dinheiro tinham pratos de lata. Certos tipos de alimentos oxidaram o material, fazendo com que muitas pessoas morram por envenenamento. Lembremos que os hábitos higiênicos da época eram terríveis. Os tomates, sendo ácidos, foram considerados venenosos por muito tempo, as xícaras de lata eram usadas para beber cerveja ou whisky; essa combinação, por vezes, deixava o indivíduo "no chão" (numa espécie de narcolepsia induzida pela mistura de bebida alcoólica com óxido de estanho).

Alguém que passasse na rua pensaria que ele estava morto, então eles recolhiam o corpo e preparavam-se para o funeral. Depois colocou o corpo na mesa da cozinha por alguns dias e a família ficava olhando, comendo, bebendo e esperando para ver se o morto acordava ou não. Daí que os mortos são velados (velatório ou velório), que é a vigília ao lado do caixão.  Inglaterra é um país pequeno, onde nem sempre havia lugar para enterrar todos os mortos. Depois abriam-se os caixões, removiam-se ossos, colocavam-se em ossários e o túmulo era usado para outro cadáver.

Às vezes, ao abrir os caixões, notava-se que havia arranhões nas tampas do interior, o que indicava que o homem morto tinha sido enterrado vivo. Assim, ao fechar o caixão, surgiu a ideia de amarrar uma tira do pulso do falecido, passar por um buraco feito no caixão e amarrá-la a um sino. Depois do enterro, alguém ficava de serviço perto do túmulo por alguns dias. Se o indivíduo acordasse, o movimento do seu braço tocaria o sino. E seria "salvo pela campanha", uma expressão usada por nós até hoje.

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terça-feira, 19 de março de 2024

Carlos Coutinho - Dá que pensar



* Carlos Coutinho

2024 03   PASSOU há dias pela Gulbenkian, em Lisboa, o corajoso historiador David Eltis que veio apresentar-nos o seu livro estarrecedor “Atlas do Comércio Transatlântico de Escravos”, o que prova que já há norte-americanos que não ignoram nem ocultam parte alguma do comportamento humano. 

   Escrito em coautoria com outro norte-americano, o historiador David Brion Davis, recentemente falecido, este livro revela números que dão para pôr um morto aos saltos na cova. 

   Nos 366 anos do tráfico legalmente admitido, ou seja, entre 1501 e 1867, atravessaram o Atlântico nada menos que 12 500 milhões de escravos, num dos “maiores crimes contra a Humanidade”. 

    Chegaram ao continente americano apenas uns 11 700 milhões, porque foram despejados para a água, por terem falecido durante a agrilhoada viagem, mais de 800 mil africanos, mercadoria maioritariamente transacionada no Golfo da Guiné por negreiros portugueses e espanhóis.

   Estive há anos num entreposto cabo-verdiano que foi assaltado algumas vezes por Sir Francis Drake e por outros corsários legalizados, franceses e holandeses. Trata-se de um espaço agora monumentalizado que fica na Cidade Velha, Ilha de Santiago. 

   Esse comércio hediondo, que também teve práticas generalizadas, embora muito menos lucrativas, em quase todo o resto do mundo,  rendeu tanto à coroa imperial ibérica que o rei Felipe II de Espanha e I de Portugal pôde importar da Itália cargas e cargas do branquíssimo mármore de Carrara para construir, ao lado do hipermercado de negríssimos escravos, uma basílica espaventosa que agora está em ruinas, mas ainda recebe sem qualquer relutância os turistas estrangeiros, mostrando-lhes até os muitos lagartos e relas que se refugiam na sombra escassa que há entre os arbustos. 

   Na presente versão portuguesa, este atlas macabro, com tradução de Helder Gregués e chancela da Universidade de Lisboa, estão 189 mapas criados a partir de mais de 30 mil viagens de navios negreiros onde Portugal surge como um dos grandes protagonistas do crime, ao lado da Espanha e, mais tarde, também da Grã-Bretanha, da Holanda e da França, etc., todos “ligados â geografia”, ou seja, “à mistura e colisão de povos, culturas e imperativos económicos pela ganância, império, correntes oceânicas e desejo de converter os corpos  dos humanos em culturas comerciais”.

   Convenhamos que esta é uma forma um pouco arrevesada de trazer à baila o assunto, mas salta à vista que não lhe falta a razão.

   É pena faltar o ponto que localizaria Cabo Verde neste mapa, o sítio em que está escrito 1560 - 1866

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Os Últimos do Estado Novo, por José Pedro Castanheira

 

 


 * Mário Beja Santos


O jornalista José Pedro Castanheira, com uma notável carreira profissional, explica de forma meridiana na apresentação deste seu livro a essência de Os Últimos do Estado Novo, Tinha da China, 2023:

“Já reformado, a organizar o meu arquivo, verifiquei, com algum espanto, que tivera oportunidade de conhecer e fazer um trabalho jornalístico com e sobre alguns dos principais derrotados do 25 de Abril – o último diretor da Censura, o último presidente do Partido Único, o último responsável pelo campo de concentração do Tarrafal, os membros do último Governo da ditadura, o último secretário particular de Marcello Caetano, o seu último porta-voz. Paralelamente, tivera o ensejo de fazer reportagens em torno de episódios e acontecimentos marcantes, precisamente por terem sido os últimos do género a ocorrer durante a ditadura: o último deportado, os últimos presos políticos, a última entrevista concedida por Oliveira Salazar. E pensei que faria sentido reunir todos estes trabalhos e publicá-los em livro.” E faz comentários sobre a natureza de entrevistas e entrevistados, ficam algumas pontas de mistério, seguramente não haverá resposta para o conteúdo da documentação que Alexandre Carvalho Neto, secretário pessoal de Marcello Caetano, destruiu na residência de S. Bento, no cumprimento das instruções dadas pelo deposto presidente do Conselho de Ministros. E o leitor que se prepare para uma viagem que tem pouco de nostálgica, permite um sem número de clarificações e, impressão minha, da própria sensibilidade manifestada pelos entrevistados, há mais reconciliação que ressabiamento pelo fim do regime ditatorial.

Eduardo Vieira Fontes, diretor do “campo de trabalho” do Tarrafal, abre as hostilidades, um cabo-verdiano que nunca quis a nacionalidade cabo-verdiana, que guarda recordações amenas de Amílcar Cabral e do seu trabalho em Angola, que considera ter agido com elevado sentido do dever no Tarrafal, reaberto em 1961, a PIDE criticava muitos dos seus procedimentos para com os presos, durante a entrevista mostra testemunhos de detidos, francamente favoráveis para a maneira como conduzia a vida no campo. “Nunca mais voltou a Cabo Verde, mas vinha quase todos os anos a Portugal. Faleceu nos EUA, em East Providence, em 9 de novembro de 2021, escassos meses após a morte da mulher. Tinha 99 anos.”

Não menos interessante é a reportagem sobre os últimos presos políticos, tudo se passou em abril de 1974, ficamos a saber quem e porquê foi detido. O mesmo se dirá do último Governo da ditadura, há para ali aspetos curiosos de escolhas de ministros e secretários de Estado, e há o depois do 25 de Abril. Pedro Feytor Pinto, que teve uma intervenção direta nos acontecimentos do 25 de Abril dá-nos as suas impressões sobre aspetos da governação de Marcello Caetano, o seu relacionamento com os liberais, os bastidores da oposição ao Governo dentro do regime, o que se passou depois da queda da ditadura. Não deixa de causar estranheza certas afirmações de Alexandre Carvalho Neto, foi secretário particular de Marcello Caetano e antes ocupara um cargo semelhante junto de Spínola na Guiné, não só diz inverdades como destrata quem não se pode defender, isto quanto à Guiné. Que antes de Spínola havia a iminência de uma derrota militar, que Schulz foi destituído e que ainda regressou a Bissau para empacotar os serviços de prata do Palácio de Bolama. Acontece que a guerra não estava perdida nessa época (1968), que Schulz não foi demitido, cumprira quatro anos na governação e como comandante-chefe e interrogo-me como era possível um governador trazer pratas de um palácio que estava em ruínas, fora abandonado em 1941, impensável deixar ali pratas, enfim, tricas com uma pontinha de maledicência, resta saber para quê. E ficamos a saber que ajudou Marcello Caetano a instalar-se no Rio de Janeiro.

O leitor jamais ficará dececionado com este repositório de entrevistas onde iremos ver discorrer Elmano Alves, o presidente da última comissão executiva da Ação Nacional Popular, Mário Bento Soares, o último diretor da Censura, o autor entrevistará o jornalista francês Roland Faure que entrevistou Salazar quando este já não era o homem todo-poderoso e vivia debilitado em S. Bento, a Censura cortou a entrevista, para o regime marcelista era totalmente inaceitável que os nostálgicos ouvissem Salazar dizer coisas como: “Conheço bem Marcello Caetano. Foi várias vezes meu ministro e aprecio-o. Ele gosta do poder: não para retirar quaisquer benefícios pessoais ou para a família; é muito honesto. Mas gosta do poder pelo poder. Para ter a impressão exaltante de deixar a sua marca nos acontecimentos. É inteligente e tem autoridade, mas está errado em não querer trabalhar connosco no Governo. Porque, como sabe, ele não faz parte do Governo.”

O leitor será confrontado com o relacionamento de Salazar com o major Silva Pais, o último diretor da PIDE, as matérias que tratavam, as informações que a PIDE fazia chegar a Salazar não só sobre acontecimentos internos como internacionais, fica perfeitamente claro que o ditador soube do assassinato do general Humberto Delgado com todos os pormenores, dando depois em discurso uma versão totalmente descabelada, atribuindo a tensões entre oposicionistas, atribuindo à oposição o crime. Iremos ler os acontecimentos da deportação de Mário Soares em S. Tomé e Príncipe. E o livro termina com uma reportagem de acontecimentos muito pouco conhecidos e praticamente não tratados pela historiografia, os sindicatos corporativos, afetos por natureza ao regime, mas que estavam em ebulição e mesmo em rutura com o então subsecretário das Corporações não só dado o agravamento do custo de vida, como os penosos horários de trabalho e salários bloqueados. Iremos viajar ao último plenário destes sindicatos, haverá reuniões com Salazar e uma reunião desse plenário no Coliseu dos Recreios. É nesse plenário que os dirigentes sindicais divulgarão o teor de uma mensagem entregue a Salazar a que o ditador fez 23 cortes e alterações no texto que lhe entregaram. O ditador será sócio honorário de 300 sindicatos. E diz-se no último plenário dos sindicatos corporativos por que a máquina corporativa sofrerá alterações de fundo com o fim da Segundo Guerra Mundial e com a agitação política trazida pelo Movimento de Unidade Democrática. Gota a gota, elementos de oposição irão infiltrando-se nos sindicatos, a aliança com a governação irá desaparecer.

Esta coletânea de entrevistas é uma preciosidade, ajuda a compreender mentalidades dominantes do salazarismo e do marcelismo e como a ditadura não ofereceu resistência a quem vinha trazer as liberdades, o desejo de viver em democracia e pôr fim à inconsequente guerra colonial.

 

                                                                                    Mário Beja Santos

Publicada por Malomil à(s) 12.1.24 

 

https://malomil.blogspot.com/2024/01/os-ultimos-do-estado-novo-por-jose.html 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Annie Lacroix-Riz: “Há um contexto histórico que explica o encurralamento da Rússia”

Annie Lacroix-Riz: 

03.06.22

Annie Lacroix-Riz escreveu vários livros sobre as duas guerras mundiais e as dominações políticas e económicas. Nesta entrevista, analisa a situação na Ucrânia à luz da história dos imperialismos do início do século XX e da sua perduração. Com efeito, o que nos é dito, vezes sem conta, nos meios de comunicação social, não nos permite compreender o conflito e, por conseguinte, impossibilita-nos de procurar uma solução para a paz. Nesta entrevista, Annie Lacroix-Riz oferece um olhar para além do que é aparente, o qual é extremamente útil para entender os acontecimentos e a história recente da região. 

Professora Emérita de História Contemporânea da Universidade Paris VII-Denis Diderot, Annie Lacroix-Riz escreveu vários livros sobre as duas guerras mundiais e as dominações políticas e económicas. Nesta entrevista, analisa a situação na Ucrânia à luz da história dos imperialismos do início do século XX e da sua perduração. Com efeito, o que nos é dito, vezes sem conta, nos meios de comunicação social, não nos permite compreender o conflito e, por conseguinte, impossibilita-nos de procurar uma solução para a paz. Nesta entrevista, Annie Lacroix-Riz oferece um olhar para além do que é aparente, o qual é extremamente útil para entender os acontecimentos e a história recente da região.



Nos meios de comunicação social, fica-se com a impressão de que a guerra na Ucrânia aconteceu a partir do nada. O que nos pode dizer sobre o contexto histórico desta guerra?

Em primeiro lugar, os elementos históricos estão praticamente ausentes daquilo que nos é frequentemente descrito como uma "análise" da situação. No entanto, há dois aspetos importantes a ter em conta nos acontecimentos atuais. Em primeiro lugar, existe uma situação geral, ou seja, uma agressão da NATO contra a Rússia. Depois, há uma espécie de obsessão contra a Rússia – e até contra a China. Esta obsessão não é nova e, portanto, permite relativizar o atual frenesim anti-Putin. A essência da alegada "análise ocidental" assenta na ideia de que Putin é um lunático paranóico e/ou um novo Hitler. Mas o ódio contra a Rússia, assim como o facto de não se suportar que esta possa ter um papel mundial, são tão velhos quanto o imperialismo americano.

 

Como é que explica esta obsessão?

É uma obsessão característica de um imperialismo dominante que foi hegemónico durante, praticamente, todo o século XX. Este imperialismo não quer perder a sua hegemonia, ainda que, na realidade, a esteja a perder. Com efeito, hoje já não estamos na mesma situação em que estávamos na década de 1950, quando os Estados Unidos representavam 50% da produção mundial. A China está a aproximar-se do primeiro lugar, no mundo, e isso não agrada aos Estados Unidos. Nos últimos anos, atingimos um momento particularmente agudo neste confronto, marcado por uma série de ataques surpreendentes.

Neste confronto, a Rússia também é um alvo. Temos a impressão de que haveria uma espécie de rancor contra os bolcheviques, mas é preciso saber que esta Russofobia do imperialismo americano remonta à era czarista, e continuou depois, incluindo após a dissolução da União Soviética. Os compromissos assumidos pelos Estados Unidos de não avançar militarmente na zona ex-soviética foram, desde então, todos violados. De 1991 a fevereiro de 2022, a NATO estabeleceu-se nas fronteiras da Rússia  e a nuclearização da Ucrânia tornou-se numa realidade imediata.

 

Qual é o lugar da Ucrânia nos conflitos entre potências imperialistas?

A Ucrânia é inseparável da história da Rússia, desde o início da Idade Média. A Rússia, com toda a sua riqueza natural, é uma gruta de Ali Baba e a Ucrânia foi a sua mais bela jóia: é uma fonte extraordinária de carvão, de ferro e de tantos outros recursos minerais, e um formidável depósito de trigo e de outros cereais - o que, aliás, atraiu a cobiça de muitos, desde há muito tempo. Para nos mantermos no período imperialista (desde a década de 1880), podemos dizer que foi a Alemanha que, num primeiro momento, se interessou pela Ucrânia. Antes da guerra de 1914, o Reich alemão tinha decidido, a fim de controlar o Império Russo, garantir o controlo dos seus "mercados" mais desenvolvidos: a Ucrânia e os Estados bálticos. Durante o conflito, a Alemanha fez destes Estados e da Ucrânia um verdadeiro reduto militar, a base do seu ataque ao Império Russo. Durante a Primeira Guerra Mundial, se a Alemanha falhou na Frente Ocidental, logo em 1917, o mesmo não se pode dizer da Frente Oriental, a qual foi dominada pela Alemanha até à sua derrota. E, apesar de, desde janeiro de 1918, a recém-soviética Rússia estar a sofrer uma agressão adicional de todas as outras potências imperialistas (14 países invadiram a União Soviética, sem que tenha havido uma declaração de guerra), Berlim conseguiu impor-lhe, em março de 1918, o Tratado de Brest-Litovsk, confiscando-lhe a Ucrânia. A derrota da Alemanha no final da Primeira Guerra Mundial não fez com que a Ucrânia fosse devolvida à União Soviética, dada a guerra travada no seu solo pelos "Aliados", apoiada por todos os elementos anti-bolcheviques, russos e ucranianos.

 

A Ucrânia conheceu, então, uma curta independência...

De 1918 a 1920, houve, de facto, um curto período de "independência" folclórica, tendo como pano de fundo a agressão dos exércitos brancos (pogromistas) de Denikin, e do pogromista Petlyura, oficialmente "independentista" e aliado da Polónia (que pretendia, para si, toda a Ucrânia ocidental). A Ucrânia continuou, então, a ser alvo do Reich, o qual sucedeu ao império austríaco, depois "austro-húngaro" dos Habsburgos (possidentes da Galicia oriental, a oeste da Ucrânia, depois de dividida a Polónia[i]). Esta tutela germânica constituiu, assim, desde o tempo dos Habsburgos, uma base preciosa para o enfraquecimento da Rússia e do Eslavismo Ortodoxo, tendo-se baseado, sobretudo, no Uniatismo[ii], liderado pelo Vaticano.

 

Que papel tinha o Vaticano?

O Uniatismo Católico constituiu o apoio ideológico da conquista germânica, tendo seduzido parte das populações do oeste da Ucrânia, graças à sua aparência formal, muito próxima da Ortodoxia. Este instrumento da conquista austríaca foi tomado em mãos pela Alemanha, na era imperialista: o Vaticano, compreendendo que já não podia contar com o moribundo império católico, submeteu-se, definitivamente, ao poderoso Reich protestante, no início do século XX, incluindo na Ucrânia. No período entre-guerras, a Ucrânia desempenhou, assim, um papel decisivo na aliança entre a Alemanha e o Vaticano, a quem Berlim confiou a espionagem militar, realizada através dos clérigos uniates. Podemos observar, deste modo, como foi organizada a tentativa de conquistar a Ucrânia, consagrada, aliás, na Concordata do Reich de julho de 1933, assinada entre Berlim e o Vaticano. Um dos seus dois artigos secretos estipulava que a Alemanha e o Vaticano seriam aliados na tomada de posse da Ucrânia, que era um dos principais objetivos da guerra da Alemanha, tanto durante a Primeira Guerra Mundial, como durante a Segunda Guerra Mundial. Enquanto a militarização, a ocupação e a exploração económica estariam sob a alçada da Alemanha, a "recristianização" católica seria entregue ao Vaticano.

 

Os Estados Unidos também estavam interessados…

A Ucrânia é, não apenas um elemento importante no quadro mundial, como a porta de entrada para o Cáucaso, rico em petróleo. Os Estados Unidos juntaram-se ao imperialismo alemão para penetrar na Rússia e, em especial, na Ucrânia, após o fim da Primeira Guerra Mundial. Em 1930, todos os imperialismos sonhavam em devorar a rica Ucrânia. No meu livro Aux origines du carcan européen [Sobre as Origens do Colete-de-Forças Europeu], mostrei como Roman Dmovski, um político polaco de extrema-direita, tinha analisado na perfeição, em 1930, "a questão ucraniana". Roman Dmovski escreveu que todos os grandes imperialismos queriam devorar a Ucrânia, sendo que, no topo, dois se atarefavam febrilmente para o conseguir: o alemão e o americano. Este autor disse, também, que, se a Ucrânia fosse arrancada da Rússia, tornar-se-ia num país puramente "consumidor", obrigado a comprar os seus produtos industriais fora. Ela nunca poderia suportar tal perda, acrescentou.

 

Isso não funcionou, pois a Ucrânia continuou no seio da União Soviética. Ainda assim, havia, ou não, um nacionalismo ucraniano?

O nacionalismo ucraniano foi, primeiro, alemão e, depois, americano (ou melhor, ambos), porque não tinha capacidade real de independência: o Reich financiou-o antes de 1914, e nunca mais cessou de o fazer. Na verdade, estas pessoas que diziam querer uma Ucrânia "independente" (como Bandera e os seus seguidores) pertenciam ao inatismo que, no período entre-guerras, e durante toda a Segunda Guerra Mundial, se confunde com o nazismo.

É difícil não fazer a ligação com estes movimentos que hoje encontramos: o batalhão Azov, Pravy Sektor, etc., são os herdeiros diretos que se reivindicam do movimento autonomista ucraniano do período entre-guerras, que viu a criação, em 1929, do movimento banderista. Denominado "Organização dos Ucranianos Nacionalistas" (OUN), foi inteiramente financiado pelo Reich de Weimar e, depois, por Hitler (depois de o "autonomismo" ter sido subsidiado pelo Reich wilhelminiano).

 

Como é que este movimento se desenvolveu?

O movimento de Stepan Bandera, o agora "herói nacional" oficial do Estado ucraniano, e ao qual o batalhão Azov e outros grupos pró-nazis constantemente prestam homenagem, desenvolveu-se a partir de 1929, na Ucrânia polaca e na Ucrânia eslovaca. Não estava, contudo, presente na Ucrânia soviética e ortodoxa. Os "banderistas", como as outras correntes do "nacionalismo ucraniano", eram anti-judeus, anti-russos e, também, violentamente anti-polacos. Atacavam de forma igualmente radical ucranianos não-autonomistas e ucranianos que tinham permanecido próximos da Rússia.

Estas bandas de auxiliares da polícia alemã, já em 1939, na Polónia ocupada, e, depois, a partir de 22 de junho de 1941, na URSS ocupada, formaram um autodenominado “exército de insurreição”, a UPA. Estes 150.000 a 200.000 criminosos de guerra massacraram, indiscriminadamente, centenas de milhares dos seus "inimigos": judeus, ucranianos leais ao regime soviético, russos e polacos, os quais odiavam indistintamente. Tomando, apenas, o exemplo dos polacos, é importante referir que entre 70.000 e 100.000 civis foram mortos pelas milícias banderistas, durante a guerra. O argumento de propaganda popular de que o Estado polaco acolheu calorosamente os "vizinhos" ucranianos, sentimentalmente tão perto, é, à luz desta longa história criminosa (iniciada antes da guerra), grotesco.
Em 1944, quando a União Soviética recuperou o controlo de toda a Ucrânia, incluindo Lvov (em julho), 120.000 destes criminosos de guerra fugiram para a Alemanha. Os Estados Unidos usaram-nos, ao chegar, na primavera de 1945.
Um livro sobre o assunto, disponível online em inglês, Hitlers Shadow, foi publicado por dois historiadores americanos. É ainda mais interessante é o facto de os seus dois autores serem historiadores acreditados pelo Departamento de Estado, com quem trabalham oficialmente sobre a história do extermínio dos judeus: Richard Breitman e Norman J.W. Goda. Estes autores mostram como os Estados Unidos, assim que chegaram à Alemanha, na primavera de 1945, recuperaram todos os criminosos de guerra, alemães ou não. Alguns dos banderistas permaneceram na Alemanha, nas zonas ocidentais, principalmente na zona americana, sobretudo em Munique. Outros banderistas foram recebidos de braços abertos nos Estados Unidos, através da CIA, em detrimento das leis de imigração, enquanto outros permaneceram na Ucrânia Ocidental.

Este último grupo, com dezenas de milhares de homens, travou uma guerra inexpidável contra a União Soviética: entre o verão de 1944 e o início da década de 1950, assassinou 35.000 funcionários civis e militares, com o apoio financeiro alemão e americano, o qual foi particularmente elevado em 1947-1948. Um excelente historiador germano-polaco, Grzegorz Rossolinski-Liebe, demonstrou que o banderismo continua a ser, hoje, um terreno de reprodução pró-nazi inextinguível: os inúmeros herdeiros de Bandera têm igual ódio por polacos, russos, judeus e ucranianos que não são fascistas. Escusado será dizer que este investigador tem tido grandes problemas de censura, desde a Revolução Laranja de 2004, e, sobretudo, na era Maidan, especialmente desde que estudou como, desde 1943, os banderistas fabricaram a lenda de "resistência aos nazis", tal como a vermelhos e judeus. Uma lenda muito útil para que aqueles grupos possam ser incluídos na lista de grupos "democráticos", apoiados por Washington.

 

Quais foram as consequências desta colusão?

Entre os criminosos de guerra calorosamente acolhidos pelos Estados Unidos, os intelectuais tiveram um acolhimento particular. Desde 1948, foram recrutados em grande número por universidades americanas, sobretudo as da Ivy League, incluindo Harvard e Columbia. Nos "Centros de Investigação sobre a Rússia", que proliferam desde 1946-1947, aqueles intelectuais participaram, juntamente com os seus prestigiados colegas americanos, numa frenética guerra ideológica contra a Rússia. É neste contexto que é difundida a lenda do "Holodomor", cujas aventuras pontuaram, desde então, as etapas decisivas da conquista da Ucrânia. Esta "investigação" e este "ensino", implantados há mais de 70 anos, e espalhados massivamente, com a ajuda dos principais meios de comunicação social, ao longo de décadas na Europa americana, literalmente "apodreceram" os conhecimentos "ocidentais" sobre a história da Ucrânia (e, mais amplamente, sobre a da URSS).

Os apoios políticos do Euromaidan, avatar destas inúmeras revoluções coloridas dos últimos vinte anos, formaram a espinha dorsal de 2014, fazendo uma aliança com oligarcas que, desde 1991, monopolizam toda a riqueza da Ucrânia. Note-se que este tipo de saque não é exclusivo da Rússia de Putin, sendo observado em quase todos os países da ex-União Soviética. Na Ucrânia, os oligarcas confiaram nestes elementos herdeiros do banderismo. O Estado ucraniano de Poroshenko e os seus sucessores, desde 2014, confiaram abertamente nestes movimentos nazis que os Estados Unidos alimentaram, incansavelmente, desde 1944-1945.

Os Estados Unidos tinham como programa explícito, codificado em junho de 1948, no âmbito da CIA, a liquidação, pura e simples, não só da zona de influência soviética, mas o próprio Estado soviético. Foi sob a administração democrata que foi posta em prática a política de repulsão ou de "retrocesso", com o objetivo de esmagar o comunismo onde quer que fosse que este se encontrasse instalado (e impedindo-o de se instalar em zonas de influência americana). Como uma série de trabalhos históricos têm demonstrado, incluindo o trabalho de investigadores americanos com uma forte ligação ao aparelho de Estado, e muito antissoviéticos, este programa foi definitivamente implementado pela CIA, desde o seu nascimento, em julho de 1947.

Podemos compreender a sua extensão graças ao texto de fevereiro de 1952 de Armand Bérard, um diplomata francês, em Bona, a quem cito em Aux origines du Carcan européen. Bérard profetizava que a Rússia, tão enfraquecida pela guerra alemã travada contra ela, entre 1941 e 1945 (27 a 30 milhões de mortos, com a URSS da Europa devastada) capitularia sob os golpes dos Estados Unidos e da Alemanha de Adenauer, oficialmente perdoado pelos seus crimes e rearmado até aos dentes. Moscovo acabaria por ceder toda a Europa Central e Oriental, que era a sua "zona de influência" e que tinha sido alvo de "mudanças fundamentais, de natureza democrática, que, desde 1940, ocorreram na Europa de Leste".  Estas são as palavras deste diplomata "ocidental". E a data de 1940 refere-se à então sovietização dos Estados bálticos e de uma parte da Roménia e da Polónia, cada um destes países mais fascista do que o outro.

 

Foi, no entanto, necessário, esperar alguns anos.

Depois de 1945, este tipo de projeto exigia tempo, uma vez que o governo soviético era menos antipático aos olhos do seu povo, assim como dos povos vizinhos, do que a história de propaganda "ocidental" nos quer fazer crer. Mas foi conduzido com uma notável continuidade e enormes meios financeiros. Toda a população foi visada, ainda que tenha sido dada uma especial atenção ao Estado e às elites intelectuais do país, as quais cconstituíam uma questão prioritária, procurando-se separá-las do Estado soviético. O esforço acelerou-se consideravelmente após a vitória dos EUA de 1989, e com uma maior eficiência, num momento em que a Rússia conhecia uma década de decadência total. Recorde-se que, sob Ieltsin, as potências estrangeiras, com os Estados Unidos em primeiro lugar, impuseram a sua lei, a economia russa foi vendida por um nada e entrou em colapso, a população caiu 0,5% por ano (de forma especialmente dramática na Sibéria e no Extremo Oriente), sendo que, em 1994, a esperança de vida da população russa diminui drasticamente (de quase dez anos, para os homens).

Durante estes anos, o trabalho de formiga germano-americano, que Breitman e Goda descreveram para os anos 1945-1990, obviamente que se intensificaram. Certamente, a National Endowment for Democracy (NED), querida a Victoria Nuland, a eminência das administrações Bush e, depois, de todos os seus sucessores democratas, Biden incluído, acaba de apagar do seu site os seus ficheiros de financiamento, até agora públicos (pelo menos, em parte), da secessão da Ucrânia e da sua inserção no aparelho de agressão contra a Rússia. Mas o site do Departamento de Estado não censurou as declarações, de 13 de dezembro de 2013, da Subsecretária de Estado Nuland, a senhora das boas obras de Maidan, tão presente em Kiev em fevereiro de 2014, perante o Congresso: Nuland orgulhosamente declarou que, desde a queda da URSS (1991), os Estados Unidos tinham investido mais de 5 mil milhões de dólares para ajudar a Ucrânia. Tratava-se, naturalmente, de assegurar o controlo definitivo da agricultura e da indústria ucraniana, o objetivo final desta longa cruzada. Mas também trazer este país para a NATO, da qual são membros quase todos os países da antiga zona de influência soviética e várias das antigas repúblicas soviéticas. Isto foi admitido há muitos anos. Isto foi, aliás, claramente reafirmado pela “Carta de Parceria Estratégica EUA-Ucrânia”, assinada em 10 de novembro de 2021 pelo Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba: o seu conteúdo consta, aliás, da redação da "Resolução de 16 de dezembro de 2021 sobre a situação na fronteira ucraniana e nos territórios da Ucrânia ocupados pela Rússia", orgulhosamente exibida pelo Parlamento Europeu, em Estrasburgo.

A partir de então, tornava-se necessário colocar Moscovo a, pelo menos, 5 minutos das bombas atómicas armazenadas, desde as origens do Pacto Atlântico (por vezes, desde o início dos anos 50), nos países membros da NATO. Bastava exacerbar a disputa da miséria infligida pela Ucrânia de Maidan ao povo de Donbass, em flagrante violação dos acordos de Minsk. Sobre estas misérias e sobre a violação dos acordos de que Paris e Berlim foram "garantes", a propaganda ocidental manteve-se silenciosa de 2014 a fevereiro de 2022.
A conjuntura histórica e os desenvolvimentos desde 1989, seriamente agravados desde 2014, têm encurralado a Rússia. Todos os observadores razoáveis apontam que a Rússia iniciou a guerra contra a Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, uma vez entrincheirada contra a sua vontade. Este passo faz lembrar o que a União Soviética deu no final de 1939.

 

O que quer dizer com isso?

Este é um elemento essencial. No final de 1939, a União Soviética tentou, com sinceridade, negociar com a Finlândia, apresentada pelos arquivos históricos e militares como um aliado puro e simples da Alemanha Nazi. Desde 1935, esta última havia instalado, na Finlândia, uma série de aeródromos militares e de bases para atacar a URSS - que, na realidade, foram cedidas à Alemanha, tendo sido, de facto, usadas,  durante a guerra de agressão alemã à URSS. Moscovo falou, em vão, durante semanas, com a Finlândia, anteriormente parte do Império Russo, mas que em 1918-1919 se havia tornado num país-chave do "cordão sanitário" anti-bolchevique. Os soviéticos pediram-lhe que trocasse parte do seu território, para criar uma zona tampão de defesa sólida em torno de Leningrado, por um território maior (soviético). As discussões falharam, sob pressão da Alemanha e de todos os países "democráticos" que, como um diplomata fascista italiano declarou na altura, sonhavam com uma "Aliança Sagrada" geral contra os soviéticos.

A URSS invadiu a Finlândia em 30 de novembro de 1939. Teve, então, de enfrentar uma propaganda do mesmo tipo daquela que, atualmente, é difundida, assim como sanções (incluindo uma exclusão da Liga das Nações, unanimemente acordada em 14 de dezembro). Tratava-se, no discurso em vigor, de combater o monstro soviético e de proteger a pobre Finlândia, e o Vaticano do pró-nazi Pio XII ficou tão incomodado como o atual papa com os "rios de sangue" ucranianos. A "guerra de Inverno", num país-chave do "cordão sanitário", no qual a população tinha sido "preparada" incansavelmente contra o comunismo e a URSS, durante mais de vinte anos, foi terrível.

Com dificuldade, o Exército Vermelho conseguiu derrotar a Finlândia. Em 12 de março de 1940, o acordo alcançado deu a Helsínquia exatamente o que Moscovo havia proposto em 1939 - o que, sem dúvida, permitiu proteger Leningrado da invasão. É significativo que a atual campanha de propaganda pregue o longo período de neutralidade que a Finlândia no pós-guerra observou, isto, contudo, depois de a Finlândia pró-nazi, como se esperava, ter feito a guerra ao lado da Alemanha.

 

Isto relembra, então, a situação atual da Ucrânia?

Sim, se nos cingirmos a factos históricos, e não nos limitarmos a dizer que estamos perante um monstro louco. Leio, hoje, em petições ou em jornais de referência, que Putin está a incendiar e a incitar um derramamento de sangue numa Europa, até agora, calma e tranquila. Mas não ouvimos estes intelectuais, recrutados maciçamente pela imprensa mainstream, e revoltados contra o "novo Hitler", manifestarem-se contra as centenas de milhares de mortes dos bombardeamentos americanos e europeus no Iraque, na Líbia, no Afeganistão, na Síria. As mesmas pessoas que amaldiçoam Putin acharam magníficos os 78 dias de bombardeamentos contra Belgrado e contra o "novo Hitler", Milosevic. A comparação, refira-se, tem sido aplicada a todos os "inimigos" que o Ocidente forjou, desde a nacionalização de Nasser do Canal do Suez.

Também não me lembro de nenhuma importante indignação destes novos anti-nazis por causa das 500.000 crianças que morreram no Iraque, por falta de comida e de cuidados médicos, como consequência imediata do bloqueio anglo-americano; crianças, aliás, cujo sacrifício "valeu a pena", segundo as declarações recentes da ex-secretária de Estado democrata Madeleine Albright. Porquê esta sistemática aplicação de dois pesos, duas medidas, também usada no que concerne as populações martirizadas de Donbass (e que Putin é acusado de ter instrumentalizado durante oito anos contra a tão simpática Ucrânia)?

Esta guerra, por mais lamentável que seja, foi anunciada há muito tempo, e as razoáveis vozes de militares, diplomatas, académicos, a Oeste, que não têm acesso a nenhum órgão importante dito de "informação", privado ou estatal, são categóricas sobre as responsabilidades exclusivas, e de longa data, dos Estados Unidos, no desencadear de um conflito que eles próprios tornaram inevitável.

 

Na sua opinião, como é que será o futuro?

Não me pronuncio sobre o futuro, pois os historiadores não têm de desempenhar o papel de meteorologistas, especialmente tendo em conta a informação execrável a que, atualmente, têm acesso. Mas posso afirmar que os Estados Unidos são o poder imperialista cujas guerras de agressão acumularam, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, milhões de mortes. Recomendo, aliás, o livro traduzido de William Blum, um antigo funcionário da CIA (estes são os melhores analistas), que estabeleceu uma estrita cronologia dos crimes cometidos pelos Estados Unidos contra uma série de Estados qualificados de "bandidos".

A Rússia nem sempre foi considerada como tal pelo "Ocidente", na época da "Grande Aliança" e do "Tio Joe" (José Estaline). Até às últimas décadas de propaganda unilateral "ocidental" sobre a libertação da Europa – segundo a qual, a libertação teria ocorrido graças, unicamente, ao desembarque americano, em junho de 1944 -, havia sido amplamente reconhecido que só o Exército Vermelho é que tinha conseguido derrotar a Wehrmacht, e a que custo! De acordo com estimativas recentes, os Estados Unidos têm a deplorar, durante a Segunda Guerra Mundial, um total inferior a 300.000 mortes (todas, de militares), nas frentes do Pacífico e da Europa. Nesta entrevista, há pouco, já havia referido o monstruoso número de perdas soviéticas: 10 milhões de baixas militares e 17 a 20 milhões de vítimas civis.
Até agora, a Rússia, soviética ou não, não semeou ruínas em guerras externas. Tem sido objeto de uma ininterrupta agressão das grandes potências imperialistas, desde janeiro de 1918. Não digo isto porque sou uma seguidora de Putin. Todos os documentos de arquivo apontam nesta direção, diplomatas ocidentais e militares são os primeiros a sabê-lo e a admiti-lo, na sua correspondência não destinada a publicação: ou seja, o tipo de documentação que tenho vindo a estudar, há mais de cinquenta anos. Com o meu trabalho, e graças a uma reflexão sobre a conjuntura atual, estou, apenas, a exercer a minha profissão de historiadora..

 

 

1[NT] A Galicia foi uma província do Império Austríaco, formada em 1772, a partir dos territórios polacos anexados durante a primeira divisão da Polónia. Permaneceu austríaca até ao final da Primeira Guerra Mundial.

2[NT] Uniatismo: conjunto de comunidades cristãs, de rito oriental, que reconhecem a autoridade papal ou que se encontram ligadas à Igreja Católica.

 

Fonte:https://www.investigaction.net/fr/annie-lacroix-riz-il-y-a-un-contexte-historique-qui-explique-que-la-russie-etait-acculee/, publicado e acedido em 28.03.22

 

Tradução: AMS

domingo, 18 de dezembro de 2022

Jorge Figueiredo - A Biblioteca de Estaline, por Geoffrey Roberts

* Jorge Figueiredo

Stalin's Library foi escrito por um professor de história irlandês da Universidade de Cork, Geoffrey Roberts. Trata-se de um homem de formação conservadora que julgou conveniente acrescentar-lhe um subtítulo: “A Dictator and his books”. A sua ambição é fazer uma biografia (intelectual) daquele dirigente soviético através dos livros por ele lidos. A abordagem é pelo menos original e o autor tem credenciais como perito em história soviética. Anteriormente publicara uma biografia do general Jukov (Stalin's General) e uma obra com mais fôlego: Stalin's Wars: From World War do Cold War.

Os viéses da sua abordagem são evidentes logo na primeira linha da introdução, em que classifica Estaline como “um dos mais sangrentos ditadores da história” (sic). A afirmação é factualmente errada pois houve muitos outros chefes de Estado que o superaram. Poderia ter-se referido a Churchill, por exemplo, que foi responsável por muitíssimo mais mortes do que Estaline; ou pelo rei dos belgas que com a tecnologia do século XIX conseguiu matar mais de dois milhões de habitantes do Congo; ou por Napoleão Bonaparte que dizimou exércitos inteiros. E isso sem remontar à história mais antiga como os massacres de Gengis Khan (século XIII) e de Tamerlão (ou Timur) no século XV (diga-se de passagem que hoje Timur é considerado o herói nacional do Uzbequistão, com direito a uma enorme estátua na praça principal de Tashkent e a um mausoléu em Samarcanda).

Naturalmente, nos meios em que se move autor, diabolizar Estaline é obrigatório pois dá garantias de “respeitabilidade académica” & carreira. Entretanto, abstraindo esse parti pris, merece exame o aspecto principal da sua investigação. O autor teve acesso a muita documentação e entrevistou numerosas pessoas em Moscovo, beneficiando-se de trabalhos anteriores já feitos. A sua estimativa é de que a biblioteca de Estaline continha ao todo cerca de 25 mil livros. Note-se que “biblioteca” neste caso é mais um conceito do que uma realidade física pois estava espalhada por vários locais.

Um dos pontos com interesse é que grande parte dos seus livros continham anotações (pometki, em russo) do próprio Estaline, o que é uma indicação espontânea dos seus graus de interesse nas obras que lia. Elas podiam ser simples sublinhados, sinais de exclamação, de riso (“ah, ah”), de desprezo (“tagarelice”, “absurdo”, “lixo”, “asqueroso”, “patife”), efusivas (“sim, sim”, “concordo”, “bom”, “acertou em cheio”, “certo”), dubitativas (“m da”, que numa tradução livre poderia ser “realmente?”, “tem certeza?) ou organizativas (numeração de tópicos). Uma anotação frequente era o “NB”, do latim nota bene (atenção), mas muitas vezes havia frases inteiras com juízos mais elaborados. Verificava-se também que a leitura de certas obras foi abandonada, talvez com menosprezo, pois as anotações foram só nas primeiras páginas e nas conclusões.

A parte principal da biblioteca ficava na casa de campo (dacha) de Estaline próxima do Kremlin, a 10 minutos de viagem. Durante a II Guerra, quando a tropa nazi se aproximava de Moscovo, toda a biblioteca foi encaixotada e despachada para Samara (a 1000 km) – mas o próprio Estaline permaneceu o tempo todo em Moscovo. Após a sua morte o PCUS considerou transformar aquela dacha num museu dedicado a Estaline, mas a ideia foi posteriormente vetada por Krushov. Em consequência, e lamentavelmente, a biblioteca foi parcialmente dispersa por vários organismos estatais.

Estaline era um leitor voraz e, como diz Roberts, “raramente lia para confirmar o que já sabia ou acreditava. Ele lia para aprender algo novo”. A gama dos seus interesses era vasta. Além dos clássicos do marxismo, tinha especial interesse por história russa e de outros países, história e estratégia militar, biografias, memórias, diplomacia, filosofia, economia política, finanças, agricultura, indústria, a questão nacional, estatísticas, etc. A pedido da sua bibliotecária chegou a fazer um sistema de classificação/arrumação da sua biblioteca, com cerca de 30 tópicos (p. 66 do livro).

Ele também lia cuidadosamente o que escreviam os seus inimigos: as obras de Trotsky constavam na sua biblioteca. Os três volumes da auto-biografia de Bismarck, o grande mestre da realpolitik, foram por ele lidos e anotados minuciosamente. As quatro obras de Genrik Leer, estratega do século XIX considerado como o Clausewitz russo, foi por ele estudado. Mas o seu teórico de estratégia favorito parece ter sido Boris Shaposhnikov, um antigo oficial czarista que aderiu ao Exército Vermelho em 1918. O que mais apreciava em Shaposhnikov era a combinação da grande estratégia com pormenores organizacionais críticos. Por outro lado, Estaline tinha consciência das suas limitações pois chegou a pedir a um professor de filosofia especialista em Hegel que lhe desse explicações acerca da dialética hegeliana (fica-se a pensar se algum dos nossos governantes contemporâneos se atreveria a uma tal proeza).

No campo da literatura propriamente dita, Estaline também lia por prazer. Tinha um vasto conhecimento da literatura clássica russa (Gogol, Pushkin, Dostoievsky, Turgeniev, ...) e estrangeira: Shakespeare, Heine, Balzac, V.Hugo, Guy de Maupassant e outros escritores da Europa ocidental. Entretanto, não apreciava o vanguardismo pois considerava-o como pouco acessível à massa dos leitores. O romance A Mãe, de Gorki, estava todo anotado por Estaline, mas o que realmente o excitou foi a frase de um personagem, ex-camponês tornado operário:   “Ajude-me! Deixe-me ter livros – livros que quando um homem os ler já não seja capaz de descansar. Que coloquem um ouriço espinhento nos seus cérebros. Diga às pessoa da cidade que escrevem para escreverem também para os aldeões. Que escrevam uma verdade tão candente que faça ferver a aldeia, que o povo até corra para a morte” (p. 94).

Estaline considerava que se podia aprender de reacionários e que não se deveria confundir um escritor com a sua obra artística. Deu como exemplo o Almas mortas, romance de Gogol cujo título refere-se aos servos da sociedade czarista:   “Gogol foi sem dúvida um reacionário. Ele era um místico. Era contra a abolição da servidão... Mas... a verdade artística das Almas mortas de Gogol teve um enorme impacto sobre várias gerações da intelligentzia revolucionária... As visões de mundo dos escritores não deveriam ser confundidas com o impacto das suas obras sobre os leitores” (p. 179). Esta visão nuançada é plasmada na sua tese acerca da autonomia relativa da super-estrutura social em relação à sua base económica – uma contribuição positiva para a filosofia marxista, pois demarca-a do determinismo económico bruto.

Um capítulo do livro de Roberts é dedicado ao papel de Estaline como editor. Ele editava textos com clareza e precisão. Muitas obras escritas por comissões de especialistas na verdade foram tão fortemente editadas por ele que poderia ser considerado como co-autor das mesmas. É o caso da Breve história do Partido Comunista da União Soviética (1938), o volume dois da História diplomática (1941); a 2ª edição da sua breve biografia (1947); o folheto Falsificadores da história (1948) e o manual soviético Economia política (1954). Se fosse preciso resumir, os seus critérios de edição talvez pudessem ser:   1) Manter as coisas tão simples quanto possível; 2) Evitar palavras desnecessárias num manual didático; 3) Ter em atenção o público-alvo a que se destina a obra; 4) Concentrar-se no assunto tratado; 5) Considerar que são as ideias que importam, não os indivíduos – ideias num contexto teórico.


Em resumo: Mesmo com os preconceitos deste sovietólogo irlandês, Stalin's Library é um livro que se pode ler com interesse e proveito. Apesar da vontade permanente de denegrir a figura de Estaline, não se pode deixar de observar que Roberts tem um fascínio pelo objeto do seu estudo. Transparece no livro que a bagagem de leitura ciclópica de Estaline, a seriedade com que estudava os assuntos e a sua capacidade de trabalho gigantesca em tantas e tão diversas frentes do conhecimento humano suscitaram a sua admiração.

18/Dezembro/2022

Esta resenha encontra-se em resistir.info

18/Dez/22

https://resistir.info/jf/resenha_bibl_est.html

terça-feira, 27 de abril de 2021

Fernanda Câncio - "E manda ainda o Senhor Deus pretos a este mundo"

COLONIALISMO

Relatórios da administração colonial que denunciam "o bafio da escravatura" e uma diplomacia que tenta negar as acusações internacionais e adiar ao máximo a mudança: Portugal e a Questão do Trabalho Forçado, de José Pedro Monteiro, é um testemunho poderoso sobre o ocaso do Império português.

Fernanda Cânciocoo

29 Dezembro 2018 — 15:00 

"Tratados como animais bravios", agrilhoados, chicoteados, espancados, "arrebanhados no mato", com alta taxa de morte no transporte, mantidos décadas longe da família, à qual eram por vezes devolvidos em "estado de morto de pé", "grávidas e mulheres com filhos monstruosamente espancadas por abandonarem o trabalho": as descrições e observações encontradas nos relatórios da administração colonial portuguesa chocam pela crueza e naturalização daquilo a que um inspetor chama, em 1949, "o cheiro a bafio da escravatura".

Apesar de os castigos físicos serem proibidos por lei e de o próprio trabalho forçado ter sido, a partir da publicação do Código de Trabalho Indígena, de 1928, interditado exceto "para fins públicos" - e mesmo assim apenas quando estivesse em causa o interesse das populações que eram para ele mobilizadas --, as autoridades coloniais continuaram, pelo menos até aos anos 1960 (o Código de Trabalho Indígena só é revogado em 1962, sendo substituído pelo Código de Trabalho Rural, que deixa de ter referência racial e proíbe todas as formas de trabalho forçado, incluindo para fins públicos), a servir de recrutadoras compulsivas para privados - tratava-se, na linguagem de então, de "contratos com facilidades" -- e a aceitar as punições corporais com naturalidade, como vários relatórios reconhecem.

A candura destes relatórios e a forma como alguns inspetores ou outros membros da administração colonial exprimem a sua discordância e até revolta face à situação - um deles chega a escrever, referindo, em 1949 em S. Tomé, a existência de "grilhetas superiores a dois metros" e o facto e de o governador certificar que "só ele podia ordenar punições": "E manda ainda o Senhor Deus pretos a este mundo!" - é, para o leitor não especialista, uma das grandes surpresas que resulta da leitura de Portugal e a Questão do Trabalho Forçado/Um império sob escrutínio (1944-1962), do historiador José Pedro Monteiro, publicado este mês, e que, nas palavras do próprio, "mobilizando fontes inéditas, ilustra, pela voz de administradores imperiais e locais e de testemunhas autóctones, algumas realidades laborais e sociais vigentes nas colónias, permitindo, deste modo, cotejá-las tanto com as denúncias que se produziram internacionalmente como com os esforços de refutação oficial, frequentemente de natureza propagandística."

"É impressionante, no mapa das transgressões do Código de Trabalho Indígena, o número de processos por ofensas corporais" ", escrevia, por exemplo, em 1944, o inspetor Nunes de Oliveira; noutro relatório, referente a São Tomé e Príncipe, em 1947, lia-se: "Os serviçais vivem e trabalham contrafeitos, a tal ponto que já tem havido casos de suicídio entre eles, por essa razão; eles constituem uma considerável multidão, de algumas dezenas de milhar, dispersos pela densa floresta, e os agentes dos patrões que têm de os conduzir, só tal conseguem impondo-lhes uma disciplina severa, disciplina que só se consegue por meio de sanções expeditas e bem sentidas."

"É impressionante, no mapa das transgressões do Código de Trabalho Indígena, o número de processos por ofensas corporais" ", escrevia em 1944 um inspetor; noutro relatório, referente a São Tomé e Príncipe, em 1947, lia-se: "Os serviçais vivem e trabalham contrafeitos, a tal ponto que já tem havido casos de suicídio entre eles,"

É, recorda José Pedro Monteiro, o mesmo ano do célebre relatório choque que o inspetor-geral da Administração Colonial Henrique Galvão apresenta à Comissão das Colónias da Assembleia Nacional (o nome então dado ao parlamento), no qual informa que "o trabalho forçado ou "contratado" era a norma, as condições de vida miseráveis, a corrupção entre as autoridades generalizada", chegando mesmo a dizer que os escravos eram melhor tratados que os trabalhadores forçados, já que aos primeiros, sendo sua propriedade, o dono se esforçava por manter vivos e com saúde, enquanto que os segundos, se morriam de fome ou exaustão, eram substituídos por mais trabalhadores "recrutados" pelo Estado. Um excerto do relatório de Galvão: "A mortalidade infantil atingia a percentagem de 60%. O índice de mortalidade era de 40%, mesmo entre os trabalhadores na plenitude da vida. As figuras era mudas, estáticas. Não gritavam, não falavam de dor. Era preciso ver com os próprios olhos, era preciso encorajar até aqueles que queriam ver"

"Grilhetas ao pescoço" e chicote

Nada que devesse surpreender quem vinha lendo os documentos das inspeções "normais". Seis anos antes, diz José Pedro Monteiro, "um relatório do Curador Geral dos Indígenas de Angola relatava que os "indígenas" sentiam tal "horror" pelo contrato que, no Lobito, se tinha dado um episódio em que uns quantos se tinham lançado ao mar para lhe escapar. (...) O mesmo curador relembrava uma nota confidencial, relativa à intendência do Moxico, em que se informava que não havia capacidade para recrutar trabalhadores para a Companhia de Diamantes de Angola porque todos os "indígenas" que podiam ser recrutados tinham desaparecido. "A excepcional mortalidade entre os indígenas em serviço naquela companhia e o "Estado de Morto em pé" com que todos têm sido repatriados, alguns indígenas que morrem pouco depois [de aqui] chegar, e, ainda, os que com o corpo mutilado conservam a vida e vivem actualmente pedindo esmola, sem receber qualquer indemnização da Companhia, constituem, como todos nós sabemos, a razão da relutância que os indígenas mostram por aquele serviço"".

E em 1945, lê-se em Portugal e a Questão do Trabalho Forçado, o Curador de S. Tomé dava nota de que alguns serviçais tinham ali estado 13 anos, "muito além do estabelecido pela lei como limite máximo de permanência em "contrato", a receber metade do salário (...). Invocava-se ainda um relatório do Inspetor Superior de Serviços Judiciais, em missão a S. Tomé, em que se relatava a existência de trabalhadores presos com "grilhetas" ao pescoço. (...) Turistas estrangeiros tinham fotografado serviçais a ser chicoteados, do que decorria, segundo o raciocínio do inspetor, que era preciso pensar estes incidentes à luz do que vinha ocorrendo nos fora internacionais, onde os Estados Unidos vinham censurando a solução colonial."

"Em 1945 o Curador de S. Tomé dava nota de que alguns serviçais tinham ali estado 13 anos, "muito além do estabelecido pela lei como limite máximo de permanência em "contrato", a receber metade do salário (...)". Num relatório do Inspetor Superior de Serviços Judiciais, em missão a S. Tomé, relatava-se a existência de trabalhadores presos com "grilhetas" ao pescoço. (...) Turistas estrangeiros tinham fotografado serviçais a ser chicoteados."

Já em 1951, o encarregado de serviços da Inspeção Superior de Negócios Indígenas, após um introito no qual "enaltecia a essência humanista e benévola da intervenção portuguesa em territórios coloniais", prosseguia "desfiando um rol de iniquidades e abusos. Referia-se à taxa de mortalidade no transporte de 650 indígenas que era de 15,38 por mil quando comparados com os 4,25 por mil registados nas minas da África do Sul, um trabalho, já de si, extremamente perigoso; aos acidentes de trabalho que eram dados como ocorridos nas horas de descanso, como forma de desresponsabilização, o mesmo recurso estatístico usado também para os classificar como "agonias e congestões"; aos inválidos que eram obrigados a trabalhar em S. Tomé ("verdadeiros farrapos humanos") por salários miseráveis; que não eram pagas às famílias as indemnizações por morte de trabalhadores em S. Tomé; que milhares de "indígenas" ficaram mais de uma década para além do termo oficial do seu contrato sem serem repatriados; que os salários em Moçambique e especialmente em Angola chegavam a constituir cerca de um sétimo dos valores na África do Sul e menos de metade dos salários da Rodésia; que mulheres de trabalhadores eram sistematicamente violadas por grupos de serviçais enquanto outras grávidas e mulheres com filhos eram "monstruosamente espancadas com mais de 50 palmatoadas" por terem abandonado o trabalho.""

Muito impressionante também é um relato de 1949, referente ao "caso dos Tongas" (filhos de trabalhadores deslocados de outras colónias para trabalho em São Tomé, que nunca tinham vivido na colónia dos seus pais): "Muitos deles alegavam que desejavam reencontrar suas famílias, mas o governador-geral de S. Tomé simplesmente entendia que era um desejo descabido, visto não conhecerem as famílias, não saberem onde estavam nem sequer se ainda existiam. Ressalve-se que eram indivíduos com todas as obrigações fiscais e militares cumpridas. Mas eram também "fortes e saudáveis, educados numa vida de trabalho" e, como tal, o seu repatriamento devia-lhes ser negado, justificava o governador."

Não é possível saber, escreve José Pedro Monteiro, "o destino destas populações, mas a simples ideia de que o governador entendia possível mantê-las em S. Tomé revela os termos do debate em matéria de liberdade de trabalho. O relatório é ainda ilustrativo no sentido em que o funcionário da ISNI, no ensejo de contrariar a vontade do governador, elencava um conjunto de informação crítica. Desde logo, referia que serviçais havia que tinham estado entre 10 a 30 anos nas ilhas e que, se o seu contrato tivesse sido cumprido, o problema dos "Tongas" simplesmente não se punha. Recuperava um trecho do relatório do curador que os descrevia como "acabrunhados e tristes" e sem qualquer ideia do que era um contrato livre. Como finalizava o relator: "As expressões "os meus tongas" ou "tongas das roças" "embora se autorizem a mudar de situação", como se diz no ofício, cheiram ainda a bafio de escravatura"."

As descrições são arrasadoras, e muitas até agora inéditas. Constituindo uma versão editada e revista da tese de doutoramento do autor, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o livro procura dar a compreender "como e porquê as modalidades de trabalho coercivo se mantiveram política e socialmente aceitáveis no seio da burocracia imperial portuguesa por um período consideravelmente mais longo que noutros impérios europeus; porque estavam as propostas que procuravam pôr-lhes termo tão recuadas face às normas internacionais; e, finalmente, porque e como foi finalmente concretizada a reforma que lhes pôs termo, ainda que de modo meramente formal."

O historiador, de 34 anos, que investigou em vários arquivos -- no arquivo Histórico Diplomático, no Arquivo Histórico Ultramarino, na Torre do Tombo ("Onde havia pouca coisa"), e também nos da Organização Internacional do Trabalho em Genebra, da ONU, nos National Archives nos EUA bem como nos arquivos britânicos, em Kew - conversou com o DN sobre o seu trabalho.

Houve alguma coisa que o tenha surpreendido ou chocado particularmente nas suas leituras?

Houve relatórios que li, que fiquei... Uma pessoa pode-se chocar. Nos debates sobre a escravatura diz-se muito que é preciso olhar com os olhos daquele tempo. Curiosamente esse é um dos motivos pelos quais o facto de a abolição da escravatura ter resultado na generalização do trabalho forçado faz com que com que nas discussões públicas a questão do trabalho forçado quase não apareça. Porque se torna um bocadinho mais complicado poder dizer "ah, temos de olhar com os olhos daquele tempo." Não, aos olhos daquele tempo o trabalho forçado já era condenado de forma unânime. Não é por acaso que nos debates sobre a escravatura se alguém quer falar do trabalho forçado vem o "isso era outra coisa". Reforçando uma distinção legal que não é confirmada pela continuidade das práticas.

https://www.dn.pt/pais/e-manda-ainda-o-senhor-deus-pretos-a-este-mundo-10343094.html


Fernanda Câncio - Marcelo e o Portugal mais que imperfeito

* Fernanda Câncio

Em 2017, oito alunos de história do 12.º ano do Liceu Camões aceitaram falar com o DN sobre a forma como viam o passado imperial e colonial português. Para estranheza da própria professora, a maioria reproduziu o mito de que Portugal foi pioneiro na abolição da escravatura, em 1761 (altura em que foi abolida a escravatura apenas no território de Portugal "metropolitano" e mesmo assim não completamente). Do mesmo modo, quando questionados sobre o que sucedera aos escravos depois de em 1869 se ter dado a oficial abolição da escravatura em todos os territórios nacionais, muitos ficaram interditos. Um afirmou: "Então, deram-lhes o estatuto igual aos das outras pessoas."

Não é espantoso. A maioria esmagadora dos portugueses, atrevo-me a dizer - eis uma sondagem que gostava de ver - continua a achar que "fomos os primeiros a abolir" e desconhece totalmente o facto de à escravatura dos negros se ter seguido o trabalho forçado, só formalmente abolido em 1962. Essa realidade do trabalho forçado, que em pouco se distinguia da escravatura, atravessou o final do século XIX, a Primeira República e praticamente todo o Estado Novo. Nas leis, os negros classificados como "indígenas", ou seja a maioria da população de Moçambique, Angola e Guiné, eram excluídos da cidadania e tratados como sub-humanos - constatação que o próprio regime salazarista fez através dos seus documentos internos, como demonstra o historiador José Pedro Monteiro em Portugal e a questão do trabalho forçado (Edições 70, 2018).

A esmagadora maioria dos portugueses, dizia, desconhece estes factos, e desconhece-os não porque eles não estejam amplamente estudados por gerações de historiadores e investigadores académicos, com vasta obra publicada sobre a matéria, mas porque disso pouco tem passado quer para a discussão pública quer, o que é fundamental, para aquilo que se aprende na escola e se lê nos manuais do ensino básico e secundário. E não passa porque haja uma determinação consciente e malévola de mentir, mas porque coletivamente nos apegámos à mistificação.

O problema não é, ao contrário do que se possa crer, exclusivo de pessoas "pouco cultas". Ainda há poucos meses um reputado constitucionalista português me asseverava que o "nosso" regime colonial não foi racista. Quando lhe retorqui com alguns factos básicos - nomeadamente a instituição do trabalho forçado e a lei do indigenato - respondeu-me "era assim também nos outros países". Só ficou sem argumentos quando lhe lembrei que data de 1930 a convenção da Organização Internacional do Trabalho - só ratificada por Portugal em 1956, com prazo de cinco anos para aplicação - obrigando os signatários a acabar com o trabalho forçado no mais curto prazo possível, e que os próprios relatórios dos funcionários coloniais portugueses comparavam, até ao final dos anos 1950, a realidade do trabalho forçado à da escravatura, descrevendo castigos corporais com chicote e grilhetas e chegando a dizer que o primeiro era pior que a segunda, já que nesta ao menos o dono não estava interessado em matar o escravo já que pagara por ele, enquanto no trabalho forçado tanto lhe fazia: se morria pedia outro.

A ideia de que "não se pode olhar para a realidade do passado com os olhos de hoje", tão usada a propósito da história imperial e colonial portuguesa, soçobra perante a evidência de que estamos também a falar de coisas que se passaram há menos de 100 anos, quando outros países ocidentais já tinham iniciado a descolonização e quando eram muitas as vozes, inclusive em Portugal e nas colónias, a criticar - e a lutar contra - o que se passava. Muitos dos olhos de então já olhavam aquela realidade como a olhamos hoje, como iníqua, ilegítima e brutal.

E sim, vem todo este grande introito a propósito do discurso de Marcelo neste 25 de abril - um discurso notável, talvez o melhor que já lhe ouvi, e no qual teve a inteligência de sublinhar a sua condição de filho do último ministro das Colónias e de um dos últimos governadores de Moçambique, testemunha privilegiada (em vários sentidos) do ocaso do império e da ditadura colonial.

Esta assunção da sua condição pessoal - que aliás repetiria a seguir num encontro com capitães de Abril e jovens, no qual também fez um discurso muitíssimo interessante - tem um propósito mais ou menos claro: o de demonstrar, e bem, que o 25 de Abril é simultaneamente rutura e continuidade. Como ele, filho de um alto dignitário da ditadura que faria parte da Assembleia Constituinte de 1975 e acabaria duas vezes eleito presidente da democracia, os militares que fizeram o golpe "não vieram de outras galáxias, nem surgiram num ápice daquela madrugada para fazerem história. Traziam já consigo a sua história." E a sua história eram "as suas comissões em África, uma, duas, três, até quatro, (...) tudo em situações em que a linha que separa o viver ou morrer é muito ténue."

Eram pois os soldados do regime colonial, algozes, ocupantes, matadores, até serem os heróis da libertação. Sabemo-lo, ou devemos sabê-lo - mas saberá Marcelo distinguir entre quem retirou dessa experiência a deliberação de acabar com ela e quem, como Marcelino da Mata, a cujo enterro foi há meses como presidente, ou seja em nome de todos nós, se gabava dos seus crimes nessa guerra e louvava a ditadura?

É que esse é o problema: distinguir. E Marcelo, como a maioria esmagadora dos políticos da democracia, sejam como ele filhos de homens da ditadura ou como António Costa de oposicionistas, têm mostrado dificuldade nessa distinção e nesse olhar para trás, na capacidade de traçar a linha entre o que é admissível e até celebrável e o que deve ser censurado - porque é preciso dizer que houve coisas censuráveis e criminosas, por mais que tenham feito parte de um contexto.

Daí que seja tão bem-vinda a exortação do presidente para "que se faça história, história da história, que se tirem lições de uma e de outra, sem temores sem complexos", o reconhecimento de que "é prioritário estudar o passado e nele dissecar tudo, o que houve de bom e o que houve de mau. (...) Que saibamos fazer dessa história lição de presente e de futuro. Sem álibis nem omissões (...)."

É isso mesmo. Ou seria, se a seguir não acrescentasse: "É prioritário assumir tudo, todo esse passado, sem autojustificações ou autocontemplações globais indevidas nem autoflagelações globais excessivas (...) nem apoucamentos injustificados." É de novo a preocupação com "a visão auto flageladora da nossa história" que vimos recentemente em António Costa, preocupação extraordinária num país que até hoje se encarniça em negar "o que houve de mau" ou chega mesmo a celebrá-lo; preocupação contraditória num discurso presidencial que nos diz que temos de olhar a história também "pelo olhar dos colonizados".

Olharmo-nos pelo olhar dos "descobertos", dos submetidos, dos colonizados e dos seus descendentes não é só dizer que "nunca houve um Portugal perfeito" - a melhor frase do discurso do presidente. É sobretudo reconhecer o que desse passado mais que imperfeito resta em nós como país, denunciá-lo e combatê-lo. Aquilo, suspeito, a que Marcelo chama "excesso".

Jornalista

NOTA:

Na semana passada, escrevi sobre o Primeiro Plano Nacional Contra o Racismo e o ensino de história no básico e secundário, sob o título Implodir o padrão dos descobrimentos. Cometi erros no que escrevi e fui para isso alertada pela Associação dos Professores de História, por via de um email do seu presidente, Miguel Monteiro de Barros, pelo que me apresso a corrigir, agradecendo a retificação, que foi também colocada no artigo em questão.

Nesse artigo, lê-se: O programa de história do básico e secundário não mexe desde 2002 - ou seja há praticamente 20 anos. A responsabilidade pelos programas, como pela aprovação dos manuais, é das associações de professores - neste caso os de história; os governos limitam-se a homologar. É pois importante saber como a Associação dos Professores de História tenciona pôr em prática o plano de combate ao racismo na sua disciplina; como pensam contribuir para desfazer estereótipos e complexificar a visão romantizada dos "descobrimentos" e daquilo que se lhes seguiu, exorcizando a ideia verdadeiramente insultuosa de que o colonialismo português "não foi racista".

A APH retifica: "O documento curricular de referência já não são os programas, mas as Aprendizagens Essenciais (AE), elaboradas pela Associação de Professores de História, após consulta pública, e homologadas pela DGE (Direção Geral da Educação). O processo de elaboração das AE iniciou-se em 2016, tendo estas sido homologadas em 2018. Esta foi a primeira vez que a Associação de Professores de História foi parceira no processo de elaboração de um documento curricular basilar, nunca antes participou na elaboração de qualquer programa disciplinar, apenas foi consultora."

Parte do erro deveu-se ao facto de me ter baseado na informação que tinha recolhido em 2017 para um artigo sobre os programas e manuais, não me tendo dado conta de que entretanto (em 2018) tinha havido alterações.

Mais uma vez baseando-me nessas informações recolhidas em 2017, afirmei também no referido artigo de opinião que os manuais escolares eram aprovados (querendo dizer certificados) pela APH. Esta nega: "A Associação de Professores de História, tal como acontece com os programas, não possui quaisquer competências para "aprovar manuais". As editoras editam os manuais, sendo estes certificados, atualmente, por centros de certificação existentes em diversas universidades e institutos politécnicos, designados pela tutela. A Associação de Professores de História não tem nada a dizer sobre o assunto."


https://www.dn.pt/opiniao/marcelo-e-o-pais-mais-que-imperfeito-13614976.html