Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sábado, 28 de dezembro de 2024
Crônicas Históricas · - Dados perturbadores da Idade Média
terça-feira, 19 de março de 2024
Carlos Coutinho - Dá que pensar
sexta-feira, 12 de janeiro de 2024
Os Últimos do Estado Novo, por José Pedro Castanheira
O jornalista José Pedro Castanheira, com uma notável carreira profissional,
explica de forma meridiana na apresentação deste seu livro a essência de Os
Últimos do Estado Novo, Tinha da China, 2023:
“Já reformado,
a organizar o meu arquivo, verifiquei, com algum espanto, que tivera
oportunidade de conhecer e fazer um trabalho jornalístico com e sobre alguns
dos principais derrotados do 25 de Abril – o último diretor da Censura, o
último presidente do Partido Único, o último responsável pelo campo de
concentração do Tarrafal, os membros do último Governo da ditadura, o último
secretário particular de Marcello Caetano, o seu último porta-voz.
Paralelamente, tivera o ensejo de fazer reportagens em torno de episódios e
acontecimentos marcantes, precisamente por terem sido os últimos do género a
ocorrer durante a ditadura: o último deportado, os últimos presos políticos, a
última entrevista concedida por Oliveira Salazar. E pensei que faria sentido
reunir todos estes trabalhos e publicá-los em livro.” E faz comentários sobre a
natureza de entrevistas e entrevistados, ficam algumas pontas de mistério,
seguramente não haverá resposta para o conteúdo da documentação que Alexandre
Carvalho Neto, secretário pessoal de Marcello Caetano, destruiu na residência
de S. Bento, no cumprimento das instruções dadas pelo deposto presidente do
Conselho de Ministros. E o leitor que se prepare para uma viagem que tem pouco
de nostálgica, permite um sem número de clarificações e, impressão minha, da
própria sensibilidade manifestada pelos entrevistados, há mais reconciliação
que ressabiamento pelo fim do regime ditatorial.
Eduardo Vieira
Fontes, diretor do “campo de trabalho” do Tarrafal, abre as hostilidades, um
cabo-verdiano que nunca quis a nacionalidade cabo-verdiana, que guarda
recordações amenas de Amílcar Cabral e do seu trabalho em Angola, que considera
ter agido com elevado sentido do dever no Tarrafal, reaberto em 1961, a PIDE
criticava muitos dos seus procedimentos para com os presos, durante a
entrevista mostra testemunhos de detidos, francamente favoráveis para a maneira
como conduzia a vida no campo. “Nunca mais voltou a Cabo Verde, mas vinha quase
todos os anos a Portugal. Faleceu nos EUA, em East Providence, em 9 de novembro
de 2021, escassos meses após a morte da mulher. Tinha 99 anos.”
Não menos
interessante é a reportagem sobre os últimos presos políticos, tudo se passou
em abril de 1974, ficamos a saber quem e porquê foi detido. O mesmo se dirá do
último Governo da ditadura, há para ali aspetos curiosos de escolhas de
ministros e secretários de Estado, e há o depois do 25 de Abril. Pedro Feytor
Pinto, que teve uma intervenção direta nos acontecimentos do 25 de Abril dá-nos
as suas impressões sobre aspetos da governação de Marcello Caetano, o seu
relacionamento com os liberais, os bastidores da oposição ao Governo dentro do
regime, o que se passou depois da queda da ditadura. Não deixa de causar
estranheza certas afirmações de Alexandre Carvalho Neto, foi secretário
particular de Marcello Caetano e antes ocupara um cargo semelhante junto de
Spínola na Guiné, não só diz inverdades como destrata quem não se pode
defender, isto quanto à Guiné. Que antes de Spínola havia a iminência de uma
derrota militar, que Schulz foi destituído e que ainda regressou a Bissau para
empacotar os serviços de prata do Palácio de Bolama. Acontece que a guerra não
estava perdida nessa época (1968), que Schulz não foi demitido, cumprira quatro
anos na governação e como comandante-chefe e interrogo-me como era possível um
governador trazer pratas de um palácio que estava em ruínas, fora abandonado em
1941, impensável deixar ali pratas, enfim, tricas com uma pontinha de
maledicência, resta saber para quê. E ficamos a saber que ajudou Marcello
Caetano a instalar-se no Rio de Janeiro.
O leitor jamais
ficará dececionado com este repositório de entrevistas onde iremos ver
discorrer Elmano Alves, o presidente da última comissão executiva da Ação
Nacional Popular, Mário Bento Soares, o último diretor da Censura, o autor
entrevistará o jornalista francês Roland Faure que entrevistou Salazar quando
este já não era o homem todo-poderoso e vivia debilitado em S. Bento, a Censura
cortou a entrevista, para o regime marcelista era totalmente inaceitável que os
nostálgicos ouvissem Salazar dizer coisas como: “Conheço bem Marcello Caetano.
Foi várias vezes meu ministro e aprecio-o. Ele gosta do poder: não para retirar
quaisquer benefícios pessoais ou para a família; é muito honesto. Mas gosta do
poder pelo poder. Para ter a impressão exaltante de deixar a sua marca nos
acontecimentos. É inteligente e tem autoridade, mas está errado em não querer
trabalhar connosco no Governo. Porque, como sabe, ele não faz parte do
Governo.”
O leitor será
confrontado com o relacionamento de Salazar com o major Silva Pais, o último
diretor da PIDE, as matérias que tratavam, as informações que a PIDE fazia
chegar a Salazar não só sobre acontecimentos internos como internacionais, fica
perfeitamente claro que o ditador soube do assassinato do general Humberto
Delgado com todos os pormenores, dando depois em discurso uma versão totalmente
descabelada, atribuindo a tensões entre oposicionistas, atribuindo à oposição o
crime. Iremos ler os acontecimentos da deportação de Mário Soares em S. Tomé e
Príncipe. E o livro termina com uma reportagem de acontecimentos muito pouco
conhecidos e praticamente não tratados pela historiografia, os sindicatos
corporativos, afetos por natureza ao regime, mas que estavam em ebulição e
mesmo em rutura com o então subsecretário das Corporações não só dado o
agravamento do custo de vida, como os penosos horários de trabalho e salários
bloqueados. Iremos viajar ao último plenário destes sindicatos, haverá reuniões
com Salazar e uma reunião desse plenário no Coliseu dos Recreios. É nesse
plenário que os dirigentes sindicais divulgarão o teor de uma mensagem entregue
a Salazar a que o ditador fez 23 cortes e alterações no texto que lhe
entregaram. O ditador será sócio honorário de 300 sindicatos. E diz-se no
último plenário dos sindicatos corporativos por que a máquina corporativa
sofrerá alterações de fundo com o fim da Segundo Guerra Mundial e com a
agitação política trazida pelo Movimento de Unidade Democrática. Gota a gota,
elementos de oposição irão infiltrando-se nos sindicatos, a aliança com a
governação irá desaparecer.
Esta coletânea
de entrevistas é uma preciosidade, ajuda a compreender mentalidades dominantes
do salazarismo e do marcelismo e como a ditadura não ofereceu resistência a
quem vinha trazer as liberdades, o desejo de viver em democracia e pôr fim à
inconsequente guerra colonial.
Mário Beja Santos
Publicada
por Malomil à(s) 12.1.24
https://malomil.blogspot.com/2024/01/os-ultimos-do-estado-novo-por-jose.html
quarta-feira, 28 de dezembro de 2022
Annie Lacroix-Riz: “Há um contexto histórico que explica o encurralamento da Rússia”
03.06.22
Annie Lacroix-Riz escreveu vários livros sobre as duas guerras mundiais e as dominações políticas e económicas. Nesta entrevista, analisa a situação na Ucrânia à luz da história dos imperialismos do início do século XX e da sua perduração. Com efeito, o que nos é dito, vezes sem conta, nos meios de comunicação social, não nos permite compreender o conflito e, por conseguinte, impossibilita-nos de procurar uma solução para a paz. Nesta entrevista, Annie Lacroix-Riz oferece um olhar para além do que é aparente, o qual é extremamente útil para entender os acontecimentos e a história recente da região.
Professora Emérita de História Contemporânea da Universidade Paris VII-Denis Diderot, Annie Lacroix-Riz escreveu vários livros sobre as duas guerras mundiais e as dominações políticas e económicas. Nesta entrevista, analisa a situação na Ucrânia à luz da história dos imperialismos do início do século XX e da sua perduração. Com efeito, o que nos é dito, vezes sem conta, nos meios de comunicação social, não nos permite compreender o conflito e, por conseguinte, impossibilita-nos de procurar uma solução para a paz. Nesta entrevista, Annie Lacroix-Riz oferece um olhar para além do que é aparente, o qual é extremamente útil para entender os acontecimentos e a história recente da região.
Nos meios de comunicação social, fica-se com a impressão de
que a guerra na Ucrânia aconteceu a partir do nada. O que nos pode dizer sobre
o contexto histórico desta guerra?
Em primeiro lugar, os elementos históricos estão praticamente
ausentes daquilo que nos é frequentemente descrito como uma "análise"
da situação. No entanto, há dois aspetos importantes a ter em conta nos
acontecimentos atuais. Em primeiro lugar, existe uma situação geral, ou seja,
uma agressão da NATO contra a Rússia. Depois, há uma espécie de obsessão contra
a Rússia – e até contra a China. Esta obsessão não é nova e, portanto, permite
relativizar o atual frenesim anti-Putin. A essência da alegada "análise
ocidental" assenta na ideia de que Putin é um lunático paranóico e/ou um
novo Hitler. Mas o ódio contra a Rússia, assim como o facto de não se suportar
que esta possa ter um papel mundial, são tão velhos quanto o imperialismo americano.
Como é que explica esta obsessão?
É uma obsessão característica de um imperialismo dominante
que foi hegemónico durante, praticamente, todo o século XX. Este imperialismo
não quer perder a sua hegemonia, ainda que, na realidade, a esteja a perder. Com
efeito, hoje já não estamos na mesma situação em que estávamos na década de
1950, quando os Estados Unidos representavam 50% da produção mundial. A China
está a aproximar-se do primeiro lugar, no mundo, e isso não agrada aos Estados
Unidos. Nos últimos anos, atingimos um momento particularmente agudo neste
confronto, marcado por uma série de ataques surpreendentes.
Neste confronto, a Rússia também é um alvo. Temos a impressão
de que haveria uma espécie de rancor contra os bolcheviques, mas é preciso saber
que esta Russofobia do imperialismo americano remonta à era czarista, e
continuou depois, incluindo após a dissolução da União Soviética. Os
compromissos assumidos pelos Estados Unidos de não avançar militarmente na zona
ex-soviética foram, desde então, todos violados. De 1991 a fevereiro de 2022, a
NATO estabeleceu-se nas fronteiras da Rússia e a nuclearização da Ucrânia
tornou-se numa realidade imediata.
Qual é o lugar da Ucrânia nos conflitos entre potências
imperialistas?
A Ucrânia é inseparável da história da Rússia, desde o início
da Idade Média. A Rússia, com toda a sua riqueza natural, é uma gruta de Ali
Baba e a Ucrânia foi a sua mais bela jóia: é uma fonte extraordinária de
carvão, de ferro e de tantos outros recursos minerais, e um formidável depósito
de trigo e de outros cereais - o que, aliás, atraiu a cobiça de muitos, desde
há muito tempo. Para nos mantermos no período imperialista (desde a década de
1880), podemos dizer que foi a Alemanha que, num primeiro momento, se
interessou pela Ucrânia. Antes da guerra de 1914, o Reich alemão tinha
decidido, a fim de controlar o Império Russo, garantir o controlo dos seus
"mercados" mais desenvolvidos: a Ucrânia e os Estados bálticos.
Durante o conflito, a Alemanha fez destes Estados e da Ucrânia um verdadeiro
reduto militar, a base do seu ataque ao Império Russo. Durante a Primeira
Guerra Mundial, se a Alemanha falhou na Frente Ocidental, logo em 1917, o mesmo
não se pode dizer da Frente Oriental, a qual foi dominada pela Alemanha até à
sua derrota. E, apesar de, desde janeiro de 1918, a recém-soviética Rússia
estar a sofrer uma agressão adicional de todas as outras potências
imperialistas (14 países invadiram a União Soviética, sem que tenha havido uma
declaração de guerra), Berlim conseguiu impor-lhe, em março de 1918, o Tratado
de Brest-Litovsk, confiscando-lhe a Ucrânia. A derrota da Alemanha no final da
Primeira Guerra Mundial não fez com que a Ucrânia fosse devolvida à União
Soviética, dada a guerra travada no seu solo pelos "Aliados", apoiada
por todos os elementos anti-bolcheviques, russos e ucranianos.
A Ucrânia conheceu, então, uma curta independência...
De 1918 a 1920, houve, de facto, um curto período de
"independência" folclórica, tendo como pano de fundo a agressão dos
exércitos brancos (pogromistas) de Denikin, e do pogromista Petlyura,
oficialmente "independentista" e aliado da Polónia (que pretendia,
para si, toda a Ucrânia ocidental). A Ucrânia continuou, então, a ser alvo do
Reich, o qual sucedeu ao império austríaco, depois "austro-húngaro"
dos Habsburgos (possidentes da Galicia oriental, a oeste da Ucrânia, depois de
dividida a Polónia[i]). Esta tutela germânica constituiu,
assim, desde o tempo dos Habsburgos, uma base preciosa para o enfraquecimento
da Rússia e do Eslavismo Ortodoxo, tendo-se baseado, sobretudo, no Uniatismo[ii], liderado pelo Vaticano.
Que papel tinha o Vaticano?
O Uniatismo Católico constituiu o apoio ideológico da
conquista germânica, tendo seduzido parte das populações do oeste da Ucrânia,
graças à sua aparência formal, muito próxima da Ortodoxia. Este instrumento da
conquista austríaca foi tomado em mãos pela Alemanha, na era imperialista: o
Vaticano, compreendendo que já não podia contar com o moribundo império
católico, submeteu-se, definitivamente, ao poderoso Reich protestante, no
início do século XX, incluindo na Ucrânia. No período entre-guerras, a Ucrânia
desempenhou, assim, um papel decisivo na aliança entre a Alemanha e o Vaticano,
a quem Berlim confiou a espionagem militar, realizada através dos clérigos
uniates. Podemos observar, deste modo, como foi organizada a tentativa de
conquistar a Ucrânia, consagrada, aliás, na Concordata do Reich de julho de
1933, assinada entre Berlim e o Vaticano. Um dos seus dois artigos secretos
estipulava que a Alemanha e o Vaticano seriam aliados na tomada de posse da
Ucrânia, que era um dos principais objetivos da guerra da Alemanha, tanto
durante a Primeira Guerra Mundial, como durante a Segunda Guerra Mundial.
Enquanto a militarização, a ocupação e a exploração económica estariam sob a
alçada da Alemanha, a "recristianização" católica seria entregue ao
Vaticano.
Os Estados Unidos também estavam interessados…
A Ucrânia é, não apenas um elemento importante no quadro
mundial, como a porta de entrada para o Cáucaso, rico em petróleo. Os Estados
Unidos juntaram-se ao imperialismo alemão para penetrar na Rússia e, em especial,
na Ucrânia, após o fim da Primeira Guerra Mundial. Em 1930, todos os
imperialismos sonhavam em devorar a rica Ucrânia. No meu livro Aux
origines du carcan européen [Sobre as Origens do Colete-de-Forças
Europeu], mostrei como Roman Dmovski, um político polaco de
extrema-direita, tinha analisado na perfeição, em 1930, "a questão
ucraniana". Roman Dmovski escreveu que todos os grandes imperialismos
queriam devorar a Ucrânia, sendo que, no topo, dois se atarefavam febrilmente
para o conseguir: o alemão e o americano. Este autor disse, também, que, se a
Ucrânia fosse arrancada da Rússia, tornar-se-ia num país puramente
"consumidor", obrigado a comprar os seus produtos industriais fora.
Ela nunca poderia suportar tal perda, acrescentou.
Isso não funcionou, pois a Ucrânia continuou no seio da União
Soviética. Ainda assim, havia, ou não, um nacionalismo ucraniano?
O nacionalismo ucraniano foi, primeiro, alemão e, depois,
americano (ou melhor, ambos), porque não tinha capacidade real de
independência: o Reich financiou-o antes de 1914, e nunca mais cessou de o
fazer. Na verdade, estas pessoas que diziam querer uma Ucrânia
"independente" (como Bandera e os seus seguidores) pertenciam ao
inatismo que, no período entre-guerras, e durante toda a Segunda Guerra Mundial,
se confunde com o nazismo.
É difícil não fazer a ligação com estes movimentos que hoje
encontramos: o batalhão Azov, Pravy Sektor, etc., são os herdeiros diretos que
se reivindicam do movimento autonomista ucraniano do período entre-guerras, que
viu a criação, em 1929, do movimento banderista. Denominado "Organização
dos Ucranianos Nacionalistas" (OUN), foi inteiramente financiado pelo
Reich de Weimar e, depois, por Hitler (depois de o "autonomismo" ter
sido subsidiado pelo Reich wilhelminiano).
Como é que este movimento se desenvolveu?
O movimento de Stepan Bandera, o agora "herói
nacional" oficial do Estado ucraniano, e ao qual o batalhão Azov e outros
grupos pró-nazis constantemente prestam homenagem, desenvolveu-se a partir de
1929, na Ucrânia polaca e na Ucrânia eslovaca. Não estava, contudo, presente na
Ucrânia soviética e ortodoxa. Os "banderistas", como as outras
correntes do "nacionalismo ucraniano", eram anti-judeus, anti-russos
e, também, violentamente anti-polacos. Atacavam de forma igualmente radical
ucranianos não-autonomistas e ucranianos que tinham permanecido próximos da
Rússia.
Estas bandas de auxiliares da polícia alemã, já em 1939, na
Polónia ocupada, e, depois, a partir de 22 de junho de 1941, na URSS ocupada,
formaram um autodenominado “exército de insurreição”, a UPA. Estes 150.000 a
200.000 criminosos de guerra massacraram, indiscriminadamente, centenas de
milhares dos seus "inimigos": judeus, ucranianos leais ao regime
soviético, russos e polacos, os quais odiavam indistintamente. Tomando, apenas,
o exemplo dos polacos, é importante referir que entre 70.000 e 100.000 civis
foram mortos pelas milícias banderistas, durante a guerra. O argumento de
propaganda popular de que o Estado polaco acolheu calorosamente os
"vizinhos" ucranianos, sentimentalmente tão perto, é, à luz desta
longa história criminosa (iniciada antes da guerra), grotesco.
Em 1944, quando a União Soviética recuperou o controlo de toda a Ucrânia,
incluindo Lvov (em julho), 120.000 destes criminosos de guerra fugiram para a
Alemanha. Os Estados Unidos usaram-nos, ao chegar, na primavera de 1945.
Um livro sobre o assunto, disponível online em inglês, Hitlers Shadow,
foi publicado por dois historiadores americanos. É ainda mais interessante é o
facto de os seus dois autores serem historiadores acreditados pelo Departamento
de Estado, com quem trabalham oficialmente sobre a história do extermínio dos
judeus: Richard Breitman e Norman J.W. Goda. Estes autores mostram como os
Estados Unidos, assim que chegaram à Alemanha, na primavera de 1945,
recuperaram todos os criminosos de guerra, alemães ou não. Alguns dos
banderistas permaneceram na Alemanha, nas zonas ocidentais, principalmente na
zona americana, sobretudo em Munique. Outros banderistas foram recebidos de
braços abertos nos Estados Unidos, através da CIA, em detrimento das leis de
imigração, enquanto outros permaneceram na Ucrânia Ocidental.
Este último grupo, com dezenas de milhares de homens, travou
uma guerra inexpidável contra a União Soviética: entre o verão de 1944 e o
início da década de 1950, assassinou 35.000 funcionários civis e militares, com
o apoio financeiro alemão e americano, o qual foi particularmente elevado em
1947-1948. Um excelente historiador germano-polaco, Grzegorz Rossolinski-Liebe,
demonstrou que o banderismo continua a ser, hoje, um terreno de reprodução
pró-nazi inextinguível: os inúmeros herdeiros de Bandera têm igual ódio por
polacos, russos, judeus e ucranianos que não são fascistas. Escusado será dizer
que este investigador tem tido grandes problemas de censura, desde a Revolução
Laranja de 2004, e, sobretudo, na era Maidan, especialmente desde que estudou
como, desde 1943, os banderistas fabricaram a lenda de "resistência aos
nazis", tal como a vermelhos e judeus. Uma lenda muito útil para que
aqueles grupos possam ser incluídos na lista de grupos
"democráticos", apoiados por Washington.
Quais foram as consequências desta colusão?
Entre os criminosos de guerra calorosamente acolhidos pelos
Estados Unidos, os intelectuais tiveram um acolhimento particular. Desde 1948,
foram recrutados em grande número por universidades americanas, sobretudo as da
Ivy League, incluindo Harvard e Columbia. Nos "Centros de Investigação
sobre a Rússia", que proliferam desde 1946-1947, aqueles intelectuais
participaram, juntamente com os seus prestigiados colegas americanos, numa
frenética guerra ideológica contra a Rússia. É neste contexto que é difundida a
lenda do "Holodomor", cujas aventuras pontuaram, desde então, as
etapas decisivas da conquista da Ucrânia. Esta "investigação" e este
"ensino", implantados há mais de 70 anos, e espalhados massivamente,
com a ajuda dos principais meios de comunicação social, ao longo de décadas na
Europa americana, literalmente "apodreceram" os conhecimentos
"ocidentais" sobre a história da Ucrânia (e, mais amplamente, sobre a
da URSS).
Os apoios políticos do Euromaidan, avatar destas inúmeras
revoluções coloridas dos últimos vinte anos, formaram a espinha dorsal de 2014,
fazendo uma aliança com oligarcas que, desde 1991, monopolizam toda a riqueza
da Ucrânia. Note-se que este tipo de saque não é exclusivo da Rússia de Putin,
sendo observado em quase todos os países da ex-União Soviética. Na Ucrânia, os
oligarcas confiaram nestes elementos herdeiros do banderismo. O Estado ucraniano
de Poroshenko e os seus sucessores, desde 2014, confiaram abertamente nestes
movimentos nazis que os Estados Unidos alimentaram, incansavelmente, desde
1944-1945.
Os Estados Unidos tinham como programa explícito, codificado
em junho de 1948, no âmbito da CIA, a liquidação, pura e simples, não só da
zona de influência soviética, mas o próprio Estado soviético. Foi sob a
administração democrata que foi posta em prática a política de repulsão ou de
"retrocesso", com o objetivo de esmagar o comunismo onde quer que
fosse que este se encontrasse instalado (e impedindo-o de se instalar em zonas
de influência americana). Como uma série de trabalhos históricos têm
demonstrado, incluindo o trabalho de investigadores americanos com uma forte
ligação ao aparelho de Estado, e muito antissoviéticos, este programa foi
definitivamente implementado pela CIA, desde o seu nascimento, em julho de
1947.
Podemos compreender a sua extensão graças ao texto de
fevereiro de 1952 de Armand Bérard, um diplomata francês, em Bona, a quem cito
em Aux origines du Carcan européen. Bérard profetizava que a
Rússia, tão enfraquecida pela guerra alemã travada contra ela, entre 1941 e
1945 (27 a 30 milhões de mortos, com a URSS da Europa devastada) capitularia
sob os golpes dos Estados Unidos e da Alemanha de Adenauer, oficialmente
perdoado pelos seus crimes e rearmado até aos dentes. Moscovo acabaria por
ceder toda a Europa Central e Oriental, que era a sua "zona de
influência" e que tinha sido alvo de "mudanças fundamentais, de natureza
democrática, que, desde 1940, ocorreram na Europa de Leste". Estas
são as palavras deste diplomata "ocidental". E a data de 1940
refere-se à então sovietização dos Estados bálticos e de uma parte da Roménia e
da Polónia, cada um destes países mais fascista do que o outro.
Foi, no entanto, necessário, esperar alguns anos.
Depois de 1945, este tipo de projeto exigia tempo, uma vez
que o governo soviético era menos antipático aos olhos do seu povo, assim como
dos povos vizinhos, do que a história de propaganda "ocidental" nos
quer fazer crer. Mas foi conduzido com uma notável continuidade e enormes meios
financeiros. Toda a população foi visada, ainda que tenha sido dada uma
especial atenção ao Estado e às elites intelectuais do país, as quais
cconstituíam uma questão prioritária, procurando-se separá-las do Estado
soviético. O esforço acelerou-se consideravelmente após a vitória dos EUA de
1989, e com uma maior eficiência, num momento em que a Rússia conhecia uma
década de decadência total. Recorde-se que, sob Ieltsin, as potências
estrangeiras, com os Estados Unidos em primeiro lugar, impuseram a sua lei, a
economia russa foi vendida por um nada e entrou em colapso, a população caiu
0,5% por ano (de forma especialmente dramática na Sibéria e no Extremo
Oriente), sendo que, em 1994, a esperança de vida da população russa diminui
drasticamente (de quase dez anos, para os homens).
Durante estes anos, o trabalho de formiga germano-americano,
que Breitman e Goda descreveram para os anos 1945-1990, obviamente que se
intensificaram. Certamente, a National Endowment for Democracy (NED),
querida a Victoria Nuland, a eminência das administrações Bush e, depois, de
todos os seus sucessores democratas, Biden incluído, acaba de apagar do seu
site os seus ficheiros de financiamento, até agora públicos (pelo menos, em
parte), da secessão da Ucrânia e da sua inserção no aparelho de agressão contra
a Rússia. Mas o site do Departamento de Estado não censurou as declarações, de
13 de dezembro de 2013, da Subsecretária de Estado Nuland, a senhora das boas
obras de Maidan, tão presente em Kiev em fevereiro de 2014, perante o
Congresso: Nuland orgulhosamente declarou que, desde a queda da URSS (1991), os
Estados Unidos tinham investido mais de 5 mil milhões de dólares para ajudar a
Ucrânia. Tratava-se, naturalmente, de assegurar o controlo definitivo da
agricultura e da indústria ucraniana, o objetivo final desta longa cruzada. Mas
também trazer este país para a NATO, da qual são membros quase todos os países
da antiga zona de influência soviética e várias das antigas repúblicas
soviéticas. Isto foi admitido há muitos anos. Isto foi, aliás, claramente
reafirmado pela “Carta de Parceria Estratégica EUA-Ucrânia”, assinada em 10 de
novembro de 2021 pelo Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e pelo
Ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Dmytro Kuleba: o seu conteúdo
consta, aliás, da redação da "Resolução de 16 de dezembro de 2021 sobre a
situação na fronteira ucraniana e nos territórios da Ucrânia ocupados pela
Rússia", orgulhosamente exibida pelo Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
A partir de então, tornava-se necessário colocar Moscovo a,
pelo menos, 5 minutos das bombas atómicas armazenadas, desde as origens do
Pacto Atlântico (por vezes, desde o início dos anos 50), nos países membros da
NATO. Bastava exacerbar a disputa da miséria infligida pela Ucrânia de Maidan
ao povo de Donbass, em flagrante violação dos acordos de Minsk. Sobre estas
misérias e sobre a violação dos acordos de que Paris e Berlim foram
"garantes", a propaganda ocidental manteve-se silenciosa de 2014 a
fevereiro de 2022.
A conjuntura histórica e os desenvolvimentos desde 1989, seriamente agravados
desde 2014, têm encurralado a Rússia. Todos os observadores razoáveis apontam
que a Rússia iniciou a guerra contra a Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022, uma
vez entrincheirada contra a sua vontade. Este passo faz lembrar o que a União
Soviética deu no final de 1939.
O que quer dizer com isso?
Este é um elemento essencial. No final de 1939, a União
Soviética tentou, com sinceridade, negociar com a Finlândia, apresentada pelos
arquivos históricos e militares como um aliado puro e simples da Alemanha Nazi.
Desde 1935, esta última havia instalado, na Finlândia, uma série de aeródromos
militares e de bases para atacar a URSS - que, na realidade, foram cedidas à
Alemanha, tendo sido, de facto, usadas, durante a guerra de agressão
alemã à URSS. Moscovo falou, em vão, durante semanas, com a Finlândia, anteriormente
parte do Império Russo, mas que em 1918-1919 se havia tornado num país-chave do
"cordão sanitário" anti-bolchevique. Os soviéticos pediram-lhe que
trocasse parte do seu território, para criar uma zona tampão de defesa sólida
em torno de Leningrado, por um território maior (soviético). As discussões
falharam, sob pressão da Alemanha e de todos os países "democráticos"
que, como um diplomata fascista italiano declarou na altura, sonhavam com uma
"Aliança Sagrada" geral contra os soviéticos.
A URSS invadiu a Finlândia em 30 de novembro de 1939. Teve,
então, de enfrentar uma propaganda do mesmo tipo daquela que, atualmente, é
difundida, assim como sanções (incluindo uma exclusão da Liga das Nações,
unanimemente acordada em 14 de dezembro). Tratava-se, no discurso em vigor, de
combater o monstro soviético e de proteger a pobre Finlândia, e o Vaticano do
pró-nazi Pio XII ficou tão incomodado como o atual papa com os "rios de
sangue" ucranianos. A "guerra de Inverno", num país-chave do
"cordão sanitário", no qual a população tinha sido
"preparada" incansavelmente contra o comunismo e a URSS, durante mais
de vinte anos, foi terrível.
Com dificuldade, o Exército Vermelho conseguiu derrotar a
Finlândia. Em 12 de março de 1940, o acordo alcançado deu a Helsínquia
exatamente o que Moscovo havia proposto em 1939 - o que, sem dúvida, permitiu
proteger Leningrado da invasão. É significativo que a atual campanha de
propaganda pregue o longo período de neutralidade que a Finlândia no pós-guerra
observou, isto, contudo, depois de a Finlândia pró-nazi, como se esperava, ter
feito a guerra ao lado da Alemanha.
Isto relembra, então, a situação atual da Ucrânia?
Sim, se nos cingirmos a factos históricos, e não nos
limitarmos a dizer que estamos perante um monstro louco. Leio, hoje, em
petições ou em jornais de referência, que Putin está a incendiar e a incitar um
derramamento de sangue numa Europa, até agora, calma e tranquila. Mas não
ouvimos estes intelectuais, recrutados maciçamente pela imprensa mainstream, e
revoltados contra o "novo Hitler", manifestarem-se contra as centenas
de milhares de mortes dos bombardeamentos americanos e europeus no Iraque, na
Líbia, no Afeganistão, na Síria. As mesmas pessoas que amaldiçoam Putin acharam
magníficos os 78 dias de bombardeamentos contra Belgrado e contra o "novo
Hitler", Milosevic. A comparação, refira-se, tem sido aplicada a todos os
"inimigos" que o Ocidente forjou, desde a nacionalização de Nasser do
Canal do Suez.
Também não me lembro de nenhuma importante indignação destes
novos anti-nazis por causa das 500.000 crianças que morreram no Iraque, por
falta de comida e de cuidados médicos, como consequência imediata do bloqueio
anglo-americano; crianças, aliás, cujo sacrifício "valeu a pena",
segundo as declarações recentes da ex-secretária de Estado democrata Madeleine
Albright. Porquê esta sistemática aplicação de dois pesos, duas medidas, também
usada no que concerne as populações martirizadas de Donbass (e que Putin é
acusado de ter instrumentalizado durante oito anos contra a tão simpática
Ucrânia)?
Esta guerra, por mais lamentável que seja, foi anunciada há
muito tempo, e as razoáveis vozes de militares, diplomatas,
académicos, a Oeste, que não têm acesso a nenhum órgão importante dito de
"informação", privado ou estatal, são categóricas sobre as
responsabilidades exclusivas, e de longa data, dos Estados Unidos, no
desencadear de um conflito que eles próprios tornaram inevitável.
Na sua opinião, como é que será o futuro?
Não me pronuncio sobre o futuro, pois os historiadores não
têm de desempenhar o papel de meteorologistas, especialmente tendo em conta a
informação execrável a que, atualmente, têm acesso. Mas posso afirmar que os
Estados Unidos são o poder imperialista cujas guerras de agressão acumularam,
desde o fim da Segunda Guerra Mundial, milhões de mortes. Recomendo, aliás, o
livro traduzido de William Blum, um antigo funcionário da CIA (estes são os
melhores analistas), que estabeleceu uma estrita cronologia dos crimes
cometidos pelos Estados Unidos contra uma série de Estados qualificados de
"bandidos".
A Rússia nem sempre foi considerada como tal pelo
"Ocidente", na época da "Grande Aliança" e do "Tio
Joe" (José Estaline). Até às últimas décadas de propaganda unilateral
"ocidental" sobre a libertação da Europa – segundo a qual, a
libertação teria ocorrido graças, unicamente, ao desembarque americano, em
junho de 1944 -, havia sido amplamente reconhecido que só o Exército Vermelho é
que tinha conseguido derrotar a Wehrmacht, e a que custo! De acordo com estimativas
recentes, os Estados Unidos têm a deplorar, durante a Segunda Guerra Mundial,
um total inferior a 300.000 mortes (todas, de militares), nas frentes do
Pacífico e da Europa. Nesta entrevista, há pouco, já havia referido o
monstruoso número de perdas soviéticas: 10 milhões de baixas militares e 17 a
20 milhões de vítimas civis.
Até agora, a Rússia, soviética ou não, não semeou ruínas em guerras externas.
Tem sido objeto de uma ininterrupta agressão das grandes potências
imperialistas, desde janeiro de 1918. Não digo isto porque sou uma seguidora de
Putin. Todos os documentos de arquivo apontam nesta direção, diplomatas
ocidentais e militares são os primeiros a sabê-lo e a admiti-lo, na sua
correspondência não destinada a publicação: ou seja, o tipo de documentação que
tenho vindo a estudar, há mais de cinquenta anos. Com o meu trabalho, e graças
a uma reflexão sobre a conjuntura atual, estou, apenas, a exercer a minha
profissão de historiadora..
1[NT] A Galicia foi uma província do Império Austríaco, formada
em 1772, a partir dos territórios polacos anexados durante a primeira divisão
da Polónia. Permaneceu austríaca até ao final da Primeira Guerra Mundial.
2[NT]
Uniatismo: conjunto de comunidades cristãs, de rito oriental, que reconhecem a
autoridade papal ou que se encontram ligadas à Igreja Católica.
Fonte:https://www.investigaction.net/fr/annie-lacroix-riz-il-y-a-un-contexte-historique-qui-explique-que-la-russie-etait-acculee/,
publicado e acedido em 28.03.22
Tradução: AMS
domingo, 18 de dezembro de 2022
Jorge Figueiredo - A Biblioteca de Estaline, por Geoffrey Roberts
* Jorge Figueiredo
Stalin's Library foi escrito por um professor
de história irlandês da Universidade de Cork, Geoffrey Roberts. Trata-se de um
homem de formação conservadora que julgou conveniente acrescentar-lhe um
subtítulo: “A Dictator and his books”. A sua ambição é fazer
uma biografia (intelectual) daquele dirigente soviético através dos livros por
ele lidos. A abordagem é pelo menos original e o autor tem credenciais como
perito em história soviética. Anteriormente publicara uma biografia do general Jukov (Stalin's General) e uma obra com mais
fôlego: Stalin's Wars: From World War do Cold War.
Os viéses da sua abordagem são
evidentes logo na primeira linha da introdução, em que classifica Estaline como
“um dos mais sangrentos ditadores da história” (sic). A afirmação é
factualmente errada pois houve muitos outros chefes de Estado que o superaram.
Poderia ter-se referido a Churchill, por exemplo, que foi responsável por
muitíssimo mais mortes do que Estaline; ou pelo rei dos belgas que com a
tecnologia do século XIX conseguiu matar mais de dois milhões de habitantes do
Congo; ou por Napoleão Bonaparte que dizimou exércitos inteiros. E isso sem
remontar à história mais antiga como os massacres de Gengis Khan (século XIII)
e de Tamerlão (ou Timur) no século XV (diga-se de passagem que hoje Timur é
considerado o herói nacional do Uzbequistão, com direito a uma enorme estátua
na praça principal de Tashkent e a um mausoléu em Samarcanda).
Naturalmente, nos meios em que se
move autor, diabolizar Estaline é obrigatório pois dá garantias de
“respeitabilidade académica” & carreira. Entretanto, abstraindo esse parti
pris, merece exame o aspecto principal da sua investigação. O autor
teve acesso a muita documentação e entrevistou numerosas pessoas em Moscovo,
beneficiando-se de trabalhos anteriores já feitos. A sua estimativa é de que a
biblioteca de Estaline continha ao todo cerca de 25 mil livros. Note-se que
“biblioteca” neste caso é mais um conceito do que uma realidade física pois estava
espalhada por vários locais.
Um dos pontos com interesse é que
grande parte dos seus livros continham anotações (pometki, em
russo) do próprio Estaline, o que é uma indicação espontânea dos seus graus de
interesse nas obras que lia. Elas podiam ser simples sublinhados, sinais de
exclamação, de riso (“ah, ah”), de desprezo (“tagarelice”,
“absurdo”, “lixo”, “asqueroso”, “patife”), efusivas (“sim,
sim”, “concordo”, “bom”, “acertou em cheio”, “certo”), dubitativas (“m
da”, que numa tradução livre poderia ser “realmente?”, “tem certeza?)
ou organizativas (numeração de tópicos). Uma anotação frequente era o “NB”, do
latim nota bene (atenção), mas muitas vezes havia frases
inteiras com juízos mais elaborados. Verificava-se também que a leitura de
certas obras foi abandonada, talvez com menosprezo, pois as anotações foram só
nas primeiras páginas e nas conclusões.
A parte principal da biblioteca
ficava na casa de campo (dacha) de Estaline próxima do
Kremlin, a 10 minutos de viagem. Durante a II Guerra, quando a tropa nazi se
aproximava de Moscovo, toda a biblioteca foi encaixotada e despachada para
Samara (a 1000 km) – mas o próprio Estaline permaneceu o tempo todo em Moscovo.
Após a sua morte o PCUS considerou transformar aquela dacha num
museu dedicado a Estaline, mas a ideia foi posteriormente vetada por Krushov.
Em consequência, e lamentavelmente, a biblioteca foi parcialmente dispersa por
vários organismos estatais.
Estaline era um leitor voraz e,
como diz Roberts, “raramente lia para confirmar o que já sabia ou acreditava.
Ele lia para aprender algo novo”. A gama dos seus interesses era vasta. Além
dos clássicos do marxismo, tinha especial interesse por história russa e de
outros países, história e estratégia militar, biografias, memórias, diplomacia,
filosofia, economia política, finanças, agricultura, indústria, a questão
nacional, estatísticas, etc. A pedido da sua bibliotecária chegou a fazer um
sistema de classificação/arrumação da sua biblioteca, com cerca de 30 tópicos
(p. 66 do livro).
Ele também lia cuidadosamente o
que escreviam os seus inimigos: as obras de Trotsky constavam na sua
biblioteca. Os três volumes da auto-biografia de Bismarck, o grande mestre
da realpolitik, foram por ele lidos e anotados minuciosamente.
As quatro obras de Genrik Leer, estratega do século XIX considerado como o
Clausewitz russo, foi por ele estudado. Mas o seu teórico de estratégia
favorito parece ter sido Boris Shaposhnikov, um antigo oficial czarista que
aderiu ao Exército Vermelho em 1918. O que mais apreciava em Shaposhnikov era a
combinação da grande estratégia com pormenores organizacionais críticos. Por
outro lado, Estaline tinha consciência das suas limitações pois chegou a pedir
a um professor de filosofia especialista em Hegel que lhe desse explicações
acerca da dialética hegeliana (fica-se a pensar se algum dos nossos governantes
contemporâneos se atreveria a uma tal proeza).
No campo da literatura
propriamente dita, Estaline também lia por prazer. Tinha um vasto conhecimento
da literatura clássica russa (Gogol, Pushkin, Dostoievsky, Turgeniev, ...) e
estrangeira: Shakespeare, Heine, Balzac, V.Hugo, Guy de Maupassant e outros
escritores da Europa ocidental. Entretanto, não apreciava o vanguardismo pois
considerava-o como pouco acessível à massa dos leitores. O romance A
Mãe, de Gorki, estava todo anotado por Estaline, mas o que realmente o
excitou foi a frase de um personagem, ex-camponês tornado operário:
“Ajude-me! Deixe-me ter livros – livros que quando um homem os ler já não seja
capaz de descansar. Que coloquem um ouriço espinhento nos seus cérebros. Diga
às pessoa da cidade que escrevem para escreverem também para os aldeões. Que
escrevam uma verdade tão candente que faça ferver a aldeia, que o povo até
corra para a morte” (p. 94).
Estaline considerava que se podia
aprender de reacionários e que não se deveria confundir um escritor com a sua
obra artística. Deu como exemplo o Almas mortas, romance de
Gogol cujo título refere-se aos servos da sociedade czarista: “Gogol foi
sem dúvida um reacionário. Ele era um místico. Era contra a abolição da
servidão... Mas... a verdade artística das Almas mortas de
Gogol teve um enorme impacto sobre várias gerações da intelligentzia revolucionária...
As visões de mundo dos escritores não deveriam ser confundidas com o impacto
das suas obras sobre os leitores” (p. 179). Esta visão nuançada é plasmada na
sua tese acerca da autonomia relativa da super-estrutura social em relação à
sua base económica – uma contribuição positiva para a filosofia marxista, pois
demarca-a do determinismo económico bruto.
Um capítulo do livro de Roberts é
dedicado ao papel de Estaline como editor. Ele editava textos com clareza e
precisão. Muitas obras escritas por comissões de especialistas na verdade foram
tão fortemente editadas por ele que poderia ser considerado como co-autor das
mesmas. É o caso da Breve história do Partido Comunista da União
Soviética (1938), o volume dois da História diplomática (1941);
a 2ª edição da sua breve biografia (1947); o folheto Falsificadores da
história (1948) e o manual soviético Economia política (1954).
Se fosse preciso resumir, os seus critérios de edição talvez pudessem ser:
1) Manter as coisas tão simples quanto possível; 2) Evitar palavras
desnecessárias num manual didático; 3) Ter em atenção o público-alvo a que se
destina a obra; 4) Concentrar-se no assunto tratado; 5) Considerar que são as
ideias que importam, não os indivíduos – ideias num contexto teórico.
Em resumo: Mesmo com os
preconceitos deste sovietólogo irlandês, Stalin's Library é um
livro que se pode ler com interesse e proveito. Apesar da vontade permanente de
denegrir a figura de Estaline, não se pode deixar de observar que Roberts tem
um fascínio pelo objeto do seu estudo. Transparece no livro que a bagagem de
leitura ciclópica de Estaline, a seriedade com que estudava os assuntos e a sua
capacidade de trabalho gigantesca em tantas e tão diversas frentes do
conhecimento humano suscitaram a sua admiração.
18/Dezembro/2022
Esta resenha encontra-se
em resistir.info
18/Dez/22
terça-feira, 27 de abril de 2021
Fernanda Câncio - "E manda ainda o Senhor Deus pretos a este mundo"
COLONIALISMO
Relatórios da administração
colonial que denunciam "o bafio da escravatura" e uma diplomacia que
tenta negar as acusações internacionais e adiar ao máximo a mudança: Portugal e a Questão do Trabalho Forçado,
de José Pedro Monteiro, é um testemunho poderoso sobre o ocaso do Império
português.
Fernanda Cânciocoo
29 Dezembro 2018 — 15:00
"Tratados como animais
bravios", agrilhoados, chicoteados, espancados, "arrebanhados no
mato", com alta taxa de morte no transporte, mantidos décadas longe da
família, à qual eram por vezes devolvidos em "estado de morto de pé",
"grávidas e mulheres com filhos monstruosamente espancadas por abandonarem
o trabalho": as descrições e observações encontradas nos relatórios da
administração colonial portuguesa chocam pela crueza e naturalização daquilo a
que um inspetor chama, em 1949, "o cheiro a bafio da escravatura".
Apesar de os castigos físicos
serem proibidos por lei e de o próprio trabalho forçado ter sido, a partir da
publicação do Código de Trabalho Indígena, de 1928, interditado exceto
"para fins públicos" - e mesmo assim apenas quando estivesse em causa
o interesse das populações que eram para ele mobilizadas --, as autoridades
coloniais continuaram, pelo menos até aos anos 1960 (o Código de Trabalho
Indígena só é revogado em 1962, sendo substituído pelo Código de Trabalho
Rural, que deixa de ter referência racial e proíbe todas as formas de trabalho
forçado, incluindo para fins públicos), a servir de recrutadoras compulsivas
para privados - tratava-se, na linguagem de então, de "contratos com
facilidades" -- e a aceitar as punições corporais com naturalidade, como
vários relatórios reconhecem.
A candura destes relatórios e a
forma como alguns inspetores ou outros membros da administração colonial
exprimem a sua discordância e até revolta face à situação - um deles
chega a escrever, referindo, em 1949 em S. Tomé, a existência de
"grilhetas superiores a dois metros" e o facto e de o governador
certificar que "só ele podia ordenar punições": "E manda ainda o
Senhor Deus pretos a este mundo!" - é, para o leitor não
especialista, uma das grandes surpresas que resulta da leitura de Portugal e a Questão do Trabalho Forçado/Um
império sob escrutínio (1944-1962), do historiador José Pedro
Monteiro, publicado este mês, e que, nas palavras do próprio, "mobilizando
fontes inéditas, ilustra, pela voz de administradores imperiais e locais e de
testemunhas autóctones, algumas realidades laborais e sociais vigentes nas
colónias, permitindo, deste modo, cotejá-las tanto com as denúncias que se
produziram internacionalmente como com os esforços de refutação oficial, frequentemente
de natureza propagandística."
"É impressionante, no
mapa das transgressões do Código de Trabalho Indígena, o número de processos
por ofensas corporais" ", escrevia, por exemplo, em 1944, o
inspetor Nunes de Oliveira; noutro relatório, referente a São Tomé e Príncipe,
em 1947, lia-se: "Os serviçais vivem e trabalham contrafeitos, a
tal ponto que já tem havido casos de suicídio entre eles, por essa razão; eles
constituem uma considerável multidão, de algumas dezenas de milhar, dispersos
pela densa floresta, e os agentes dos patrões que têm de os conduzir, só tal
conseguem impondo-lhes uma disciplina severa, disciplina que só se consegue por
meio de sanções expeditas e bem sentidas."
"É impressionante, no
mapa das transgressões do Código de Trabalho Indígena, o número de processos
por ofensas corporais" ", escrevia em 1944 um inspetor; noutro
relatório, referente a São Tomé e Príncipe, em 1947, lia-se: "Os serviçais
vivem e trabalham contrafeitos, a tal ponto que já tem havido casos de suicídio
entre eles,"
É, recorda José Pedro Monteiro, o
mesmo ano do célebre relatório choque que o inspetor-geral da
Administração Colonial Henrique Galvão apresenta à Comissão das Colónias da
Assembleia Nacional (o nome então dado ao parlamento), no qual informa que
"o trabalho forçado ou "contratado" era a norma, as condições de
vida miseráveis, a corrupção entre as autoridades generalizada", chegando
mesmo a dizer que os escravos eram melhor tratados que os trabalhadores
forçados, já que aos primeiros, sendo sua propriedade, o dono se esforçava por
manter vivos e com saúde, enquanto que os segundos, se morriam de fome ou
exaustão, eram substituídos por mais trabalhadores "recrutados" pelo
Estado. Um excerto do relatório de Galvão: "A mortalidade infantil
atingia a percentagem de 60%. O índice de mortalidade era de 40%, mesmo entre
os trabalhadores na plenitude da vida. As figuras era mudas, estáticas. Não
gritavam, não falavam de dor. Era preciso ver com os próprios olhos, era preciso
encorajar até aqueles que queriam ver"
"Grilhetas ao
pescoço" e chicote
Nada que devesse surpreender quem
vinha lendo os documentos das inspeções "normais". Seis anos antes,
diz José Pedro Monteiro, "um relatório do Curador Geral dos Indígenas de
Angola relatava que os "indígenas" sentiam tal
"horror" pelo contrato que, no Lobito, se tinha dado um episódio em
que uns quantos se tinham lançado ao mar para lhe escapar. (...) O
mesmo curador relembrava uma nota confidencial, relativa à intendência do
Moxico, em que se informava que não havia capacidade para recrutar
trabalhadores para a Companhia de Diamantes de Angola porque todos os
"indígenas" que podiam ser recrutados tinham desaparecido. "A
excepcional mortalidade entre os indígenas em serviço naquela companhia e o
"Estado de Morto em pé" com que todos têm sido repatriados, alguns
indígenas que morrem pouco depois [de aqui] chegar, e, ainda, os que com o
corpo mutilado conservam a vida e vivem actualmente pedindo esmola, sem receber
qualquer indemnização da Companhia, constituem, como todos nós sabemos, a razão
da relutância que os indígenas mostram por aquele serviço"".
E em 1945, lê-se em Portugal e a Questão do Trabalho Forçado,
o Curador de S. Tomé dava nota de que alguns serviçais tinham ali estado 13
anos, "muito além do estabelecido pela lei como limite máximo de
permanência em "contrato", a receber metade do salário (...). Invocava-se
ainda um relatório do Inspetor Superior de Serviços Judiciais, em missão a S.
Tomé, em que se relatava a existência de trabalhadores presos com
"grilhetas" ao pescoço. (...) Turistas estrangeiros tinham
fotografado serviçais a ser chicoteados, do que decorria, segundo o
raciocínio do inspetor, que era preciso pensar estes incidentes à luz do que
vinha ocorrendo nos fora internacionais, onde os Estados Unidos vinham
censurando a solução colonial."
"Em 1945 o Curador de S.
Tomé dava nota de que alguns serviçais tinham ali estado 13 anos, "muito
além do estabelecido pela lei como limite máximo de permanência em
"contrato", a receber metade do salário (...)". Num relatório do
Inspetor Superior de Serviços Judiciais, em missão a S. Tomé, relatava-se a
existência de trabalhadores presos com "grilhetas" ao pescoço. (...)
Turistas estrangeiros tinham fotografado serviçais a ser chicoteados."
Já em 1951, o encarregado de
serviços da Inspeção Superior de Negócios Indígenas, após um introito no qual
"enaltecia a essência humanista e benévola da intervenção portuguesa em
territórios coloniais", prosseguia "desfiando um rol de iniquidades e
abusos. Referia-se à taxa de mortalidade no transporte de 650 indígenas
que era de 15,38 por mil quando comparados com os 4,25 por mil registados nas
minas da África do Sul, um trabalho, já de si, extremamente perigoso; aos
acidentes de trabalho que eram dados como ocorridos nas horas de descanso, como
forma de desresponsabilização, o mesmo recurso estatístico usado também para os
classificar como "agonias e congestões"; aos inválidos que eram
obrigados a trabalhar em S. Tomé ("verdadeiros farrapos humanos") por
salários miseráveis; que não eram pagas às famílias as indemnizações por morte
de trabalhadores em S. Tomé; que milhares de "indígenas" ficaram mais
de uma década para além do termo oficial do seu contrato sem serem repatriados;
que os salários em Moçambique e especialmente em Angola chegavam a constituir
cerca de um sétimo dos valores na África do Sul e menos de metade dos salários
da Rodésia; que mulheres de trabalhadores eram sistematicamente violadas por
grupos de serviçais enquanto outras grávidas e mulheres com filhos eram
"monstruosamente espancadas com mais de 50 palmatoadas" por terem
abandonado o trabalho.""
Muito impressionante também é um
relato de 1949, referente ao "caso dos Tongas" (filhos de
trabalhadores deslocados de outras colónias para trabalho em São Tomé, que
nunca tinham vivido na colónia dos seus pais): "Muitos deles
alegavam que desejavam reencontrar suas famílias, mas o governador-geral de S.
Tomé simplesmente entendia que era um desejo descabido, visto não conhecerem as
famílias, não saberem onde estavam nem sequer se ainda existiam. Ressalve-se
que eram indivíduos com todas as obrigações fiscais e militares cumpridas. Mas
eram também "fortes e saudáveis, educados numa vida de trabalho" e,
como tal, o seu repatriamento devia-lhes ser negado, justificava o
governador."
Não é possível saber, escreve
José Pedro Monteiro, "o destino destas populações, mas a simples ideia de
que o governador entendia possível mantê-las em S. Tomé revela os
termos do debate em matéria de liberdade de trabalho. O relatório é
ainda ilustrativo no sentido em que o funcionário da ISNI, no ensejo de
contrariar a vontade do governador, elencava um conjunto de informação crítica.
Desde logo, referia que serviçais havia que tinham estado entre 10 a 30
anos nas ilhas e que, se o seu contrato tivesse sido cumprido, o problema dos
"Tongas" simplesmente não se punha. Recuperava um trecho do relatório
do curador que os descrevia como "acabrunhados e tristes" e sem
qualquer ideia do que era um contrato livre. Como finalizava o relator:
"As expressões "os meus tongas" ou "tongas das roças"
"embora se autorizem a mudar de situação", como se diz no ofício,
cheiram ainda a bafio de escravatura"."
As descrições são arrasadoras, e
muitas até agora inéditas. Constituindo uma versão editada e revista da tese de
doutoramento do autor, investigador do Centro de Estudos Sociais da
Universidade de Coimbra, o livro procura dar a compreender "como e
porquê as modalidades de trabalho coercivo se mantiveram política e socialmente
aceitáveis no seio da burocracia imperial portuguesa por um período
consideravelmente mais longo que noutros impérios europeus; porque estavam as
propostas que procuravam pôr-lhes termo tão recuadas face às normas
internacionais; e, finalmente, porque e como foi finalmente concretizada a
reforma que lhes pôs termo, ainda que de modo meramente formal."
O historiador, de 34 anos, que
investigou em vários arquivos -- no arquivo Histórico Diplomático, no Arquivo
Histórico Ultramarino, na Torre do Tombo ("Onde havia pouca coisa"),
e também nos da Organização Internacional do Trabalho em Genebra, da ONU, nos
National Archives nos EUA bem como nos arquivos britânicos, em Kew - conversou
com o DN sobre o seu trabalho.
Houve alguma coisa que o tenha
surpreendido ou chocado particularmente nas suas leituras?
Houve relatórios que li, que
fiquei... Uma pessoa pode-se chocar. Nos debates sobre a escravatura diz-se
muito que é preciso olhar com os olhos daquele tempo. Curiosamente esse é um
dos motivos pelos quais o facto de a abolição da escravatura ter
resultado na generalização do trabalho forçado faz com que com que nas
discussões públicas a questão do trabalho forçado quase não apareça. Porque se
torna um bocadinho mais complicado poder dizer "ah, temos de olhar com os
olhos daquele tempo." Não, aos olhos daquele tempo o trabalho forçado já
era condenado de forma unânime. Não é por acaso que nos debates sobre a
escravatura se alguém quer falar do trabalho forçado vem o "isso era outra
coisa". Reforçando uma distinção legal que não é confirmada pela
continuidade das práticas.
https://www.dn.pt/pais/e-manda-ainda-o-senhor-deus-pretos-a-este-mundo-10343094.html
Fernanda Câncio - Marcelo e o Portugal mais que imperfeito
Em 2017, oito alunos de história do 12.º ano do Liceu Camões aceitaram falar com o DN sobre a forma como viam o passado imperial e colonial português. Para estranheza da própria professora, a maioria reproduziu o mito de que Portugal foi pioneiro na abolição da escravatura, em 1761 (altura em que foi abolida a escravatura apenas no território de Portugal "metropolitano" e mesmo assim não completamente). Do mesmo modo, quando questionados sobre o que sucedera aos escravos depois de em 1869 se ter dado a oficial abolição da escravatura em todos os territórios nacionais, muitos ficaram interditos. Um afirmou: "Então, deram-lhes o estatuto igual aos das outras pessoas."
Não é espantoso. A maioria esmagadora dos portugueses, atrevo-me a dizer - eis uma sondagem que gostava de ver - continua a achar que "fomos os primeiros a abolir" e desconhece totalmente o facto de à escravatura dos negros se ter seguido o trabalho forçado, só formalmente abolido em 1962. Essa realidade do trabalho forçado, que em pouco se distinguia da escravatura, atravessou o final do século XIX, a Primeira República e praticamente todo o Estado Novo. Nas leis, os negros classificados como "indígenas", ou seja a maioria da população de Moçambique, Angola e Guiné, eram excluídos da cidadania e tratados como sub-humanos - constatação que o próprio regime salazarista fez através dos seus documentos internos, como demonstra o historiador José Pedro Monteiro em Portugal e a questão do trabalho forçado (Edições 70, 2018).
A esmagadora maioria dos portugueses, dizia, desconhece estes factos, e desconhece-os não porque eles não estejam amplamente estudados por gerações de historiadores e investigadores académicos, com vasta obra publicada sobre a matéria, mas porque disso pouco tem passado quer para a discussão pública quer, o que é fundamental, para aquilo que se aprende na escola e se lê nos manuais do ensino básico e secundário. E não passa porque haja uma determinação consciente e malévola de mentir, mas porque coletivamente nos apegámos à mistificação.
O problema não é, ao contrário do que se possa crer, exclusivo de pessoas "pouco cultas". Ainda há poucos meses um reputado constitucionalista português me asseverava que o "nosso" regime colonial não foi racista. Quando lhe retorqui com alguns factos básicos - nomeadamente a instituição do trabalho forçado e a lei do indigenato - respondeu-me "era assim também nos outros países". Só ficou sem argumentos quando lhe lembrei que data de 1930 a convenção da Organização Internacional do Trabalho - só ratificada por Portugal em 1956, com prazo de cinco anos para aplicação - obrigando os signatários a acabar com o trabalho forçado no mais curto prazo possível, e que os próprios relatórios dos funcionários coloniais portugueses comparavam, até ao final dos anos 1950, a realidade do trabalho forçado à da escravatura, descrevendo castigos corporais com chicote e grilhetas e chegando a dizer que o primeiro era pior que a segunda, já que nesta ao menos o dono não estava interessado em matar o escravo já que pagara por ele, enquanto no trabalho forçado tanto lhe fazia: se morria pedia outro.
A ideia de que "não se pode olhar para a realidade do passado com os olhos de hoje", tão usada a propósito da história imperial e colonial portuguesa, soçobra perante a evidência de que estamos também a falar de coisas que se passaram há menos de 100 anos, quando outros países ocidentais já tinham iniciado a descolonização e quando eram muitas as vozes, inclusive em Portugal e nas colónias, a criticar - e a lutar contra - o que se passava. Muitos dos olhos de então já olhavam aquela realidade como a olhamos hoje, como iníqua, ilegítima e brutal.
E sim, vem todo este grande introito a propósito do discurso de Marcelo neste 25 de abril - um discurso notável, talvez o melhor que já lhe ouvi, e no qual teve a inteligência de sublinhar a sua condição de filho do último ministro das Colónias e de um dos últimos governadores de Moçambique, testemunha privilegiada (em vários sentidos) do ocaso do império e da ditadura colonial.
Esta assunção da sua condição pessoal - que aliás repetiria a seguir num encontro com capitães de Abril e jovens, no qual também fez um discurso muitíssimo interessante - tem um propósito mais ou menos claro: o de demonstrar, e bem, que o 25 de Abril é simultaneamente rutura e continuidade. Como ele, filho de um alto dignitário da ditadura que faria parte da Assembleia Constituinte de 1975 e acabaria duas vezes eleito presidente da democracia, os militares que fizeram o golpe "não vieram de outras galáxias, nem surgiram num ápice daquela madrugada para fazerem história. Traziam já consigo a sua história." E a sua história eram "as suas comissões em África, uma, duas, três, até quatro, (...) tudo em situações em que a linha que separa o viver ou morrer é muito ténue."
Eram pois os soldados do regime colonial, algozes, ocupantes, matadores, até serem os heróis da libertação. Sabemo-lo, ou devemos sabê-lo - mas saberá Marcelo distinguir entre quem retirou dessa experiência a deliberação de acabar com ela e quem, como Marcelino da Mata, a cujo enterro foi há meses como presidente, ou seja em nome de todos nós, se gabava dos seus crimes nessa guerra e louvava a ditadura?
É que esse é o problema: distinguir. E Marcelo, como a maioria esmagadora dos políticos da democracia, sejam como ele filhos de homens da ditadura ou como António Costa de oposicionistas, têm mostrado dificuldade nessa distinção e nesse olhar para trás, na capacidade de traçar a linha entre o que é admissível e até celebrável e o que deve ser censurado - porque é preciso dizer que houve coisas censuráveis e criminosas, por mais que tenham feito parte de um contexto.
Daí que seja tão bem-vinda a exortação do presidente para "que se faça história, história da história, que se tirem lições de uma e de outra, sem temores sem complexos", o reconhecimento de que "é prioritário estudar o passado e nele dissecar tudo, o que houve de bom e o que houve de mau. (...) Que saibamos fazer dessa história lição de presente e de futuro. Sem álibis nem omissões (...)."
É isso mesmo. Ou seria, se a seguir não acrescentasse: "É prioritário assumir tudo, todo esse passado, sem autojustificações ou autocontemplações globais indevidas nem autoflagelações globais excessivas (...) nem apoucamentos injustificados." É de novo a preocupação com "a visão auto flageladora da nossa história" que vimos recentemente em António Costa, preocupação extraordinária num país que até hoje se encarniça em negar "o que houve de mau" ou chega mesmo a celebrá-lo; preocupação contraditória num discurso presidencial que nos diz que temos de olhar a história também "pelo olhar dos colonizados".
Olharmo-nos pelo olhar dos "descobertos", dos submetidos, dos colonizados e dos seus descendentes não é só dizer que "nunca houve um Portugal perfeito" - a melhor frase do discurso do presidente. É sobretudo reconhecer o que desse passado mais que imperfeito resta em nós como país, denunciá-lo e combatê-lo. Aquilo, suspeito, a que Marcelo chama "excesso".
Jornalista
NOTA:
Na semana passada, escrevi sobre o Primeiro Plano Nacional Contra o Racismo e o ensino de história no básico e secundário, sob o título Implodir o padrão dos descobrimentos. Cometi erros no que escrevi e fui para isso alertada pela Associação dos Professores de História, por via de um email do seu presidente, Miguel Monteiro de Barros, pelo que me apresso a corrigir, agradecendo a retificação, que foi também colocada no artigo em questão.
Nesse artigo, lê-se: O programa de história do básico e secundário não mexe desde 2002 - ou seja há praticamente 20 anos. A responsabilidade pelos programas, como pela aprovação dos manuais, é das associações de professores - neste caso os de história; os governos limitam-se a homologar. É pois importante saber como a Associação dos Professores de História tenciona pôr em prática o plano de combate ao racismo na sua disciplina; como pensam contribuir para desfazer estereótipos e complexificar a visão romantizada dos "descobrimentos" e daquilo que se lhes seguiu, exorcizando a ideia verdadeiramente insultuosa de que o colonialismo português "não foi racista".
A APH retifica: "O documento curricular de referência já não são os programas, mas as Aprendizagens Essenciais (AE), elaboradas pela Associação de Professores de História, após consulta pública, e homologadas pela DGE (Direção Geral da Educação). O processo de elaboração das AE iniciou-se em 2016, tendo estas sido homologadas em 2018. Esta foi a primeira vez que a Associação de Professores de História foi parceira no processo de elaboração de um documento curricular basilar, nunca antes participou na elaboração de qualquer programa disciplinar, apenas foi consultora."
Parte do erro deveu-se ao facto de me ter baseado na informação que tinha recolhido em 2017 para um artigo sobre os programas e manuais, não me tendo dado conta de que entretanto (em 2018) tinha havido alterações.
Mais uma vez baseando-me nessas informações recolhidas em 2017, afirmei também no referido artigo de opinião que os manuais escolares eram aprovados (querendo dizer certificados) pela APH. Esta nega: "A Associação de Professores de História, tal como acontece com os programas, não possui quaisquer competências para "aprovar manuais". As editoras editam os manuais, sendo estes certificados, atualmente, por centros de certificação existentes em diversas universidades e institutos politécnicos, designados pela tutela. A Associação de Professores de História não tem nada a dizer sobre o assunto."


