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sábado, 11 de maio de 2024

Viriato Soromenho-Marques - A batalha pela verdade factual

* Viriato Soromenho-Marques 

(Diário de Notícias 11 maio 2024)

Quando em 1968 as forças do Vietname do Norte e da guerrilha Vietcongue iniciaram a sua poderosa Ofensiva do Tet, contra as tropas de Saigão e dos EUA, tinha eu acabado de completar 10 anos.

Lembro-me, vivamente, de como, apesar da censura, o trabalho dos repórteres ocidentais revelava cruamente, em imagens ainda hoje icónicas (como a da execução, à queima-roupa, de um prisioneiro comunista), a brutalidade da guerra. Nos lares de meio mundo, era possível ver as baixas e o sofrimento dos militares vindos das grandes cidades e do recôndito rural dos EUA. Nessa altura, a expressão “quarto poder” não era um exagero retórico, como o Caso Watergate o voltaria a provar em 1972. Contudo, os poderes que contam - o dinheiro e o seu braço político - aprenderam a prevenir, com mais ou menos sofisticação, essa liberdade capaz de manifestar a exuberância nua dos factos.

Sem o poder da imprensa livre, a Guerra do Vietname teria continuado e Nixon completaria tranquilamente o seu mandato.

Pouco antes da Ofensiva do Tet, a filósofa Hannah Arendt publicou na revista New Yorker um presciente ensaio intitulado Verdade e Política. Arendt salienta que o poder político tem uma incompatibilidade radical com a mais elementar manifestação da verdade, aquela que se limita a relatar e situar os acontecimentos nas coordenadas do espaço e do tempo: a verdade factual. A filósofa identifica até um conjunto de profissões e papéis sociais cuja essência consiste em testemunhar e defender a objetividade factual, correndo os seus praticantes o risco de ficarem sozinhos, ocupando “um ponto de vista fora do campo político”. O filósofo, o cientista, o artista, o historiador imparcial, o juiz, a testemunha e o repórter são, para ela, protagonistas de diferentes formas de dizer e defender a verdade factual.

Os factos suscitam opiniões e interpretações, mas não se confundem com elas. O conteúdo absoluto e único dos factos, é, contudo, muito frágil. Depende de validação, como ocorre nas testemunhas oculares de um crime chamadas a tribunal. Um exemplo: podem existir várias e contraditórias interpretações sobre as causas da I Guerra Mundial, mas nenhum revisionismo histórico pode anular a verdade factual absoluta de que a 4 de agosto de 1914, foi a Alemanha que invadiu a Bélgica e não o contrário.

A verdade factual está hoje em perigo por toda a parte. As democracias liberais, em recuo, cada vez mais subordinadas a interesses financeiros globais, não escapam à vontade de selecionar apenas os “factos” que satisfaçam as interpretações convenientes. A precariedade crescente da comunicação social torna-a mais vulnerável e menos independente. O assassinato deliberado de jornalistas em Gaza, pelo Exército israelita, mostra como até democracias podem ultrapassar a rudeza das autocracias.Em contracorrente, o jornalista Bruno Amaral de Carvalho publicou um livro singular: A Guerra a Leste. 8 Meses no Donbass, Caminho. Ele ousou mostrar as vozes e os rostos, as vítimas, as pessoas de carne e osso, do outro lado da Guerra da Ucrânia. Começou a conhecer o Donbass, em 2018, quando o ataque do Governo de Kiev à sua população a leste, silenciado no Ocidente, provocava a fuga de refugiados para a Rússia. A invasão de 2022 tem atrás de si uma série causal que só os factos ajudam a compreender. São um sinal de esperança, os verdadeiros repórteres que preferem arriscar testemunhar os factos, recusando serem meros repetidores de interpretações prontas a usar.

https://www.dn.pt/6555146601/a-batalha-pela-verdade-factual/


domingo, 15 de outubro de 2023

ISRAEL - Como entender o conflito israelo-palestiniano? Uma biblioteca breve pode ajudar

* Isabel Lucas 
(Público 15 de Outubro de 2023)
Ensaios históricos, filosóficos, romances, jornalismo. Os livros continuam a ser um refúgio para os que procuram entender o que parece sem sentido: a guerra.
Amos Oz costumava recorrer aos escritores russos para falar de amor e de guerra. Parecia que tinham a mesma natureza. Continham em si o conflito, a tensão, a potência da violência. Oz, o autor pacifista desaparecido em 2018, foi dos que escreveram mais sobre a cisão violenta entre Israel e a Palestina, partindo, quase sempre, do quotidiano e, através dele, dando a conhecer o que foram as últimas décadas na relação entre os dois povos. Como David Grossman ainda o faz. No ensaio, na história, proliferam títulos. Muitos não estão traduzidos, mas entre os que existem é possível fazer uma selecção breve, diversa, e entrar na complexidade que nos trouxe aqui, a este Outubro de 2023, a um dia 7 que vai ficar na história da humanidade, e do mal.
Desfazer de mitos
A ideia de que o Estado de Israel se instalou num território meio desolado, empobrecido, historicamente sem direcção, é discutida e desmontada num livro que contesta a narrativa oficial com base no sionismo. Os Dez Mitos Sobre Israel, da autoria do historiador judaico, dissidente sionista, Ilan Pappé (n. Haifa, 1954, professor na Universidade de Exeter, Reino Unido), foi publicado pela primeira vez nos 50 anos do aniversário de Israel e é um estudo profundo sobre uma terra disputada por muitos povos e de como milénios de história ajudaram a formar uma identidade. Profusamente documentado, este ensaio põe em confronto várias teses antagónicas sobre as suas origens e o percurso históricos e traz novas versões, perspectivas, textos, que permitem complexificar a interpretação tantas vezes simplista sobre o que divide israelitas e palestinianos neste momento da nossa história.
Dez Mitos sobre Israel
Autoria: Ilan Pappé
Tradução de Miguel Mata
Editora: Edições 70
240 págs., 17,90€
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Uma história longa
Como reacção ao recrudescer do movimento sionista que reclamava o direito a um país situado no lugar onde se situava a Palestina, o presidente da Câmara de Jerusalém escreveu então uma carta ao fundador do sionismo, alertando-o para os riscos que resultariam da escolha daquele lugar como a terra do povo de Israel. Ao contrário do que se dizia, a Palestina não era um território sem população e, a instalar ali o Estado de Israel, começava um processo de colonização não sem resistência. Palestina - Uma Biografia começa com esse episódio, narrado por um descendente do homem que assinou essa carta, o historiador americano-palestiniano Rashid Khalidi. Escritor, ensaísta, catedrático especialista em temas do Médio Oriente, Khalidi é um profundo conhecedor da realidade israelo-palestiniana e um opositor ao extremismo do Hamas. Aqui, temos não apenas uma narrativa de factos ordenados de forma cronológica, mas uma leitura apaixonante sobre o drama que alastra somando milhões de vítimas civis em décadas.
Palestina - Uma Biografia
Autor: Rashid Khalidi
Tradução de Carla Ribeiro
Editora: Ideias de Ler
404 págs., 19,99€
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O incómodo banal
Em 2021, o jornalista norte-americano de origem judaica Nathan Thrall publicava uma reportagem na New York Review of Books. Começava por contar o entusiasmo de uma criança palestiniana de cinco anos com o piquenique que iria fazer no dia seguinte com outras crianças da sua idade. Ele e o pai compraram comida. O jornalista especifica, dando detalhes de um quotidiano normal, antes de um acidente brutal que vitimou muitas crianças e feriu outras. O episódio serve ao jornalista para intercalar factos da vida de uma família com o horror do colectivo em que vivem israelitas e palestinianos, construindo um retrato lúcido, vivo, de uma realidade que banalizou o sofrimento tornando-o quase invisível até este momento, o momento em que o terror voltou com uma dose de violência inédita. Thrall humaniza-a e, com isso, escancara-a, tornando-nos insuportavelmente cúmplices.
Um Dia na Vida de Abed Salama
Autor: Nathan Thrall
Tradução de Sara Veiga​
Editora: Livros Zigurate
208 págs.,18,80€
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Que identidade?
“No nosso bairro o mundo era geralmente chamado ‘o grande mundo’, mas tinha também outros apelidos: esclarecido. Exterior. Livre. Hipócrita.” A voz é de uma criança que tenta situar-se num universo onde palestinianos e judeus sionistas se juntam e se dividem, ainda antes da II Guerra Mundial. Como partilham espaços culturais, ao mesmo tempo que se olham de lado nas ruas de Jerusalém. O romance autobiográfico de um dos grandes escritores israelitas, Amos Oz (1939-2018), tornou-se um clássico sobre o dilema que é sentir-se de duas culturas, uma identidade ferida por um autor-escritor que lutou pela paz, por um entendimento entre palestinianos e israelitas.
Uma História de Amor e Trevas
Autor: Amoz Oz
Tradução de Lúcia Liba Mucznick
Editora: D. Quixote
648 págs., 24,90€
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A banalidade insuportável
Em 1960, a filósofa e pensadora Hannah Arendt, judia, refugiada nos Estados Unidos, ofereceu-se à New Yorker para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann. Nazi, um dos artífices do Holocausto, fora capturado pela Mossad a 11 de Maio desse ano em Buenos Aires e levado até à justiça do Estado de Israel. Seria julgado pelas maiores vítimas do horror da II Guerra Mundial. Da viagem de Arendt a Jerusalém, saiu uma série de artigos que deram origem a um livro publicado em 1962 e protagonizado por uma noção agora célebre: a banalidade do mal. Arendt, a partir do retrato que faz daquele homem em tribunal, e do modo como o Estado de Israel através dos seus juízes se comportou, defende que o mal está tanto no agressor quanto no agredido que usa no castigo a mesma violência que condena. Polémico, o livro tem feito escola e é um dos mais instigantes documentos sobre a natureza humana.
Eichmann em Jerusalém
Autor: Hannah Arendt
Tradução de Ana Correia da Silva
Editora: Ítaca
448 págs., 20€
https://www.publico.pt/2023/10/15/mundo/noticia/entender-conflito-israelopalestiniano-biblioteca-breve-ajudar-2066786

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

"Eichmann em Jerusalém" - Hannah Arendt

 

Banalidade do Mal

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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Banalidade do Mal é uma expressão criada por Hannah Arendt (1906-1975), teórica política alemã, em seu livro "Eichmann em Jerusalém", cujo subtítulo é "Informe sobre a Banalidade do Mal".

Índice

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Os Antecedentes da Frase

No ano de 1961, em Israel, é iniciado o julgamento de Adolf Eichmann por crimes de genocídio contra os judeus, durante a Segunda Guerra Mundial. Este julgamento foi recheado de grande polêmica e controvérsias. Quase todos os jornais do mundo enviaram jornalistas para cobrir as sessões que foram tornadas públicas pelo governo israelense. Além de crime contra o povo judeu, ele foi acusado de crimes contra a Humanidade, e de pertencer a um grupo organizado com fins criminosos.
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Eichmann foi condenado por todos estes crimes e enforcado em 1962, nas proximidades de Tel Aviv.
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Uma das correspondentes presente ao julgamento, como enviada da revista The New Yorker, era Hannah Arendt.

O Livro

Em 1963, baseado em seus relatos do julgamento e em cima de todo o seu conhecimento filosófico-político ela escreveu um livro ao qual denominou "Eichmann em Jerusalém".
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Nele, ela descreve não somente o desenrolar das sessões, mas faz uma análise do "indivíduo Eichmann".
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Segundo ela, Adolfo Eichmann não possuía um histórico ou traços anti-semita e não apresentava características de uma pessoa com caráter distorcido ou doentio. Ele agiu como agiu por desejo de ascender em sua carreira profissional e seu atos foram resultados de cumprimento de ordens superiores. Ele era um simples burocrata que cumpria ordens sem racionalizar em suas conseqüências. Para Eichmann, tudo era realizado com zelo e eficiência, e não havia nele o sentimento de "bem" ou "mal" em seus atos.

A Frase

Para Hannah, ele não era o "monstro", o "poço de maldade" com que era julgado pela maior parte da imprensa. Os atos de Eichmann não eram desculpáveis e nem ele era inocente, mas estes atos não foram realizados por um ser dotado de imensa capacidade de crueldade, mas sim por um funcionário burocrata dentro de um sistema baseado em atos de extermínio.
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Em cima desta análise ela cunhou a expressão "Banalidade do Mal" para indicar que alguns indivíduos agem dentro das regras do sistema a que pertencem sem racionalizar sobre seus atos. Eles não se preocupam com as conseqüências destes, só com o cumprimento das ordens. A tortura, a execução de seres humanos ou a prática de atos do "mal" não são racionalizados em seu resultado final, desde que as ordens para executá-los advenham de estâncias superiores.
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Hannah Arendt discorre sobre a complexidade da natureza humana e alerta que é necessário estar sempre atento para o que chamou de "banalidade de atos do mal" e evitar a sua ocorrência.
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Hoje a frase é utilizada com significação universal para descrever o comportamento de alguns personagens históricos que cometeram atos de extrema crueldade e sem nenhuma compaixão para com outros seres humanos, e que em suas vidas pregressas não foram encontrados traços de traumas ou quaisquer desvios de personalidade que justificassem os seus atos. Em resumo: eles eram "pessoas normais".

Bibliografia

  • Hannah Arendt, [Eichman in Jerusalem : A Report on the Banality of Evil, New York, The Vinking Press, 1963]
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