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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Carlos Coutinho - Auschwitz I, II e III


Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945

 * Carlos Coutinho

Carlos Coutinho

10 h  · 

NÃO raro, dois grandes escritores italianos, um ateu e outro judeu, um célebre com o seu “A Lua e as Fogueiras” e outro com “É Isto Um Homem?”, um nascido em 1908 e chamado Cesare Pavese e outro em 1923 para ficar com o nome Italo Calvino, mas ambos sepultados em Turim, um guerrilheiro antifascista (partigiano) que passou um ano encarcerado no Sul da Itália (em Barcaleone, Reggio Calabria), suicidando-se em 1950, depois de escrever “Ofício de Viver”, e outro nascido nos arredores de Havana, Cuba, transitando para Siena em menino com seus os pais judeus e, pouco depois, enviado para o Sul da Polónia ocupada, como prisioneiro dos nazis em Auschwitz, onde viu e sofreu todos os horrores, até ser libertado pelo Exército Vermelho, em 1945.

De Cesare é forçoso anotar que nasceu em Santo Stefano Belbo no dia 9 de setembro de 1908 e faleceu em Turim a 9 de agosto de 1950, tinha eu uns inocentes 7 anitos menos 15 dias e muita energia duriense para a brincadeira aldeã com os outros miúdos de Fornelos. Comprometeu-se de corpo e alma na luta armada antifascista, o que lhe rendeu um pavoroso ano de cárcere no Sul da península. 

Nessa época, iniciou o seu diário “O Ofício de Viver” (Il Mestiere di Vivere”), uma autocrítica largamente desenvolvida em reflexões sobre a sua arte, os seus processos criativos e o sentido da existência da sua própria existência. 

Há que acrescentar que Pavese já não era um desconhecido quando, em 1936, publicou “Lavorare Stanca” (Trabalhar cansa), porque já havia dado à estampa vários estudos sobre casos da literatura norte-americana clássica e contemporânea, reunidos posteriormente num volume publicado postumamente em 1951 (La letteratura americana e altri saggi), além de se notabilizar como tradutor muito fiel de Daniel Defoe, Charles Dickens, Herman Melville, James Joyce, Sinclair Lewis, John dos Passos, Gertrude Stein e William Faulkner.

Legou ao mundo uma obra valiosíssima: “A lua e as fogueiras” (1958); “Antes que o galo cante” (1959); “O ofício de viver”, diário (1935-1950); “A guitarra quebrada”, romance (1960); “Entre mulheres sós” (196?); “O diabo sobre as colinas” (1962); “Férias de Agosto” (1965); “A Praia” (1965); “O Verão” (1965); “Terras do meu país” (1969); “O camarada” (1974); “Trabalhar cansa” (1998); e “Diálogos com Leucó” (2007).

Trabalhou com Italo Calvino na Einaudi, onde desempenhou um papel fundamental, como, aliás, o judeu que amparou e guiou, quando voltou da Provinz Oberschlesien, Regierungsbezirk Kattowitz, Landkreis Bielitz, a oeste de Cracóvia onde Hiter montou o complexo de campos de concentração de Auschwitz, abrangendo uma grande área industrial rica em recursos humanos e naturais. 

Havia um total de 48 campos no complexo. Os maiores eram Auschwitz I, Auschwitz II–Birkenau e Auschwitz III–Monowitz ou Buna, um campo de trabalhos forçados. 

O centro administrativo do complexo ficava em Auschwitz I, onde cerca de 70 mil pessoas morreram, na sua maioria polacos étnicos e prisioneiros soviéticos. 

Auschwitz II era o campo de extermínio ou Vernichtungslager, onde não menos 960 mil judeus, 75 mil polacos e 19 mil ciganos foram assassinados. Auschwitz III-Monowitz servia como campo de trabalho para a fábrica Buna-Werke, do conglomerado industrial IG. 

O escritor e químico Primo Levi, sobrevivente de um ano de confinamento em Auschwitz III-Monowitz e autor de “É isto um homem?”, livro de leitura angustiante sobre o que Primo viu no campo de extermínio industrializado que tinha sobre o portão de entrada “Arbeit macht frei” ( Trabalhar liberta).

A SS selecionava alguns prisioneiros, geralmente criminosos alemães, como supervisores com privilégios (os chamados kapos, alguns deles judeus que assim pensavam safar-se e minorar o sofrimento dos outros). Judeus e prisioneiros soviéticos eram geralmente os tratados da pior maneira. 

Todos os encarcerados tinham que trabalhar nas fábricas de armas associadas ao complexo, à exceção dos domingos, reservado para limpeza e banho. Dos primeiros 10 mil prisioneiros de guerra soviéticos internados, apenas algumas centenas deles sobreviveram aos cinco primeiros meses. 

No porão do bloco ficavam as celas da fome", onde os presos ficavam sem receber comida ou água, até que morressem. Aí ficavam também as celas escuras", que tinham apenas um pequeno espaço na parede para respirar e portas sólidas; os prisioneiros colocados nestas celas permanentemente na escuridão iam gradualmente sufocando à medida que o oxigénio ia rareando dentro delas. 

Às vezes, os guardas da SS acendiam velas para fazer o oxigénio acabar mais depressa; muitos dos ali aprisionados eram suspensos com as mãos amarradas para trás por horas ou mesmo dias, o que fazia que, com o passar do tempo, suas clavículas fossem deslocadas.

Em 3 de setembro de 1941, o subcomandante SS-auptsturmführer Karl Fritzsch fez uma primeira experiência bem-sucedida com 600 prisioneiros de guerra soviéticos e 150 polacos, trancando-os dentro de um dos porões do bloco 11 e gaseando-os com Zyklon-B um pesticida altamente letal à base de cianureto, com que a Bayer fez bom negócio.

Foi aí que finalmente começou a Solução Final para o problema judeu, o seu extermínio como povo que os israelitas agora tentam por outros meios concretizar na Palestina ocupada, especialmente na Faixa de Gaza. 

A primeira câmara de gás de Auschwitz era conhecida como a Pequena Casa Vermelha, uma pequena construção de tijolos convertida em instalação de gaseamento, que intensamente matou, a partir de março de 1942. Uma segunda construção, a Pequena Casa Branca, também foi convertida em câmara de gaseamento, algumas semanas depois.

No começo de 1943, estava eu para nascer, os nazis resolveram ampliar a capacidade de gaseamento em Birkenau. O crematório II, originalmente construído como câmara mortuária, com necrotérios no porão e fornos no mesmo nível do solo, foi convertido numa fábrica de assassinatos, colocando-se uma porta à prova de gás no necrotério e adicionando entradas para o Zyklon-B e aparelhos de ventilação para remover os cadáveres. 

Este sistema começou a funcionar em março. O crematório III foi construído para usar o mesmo método. Os fornos IV e V, planeados exclusivamente como centros de gaseamento, foram construídos na primavera-verão de 1943, dois meses antes do meu nascimento, já funcionavam plenamente. 

Os kapos e os Sonderkommandos eram prisioneiros com privilégios: os primeiros tinham a obrigação de manter a ordem nos alojamentos e os segundos preparavam os recém-chegados imediatamente selecionados para morrer – geralmente as crianças, os anciãos e os doentes – nas câmaras de gás, seguindo depois os seus corpos para os fornos. 

Os subcampos femininos foram construídos em Budy, Pławy, Zabrze, Gleiwitz I, II, III, Rajsko e Lichtenwerden. Eram chamados de Aussenlager (campo externo), Nebenlager (campo de extensão) e Arbeitslager (campo de trabalho).

No total, cerca de 7 mil membros das SS foram designados para servirem em Auschwitz durante toda a existência dos campos. A principal autoridade geral ali era o Departamento de Economia da SS, conhecido como SS-Wirtschafts-Verwaltungshauptamt ou SS-WVHA; dentro do WVHA, estava o Departamento D que comandava diretamente as atividades.

A Gestapo, que viria a dar aulas à nossa PIDE, também mantinha um grande escritório em Auschwitz, com funcionários e oficiais uniformizados. No seu corpo médico, Joseph Mengele deu cartas e fez experiências com intenção científica. 

Uma orquestra de prisioneiras, a Orquestra Feminina de Auschwitz, era forçada a tocar grotescamente uma música alegre, à medida que os prisioneiros passavam pelos portões a caminho do trabalho. Esta orquestra foi criada pela supervisora-SS do campo feminino, Maria Mandel que, pelas suas atrocidades, ficou conhecida como A Besta. A Bayer, então uma subsidiária da IG Farben, comprava prisioneiros de Birkenau para servirem de cobaias nos testes de novas drogas.

Heissmeyer, que considerava os judeus como animais de laboratório, comandava experiências em crianças e fez diversas experiências hdiondas, injetando bacilos vivos da tuberculose diretamente nos pulmões dos prisioneiros, na tentativa de conseguir uma vacina para a terrível doença que tantos europeus e asiáticos matou. 

No Julgamento de Nuremberga, o ex-comandante do campo entre 1940 e 1943, Rudolph Höss, declarou que Adolf Eichmann lhe tinha falado de 2,5 milhões de mortos, mas admite-se que tenham sido cerca de 4 milhões, nas contas do Museu Estatal de Auschwitz. 

Os negacionistas do Holocausto dizem que isso não passa de um mito. 

Várias indústrias alemãs construíram as suas fábricas na área, para aproveitarem o trabalho escravo proporcionado por Morowitz, criando os seus próprios subcampos, destacando-se, além da Bayer, a Siemens-Schuckert e a indústria de armamentos Krupp AG, dirigida por Alfried Krupp, um membro da família e carrasco SS. 

Uma “filósofa” judia, Hannah Arendt, que foi secretária e amante de um reitor nazi, Heidegger, foi proibida de entrar em Israel, porque, além do mais, inventou o conceito de “banalidade de mal” que absolve todos os beleguins hitlerianos, já que eles “se limitavam a cumprir ordens dos seus superiores”. 

Peço desculpa a quem foi lendo este apontamento até aqui chegar, porque talvez tenha sofrido tanto como eu a pesquisar e a reduzir ao mínimo possível o resultado das minhas irreprimíveis pesquisas. 

Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945

2024 12 19

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terça-feira, 12 de maio de 2020

"Se isto é um homem", de Primo Levi

* Primo Levi

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entrave,
Que os vossos filhos vos virem a cara.

in Se isto é um homem, tradução de Simonetta Cabrita Neto


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Entrevista a Fabio Levi, sobre Primo Levi


CENTENÁRIO
Fabio Levi, historiador
“Primo Levi disse que no Lager não encontrou monstros, mas pessoas normais, como você e eu”

Nos cem anos do nascimento do autor de “Se Isto é um Homem”, o Expresso conversou com Fabio Levi, historiador e diretor do Centro de Estudos Primo Levi, de Turim. Este sábado, na edição impressa, leia mais sobre Primo Levi, que escreveu sobre a sua experiência em Auschwitz quando o mundo ficava calado

ENTREVISTA LUCIANA LEIDERFARB
Fabio Levi é professor de História Contemporânea na Universidade de Turim. E é diretor, desde 2009, do Centro Internacional de Estudos Primo Levi, que investiga o legado do escritor. No ano em que se celebra o seu centenário, o autor de “Se Isto é um Homem” mantém uma poderosa atualidade, não só por ter partilhado o seu testemunho sobre Auschwitz, como por tê-lo aprofundado ao longo da vida.

Nascido a 31 de dezembro de 1919, em Turim, Primo Levi foi deportado para aquele campo de concentração alemão em 1944, ali permanecendo durante onze meses, os últimos da II Guerra Mundial. Judeu italiano, judeu do Piemonte, químico de formação e de profissão, trabalharia três décadas na fábrica de tintas Siva, que chegou a dirigir. Numa Europa onde a maioria dos sobreviventes se remetia ao silêncio, a experiência do Lager tornou-o escritor. Levi contou uma e outra vez a sua experiência, e nunca da mesma maneira, ao ponto de, em 1986, no seu derradeiro livro, “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, a ter abordado com o intuito “mais ambicioso” de perguntar se o mundo dos campos de concentração está morto e se não irá regressar. “Além da nossa experiência individual, fomos coletivamente testemunhos de um acontecimento fundamental e inesperado. Ocorreu contra todas as previsões: incrivelmente, na Europa, aconteceu que um povo inteiro civilizado, saído do fervilhante florescimento cultural de Weimar, seguisse a um ator cuja figura hoje causa o riso; e, no entanto, Adolf Hitler foi obedecido e louvado até à data da sua catástrofe. Aconteceu e, por isso, pode voltar a acontecer: isto é a essência do que temos para dizer”, lê-se no final do volume. Primo Levi suicidou-se em abril de 1987, um ano depois de o publicar.

De visita a Lisboa, para a apresentação no Instituto Italiano de Cultura do documentário “Primo ufficio dell’uomo: I mestieri di Primo Levi” – encomenda do Centro Internacional de Estudos Primo Levi –, Fabio Levi conversou com o Expresso sobre a vida e a obra do escritor.

Que leitura podemos hoje fazer da obra de Primo Levi?
Primo Levi fala às novas gerações, isto por três razões. A primeira é que faz um grande esforço de verdade, de contar o que realmente aconteceu. A segunda força de Levi está na sua sensibilidade moral, abordando questões que tocam diretamente a consciência do interlocutor. A terceira força é a sua habilidade de escritor que, como todos os grandes, fala para as gerações seguintes. Primo Levi é um grande nome da literatura e do pensamento contemporâneo, e tem uma capacidade de expressão que supera todas as distâncias. Estes três aspetos ajudaram-no a transmitir não uma mensagem, mas uma experiência que deve ser aprofundada. Na introdução a “Se Isto é um Homem”, ele diz que, mais do que contar o que se passou, pretendeu raciocinar sobre alguns aspetos do espírito humano. A experiência da deportação serve para a levantar problemas, para colocar perguntas. Para obrigar o interlocutor a pensar.

Nessa introdução refere-se à “infeção latente” presente em certos discursos que estão, de novo, na ordem do dia na Europa.
Sim. Vemo-los na Europa, mas sobretudo na nossa vida. Não é possível fazer uma distinção clara entre os problemas gerais do mundo e os problemas particulares dos indivíduos. Mesmo assim, Levi fez o esforço – e nisto é original – de falar sobre o homem comum. Ele disse, por exemplo, que no Lager não encontrou monstros, mas pessoas normais, como você e como eu, que sob certas condições cometeram delitos horríveis. Disse que todos somos potencialmente capazes de comportar-nos daquele modo.

Hoje assistimos a uma crescente ignorância sobre o que aconteceu há 70 anos. Como historiador, isso preocupa-o?
Não devemos esquecer que, durante 50 anos, a Europa não quis olhar para a Shoah. Só na década de 80 é que se começou a falar difusamente do Holocausto e do extermínio ocorrido na II Guerra. Temos nas costas um esquecimento muito pesado: os 70 anos são na verdade 30, saltou-se uma geração. Os filhos dos protagonistas da guerra praticamente não estiveram envolvidos numa reflexão sobre aquela tragédia. Hoje volta a haver uma menor atenção em relação ao tema e é neste sentido que o ponto de vista de Primo Levi se torna mais relevante.

Como define a escrita de Primo Levi? Ele próprio se considerou um químico que escrevia nas horas vagas – e a sua obra tem essa marca de clareza e de objetividade.
Reconduzir tudo à sua formação em química é limitador. Mas a grande precisão e a curiosidade pelo que o rodeava deveram-se obviamente a essa bagagem de químico. O primeiro relato sobre Auschwitz foi um texto a que podemos chamar de científico, escrito no campo de trânsito de Katowice, a pedido dos russos – e cujo título era “Relatório sobre as condições higiênico-sanitárias do campo de concentração de Monowitz”. Aqui, ele fez uma descrição analítica da realidade do campo, das suas condições concretas. “Se Isto é um Homem” é um livro muito diferente, que tem dentro de si muitos registos. Reúne a sua experiência pessoal, o pensamento e as sensações. Em certos momentos, inclui retratos aproximados, como se Levi fizesse um zoom sobre alguém ou sobre alguma situação.

E o humor, a ironia?
A ironia é uma constante na sua prosa. Se se pensar que o livro foi escrito quando ele tinha 27 anos, e que a experiência de Auschwitz remonta aos seus 24, 25 anos, vemos até que ponto isto foi extraordinário. Tinha de ser um escritor inato. Porém, a figura de testemunho apagou todo o resto. Determinou que o seu lado de pensador capaz de refletir sobre as questões da contemporaneidade tivesse um reconhecimento mais lento. É interessante verificar que, em quase todos os países onde está traduzido, a primeira tradução tenha sido a de “Se Isto é um Homem”, seguido de “A Trégua” e, por fim, de “Os que Sucumbem e os que se Salvam” – a trilogia de Auschwitz, de que o último volume foi escrito em 1986, 40 anos depois do primeiro. Curiosamente, nos Estados Unidos, a ordem foi outra. Ali, Levi foi “O Sistema Periódico” que o tornou famoso, e não “Se isto é um Homem”, que já estava traduzido desde 1959. Mas é uma exceção.

Quando a guerra acaba, Primo Levi passa por outra guerra, a do sobrevivente. Essa condição acompanhou-o para sempre?
Ao voltar, ele sentia uma grande necessidade de falar. Contava tudo, parecia um louco. Então alguém lhe perguntou por que não escrevia. E ele escreveu “Se isto é um homem”. Sentiu-se imediatamente aliviado. Porém, à medida que os anos passavam, a sua relação com essa experiência sofreu transformações. Levi continuou a falar dela, em particular, nas conversas que começou a dar nas escolas, no início dos anos 60, quando nenhum dos seus companheiros de deportação falava do assunto. Estes diálogos com os jovens ajudaram-no a contar melhor o que se tinha passado. Ao ponto de, em 1976, juntar a “Se isto é um homem” um apêndice com as respostas às perguntas mais frequentes que lhe eram feitas nas escolas. Nesse apêndice, ele diz textualmente: “Correndo o risco de parecer cínico, devo admitir que não sofro mais como sofria”.

O sofrimento transformou-se em reflexão?
Sim, de certo modo. Se Auschwitz é uma referência permanente, ele vai modificando o seu olhar. O último livro, “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, é de novo sobre Auschwitz, embora de um ponto de vista mais amadurecido: relata o resultado das suas reflexões 40 anos depois da deportação. Ao mesmo tempo, Levi ocupou-se de muitas outras coisas. Abordou o problema do trabalho, interessou-se pelo mundo animal, pela natureza, pela linguagem. Era um curioso sério.

Em 1987, o ano em que morreu, Levi chegou a comentar a realidade do revisionismo histórico na Alemanha. Que efeitos teve nele esta realidade?
Ele sempre se perguntou como é que foi possível os alemães fazerem que fizeram. Em 1947, quando escreveu “Se Isto é um Homem”, não sabia exatamente a quem estava a dirigir-se. Em 1958, a Einaudi fez uma segunda edição e, nessa altura, Levi disse que tinha finalmente percebido para quem é que o escrevera. E escrevera-o para os alemães, para que estes soubessem o que havia acontecido. Este reconhecimento coincide com a proposta de tradução do livro para a língua alemã, feita por um seu contemporâneo que tinha estado na resistência italiana contra os nazis. E com quem discute a tradução animadamente, frase a frase, ao longo de um ano inteiro. Em 1961, o livro é publicado na Alemanha e Levi recebe numerosas cartas de alemães a interpelá-lo. Ele fala sobre esta correspondência no último capítulo de “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, em 1986, onde diz que se deparou com um estranho paradoxo: foram os alemães inocentes, e não os culpados, aqueles que lhe escreveram a desculpar-se pelo que aconteceu na Alemanha. Ele tentou sempre compreender os alemães, mas nunca o conseguiu.

Como é que Primo Levi encarava o judaísmo?
Ele era um judeu italiano. E estes judeus nos anos 30 estavam muito bem integrados na sociedade — muitos deles estavam a caminho da assimilação. Ele mesmo chegou a afirmar que, quando era novo, ser judeu era “uma anomalia alegre”. Como os restantes judeus italianos, foi obrigado a sentir-se judeu a partir do início da perseguição, em 1938. Mais tarde, a sua relação com o judaísmo modificou-se. Levi manteve-se ateu, mas começou a estudar e a refletir sobre a sua cultura de origem, a escrever sobre os seus antepassados. O primeiro conto de “O Sistema Periódico” é uma descrição irónica e precisa do mundo do qual provinha, o mundo judaico piemontês, e dá uma atenção extrema à língua, ao dialeto daquele grupo, que era pequeno ainda que com raízes fortes na sociedade piemontesa dos anos 50 para a frente.

Diz que a perseguição marca a relação de Primo Levi com o judaísmo. E no Lager encontra também um outro mundo judaico, o da Europa central e oriental.
Com o tempo, o Lager acaba por ser um estímulo para Levi estudar o mundo judaico fora da Itália, que ele conhecia muito mal. Em Auschwitz, tinha sido confrontado com um tipo de judaísmo completamente diferente – o asquenaze, os judeus polacos, alemães, russos. Os judeus da Itália desconheciam aquele mundo, da mesma forma que este também não sabia sequer que existiam judeus italianos! Em “La Trégua”, o livro onde Levi narra a longa viagem de regresso à Itália no pós-guerra, há uma passagem divertida, em que ele e os amigos italianos encontram umas raparigas polacas. Como eles não dominam o iídiche, elas não acreditam que também são judeus.

Há dias, disse numa entrevista que falar sobre o Holocausto é cada vez mais difícil. Porquê?
Porque o tempo passa e as testemunhas diretas já cá não estão. Porque o mundo muda, a cultura se transforma e as pessoas estão muito mais atentas ao presente do que ao passado. Durante muito tempo, no século XIX e mesmo no século XX, a ideia de progresso ligou o passado ao futuro. Hoje, os jovens evitam olhar para o futuro. Têm a sensação de que provavelmente o futuro não será melhor do que o presente. E quem olha pouco para o futuro, é menos atento ao passado.


sábado, 25 de novembro de 2017

carta de um judeu grego que sobreviveu a Auschwitz

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Esta carta de um judeu grego que sobreviveu a Auschwitz esteve 70 anos à espera de ser lida

Foi escrita em 1944 e enterrada perto de um dos fornos crematórios deste complexo de extermínio na Polónia. Descoberta em 1980, só agora viu o seu conteúdo decifrado. “Não tenho medo de morrer”, escreve o soldado. “Afinal, como posso eu ter medo depois de tudo o que os meus olhos viram?”

LUCINDA CANELAS 25 de Novembro de 2017, 8:20


Prisioneiros do complexo de concentração e extermínio de Auschwitz RUI GAUDÊNCIO


Marcel Nadjari, um judeu grego que servia no Exército, chegou ao complexo de campos de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau em Abril de 1944, depois de uma viagem de dez dias. Tinha 27 anos e fora capturado pela SS em Atenas. Dois anos antes, também os seus pais e a sua irmã tinham para ali sido deportados. Nadjari não chegaria a vê-los.


Chegado ao Sul da Polónia tornou-se um Sonderkommando, nome dado aos prisioneiros que eram forçados pelos nazis a executar uma série de tarefas terríveis dentro dos campos, como limpar as câmaras de gás, retirar os cabelos e os dentes de ouro aos mortos e transportar os corpos para os fornos crematórios.

Marcel Nadjari seria mais um dos prisioneiros judeus obrigados a participar da Solução Final, perdido no meio de milhões de pessoas sujeitas aos crimes de guerra nazis, se não tivesse sido o autor de um impressionante testemunho, escrito sob a forma de uma longa carta dirigida a familiares e amigos, que enterrou em Auschwitz.

Essa carta escrita em grego foi descoberta por um estudante nos anos 1980, mas o seu conteúdo estava inacessível. Começou a ser divulgado em Outubro e só nos últimos dias ficou integralmente disponível em inglês, levando a imprensa alemã e belga a regressar, em detalhe, à história deste inestimável documento.

O facto de ter estado debaixo de terra durante quase 40 anos, sujeita à acção da humidade embora fechada numa espécie de termo guardado dentro de uma bolsa de couro, precisa o jornal belga francófono Le Vif, tornou a carta ilegível (só algumas palavras eram perceptíveis). Agora, e graças à colaboração entre um especialista informático, Aleksandr Nikitiaev, e um historiador, Pavel Polian, foi possível aceder a cerca de 90% do testemunho do homem que tantos cadáveres transportou para os crematórios.

Recorrendo a uma técnica que lhe permitiu, a partir de imagens digitais da carta, salientar os trechos que eram invisíveis a olho nu, Nikitiaev ajudou a “redescobrir” o documento que Polian decifrou.

“Não tenho medo de morrer”, escreve o soldado grego, “afinal, como posso eu ter medo depois de tudo o que os meus olhos viram?”.

A carta, com 13 páginas manuscritas é dirigida a três pessoas, entre elas ao amigo Dimitris, a quem chama Misko, e foi escrita entre meados de Outubro e finais de Novembro de 1944, aparentemente na esperança de que viesse a ser encontrada e pudesse servir de testemunho. Nadjari acreditava que os nazis chegariam a exterminar todos os judeus e receava que os crimes do III Reich ficassem por denunciar.

Com uma certa ironia
No documento que enterrou numa floresta perto do crematório n.º 3 de Auschwitz, Marcel Nadjari faz uma descrição pormenorizada de todos os horrores a que assistiu diariamente e diz que quer ver os crimes nazis expostos: “Este é o meu último desejo. Condenado à morte pelos alemães porque sou judeu.”

A sua carta, que é também um testamento, faz parte de uma série de nove documentos conhecida como os Pergaminhos de Auschwitz, todos escritos – e escondidos - por homens do Sonderkommando. Pavel Polian está a estudá-los há dez anos, segundo o site da Smithsonian, instituição norte-americana dedicada à cultura e ao conhecimento.

Estes nove relatos têm cinco autores e estão na sua maioria redigidos em iídiche (o de Nadjari é o único em grego). “São os documentos mais centrais do Holocausto”, disse o historiador russo à empresa de radiodifusão alemã Deutsche Welle, defendendo, tal como outros colegas, que haverá ainda outros relatos semelhantes à espera de serem descobertos.

Na carta de 13 páginas, e apesar do contexto terrível em que vive, Nadjari não abdica, nalguns trechos, de um certo tom irónico, sarcástico até: “[…] Ficámos aproximadamente um mês em quarentena e depois deslocaram-nos, tanto os saudáveis como os doentes. Para onde? Para onde, querido Misko? Para um crematório. Vou explicar-te em baixo o trabalho adorável que o Todo-poderoso quis que fizéssemos.”

Em seguida, o soldado transformado em Sonderkommando  fala de um grande edifício com uma chaminé larga e 15 fornos. Por baixo do jardim, diz, há duas grandes caves – uma serve para os prisioneiros se despirem, a outra é uma câmara de execução. Nesta última as pessoas entram nuas e, quando já lá estão “aproximadamente três mil”, a porta é selada e todas são gaseadas. “Respiram pela última vez depois de seis ou sete minutos de martírio”, escreve, a maioria sem sequer ter chegado a suspeitar do que estava prestes a acontecer-lhe, acreditando apenas que ia tomar um duche.

“Passada meia hora abrimos as portas e o nosso trabalho começa”, continua Nadjari, presumindo que a sua própria morte não tardará. “Carregamos os corpos destas mulheres e crianças inocentes para o elevador que as transporta para a sala com os fornos, e é aí que as põem nos fornos, onde ardem sem qualquer combustível por causa de toda a gordura que tinham.”

Garante o soldado que um corpo produz cerca de 640 gramas de cinzas e de pequenos ossos, fragmentos que os militares alemães presentes obrigam os Sonderkommando a esmagar para que todos os vestígios dos prisioneiros gaseados e queimados possam depois ser lançados ao Rio Vístula, nas imediações, procurando dissimular o rasto de tais atrocidades. “Os dramas que os meus olhos viram são indescritíveis.”

Viver para vingar os pais e a irmã
Marcel Nadjari conta ainda aos três destinatários da carta - o amigo Dimitris (Misko) Stefanidis; Ilias Koen, seu primo e membro da resistência executado em 1944; e Georgios Gounaris, uma mulher grega cuja fotografia levou para Auschwitz – que fazia parte de um grupo de cerca de 1000 prisioneiros a que os nazis chamavam “unidades especiais” (os Sonderkommando) e que esperava ser eliminado como os milhares de pessoas – judeus húngaros, polacos, gregos, franceses - que tinha já transportado para os fornos.

Consciente de que, caso chegasse às mãos dos destinatários, o seu testemunho levaria a muitas perguntas sobre a sua própria conduta, Nadjari antecipa-se: “Meus queridos, quando estiverem a ler sobre o trabalho que fiz dirão - Como fui capaz, eu Manolis [nome que chama a si mesmo], ou qualquer outra pessoa, de fazer este trabalho e de queimar [outros] companheiros crentes. No começo disse a mim mesmo a mesma coisa, [e] muitas vezes, pensei juntar-me a eles para acabar com tudo. O que me impediu de fazer isso foi a vingança. Eu queria e quero viver para vingar as mortes do [meu] Pai e da [minha] Mãe, e a da minha adorada irmãzinha Nelli.”

Ao contrário do que previra, o grego Marcel Nadjari sobreviveu a Auschwitz, acabando por morrer em 1971, aos 54 anos, nos Estados Unidos, para onde emigrara com a mulher, trabalhando como alfaiate. Chegou mesmo a escrever as suas memórias de guerra, em 1947, quando estava ainda em Tessalónica, a cidade em que nasceu, mas aparentemente nunca falou da longa carta que tinha enterrado na Polónia.

“Lembra-te de mim de vez em quando, assim como eu me lembro de ti”, diz a Misko, o amigo a quem deixa as propriedades da família, contando que ele acolha o seu primo, Ilias. “Sempre que alguém perguntar por mim, diz simplesmente que eu já não existo e que parti como um verdadeiro grego.”

Já quando a carta está perto do fim, é na irmã que o soldado volta a pensar: “Por favor, Misko, vai buscar o piano da minha Nelli à família Sionidou e dá-o a Ilias para que o tenha sempre consigo […], ele amava-a tanto e ela amava-o também.”

Segundo o diário irlandês Irish Times ou o semanário belga Le Vif, Pavel Polian, o historiador russo encarregue de decifrar o texto que as modernas técnicas informáticas recuperaram, conseguiu encontrar a filha de Marcel Nadjari para lhe entregar a carta do pai, que, 70 anos depois de ter sido escrita, foi lida em voz alta numa sinagoga de Tessalónica. Ela chama-se Nelli.

O texto a que o PÚBLICO acedeu, e que neste artigo se traduz livremente, é a versão inglesa feita pelo German-Canadian Centre for Innovation and Research a partir da alemã, por sua vez transcrita do original grego.

https://www.publico.pt/2017/11/25/mundo/noticia/esta-carta-de-um-judeu-grego-que-sobreviveu-a-auschwitz-esteve-70-anos-a-espera-de-ser-lida-1793729?page=/&pos=6&b=feature_b

domingo, 22 de novembro de 2015

noite e nevoeiro, de alain resnais





Noite e nevoeiro
Para Catarina, João, André, Sara e Pedro

Numa tarde de Novembro de 1955, numa sala um pouco sombria, um homem escreve, corrige, recria um texto que deve colar absolutamente às imagens atrozes que passam na mesa de montagem. Esse homem, é Jean Cayrol que numa espécie de sobressalto, decidiu fazer o comentário que deve acompanhar "Noite e Nevoeiro", uma curta metragem de Alain Resnais produzida por Anatole Dauman "Mesmo uma paisagem tranquila, mesmo uma planície com voos de corvos, de medas e feixes de ervas, mesmo uma estrada onde passam carros , camponeses, casais, mesmo uma aldeia para férias, com uma feira e um vagabundo podem conduzir simplesmente um campo de concentração". Foi Fredéric Towarnicki, um diplomata conhecedor de Heidegger, que pôs em contacto Resnais e Dauman. Para satisfazer a encomenda dum filme sobre campos de concentração, feita pelo Institut D'Histoire de la Seconde Guérre Mondiale, o produtor pensa imediatamente em Alain Resnais, já autor, de alguns ensaios famosos sobre pintura e de um filme proibido que punha em causa o colonialismo francês, "Les Statues Meurent Aussi", feito em colaboração com Chris Marker. À proposta responde primeiro que não. Era necessário, disse, que o filme fosse feito por alguém que tivesse vivido a experiência dos campos. Obstinado, Dauman voltou à carga. Finalmente, Resnais aceita mas com uma condição: que seja Jean Cayrol, escritor e antigo deportado, a escrever o comentário.

Durante o Verão de 1955, a difícil procura de documentos e uma rodagem não menos complicada concretizam uma empresa reputada de impossível, tanto no plano político como no artístico.

Apesar das dificuldades financeiras, o filme foi rodado a preto e branco e a cores. É assim, que Resnais aborda a montagem das imagens com as quais é necessário coexistir durante dias. Montagem e manipulação de imagens muitas vezes insustentáveis, que segundo palavras do próprio Resnais, "produzem uma forte impressão de irrealidade e dão uma sensação de vertigem àqueles que têm que fazer este trabalho. Uma primeira montagem de 40 minutos termina. Chegou o momento de a mostrar a Jean Cayrol que, aceita sustenta o olhar das imagens do futuro "Noite e Nevoeiro". A experiência é terrível. Cayrol adoece e não se resolve a rever o filme do princípio ao fim. Escreve uma primeira versão do texto, muito belo, segundo as palavras de Resnais, mas inutilizável porque está muito longe do encadeamento dos planos. É então que intervém Chris Marker. É ele que vai fazer o trabalho de adaptação ao filme, retocando o texto na sua estrutura e no ritmo para que ele entre em relação directa com as imagens. Esta versão retocada é submetida a Cayrol que aceite rever frase a frase o seu texto. Regressa então à sala de montagem, para o combate com as palavras mas sobretudo com as imagens. "Mesmo uma paisagem tranquila...".

Cada uma das imagens da fabricação de "Noite e Nevoeiro" põe assim concretamente, a cada uma dos protagonistas a questão do imostrável. Jean Cayrol, claro, mas também Hanns Eisler a quem Resnais, por sugestão de Marker, pediu para escrever a música que suporta dificilmente a coabitação com estas imagens. Michel Bouquet que regista a leitura do texto como um pesadelo, do qual diz guardar uma recordação terrível, a de Henri Colpi, um montador de som, Sacha Vierny um dos operadores de câmara, tentando regular os "travellings" nas ruínas dos campos. André Heinrich, o director de produção, todos os técnicos e Resnais, que se recorda de acordar aos gritos todas as noites que precediam o período de rodagem, e os pesadelos a desaparecer quando chegavam aos locais de rodagem.

"Noite e Nevoeiro" verá finalmente o dia da estreia. Mas terá de passar ainda por tentativas de censura, directa ou indirecta, ligadas tanto às autoridades francesas como alemãs, que contaram com a cumplicidade do historiador Philippe Erlanger, que o retirou do Festival de Cannes de 1956. Torna-se por fim no filme de referência sobre o tema, aquele que é, à sua maneira, uma trincheira inultrapassável para todas as formas de revisionismo e de apelo à violência racial.

A experiência de Jean Cayrol é, guardadas todas as proporções, um pouco a nossa, isto é a de cada espectador de "Noite e Nevoeiro", sempre próxima da dor física que procura estas imagens, e o imperativo, de as olhar até que elas se tornem inesquecíveis.

Paulo Teixeira de Sousa

http://www.apagina.pt/?aba=7&cat=1&doc=6996&mid=2

DOCUMENTÁRIO COMPLETO EM 
https://vimeo.com/45658881


Noite e nevoeiro: “Um alerta para as futuras gerações”. Entrevista especial com Marcus Mello

“A fortuna crítica do filme é imensa e majoritariamente positiva. Para François Truffaut, crítico da prestigiada revista Cahiers du Cinéma à época do lançamento de Noite e Nevoeiro, trata-se do maior filme da história do cinema, sendo impossível falar dele com as palavras da crítica cinematográfica, pois ele ultrapassa o documentário, a denúncia ou o poema para afirmar-se como uma meditação sobre o fenômeno mais importante do século XX”, pontua o crítico de cinema.
Foto: Herdeiro de Aécio
A polêmica obra cinematográfica do cineasta francês Alain ResnaisNoite e Nevoeiro, foi a primeira a tratar do Holocausto e a apresentar “imagens até então desconhecidas dos campos de concentração nazistas, nos quais seis milhões de judeus foram brutalmente exterminados”. Produzida dez anos depois da Guerra que chocou o mundo, Noite e Nevoeiro abordou “um acontecimento ainda recente, que permanecia como uma chaga incomodamente aberta, a ser necessariamente enfrentada”, afirma Marcus Mello em entrevista à IHU On-Line, por e-mail.

Por Márcia Junges e Patrícia Fachin
Quase 60 anos depois da primeira exibição, “Noite e Nevoeiro se impõe ainda hoje como um modelo ético de abordagem a um objeto tão delicado, colocando em xeque versões mais espetaculares do Holocausto”, avalia o crítico de cinema. Para Mello, o longa coloca o espectador em “uma posição de grande vulnerabilidade. A memória é um bem precioso, que define a existência de cada ser humano. Ao mesmo tempo, algumas experiências são tão traumáticas que o esquecimento é a única forma de seguir vivendo. Mas este esquecimento, claro, só é admissível no âmbito individual, já que em relação ao coletivo temos obrigação de não apagar os acontecimentos terríveis de nossa história”.
Marcus Mello estará no Instituto Humanitas Unisinos – IHU na noite desta terça-feira, 25-03-2014, comentando Noite e Nevoeiro, às 20h, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros.
O filme será exibido às 19h30min, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros.
O evento faz parte da 11ª edição da Programação de Páscoa do IHU, intitulada Ética, Memória, Esperança. Uma perspectiva de triunfo da Justiça e da Vida.
Marcus Mello é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Rio Grande do Sul - UFRGS. Crítico de cinema, é editor da revista Teorema e colaborador das revistas Aplauso e Cinética. Em 2000, assumiu a função de programador daSala P. F. Gastal, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, primeiro cinema municipal de Porto Alegre, mantido pela Secretaria Municipal da Cultura.
Também organizou os livros Cinema Falado – 5 Anos de seminários de cinema em Porto Alegre (Porto Alegre: Unidade Editorial, 2001)Sublime obsessão (Porto Alegre: Unidade Editorial, 2003), de Tuio Becker, e Trajetórias do cinema moderno e outros textos (Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro; A Nação, 2007), de Enéas de Souza.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Quais foram os motivos de comoção e polêmica que Noite e Nevoeiro (Nuit et Brouillard) gerou entre o público?
Marcus Mello - A comoção se deu inicialmente pelo fato de Noite e Nevoeiro ser a primeira obra cinematográfica a abordar diretamente o Holocausto, trazendo a público imagens até então desconhecidas dos campos de concentração nazistas, nos quais seis milhões de judeus foram brutalmente exterminados. É importante notar que o filme foi lançado em 1955, apenas 10 anos após o final da Segunda Guerra Mundial e a consequente liberação dos sobreviventes desses campos pelas tropas aliadas. Ou seja, um acontecimento ainda recente, que permanecia como uma chaga incomodamente aberta, a ser necessariamente enfrentada. Outro motivo de polêmica está relacionado à nacionalidade do filme, uma produção francesa, país que após a invasão das tropas alemãs manteve um governo colaboracionista, apoiando os nazistas.
Resnais era então um jovem diretor, com apenas 33 anos de idade, conhecido por uma série de curtas bastante elogiados, como o libelo anticolonialista As Estátuas Também Morrem (1953), e ainda não havia realizado Hiroshima Meu Amor (1959) e O Ano Passado em Marienbad (1961), com os quais revolucionaria a narrativa cinematográfica. Noite e Nevoeiro era uma obra de encomenda, feita a pedido do Comitê de História da Segunda Guerra Mundial, com a intenção de ser um documento imagético sobre um dos episódios mais terríveis da história da humanidade. Mas a princípio o próprio Resnaisteve dúvidas em relação aos inúmeros impasses éticos envolvidos na produção do filme e só foi convencido a realizá-lo devido à adesão do roteirista Jean Cayrol, um sobrevivente dos campos de concentração.
IHU On-Line - Por que Noite e Nevoeiro é considerado um “dispositivo de alerta” contra o nazismo e todas as formas de extermínio?
Marcus Mello - Justamente pela forma que Resnais deu ao filme, o qual, embora seja classificado como um documentário, é na verdade um filme-ensaio. Em apenas 32 minutos, Resnais combina imagens de arquivo com filmagens com cenas do presente nos antigos campos, rodadas em cor. Por meio de um extraordinário trabalho de montagem, o jovem diretor intercala tempos históricos distintos — ainda que separados por apenas uma década — e sobrepõe a essas imagens um texto extremamente poético, assinado pelo escritor Jean Cayrol. É pela manipulação habilidosa desses elementos — imagem, texto, montagem — que Resnais transforma seu filme em um alerta para as futuras gerações, prevenindo-as sobre o fato de a barbárie estar sempre à espreita, e não apenas relegada a um passado remoto.
IHU On-Line - Qual é a importância desse documentário na narrativa sobre o Holocausto?
Marcus Mello - É enorme, não apenas por seu aspecto seminal, mas, sobretudo, pela influência que irá exercer em outros diretores que passarão a abordar o tema, como Marcel Ophuls em A Tristeza e a Piedade (1969) e Claude Lanzmann emShoah (1985). Noite e Nevoeiro se impõe ainda hoje como um modelo ético de abordagem a um objeto tão delicado, colocando em xeque versões mais espetaculares do Holocausto, como as da famosa minissérie televisiva Holocausto (1978) e as recriações hollywoodianas levadas a cabo por Alan J. Pakula em A Escolha de Sofia (1982) e Steven Spielberg em A Lista de Schindler (1993). A fortuna crítica do filme é imensa e majoritariamente positiva. Para François Truffaut, crítico da prestigiada revista Cahiers du Cinéma à época do lançamento de Noite e Nevoeiro, trata-se do maior filme da história do cinema, sendo impossível falar dele com as palavras da crítica cinematográfica, pois ele ultrapassa o documentário, a denúncia ou o poema para afirmar-se como uma meditação sobre o fenômeno mais importante do século XX.
IHU On-Line - Como analisa o recurso de mescla entre o passado e o presente nessa produção de Resnais?

Marcus Mello - Ela é fundamental para que o diretor atinja seu objetivo principal, que é justamente fazer um filme que sirva de alerta para impedir a repetição da barbárie no futuro. Este embaralhamento temporal, vale notar, será o pilar fundador da obra de Resnais, como logo confirmariam suas experiências ficcionais nos já citados Hiroshima Meu Amor e O Ano Passado em Marienbad, e ao longo de toda a sua filmografia, de Muriel (1963) a Eu Te Amo, Eu Te Amo (1968), passando por Providence (1977) e Meu Tio da América (1980), até chegar a produções recentes como Vocês Ainda Não Viram Nada! (2012).
IHU On-Line - Godard pensava que o cinema errou de modo inexpiável ao não filmar a construção dos campos de concentração. Em que sentido o documentário de Resnais “chega depois”, mas cumpre um papel importante junto à categoria da memória?
Marcus Mello - Godard, não esqueçamos, é um eterno provocador, um polemista nato, que adora lançar bombásticas frases de efeito. Provavelmente, se Resnais tivesse chegado antes e pudesse ter filmado a construção desses campos ou o próprio extermínio dos judeus, Godard teria chamado seu colega de imoral, por haver preferido registrar a barbárie ao invés de fazer algo para impedi-la. Vale lembrar que alguns dos ataques mais violentos contra Spielberg e seu A Lista de Schindler partiram de Godard. Acredito que Resnais chegou exatamente no momento em que deveria ter chegado, nem antes nem depois, e isto pode ser comprovado a cada nova revisão do filme, que, passados mais de 50 anos, mantém intacta a sua força. A propósito, Noite e Nevoeiro mostra imagens da construção dos campos, o que desde logo denuncia a fragilidade do discurso de Godard.
IHU On-Line - Em que medida o desespero de não lembrar ou de não poder esquecer são elementos importantes que aparecem nessa obra do cineasta francês?
Marcus Mello - Na medida em que a incapacidade de lembrar ou a impossibilidade de esquecer são experiências igualmente terríveis, por paradoxal que isso possa parecer. Ambas colocam o indivíduo e, por consequência, o espectador, em uma posição de grande vulnerabilidade. A memória é um bem precioso, que define a existência de cada ser humano.
Ao mesmo tempo, algumas experiências são tão traumáticas que o esquecimento é a única forma de seguir vivendo. Mas este esquecimento, claro, só é admissível no âmbito individual, já que em relação ao coletivo temos obrigação de não apagar os acontecimentos terríveis de nossa história. Essa contradição permeia o filme de Resnais do início ao fim, e faz dele uma obra que, embora se debruce sobre o passado, está dirigida ao futuro. Um futuro que esteja sempre alerta aos erros do passado, em constante vigilância para não repeti-los.
IHU On-Line - Como esse documentário dialoga com a pretensa invisibilidade que os campos tinham à época de seu funcionamento?
Marcus Mello - Por seu caráter revelatório, que mostra de forma pioneira o horror da experiência dos campos de concentração, até então conhecidos apenas através de fotografias e cinejornais. Também vale assinalar mais uma vez o fato de Noite e Nevoeiro ser uma produção francesa, país que tem uma relação bastante discutível com o regime nazista. Após o final da Segunda Guerra, muitos franceses tentaram apagar seu envolvimento com os nazistas, evitando falar sobre seu colaboracionismo com o regime de Hitler ou mesmo sobre a omissão da maior parte da sociedade diante daquele momento de exceção. Quando a guerra terminou, procurou-se dar a impressão de que todos os cidadãos franceses fizeram parte da Resistência, incluindo aí vários intelectuais de ponta, o que sabemos que não é verdade.
IHU On-Line - Em que aspectos Auschwitz e Hiroshima, outra temática de Resnais, são “possíveis” somente através da arte?
Marcus Mello - Trata-se de uma questão meramente retórica, pelo simples fato de que tanto Hiroshima quanto Auschwitzocorreram realmente, vitimaram milhões de seres humanos e não houve nada de arte ali. Pergunte a um sobrevivente deAuschwitz — são poucos, mas eles ainda existem — se aquilo só foi possível através de uma experiência artística. Certamente ele lhe dará uma resposta bastante dura.
IHU On-Line - Em que consiste o maior legado cinematográfico de Resnais, recentemente falecido?
Marcus Mello - Resnais foi um dos maiores renovadores da arte cinematográfica, ao explorar novas formas narrativas, a partir de seu interesse pelas questões envolvendo o tempo e a memória. Nesse sentido, sua contribuição à história do cinema é inestimável, fazendo esta arte atingir um outro patamar, capaz de dar conta da complexidade da experiência humana, e transformando em imagens estados de consciência até então não representados por seus antecessores.

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/529565-noite-e-nevoeiro-um-alerta-para-as-futuras-geracoes-entrevista-especial-com-marcus-mello 

sábado, 21 de novembro de 2015

Jean Ferrat - NUIT ET BROUILLARD

Ils étaient vingt et cent ils étaient des milliers 
Nus et maigres tremblants, dans ces wagons plombés 
Qui déchiraient la nuit de leurs ongles battants
Ils étaient des milliers ils étaient vingt et cent


Ils se croyaient des hommes n'étaient plus que des nombres
Depuis longtemps leurs dés avaient été jetés
Dès que la main retombe il ne reste qu'une ombre 
Ils ne devaient jamais plus revoir l'été.


La fuite monotone et sans hâte du temps 
Survivre encore un jour, une heure obstinément 
Combien de tours de roues d'arrêts et dedéparts
Qui n'en finissent pas de distiller l'espoir.


Ils s'appelaient Jean.Pierre, Natacha ou Samuel. 
Certains priaient Jésus, Jéovah ou Vichnou, 
D'autres ne priaient pas, mais qu'importe le ciel,
Ils voulaient simplement ne plus vivre à genoux,
Ils n'arrivaient pas tous à la fin du voyage.
Ceux qui sont revenus peuvent-ils être heureux ?
Ils essaient d'oublier, étonnés qu'à leur âge
Les veines de leurs bras soient devenues si bleues.


Les allemands guettaient du haut des miradors, 
La lune se taisait comme vous vous taisiez 
En regardant au loin, en regardant dehors. 
Votre chair était tendre à leurs chiens policiers.
* Jean Ferrat

On me dit à présent que ces mots n'ont plus cours
Qu'il vaut mieux ne chanter que des chansons d'amour
Que le sang sèche vite en entrant dans l'Histoire
Et qu'il ne sert à rien de prendre une guitare.


Mais qui donc est de taille à pouvoir m'arrêter !
L'ombre s'est faite humaine, aujourd'hui c'est l'été, 
Je twisterais les mots s'il fallait les twister 
Pour qu'un jour les enfants sachent qui vous étiez.


Vous étiez ving et cent vous étiez des milliers 
Nus et maigres tremblants dans les wagons plombés 
Qui déchiriez la nuit de vos ongles battants 
Vous étiez des milliers vous étiez ving et cent.

Jean Ferrat



Noite e Neblina - Jean Ferrat