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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Vijay Prashad - O socialismo amadurece lentamente | Carta semanal 21 (2026)




Olalekan Jeyifous (Nigéria), Devotos da Petrotopia 01, 2021.


* Vijay Prashad

26.05.26 

Embora o sistema capitalista recompense ciclos de curto prazo, construir um futuro digno é uma tarefa lenta que exige organização, disciplina e uma luta constante para fazer surgir as forças sociais de um novo mundo.

Queridas amigas e amigos,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Em 1921, poucos anos após o início da experiência soviética, V. I. Lenin publicou um ensaio com o título revelador Novos tempos e velhos erros sob nova aparência. O ensaio deu início a uma linha de investigação que permaneceria com Lênin até o fim de sua vida, o que ocorreu três anos depois. O que o cativou foi a questão de como construir o socialismo em um país devastado pela guerra, com um capital mínimo à sua disposição, uma sociedade predominantemente camponesa e com altas taxas de analfabetismo (cerca de 70%) e ainda sem uma administração pública capaz de administrar um Estado de orientação socialista. Nesse ensaio, Lênin reflete:

Após um esforço enorme e sem precedentes, a classe trabalhadora de um país de pequenos camponeses e em ruínas, a classe trabalhadora que, em grande parte, ficou desclassada, precisa de um intervalo de tempo para permitir que novas forças cresçam e venham à tona, e para que as forças antigas e desgastadas possam “se recuperar”. … É preciso compreender isso e levar em conta a necessária — ou melhor, inevitável — desaceleração do ritmo de crescimento das novas forças da classe trabalhadora.

Esta carta semanal será dedicada à ideia do “intervalo de tempo” necessário para que um “país em ruínas” seja ressuscitado de seu atraso e alcance o socialismo (tenho refletido sobre isso ao reler nosso dossiê n. 100, O futuro). Discutiremos essa ideia tendo em vista a lentidão com que o processo socialista amadurece, enquanto a sociedade capitalista agoniza em meio à crise. O conceito de “maturação lenta” será apresentado aqui e aprofundado posteriormente nos trabalhos do nosso instituto.


Konstantin Yuon (URSS), Povo, 1923

Todas as revoluções socialistas do mundo moderno ocorreram em países pobres, em que o campesinato predomina e a riqueza tem sido sistematicamente drenada de seu território para terras distantes. Nessas nações mais pobres, os novos governos revolucionários — seja na União Soviética (1917), no Vietnã (1945), na China (1949) ou em Cuba (1959) — tiveram de desenvolver sua própria capacidade estatal partindo praticamente do zero e reunindo recursos financeiros para a construção de infraestrutura e indústria. Nem a capacidade estatal nem o capital surgiram facilmente nesses processos revolucionários, o que os obrigou a realizar experiências que não foram devidamente documentadas. Aqui estão seis pontos elaborados a partir do que sabemos sobre esses processos, que servem como base para desenvolver uma teoria do conceito de “maturação lenta”. Convidamos você a nos escrever com suas próprias ideias sobre esse conceito, com base em suas experiências e estudos.

1. A confiança se conquista aos poucos, e é difícil abandonar velhos hábitos.
Os governos revolucionários herdam estruturas moldadas ao longo de gerações por antigas hierarquias de castas e tribais que regem as relações agrárias, pela humilhação e expropriação coloniais e pela privação social total. Os bolcheviques na União Soviética, por exemplo, descobriram rapidamente que a antiga cultura burocrática czarista não havia desaparecido em outubro de 1917. A corrupção, a deferência à autoridade e a desconfiança nas instituições coletivas persistiram durante anos. Na China, após a Revolução de 1949, o Partido Comunista enfrentou repetidamente os resquícios da hierarquia confucionista, os sistemas regionais de clientelismo e os hábitos de sobrevivência dos camponeses, forjados ao longo de séculos de insegurança. Em Cuba, após 1959, a liderança revolucionária falava abertamente sobre a criação de um “novo ser humano”, pois compreendia que a consciência socialista não poderia ser imposta por lei da noite para o dia.

As pessoas que vivem sob a violência do colonialismo e as desigualdades do capitalismo aprendem a se proteger individualmente ou por meio de redes familiares. Para que um projeto socialista tenha sucesso, as pessoas precisam aprender a confiar nos sistemas coletivos. Essa confiança cresce lentamente com a experiência – por meio de escolas que funcionam, clínicas que curam, moradias que abrigam e instituições que perduram. Uma revolução pode tomar o poder do Estado rapidamente, mas não consegue transformar a psicologia social de forma tão rápida.


Douglas-Perez-Cuba-The-porvenir-2008

2. As redes comerciais e financeiras favorecem a ordem global atual.
O capitalismo não domina apenas por meio da ideologia, mas também por meio de redes consolidadas de comércio e finanças, bem como da infraestrutura de transportes e comunicações. Os países que buscam uma transformação socialista entram em um mundo já organizado em torno da acumulação capitalista. Após a Revolução Russa, a União Soviética enfrentou dificuldades porque as cadeias de abastecimento industrial, as redes bancárias e as rotas comerciais eram controladas por potências capitalistas hostis. A experiência de Cuba após o colapso da União Soviética em 1991 demonstrou isso de forma contundente: a ilha perdeu o acesso a combustível, peças de reposição, crédito e relações comerciais praticamente da noite para o dia, pois a economia mundial estava estruturada em torno de sistemas dos quais Cuba estava amplamente excluída (e dos quais está sendo ainda mais excluída atualmente pelo embargo petrolífero ilegal imposto pelos Estados Unidos). Após a reunificação em 1975, o Vietnã enfrentou enormes dificuldades para reconstruir uma economia devastada pela guerra, mantendo-se à margem dos principais circuitos financeiros e comerciais. Os sistemas existentes se perpetuam porque todas as instituições, desde os portos até as moedas e os padrões de software, atuam nesse sentido. Construir redes alternativas leva décadas, não anos.

3. Os custos de capital e de infraestrutura são enormes nos países empobrecidos pelo colonialismo.
Quando os revolucionários vietnamitas derrotaram o imperialismo estadunidense, herdaram um país fisicamente devastado pelos bombardeios e quimicamente contaminado pelo Agente Laranja. Cuba herdou uma economia baseada na monocultura do açúcar, ligada quase exclusivamente aos Estados Unidos. Em 1949, a China emergiu de um século de humilhações e domínio dos senhores da guerra, do imperialismo japonês e da guerra civil, com baixa expectativa de vida, analfabetismo em massa e fraca capacidade industrial.

Essas revoluções tiveram que construir ferrovias e portos, escolas e instituições científicas, redes elétricas e siderúrgicas – praticamente do zero. Os países capitalistas do Atlântico Norte se industrializaram ao longo de séculos, financiados pela escravidão, pela pilhagem colonial e pelos tributos imperiais. Esperava-se que as instituições estatais socialistas dos países mais pobres que haviam sido colonizados condensassem esse processo em poucas décadas, mesmo sob bloqueio ou ameaça militar, e depois eram acusadas de falência estatal. O enorme peso material retardou a transformação.


Đặng Thái Tuấn (Vietnã), Sem título (Loja de conveniência móvel), 2021

4. Pressões externas – como sanções, sabotagem, isolamento diplomático e guerra – retardam o desenvolvimento.
Todos os Estados revolucionários do Terceiro Mundo enfrentaram cerco militar ou sanções econômicas. A União Soviética foi invadida por soldados de mais de uma dúzia de países estrangeiros após 1917 e, posteriormente, enfrentou a invasão nazista, que causou a morte de pelo menos 27 milhões de cidadãos soviéticos e destruiu dezenas de milhares de cidades e vilarejos. Cuba vem sofrendo há décadas com as sanções dos Estados Unidos, destinadas explicitamente a provocar escassez e descontentamento social. O governo da Unidade Popular (UP) do Chile tentou uma transformação estrutural, mas enfrentou uma desestabilização econômica imediata, resistência das elites e intervenção externa antes que as reformas de longo prazo pudessem se consolidar. O governo sandinista da Nicarágua enfrentou uma guerra contra os Contras, financiada pelos Estados Unidos, e a exploração dos portos do país, incluindo Corinto. O Vietnã travou uma guerra anticolonial entre 1945 e 1975.

Essas pressões consumiram recursos que teriam sido destinados ao desenvolvimento social. As sanções aumentam os custos de transação, limitam o acesso à tecnologia e geram escassez crônica. A guerra destrói a infraestrutura e redireciona a força de trabalho para a defesa. Nessas condições adversas, as ineficiências não decorrem de ideologias ou erros de planejamento, mas das condições de emergência permanente impostas por potências hostis.

5. Todo processo é ineficiente em suas fases iniciais.
Os Estados revolucionários procuram criar novos sistemas administrativos, ao mesmo tempo que ampliam os serviços de educação e saúde, além de promover a reforma agrária e o desenvolvimento industrial. Erros e confusões burocráticas, gargalos e escassez são inevitáveis. O sistema de planejamento soviético inicial enfrentou dificuldades de coordenação, pois não havia precedentes históricos para a administração de uma economia continental baseada na justiça social, em vez do lucro. As comunas e os projetos industriais da China foram prejudicados pela falta de conhecimento técnico e pela implementação local desigual. Em Cuba, a escassez de profissionais qualificados se agravou quando muitos fugiram para Miami após a revolução.

A administração pública aprende com a prática. As instituições amadurecem por meio de tentativa e erro. Espera-se que os governos socialistas dos países mais pobres alcancem eficiência de imediato, ao mesmo tempo que enfrentam embargos, baixas taxas de alfabetização e escassez de tecnologia. A ineficiência inicial não é, portanto, algo excepcional, mas sim uma característica de qualquer transformação social em grande escala.


Ming Wong (Cingapura), Ascensão ao Palácio Celestial III, 2015.


6. Os ciclos eleitorais curtos impedem a transformação social.
A transformação social exige horizontes de planejamento que se estendem por décadas — e não por ciclos eleitorais de quatro ou cinco anos, que privilegiam o consumo imediato em detrimento da reconstrução a longo prazo. Os governos revolucionários exigem paciência antes que se vejam resultados concretos. Mesmo fora dos Estados explicitamente socialistas, governos que tentam implementar programas de redistribuição ou de desenvolvimento frequentemente enfrentam sabotagem por meio de eleições antes que os projetos amadureçam. Uma política transformadora exige continuidade, mas os sistemas eleitorais, moldados pelos ciclos da mídia e pelas pressões financeiras, recompensam a gestão de curto prazo. As experiências socialistas, portanto, se depararam repetidamente com a contradição entre o tempo histórico (o longo período necessário para transformar a sociedade) e o tempo eleitoral (o ritmo acelerado da política moderna).


Eva Schulze-Knabe (RDA), Mulheres

Na peça “A Mãe” (1931), de Bertolt Brecht, a personagem principal, Pelagea Vlassova, enfrenta uma tragédia após outra até que a Revolução Russa a leva a agir. Quando ela se vê numa cozinha com várias mulheres, uma das quais reclama que o comunismo não passa de um crime, ela responde cantando:

É lógico – qualquer pessoa consegue entender. É fácil.
Se você não é um explorador, você consegue entender.
Isso faz bem para você. Dê uma olhada nisso.
Os tolos chamam de tolice, e os corruptos chamam de corrupção.
É contra o que está podre e contra a estupidez.
Os exploradores chamam isso de crime.
Mas sabemos
É o fim do crime.
Não é loucura, mas
o fim da loucura.
Não é o caos
mas ordem.
É uma coisa simples
tão difícil de conseguir.

Ao pensar em “amadurecer lentamente”, me lembrei da música da Vlassova. Vlassova trabalhou a vida inteira, mas pouco tinha para mostrar além de sua dignidade. Ela pode não ter tido uma educação completa, mas era muito esperta. Ela sabia que o comunismo era uma “coisa simples”, mas não era do tipo que vivia no mundo da fantasia. É simples, mas “difícil de colocar em prática”.

Cordialmente,

Vijay

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/o-socialismo-amadurece-lentamente-256739
https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/cartasemanal-amadurece-lentamente/

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Amilcar Cabral - Lénine e a luta de libertação nacional



Uma luz fecunda ilumina o caminho da luta

*  Amilcar Cabral

Abril de 1970

Observação: Retomamos, nesta pequena brochura, editada pela Comissão de Informações do Partido, parte dos temas abordados no nosso discurso improvisado no Symposium d'Alma-Ata - República Socialista Soviética do Cazaquistão, em Abril de 1970.

Fonte: http://www.didinho.org/Arquivo/umaluzfecundailuminaocaminh.html

Transcrição e HTML: Fernando Araújo.

 O valor e o carácter transcendente do pensamento e da obra humana, política, científica, cultural — histórica— de Vladimir llitch Lénine são há muito já um facto universalmente reconhecido. Mesmo os mais ferozes adversários das suas ideias tiveram de reconhecer em Lénine um revolucionário consequente, que soube dedicar-se totalmente à causa da revolução e fazê-la, um filósofo e um sábio cuja grandeza só é comparável à dos maiores pensadores da humanidade. 

Actualmente, não é raro ouvir políticos—mesmo os mais anti-socialistas — citar Lénine ou gabar-se de ter lido as suas obras. É evidente que não podemos acreditá-los à letra, mas isso dá bem a medida da importância (mesmo da necessidade) do pensamento de Lénine e da vastidão das consequências práticas da sua acção no contexto histórico actual. 

Para os movimentos de libertação nacional, cuja tarefa é fazer a revolução, modificando radicalmente, pelas vias mais adequadas, a situação económica, política, social e cultural dos seus povos, o pensamento e a acção de Lénine têm um interesse especial. 

Mas Lénine não deixou apenas a sua obra. Foi e continua a ser um exemplo vivo de combatente pela causa da humanidade, pela libertação económica e portanto nacional, social e cultural do homem. A sua vida e o seu comportamento como personalidade humana contêm lições e exemplos úteis para todos os combatentes da libertação nacional. Entre essas lições, as que nos parecem ser da maior acuidade para os movimentos de libertação referem-se ao comportamento moral, à acção política, à estratégia e à prática revolucionárias. 

No âmbito geral do movimento de libertação nacional, especialmente em condições como as nossas, o comportamento moral do combatente, em particular dos dirigentes, é um factor primordial que pode influenciar significativamente o êxito ou o fracasso do movimento. É evidente que a luta é essencialmente política, mas as circunstancias políticas, económicas e sociais —históricas—, em que se estrutura e desenvolve o movimento, conferem aos problemas de natureza moral uma particular importância, devido principalmente às fraquezas próprias do movimento nacional de libertação nas colónias, ao oportunismo ou às possibilidades de oportunismo que o caracterizam, às pressões e manhas utilizadas pelo inimigo imperialista, assim como à dificuldade, mesmo a impossibilidade de um controle do movimento e dos seus chefes pelas massas populares nacionalistas.

 No movimento de libertação, como em qualquer outro empreendimento humano — e sejam quais forem os factores materiais e sociais que condicionem a sua evolução —, o homem (a sua mentalidade, o seu comportamento) é o elemento essencial e determinante. 

Lénine foi um exemplo de coerência consigo mesmo e de coerência entre as palavras e os actos. Soube, através de toda a evolução característica da sua personalidade, permanecer igual a si mesmo na verticalidade das suas opções e dos seus actos. Estes sempre corresponderam às suas palavras, pois soube rejeitar o verbalismo fácil, a adulação e a demagogia. 

Lénine foi um exemplo de honestidade, de probidade, de sinceridade e de coragem. Sempre colocou acima de todas as suas conveniências a necessidade de observar rigorosamente os deveres da moral e da justiça, recusar a mentira e praticar a verdade, sejam quais forem as consequências ou os problemas que possa criar. 

Como um ser humano integral, soube amar e odiar. Amar a causa da libertação do homem de qualquer espécie de opressão, a aventura maravilhosa que é a vida humana, tudo o que há de belo e construtivo no planeta. Odiar os inimigos do progresso e da felicidade do homem, o inimigo de classe, os oportunistas, a cobardia, a mentira, todos os factores de aviltamento da consciência social e moral do homem. Sempre considerou o homem como o valor supremo do Universo. A sua dedicação às crianças tornou-se lendária pois, para ele, esses seres delicados e tantas vezes incompreendidos, vítimas inocentes da exploração do homem pelo homem, são as flores da humanidade, a esperança e a certeza do triunfo de uma vida de justiça.

A luta de libertação nacional é, como já dissemos, uma luta política que pode revestir diversas formas, de acordo com as circunstâncias específicas em que se desenvolve. No nosso caso concreto, esgotámos todos os meios pacíficos ao nosso alcance para levar os colonialistas portugueses a uma modificação radical da sua política no sentido da libertação e do progresso do nosso povo. Só encontrámos repressão e crimes. Decidimos então pegar em armas para nos batermos contra a tentativa de genocídio do nosso povo, decidido a ser livre e senhor do seu próprio destino. 

O facto de travarmos uma luta armada de libertação em nada modifica o carácter essencialmente político do nosso combate. Pelo contrário, acentua-o. Ora, não há, não pode haver acção política, seja qual for a sua forma, sem princípios bem definidos, quer sejam bons ou maus. 

No plano político, Lénine foi um exemplo de fidelidade aos princípios. Soube fazer concessões sobre a forma de reivindicações, de acções, mas nunca sobre os princípios, principalmente quando se tratava de defender os interesses da classe e da nação que representava, assim como na prática consequente de um internacionalismo desprovido de reservas, de timidez ou de condicionalismos.

É igualmente uma lição de realismo, de noção clara da possibilidade e da oportunidade política, que encontra a sua expressão máxima na decisão de desencadear a insurreição de Outubro de 1917, apesar das enormes dificuldades para vencer as hesitações e as oposições mais ou menos fundamentadas. 

Uma lição de firmeza na via determinada para conduzir a acção política, ilustrada pelo combate sem tréguas que moveu a todos os desvios «de direita» ou «de esquerda» e que tantos inimigos lhe criou.

 Ultrapassando a concepção vulgar, segundo a qual a política é a arte do possível, Lénine demonstrou que é antes a arte de transformar o que é aparentemente impossível em possível (tornar possível o impossível), rejeitando categoricamente o oportunismo. Assim definida, a acção política implica uma criatividade permanente. Para ela, como para a arte, criar não é inventar. 

A acção de Lénine é caracterizada por uma grande flexibilidade construtiva. Em cada problema, em cada facto da luta, mesmo no mais negativo, soube discernir o lado positivo para dele extrair todas as vantagens e fazer avançar a luta. Nesse âmbito, como noutros, demonstrou uma perseverança a toda a prova. 

Ele, que considerava que «os factos são teimosos», era teimoso como os factos. Confiando na opinião dos outros, apesar disso, certo de que todo o combatente tem necessidade dos outros, sempre soube mudar de opinião quando a razão — a verdade científica — não estava do seu lado.

Crítico rigoroso, mesmo violento, tanto dos seus adversários como dos seus companheiros de luta caídos em erro, Lénine soube praticar exemplarmente a autocrítica. Sabia reconhecer os seus erros e elogiar o valor dos outros, mesmo dos seus mais ferozes adversários; mas soube usar de uma severidade sem limites para atacar os que considerava como inimigos de classe e da revolução. 

Lénine sempre demonstrou uma confiança sem limites na capacidade das massas, mas soube no entanto demonstrar claramente que estas nunca deviam agir com anarquia, sem um plano bem concebido, correspondendo às possibilidades concretas de acção. Para ele, as massas nunca devem ser acéfalas. 

No âmbito geral do movimento de libertação nacional, tal como em qualquer confrontação, pacífica ou não, há a necessidade vital de descobrir as leis gerais da luta e agir com base num plano geral concebido e elaborado a partir da realidade concreta do meio e dos factores em presença. Isto quer dizer que qualquer movimento de libertação necessita de uma estratégia.

Na elaboração dessa estratégia é preciso ser capaz de distinguir o essencial do secundário, o permanente do temporário. Sem nunca confundir estratégia e táctica, a acção deve basear-se numa concepção científica da realidade, seja qual for a influência dos factores subjectivos que é necessário enfrentar. 

Também nesse plano Lénine deu uma lição muito útil aos movimentos de libertação, aos combatentes da liberdade. Tinha uma nítida consciência do valor da unidade como meio necessário para a luta, mas não como um fim em si. Para Lénine, não se trata de unir todos em torno da mesma causa, por mais justa que ela seja, de realizar a unidade absoluta, de unir-se não importa com quem. A unidade, como qualquer outra realidade, está sujeita às transformações quantitativas, positivas ou negativas. A questão é descobrir qual é o grau de unidade suficiente que pode permitir o desencadear e garantir o avanço vitorioso da luta. E, posteriormente, preservar essa unidade contra todos os factores de dissolução ou divisão, tanto internos como externos. 

Por outro lado, Lénine tinha uma consciência profunda da necessidade de conhecer o melhor possível, na luta, as forças e as fraquezas do inimigo, tal como as nossas próprias forças e fraquezas. A concepção leninista da estratégia implica que devemos agir no sentido de aumentar as fraquezas do inimigo e transformar as suas forças em fraquezas e, simultaneamente, preservar e reforçar as nossas forças e eliminar as nossas fraquezas ou transformá-las em forças. Isto é possível pela aliança permanente e dinâmica entre a teoria e a prática.

 A vida de Lénine é a aplicação consequente desta máxima dialéctica de Paul Langevin: o pensamento deriva da acção e, no homem consciente, deve regressar à acção. Isso implica que, como Lénine demonstrou através de toda a sua vida, a acção deve basear-se na análise concreta de cada situação concreta. De acordo com Lénine, tanto na luta como em qualquer outro fenómeno em movimento, as transformações qualitativas só se operam a partir de determinado nível de modificações quantitativas, o que significa que o processo da luta evolui por etapas, por fases bem definidas. Nessa base e nesta perspectiva devem ser estabelecidas as tácticas a seguir, que são incompatíveis mesmo com os recuos que, em determinados momentos, podem ser o único meio de fazer progredir a luta.

Qualquer luta é experiência nova, seja qual for a soma de conhecimentos teóricos ou de experiências práticas que lhe dizem respeito. Qualquer luta implica, portanto, um determinado grau de empirismo, mas não é necessário inventar o que já o foi: é sim preciso criar nas condições concretas em que a luta se trava. 

Ainda neste ponto a lição de Lénine é pertinente: ele detestava tanto o empirismo cego como os dogmas. A assimilação crítica (dos conhecimentos ou das experiências dos outros) é tão válida para a vida como para a luta. O pensamento dos outros, filosófico ou científico —por mais lúcido que seja—, é apenas uma base que permite pensar e agir, portanto, criar. Para criar na luta é necessário conduzi-la, desenvolver todos os esforços e aceitar os sacrifícios necessários. A luta não é feita de palavras mas de acção quotidiana, organizada e disciplinada, de todos os elementos válidos. A actividade múltipla desenvolvida por Lénine no decurso de uma longa luta é um exemplo de continuidade e consequência, de esforços e sacrifícios, assim como da capacidade para mobilizar as forças necessárias no tempo e no espaço necessários.

Demonstrando que, numa luta, as dificuldades subjectivas são as mais difíceis de ultrapassar, Lénine tinha consciência desta realidade: a luta é feita de êxitos e fracassos, de vitórias e derrotas, mas avança sempre e as suas fases, mesmo as mais idênticas, nunca se repetem, pois a luta é um processo e não um acidente, uma corrida de fundo e não de velocidade: as derrotas eventuais não podem justificar nem a desmoralização nem a desistência, porque mesmo os insucessos podem ser uma base de partida para novos êxitos. 

Essa ultrapassagem só é possível se extrairmos uma lição de cada erro, de cada experiência positiva ou negativa e partindo do princípio de que, se é certo que a teoria sem prática é uma perda de tempo, não há prática consequente sem teoria. 

Principal artífice da grande Revolução de Outubro, que modificou o destino não apenas do povo russo mas da humanidade; criador do primeiro Estado socialista; dirigente supremo da Revolução nas antigas colónias tsaristas; teórico e prático conhecedor na solução do delicado problema que representava a questão nacional no país dos sovietes; militante catalisador do movimento operário internacional — Lénine marcou o século e o futuro do homem com a sua personalidade de revolucionário, legando às gerações que lhe sucederam uma obra tão singular como cheia de lições. Para os movimentos de libertação, Lénine forneceu mais esta valiosa contribuição: demonstrou, definitivamente, que os povos oprimidos podem libertar-se e ultrapassar todos os obstáculos para a construção de uma vida de justiça, de dignidade e de progresso. 

É desejável que, independentemente das suas tendências ou opções políticas, os autênticos movimentos de libertação possam beber nas lições e no exemplo de Lénine a inspiração necessária para o seu pensamento, para a sua acção e para o comportamento moral e intelectual dos seus dirigentes. No interesse geral da luta contra o imperialismo e se tivermos em consideração algumas contradições que caracterizam as actuais relações entre as outras forças anti-imperialistas e mesmo alguns aspectos da sua acção, não seria justo nem, talvez, objectivo limitar esse desejo unicamente aos movimentos de libertação.

Acontece hoje com a doutrina de Lénine o que já se verificou mais de uma vez na história com as doutrinas dos pensadores revolucionários e dos chefes de classes ou nações oprimidas em luta pela sua libertação. Durante a vida dos grandes revolucionários, as classes opressoras recompensam-nos com incessantes perseguições: acolhem as suas doutrinas com um furor selvagem, com um ódio tenaz, com as mais intensas campanhas de mentiras e calúnias. Depois da sua morte, tentam fazer deles ícones inofensivos, canonizam-nos, por assim dizer, rodeando o seu nome com uma certa auréola a fim de «consolidar» as classes ou as nações oprimidas e de as mistificar; fazendo-o, esvaziam a doutrina revolucionária do seu conteúdo, depreciam-na e destroem-lhe a força revolucionária. 

É nessa forma de «arranjar» o leninismo que hoje coincidem a burguesia e os oportunistas, tanto do movimento operário como do movimento de libertação nacional. Esquecem, amordaçam, alteram o lado revolucionário da doutrina, a sua alma revolucionária. Colocam em primeiro plano e exaltam o que é ou parece ser aceitável, mesmo conveniente, para a burguesia e para o imperialismo.

O leitor deve já ter notado que o que acaba de ler é a paráfrase de parte de uma lapidar afirmação de Lénine referente a Marx. Modificámos os nomes e adaptámos o discurso à realidade essencial da história dos nossos dias: a luta de vida ou de morte contra o imperialismo. Temos de admitir que o discurso se adapta perfeitamente ao próprio Lénine, em especial quando consideramos o que ele escreveu sobre o imperialismo e a luta contra o domínio imperialista. 

Sem ter a pretensão ou a audácia de querer restabelecer a doutrina de Lénine acerca do movimento de libertação nacional, gostaríamos, no entanto, de evocar determinados aspectos que nos parecem importantes —, principalmente para os que lutam pela libertação e o progresso dos seus povos. 

Lénine demonstrou de forma muito clara que o movimento de libertação nacional, que adquiriu força desde o começo do século não é um facto novo na história. Em todos os continentes, em épocas mais ou menos recuadas, houve, não apenas luta de libertação tribal ou étnica mas também movimento de luta de libertação nacional. Os povos da antiga Indochina e de outras regiões da Ásia; do México, da Bolívia e de outros países do continente americano; da Grécia, dos Balcãs em geral, mesmo de Portugal, na Europa; do Egipto, da África Oriental e da África Ocidental — para só citar estes — tiveram, no passado, a sua experiência de luta de libertação nacional. 

Esses movimentos sofreram vitórias ou derrotas, mas existiram e deixaram vestígios indeléveis nos povos que afectaram, no âmbito das coordenadas históricas das sociedades em questão, numa determinada etapa da evolução económica e política da humanidade. 

Não há no entanto lugar para confusões. Lénine demonstrou que o império romano, por exemplo, não é a mesma realidade histórica que o império britânico, embora ambos tenham em comum o que parece ser, até agora, uma necessidade ou uma constante nas relações entre as sociedades humanas: a tentativa ou o êxito do domínio político e da exploração económica de certos povos ou nações por Estados estrangeiros ou, o que vem a dar no mesmo, por classes dirigentes estrangeiras.

É evidente que Carlos Magno não foi nem podia ser César ou Átila, mas é ainda mais evidente que qualquer chefe de Estado imperialista não é, nem poder ser, o Gana do império africano que tem o seu nome, nem um imperador da família dos Ming, nem um Cortez, conquistador das Américas, nem o tsar das Rússias. Da mesma maneira e pelas mesmas razões, os bancos e os monopólios imperialistas não são as antigas associações dos comerciantes de Veneza ou a Liga Hanseática. 

Lénine demonstrou que a luta de libertação contra o domínio de uma aristocracia militar (tribal ou étnica), contra o domínio feudal e mesmo contra o domínio capitalista estrangeiro do tempo do capitalismo de livre concorrência não é a mesma realidade histórica que a luta de libertação nacional contra o imperialismo, contra o domínio económico e político dos monopólios, do capitalismo financeiro, actuando sob a forma do colonialismo, do neocolonialismo. Tomou-se e deve ser evidente para todos hoje que o aparecimento do imperialismo operou uma transformação profunda e irreversível no movimento de libertação nacional, definindo-se este como a resistência natural e necessária ao domínio imperialista.

Definindo as características internas e externas do imperialismo — estado supremo do capitalismo, resultado da concentração do capital financeiro em algumas empresas de uma meia dúzia de países, domínio insaciável dos monopólios —, Lénine caracterizou simultaneamente as transformações irreversíveis operadas no conteúdo e na forma do movimento de libertação nacional, do qual previu, cientificamente, a linha geral de evolução. 

Cabe a Lénine o mérito de ter revelado, e mesmo previsto, as realidades essenciais da luta dos nossos dias, pois foi até ao fundo na análise do facto imperialista e da luta geral contra o imperialismo.

 Na sua crítica genial, Lénine esclareceu o carácter essencialmente económico do imperialismo, estudou as suas características internas e externas e as suas implicações económicas, políticas e sociais, tanto dentro como fora do mundo capitalista. Pôs em relevo as forças e as fraquezas dessa nova realidade que é o imperialismo (quase da sua idade), que abriu novas perspectivas à evolução da humanidade.

  Situando geograficamente o fenómeno imperialista no interior de uma parte bem definida do mundo; distinguindo o factor económico das suas implicações políticas ou político-sociais, sem esquecer as relações de dependência dinâmica entre esses dois aspectos de um mesmo fenómeno; e caracterizando as relações do imperialismo com o resto do mundo, Lénine situou objectivamente tanto o imperialismo como a luta de libertação nacional nas suas verdadeiras coordenadas históricas. Estabeleceu assim, de forma definitiva, a diferença e as ligações fundamentais entre o imperialismo e o domínio imperialista. 

A análise de Lénine revela-se desta forma como um encorajamento realista e uma arma poderosa para o desenvolvimento ulterior e multilateral do movimento nacional libertador. É necessário, no entanto, notar que esta análise vai ainda mais longe na contribuição que fornece à evolução desse mesmo movimento. 

Com efeito, se podemos dizer que Marx, principalmente na sua obra principal — O Capital —, procedeu à anatomia ou à anatomia patológica do capitalismo, a obra de Lénine referente ao imperialismo pode ser considerada como a pré-autópsia do capitalismo moribundo. Não é exagerado afirmar que, para ele, a partir do momento em que o domínio económico e político do capital financeiro (os monopólios) se consolidou em alguns países e se concretizou no exterior desses países pelo movimento de partilha do mundo, especialmente em África, com o monopólio das colónias—o capitalismo, tal como se definira anteriormente, transformou-se num corpo em putrefacção. 

Um estudo, mesmo superficial, da história económica contemporânea dos principais países capitalistas (talvez mesmo dos menos importantes), revela que a luta tenaz entre o capital financeiro (representado pelos monopólios e os bancos) e o capital de livre concorrência se salda geralmente pela vitória do primeiro, isto é, do imperialismo.

Temos pois de verificar que Lénine tinha razão: o capitalismo criou o imperialismo e criou simultaneamente os elementos propícios à sua destruição. O imperialismo matou e continua a matar o capitalismo. Com efeito, as transformações profundas realizadas nas relações de forças no âmbito da livre concorrência levaram aos monopólios, à acumulação gigantesca do capital financeiro privado no interior de certos países e, como consequência disso, ao domínio político destes pelos monopólios, o que os transformou em países imperialistas. Esta nova situação está na origem de uma confrontação permanente, aberta ou não, «pacífica» ou não, entre os países imperialistas que procuram novos equilíbrios na relação de forças, em função do grau relativo de desenvolvimento das forças produtivas e da necessidade crescente tanto de obter matérias-primas como de conquistar mercados, isto é, da realização insaciável de mais-valia ou de rendimento para o capital financeiro.

Com base numa análise tão lúcida e realista, era normal que Lénine extraísse conclusões importantes para o desenvolvimento ulterior da luta contra o imperialismo. 

Entre essas conclusões, estas parecem-nos extremamente ricas em consequências: 

A acumulação desenfreada do capital financeiro e a vitória dos monopólios como fase última da apropriação privada dos meios de produção—com o agravamento da contradição entre essa apropriação e o carácter social do trabalho produtivo—criaram as condições propícias à revolução, que progressivamente acabará com o regime capitalista, actualmente representado pelo imperialismo. 

É possível, necessário e urgente fazer a revolução, se não em vários países, pelo menos num, principalmente no momento em que a agressividade característica do imperialismo se manifesta numa guerra entre os países capitalistas para uma nova partilha do mundo (Primeira Guerra Mundial). 

A criação de um Estado socialista desferirá um golpe decisivo no imperialismo e abrirá novas perspectivas ao desenvolvimento do movimento operário internacional e do movimento de libertação nacional.

É possível uma nova confrontação armada entre os Estados imperialistas-capitalistas, pois a hipótese do ultra-imperialismo ou superimperialismo, que resolveria as contradições entre os Estados imperialistas «é tão utópica como a da ultra-agricultura». Essa confrontação enfraquecerá inevitavelmente o imperialismo (Segunda Guerra Mundial). Criar-se-ão assim condições mais favoráveis para o desenvolvimento das forças cujo destino histórico é destruir o imperialismo: instalação do poder socialista em novos países, reforço do movimento operário internacional e do movimento de libertação nacional. 

Os povos oprimidos da África, da Ásia e da América Latina são necessariamente chamados a desempenhar um papel decisivo na luta pela liquidação do sistema imperialista mundial, de que são as principais vítimas. 

Estas conclusões de Lénine, explícita ou implicitamente contidas na sua obra consagrada ao imperialismo e confirmadas pelos actos da história contemporânea, são mais uma notável contribuição para o pensamento e para a acção do movimento de libertação. 

Sendo marxista ou não, leninista ou não, é difícil a alguém não reconhecer a validade, mesmo o carácter genial da análise e das conclusões de Lénine, que se revelam de um alcance histórico imenso, iluminando com uma claridade fecunda o caminho

quantas vezes espinhoso e mesmo sombrio dos povos que se batem pela sua libertação total do domínio imperialista.

https://www.marxists.org/portugues/cabral/1970/04/40.htm

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Carlos Matos Gomes - OTELO | o fantasma da Revolução




* Carlos Matos Gomes 

25 Abril 2024
 

A ação que celebramos, o 25 de Abril de 1974, foi planeada e comandada por um fantasma. Um fantasma com o nome dissolvido num ácido de conveniências.

Os fantasmas são por definição aparições de inconvenientes. Terei lido num texto de Miguel de Unamuno, o filósofo espanhol, que Dom Quixote, a personagem de Cervantes prenunciou o destino final, solitário e triste, de todos os cavaleiros andantes, fantasmas, digo eu, que citaria também uma declaração de Simón Bolívar, em que o revolucionário das Américas, admitia que Jesus Cristo, Dom Quixote e ele próprio eram (tinham sido) os maiores ingénuos da História.

Otelo pode com propriedade ser incluído nesta lista.

E quanto à forma como tem sido esquecido também pode ser comparado a uma outra figura marginal da historiografia oficial, neste caso do Brasil, porque o fenómeno dos fantasmas da História é universal, o do negro João Cândido, que no início do século XX liderou uma revolta de marinheiros contra a violência na Marinha, a «Revolta da Chibata». A ação foi meticulosamente planeada e executada, mas esquecida, por inconveniente, porque contrariara a doutrina da superioridade racial branca. João Cândido viveu o resto da sua vida esquecido, por inconveniente.

Otelo foi e continua a ser inconveniente a vários títulos. Como militar, era um major recente, regressado de uma comissão na Guiné, professor de artilharia na Academia Militar, sem cursos nem pergaminhos de estado-maior, também não o aureolava o estatuto de herói da guerra colonial, apenas cumprira com competência as suas funções de comandante de companhia, no entanto foi ele quem planeou com o brilhantismo confirmado pelo êxito a operação nacional das forças armadas de Norte a Sul do país e quem comandou a execução das ações a partir da sala de operações montada no quartel da Pontinha, acompanhado por outros oficiais, alguns deles mais antigos e teoricamente mais bem preparados do que ele. Foi ele o comandante! Um facto revelador da sua personalidade, da sua energia e determinação.

Como alguém escreveu, ser herói é ter coragem de fazer o que é certo num determinado momento. Otelo teve essa coragem: É ele que apoia a ação de contenção de Salgueiro Maia, de correr os riscos de não precipitar a ação no Largo do Carmo, com um ataque imediato. De contemporizar. É ele que autoriza que o povo envolva as tropas e os blindados de Salgueiro Maia: o povo pode entrar, porque a ação militar é para o povo. Ele e Maia têm desde o início a consciência do destinatário da ação militar: «O povo, pá!» Ora o povo é sempre inconveniente para os poderes de facto. Otelo e Maia serão fantasmas que têm o povo atrás deles. Mais Otelo do que Maia.

Desde a primeira hora Otelo e Maia estão do lado da (in)conveniência popular. É Otelo que dá ordem a Salgueiro Maia de disparar contra o quartel da GNR, para forçar a definição da situação, e é ele que decide que a rendição de Marcelo Caetano seja feita ao general Spínola, com vantagens e inconvenientes, mas foi ele quem decidiu!

As inconveniências de Otelo que o transformaram no fantasma em que ele hoje é tido atingiram o cume com o que fez no COPCON, ou do COPCON. O poder assenta sempre na força. Na ponta das espingardas, na frase de Mao Tse Tung, ou na que o rei Luís XIV de França mandou inscrever na boca dos canhões ultima ratio regum, “a força é o último argumento dos reis”.

Otelo fez do Comando Operacional do Continente, das forças armadas portuguesas, a força do povo, e aqui é de recordar dois outros fantasmas: Carlos Fabião e Eurico Corvacho que estiveram desse lado, e também Pezarat Correia, que embora subscritor do Documento dos Nove, o manifesto que agregou as “forças da normalidade”, mas que por ter desenvolvido um papel de grande relevo na descolonização de Angola e de, em Portugal, ter comandado a Região Militar de Évora, empregando as forças militares com apurado sentido político durante o dificílimo período da Reforma Agrária, pagou a compreensão pela atitude dos camponeses alentejanos com a não promoção a tenente-general. Não me esqueço do esquecimento de outro fantasma, Ernesto Melo Antunes, com quem nunca privei, de quem discordei, mas de quem conheço e reconheço o papel relevante que desempenhou no 25 de Abril. Recordo a forma como foi tratado até no seu último ato: no seu funeral, no cemitério do Alto de São João, onde estive, não apareceu nem um membro do governo, nem nenhum político de primeira linha. A verdadeira Liberdade paga-se com esquecimento.

Colocar as forças armadas como suporte das forças populares era e foi uma heresia inadmissível pelas classes reinantes. As que a 25 de Novembro de 1975, tendo contratado tropas para o seu serviço, impuseram o regresso aos quartéis dos conscritos, isto é, à função tradicional de defesa dos grupos dominantes, os velhos devoristas que saíram das tocas onde se haviam escondido, das sacristias, os que regressaram de exílios e os novos devoristas que se haviam aproveitado dos vazios abertos pela retirada dos velhos senhores — os novos oportunistas que hoje são os que pretendem sacralizar o 25 de Novembro, como o dia em que lhes saiu a lotaria e se fizeram democratas, como os poltrões sucessores dos que no vintismo do século XIX se fizeram viscondes e barões.

A revolução portuguesa, como todas as revoluções, ou se definiria por uma alteração de campo da força que exercia o poder, ou não seria uma revolução, nada mais seria do que uma atualização de figurino para o exercício do poder. Otelo é a personagem que configura a revolução, porque transfere o poder das armas da defesa de uma minoria, a oligarquia nacional representante dos poderes e dos interesses instalados no espaço civilizacional da Europa e dos Estados Unidos, para defesa das classes sociais historicamente dominadas a todos os títulos, social, económica e politicamente. Otelo, através do COPCON, não só deu voz aos emudecidos, como lhes proporcionou o acesso ao discurso e à decisão.

Foi a existência do COPCON sob o comando de Otelo que possibilitou a suprema heresia da nacionalização da banca, o que corresponde à profanação do sacrário do sistema que desde 1825 a família Rothschild criou em Londres, tecendo através do Banco de Inglaterra o sistema de “dívidas soberanas”, que replicou nos Estados Unidos ao conseguir que, em 1913, o Congresso dos EUA autorizasse a criação do Federal Reserve Bank, o Banco Central dos Estados Unidos popularmente conhecido por “Fed”, de que a família Rothschild também tomou o controlo, garantido o direito de emissão de moeda nos EUA através do Tesouro Americano e sem juros. A nacionalização da banca portuguesa foi uma ofensa ao dólar! Imperdoável! Não seria possível sem o suporte da força armada, do COPCON!

Na história de oito séculos de Portugal apenas no episódio do que ainda hoje o discurso oficial hesita em considerar como crise de 1385 ou revolução de 1385, o povo teve a força armada a seu lado. Mas foi sol de pouca dura. Leiam-se as «Crónicas» de Fernão Lopes. Após a incensada batalha de Aljubarrota toda a narrativa se concentra na normalização do complexo processo de transformações políticas e sociais que recriaram a antiga hierarquia de poder das ordens, clero, nobreza e povo, e que conduziram Portugal à dependência da Inglaterra, na condição de estado vassalo, em que se manteve até ao final da Segunda Guerra, quando passou a depender dos Estados Unidos. No século XIV rapidamente os revolucionários, segundos filhos e bastardos, reunidos à volta das figuras de linhagens secundárias de João de Avis, um bastardo, e Nuno Álvares Pereira, filho natural do prior da Ordem do Hospital, reconstituíram naturalmente a velha ordem dos privilégios e recolocaram o povo no seu lugar, a remar nas naus e a cavar nas terras senhoriais. A experiência de dar armas ao povo apenas ocorrerá numa outra única oportunidade com a tentativa de legitimação como rei de Portugal de António, prior do Crato, derrotado na batalha da ribeira de Alcântara.

Otelo representa ainda hoje o perigo de expor a podridão em que assentam os pilares da ordem que nos rege. Em 1975 esse conhecimento podia gerar (ou degenerar) um movimento de contestação popular que alastrasse pelo continente europeu. Havia que apresentar Otelo como um tresloucado. Para as aves de gaiola, voar é uma doença. Para os predadores, voar é uma fuga dos seres que lhes servem de alimento.

Em 1974 e 1975 já eram visíveis as nuvens negras sobre o sistema político e económico que se impusera (ou fora imposto) na Europa Ocidental após a Segunda Guerra. Os alemães crismaram como “anos de chumbo” esse período que antecipava o mal-estar do modelo civilizacional de compromisso entre capital e trabalho, entre público e privado, entre liberdade e servidão voluntária. Uma decadência que hoje parece evidente num modelo que apresenta claros sintomas de rutura por esgotamento, de que os movimentos populistas são uma face visível, acompanhados pela corrupção dos valores de equidade nas relações entre os povos promovida pelos dirigentes europeus e americanos do “Ocidente alargado” nas suas decisões sobre juros, dívidas, imposição de despesas com material de guerra, redução de serviços públicos, promoção de guerras como as da Sérvia, Iraque, Líbia, Ucrânia, ou o genocídio de Gaza.

O esquecimento de Otelo, o seu aviltamento quer durante o período revolucionário, quer no que se lhe seguiu e chegou até ao presente são fruto da ideologia dominante e dos interesses dos seus beneficiários. Otelo não quis ser o “condestável” do novo regime e a sua condução para fora do sistema, para a marginalidade em todos os sentidos, foi meticulosamente planeada e executada. A sua personalidade, a sua generosidade e ingenuidade foram estudadas para servirem de arma contra as causas que defendia e para defesa de uma dada ordem que não pode ser questionada.

Para os que apagaram Otelo é reconfortante falar da revolução simpática que, podendo ter tido a energia de um mar, desaguou num vulgar lago de jardim europeu. Mas um mar é uma coisa que gera energia e vida e um lago é uma coisa já domesticada, adormecida, em decadência.

Acontece, no entanto, que o deliberado esquecimento de Otelo e a desvalorização do movimento popular que ele apoiou e incentivou enquanto comandante do COPCON não teve a consequência que parecia lógica por parte de quem o derrotou e prendeu, mesmo com a legítima intenção de impedir uma revolução, de reclassificar o resultado da ação militar que ele planeou e comandou como o “golpe da Calçada da Ajuda”, ou da Amadora. É evidente ser muito mais agradável ao ego e ficar melhor na fotografia da História utilizar a fórmula de “Revolução dos Cravos” do 25 de Abril que da restauração de estado de ordem do 25 de Novembro de 1975. É um facto. Não é uma crítica. Otelo prosseguiu o seu voo. Outros poisaram.

Os títulos e os símbolos são importantes para hierarquizarmos e classificarmos os fenómenos, mas resta a realidade e quanto a esta, é significativo que na celebração do meio século do 25 de Abril, Spínola seja mais recordado do que Otelo, que entre tantas obras e trabalhos de investigação o COPCON e o seu papel no movimento popular não tenha merecido o interesse dos académicos, ou que esta singular e fugaz instituição militar tenha despertado tão pouca curiosidade intelectual e política.

É evidente que ainda vivemos num regime em que podemos falar e escrever sobre Otelo, mas como de alguém fora da História, do “sistema democrático” como um excêntrico, quando ele foi o autêntico revolucionário do que não chegou a ser uma Revolução. É certo e sem margem para dúvida que os 3 D do 25 de Abril são matéria de alegria e celebração, mas não são uma revolução. Revelam apenas a tacanhez do salazarismo, a mediocridade do seu padroeiro e dos seus acólitos. A Democracia, a Descolonização e o Desenvolvimento chegaram a Portugal com 30 anos de atraso relativamente aos regimes de democracia representativa e do estado social implantados na Europa após a Segunda Guerra.

Embora com trinta anos de atraso celebremos contudo essa coisa magnífica e essencial que é a Liberdade de expressão, mas fique a lembrança dos que como Otelo a queriam enquanto condição para conquistar a Justiça em todos os seus componentes, desde logo o da Igualdade.

Antes de se acomodar, engravatada, formatada, mais ou menos vociferante no modernizado convento de São Bento, Otelo queria a Liberdade na casa de cada um dos portugueses.

https://dasculturas.com/2024/04/25/otelo-o-fantasma-da-revolucao-por-carlos-matos-gomes-25-abril-2024/? 
 

domingo, 24 de dezembro de 2023

re.visitando filipe chinita|'civilização' comunista




re.visitando filipe chinita|'civilização' comunista | 09 abril 2016
.
'civilização' comunista.
um dia
se não morrer.próximo
ainda publicarei um livro.de poesia
apenas com todos os escritos/poemas
que já sobre a definição de comunismo
e do humano.comunista
escrevendo fui
ao longo de toda
a minha
inteira
vida.
para vos provar.em poesia.
que o comunismo
virá!
e com ele
esse.outro.humano.
futuro!
que não serão mais
do que outros
de nós.
que nunca viremos
a conhecer.mas existirão.
em contínua busca
de uma perfeição
interior e
social.
com o outro.os todos os outros.
livre e conscientemente.
em que
o que é meu é teu.
e o que é teu
é meu.
e assim todos.e o todo.
sem mais 'meu'
nem 'teu'. tudo
nosso!
será
.
o mundo será então
a paz e o amor.no
desabrochar
enfim
humano!
de todos os nossos
individuais talentos.
no colectivo.
sem ciúmes.invejas.ou dores de corno.
conscientes que da liberdade do outro
e nossa! estaremos.
esgotados
que nas humanas cabeças e corações
há muito e para sempre!
estarão o teu
e o meu.
pois que de há muito só procuraremos
em individual.e em colectivo
o bem comum.
que tudo comum
nos será.
apenas não a intimidade.
e assim andaremos pelo mundo
de unidas mãos e
frontais olhares.
e
tudo nos terá
a
transparência
do vidro
.
seremos outros
mui melhores!
do que ora
somos.
mas não sei porque vos espantais.
porque desde o princípio
da humanidade
que sempre
assim
foi
.
ou ainda por ventura estais
de sílex contra sílex
procurando e
encontrando
enfim o
fogo
.
e o quanto isso.no entanto
determinante para
a humanidade
(nos)
foi
.
fj
ao agora
.
a mim
o que me interessa
é a avançada modernidade
sensível e inteligente.num todo uno.
como enchurrada das emoções.do pensamento
de um maiakovski e de um brecht
em sempre construção
política poética
e filosófica
da vida
e não o constante voltar
atrás das rimas
de um tempo.
interessa-me
a vibração estilhaçante do ritmo
e não a facilidade do
som que procura
o seu igual.
eu sou
por todas as diferenças
da natureza e da vida
e assim.também
na poesia.
que mesmo nas partes
sempre eu busco
o todo!
e só escrevo
o que se me arremessa
da mente ao sangue.
e deste à
pele.
e só escrevo
a mais inteira verdade.de mim.no outro.
pelo menos assim.e aqui
sempre a/o/os intento
buscar
.
fj
ao agora.
de me ir banhar o corpo.
este sem o qual nada escreveria.
caso não existisse física e i.material.mente
09 de abril de 2016
imagem: pintura de Álvaro Cunhal