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domingo, 6 de dezembro de 2020

Ferreira Fernandes - O caso vulgar na tenda à porta de São Bento

  Ferreira Fernandes
OPINIÃO

Já conhece o conceito do nosso restaurante?”, devia ter perguntado o empregado de mesa ao cliente Chicão, quando ele entrou na tenda.

6 de Dezembro de 2020, 7:20

No sopé da Assembleia da República montou-se uma tenda de aparentes pacatos insurretos. Nesta República que ainda não tem meio século, já ali houve pedreiros a sequestrar deputados, corporações insultando governos e até polícias ameaçaram galgar pela escadaria. Desta vez eram cozinheiros do movimento Sobreviver a Pão e Água, e com a barriga em greve de fome – bendito povo em que até os cozinheiros parecem ter dedo para as palavras. Parecem, mas será assim?

Já conhece o conceito do nosso restaurante?”, devia ter perguntado o empregado de mesa ao cliente Francisco Rodrigues dos Santos, o Chicão, quando ele entrou na tenda. Mas não havia empregado nem mesa, só a tenda. Sem a pergunta e sem reserva, o Chicão sentiu-se perdido. Para dizer a verdade, os cozinheiros também estavam perdidos, mas eles davam a impressão de não o sentir nem saber.

Para dizer outras verdades, os cozinheiros eram meia dúzia de famosos donos de restaurantes, com a presunção de serem os únicos a servir um drama nacional. De bom até então só tinham o título do tal menu sugestivo “A Pão e Água”, o que era mau. Chamava a atenção como uma boa tabuleta numa casa de maus repastos. A quantas falências já isso levou!

A tenda apresentava o cenário comum das insurreições. Havia a confusão igualitária das revoluções que ainda não foram avante. Os insurretos anónimos estavam por ali espalhados. Havia ainda o sublinhar do sacrifício, os cozinheiros derramavam-se pelas cadeiras, exaustos como o Remexido na serra algarvia, sem estratégia.

O cliente Chicão entrou e logo se revelou tenrinho. Pediu licença, sentou-se, juntou as palmas das mãos e meteu-as entre as pernas – não é alegoria, é a descrição factual (vejam o vídeo  https://www.youtube.com/watch?v=aNnylaqvCrA&feature=emb_title). Depois, lembrando-se que afinal de contas era líder de um partido antigo, ali ao lado representado na casa da democracia, disse: “O CDS…”

Logo da turba dos cozinheiros emergiu um mais igual que os outros, Ljubomir Stanisic, o cozinheiro a ferver: “Querido, posso pedir-te um favor? Se voltares a falar de partido, vou ter de pedir para saíres...” Disse-o em tom de banho-maria, é certo. Mas violento como um populista que foi acampar para a entrada da casa dos políticos, para falar com eles, e quis aboli-los, antes de falar com eles.


Ljubomir Stanisic, à esquerda, e Francisco Rodrigues dos Santos, à direita DR

Uma gentil chefe de sala levou Chicão para o empedrado da rua. Ser expulso de um dos restaurantes caros dos cozinheiros ali em luta já seria uma humilhação. De uma tendinha, então…

Talvez tudo pudesse explicar-se pela falta de pundonor de Chicão, um caso infeliz de tipo com alguma grimpa, mas sem mais. Ainda o outro dia, discursava ele no Funchal e foi filmado catatónico só por causa de ligeiro tremor de grau 5,3 da Escala de Richter. Calado e esbugalhado.

A história desta semana também podia contar-se como ironia com pitada cultural. O comunista alemão Bertolt Brecht, que passou a vida a dar ânimo aos proletários de todo o mundo, fez um poema em que convocou Alexandre da Macedónia, o Filipe da Armada Invencível, o Frederico II da Prússia e outros grandes vultos da História. E, a seguir a cada nome sonante, Brecht punha uma perguntinha que desenterrava os ausentes que há em cada arco de triunfo e na memória de cada feito. Por exemplo: “O jovem Alexandre conquistou as Índias./ Sozinho?”.

O poema chama-se Perguntas de um Operário Letrado e os dois versos que aqui me interessam são: “César venceu os gauleses./ Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?” Tungas! Os de baixo, sempre esquecidos…


Então, o incidente da tenda de São Bento, esta semana, quando um jovem líder político foi varrido da História e um cozinheiro elevado, não simplesmente a chef, mas a chefe, a porta-voz do drama de uma profissão inteira, podia ser invocado como suprema ironia. Podíamos imaginar o Brecht vingado, a levantar-se de punho erguido no pequeno cemitério de Berlim onde jaz… Mas essa versão é falsa e eu venho aqui apresentar melhor interpretação.

Em Saint-Denis, berço dos antigos reis franceses e arredores vermelhos de Paris, transformou-se um convento no museu de Paul Éluard, o maior poeta surrealista. Mais ou menos pela mesma altura (década de 1930, anos de todos os populismos) em que o alemão Brecht celebrou milhares de ajudantes de Júlio César na Gália, também o francês Éluard escreveu a frase: “É preciso retirar a César tudo o que não lhe pertence”.


Paul Éluard

Acontece, e isso não é incompatível (talvez só um pouco surreal), nesse museu, antigo convento, há uma reprodução do quadro de Rubens “O Imposto devido a César”, com Jesus ensinando o bíblico “dar a César o que é de César”. No que ficamos? No retirar (de Éluard), ou no pagar (de Jesus)?

Aproveitando o facto de o quadro estar por estes dias a ser restaurado em Saint-Denis, volto ao assunto desta crónica, a restauração que está nas ruas da amargura por cá (e também em Saint-Denis e Manhattan e Londres…, mas não nos dispersemos). E volto com a lição de Brecht e de Éluard, ambos certeiros sobre a necessidade de desnudar a injusta acumulação de fama e de proveito dos poderosos.

E junto essa lição à de Rubens e de Jesus que acautelam o que está estabelecido, porque os homens devem ser mudança mas também continuidade. Justiça e prudência, eis duas das ambições que mais nos fizeram avançar – e quanto mais fortes são quando se juntam!

Sobretudo volto a uma lição comum do quarteto que, receio, não foi tida em devida conta. Os quatro respeitaram as palavras, pintaram-nas bem. Sabemos o que qualquer deles – Brecht, Éluard, Rubens e Jesus – dizia ou pintava. E o que cada um queria dizer.


 O Imposto devido a César, de Rubens

O grave na história da tenda no sopé da Assembleia da República é o abandalhamento da palavra e a difusão desse nada. Porque não tendo a palavra clara, o populismo exprime-se na plenitude do seu nada ter para dizer. É Trump a tuítar com maiúsculas “GANHEI E À GRANDE” um totoloto que ele não jogou e a lista da Santa Casa desmente. É, à porta do Parlamento, mandar-se um político calar a sua condição de político.

Eu sei que apesar da manifesta fraqueza dos populistas com a palavra, há quem diga que eles ganham força com as palavras que os atacam. Pois eu digo: gentes de pouca fé na palavra. Ou têm é preguiça.

Jornalista

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Ferreira Fernandes - Omelete Michelin

 * Ferreira Fernandes

28 Dezembro 2017 — 00:00

 

O francês Paul Éluard, o maior dos poetas surrealistas, fez esta omolete de caranguejo: "É preciso tirar a César tudo o que não lhe pertence". Queria ele dizer ser essa uma das funções da sua cozinha, a poesia. Escreveu-a em 1936, o ano do Front Populaire a inventar as férias pagas. Uma dúzia de anos depois, outro poeta de esquerda, Bertold Brecht, disse o mesmo que Éluard, em Perguntas de Um Operário Letrado, o mais citado dos seus poemas. Aquele que lembra Babilónia destruída, para perguntar: quem a reconstruiu? E de Alexandre que conquistou as Índias: sozinho? E de César que venceu os gauleses: nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?... Reparem na beleza das perguntas de Brecht pondo em prática a proposta de Éluard, ambos certeiros sobre a necessidade de desnudar a injusta acumulação de fama e de proveito dos poderosos. Mas reparem também que tanto o francês como o alemão conservam nos Césares (Alexandres ou imperadores vários...) o papel pessoal de sujeito da História. Os poetas lembram também as massas, um passo em frente, mas só para as igualar aos grandes... Aquele cozinheiro citado por Brecht entra no Olimpo porque serviu Júlio César na Gália. E, de facto, sem os petiscos dele o patrício romano talvez tivesse definhado e perdido batalhas... Ora, há gente pequena que é grande sem estar em função do poderoso. A tia que fazia bolinhos de bolina, por exemplo. Notícia destes dias, Jay Fai, 72 anos, cozinheira de rua em Banguecoque (dois tachos, lume aceso e arte) ganhou uma estrela Michelin - vão dizer-me: é dela de que estou a falar? Não. Isso são os césares do guia Michelin a dizerem que leram Éluard e Brecht. Do que estou a falar é de Jay Fai que faz omeletes de caranguejo. E se não estão para ir até Banguecoque, falem com a vossa tia da aletria. Gente grande.

https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/omelete-michelin-9011791.html


domingo, 2 de julho de 2017

Ferreira Fernandes - Eu apagava

* Ferreira Fernandes

 Um amigo, bom e experimentado repórter, disse-me, um dia: "Nunca estendas o microfone a um futebolista que sai do campo para ser substituído." Como raramente estendi um microfone e todos os jogos que vi foram quase sempre sentado, ora em bancada ora em sofá, percebi que o velho jornalista estava a debitar um conselho geral. Ele ainda me disse: "Depois de se andar a correr 70 minutos o cérebro está demasiado oxigenado, ou de menos..." Aquela dúvida entre duas situações opostas - vinda dele, que mais depressa dissertaria com exatidão sobre isquemia cerebral, e assim - confirmou-me que só aparentemente estávamos a falar de as substituições no futebol serem vividas com a cabeça a não funcionar como deve ser... O meu amigo falava duma lei universal para quem pergunta com a vontade de ouvir uma resposta autêntica.

Autêntica, isto é, dada por alguém sabendo o que está a dizer e em condições de saber que, depois de dita para um jornalista, a resposta ganha asas e atinge ouvidos mal-intencionados que eu sei lá. Erra o leitor que pensa que esta minha crónica é sobre assuntos de jornalismo, normas e conselhos para uma corporação. Também é, mas o sujeito da crónica é o abusado pelo jornalista. O indivíduo a quem se aponta um microfone, sem ser prevenido de que aquilo dispara.

Quem diz futebolista, diz peixeira. Mais abaixo, publico um discurso recente de uma mulher para jornalista, testemunho dado com cara e nome. Não são imagens como as do ex-ministro Miguel Macedo, exposto durante um interrogatório judicial, falando para uma câmara que ele pensava ao serviço da lei mas acabando por fornecer um esgoto. Essas imagens, a do ex-ministro, são fruto de duas anormalidades: a irresponsabilidade judicial e a canalhice de jornalistas. Essas, embora tão feias, de certo modo tranquilizam-nos, porque são anomalias, desvios. Mas, o outro, o discurso com que a peixeira foi apanhada na curva, é mais grave. Porque foi publicado e transmitido, em televisão e site de jornal, sem intenção de a ferir e sem se enganar a senhora com manhas. Coisa aparentemente e, quase de certeza, com vontade de ser limpa. Tanto que poderia ter sido publicada e transmitida por qualquer outro jornal português e televisão. Neste meu jornal também. E é esse o ponto: banalizou-se não nos interrogarmos sobre o que estamos a falar quando estamos a falar.

A comerciante e a sua carrinha de distribuição de peixe e fruta passaram pela estrada N-236 naquele dia em que houve ali tantas mortes. Dias depois, sempre a trabalhar, voltou ao local e falou para a câmara e para os microfones. A situação não configura o exemplo do futebolista apanhado com os bofes de fora, com mais ou menos oxigénio no cérebro. Mas, eu já o disse, aquele exemplo do meu amigo não era só para a vizinhança das quatro linhas do relvado. A senhora testemunha de forma emocionada, soluça por vezes. Não, ela não estava a falar de postas de pescada, mas de coisa sua, funda. E disse o que não devia.

Ela disse, cara filmada, nome na legenda, com a carrinha que há de continuar a parar entre os seus amigos e clientes, narrando como conduziu na estrada entre o fumo e o fogo. Disse: "Foi então quando entrei naquela fúria. A partir daí foi tudo quanto eu encontrava pela frente para me tentar salvar. Lembro-me de bater em vários carros a arder [palavras embargadas, soluço], não sei se os acabei de matar. Mas se os acabei de matar peço... peço desculpa porque ali era salve-se quem pudesse."

O vídeo, no jornal onde foi publicado, puxou para título o discurso direto, entre aspas, assim: "Se os acabei de matar peço desculpa, mas ali era o salve-se quem puder!" É quase exatamente o que a senhora disse, com uma emenda talvez gramaticalmente melhor. Em vez de "ali era salve-se quem pudesse", que ela disse, escreveu-se "ali era o salve-se quem puder." Interessante o cuidado na formulação gramatical quando se negligenciou, ou pior, deu-se demasiada atenção - até se chamou para título - ao que foi dito.

A senhora disse o que quis dizer, certamente sem ter sido coagida e sem ter sido endrominada para o dizer. Não é esse o ponto. E falou dias depois do acontecimento, sem estar no calor da ação, é certo. Mas não falava só para as amigas e clientes, algumas que até sabem quanto ela foi valente e podiam recolher-lhe as palavras, mesmo as perigosas, com a sabedoria que se reserva à conversa entre próximos.

Não, ela não falava para os seus. Ela estava a falar a um microfone e uma câmara - para um palavrão, multimedia - que serviriam de extraordinário altifalante ao que ela dizia. Sobretudo o indizível. A mulher que falava estava ciente dessa dimensão? E das traduções todas que as suas palavras teriam? E das palavras que mais especialmente seriam escolhidas pelos ouvidos estranhos (e para título, pelos jornalistas)? Saberia ela que com os aparelhos que lhe puseram à frente, às palavras o vento não leva, duram mesmo depois de se esquecerem os acontecimentos que as motivaram?

Enfim, a senhora interrogou-se com a prudência devida? Sabia de tudo, como todas as nuances com que seria ouvida, do que estava a falar quando estava a falar? Duvido. Mas os jornalistas sabiam. Todos, na cadeia que levou da recolha das palavras até à publicação e difusão, sabiam do extraordinário testemunho que aquilo era.

E, sabendo, deviam, vou dizer uma iconoclastia para o negócio: deviam apagar. Eu apagava as  Palavras da senhora. O meu critério é simples: se fosse um dos meus a dizer aquilo, eu apagava.


http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/eu-apagava-8602192.html

sábado, 21 de janeiro de 2017

Ferreira Fernandes - Hoje

* Ferreira Fernandes 

Um dia, vi um homem parar um carro pobre, numa estrada de terra vermelha, à entrada de uma ponte. Sobre um pilar estava uma bacia de esmalte rachado e nela laranjas pequenas. "Quanto?", perguntou o homem com uma camisa modesta. O miúdo negro disse: "Dois angolares." Sem outra palavra, o homem abriu a mala do carro. O miúdo fez rolar as laranjas na mala. O homem pôs na palma da mão estendida uma moeda de cinco tostões, um quarto do preço pedido. O miúdo nem esboçou um protesto, ficou na berma a ver o carro partir e a sentir a poeira assentar.

Um dia, li um camponês russo a falar com um dos irmão Karamazov. Tudo no camponês era subserviência. E tinha o filho ao lado. O Karamazov não bateu, esmurrou ou pontapeou o camponês - gestos brutos que poderiam ter passado por luta violenta. Esbofeteou-o, com pancada seca e calma, de quem sabe que nunca teria reação. Nada doeu mais do que o filho ao lado.

Um dia, na ala militar do aeroporto de Bogotá, estive na conferência de imprensa dada pelo embaixador americano. Ele falou sobre a luta contra os narcotraficantes e a esperança de apanhar em breve Pablo Escobar, o capo de Medellín. Depois, o embaixador disse que tinha mais declarações a fazer mas essas eram para os americanos e os da imprensa estrangeira. Os jornalistas colombianos saíram, cabisbaixos, expulsos em sua casa.

Um dia, entrevistei um líder guerrilheiro, num jango, enorme cubata circular. O líder esperava--me ao fundo, e as paredes do jango estavam cheias de dirigentes guerrilheiros e conselheiros do líder. Ao entrar, reparei, nunca soube porquê, num jovem de barba escassa e casacão escuro (era cacimbo, inverno austral), sentado à entrada. Finda a entrevista, o líder acompanhou-me à entrada, braço sobre o meu ombro. De repente, fez-me rodar e encontrei-me frente ao jovem de casacão, já de pé. "O senhor jornalista sabe quem é?", perguntou o líder. Adivinhei mas disse que não. "É o Wilson que vocês em Lisboa dizem que matei. Não o quer entrevistar?", disse o líder, e logo apareceram dois microfones. "Não entrevisto presos", disse eu. O jovem tinha os olhos mortos e foi mesmo morto, semanas depois, ele e a família.

Um dia, eu ia de elétrico e vinham duas peixeiras da Ribeira. Elas eram cabo-verdianas e falavam crioulo entre elas. Ao passar pelo Rato (os elétricos ainda por lá passavam), um passageiro endoidou de ódio e pôs-se a mandar as mulheres "para a terra delas." Havia lugares vagos mas elas não tinham ousado sentar-se por causa do cheiro das saias largas. Os insultos do homem apanhou--as com português curto e calaram qualquer resposta. Pousaram os olhos no trabalho, nas canastras deitadas no chão. Nem pareceu terem dado conta dos pescoços que não se viraram. Mas deram.

Um dia, eu estava com um militar, que então era do meu lado, a dizer a uma pessoa detida, porque do outro lado, que sim, podia pedir ao soldado de plantão para ir comprar cigarros à messe. Regressado o soldado, o preso deu--se conta de que, afinal, também não tinha fósforos: seria que lhe podiam acender o cigarro? "Ah, era para fumar? Isso, na cela, não pode", ouvi o "meu" militar a dizer, gozando com o detido confuso.

Um dia, era noite de verão, eu ouvia um homem a assobiar numa esplanada. Ele estava sozinho à mesa e bebia cerveja. Assobiava mambos e boleros, as janelas abriam-se e às varandas assomavam suspiros. Ele sabia e gostava do seu sucesso, na sua rua, mas fazia de conta que não o via. No fim de um bolero de Lucho Gatica, ele ia aclarar a garganta com um gole mas o copo voou até ao chão da esplanada. A mulher do homem do assobio estava com uma mão à cintura e a outra a apontar a casa: ala! Ela nunca produziu outro som, senão o copo a estilhaçar-se. Sempre calada, com o silêncio da autoridade que nunca conheceu resposta. Ele ia à frente dela, cabeça enfiada nos ombros, olhando o passeio, indiferente à rua e à humilhação. Mas não estava.

Um dia, um guarda-costas que me acompanhava em Argel, perguntou-me se eu sabia o que era uma bûche de Natal. Disse-lhe que sim. Era o bolo em forma de tronco de árvore que os franceses comem no fim do ano (como o nosso bolo-rei). Por essa altura, os terroristas islâmicos punham bombas por toda a Argélia e degolavam os ímpios que se expunham. O meu guarda-costas era bom muçulmano, mas tinha saudades da bûche, da infância com vizinhos franceses. No Natal passado tinha sabido de uma padaria que as vendia às escondidas. Foi lá, saiu pela porta de trás mas julgou adivinhar olhares ameaçadores. Abriu a camisa e escondeu o bolo, coseu-se às paredes e apressou o passo. Entrou em casa e tirou o bolo amassado, o chocolate já delambido - os filhos e a mulher olhavam-no, e ele chorou, derrotado. O meu guarda-costas era tropa de elite.

Um dia, depois desses dias que me formaram, hoje, eu dei-me conta de que um homem que varreu os adversários do seu partido amesquinhando-os, que apoucou deficientes, que rebaixou o heroísmo autêntico na guerra de um correligionário seu (ele, que para fugir dessa mesma guerra pretextou doenças que não tinha), que se me apresentou, em palcos públicos, sem compaixão por pais que perderam o filho, que achincalhou as doenças, verdadeiras ou inventadas por ele, da adversária, que levou a humilhação como a arma principal da luta política, um dia, dizia eu, vou ver esse homem a tomar o poder mais poderoso do mundo. Contra ele recuso-me, neste dia, a discutir as ideias dele, políticas, económicas ou ecológicas. A partir de amanhã, certamente. Hoje, tenho a dizer, tão-só, que é um dia desgraçado.


http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/hoje-5617006.html

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Ferreira Fernandes - A publicidade a Costa? Passos encarrega-se



* Ferreira Fernandes


Matos Correia, vice-presidente do PSD, disse ontem: "Não vou descer ao nível do senhor primeiro-ministro." E ainda: "Não estamos num comício, senhor primeiro-ministro!" Naturalmente, foram palavras que caíram bem aos do Governo.

Talvez Santos Silva, Centeno e o próprio António Costa aplaudissem de pé se a tal palavra, composta, não tivesse sido repetida, ontem e hoje, à exaustão. Houve um deputado da oposição que no seu discurso a disse 9 vezes: "primeiro-ministro". Com hífen e tudo. Se Costa aplaudisse de cada vez que é tratado pelos adversário por aquilo que é, não faria outra coisa... Hoje. Porque ainda há pouco não era assim.

Hoje, "primeiro-ministro" passou a palavra corriqueira na boca dos deputados da direita. Mas ainda há dois meses era tabu. Lembram-se, em dezembro, de Passos Coelho a evitar? "Este Governo, assim como o seu chefe..." Ou Portas só a usar seguida de acinte? "Senhor primeiro-ministro, vírgula, mas senhor primeiro-ministro que o povo não escolheu"... Pronto, agora já existe. Mas, convenhamos, era escusado a oposição dar pretextos destes para os Governo encher o peito.

Outra palavrinha: geringonça. Desnecessária, a menos, claro, que a direita faça mesmo questão de promover o adversário. Atenção, em si, gosto da palavra. Gosto de palavras que, quando as pensamos fora de prazo, ressuscitam. Um dia, Freitas do Amaral, em discurso que defendia o contrário do que eu pensava, disse: "Que topete!" Adorei. Desde Eça que não ouvia "topete". Há poucos anos, Eduardo Catroga disse: "pentelho." Voltei a gostar. Vale muito mais do que a horrível "minudência." Minudência é daquelas palavras que se enrolam na língua. A palavra pentelho, não.

Geringonça é caranguejola. Gosto, já o disse, da palavra. Começou por me lembrar aqueles brinquedos antigos de lata. Havia-os em carrinhos e lambretas, mas o meu preferido era o carrossel. Muito miúdo, tive um na mão, antes de os conhecer numa feira popular, comigo lá dentro. Mas geringonça é engenhoca que funciona mal. Na tal feira, fiquei uma eternidade de cabeça para baixo numa roda gigante. O motor da geringonça tinha pifado.

Assim, quando a oposição começou a chamar geringonça a este governo, o sangue subiu-me à cabeça. Suspeitei que o Governo não ia lá. Tomava posse mas caía logo no parlamento. Ou, pelo menos, ficava suspenso, com o povo de cabeça para baixo, sem orçamento... Bom, o facto é que foi indigitado, tomou posse, passou no parlamento e, hoje, o OE 2016 vai ser aprovado.

Estas dois episódios à volta das palavras "primeiro-ministro" e "geringonça" acabaram por servir de propaganda ao Governo. Não é esquisito? A insistência neles faz-me até desconfiar. E se for mesmo propaganda, encapotada, mas decidida desde o início com a intenção de promover o Governo?

Lembro que a publicidade, às vezes, vai por caminhos ínvios. O cientista francês Antoinie Parmentier (1737-1813) era adepto da batata, quando esta era mal vista, tida por propagar a peste. Então, Parmentier semeou batata no arredores de Paris e pôs os campos guardados por tropa, de dia, e abandonados, à noite. Entretanto, difundiu que aquilo era proibido. Acicatado, o povo colheu, comeu e gostou. E, hoje, o Metro de Paris tem uma estação chamada Parmentier, em homenagem ao grande difusor da batata.

E se Passos Coelho, no fundo, só quer ter o nome numa estação do Metro de Lisboa?

http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/a-publicidade-a-costa-passos-encarrega-se-5043732.htm

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sábado, 26 de abril de 2008

Obra recorda História de Portugal através de frases emblemáticas


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Cultura
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Tiradas de governantes, escritores, actores e outros intervenientes na cena política ou cultural portuguesa foram reunidas em "Frases que fizeram a História de Portugal", editado esta semana pela Esfera dos Livros.
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Da autoria dos jornalistas Frases que fizeram a História de Portugal de Ferreira Fernandes e João Ferreira, o livro reúne cerca de 250 frases que se tornaram emblemáticas por diversas razões, sendo conhecidas ainda hoje na sua versão original ou alteradas pelos mediadores.
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É o caso do alegado verso de "Os Lusíadas", de Luís de Camões, "Aquela que depois de morta foi rainha", sobre Inês de Castro, que difere daquilo que o poeta realmente escreveu e que foi "Aquele que depois a fez rainha", referindo-se a D.Pedro (1320-1367).
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O livro permite ainda recordar a origem de expressões comuns como "arraia miúda", que Fernão Lopes (1380-1460, sensivelmente) usou para se referir ao povo nas suas "Crónicas" e que tem caracterizado as massas populares ao longo dos séculos.
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Outro caso é o da frase "à grande e à francesa" relativa aos modos luxuosos do general Jean Andoche Junot (1771-1813), auxiliar de Napoleão que chegou a Portugal na primeira invasão francesa, e dos seus acompanhantes, que se passeavam vestidos de gala pela capital.
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"Frases que fizeram a História de Portugal" permite ainda conhecer a origem de expressões celebrizadas por um uso posterior.
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"Felizmente há luar" é uma frase de Dom Miguel Pereira Forjaz, secretário do governo da regência nomeada por Dom João VI, a dizer que a noite de 18 de Outubro de 1817 estava boa para o enforcamento de um grupo de revoltosos contra a ocupação inglesa de Portugal.
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O episódio inspiraria a peça de teatro homónima de Luís de Sttau Monteiro, que, por chamar a atenção sobre a repressão e as perseguições políticas no Estado Novo, esteve proibida até 1974.
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A obra dos dois jornalistas revela também os erros que Luís António Verney (1713-1792), autor de "O Verdadeiro Método de Estudar", apontava, há mais de dois séculos, ao sistema educativo português quando escreveu "É lástima que homens que passaram tantos anos mas escolas não saibam escrever uma carta!".
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O sentido crítico é ainda o ponto forte de "O governo não há- de cair - porque não é um edifício. Tem que sair com benzina - porque é uma nódoa", frase de "O Conde de Abranhos", de Eça de Queiroz (1845- 1900) que, ainda hoje, circula regularmente por e-mail.
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"Queres fiado? Toma!", a legenda com que Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) fez acompanhar a figura do Zé Povinho a fazer o manguito (caricatura do português ignorante e explorado pelo poder), é outra das expressões indexadas nesta obra da Esfera dos Livros.
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O sector político é dos mais bem representados no livro de Ferreira Fernandes e João Ferreira.
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São disso exemplo as frases de Salazar (1889-1970) "Para Angola, rapidamente e em força", adaptada da intervenção que fez em 1961, na tomada de posse de um governo remodelado que tinha Adriano Moreira à frente do Ministério do Ultramar, ou "Orgulhosamente sós", retirada de um discurso de 1965, quando o facto de manter as colónias em África valia a Portugal o isolamento político.
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"Meia dúzia de safanões a tempo", frase que - com algumas variantes - se escuta por vezes nos debates sobre métodos educativos, também foi dita por Salazar, numa entrevista em que António Ferro o questionou sobre "rumores" de torturas a presos políticos.
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Incluída no livro está também o "Obviamente, demito-o", que o general Humberto Delgado disse a 10 de Maio de 1958, em Lisboa, na conferência de imprensa de apresentação da sua candidatura à Presidência da República.
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Humberto Delgado respondia assim a um jornalista da Agência France Presse, que lhe perguntou o que faria em relação a Salazar se fosse eleito a 08 de Junho de 1958, data em que o "General Sem Medo" perdeu para Américo Tomás devido a uma fraude eleitoral.
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Américo Tomás (1894-1987) que também não foi esquecido, pois frases como "É a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive" valeram-lhe uma secção especial na revista Seara Nova, ligada à oposição, como recorda o volume agora publicado.
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A organização cronológica das máximas termina com o exemplo recente de "Nunca me engano e raramente tenho dúvidas" - frase atribuída a Aníbal Cavaco Silva, que a terá dito em 1990 durante uma entrevista, algo que o actual Presidente da República já refutou.
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Agência LUSA2006-03-13 17:36:17
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NOTA - Também há o célebre «É só fumaça» ou «O povo é sereno» do Almirante Pinheiro de Azevedo perante a explosão de algo no meio da multidão que enchia o Terreiro do Paço, para evitar o pânico, ou o «Olhe que não, olhe que não», resposta de Álvaro Cunhal a Mário Soares durante uma entrevista televisiva. (VN)
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