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sexta-feira, 22 de abril de 2016

Shakespeare - All the world's a stage



 "All the world's a stage" is the phrase that begins a monologue from William Shakespeare's As You Like It, spoken by the melancholy Jaques in Act II Scene VII. The speech compares the world to a stage and life to a play, and catalogues the seven stages of a man's life, sometimes referred to as the seven ages of man:[2] infant, schoolboy, lover, soldier, justice, Pantalone and old age, facing imminent death. It is one of Shakespeare's most frequently quoted passages.[citation needed]


All the world's a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances,
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages. At first the infant,
Mewling and puking in the nurse's arms.
Then, the whining school-boy with his satchel
And shining morning face, creeping like snail
Unwillingly to school. And then the lover,
Sighing like furnace, with a woeful ballad
Made to his mistress' eyebrow. Then, a soldier,
Full of strange oaths, and bearded like the pard,
Jealous in honour, sudden, and quick in quarrel,
Seeking the bubble reputation
Even in the cannon's mouth. And then, the justice,
In fair round belly, with a good capon lined,
With eyes severe, and beard of formal cut,
Full of wise saws, and modern instances,
And so he plays his part. The sixth age shifts
Into the lean and slippered pantaloon,
With spectacles on nose and pouch on side,
His youthful hose, well saved, a world too wide
For his shrunk shank, and his big manly voice,
Turning again toward childish treble, pipes
And whistles in his sound. Last scene of all,
That ends this strange eventful history,
Is second childishness and mere oblivion,
Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.  (WIKIPEDIA)

sábado, 24 de julho de 2010

A Questão dos Livros, de Robert Darnton

DIGESTIVOS >>> Literatura

Terça-feira, 13/7/2010
Literatura
Julio Daio Borges




Digestivo nº 466 >>> A Questão dos Livros, de Robert Darnton
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Ao contrário dos jornais que passaram anos ignorando a questão da internet para depois se relançar como “do futuro”, o mercado editorial brasileiro se comportou de forma mais madura, e depois do Kindle (e do iPad), resolveu encarar o assunto da digitalização. A Companhia das Letras saiu na liderança com, justamente, A Questão dos Livros, de Robert Darnton, ex-professor de Princeton e atual diretor da biblioteca da Universidade de Harvard. O volume foi considerado datado pela imprensa e, de fato, Darnton coligiu seu ensaios antes do iPad (a Amazon, por exemplo, surge mais como livraria do que como editora ou distribuidora de livros eletrônicos). Possivelmente redigido no auge do Google – antes da Apple ultrapassá-lo em valor de mercado –, o livro discute basicamente o avanço do gigante das buscas em direção ao acervo de bibliotecas públicas. Darnton escreve à maneira de um acadêmico francês com aversão ao capitalismo, mas seu argumento faz sentido (embora tenha perdido a força): o Google Book Search está se apoderando de um patrimônio comum, para veicular anúncios e “monetizá-lo”, atropelando editores, autores e guarda-livros. O tom de A Questão dos Livros é apocalíptico, e alguém que o ler sem as últimas informações do iPad e do Kindle, vai se preparar para a débâcle da civilização. O fato é que, em matéria de livro eletrônico, a Amazon tomou a dianteira e a Apple lançou sua versão de leitor apenas neste ano. Outros fabricantes, como a HP, também devem consolidar seus aparelhos, mas a verdade é que o Google não se definiu em matéria de tablet (apesar dos rumores). Ninguém imaginava, ainda, que o iPhone (2007) fosse se consagrar como plataforma e, na sua esteira, o promissor iPad. Assim, os temores de Darnton se revelaram infundados, porque o Google Book Search não se tornou tão hegemônico. Mais um exemplo: Tim O'Reilly, o editor e visionário da Web 2.0, teme, hoje, muito mais a Apple do que o Google (em termos de monopólio). A digitalização dos livros é, definitivamente, um fato, mas A Questão dos Livros serve para nos mostrar que a discussão de ontem não é a de hoje, muito menos os vaticínios e os temores.
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>>> A Questão dos Livros
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ISBN: 8535916768
ISBN-13: 9788535916768
Livro em português
Brochura
- 21 x 14 cm 1ª Edição - 2010


232 pág.

Sinopse

O historiador norte-americano Robert Darnton decidiu reunir em um único volume seus artigos abordando a questão do livro, depois de verificar que, na última década, ele havia sido convidado a um grande número de conferências sobre a suposta 'morte do livro', levando-o a suspeitar que estes, ao contrário, deviam estar muito vivos. Abordando questões como - 'Estaria a era do livro em papel encadernado chegando perto do fim, em face dos avanços trazidos pelas tecnologias digitais?', Darnton discute alguns temores que esta paisagem suscita. Por exemplo, será que a iniciativa do Google de digitalizar livros de grandes bibliotecas públicas americanas sinaliza uma tendência monopolística visando apenas ao lucro? E como ficarão os interesses de editores e autores em um processo que pode assumir características predatórias, como ocorreu com a indústria fonográfica? 
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Sobre o autor:

DARNTON, ROBERT
Nasceu em 1939, em Nova York. Filho de jornalistas, graduou-se em história em Oxford. Entre 1964 e 1965 trabalhou como repórter policial no jornal The New York Times, mas abandonou definitivamente a imprensa para aprofundar suas pesquisas sobre a França pré-revolucionária. Atualmente é professor de história européia na Princeton University.



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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

França admite parceria com Google na sua própria biblioteca digital

http://tek.sapo.pt/noticias/internet/franca_admite_parceria_com_google_na_sua_prop_1040619.html

 

França admite parceria com Google na sua própria biblioteca digital

Publicado por Casa dos Bits às 13.47h no dia 13 de Janeiro de 2010 |
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França tem sido um dos mais activos países europeus nas críticas aos projectos da Google. Desde que a empresa americana anunciou planos para criar a maior biblioteca digital do mundo, com o Google Books, que França, através dos seus mais altos dirigentes, tem insistido na ideia da Europa ripostar ao projecto.

A principal preocupação demonstrada pelos responsáveis tem sido a de garantir que as línguas alternativas ao inglês também garantam espaço de relevo na Internet, sobretudo a herança histórica e cultural dos países e que o projecto da Google não crie uma espécie de hegemonia anglo-saxónica.
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Em conjunto, a Europa tem procurado responder a este desafio através da Biblioteca Digital Europeia, a Europeana, mas França acaba de apresentar um relatório com detalhes sobre um projecto unilateral que também pretende desenvolver com o mesmo objectivo de assegurar a representatividade da sua língua na Internet e a Google pode vir a ser parceira da iniciativa.
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O ministro francês da cultura admitiu que a Google pode ser o veículo para impulsionar a presença do espólio francês na Internet, através de um projecto designado por Gallic, que por agora tem acesso restrito a profissionais.
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Pelo Gallic, coordenado pela Biblioteca Nacional francesa, tem passado boa parte do esforço de digitalização de livros e outros documentos que França tem vindo a realizar e que, de acordo com dados revelados anteriormente, já mereceu um investimento de 750 milhões de euros.
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Globalmente este projecto conta com perto de um milhão de documentos digitalizados, mas no âmbito de uma parceria publico-privada o Governo pretende torná-lo um competidor do Google Books, que reúne actualmente cerca de 10 milhões de livros digitalizados.
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O Gallic será a base de um novo portal a partir do qual nascerá o candidato a concorrente do Google Books, baseado num modelo idealizado num estudo financiado pelo Governo e apresentado ontem.

As negociações com a Google e outros players podem surgir no sentido de partilhar custos na dispendiosa tarefa de digitalização dos livros, de forma a aumentar o espólio disponível, mas segundo o ministro da cultura francês, apenas se a empresa norte-americana aceitar "jogar pelas regras francesas", disse numa conferência de imprensa.
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Um acordo com a Google poderia também visar a troca de livros digitalizados pela Google - a maior parte em universidades americanas - por livros e documentos em francês, já digitalizados no âmbito do projecto Gallic.
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Os autores franceses visados pelas digitalizações terão o poder de decisão relativamente à porção do livro que fica disponível online. Se o utilizador quiser ter acesso ao restante é encaminhado para uma loja online, explica o responsável pelo estudo citado pela Associated Press. A exploração comercial desta Biblioteca Digital vai ser assegurada por publicidade.
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Numa entrevista ao Le Monde o ministro francês da cultura criticou ainda as condições em que muitas empresas ou entidades europeias aceitaram negociar com a Google, sobretudo no que se refere à exclusividade dos acordos anunciados.
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Frederic Mitterrand, que pretende visitar em breve os escritórios da Google nos Estados Unidos, assegurou ainda que França negociará com a empresa norte-americana sempre numa base aberta e de não exclusividade de acesso aos conteúdos..
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sábado, 16 de janeiro de 2010

"O Google é uma tragédia para os jovens", afirma Umberto Eco


 

Cultura

Vermelho - 15 de Novembro de 2009 - 13h43

O escritor e semioticista italiano Umberto Eco, curador de uma nova exposição no Louvre em Paris, falou à "Spiegel" sobre o lugar que as listas ocupam na história da cultura, as formas pelas quais tentamos evitar pensar na morte e por que o Google é perigoso para os jovens.

Spiegel: Sr. Eco, o senhor é considerado um dos grandes acadêmicos do mundo, e agora está inaugurando uma exibição no Louvre, um dos museus mais importantes do mundo. Entretanto, os temas de sua mostra soam um pouco lugar-comum: a natureza essencial das listas, poetas que listam coisas em seus trabalhos e pintores que acumulam coisas em suas pinturas. Por que você escolheu esses temas?
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Umberto Eco: A lista é a origem da cultura. Ela faz parte da história da arte e da literatura. O que a cultura quer? Tornar a infinitude compreensível. Ela também quer criar ordem - nem sempre, mas com frequência. E como, enquanto seres humanos, lidamos com a infinitude? Como é possível entender o incompreensível? Através de listas, através de catálogos, através de coleções em museus e através de enciclopédias e dicionários. 

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Há uma atração em enumerar com quantas mulheres Don Giovanni dormiu: foram 2.063 pelo menos, de acordo com o libretista de Mozart, Lorenzo da Ponte. Nós também temos listas totalmente práticas - listas de compras, testamentos, cardápios - que, a seu modo, também são conquistas culturais.
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Spiegel: A pessoa aculturada deveria então ser vista como um zelador tentando impor a ordem em lugares onde o caos prevalece?
Eco: A lista não destrói a cultura; ela a cria. Para onde quer que você olhe na história da cultura, encontrará listas. Na verdade, há uma variedade atordoante: listas de santos, exércitos e plantas medicinais, ou de tesouros e títulos de livros. Pense nas coleções sobre a natureza do século 16. Meus livros, a propósito, são cheios de listas.
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Spiegel: Contadores fazem listas, mas também podemos encontrá-las nas obras de Homero, James Joyce e Thomas Mann.
Eco: Sim. Mas eles, é claro, não são contadores. Em "Ulysses", James Joyce descreve como seu protagonista, Leopold Bloom, abre suas gavetas e tudo o que ele encontra dentro delas. Vejo isso como uma lista literária, e ela diz muito sobre Bloom. Ou veja Homero, por exemplo. Na "Ilíada", ele tenta transmitir uma impressão do tamanho do exército grego. Primeiro ele usa metáforas: "Assim como um grande fogo florestal investe contra o topo de uma montanha e sua luz é vista de longe, enquanto marchavam, o brilho de suas armaduras reluzia nas alturas do céu". Mas não fica satisfeito. Ele não consegue encontrar a metáfora certa, então implora às musas para que o ajudem. Então ele chega à ideia de listar os nomes de muitos, muitos generais e seus navios.

A lista não destrói a cultura; ela a cria. Para onde quer que você olhe na história da cultura, encontrará listas. (...) Meus livros, a propósito, são cheios de listas
Spiegel: Mas, ao fazer isso, ele não se desvia da poesia?
Eco: A princípio, pensamos que uma lista é algo primitivo e típico das primeiras culturas, que não tinham um conceito exato do universo e que, portanto, eram limitadas a listar as características que podiam nomear. Mas, na história cultural, a lista prevaleceu ao longo do tempo. Ela não é, de forma alguma, uma mera expressão das culturas primitivas. Uma nova visão de mundo baseada na astronomia predominou durante o Renascimento e o período barroco. E havia listas. E a lista com certeza impera na era pós-moderna. Ela tem uma mágica irresistível.
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Spiegel: Mas por que Homero lista todos aqueles guerreiros e seus navios, se sabe que nunca será capaz de citar todos eles?
Eco: O trabalho de Homero se depara constantemente com o tópos do inexpressível. As pessoas sempre farão isso. Sempre fomos fascinados pelo espaço infinito, pelas estrelas incontáveis e galáxias além das galáxias. Como uma pessoa se sente olhando para o céu? Ela acredita que sua língua não é suficiente para descrever o que vê. Os amantes estão na mesma posição. Eles experimentam uma deficiência de linguagem, uma falta de palavras para expressar seus sentimentos. Mas os amantes tentam parar de fazer isso? Eles criam listas: seus olhos são tão belos, assim como sua boca, e a sua clavícula... As pessoas podem entrar em grandes detalhes.
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Spiegel: Por que nós perdemos tanto tempo tentando concluir coisas que não podem ser realisticamente concluídas?

Eco: Nós temos um limite, um limite muito desencorajador e humilhante: a morte. É por isso que gostamos de todas as coisas que acreditamos não ter limites, e que, portanto, não têm fim. É uma forma de fugir dos pensamentos sobre a morte. Gostamos de listas porque não queremos morrer.
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"As pessoas têm suas preferências"
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Spiegel: Em sua mostra no Louvre, você também mostra obras das artes visuais, como naturezas-mortas. Mas essas pinturas têm molduras, ou limites, e elas não podem mostrar mais do que de fato mostram.
Eco: Pelo contrário, o motivo pelo qual gostamos tanto delas é que acreditamos que somos capazes de ver mais do que elas mostram. Uma pessoa contemplando uma pintura sente necessidade de abrir a moldura e ver que coisas estão à esquerda e à direita da tela. Esse tipo de pintura é verdadeiramente uma lista, um recorte da infinitude.
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Spiegel: Por que as listas e as acumulações são particularmente importantes para você?
Eco: As pessoas do Louvre me procuraram e perguntaram se eu gostaria de ser o curador de uma exibição no museu, e pediram para que eu elaborasse uma programação de eventos. Só a ideia de trabalhar num museu já era sedutora para mim. Estive lá sozinho recentemente, e me senti como um personagem num livro de Dan Brown. Fiquei ao mesmo tempo assustado e maravilhado. Percebi imediatamente que a exibição teria como tema as listas. Por que me interesso tanto pelo assunto? Não sei dizer exatamente. Gosto das listas pela mesma razão que outras pessoas gostam de futebol ou pedofilia. As pessoas têm suas preferências.
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Spiegel: Ainda assim, você é famoso por ser capaz de explicar suas paixões...
Eco: ? mas não por falar sobre mim mesmo. Veja, desde a época de Aristóteles tentamos definir as coisas baseadas em sua essência. A definição do homem? Um animal que age de forma deliberada. Agora, levou 80 anos para os naturalistas conseguirem elaborar a definição de um ornitorrinco. Eles acharam infinitamente difícil descrever a essência desse animal. Ele vive na água e na terra; bota ovos, e apesar disso é um mamífero. Então com que se parece essa definição? É uma lista, uma lista de características.
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Spiegel: Uma definição certamente seria possível com um animal mais convencional.
Eco: Talvez, mas isso tornaria o animal interessante? Pense num tigre, que a ciência descreve como um predador. Como uma mãe descreveria um tigre para seu filho? Talvez usando uma lista de características: o tigre é um felino, grande, amarelo, com listras e forte. Só um químico se referiria à água como H2O. Mas eu digo que ela é líquida e transparente, que nós a bebemos e que podemos nos lavar com ela. Agora você pode finalmente ver sobre o que estou falando. A lista é o marco de uma sociedade altamente avançada, desenvolvida, porque ela nos permite questionar as definições essenciais. A definição essencial é primitiva comparada à lista.
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Spiegel: Pode parecer que você está dizendo que deveríamos parar de definir as coisas e que o progresso seria, em vez disso, apenas contar e listar as coisas.
Eco: Isso pode ser libertador. O período barroco foi um período de listas. De repente, todas as definições escolásticas que foram feitas no período anterior não serviam mais. As pessoas tentaram ver o mundo de uma perspectiva diferente. Galileu descreveu novos detalhes sobre a Lua. E, na arte, definições estabelecidas foram literalmente destruídas, e a variedade de assuntos se expandiu tremendamente. Por exemplo, vejo as pinturas do barroco holandês como listas: as naturezas-mortas com todas aquelas frutas e as imagens de armários opulentos de curiosidades. As listas podem ser anárquicas.
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Spiegel: Mas você disse que as listas podem estabelecer a ordem. Então, tanto a ordem quanto a anarquia se aplicam? Isso tornaria a internet, e as listas criadas pelo mecanismo de busca Google, perfeitas para você.
Eco: Sim, no caso do Google, ambas as coisas convergem. O Google faz uma lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista gerada pelo Google, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para pessoas mais velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra forma, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas precisam ensinar a fina arte de discriminar.
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Spiegel: Você está dizendo que os professores deveriam instruir seus alunos sobre a diferença entre o que é bom e o que é ruim? Se sim, como eles deveriam fazer isso?
Eco: A educação deveria voltar à forma que era nas oficinas do Renascimento. Lá, os mestres não eram necessariamente capazes de explicar aos alunos porque uma pintura era boa em termos teóricos, mas eles faziam isso de forma mais prática. Veja, o seu dedo pode se parecer com isso, mas ele é de fato assim. Veja, esta é uma boa mistura de cores. A mesma abordagem deveria ser usada nas escolas ao lidar com a internet. O professor deveria dizer: "Escolha qualquer assunto, quer seja a história alemã ou a vida das formigas. Busque 25 páginas diferentes na internet e, ao compará-las, tente descobrir qual oferece uma boa informação". Se dez páginas descreverem a mesma coisa, pode ser um sinal de que a informação publicada está correta. Mas também pode ser um sinal de que alguns sites copiaram os erros dos outros.
 
Por que me interesso tanto pelo assunto? Não sei dizer exatamente. Gosto das listas pela mesma razão que outras pessoas gostam de futebol ou pedofilia. As pessoas têm suas preferências
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Spiegel: Uma definição certamente seria possível com um animal mais convencional.
Eco: Talvez, mas isso tornaria o animal interessante? Pense num tigre, que a ciência descreve como um predador. Como uma mãe descreveria um tigre para seu filho? Talvez usando uma lista de características: o tigre é um felino, grande, amarelo, com listras e forte. Só um químico se referiria à água como H2O. Mas eu digo que ela é líquida e transparente, que nós a bebemos e que podemos nos lavar com ela. Agora você pode finalmente ver sobre o que estou falando. A lista é o marco de uma sociedade altamente avançada, desenvolvida, porque ela nos permite questionar as definições essenciais. A definição essencial é primitiva comparada à lista.
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Spiegel: Pode parecer que você está dizendo que deveríamos parar de definir as coisas e que o progresso seria, em vez disso, apenas contar e listar as coisas.
Eco: Isso pode ser libertador. O período barroco foi um período de listas. De repente, todas as definições escolásticas que foram feitas no período anterior não serviam mais. As pessoas tentaram ver o mundo de uma perspectiva diferente. Galileu descreveu novos detalhes sobre a Lua. E, na arte, definições estabelecidas foram literalmente destruídas, e a variedade de assuntos se expandiu tremendamente. Por exemplo, vejo as pinturas do barroco holandês como listas: as naturezas-mortas com todas aquelas frutas e as imagens de armários opulentos de curiosidades. As listas podem ser anárquicas.

Spiegel: Mas você disse que as listas podem estabelecer a ordem. Então, tanto a ordem quanto a anarquia se aplicam? Isso tornaria a internet, e as listas criadas pelo mecanismo de busca Google, perfeitas para você.
Eco: Sim, no caso do Google, ambas as coisas convergem. O Google faz uma lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista gerada pelo Google, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para pessoas mais velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra forma, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas precisam ensinar a fina arte de discriminar.

Spiegel: Você está dizendo que os professores deveriam instruir seus alunos sobre a diferença entre o que é bom e o que é ruim? Se sim, como eles deveriam fazer isso?
Eco: A educação deveria voltar à forma que era nas oficinas do Renascimento. Lá, os mestres não eram necessariamente capazes de explicar aos alunos porque uma pintura era boa em termos teóricos, mas eles faziam isso de forma mais prática. Veja, o seu dedo pode se parecer com isso, mas ele é de fato assim. Veja, esta é uma boa mistura de cores. A mesma abordagem deveria ser usada nas escolas ao lidar com a internet. O professor deveria dizer: "Escolha qualquer assunto, quer seja a história alemã ou a vida das formigas. Busque 25 páginas diferentes na internet e, ao compará-las, tente descobrir qual oferece uma boa informação". Se dez páginas descreverem a mesma coisa, pode ser um sinal de que a informação publicada está correta. Mas também pode ser um sinal de que alguns sites copiaram os erros dos outros. 
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O Google faz uma lista, mas, no minuto em que eu olho para minha lista gerada pelo Google, ela já mudou. Essas listas podem ser perigosas - não para pessoas mais velhas como eu, que adquiriram o conhecimento de outra forma, mas para os jovens, para quem o Google é uma tragédia. As escolas precisam ensinar a fina arte de discriminar
 Spiegel: Você tem uma tendência maior a trabalhar com livros, e tem uma biblioteca de 30 mil volumes. Ela provavelmente não funciona sem uma lista ou catálogo.
Eco: Acredito que, agora, ela tenha na verdade 50 mil livros. Quando minha secretária quis catalogá-la, pedi que ela não o fizesse. Meu interesse muda constantemente, assim como minha biblioteca. A propósito, se você muda constantemente de interesses, sua biblioteca constantemente dirá algo diferente sobre você. Além disso, mesmo sem um catálogo, sou obrigado a me lembrar dos meus livros. Tenho um corredor para literatura com 70 metros de comprimento. Ando por ele várias vezes por dia, e me sinto bem ao fazer isso. A cultura não é saber quando Napoleão morreu. Cultura significa saber como posso descobrir isso em dois minutos. É claro, hoje em dia posso encontrar esse tipo de informação na internet em menos tempo. Mas, como eu disse, nunca se pode ter certeza com a internet.
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Spiegel: Você inclui uma lista simpática feita pelo filósofo francês Roland Barthes em seu novo livro, "A Vertigem das Listas". Ele lista as coisas de que mais gosta e as coisas de que não gosta. Ele adora salada, canela, queijo e especiarias. Ele não gosta de motoqueiros, mulheres com calças compridas, gerânios, morangos e cravo [instrumento musical]. E você?
Eco: Eu seria um tolo se respondesse a isso; estaria me fechando numa definição. Eu era fascinado por Stendhal aos 13 e por Thomas Mann aos 15 e, aos 16, eu adorava Chopin. Então passei a minha vida inteira tentando conhecer o resto. Agora, Chopin está no topo novamente. Se você interage com as coisas em sua vida, tudo muda constantemente. E se nada muda, você é um idiota.
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Fonte: Der Spiegel
Tradução: Eloise De Vylder

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Twitter na Time

DIGESTIVOS >>> Internet

Segunda-feira, 28/12/2009
Internet
Julio Daio Borges




Digestivo nº 419 >>> O Twitter na Time
Enquanto os jornalistas brasileiros classificam o Twitter como “uma besteira”, os da Time afirmam, na capa da revista, que o mesmo Twitter “vai mudar nosso jeito de viver”. Um exagero de ambos os lados. No caso do Brasil, um exagero em matéria de desinformação. E, no caso dos EUA, um exagero calculado, para vender mais exemplares na banca. Afinal, conforme a própria Time estima, são 32 milhões de usuários no Twitter neste momento. E o serviço vem crescendo de 50 a 100% mensalmente. A expectativa é de que alcance 50 milhões no final deste ano (vale lembrar que o Facebook tem 200 milhões). Abocanhar uma parcela disso – quando as maiores revistas têm tiragem de um milhão – é um grande feito, não é? A Time começa fazendo uma piada, pelo fato do Twitter causar uma “má primeira impressão”. Valoriza o que o microblog proporciona em termos de “ambient awareness” (algo como “consciência do ambiente” ou, numa tradução livre, “percepção do zeitgeist”), expressão de Clive Thompson. Sugere que o interesse reside não “no Twitter em si”, mas “no que estamos fazendo hoje com ele”. Na interpretação de Ashton Kutchermais de 2 milhões de “seguidores” –, seria o fato do Twitter não ser, exatamente, a “soma” de instant messaging (nosso MSN) com rede social (nosso Orkut). A Time se rende, finalmente, classificando muitos dos tweets (ou microposts) como “tocantes”, “engraçados”, “argutos” e “irreverentes”. Sua ameaça ao Google, segundo John Battelle, estaria na possibilidade do Twitter revelar a “super fresh” Web ou a “internet em tempo real” (que a poderosa ferramenta de busca, atualmente, não revela). O mesmo Facebook já ofereceu 500 milhões pela startup de Evan Williams, Jack Dorsey e Biz Stone. Não é, decididamente, “uma besteira”. Mas será que vai nos mudar mais do que já mudamos nestes últimos anos (© @dudafleury)? 
>>> How Twitter Will Change the Way We Live

terça-feira, 4 de março de 2008

Dicas para você aparecer no Google


COLUNAS >>> Especial Google


Adriana Baggio


Você é daquelas pessoas que gostam de aparecer? Você adiciona desconhecidos só para ter mais amigos no Orkut? Você fica mandando scraps para os outros só para que eles respondam e aumentem a quantidade de recados no seu perfil? Você participa de todos os fóruns e comentários para ficar conhecido na rede? Você força a barra para seus amigos visitarem seu blog? Você é uma empresa e quer usar a internet para melhorar sua imagem ou suas vendas?

Se respondeu "siiiiiimmmmmm" a pelo menos uma destas questões, então você também está preocupado em aparecer no Google.

O Google é o maior e mais eficiente sistema de buscas da internet. Seu ranking de resultados está baseado na relevância, de acordo com os termos que você digitou no campo "pesquisa". Então, pense cá comigo: se os primeiros resultados são os mais relevantes, significa que estar no alto da página de pesquisa do Google é o equivalente internético de aparecer na TV Globo. Entre as milhares de notícias de todos os dias, ganham espaço somente aquelas que a emissora considera "relevantes" para seu público.

Usar estratégias para ser encontrado pelo Google é como fazer cartazes usando palavras-chave para conseguir ser filmado pela TV durante uma transmissão de jogo de futebol. Se você escreve palavras que são importantes para a emissora, suas chances de ser focado pela câmera são bem maiores (por isso que as pessoas colocam nos cartazes a logomarca da emissora ou o nome do "Galvão"). Se o seu cartaz tiver apenas "mamãe, olha eu aqui", vai ficar mais difícil.

Por conta dessa classificação por relevância, o Google acaba funcionando como um atestado de credibilidade. Para ser alguém na vida da rede, é preciso aparecer no sistema de busca. E assim como as pessoas aprenderam a escrever determinadas palavras nos cartazes para aparecerem na televisão, hoje existem diversas técnicas que auxiliam um site ou alguém a aparecer no Google. De preferência, entre os primeiros resultados.

Não sou nenhuma especialista em internet, muito menos em sistemas de busca, mas aprendi alguns truquezinhos que posso compartilhar (e se eu falar alguma bobagem, alguém me corrija, por favor). Digamos que você tenha um blog e deseje que ele seja listado no Google. O primeiro passo é fazer com que outros sites tenham links para seu blog. Sabe por quê? Porque o sistema de relevância do Google considera mais importantes aqueles sites que são citados por outros. Portanto, se você tem um blog que não é lincado em nenhum outro lugar da rede, você nunca vai aparecer no Google. Estará condenado ao ostracismo virtual.

Mas, como fazer para seu blog ser lincado em outros sites, sem ter que arriscar sua dignidade implorando isso aos amigos? Crie um segundo blog! Assim, em cada um deles você coloca um link para o outro. Porém, esse é apenas o primeiro passo. Para subir na lista do Google, é preciso estar lincado a várias páginas, não em apenas uma. E aí, ao invés de criar mais um monte de blogs "fantasmas", é melhor caprichar no conteúdo do original e tentar despertar para ele a atenção de outras pessoas na rede.

Apesar da importância de se estar presente em outros sites, não é apenas isso que torna o seu espaço mais popular na lista do buscador. Ainda considerando a relevância, é preciso que o conteúdo seja coerente. Um site sobre vinhos, por exemplo, vai estar melhor colocado na relação se o nome, a descrição do site e o conteúdo dele forem integrados, "falem" a mesma língua e sobre o mesmo assunto.

E assim, chegamos à questão do conteúdo. A escolha das palavras certas que levam um site a ser bem colocado no Google é tão importante que virou até disciplina de marketing. Assim como existe marketing de relacionamento, marketing viral, endomarketing e outros, também existe o search marketing.

Um exemplo bem superficial de utilização desta ferramenta é: descobrir quais palavras devem estar no texto do seu site para que ele apareça quando determinados termos forem digitadas na caixa de pesquisa. Se um site especializado na programação cultural da cidade descobre que as pessoas fazem a busca das atrações através da expressão "peças de teatro", é importante que o texto do site contenha essa expressão. Assim, a combinação entre vários links para sua página e conteúdo relevante vai fazer com que a colocação do seu site no Google seja cada vez melhor.

Essas informações valem para quem quer aparecer no site de busca, mas também para aqueles que desejam obter melhores resultados nas suas pesquisas. Se você sabe como o Google funciona, pode navegar melhor pelos sites listados. O primeiro site da lista pode ser o mais relevante segundo os critérios do Google, mas não segundo os seus. Portanto, talvez valha a pena dar uma olhadinha nos últimos colocados da pesquisa.

Para que os objetivos de busca do Google coincidam com os seus, é importante que você escolha as palavras certas para colocar no campo de pesquisa. Um exemplo bem atual: digamos que você deseje achar referências sobre alguém que se chame "Katilce", mas que não tenha nada a ver com felizarda que ganhou um selinho do Bono Vox no show do U2 no Morumbi. Se você digitar somente "Katilce", vão aparecer milhares de páginas com referências à bancária de Volta Redonda. Então, o melhor é você colocar o nome e um sinalzinho de menos (-) antes de "U2". A pesquisa só vai mostrar as "Katilces" que não tenham relação com o show, e daí talvez você encontre a sua (se você não sabe do que estou falando, acompanhe um pouco da história no Blue Bus).

Já os interessados na celebridade instantânea, se fizerem uma busca sobre ela, talvez acabem caindo aqui no texto. Essa "armadilha" é para exemplificar as dicas ali de cima. O Digestivo é um site altamente lincado. Juntando isso às palavras que eu escolhi (Katilce, U2, selinho, Bono Vox – as mais representativas do acontecimento), é muito provável que este texto apareça bem colocado no Google quando alguém pesquisar sobre a moça.

O Google é mais conhecido pelo buscador, mas suas outras ferramentas (Gmail e Google Earth, por exemplo) também são inovadoras e estão provocando uma revolução nos hábitos das pessoas e na forma de fazer publicidade (veja aqui neste fotolog como as empresas que anunciam em telhados ganham mais visibilidade por causa do Google Earth – mais uma dica do Blue Bus). Apesar de tudo, não passam disto: ferramentas. A melhor utilização de cada uma delas, inclusive do buscador, depende muito mais do cérebro humano do que da tecnologia do software.

E um outro alerta, que pode parecer óbvio: por mais que a gente compare o Google a um oráculo e que estar lá signifique algum tipo de credibilidade, é preciso lembrar que nem tudo que está na rede presta, e nem tudo é verdade. Por isso, a busca na internet só está completa depois que os resultados passam por um filtro muito mais poderoso: o do seu discernimento.

Adriana Baggio
Curitiba, 9/3/2006
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Digestivo Cultural -

Quinta-feira, 9/3/2006
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A Barsa versus o Google


COLUNAS >>> Especial Google


Lucas Rodrigues Pires







Outro dia li uma notícia no jornal que me surpreendeu: as vendas da enciclopédia Barsa, depois de anos em decadência, voltaram a crescer, e bem. Esperam boas vendas para este ano que mal acabou de começar. Será este aumento apenas resultado de uma maior ação no corpo-a-corpo dos vendedores, já que a enciclopédia só é vendida de porta em porta?

A questão que estou a colocar é buscar entender justamente como diversos tijolos de papel impresso, com diversos volumes que se propõem a conter sintetizados o conhecimento do mundo, voltaram a vender quando a aparente verdadeira síntese do conhecimento humano, a Torre de Babel do mundo moderno, a Biblioteca de Alexandria da era antiga, está instalada de graça na internet e acessível por um botão de busca no Google.

Para seguir adiante, é preciso saber diferenciar os conteúdos de cada um dos objetos mencionados: a Barsa e o Google. Enquanto a primeira é um conjunto de verbetes da cultura humana e do universo físico – buscando explicar a qualquer um o que vem a ser qualquer coisa que lhe cruze o caminho – produzidos ao longo do tempo e compilada em diversos volumes de papel, o segundo é mais um instrumento de se atingir o mesmo fim. Em poucas palavras, o Google é o meio, a Barsa é o fim, mas não da mesma equação já que estão em veículos distintos.

Mas as diferenças são muitas outras. O Google te leva a conteúdos alheios, de algumas das milhões (ou seriam bilhões?) de páginas da Internet. A Barsa deve ter uma equipe própria que produz cada verbete. Ou seja, um se faz do trabalho de outrem enquanto a outra está voltada a seu próprio umbigo. No Google, é o interessado que busca fazer parte de seu rol de indicações. Para um site configurar no programa de busca, é preciso que a pessoa responsável cadastre o seu site no sistema Google de busca (não apenas uma vez; na verdade, o cadastro em si não garante à sua http a “citação” quando procurarem por “você”), enquanto na Barsa tudo é pensado antes e o leitor/interessado só tem acesso a algo previamente acertado e definido entre os editores.

Continuemos: se a Barsa oferece um conteúdo condensado, mastigado, mesmo que reduzido em explicações ou complexidades, o Google não encurta o caminho, ele te faz navegar por diversas páginas a fim de obter alguma informação que queira. O internauta, ou navegador, na apropriada metáfora que já se institucionalizou, viaja por muitos sites, conhece diversos www em seu Internet Explorer até alcançar o resultado (site, notícia ou o que quer que seja) buscado originalmente. Muitas vezes, por falta de paciência, de destreza ou mesmo de falta do Google (que pode ser do sistema ou dos interessados em constar em seu sistema), saímos da pesquisa sem uma resposta satisfatória quanto a nossa indagação.

Além de tudo isso, claro que temos de pesar entre as diferenças outras duas coisas: a Barsa pode ser acessada rapidamente, basta pegar o volume em que a palavra que queremos deva estar e folhear atrás dela. Para buscar no Google, temos de ligar o computador, abrir a página, clicar a palavra almejada, procurar entre as dezenas ou centenas de indicações algum site que possa ter o que desejamos e assim seguir até que nos satisfaçamos. A outra diferença reside justamente no valor pago por esse serviço: para ter a Barsa, o interessado deve pagar, e não pouco, por sua coleção; o Google está disponível gratuitamente na internet. O único pré-requisito é que o interessado tenha contratado um serviço de acesso à internet. Simplificando: a Barsa é mais rápida e cara, o Google, mais barato e requer um esforço mínimo de queima de neurônios.

Diante dessas diferenças, será que podemos fazer um exercício comparativo de ambos os “produtos”? Seria o Google mesmo o herdeiro das enciclopédias? Mas e as enciclopédias virtuais que existem na internet, como ficam? Seriam elas concorrentes do Google?

O que parece estar se configurando nesses primeiros anos do século 21 é que o Google adquiriu tal força como guia do internauta que aquele site que não estiver dentro dele está fora do mundo não só virtual. É a tal história do peixe fora d’água, ou da pessoa que não vê a novela e por isso acaba deslocada e isolada nas rodas do café ou em outras formas de aglomeração humana em que a comunicação se faz necessária. A consolidação do Google como referência em busca criou a necessidade de se fazer parte dele, de constar entre suas indicações de páginas como meio de sobreviver. Principalmente entre as empresas que têm site e o usam como e-commerce. Quem vende pela internet e não está no Google deve ter um marketing e divulgação extra-internet, ou seja, o tradicional, que lhe custará uma boa soma de capital, para superar o “anonimato”.

Em relação ao conhecimento do mundo, o Google parece ter em mente não a intenção de uma Babel ou mesmo de uma Barsa. Ele visa ser uma referência da web, no que ela tem em si. Uma referência de busca da internet deve levar em consideração não apenas conhecimentos sistematizados, mas toda a gama de intenções e utilidades que a web oferece. Ela é um instrumento não apenas de armazenamento de informações, mas, superada a incógnita inicial, fundamentalmente já um meio capitalizado para fazer mais dinheiro. Queira-se ou não, a internet, e o Google teve papel fundamental nisso, readaptou as empresas a fazer parte dela como forma de vitrine e de sobrevivência. Não se leva a sério uma empresa que não tenha um site. O site é hoje fundamental não apenas como credibilidade, mas também como um meio de se fazer conhecido por todos. Estar na internet é mais barato, fácil e seguro do que por outros meios e veículos. O e-marketing é ainda pouco eficiente se comparado ao marketing tradicional, mas seu custo também é muito menor. O importante é estar disponível 24 horas para quem quiser visitar ou por algum caminho tortuoso chegar à sua página.

Na internet, como quase tudo é de graça, o importante é a disponibilidade do serviço, seja comercial, cultural ou de qualquer natureza (mas os conteúdos de internet podem todos ser configurados como produtos, mesmo um blog), a facilidade de se chegar ao seu produto e de se vender de uma forma passiva. O Google é a ferramenta atualmente ideal para se disponibilizar e facilitar o acesso ao que você tem a oferecer. “Vendê-lo” é com a página, com o site, com a “atratividade” do produto. Parece que seu ponto de apoio é basicamente econômico, diferentemente da Barsa que ainda mantém uma idéia muito mais cultural do que qualquer outra coisa. Ela voltou a aumentar suas vendas apoiada no discurso iluminista de que o conhecimento está em suas mãos. É mais fácil, seguro (afinal, nem tudo na internet é de fonte confiável) e tem credibilidade. Além, é claro, de impor um status ao proprietário que ajudou a vender muitas coleções em sua história.

O Google está longe de ser uma Barsa, assim como a Barsa está longe de ser um Google. Nem um nem outro querem ser como o outro. Querem apenas ser referências em seus ramos de atuação. Uma como compilação de verbetes e conhecimento, o outro como intermediário entre o internauta e sua busca. Cada um a seu modo, em seu meio (um via meio impresso, outro na internet), em suas ambições, estão em expansão (especificamente a Barsa voltando a crescer depois de quase falir). E não é de se surpreender e de aplaudir a volta da Barsa, ainda mais com a venda porta a porta, tida como morta com o advento da internet e seus infindáveis recursos? Está aí mais uma prova de que a internet não é o bicho-papão que pregavam e tudo é uma questão de readaptação, e competência pra tanto, claro.

Post Scriptum
Leio no jornal novamente uma reportagem do caderno "Mais!", da Folha de S. Paulo, (29/01/2006) dizendo que o Google foi eleita a marca mais influente do planeta. Além disso, discutiam a opção da empresa em censurar conteúdo, com condição do governo chinês, para entrar naquele mercado, e a decisão nos EUA de um juiz federal em obrigar a empresa a fornecer registros de pesquisas de usuários. Para uma empresa virtual, seu poder já está muito acima do esperado. Parece que o Google deixou de ser um instrumento de auxílio de busca aos internautas, mais de um bilhão deles em 2006, para ter um papel também político. O projeto Google superou em muito sua idéia inicial. Agora é ver como ela se sai no campo real das gigantes comerciais.

Lucas Rodrigues Pires
São Paulo, 16/3/2006
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in Digestivo Cultural -

Quinta-feira, 16/3/2006
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