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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Pablo Neruda - Ode ao gato



«Este belo e melancólico mural em Orgosolo afasta-se um pouco do tom puramente político ou de protesto militar para mergulhar numa profunda reflexão existencial e poética sobre a insatisfação humana, utilizando as palavras de um dos maiores escritores da literatura mundial: o chileno Pablo Neruda. O texto pintado na parede acima das personagens é um poema em prosa (com pequenas adaptações na quebra dos versos) retirado da obra do Nobel da Literatura:

"...l'uomo vuol essere pesce e uccello, il serpente vorrebbe avere le ali, il cane è un leone spaesato, l'ingegnere vuol essere poeta, la mosca studia per rondine, il poeta cerca d'imitare la mosca, ma il gatto vuole essere solo gatto..." — Pablo Neruda



Esse texto poético faz parte de um dos poemas mais célebres e divertidos de Pablo Neruda, chamado "Oda al gato" (Ode ao gato), publicado em 1954 no seu livro Odas elementales.

Como se trata de uma ode longa, o trecho pintado no mural corresponde à secção central e final do poema, onde Neruda faz justamente essa brilhante transição entre a crise de identidade dos outros seres e a perfeição absoluta do gato.

"Oda al gato" (Original em Espanhol)

Los animales fueron
imperfectos,
largos de cola, tristes
de cabeza.
Poco a poco se fueron
componiendo,
haciéndose paisaje,
adquiriendo lunares, gracia, vuelo.
El gato,
sólo el gato
apareció completo
y orgulloso:
nació completamente terminado,
camina solo y sabe lo que quiere.  

El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde el lomo a la cola,
desde la premonición hasta el ratón vivo,
desde la noche hasta sus ojos de oro.  

No hay unidad como él,
no tienen
la luna ni la flor tal contextura:
es una sola cosa
como el sol o el topacio,
y la elástica línea de su contorno
es firme y sutil como
la línea de la proa de un navío.
Sus ojos amarillos
dejaron una sola
ranura
para echar las monedas de la noche.

Oh pequeño emperador sin orbe,
conquistador sin patria,
mínimo tigre de salón, nupcial
sultán del cielo
de las tejas eróticas,
el viento de la amor
reclamas
en la intemperie
cuando pasas
y posas
cuatro pies calzados
con sutiles
calzados de plata,
husmeando
la sospechosa
soledad del mundo.

Oh fiera independiente
de la casa, arrogante
vestigio de la noche,
perezoso, gimnasta
y detectivesco,
hondísimo
gato,
policía secreto
de las habitaciones,
insignia
de una
desaparecida terciopelo,
seguramente no hay
enigma
en tu manera,
tal vez no eres misterio,
todo el mundo te conoce y perteneces
al habitante menos elegante,
tal vez todos se creen
tus dueños,
tus propietarios, tíos
o compañeros,
de gatos, compadres
de su destino,
pero yo
no confieso.
Yo no me rindo al gato.

Él no me pide nada,
camina
y es en su noche su destino.

"Ode ao Gato" (Tradução em Português)

Os animais foram
imperfeitos,
longos de cauda, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco foram-se
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo manchas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
camina sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e ave,
a serpente gostaria de ter asas,
o cão é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta tenta imitar a mosca,
mas o gato
quer ser apenas gato
e todo o gato é gato
do lombo à cauda,
da premonição até ao rato vivo,
desde a noite até aos seus olhos de ouro.

Não há unidade como ele,
não têm
a lua nem a flor tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha do seu contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de um navio.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para deitar as moedas da noite.

Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
dos telhados eróticos,
o vento do amor
reclamas
na intempérie
quando passas
e pousas
quatro pés calçados
com subtis
sapatos de prata,
farejando
a suspeita
solidão do mundo.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginasta
e detetivesco,
profundíssimo
gato,
polícia secreto
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
toda a gente te conhece e pertences
ao habitante menos elegante,
talvez todos se creiam
teus donos,
teus proprietários, tios
ou companheiros
de gatos, compadres
do seu destino,
mas eu
não confesso.
Eu não me rendo ao gato.

Ele não me pede nada,
caminha
e é na sua noite o seu destino.»

(Google Gemini)
 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Frederico Garcia Lorca - CANCIÓN NOVÍSIMA DE LOS GATOS

* Frederico Garcia Lorca


Mefistófeles casero 
está tumbado al sol. 
Es un gato elegante con gesto de león, 
bien educado y bueno, 
si bien algo burlón. 
Es muy músico; entiende 
a Debussy, más no 
le gusta Beethoven. 
Mi gato paseó 
de noche en el teclado, 
¡Oh, que satisfacción 
de su alma! Debussy 
fue un gato filarmónico en su vida anterior. 
Este genial francés comprendió la belleza 
del acorde gatuno sobre el teclado. Son 
acordes modernos de agua turbia de sombra 
(yo gato lo entiendo). 
Irritan al burgués: ¡Admirable misión! 
Francia admira a los gatos. Verlaine fue casi un gato 
feo y semicatólico, huraño y juguetón, 
que maullaba celeste a una luna invisible, 
lamido (?) por las moscas y quemado de alcohol. 
Francia quiere a los gatos como España al torero. 
Como Rusia a la noche, como China al dragón. 
El gato es inquietante, no es de este mundo. Tiene . 
el enorme prestigio de haber sido ya Dios. . 
¿Habéis notado cuando nos mira soñoliento? . 
Parece que nos dice: la vida es sucesión. 
de ritmos sexuales. Sexo tiene la luz, . 
sexo tiene la estrella, sexo tiene la flor. . 
Y mira derramando su alma verde en la sombra. . 
Nosotros vemos todos detrás al gran cabrón. . 
Su espíritu es andrógino de sexos ya marchitos, . 
languidez femenina y vibrar de varón, . 
un espíritu raro de inocencia y lujuria, . 
vejez y juventud casadas con amor. . 
Son Felipes segundos dogmáticos y altivos, . 
odian por fiel al perro, por servil al ratón, . 
admiten las caricias con gesto distinguido. 
y nos miran con aire sereno y superior. . 
Me parecen maestros de alta melancolía, . 
podrían curar tristezas de civilización. . 
La energía moderna, el tanque y el biplano. 
avivan en las almas el antiguo dolor. . 
La vida a cada paso refina las tristezas, . 
las almas cristalizan y la verdad voló, . 
un grano de amargura se entierra y da su espiga. . 
Saben esto los gatos más bien que el sembrador. . 
Tienen algo de búhos y de toscas serpientes, . 
debieron tener alas cuando su creación. . 
Y hablaran de seguro con aquellos engendros. 
satánicos que Antonio desde su cueva vio. . 
Un gato enfurecido es casi Schopenhauer. . 
Cascarrabias horrible con cara de bribón, . 
pero siempre los gatos están bien educados. 
y se dedican graves a tumbarse en el sol. . 
El hombre es despreciable (dicen ellos), la muerte. 
llega tarde o temprano ¡Gocemos del calor! . 
Este gran gato mío arzobispal y bello. 
se duerme con la nana sepulcral del reloj. . 
¡Que le importan los senos (?) del negro Eclesiastés, . 
ni los sabios consejos del viejo Salomón? . 
Duerme tú, gato mío, como un dios perezoso, . 
mientras que yo suspiro por algo que voló. . 
El bello Pecopian (?) se sonríe en mi espejo, . 
de calavera tiene su sonrisa expresión. . 
Duerme tú santamente mientras toco el piano. . 
este monstruo con dientes de nieve y de carbón. . 
Y tú gato de rico, cumbre de la pereza, . 
entérate de que hay gatos vagabundos que son. 
mártires de los niños que a pedradas los matan. 
y mueren como Sócrates. 
dándoles su perdón. . 


"Canción novísima de los gatos" permaneció inédito hasta 1986.

http://www.poetasandaluces.com/poema/874/

Quatro poemas de gatos de Ferreira Gullar

*  Ferreira Gullar


Gato pensa?


Dizem que gato não pensa

mas é difícil de crer.

Já que ele também não fala

como é que se vai saber?



A verdade é que o Gatinho

quando mija na almofada

vai depressa se esconder:

sabe que fez coisa errada.



E se a comida está quente,

ele, antes de comer,

muito calculadamente

toca com a pata pra ver.



Só quando a temperatura

da comida está normal

vem ele e come afinal.



E você pode explicar

como é que ele sabia

que ela ia esfriar?





O ron-ron do Gatinho



O gato é uma maquininha

que a natureza inventou;

tem pêlo, bigode, unhas

e dentro tem um motor.



Mas um motor diferente

desses que tem nos bonecos

porque o motor do gato

não é um motor elétrico.



É um motor afetivo

que bate em seu coração

por isso ele faz ron-ron

para mostrar gratidão.

(...)




Na cara



Gatinho, pra me acordar,

Não fica miando a esmo:

Mia bem na minha cara

Para ver se eu acordo mesmo.





Dono do pedaço



Para qualquer outro gato,

Gatinho não dá espaço.

Em nossa casa ele impera

– é o dono do pedaço.



Certa vez uma vizinha

– que era de fato uma tia –

pediu pra deixar seu gato

connosco só por um dia.



Mal o gato entrou na casa,

Gatinho se enfureceu,

pulou em cima do intruso

que, assustado, correu.



Gatinho saiu-lhe atrás

aos tabefes e às unhadas,

correram os dois pela casa

na mais louca disparada.



No quarto, em volta da cama,

por baixo e por cima dela,

rodaram como foguetes,

sumiram pela janela.



Só depois de muito esforço,

pude conter o Gatinho,

enquanto o outro fugia

pro apartamento vizinho.



Assim acabou-se a guerra

que me serviu de lição:

proíbo a entrada de gatos;

só gatas têm permissão.


http://oloboleitor.blogspot.pt/2012/06/quatro-poemas-de-gatos-de-ferreira.html

haicays - os gatos

* Kobayashi  Issa

Divertem o gato
Na roça em frente ao portão
As folhas caindo.
 

Chuva de primavera --
Uma criança
Ensina o gato a dançar.

O gato, ao acordar,
Com um grande bocejo
Vai namorar.

                                                    



* Bashô

Tão mirrada, 
De tanto arroz e cevada, 
A gata enamorada.



* Taigi

Nem se lembra
Do arroz grudado ao bigode -- 
Gato enamorado 



* Shiki

Jardim no inverno
Um gato sem dono,
Defecando.

 

Que coisa horrível!
Os gatos enamorados
Derrubaram o muro.
  



http://www.kakinet.com/ 
http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia

Poesia em torno dos gatos

 *   Pablo Neruda - Ode ao gato

Os animais foram
imperfeitos,
compridos  de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa
de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogara as moedas da noite

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na imterpérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundissimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insignia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertence
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
díscipulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalcullável,
a botânica,
o gineceu com os seus extrávios,
o pôr e o mesnos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos tem números de ouro.

(Navegaciones y Regresos, 1959)


* Mário Quintana - Onírica

Os gatos moles de sono 
rolam laranjas de lã.


* António Gedeão - Poema do Gato

Quem há-de abrir a porta ao gato 
quando eu morrer?
Sempre que pode 
foge prá rua, 
cheira o passeio 
e volta pra trás, mas ao defrontar-se com a porta fechada 
(pobre do gato!) 
mia com raiva desesperada.
Deixo-o sofrer 
que o sofrimento tem sua paga, 
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre pra mim 
como acorre a mulher aos braços do amante. 
Pego-lhe ao colo e acaricio-o 
num gesto lento, 
vagarosamente, 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos, 
olhos semi-cerrados, em êxtase, 
ronronando.
Repito a festa, 
vagarosamente. 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele aperta as maxilas, 
cerra os olhos, 
abre as narinas. 
e rosna. 
Rosna, deliquescente, 
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse


quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


* Bocage - Os dois gatos


Dois bichanos se encontraram 
Sobre uma trapeira um dia: 
(Creio que não foi no tempo 
Da amorosa gritaria).
De um deles todo o conchego 
Era dormir no borralho; 
O outro em leito de senhora 
Tinha mimoso agasalho.

Ao primeiro o dono humilde 
Espinhas apenas dava; 
Com esquisitos manjares 
O segundo se engordava.

Miou, e lambeu-o aquele 
Por o ver da sua casta; 
Eis que o brutinho orgulhoso 
De si com desdém o afasta.

Aguda unha vibrando 
Lhe diz: ''Gato vil e pobre, 
Tens semelhante ousadia 
Comigo, opulento, e nobre?

Cuidas que sou como tu? 
Asneirão, quanto te enganas! 
Entendes que me sustento 
De espinhas, ou barbatanas?

Logro tudo o que desejo, 
Dão-me de comer na mão; 
Tu lazeras, e dormimos 
Eu na cama, e tu no chão.

Poderás dizer-me a isto 
Que nunca te conheci; 
Mas para ver que não minto 
Basta-me olhar para ti.''

''Ui! (responde-lhe o gatorro, 
Mostrando um ar de estranheza) 
És mais que eu? Que distinção 
Pôs em nós a Natureza?

Tens mais valor? Eis aqui 
A ocasião de o provar.'' 
''Nada (acode o cavalheiro) 
Eu não costumo brigar.''

''Então (torna-lhe enfadado 
O nosso vilão ruim) 
Se tu não és mais valente, 
Em que és sup'rior a mim?

Tu não mias?'' - ''Mio.'' - ''E sentes 
Gosto em pilhar algum rato?'' 
''Sim.'' - Eo comes?'' - ''Oh! Se como!...'' 
''Logo não passa de um gato.

Abate, pois, esse orgulho, 
Intratável criatura: 
Não tens mais nobreza que eu; 
O que tens é mais ventura.''

                                                     

in BOCAGE Poemas, Editora Nova Fronteira S/A, 1987 
Envio: Sérgio Gerônimo



* Millôr Fernandes

Gato ao crepúsculo
Poeminha de louvor ao pior inimigo do cão

Gato manso, branco, 
Vadia pela casa, 
Sensual, silencioso, sem função.

Gato raro, amarelado, 
Feroz se o irritam, 
Suficiente na caça à alimentação.

Gato preto, pressago, 
Surgindo inesperado 
Das esquinas da superstição.

Cai o sol sobre o mar.

E nas sombras de mais uma noite, 
Enquanto no céu os aviões 
Acendem experimentalmente suas luzes verde-vermelho-verde, 
Terminam as diferenças raciais.

Da janela da tarde olho os banhistas tardos 
Enquanto, junto ao muro do quintal, 
Os gatos todos vão ficando pardos.


*   Ferreira Gullar - O ronron do gatinho

O gato é uma maquininha 
que a natureza inventou; 
tem pêlo, bigode, unhas 
e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente 
desses que tem nos bonecos 
porque o motor do gato 
não é um motor elétrico. 

É um motor afetivo 
que bate em seu coração 
por isso faz ronron 
para mostrar gratidão.

No passado se dizia 
que esse ronron tão doce 
era causa de alergia 
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito, 
calúnias contra o bichinho: 
esse ronron em seu peito 
não é doença - é carinho.

     
* Charles Baudelaire - O Gato (Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux)


   Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço; 
   Guarda essas garras devagar, 
   E nos teus belos olhos de ágata e aço 
   Deixa-me aos poucos mergulhar.
   Quando meus dedos cobrem de carícias 
   Tua cabeça e o dócil torso, 
   E minha mão se embriaga nas delícias 
   De afagar-te o elétrico dorso,

   Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo 
   Como o teu, amável felino, 
   Qual dardo dilacera e fere fundo,

   E, dos pés a cabeca, um fino 
   Ar sutil, um perfume que envenena 
   Envolvem-lhe a carne morena. 
  


Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux; 
Retiens les griffes de ta patte, 
Et laisse-moi plonger dans tes beaux yeux, 
Mêlés de métal et d'agate.
Lorsque mes doigts caressent à loisir 
Ta tête et ton dos élastique, 
Et que ma main s'enivre du plaisir 
De palper ton corps électrique,

Je vois ma femme en esprit. Son regard, 
Comme le tien, aimable bête, 
Profond et froid, coupe et fend comme un dard,

Et des pieds jusques à la tête, 
Un air subtil, un dangereux parfum, 
Nagent autour de ton corps brun.



* Charles Baudelaire - Le Chat (Dans ma cervelle se promène) 


Dans ma cervelle se promène, 
Ainsi qu'en son appartement, 
Un beau chat, fort, doux et charmant. 
Quand il miaule on l'entend à peine,

Tant son timbre est tendre et discret; 
Mais que sa voix s'apaise ou gronde, 
Elle est toujours riche et profonde. 
C'est là son charme et son secret.

Cette voix, qui perle et qui filtre, 
Dans mon fonds le plus ténébreux, 
Me remplit comme un vers nombreux 
Et me réjouis comme un philtre.

Elle endort les plus cruels maux 
Et contient toutes les extases; 
Pour dire les plus longues phrases, 
Elle n'a pas besoin de mots;

Non, il n'est pas d'archet qui morde 
Sur mon coeur, parfait instrument, 
Et fasse plus royalement 
Chanter sa plus vibrante corde,

Que ta voix, chat mystérieux, 
Chat séraphique, chat étrange, 
En qui tout est, comme en un ange, 
Aussi subtil qu'harmonieux!

- De sa fourrure blonde et brune 
Sort un parfum si doux, qu'un soir 
J'en fus embaumé, pour l'avoir 
Caressée une fois, rien qu'une.

C'est l'esprit familier du lieu; 
Il juge, il préside, il inspire 
Toutes choses dans son empire; 
Peut-être est-il fée est-il dieu?

Quand mes yeux, vers ce chat que j'aime 
Tirés comme par un aimant, 
Se retournent docilement 
Et que je regarde en moi-même,

Je vois avec étonnement 
Le feu de ses prunelles pâles, 
Clairs fanaux, vivantes opales, 
Qui me contemplent fixement.

                                                                  *                

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

a poesia dos gatos

poemas de Vinícius de Morais, Fernando Pessoa, Alexandre O´Neill e José Jorge Letria

1 -. – Vinicius de Moraes – O gato

Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pisa e passa
Cuidadoso, de mansinho
Pega e corre, silencioso
Atrás de um pobre passarinho
E logo pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
Se num novelo
Fica enroscado
Ouriça o pêlo, mal-humorado
Um preguiçoso é o que ele é
E gosta muito de cafuné

2.- Fernando Pessoa – Gato que brincas na rua

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa, 1-1931

3. – Alexandre ´Neill - Gato

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

4. – José Jorge Letria - Ode ao Gato
Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos"

sábado, 31 de outubro de 2015

os gatos - 4 poemas e uma foto


foto victor nogueira - porto - o gato da minha tia teresa, 


1 -. – Vinicius de Moraes – O gato
 
Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pisa e passa
Cuidadoso, de mansinho
Pega e corre, silencioso
Atrás de um pobre passarinho
E logo pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
Se num novelo
Fica enroscado
Ouriça o pêlo, mal-humorado
Um preguiçoso é o que ele é
E gosta muito de cafuné

2.- Fernando Pessoa – Gato que brincas na rua

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa, 1-1931

3. – Alexandre ´Neill -  Gato

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

4. – José Jorge Letria - Ode ao Gato

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.


José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos"