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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Carlos Coutinho - [Crianças e pobreza em Portugal]

* Carlos Coutinho
 
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       São largas as dezenas de pessoas atreitas ao ato de virar a casaca – humaníssimos casos de cidadãos que ou conheço ou conheci – já que é determinante a terrível opção de, perante o futuro implacável, apodrecerem ou morrerem se perderam o emprego. 

   Olho para uma imagem inapagável na nossa consciência e no rasto da Humanidade, a do bombardeamento de Guernica, e confirmo que tudo foi deformado, não sei se para sempre. 

   Colho o grito desdentado e humaníssimo do cavalo, o olho deslocado do touro manso com uma lâmina preta a brotar-lhe da sobrancelha, o silenciado brado das crianças e dos adultos, as gradações do negro e a fragmentação da luz, assim como percebo o enigma que Picasso incrustou em cada traço, em cada dedo, em cada perna, em cada fisionomia sugerida, em cada fé, em cada religião, já que uma abarca todas as trevas da ancestralidade e a outra corporiza os complexos rios metafísicos que transformam superstições em religiões.

   Então, não há absurdos que não sejam lógicos, dislates que não sejam teoremas, nem notícias tão dolentes como, por exemplo, a de uma em cada 20 crianças portuguesas já haver sentido fome e ficado sem comer, só porque acabou o dinheiro lá em casa.

   Segundo o relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, da responsabilidade da economista Susana Peralta, académica da Nova School of Business & Economics (Nova SBE), que cita o Instituto Nacional de Estatística (INE), uma em cada 20 crianças, em 2024, não comeu, por falta de recursos financeiros do seu agregado familiar. 

   Em percentagem, esta fatia representa quase 5% do grupo das mais de 301 000 crianças pobres que existem em Portugal, o que remete o meu pensamento para Guernica, dado que, mesmo que fosse apenas 1% eram mais de 3 000 crianças a passar fome.

   Trocando por miúdos este tipo de privação, que tem tradução prática e quotidiana, o INE considera que metade das crianças pobres (49,7%) não tinha meios para participar, por exemplo, numa atividade extracurricular ou de lazer, de forma regular, o que traduz outra forma de pobreza. E isto, quando vemos o que se passa na Saúde, na Educação, na Habitação e nas necessidades básicas dos portugueses, com o País a participar em guerras e o Governo a investir no armamento.

2026 Junho 01

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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Carlos Coutinho - Homenagem a Manso Pinheiro

Carlos Coutinho
6 h
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Em tempos que já lá vão, não me passava pela cabeça que a simples troca de posição de duas palavras que estavam juntas para designarem algo singular podia equivaler à mais insólita das transformações na ordem do mais curial estatuto semântico. 

   Admito que existam outros casos tão ou mais obscenos do que aquele que agora entrega as pontas dos meus dedos a um teclado indefeso como este, o do meu resiliente computador: o de uma árvore revirada para cidadão – pinheiro manso e Manso Pinheiro. 

   Corria o ano de 1974 quando conheci um capitão miliciano coproprietário de uma editora decisiva com o irmão. Chamava-se Manso Pinheiro, era de esquerda e atuava em conformidade com essa mundividência, merecendo-me um respeito crescente que ainda perdura, esteja ele vivo ou não.

   O mesmo ocorre com um árvore benemérita de Portugal, o pinheiro manso, que, apesar de ser resinosa, respirar por agulhas e ter séculos de régia e rígida inibição imposta aos resineiros, está há séculos a zelar por Portugal, começando por fornecer a salvífica anatomia das caravelas e a inconfundível fisionomia do mobiliário de alta qualidade.

   Dir-se-á que terei de estender tal apreço à oliveira, ao carvalho, ao sobreiro, à figueira, à macieira, ao castanheiro e até à parreira que se desdobra em milagres geradores de fé, esperança e caridade, como é timbre, sagrado timbre e altivez dos vinhos que conheço desde que nasci no Alto Douro. 

   Claro que um figo seco, um cacho de moscatel ou de mourisca, assim como uma castanha assada, por exemplo, já para não falar de um cálice de vinho fino, podem justificar a existência de uma pessoa, mesmo que já tenha de se esforçar muito para continuar viva e atuante, mas ninguém deve tanto a uma árvore como os navegadores, os seus patrões e as gentes que ainda hoje não prescindem dos frutos do mar. 

   É o meu caso, como está bom de ver.

2026 Maio 28

domingo, 17 de maio de 2026

Carlos Coutinho - [Ernst Bloch e o nacional-socialismo]

* Carlos Coutinho
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Já passou quase um século após o aparecimento de um verdadeiro tratado sobre a canalhice, mas não me parece que já não seja de ter em conta a vantagem da sua vigência, dadas a sua abrangência e, sobretudo, a sua profundidade. 

   Aconteceu nas vésperas da Segunda Guerra Mundial o aparecimento nas livrarias de um livro feroz do filósofo alemão Ernst Bloch que analisa a ascensão de Hitler ao poder e se interroga sobre como foi possível que a consciência coletiva de quase todo o país se tivesse degradado a ponto de aceitar a nazificação, como uma espécie apodrecimento que quase nunca parou de se agravar.

   A propaganda oficial e o trauma da humilhação, em resultado da derrota e do esbulho sofrido às mãos dos vencedores em 1918, reivindicavam a continuidade do Terceiro Reich, restaurando o Primeiro – o do Sacro Império Romano-Germânico – criado por quem reclamava a atualização do instaurado por Carlos Magno que durou entre 962, e a suas aniquilação por Napoleão, em 1806, seguindo-se o Segundo Reich, isto é, o império que foi erguido com a unificação da Alemanha e a guerra franco-prussiana em 1871, cujos efeitos só foram travados com o colapso alemão na Primeira Guerra Mundial, mas tal consequência não explica para Ernst Bloch a mórbida e sanguinária aceitação da ditadura nazi.

   Como se fizeram, então, os canalhas e se instituiu o seu regime? Como foi aceite a fábula segundo a qual este novo império iria durar 1000 anos? E o que se pode concluir desta histórica tragédia que custou perto de 70 milhões de mortos? Não estava escrito que o führer conquistasse o poder e que 10 anos depois de ter ocupado a presidência do partido nazi, bem como que, após uma curta prisão por envolvimento numa tentativa de golpe de Estado, o paranoico político aguarelista austríaco disputasse a segunda volta das eleições presidenciais alemãs em abril de 1932 e obtivesse 37% dos votos e que os comunistas e os social-democratas somados se ficassem pelos 36%. 

   Contudo o presidente eleito, o tão celebrado marechal Hindenburg entregou-lhe o lugar em Berlim, que não era a capital da Áustria, mas viria ser anexada com geral aplauso germânico,  em 30 de janeiro de 1933.

   Quando, poucos anos depois, Blcch se pergunta sobre como se chegou a este desfecho, a conclusão que encontra é que o centro e a direita, aceitam a receita da  extrema direita, aceitam Hitler como se de uma solução de curto prazo se tratasse, ou apenas fosse um mal menor, para impor a ordem, enquanto amplos setores da burguesia e do que hoje se chama classe média, como comerciantes, militares e acadêmicos, celebravam no despotismo.

   Havia nisso a evocação de um fundo cultural – considera Bloch – e não foi a magia propagandística de Goebbels que respondeu à desintegração do regime de Weimar. Foi antes a recuperação de mitos incrustados na crença da epopeia germanista mobilizando um romantismo reacionário que se apropriou de Nitzsche e de Wagner, ou seja, foi a ideologia social dominante que fez de Hitler o seu porta-voz e o estandarte dos interesses económicos dominantes.

   Leio estas análises e percebo melhor os êxitos eleitorais do nosso Ventura e de quem lhe paga as campanhas, bem como os favores que recebe da comunicação social quase toda. 

   Vade retro, Satanas…  

2026 05 17

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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Carlos Coutinho -. [O horror bíblico]

* Carlos Coutinho

O horror bíblico, superior ao próprio inferno, por ser verdadeiro e ter datas, pode exprimir-se em muitas línguas e, sendo referido a factos diferentes no tempo e no modo, não deixa de ser a moeda de duas faces que de um lado tem o holocausto e do outro a Nakba, o custo real da existência humana, quando o seu ADN é o expoente máximo da crueldade politizada, ora por Deus, ora pelo Diabo.

   Hoje, o dia que recebe uma das datas mais hediondas do calendário judaico-árabe, celebra-se a criação do Estado de Israel, acaso histórico ocorrido a 14 de Maio de 1948, mais de metade do mundo sabe o que foi o Holocausto, aquela multitudinária matança físico-química e pós-pogromes que o justificou, mas, em contrapartida, muitos menos são os terráqueos com uma noção, mesmo que só aproximada, do que foi a Nabka, apesar dos seus trágicos prolongamentos na Palestina ocupada e nos territórios adjacentes.

   Se é certo que a Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU estabeleceu no dia 29 de novembro de 1947 a divisão da Palestina histórica em doois estados, um hebraico e outro, a verdade é que a proclamação do Estado de Israel foi feita de forma unilateral pelos dirigentes sionistas, à revelia das Nações Unidas, acompanhada por uma orgia de violência que nem Hitler desdenharia e que Netanyahu gostosamente prolonga, com Trump a assobiar para o lado e a arquitetar negócios próprios e milionários para o teatro do morticínio, sem câmaras de gás nem fornos crematórios, mas com palacetes de luxo à beira-praia.

   Os 78 anos decorridos desde maio de 1948 têm sido uma permanente nabka. A ocupação de territórios internacionalmente reconhecidos como palestinianos e a violência sistemática e brutal praticada por Israel são agora a continuação de um genocídio que não terminou, apesar do “cessar-fogo”   e do “plano de paz” anunciados por Trump.

   Hoje, os dirigentes israelitas proclamam abertamente o objetivo de expandir o Estado sionista e não apenas com a ocupação de todo o território histórico da Palestina, do rio até ao mar, o tal “Grande  Israel” que é muitas vezes descrito como indo do Nilo ao Eufrates.

   No terreno prossegue a ocupação de vastas zonas da Palestina e da Síria, a tentativa de ocupação o sul do Líbano, além de repetidas agressões ao Irão, em conjunto com os EUA.

   O historiador israelita Ilan Pappe, que só pode ser tomado como insuspeito, escreve que, ao longo de poucos meses, “mais de metade da população nativa da Palestina, cerca de 800 000 pessoas, foi expulsa de suas casas”, uma ação planeada, o Plano Dalet, e que “as ordens dadas incluíam uma descrição pormenorizada dos métodos a serem empregues para expulsar a população pela força: intimidação em larga escala; sitiar e bombardear aldeias e centros populacionais; atear fogo a casas, propriedades e bens; expulsões; demolições e, finalmente, colocar explosivos entre os destroços para impedir o regresso dos habitantes”. Houve “dezenas de massacres” e até o “o envenenamento de fontes de Acre com tifo

2026 05 13

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domingo, 8 de março de 2026

Carlos Coutinho - [António Lobp Antunes]

* Carlos Coutinho
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Está agora sepultado no Cemitério de Benfica, em Lisboa, um extraordinário escritor que muito admiro e que muito me ensina ainda hoje, alguém que, inusitadamente, teve no Mosteiro dos Jerónimos as cerimónias fúnebres (o “velório”, no dizer de um repórter de alfurja de um canal de TV de crimes e escândalos, abaixo de qualquer respeito) um tal António Lobo Antunes que deixou uma profunda marca na escrita de autores que começaram a publicar depois dele e que, sendo o inverso de José Saramago, outro gigante também já falecido e nobelizado, contra ele combateu, por mal disfarçada inveja. 

   Diferente dele, ideológica e filosoficamente, este Lobo feroz, execrou-o por ter sido ele o galardoado com o Prémio sueco para a Literatura que o infeliz psiquiatra tanto desejou em vão.

   Regressando da guerra colonial em Angola, onde penou e trabalhou como alferes miliciano médico, o António Lobo Antunes publicou em 1978 “Memória de Elefante”, uma estreia que surpreendeu críticos e acadêmicos, logo seguida por “Os Cus de Judas” e abrindo caminho a uma recepção fulgurante de “A Explicação dos Pássaros” e de “O Manual dos Inquisidores”, além do fabuloso “Fado Alexandrino” que ainda trina e ecoa por todo o lado.

   O mais alto Poder homenageou-o e acrescentou aos muitos prémios em vida recebidos, nacionais e estrangeiros, um galardão póstumo, a poucos metros do homérico túmulo vazio de Luís de Camões, seguindo hoje o seu esquife para um cemitério alfacinha que recebe urnas e caixões de gente de todos os credos classes sociais. 

   Muito perto dele está enterrado, há meia década, um cunhado meu, comerciante de Benfica, e logo ao lado um jornalista que foi meu chefe. 

   Dulce Maria Cardoso, outra grande romancista que escreeu “O Retorno” e também entrou no que chama “literatura colonial”, confessa que a influência de Lobo Antunes também nela foi “enorme” e frisa: “Não conheço quem escreva tão bem em língua portuguesa. (…) Leio-o como um garimpeiro à procura de pepitas de ouro.”

   Para Gonçalo M. Tavares, outro aedo nobelizável com prestígio internacional, há em Lobo Antunes “uma síntese filosófica de uma ideia formulada” pelo filósofo José Gil: o “medo dc existir”

   Agustina Bessa Luís, que muito dele gostava, disse-lhe um dia:  “Sabes, filho, eu devia ter-me casado contigo ou com o Camilo.”

    Já Maria Alzira Seixo, que o estudou meticulosamente escreveu:

“Entre todos os motivos literários (…), um dos mais fortes é o do espelho, porque caracteriza o narrador na presença irrecusável de si a si próprio, dando conta das coincidências entre volição e pragmática, entre desejo e remissão à incompletude.”

   O jornalista e escritor Rui Cardoso Martins, que acompanhou Lobo Antunes numa ida a Nova Iorque, ouviu-lhe numa entrevista: ”Pedi ao sujeito da pensão que me levasse ao sótão, onde morava Deus.”

   Aliás, já tinha escrito numa crónica na revista “Visão”:

“Deus, estou zangado contigo. Suponho que já Te habituaste às minhas zangas como Te habituaste às minhas dúvidas, aos meus afastamentos, aos meus regressos a fingir que não venho, aos momentos de harmonia que de vez em quando existem entre nós, à minha incompreensão de tanta coisa que fazes ou não fases, aos meus ralhetes, aos meus amuos, ao que considero as Tuas injustiças, a Tua crueldade e se calhar não é injustiça, se calhar não é crueldade, sou parvo, não ligues, não consigo entender as Tuas profundezas e os Teus caminhos, o significado dos Teus gestos. Só que ultimamente, tenho exagerado: o ano ainda mal começou e já desataste a despovoar o mundo à minha volta.”

   E em 2018, numa entrevista com uma só pergunta do “Diário de Notícias”, respondeu: “Quero que o Nobel se foda.”

8 Março 2026

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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Uma cónica de Carlos Coutinho

* Carlos Coutinho
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Também é público e notório que a Esmeralda nunca perdoou a quem a quis batizar com o nome de Eleutéria, nome quase imposto pelo padre Adérito que era caçador, poeta e dono de um falcão adestrado na captura de perdizes e codornizes. Quando não encontrava alguma destas aves cozinháveis, o passarão predador regressava à varanda do passal com um coelho nas garras ou até com uma pomba, o que dava alento ao guloso e incontível abade para mais um soneto.  

   Ainda conheci este insigne clérigo, já um pouco marreco, que era de Pitões das Julianas, onde lhe ergueram uma estátua de granito, com um avejão indefinível cravado no ombro esquerdo, caneta na mão e a escrever num calhau aplanado em cima dos joelhos. Até morrer, não parou de mergulhar no oceano da terminologia, tendo deixado uma caixa de pinho cheia de dicionários e sebentas universitárias, enciclopédias, desenhos medíocres e um ror de folhas de papel amarelecido com o produto das suas escavações idiomáticas.

   Numa ainda se pode ler que qualquer palavra é um depósito de factos, atos, conceitos e crenças, inteiros uns, esgarçados outros, mas todos caldeados sem acasos nem incúrias, fazendo um étimo que hoje pode ter o significado oposto ao que teve há mil anos ou a menos de um século.

   Exemplos: aro, birra, clister, derrancado, etc.

   De facto, aro tanto pode ser uma palavra infeliz que perdeu a última sílaba por ação conspirativa dos alérgicos a perfumes, como nomear um pequeno arco, um anel, um círculo e até uma argola de certos jogos de bola, ou parte da armação dos óculos que circunda a lente. Em mecânica designa o guarnecimento anelar de uma roda. 

Já a birra, a que alguns também chamam chilique, é uma explosão emocional por vezes caraterizada por teimosia, choro, gritos, violência, desafio, reclamação furiosa, resistência a tentativas de pacificação e, em alguns casos, golpes ou outros comportamentos fisicamente violentos. O controlo físico pode ser perdido; a pessoa pode não conseguir ficar parada; e, mesmo que o objetivo seja alcançado, os birrentos nem sempre podem ser acalmados. 

   Quanto a clister, eu sabia que se trata de é um procedimento em que se utiliza água ou alguma outra substância com o objetivo eminentemente entérico de lavar o intestino, mas estava longe de imaginar há quem o designe por enema e mesmo por chuca, embora para todos seja uma injeção de líquido na parte inferior do intestino, com total desprezo pela douta sensibilidade do reto. 

   Na medicina tradicional, que nem sempre está errada, fiquei agora a saber, os usos mais frequentes de enemas são para aliviar a obstipação e para limpar o intestino, como meio de reduzir a termorregulação, como tratamento para encorpese e como forma de terapia de reidratação (protólise) em pacientes em que a terapia intravenosa não é aplicável.        

    Claro que isto não é coisa que se faça às grávidas, nem que se trate de gatas ou de cadelas, porque, além de merecerem o nosso maior respeito, já têm toda aquela região monopolizada pelas humidades deslizantes dos respetivos fetos.

De derrancado também há muito que pôr em questão, porque, embora seja um adjetivo pacífico, pode eventualmente ser um particípio verbal muito discutível. Comecei por conhecer o termo como sinónimo de raivoso, furioso incontrolavelmente bruto, mas agora vêm os dicionários dizer-me que é o “que ganhou ranço” ou está “apodrecido”, ou, pior ainda, “arruinado”.

   Dizem-me também que, em sentido figurado, é “o que se degradou moralmente”, além de que existe uma expressão regionalista que trata assim os hidrófobos, como, por exemplo, os gatos escaldados que, como é sabido, até da água têm medo.

É bom ter conhecido, mesmo na infância, um padre caçador e poeta que fazia o que queria com o seu falcão adestrado e clericalista. 

   P.S. – Pior ainda: em Urtigais do Vale, ora como adjetivo, ora como substantivo, tanateiro é quem fala de mais e este termo é, sobretudo, aplicado a rapariguitas que se pronunciam infatigavelmente sobre tudo e mais alguma coisa, apesar de Tanatos (Θάνατος), na mitologia grega, ser a personificação da morte, reinando Hades sobre os mortos no mundo inferior. Este nome foi transliterado em latim como Thanatus e o seu equivalente na mitologia romana é Mors ou Letum (Morte ou Leto).

2026 01 06

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Carlos Coutinho - [Crónica natalícia]

* Carlos Coutinho

Sendo hoje o dia mais pequenino do ano, não sei como entender a tão grande distância que vai de Deus ao Diabo, já que que são biblicamente coevos e, por isso, ambos anteriores à criação do Universo que um deles tem a fama de haver criado, farto de estar sem fazer nada desde a sempiternidade que, de resto, nunca começou, por, em caso contrário, em vez se sempiternidade seria uma enjoativa eternidade. 

   A não ser que Deus também tenha criado o Diabo e, então, há mais que óbvia explicação para a malignidade da obra feita, incluindo a criação do Diabo que tem as costas largas e pode arcar com todas a culpas da tristeza, da imoralidade, da loucura sem remédio, da crueldade sem limites, da necessidade de haver guerras indispensáveis ao progresso da Humanidade, da própria aceitação da existência de Deus. Uno, trino ou múltiplo.

   Como acatar, então, a legitimidade do Solstício do Inverno que denuncia a ilegitimidade do Solstício de Verão, visto não ter Natal algum para celebrar, nem Consoada alarve para as bebedeiras toleradas por Deus e infundidas pelo Diabo, nem passagens de ano que tantas vezes são passagens para o desastre?

   Claro que tudo isto carece de explicação fácil, como a passagem a santos cristãos daqueles dois judeus de Nazaré, S. Joaquim e Santa Ana, progenitores de José, este um carpinteiro.  Maria, a sua legítima esposa, claro que tinha de passar a ser virgem  mesmo depois de ter dado à luz um bebé de futuro divino, sem que se houvesse rasgado o hímen – a tal película húmida, expectante e cavernosa, regada por artérias infracapilares e enxaguada por fios venosos redentores – constituindo o famoso portão sem fechadura anteuterino que que o aríete de José, um descendente providencial do rei David, nunca sequer tentou arrombar.

   A minha sorte é que eu adoro uma capitosa bacalhauzada, um baqueano trago de touriga nacionaL esguichado de algum tonel duriense, uma boa rabanada e uma tépida noite à lareira. E não tenho o mínimo apreço por certos tipos de virgindade.

2025 12 22
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quarta-feira, 2 de abril de 2025

Carlos Coutinho - [Abriladas]

 ABRILADA é nome por que foi registado na história de Portugal um terramoto político ocorrido no dia 30 de abril de 1824, mas que falhou. Essa revolta dos absolutistas tentou ressuscitar a Vilafrancada que também falhara no ano anterior. Felizmente. 

   A batuta estava na mão do infante D. Miguel, irmão de D. Pedro, o normal herdeiro do trono português e imperador do Brasil.

 O terramoto inverso precisou de um século aparentemente inacabável para também acontecer e ninguém o tomou como uma segunda abrilada, precisamente pelo que nos trouxe esse luminoso levantamento político-militar que ainda hoje muito nos ajuda a viver pacificamente o desenvolvimento solidário e patriótico, que continua consagrado na Constituição da República, embora seja cada vez menos respeitado.

   Se formos à História, vamos ver que a revolta miguelista foi derrotada, mas cavou os alicerces do viria a ser a fratricida e longa Guerra Civil Portuguesa (1828-1834). Descendo ao pormenor, reparamos que no dia 30 de Abril de 1824, o Infante D. Miguel, que havia sido nomeado generalíssimo do Exército Português, fez deter nos calabouços do Castelo de S. Jorge e da Torre de Belém importantes personalidades civis e militares do País...

   Entre os encarcerados estavam o Intendente-geral da Polícia, barão de Rendufe, o duque de Palmela (então no governo em coligação com o conde de Subserra) e o o visconde de Santa Marta. 

D. Miguel, que contava com o apoio de sua mãe, a gorducha Rainha Carlota Joaquina, considerava-os partidários do “nefando liberalismo” e de conspirarem contra o pai, D. João VI. Na chamada “Proclamação da Abrilada”, proferida nesta ocasião, D. Miguel diz que  era sua intenção acabar com o que denominava de "pestilenta cáfila de pedreiros-livres", numa referência à Maçonaria, que além de liberal, era constitucional.    

    "Soldados! se o dia 27 de Maio de 1823 raiou sobremaneira maravilhoso, não será menos o de 30 de Abril de 1824; antes hum e outro irão tomar distincto lugar nas paginas da história Lusitana; naquelle deixei a Capital para derribar uma Facção desorganizadora, salvando o Throno, e o Excelso Rei, a Real Família, e a Nação inteira, dando mais hum exemplo de virtude á Sagrada Religião, que professamos, como verdadeiro sustentaculo da Realeza, e da Justiça; e neste farei triumfar a grande obra começada, dando-lhe segura estabilidade, esmagando de huma vez a pestilente cáfila dos Pedreiros Livres, que aleivosamente projectava alçar a mortifera fouce para àcabar, e de todo extinguir a Reinante Casa de Bragança.

     "Soldados! foi para este fim que vos chamei ás armas, plenamente convencido da firmeza do vosso caracter, da vossa lealdade, e do decidido amor pela Causa do Rei.

Soldados! sejais dignos de Mim, que o Infante D. Miguel, Vosso Commandante em Chefe, o será de vós. Viva ElRrei Nosso Senhor, Viva a Religião Catholica Romana, Viva a Rainha Fidelíssima, Viva a Real Família, Viva o Briozo Exercito Portuguez, Viva a Nação, Morram os malvados Pedreiros Livres.

   "Palacio da Bemposta 30 de Abril de 1824.
Infante C. em C”

   Enviou, então, diversos corpos militares ao antigo Palácio dos Estaus (onde  hoje está o Teatro Nacional D. Maria IIT,  em Lisboa, aí instalando o seu quartel-general. Deu ordens ainda para que se impusesse cerco ao Palácio da Bemposta, onde estava o rei, acompanhado do seu conselheiro inglês, o general William Carr Beresford que o trazia pela trela, embora enojado com o aspeto físico monarca resultante da procriação endógena.

   Para a resolução deste conflito parece ter sido determinante o apoio do corpo diplomático em Portugal, nomeadamente a ação do embaixador francês Hyde de Neuville. Numa tentativa de apaziguamento, este diplomata conseguiu entrar no palácio e convencer o rei a chamar o filho para uma conversa a a sério. 

   Alcançou-se, desse modo, um acordo que fez regressar as tropas aos quartéis, mas que mantinha os detidos encarcerados, com exceção do duque de Palmela, que se refugiou num navio inglês, prosseguindo assim a situação de instabilidade política e militar.

Em maio, os diplomatas ajudaram D. João VI a refugiar-se no navio britânico “HMS Windsor Castle”, onde tomou uma série de medidas: demitiu D. Miguel do seu cargo no Exército, ordenou a libertação dos presos políticos e a captura dos apoiantes do filho, que foi intimado a vir a bordo. 

   Assim retido, D. Miguel foi obrigado a embarcar com destino à França na fragata “Pérola”, acabando a sublevação dos absolutistas. O infante foi seguidamente deportado para Viena e D. Carlota Joaquina ficou internada no Palácio de Queluz com a devida assistência médica e religiosa. 

   Não sei se os seus aposentos finais foram convenientemente desinfetados, mas é de crer que sim, porque já passeei pelos jardins afrancesados do palácio e também assisti a concertos musicais inesquecíveis no salão dos embaixadores. E nada me aconteceu.

2025 04 02 

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sexta-feira, 7 de março de 2025

Carlos Coutinho - Terras raras


 
 




» Carlos Coutinho
  
DIZ quem sabe que, na conjuntura atual de equilíbrios políticos instáveis, os noticiários e os comentadores políticos passaram e integrar no seu léxico o termo “terras raras”, sem um conhecimento mínimo do que isso significa e muitas vezes até com dificuldades em pronunciar os nomes desses elementos químicos, olhados como estranhos e “objetos de cobiça”, representando assim “moedas de troca valiosas”

O que é facto é que as terras raras constituem “um conjunto de 17 elementos químicos da Tabela Periódica: os 15 lantanídeos – do lantânio (La) au lutéc io (Lu) –, mais o ítrio  e o escândio (Sc), que possuem propriedades químicas semelhantes. (…) A produção mundial de óxidos de terras raras foi aproximadamente 350 mil toneladas métricas em 2023. Apesar do nome, muitas terras raras não são tão raras assim, mas estando os seus depósitos principais e a sua produção mundial concentrados na China, esles são estratégicos para as necessidades tecnológicas mundiais”.

Quem isto diz são os professores universitários José Moura (Coimbra) e Carlos Geraldes (Nova de Lisboa), in “Público” (26.2.2025) que logo explicam:

“As terras raras apresentam vários estados de oxidação e são metais reativos especialmente quando em pó. A maioria tem comportamento químico parecido, o que dificulta a sua separação, e reagem facilmente com oxigénio, formando óxidos estáveis. Muitas aplicações específicas, resultantes das suas propriedades magnéticas e luminescentes, cruciais para a manufatura de muitos produtos para a alta tecnologia, tornam as terras raras muito apetecíveis na química e na indústria, sendo em geral denominadas materiais tecnológicos. 

“Enumeramos aqui as aplicações mais relevantes: em materiais supercondutores (neodímio e samário; na preparação de catalisadores químicos usados na indústria automóvel (cério e lantânio): em lasers (neodímio e ítrio); em motores magnéticos usados em turbinas eólicas e componentes de automóveis (neodímio e dispósio, o Dy); em luminóforos (európio e térbio) usados em telas e lâmpadas LED; em ligas metálicas (lítrio e escândio): e no desenvolvimento de materiais resistentes aplicados baterias e dispositivos eletrónicos (disprósio, praseodímio, ou Pr); em fibras óticas (´´erbio, ou Er) e células fotovoltaicas, por exemplo, em painéis solares (itérbio).

“O design a funcionalidade de smartphones, a nitidez dos seus altifalantes, microfones e dispositivos de vibração são possíveis graças à incorporação de150 a 250 miligramas de nove destes elementos, por exemplo, em motores e ímanes pequenos e potentes que são fabricados com neodímio e praseodímio. Deste modo, as terras raras são essenciais para o crescimento de tecnologias verdes, tais como veículos elétricos e conversão de energia solar e eólica, bem como telecomunicações, etiquetas de segurança (códigos QR)m, cirurgia e imagens médicas e na indústria de defesa.”

Tenho de parar aqui na citação, porque se trata de ingredientes indigestos. Basta-me lembrar que são tudo coisas em que a Europa é muito pobre e os EUA também. 

Ora, nisto como em tudo, só é cego quem não quer ver, podemos perceber, além do mais, quem inspirou, financiou e mantém a guerra da Ucrânia, com o nosso inefável Costa abraçado a Ursula van der Leyen, generais-chefes da NATO, Netanyahu e Zelensky.


2025 03 07
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Carlos Coutinho - NAQUELE glorioso dia ...

 

* Carlos Coutinho

NAQUELE glorioso dia em que, há 1823 anos, o camponês rebelde de meia idade chamado Liu Bang foi entronizado como Imperador da China, teve início a dinastia Han.

Neste mesmo dia, faz também 500 anos que o conquistador espanhol Hernán Cortés executou o último rei asteca, Cuauhtémoc, provocando uma peste planetária que ainda mata que se farta no México e no resto do mundo, agora por conta dos norte-americanos, os conhecidos vizinhos de todas as pestes desde que existem e, claro, os grandes herdeiros da Europa das pestes, agora muito ocupados na Ucrânia.

O sismo que há uma semana ocorreu ao largo da famosa primeira praia do nudismo, em Portugal, o Meco, não causou mortos por cá, mas dá para lembrar o de 1969 que, também num aziago dia 28 de fevereiro, pouco antes das 4 horas da madrugada, abanou brutalmente quase todo o nosso Portugal ibérico, grande parte da Espanha e o Norte de Marrocos, sendo considerado o mais mortífero do século XX. O seu epicentro situou-se no Atlântico, a sudoeste do Cabo de S. Vicente e teve a magnitude de 8 na escala Richter. 

Este evento é interpretado como resultante da compressão entre placas (a africana e a euroasiática) que ocorre na região oceânica a sudoeste da Península Ibérica. Provocou alarme e pânico entre as populações, cortes nas telecomunicações e no fornecimento de energia elétrica. Em Espanha houve 7 mortes indiretas, por enfarte, e em Marrocos 11 mortos também diretos. Registaram-se, no entanto, 13 vítimas mortais em Portugal Continental, 2 como consequência direta do sismo, e 11 indiretas. 

Podia ter sido muito pior, porque o IPMA esteve 29 minutos sem funcionar e, escondendo este pormenor de somenos, quando veio falar, falou de uma magnitude em 4,7 graus na escala de Richer. Toda a gente acreditou, mas não demorou muito a tomar conhecimento de que havia outras avaliações relativas a Montalegre, Costa da Caparica, Sesimbra e Mértola e até chegava da Europa uma que falava de 8,2 graus em alguns pontos do Algarve.

Felizmente, não tivemos mortos e até nos livrámos do pânico que às vezes também mata. Pior do que isto foi, todavia, o sismo que, fustigou os dois lados do Mediterrâneo em 1997. Lembro-me que deixou um saldo de cerca de 1 100 pessoas mortas, 2 600 feridas, 36 000 sem casa onde morar. 

Com uma magnitude de 6,1 na escala de Richter e uma intensidade máxima de VIII na de Mercalli, o terremoto teve o seu epicentro perto da cidade de Ardabil, no desgraçado Norte iraniano que ainda hoje não dorme em paz, com abanões telúricos frequentes e aiatolas que não poupam ninguém.

Foi assim que o meu Tiroliro e a minha Tolentina, naquela tremenda tremente segunda-feira desataram a correr pela casa toda, em pânico, sem o mais leve miado, escondendo-se debaixo da minha cama, por já não terem confiança em ninguém, quando às 13h24 o chão tremeu durante mais de um minuto e, neste caso, o motivo não foi o medo. 

Foram as ondas de um sismo de mais de 5 graus na escala de Richter que ocorreu ao largo da primeira praia portuguesa de nudismo, a do Meco, que hoje é menos frequentada por causa da concorrência dos descascados que não para de aumentar, de norte a sul.

Nas televisões só havia o funeral interminável do Pinto da Costa, mas, pelo menos em Almada e no Seixal, tanto quanto me disseram há minutos, houve quem tivesse entrado em pânico e o caso não é para menos, porque a Caparica sempre foi atreita a maus augúrios.

No Algarve, desde a Vila do Bispo a Vila Real de Santo António, ainda foi pior, porque os móveis e os candeeiros de pé alto balouçaram como pêndulos invertidos e, nas esplanadas e nos bares, os copos de cerveja entornaram-se quase todos. 

Imagine-se agora que voltávamos 1755 ou, ainda mais atrás, a 26 de janeiro de 1531, quando um terramoto na região de Lisboa matou mais de 30 mil pessoas derrubou um terço das edificações desta cidade, onde tirou mais de mil vidas só no choque inicial. A catástrofe apenas terminou cinco dias depois. 

Dos mais antigos, igualmente catastróficos, não consegui encontrar números para os de 1033, 1321, 1337, 1344, 1347, 1356, 1512 e 1528, mas todos ficaram memórias e lendas que é melhor não contar. 

Adeus fevereiro. Assim, não vamos sair-nos bem 

2025 02 28

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quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Carlos Coutinho - [Camões, Marguerite Duras e a velhice]

* Carlos Coutinho 

Por razões que facilmente se depreenderão, não gostei nada de certas considerações de Camões (que, por vezes, surge referido como Luiz de Sá de Camoens, por ser filho de uma dama de Santarém chamada Ana de Sá e Macedo),  que era parente do Gama, além de trineto envergonhado de um fidalgo de ascendência galega (Vasco Pires ou Pérez de Camoens, que lutou em Aljubarrota do lado dos castelhanos). 

   É o caso, por exemplo, do que ele pensava sobre o ocaso da vida. Porém, nem por isso resisto a transcrever da estância 9 do canto X de “Os Lusíadas”: 

   “Vão os anos descendo, e já do Estio/ há pouco que passar até ao Outono;/ a Fortuna me faz o engenho frio, / do qual já não me jacto nem me abono;/ os desgostos me vão levando ao rio/ do negro esquecimento e eterno sono.” 

      Aliás, já o velho Catão havia dito a Lélio e a Cipião, na prosódia indigesta do seu tempo e na minha abusiva tradução, que “a velhice torna a pessoa inútil à sociedade, retira-lhe as forças do corpo, priva-a dos prazeres da vida e, finalmente, traz o homem sob a permanente ameaça da iminência da morte”. E Camões, na sua comédia “El-Rei Seleuco”, escarrapachou: “Um homem velho, cansado, não tem força nem vigor, para em si sentir amor.”  Meio milénio mais tarde, era Marguerite Durras, em “O Amante”, quem vinha contar-nos: 

   “Certo dia, já na minha velhice, um homem se aproximou de mim no saguão de um lugar público. Apresentou-se e disse: "Eu a conheço há muito, muito tempo. Todos dizem que era bela quando jovem, vim dizer-lhe que para mim é mais bela hoje do que em sua juventude, que eu gostava menos de seu rosto de moça do que desse de hoje, devastado". Penso frequentemente nessa imagem que só eu ainda vejo e sobre a qual jamais falei a alguém. Está sempre lá no mesmo silêncio, maravilhosa. É entre todas a que me faz gostar de mim, na qual me reconheço, a que me encanta. Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

   Convém anotar que Luís Vaz, ou de Sá, de Camões, ainda sem o til no ‘o’, nasceu no dia seguinte ao do aterrador eclipse que pôs às escuras durante algumas hora a Europa ocidental, ou seja, o menino aliviou o ventre da mãe na noite de 24 para 25 de Dezembro de 1524, num bairro periférico da já multiétnica Lisboa a que hoje chamamos Mouraria e, com 3 anos de vida, foi levado para Coimbra, onde outro parente próximo era o poderoso patrão da lídima universidade.

   Estes dados e muitos outros são colhíveis em “Fortuna, Caso, Tempo e Sorte”, uma biografia hiper documentada do poeta, que Isabel Rio Novo assina e tenho vindo a ler com agrado, mas só hoje, com grande espanto meu, reparo, por uma notícia do “Observador”, que também existe “Camões – Altos Cumes, Scabelicastro e Correlatos”, de Vítor Serrão e Mário Rui Silvestre”, obra saída nas Edições Cosmos que é pecado desconhecer – mea culpa, mea maxima culpa – que Isabel ignora calamitosamente. Vá lá saber-se porquê.  

   Confesso que o desgosto que me acomete agora é não ter sido contemplado este ano com a melhor prenda de Natal que alguém me podia pôr no sapatinho, este livro de um historiador de arte que muito prezo e muito me tem ensinado.

P.S. - Está explicado pelo próprio Vítor: o seu livro saiu depois do da Isabel.

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segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Carlos Coutinho - Vasco da Gama


* Carlos Coutinho
   · 
MORREU para uns e nasceu para outros – é o mínimo que se pode dizer do passamento de Vasco da Gama, em Cochim, na noite de 25.1.1524, dando a oportunidade a Yechua, também conhecido por Jesus que tinha nascido no mesmo dia, mas um mês e 1524 anos antes, para justificar as grandes comezainas que os cristãos passaram a fazer pelo mundo fora na noite que chamam de Consoada.

Morreu o navegador alentejano, concluída que fora a sua terceira viagem à Índia, cumprindo a rota marítima que abrira em 1498,  por encomenda régia. Tinha ele 58 anos e o rei D. João III  já o tinha nomeado vice-rei da Índia.

Para sabermos de certeza certa do que estamos a falar, o melhor é socorrermo-nos da síntese elaborada por Francisco Bettencourt, que recorda uma primeira viagem do Gama, escassa de rendimento, mas abundante em revezes e desfeitas do samorim de Calicute, e, depois, uma segunda, em 1602, mais bem preparada e, para nossa eterna vergonha, recheada de crueldade e forjadora do terror que ainda tentamos não recordar.

Fora, entretanto, criada uma feitoria na Ilha de Moçambique, estabelecida a ligação com Sofala e imposto o tributo de Quiloa. Na costa da Índia, a política de vingança contra o samorim levou a um ato de inaudita barbaridade contra um navio de mercadores daquela cidade que regressava de uma peregrinação a Meca. 

O Gama ordenou que fosse pilhado e queimado, com as pessoas a bordo, tendo as crianças sido raptadas para virem a ser cristianizadas. Dado que o samorim não vergou, muitas dezenas de pescadores locais foram sequestrados, enforcados e pendurados nos mastros dos navios portugueses, coisa que Luís de Camões optou por ignorar na sua epopeia, mas que deixou naquelas terras a má fama de um chefe de piratas apelidado Gama, que era português e cristão, como os cruzados de antigamente que até a antropofagia em certa altura praticaram. 

A terceira viagem do monstruoso Gama, empreendida supostamente para debelar a crise deixada pelo governador que nunca chegou ser vice-rei, Duarte de Meneses, não deixou recordações especiais, já que o navegador sineense, com a patente de almirante,  contraíra a malária lá pelo multicultural Industão e acabou por falecer muito zangado também com a justiça divina.

Os seus ossos, se ainda não se desintegraram, estão num riquíssimo túmulo, em Lisboa, no panteão inigualável dos Jerónimos, na vizinhança do de Camões que, com idêntica pompa, não passa de um cenotáfio vazio de estrofes e de estâncias decassilábicas. 

A memória de Vasco da Gama na então Índia Portuguesa foi dilacerada por querelas de fação entre os seus descendentes e os de Afonso de Albuquerque, o conquistador de Goa, Malaca e Ormuz, os três nós do comércio luso no Oriente. Foi Francisco da Gama, vice-rei da índia de 1597 a 1601, quem ordenou a criação de uma estátua ao seu bisavô no Cais da Ribeira, monumento que foi vandalizado por gente afeta aos Albuquerques e a outro vice-rei, um tal Aires de Saldanha. 

Reapareceu já no século XIX a imagem do mitificado Gama, agora no Arco da Rua Augusta, acompanhada pelas de Viriato, Nuno Álvares Pereira e Marquês de Pombal, com o mulherengo D. José em frente, de costas para o Paço e com o Cais das Colunas a servir de miradouro para ver Cacilhas, muitos navios de travessia e quase tudo o que rodeia o Mar da Palha. 

Foi Veloso Salgado, um pintor naturalista nortenho, quem pintou este retrato, mostrando um elegante siniense que, além de Vasco, também era Gama, como  pai que pertencia à Ordem de Santiago, sendo detentor da respetiva comenda e exercendo os cargos de alcaide-mor e capitão da vila de Sines.

2024 12 23
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Carlos Coutinho - Auschwitz I, II e III


Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945

 * Carlos Coutinho

Carlos Coutinho

10 h  · 

NÃO raro, dois grandes escritores italianos, um ateu e outro judeu, um célebre com o seu “A Lua e as Fogueiras” e outro com “É Isto Um Homem?”, um nascido em 1908 e chamado Cesare Pavese e outro em 1923 para ficar com o nome Italo Calvino, mas ambos sepultados em Turim, um guerrilheiro antifascista (partigiano) que passou um ano encarcerado no Sul da Itália (em Barcaleone, Reggio Calabria), suicidando-se em 1950, depois de escrever “Ofício de Viver”, e outro nascido nos arredores de Havana, Cuba, transitando para Siena em menino com seus os pais judeus e, pouco depois, enviado para o Sul da Polónia ocupada, como prisioneiro dos nazis em Auschwitz, onde viu e sofreu todos os horrores, até ser libertado pelo Exército Vermelho, em 1945.

De Cesare é forçoso anotar que nasceu em Santo Stefano Belbo no dia 9 de setembro de 1908 e faleceu em Turim a 9 de agosto de 1950, tinha eu uns inocentes 7 anitos menos 15 dias e muita energia duriense para a brincadeira aldeã com os outros miúdos de Fornelos. Comprometeu-se de corpo e alma na luta armada antifascista, o que lhe rendeu um pavoroso ano de cárcere no Sul da península. 

Nessa época, iniciou o seu diário “O Ofício de Viver” (Il Mestiere di Vivere”), uma autocrítica largamente desenvolvida em reflexões sobre a sua arte, os seus processos criativos e o sentido da existência da sua própria existência. 

Há que acrescentar que Pavese já não era um desconhecido quando, em 1936, publicou “Lavorare Stanca” (Trabalhar cansa), porque já havia dado à estampa vários estudos sobre casos da literatura norte-americana clássica e contemporânea, reunidos posteriormente num volume publicado postumamente em 1951 (La letteratura americana e altri saggi), além de se notabilizar como tradutor muito fiel de Daniel Defoe, Charles Dickens, Herman Melville, James Joyce, Sinclair Lewis, John dos Passos, Gertrude Stein e William Faulkner.

Legou ao mundo uma obra valiosíssima: “A lua e as fogueiras” (1958); “Antes que o galo cante” (1959); “O ofício de viver”, diário (1935-1950); “A guitarra quebrada”, romance (1960); “Entre mulheres sós” (196?); “O diabo sobre as colinas” (1962); “Férias de Agosto” (1965); “A Praia” (1965); “O Verão” (1965); “Terras do meu país” (1969); “O camarada” (1974); “Trabalhar cansa” (1998); e “Diálogos com Leucó” (2007).

Trabalhou com Italo Calvino na Einaudi, onde desempenhou um papel fundamental, como, aliás, o judeu que amparou e guiou, quando voltou da Provinz Oberschlesien, Regierungsbezirk Kattowitz, Landkreis Bielitz, a oeste de Cracóvia onde Hiter montou o complexo de campos de concentração de Auschwitz, abrangendo uma grande área industrial rica em recursos humanos e naturais. 

Havia um total de 48 campos no complexo. Os maiores eram Auschwitz I, Auschwitz II–Birkenau e Auschwitz III–Monowitz ou Buna, um campo de trabalhos forçados. 

O centro administrativo do complexo ficava em Auschwitz I, onde cerca de 70 mil pessoas morreram, na sua maioria polacos étnicos e prisioneiros soviéticos. 

Auschwitz II era o campo de extermínio ou Vernichtungslager, onde não menos 960 mil judeus, 75 mil polacos e 19 mil ciganos foram assassinados. Auschwitz III-Monowitz servia como campo de trabalho para a fábrica Buna-Werke, do conglomerado industrial IG. 

O escritor e químico Primo Levi, sobrevivente de um ano de confinamento em Auschwitz III-Monowitz e autor de “É isto um homem?”, livro de leitura angustiante sobre o que Primo viu no campo de extermínio industrializado que tinha sobre o portão de entrada “Arbeit macht frei” ( Trabalhar liberta).

A SS selecionava alguns prisioneiros, geralmente criminosos alemães, como supervisores com privilégios (os chamados kapos, alguns deles judeus que assim pensavam safar-se e minorar o sofrimento dos outros). Judeus e prisioneiros soviéticos eram geralmente os tratados da pior maneira. 

Todos os encarcerados tinham que trabalhar nas fábricas de armas associadas ao complexo, à exceção dos domingos, reservado para limpeza e banho. Dos primeiros 10 mil prisioneiros de guerra soviéticos internados, apenas algumas centenas deles sobreviveram aos cinco primeiros meses. 

No porão do bloco ficavam as celas da fome", onde os presos ficavam sem receber comida ou água, até que morressem. Aí ficavam também as celas escuras", que tinham apenas um pequeno espaço na parede para respirar e portas sólidas; os prisioneiros colocados nestas celas permanentemente na escuridão iam gradualmente sufocando à medida que o oxigénio ia rareando dentro delas. 

Às vezes, os guardas da SS acendiam velas para fazer o oxigénio acabar mais depressa; muitos dos ali aprisionados eram suspensos com as mãos amarradas para trás por horas ou mesmo dias, o que fazia que, com o passar do tempo, suas clavículas fossem deslocadas.

Em 3 de setembro de 1941, o subcomandante SS-auptsturmführer Karl Fritzsch fez uma primeira experiência bem-sucedida com 600 prisioneiros de guerra soviéticos e 150 polacos, trancando-os dentro de um dos porões do bloco 11 e gaseando-os com Zyklon-B um pesticida altamente letal à base de cianureto, com que a Bayer fez bom negócio.

Foi aí que finalmente começou a Solução Final para o problema judeu, o seu extermínio como povo que os israelitas agora tentam por outros meios concretizar na Palestina ocupada, especialmente na Faixa de Gaza. 

A primeira câmara de gás de Auschwitz era conhecida como a Pequena Casa Vermelha, uma pequena construção de tijolos convertida em instalação de gaseamento, que intensamente matou, a partir de março de 1942. Uma segunda construção, a Pequena Casa Branca, também foi convertida em câmara de gaseamento, algumas semanas depois.

No começo de 1943, estava eu para nascer, os nazis resolveram ampliar a capacidade de gaseamento em Birkenau. O crematório II, originalmente construído como câmara mortuária, com necrotérios no porão e fornos no mesmo nível do solo, foi convertido numa fábrica de assassinatos, colocando-se uma porta à prova de gás no necrotério e adicionando entradas para o Zyklon-B e aparelhos de ventilação para remover os cadáveres. 

Este sistema começou a funcionar em março. O crematório III foi construído para usar o mesmo método. Os fornos IV e V, planeados exclusivamente como centros de gaseamento, foram construídos na primavera-verão de 1943, dois meses antes do meu nascimento, já funcionavam plenamente. 

Os kapos e os Sonderkommandos eram prisioneiros com privilégios: os primeiros tinham a obrigação de manter a ordem nos alojamentos e os segundos preparavam os recém-chegados imediatamente selecionados para morrer – geralmente as crianças, os anciãos e os doentes – nas câmaras de gás, seguindo depois os seus corpos para os fornos. 

Os subcampos femininos foram construídos em Budy, Pławy, Zabrze, Gleiwitz I, II, III, Rajsko e Lichtenwerden. Eram chamados de Aussenlager (campo externo), Nebenlager (campo de extensão) e Arbeitslager (campo de trabalho).

No total, cerca de 7 mil membros das SS foram designados para servirem em Auschwitz durante toda a existência dos campos. A principal autoridade geral ali era o Departamento de Economia da SS, conhecido como SS-Wirtschafts-Verwaltungshauptamt ou SS-WVHA; dentro do WVHA, estava o Departamento D que comandava diretamente as atividades.

A Gestapo, que viria a dar aulas à nossa PIDE, também mantinha um grande escritório em Auschwitz, com funcionários e oficiais uniformizados. No seu corpo médico, Joseph Mengele deu cartas e fez experiências com intenção científica. 

Uma orquestra de prisioneiras, a Orquestra Feminina de Auschwitz, era forçada a tocar grotescamente uma música alegre, à medida que os prisioneiros passavam pelos portões a caminho do trabalho. Esta orquestra foi criada pela supervisora-SS do campo feminino, Maria Mandel que, pelas suas atrocidades, ficou conhecida como A Besta. A Bayer, então uma subsidiária da IG Farben, comprava prisioneiros de Birkenau para servirem de cobaias nos testes de novas drogas.

Heissmeyer, que considerava os judeus como animais de laboratório, comandava experiências em crianças e fez diversas experiências hdiondas, injetando bacilos vivos da tuberculose diretamente nos pulmões dos prisioneiros, na tentativa de conseguir uma vacina para a terrível doença que tantos europeus e asiáticos matou. 

No Julgamento de Nuremberga, o ex-comandante do campo entre 1940 e 1943, Rudolph Höss, declarou que Adolf Eichmann lhe tinha falado de 2,5 milhões de mortos, mas admite-se que tenham sido cerca de 4 milhões, nas contas do Museu Estatal de Auschwitz. 

Os negacionistas do Holocausto dizem que isso não passa de um mito. 

Várias indústrias alemãs construíram as suas fábricas na área, para aproveitarem o trabalho escravo proporcionado por Morowitz, criando os seus próprios subcampos, destacando-se, além da Bayer, a Siemens-Schuckert e a indústria de armamentos Krupp AG, dirigida por Alfried Krupp, um membro da família e carrasco SS. 

Uma “filósofa” judia, Hannah Arendt, que foi secretária e amante de um reitor nazi, Heidegger, foi proibida de entrar em Israel, porque, além do mais, inventou o conceito de “banalidade de mal” que absolve todos os beleguins hitlerianos, já que eles “se limitavam a cumprir ordens dos seus superiores”. 

Peço desculpa a quem foi lendo este apontamento até aqui chegar, porque talvez tenha sofrido tanto como eu a pesquisar e a reduzir ao mínimo possível o resultado das minhas irreprimíveis pesquisas. 

Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945

2024 12 19

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terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Carlos Coutinho - Literatura(s)

* Carlos Coutinho
 
NUM domingo gélido como o de ontem, é verdadeiramente insensato sair da cama a meio da manhã, mas eu saí. Já muito perto do meio-dia, com sol a rodos e um ventinho maligno a afagar os ramos trémulos das árvores por baixo da minha janela, fui comprar o jornal e, a seguir, já com um bom café engolido, lembrei-me daquela hora antiga em que irrompi pela leitura intercalada das “Confissões” do bispo de Hipona e de “O Sorriso aos Pés da Escada”, de Henry Miller, que tinha levado comigo, para apurar certas diferenças.

   Recordo-me da alegria que senti,  ao percorrer os pecados de Santo Agostinho, nascido em 430 d.n.e., alternados com capítulos enternecedores do malandreco Miller que foi parido em Brooklyn, nos Estados Unidos, a 26 de dezembro de 1891, e, em 1930, respondendo a um espírito aventureiro e ao desejo de se dedicar à escrita, partiu para a Europa e se fixou em Paris. Foi aí, na exaltada e exaltante capital gaulesa, que, em 1934, publicou o seu primeiro romance autobiográfico,  o "Trópico de Câncer", a que se seguiu, em 1939, o "Trópico de Capricórnio", ambos banidos durante quase três décadas nos EUA. 

    Enquanto o bispo se deleita na revisitação das suas horas de fulgor mental e luxúria vivida milímetro a milímetro, Miller, em 1942, pouco após se instalar definitivamente na Califórnia, iniciou a escrita da trilogia 'Rosa-Crucificação' - “Sexus”, “Plexus”, “Nexus” - considerada uma das suas obras maiores, onde conjuga reflexão metafísica com um erotismo explícito que, traduzido para português, nem sempre se mastiga bem. 

   Foi, como é bem sabido, um dos mais extraordinários autores americanos do século XX, cuja insubmissão, quer na vida, quer na literatura, viria a influenciar fortemente a chamada 'beat generation'. Faleceu em casa a 7 de junho de 1980 e eu, desta deriva, recordo a minha juventude e o olhar avisado do meu pai, que preferia Camilo, e, perdendo o controlo da memória, desenterro a minha primeira abordagem às suas “Novelas do Minho” e ao romance de Aquilino “Quando os Lobos Uivam” .

   Na “Maria Moisés” o suicida de S. Miguel de Seide põe “o pequeno pegureiro a contar as cabras à porta do curral; e, dando pela falta de uma, desatou a chorar com a maior boca e bulha que podia fazer. Era noite fechada. Tinha medo de voltar ao monte, porque se afirmava que a alma do defunto capitão¬mor andava penando na Agra da Cruz, onde aparecera o cadáver de um estudante de Coimbra, muitos anos antes. O povo atribuia aquela morte ao capitão-mor de Santo Aleixo de além-Támega, por vingança de ciúmes, e propalava que a alma do homicida, de fraldas brancas e roçagantes, infestava aquelas serras. O moleiro das Poldras contrariava a opinião pública, asseverando que a aventesma não era alma, nem a tinha, porque era a égua branca do vigário. A maioria, porém, pôs em evidência o facto psicológico, divulgando que o moleiro era homem de maus costumes, tinha sido soldado na guerra do Rossilhão, não se desobrigava anualmente no rol da igreja, nem constava que tivesse matado algum francês”. 

   E também me saltou na memória a lacrimosa Mariana do “Amor de Perdição”, talvez porque da Antena 2 brotavam as notas doridíssimas do “Stabat Mater”, de Gioachino Rossini, exprimindo a dor daquela senhora excelsa que, em pé e de mãos enclavinhadas no peito,  era a mãe do sacrificado, a “mãe dolorosa, junto da cruz, lacrimosa, donde pendia o filho” (Stabat mater dolorosa, iuxta crucem lacrimosa, dum pendebat filius.)

   Foi para me salvar deste sufoco que a minha memória me fez imaginar “O Malhadinhas”, do beirão de Sernancelhe que, em forma de monólogo, nos conta a história de um almocreve, o ardiloso e jocoso Malhadinhas, que é um serrano rústico, grosseiro, matreiro e não tem quaisquer problemas em usar a “faquinha” que traz à cintura para corrigir o que entende por injusto.

   Foi, aliás, tendo em conta inúmeros casos de manha e crueldade que conhecia, típicas dos britânicos seus patrícios, que o filósofo John Lock, tido ainda hoje como o “pai do liberalismo”, já dizia no século XVII: “Sempre considerei as ações dos homens as melhores intérpretes dos seus pensamentos.”

2024 12 16

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sábado, 16 de novembro de 2024

Carlos Coutinho - [a receita do Leão de Loures e Ascenso Simão: praticar o fascismo para "combatê-lo"]

 

* Carlos Coutinho   

ASCENSO Simões, uma personagem vila-realense com futuro imprevisível, é um ex-deputado meu patrício que postou na sua página no Facebook a convicção íntima e profunda de que, para se evitar que André Ventura tome conta das autarquias da Área Metropolitana de Lisboa, é urgente haver aí muitos mais Ricardos Leão. Escreveu mesmo:

   “Eu não gosto do Chega, mas não fecho os olhos à sua existência e, principalmente, aos problemas que lhe dão razões.”

   Nas tintas para as famílias que o energúmeno de Loures mandaria dormir para debaixo da pontes e viadutos, o Ascenso transmutado em Descenso desatou a pregar que “Leão não é um autarca fora-da-lei, como alguns dos seus camaradas quiseram fazer acreditar nos últimos dias. Leão tem é a realidade do seu lado e, se nada fizer, um dia teremos Loures, Amadora e ouros concelhos governados pela extrema-direita.”

   Alguns notáveis do PS bem instalados na vida, vieram a terreiro apoiar o maronês meu conterrâneo, destacando-se em solidariedade David Amado, que sucedeu a Marta Temido na presidência da concelhia de Lisboa do PS, assim como o antigo secretário de Estado dos Desportos e atual deputado João Paulo Correia. 

   Outro impensável apoiante foi Carlos Pereira, vice-presidente do grupo parlamentar do PS, tal como o ex-deputado Pedro Cegonho que em tempos também foi presidente da Associação Nacional de Freguesias. Tudo abencerragens de alta estirpe, como se vê. Só faltou o brado do falecido espingardeiro Edmundo Pedro que levou as 79 G3 furtadas para o PS de Soares.

   As razões do Leão de Loures são tão cruciais para o PS que até o deputado e secretário-geral Pedro Nuno Santos se furtou a qualificá-las, não obstante o coro de discórdia escondida que também se levantou nas fileiras do PS, com a refilona deputada e comentadora política Alexandra Leitão à cabeça.

   A jornalista Ana Sá Lopes chamou um figo a este gague outonal e desenterrou a história Oswald Mosley, o presidente da União Britânica dos Fascistas, que foi fundar e comandar, depois de se pirar do Partido Trabalhista. 

   Mussolini fez o mesmo, de resto, ao se inverter como dirigente do Partido Socialista Italiano para fundar o Partido Nacional Fascista, o que levou Salazar a manter até ao fim da sua carreira, na mesa de trabalho, atravancada de telefones, carimbos, livros e dossiês, uma única fotografia, a do il duce, em moldura dourada e antografada.

   Ruge, Leão, ruge, que o teu rugir tem muito de história por trás. Para isto o grande poeta brasileiro Carlos Drumond de Andrade tinha um comentário cruel: 

   “As dificuldades são o osso estrutural que entra na construção do caráter.”

   Dão que pensar, tanto a descoberta do poeta como a voz visceral da fera saloia. 

   Embrenhado nesta ressurreição de frases com história, fui descobrir umas palavras confluentes com estas realidades num livro de Jean-François Steiner, “Treblinka”, prefaciado por Simone de Beauvo'r, um fragmento do discurso proferido pelo reichsführer SS Heinrich Himmler, mês e meio depois de eu nascer, no Congresso dos Generais, em Posen, Alemanha, no dia 4 de outubro de 1943:

   “Gostaria também de vos falar agora com a maior franqueza acerca de um assunto extremamente importante. Aqui, entre nós, vamos abordá-lo sem disfarces, mas nunca, nunca, deveremos falar dele em público. (…) Vós sabeis, todos vós sabeis o que se sente ao ver um monte de cem, de quinhentos, de mil cadáveres. Foi isso – suportar essa prova e continuar a ser um homem correto, descontando, claro, as exceções devidas à fragilidade da própria natureza humana –, foi isso o que nos tornou duros. É uma página gloriosa da nossa história que nunca foi escrita, nem jamais o será.”

   Netanyahu – e quem o sustenta – não dirá hoje algo diferente. É de reter que Simone de Beauvoir, no seu texto de preparação para a leitura de “Treblinka”, garante:

   “Em todos os tempos e em todos os países, com raras exceções, os notáveis colaboraram sempre com os vencedores: é um caso de classe. Mas em Treblinka – embora alguns judeus fossem menos maltratados do que outros –, não havia distinções de classe. Nem sequer entre os homens dos comandos e os que desembarcavam na estação para serem conduzidos às câmaras de gás.”

   E Jean-François Steiner regista: 

   “O domingo passou-se num turbilhão de festas.  Ninguém dormiu nessa noite. Na segunda-feira, os prisioneiros seguem para o trabalho quando se ouve o silvo doloroso da locomotiva. Galewski está no cais quando os deportados se apeiam. Muitos estão feridos, outros queimados. Os alemães e os ucranianos tratam-nos com uma selvageria terrível, acabando com s feridos à coronhada, mutilando os homens válidos. (…) Nesse dia, a selvajaria dos alemães e dos ucranianos manifesta-se livremente. No Caminho do Céu, Ivan, um enorme brutamontes de vinte anos, abre verticalmente o ventre das mulheres com um grande sabre. Outras são atiradas vivas para as fogueiras.  Primeiro lançam-lhes os filhos para as chamas, depois mandam-nas ir ter com eles. Umas precipitam-se imediatamente, outras hesitam. Dizem-lhes então que não têm instinto maternal e empurram-nas para fogo.”

   Como se estivessem agora na Faixa de Gaza, ou em Kursk, ou em Beirute, esteja na Casa Branca quem estiver.

          Tomem bem nota: segundo este ex-deputado do PS, são precisos mais Ricardos Leão…

2024 11 16

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domingo, 20 de outubro de 2024

Carlos Coutinho - [Lobisomens]

* Carlos Coutinho

  NUNCA fui muito de acreditar em lendas estapafúrdias nem de ter medo de sombras ou de pios de coruja. Vendo um filme na televisão, lembrei-me agora de uma certa noite de sábado, na barbearia do Sr. Manuel Sacristão. Teria eu uns seis anitos, quando lá fui cortar o cabelo, à luz mortiça do candeeiro a petróleo que iluminava os rostos impacientes de meia dúzia de clientes à espera de vez.

Era inverno, o chão da rua tinha uma camada de neve quase de palmo que, depois, no caminho de regresso a casa, eu ia marcando com sulcos arrastados das minhas chancas de solas de pau. Quando cheguei ao Largo do Terreiro, comecei a notar que havia duas filas, paralelas e muito encostadas uma à outra, de outros sulcos, estes em forma de coração e com uma largura de quatro ou cinco centímetros. Podiam ser de cão grande, mas, como eu vinha com os ouvidos cheios de histórias assustadoras de lobos e lobisomens, foram marcas lupinas o que me pareceu ver pela rua acima, na direção da minha casa e do cemitério, lá muito para o alto.

Parei debaixo de um luar pálido e de mau augúrio, achei desmesurada a lua cheia e decidi seguir para o Largo do Cimo da Rua por um caminho alternativo que passa pelo Tapado, onde começa o urtigoso Quelho que desce para o Largo do Itreido. Estaquei ao lado da fonte de pedra para avaliar a situação posta pela fantástica corrida de um peludo lobisomem que passou à minha frente sem para mim olhar. Veio da Carreira Velha e embicou de cabeça oblíqua pela rota do cemitério.

Hoje sei que foi uma alucinação, consequência das histórias ouvidas na barbearia, provavelmente exploradas para me assustarem. Mas eu levei a coisa a sério e, quando me dispunha a voltar para a barbearia, apareceu esbaforido o meu tio Alberto que tinha ficado encarregado de me ir buscar e já não me encontrou. Justificou a sua demora não me lembro como e, quase a chegar a minha casa, disse:

– Estás mais suado que o meu peito numa tarde de verão. Tens febre?

– Não. Tenho fome. Vossemecê atrasou-se muito.

Fez-se um breve silêncio e eu perguntei:

– Alguma vez viu um lobisomem, tio?

– Eu? Nunca! E tu?

– Também não, mas na barbearia só se falava nisso.

Se eu não fosse sobrinho de um irmão da minha mãe, talvez confessasse que havia acreditado em certos pormenores inquietantes daquelas arrastadas conversas mal-intencionadas, mas a verdade é que desatámos ambos a rir, já no quinteiro que havia à frente da minha antiga casa.

Passados estes anos todos e puxado pela televisão para as crenças de antanho, fui à Internet procurar o que haveria sobre o assunto e, então, fiquei a saber que, na lúgubre barbearia que ficava por cima da loja de uma vaca leiteira e ao lado da sapataria do Sr. Lucindo, nada tinha sido inventado e que lobisomem ou licantropo (do grego λυκάνθρωπος: λύκος, lýkos, ‘lobo’ e άνθρωπος, ánthrōpos, ‘humano’) é uma pessoa capaz de se transformar num faminto lobo ou em algo semelhante a um lobo, quase sempre em inquietantes noites de lua cheia.

Tal lenda aparece nas obras de vários autores que contam a história do pugilista arcádio Damarco da Parrásia, herói olímpico, que assumiu a forma de lobo nove anos após um sacrifício a Zeus Liceu, lenda atestada pelo geógrafo Pausânias.

Também Heródoto, nas suas “Histórias”, escreveu que, de acordo com o que os citas acreditavam, os gregos estabelecidos na Cítia lhe contaram serem os Neuri, uma tribo do Nordeste, que eram todos transformados em lobos, uma vez por ano, durante vários dias, voltando seguidamente à forma humana. O historiador teve o cuidado de acrescentar que não estava convencido da veracidade dessa história, mas os moradores locais juravam que ela era verdadeira. Esta lenda também foi narrada por Pomponius Mela.

No século II a.n.e. o geógrafo grego Pausânias contou a história do rei Licaão da Arcádia, que foi transformado em lobo porque sacrificou uma criança no altar de Zeus Liceu. Na versão escrita em latim por Ovídio nas suas “Metamorfoses”, quando Zeus visitou Lacaão, disfarçado de homem comum, o visitado quis testar se ele era realmente um deus. Para tanto, matou um refém molossiano e entregou as entranhas da vítima a Zeus. Enojado, este transformou Licaão em lobo. No entanto, noutros relatos da lenda, como o da Bblioteca de Apolodoro, Zeus atacou-o, bem como aos filhos, com raios e coriscos, como como punição divina.

Esta história também é contada por Plínio, o Velho, que chama a Licaão a Demaenetus, citando Agripas. Segundo Pausânias, este não foi um acontecimento único, já muitos homens foram transformados em lobos durante os sacrifícios a Zeus Liceu. Se eles se abstivessem de comer carne de gente enquanto eram lobos, seriam restaurados com a forma humana nove anos depois, mas, se não se abstivessem, permaneceriam lobos para sempre.

Os primeiros autores cristãos também mencionaram lobisomens. Na obra “Cidade de Deus”, o bispo Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) faz um relato semelhante ao encontrado em Plínio, o Velho. Agostinho explica que "é geralmente aceite que, por certos feitiços de bruxa, os homens podem ser transformados em lobos.”

Esta metamorfose fisionómica também foi mencionada no “Capitulatum Episcopi”, atribuído, desde a sua reunião no século IV, ao Concílio da Ancira e tornou-se texto doutrinário da Igreja em relação à magia, bruxas e transformações como as dos lobisomens. Nele está escrito que “quem acredita que qualquer coisa pode ser transformada noutra espécie ou semelhança, exceto pelo próprio Deus é sem dúvida um infiel.”

Há também evidências de uma crença generalizada em lobisomens na Europa medieval. Os lobisomens foram mencionados em códigos de então, como o do Rei Canuto II da Dinamarca, cujas “Ordenações Eclesiásticas” nos informam de que esses códigos visam garantir que “o lobisomem loucamente audacioso não devaste muito, nem morda muitos dos membros do rebanho espiritual.”

Liuprando de Cremona, por sua vez, fala de um boato segundo o qual Bajan, filho de Simeão I da Bulgária, poderia usar magia para se transformar em lobo.

As obras de Agostinho de Hipona tiveram grande influência no desenvolvimento do cristianismo ocidental e foram amplamente lidas pelos clérigos do período medieval que ocasionalmente peroravam sobre lobisomens em suas obras. Exemplos famosos incluem “Werewolves of Ossory”, de Geraldo de Gales, na sua “Topographica Hibernica”, assim como em “Otia Imperiala”, de Gervase de Tilbury, ambos escritos para o público real.

Gervase revela que a crença em tais transformações (ele também menciona mulheres que se transformam em gatos e em cobras) foi difundida por toda a Europa. Usa a frase “que ita dinoscuntur”, ao discutir essas metamorfoses, que significa “é conhecido”". Escreveu na Alemanha e também diz que a transformação de homens em lobos não pode ser facilmente descartada, pois “na Inglaterra, muitas vezes vimos homens transformarem-se em lobos (“Vidimus enim frequenter in Anglia per lunationes homines in lupos mutari”).

As tradições pagãs germânicas associadas a homens-lobos persistiram por mais tempo na Era Viking escandinava. Harald I da Noruega tinha um corpo de Úfhednar, os “homens revestidos de lobo”, que são mencionados em “Vatnsdœla, Haraldskvæði! e na “Saga dos Volsungos”, parecendo-se com algumas lendas de lobisomens.

Os Úlfhednar eram lutadores semelhantes aos berserkers, embora se vestissem com peles de lobo, em vez de peles de urso, e tivessem a reputação de absorver os espíritos desses animais para aumentarem a eficácia na batalha. Úlfhednar e os berserkers estão intimamente associados ao deus nórdico Odin que deu excelente substância a Wagner para as suas óperas.

As crenças escandinavas deste período podem ter-se espalhado pela Rússia de Kiev, dando origem aos contos eslavos de lobisomens. Um príncipe bielorrusso do século XI, Vseslav de Polotsk, foi descrito como um lobisomem, capaz de se deslocar em velocidades sobre-humanas, conforme se pode ler no “Conto da Campanha de Igor”:

“Vseslav, o príncipe, julgou os homens; como príncipe, ele governou cidades; mas à noite ele rondava disfarçado de lobo. De Kiev, rondando, ele alcançou, antes da tripulação dos galos,Tmutorokan. O caminho do Grande Sol, como um lobo rondando, ele cruzou. Para ele, em Polotsk, os sinos tocavam cedo para as matinas em Santa Sofia; mas ele ouviu o toque em Kiev.”

“Ser um lobisomem” era uma acusação comum em julgamentos de bruxas ao longo da história, e apareceu até nos julgamentos de bruxas de Valais, um dos primeiros casos desse tipo, no século XV.

Na “Historia de Gentibus Septentrionalibus”, Olaus Magnus descreve uma assembleia anual de lobisomens perto da fronteira Lituânia-Curlândia. Os participantes, incluindo a nobreza lituana e lobisomens das áreas vizinhas, reniam-se para testarem a sua força, tentando saltar sobre as ruínas de uma muralha de castelo. Aqueles que conseguiam eram considerados fortes, enquanto os participantes mais fracos eram punidos com chicotadas.

Também houve numerosos relatos de ataques de lobisomens – e consequentes julgamentos judiciais – na França do século XVI. Nalguns casos havia provas claras contra os acusados de homicídio e canibalismo, mas nenhuma associação com lobos. Noutros, as pessoas ficaram aterrorizadas com essas criaturas, como no caso de Gilles Garnier em Dole, em 1573, que foi condenado por ser lobisomem.

Um pico de atenção para com à licantropia ocorreu no final do século XVI, como parte da caça às bruxas na Europa. Vários tratados sobre lobisomens foram escritos na França entre 1595 e 1615. Lobisomens foram avistados em 1598 em Anjou e um lobisomem adolescente foi condenado a prisão perpétua em Bordéus em 1603. Henry Boguet escreveu um longo capítulo sobre lobisomens em 1602. No Vaud, lobisomens foram condenados em 1602 e 1624. Um tratado escrito por um pastor de Vaud em 1653 afirma-se, no entanto, que a licantropia é puramente uma ilusão.

Depois disso, o único registo adicional do Vaud data de 1670: é o de um menino que alegou ter, tanto ele como a mãe, a capacidade de se transformarem em lobos, o que não foi levado a sério. No início do século XVII, a bruxaria foi perseguida por Jaime I da Inglaterra, que considerava os “warwoolfes” vítimas de um delírio induzido por “uma superabundância natural de melancolia”.

Depois de 1650, a crença na licantropia desapareceu em grande parte da Europa de língua francesa, como consta da “Enciclopédia", de Diderot, onde os relatos de licantropia não são mais que um “transtorno do cérebro".

A parte da Europa que mostrou interesse mais vigoroso pelos lobisomens depois de 1650 foi o Sacro Império Romano-Germânico. Pelo menos nove obras sobre licantropia foram impressas na Alemanha entre 1649 e 1679. Nos Alpes austríacos e bávaros, a crença em lobisomens persistiu até o século XVIII. Também na nossa vizinha Galiza, em 1853, Manuel Blanco Romasanta foi julgado e condenado como autor de uma série de assassinatos, mas afirmou estar inocente devido à sua condição de “lobishome”.

Isto é corroborado pelo facto de em áreas desprovidas de lobos ocorrerem normalmente diferentes tipos de predadores mitificados: homens-hiena na África, homens-tigre na Índia, bem como homens-puma (‘runa uturuncu’ e homens-jaguar (‘yaguaraté-abá’ ou ‘tigre-capiango’) na América do Sul.

O vampiro também tinha relação com o lobisomem nos países do Leste europeu, particularmente na Bulgária, Sérvia e Eslovênia. Na Sérvia, o lobisomem e o vampiro são conhecidos como vulkodlak. Daí nasceu o famoso Drácula romeno.

Na sua obra, Gerard registrou os relatos das diversas etnias que fazem parte da Transilvânia (alemães, ciganos, húngaros, romenos, entre outros) sobre diversos aspetos da vida na região, bem como as superstições sobre o mau-olhado, espíritos, bruxas, vampiros (dos tipos strigoi, moroi e nosferatu) e lobisomens (representados pelos prikolitch e pelo vârcolacve):

“O primo-irmão do vampiro, o werwolf dos alemães, é encontrado aqui sob o nome de Prikolitsch. Às vezes é um cão e não um lobo, cuja forma um homem assumiu, ou foi obrigado a assumir, como penitência pelos seus pecados.

Numa aldeia ainda se conta — e acredita-se – a história de um homem que, num domingo, voltando para casa com a esposa, sentiu de repente que havia chegado o momento da sua transformação. Entregou-lhe as rédeas da carruagem em que seguiam e correu para o meio dos arbustos, onde, murmurando uma fórmula mística, deu três cambalhotas sobre uma vala.

"Logo depois, a mulher, que esperava em vão pelo marido, foi atacada por um cachorro furioso, que saiu latindo do mato e conseguiu mordê-la com força e rasgar-lhe o vestido. Quando, uma ou duas horas depois, a mulher chegou a casa depois de dar o marido como perdido, ficou surpresa ao vê-lo a vir sorrindo ao seu encontro; mas quando entre os dentes dele ela avistou os pedaços de seu vestido mordidos pelo cachorro, o horror dessa descoberta a fez desmaiar."

Há referências muito antigas ao lobisomem em Portugal. Aparece no “Rifão” de Álvaro de Brito (Cancioneiro Geral):

"Sois danado lobisomem,

Primo d’Isac nafú;

Sois por quem disse Jesus

Preza-me ter feito homem."

(Garcia de Resende, in “Excertos”)

É também mencionado no “Vocabulário Português e Latino”, de Rafael Bluteau, e num soneto de Bocage:

"Profanador do Aónio santuário,

Lobisomem do Pindo, orneia ou brama,

Até findar no Inferno o teu fadário!"

(Bocage, in “Obras Escolhidas”.

No século XIX, Alexandre Herculano escreveu sobre o lobisomem da região da Beira-Baixa:

“Os lubis-homens são aqueles que têm o fado ou sina de se despirem de noite no meio de qualquer caminho, principalmente encruzilhada, darem cinco voltas, espojando-se no chão em lugar onde se espojasse algum animal, e em virtude disso transformarem-se na figura do animal pré-espojado. Esta pobre gente não faz mal a ninguém, e só anda cumprindo a sua sina, no que têm uma cenreira mui galante, porque não passam por caminho ou rua, onde haja luzes, senão dando grandes assopros e assobios para se lhas apaguem, de modo que seria a coisa mais fácil deste mundo apanhar em flagrante um lubis-homem, acendendo luzes por todos os lados por onde ele pudesse sair do sítio em que fosse pressentido. É verdade que nenhum dos que contam semelhantes histórias fez a experiência. (in “Opúsculos”).

Nos seus estudos sobre mitologia popular, o escritor e etnógrafo Alexandre Parafita reconhece que, embora a designação sugira tratar-se de um ser híbrido de homem e lobo, muitas das crenças sobre esta criatura identificam-na na figura tanto de lobo, como cavalo, burro ou bode, consistindo o seu fadário em ir despir-se à meia-noite numa encruzilhada, espojando-se no chão, onde um animal já antes fizera o mesmo, após o que se transforma nesse animal para ir “correr fado”.

Camilo escreve nos “Mistérios de Lisboa”:

“A porta em que bateu o padre Diniz comunicava para a sala em que estavam duas criadas da duquesa, cabeceando com sono, depois que se fartaram de anotar as excentricidades de sua ama, que, a acreditá-las, há cinco anos que cumpria fado, espécie de Loba-mulher, ou Lobis-homem fêmea, se os há, como nós sinceramente acreditamos.”

Pronto, por hoje basta. Já estou a ficar com fome, como quando saí da barbearia do Sr. Manuel Sacristão, naquela noite enluarada de lobisomens.


2024 10 20

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