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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Verdade Histórica - Alves de Fraga

A Verdade Histórica
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Correm já na Internet duas cartas abertas, uma, da autoria do Coronel reformado Manuel Bernardo e dirigida ao Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa e, outra, assinada pelo Coronel Sousa e Castro em resposta ao primeiro.
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Manuel Bernardo é um oficial com quem me cruzei uma ou duas vezes na vida e que, por conseguinte, mal conheço – fiquei a saber que, no 25 de Abril de 1974, foi saneado embora desconheça como foi reintegrado antes do 25 de Novembro de 1975 (uma vez que afirma ter sido frequentador assíduo do gabinete de Jaime Neves, no Regimento de Comandos). Ao que sei, tem publicados, pelo menos, dois livros sobre a época conturbada do pós-Revolução de 25 de Abril. Pelo que dele li, é marcadamente um homem que se identifica com a direita política; às vezes, pressente-se-lhe, até, uma ponta de ódio pela Revolução levada a efeito na madrugada de 25 de Abril de 1974.
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Por que razão escreve Manuel Bernardo uma carta aberta ao Professor Marcelo Rebelo de Sousa? Pelo simples motivo de este ter prefaciado o livro do Coronel Sousa e Castro, dando, deste modo, cobertura às afirmações do autor. Nessa epístola aberta, Manuel Bernardo para além de confundir a realidade distorce-a, descontextualizando afirmações de Sousa e Castro.
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Para quem como eu faz História, através da busca constante da verdade, estas polémicas são interessantes, mas perigosas, porque dão cores diversas aos factos passados.
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Tanto Sousa e Castro como Manuel Bernardo lutam por verdades que julgam “verdadeiras”, mas fazem-no a partir da sua “trincheira”, do seu posto de observação e com as “lentes dos binóculos” que antecipadamente escolheram.
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A verdade histórica, aquela que vai interessar aos historiadores e que irá ser tomada como a síntese possível de se fazer, não resulta dos testemunhos de Sousa e Castro, de Otelo Saraiva de Carvalho, de Vasco Lourenço, de Pires Veloso ou de outros que deixaram para os vindouros as suas interpretações. Eles foram meros “soldados” na “batalha” que ocorreu; uns mais bem colocados do que outros, mas todos tiveram uma visão “rasteira” da verdade. Esta, se de facto, foi alguma vez completamente apreendida, esteve nas mãos dos “generais” e esses não a confessaram.
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Os grandes condutores de todo o processo foram Álvaro Cunhal, Costa Gomes e, em posição muito mais baixa, Mário Soares. Os dois primeiros nunca revelaram tudo o que souberam nem todos os mecanismos que movimentaram. O terceiro escapa-se a deixar dito o que realmente sabe da “grande intriga” internacional.

Ainda está por divulgar todo o alcance do pensamento e do comportamento político do grande obreiro da Democracia em Portugal: Costa Gomes. Foi nas mãos dele e pelas mãos dele que passaram as rédeas do Poder, as rédeas que conduziram o “cavalo à solta” que foi todo o PREC.
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Álvaro Cunhal foi o motor de uma mudança. Uma mudança que ia para onde?
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São muitos os que defendem que iria para o comunismo, mas dizem-no por facciosismo, falta de informação ou mero mimetismo político. O mais que se sabe é que ia para a democracia. Mas que democracia? Esta? A Outra? Ou a que se vive na Madeira, por exemplo?
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Quem é que, de facto, coordenou o PREC? Washington ou Moscovo? Porque os estrategistas do Processo Revolucionário em Curso (PREC) estavam fora de Portugal, só os “generais” poderiam responder. E não se pense que Vasco Gonçalves era um “general”; ele, como todos os outros, incluindo Mário Soares, foi um “soldado” melhor colocado.
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A verdade há-de ser encontrada quando se cruzarem informações dispersas, documentos perdidos e não é o Coronel Manuel Bernardo nem o Sousa e Castro que são detentores de verdades absolutas. Até, porque, em História, não há verdades absolutas!    
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Coronel Luís Alves de Fraga
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PortugalClub - seg 28-12-2009 00:03
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Carta Aberta ao meu camarada Manuel Bernardo - Rodrigo de Sousa e Castro

Carta Aberta ao meu camarada Manuel Bernardo

            Rodrigo de Sousa e Castro

Caro camarada,


Não o conheço pessoalmente, sigo todavia a sua intermitente intervenção política, sob forma escrita, a propósito dos acontecimentos que vivemos há cerca de três décadas.


Nunca emiti publicamente qualquer juízo de valor acerca das suas opiniões políticas e outras, apesar de em relação a algumas delas discordar profundamente. Que me recorde, apenas por uma vez me interessei pela sua pessoa, perguntando  ao nosso camarada Vasco Lourenço por si. Foi-me então dito que o camarada tinha sido um dos raros oficiais, de patente abaixo de tenente-coronel, saneados na sequência do 25 de Abril. A conversa ficou por aí.


Inicio por isso esta missiva, partindo da seguinte convicção: o camarada foi provavelmente alvo de uma injustiça, da parte de militares que como eu se empenharam na Revolução Libertadora, e que não lhe reconheceram na altura a sua hoje proclamada adesão aos valores da Democracia, Liberdade e Pluralismo. Apesar da probabilidade de termos errado, é absolutamente certo que se indícios houvesse, por ínfimos que fossem, de que se tinha empenhado no derrube da ditadura, tal acto não se verificaria. Creio que não negará esta evidência e aceitará que ela balize, desde já, esta minha resposta. 


Em relação aos acontecimentos anteriores a 25 de Abril de 1974, nos quais estive razoavelmente envolvido, não encontro de si registo significativo em nenhum deles. Em relação ao 16 de Março de 1974 e ao 11 de Março de 1975, no que vai ficar para a História, não reza qualquer intervenção significativa da sua parte. Fiquei agora a saber que os acontecimentos de 28 de Setembro de 1974 o perturbaram significativamente.


Afirma que desde “finais de 1974 a fins de 1975, praticamente passava todos os dias no gabinete do Coronel Jaime Neves…”. Tal facto, por si só, permite concluir que o camarada foi um dos mais destacados oficiais que fizeram a contenção do aventureirismo esquerdista de Novembro de 75, integrando ou o grupo político dos moderados ou o seu grupo militar de apoio. No mínimo, terá sido um conselheiro privilegiado do comandante dos Comandos da Amadora. Não posso por isso de deixar de o felicitar pela discrição, quando apela ao reconhecimento público da acção de grandes revolucionários e democratas esquecidos, como Mariz Fernandes, José Pais, Lobato Faria e outros, renunciando a enunciar a sua própria acção. Considero-o pois, desde já, um “ certo capitão” de Novembro. Consideração que constitui a outra baliza da minha resposta.


Apesar de a sua carta constituir, no essencial, um enunciado caótico de acusações, relatos falsos de factos historicamente provados e juízos de valor de discutível pertinência, não posso deixar de o felicitar por sair à liça em defesa de Jaime Neves o que não deixa de ser um são acto de camaradagem.

E comecemos por aqui. Acusa-me de utilizar a técnica da omissão. Todavia, nas citações que faz do meu livro, descontextualizando-as demagogicamente, afirma-se afinal perito nessa técnica. Por exemplo quando me cita sobre o que digo em relação a Jaime Neves: “… em 25 de Novembro, emerge impante como comandante da força aríete. Eanes fará dele, publicamente, o herói do momento e da circunstância…”, porque é que o camarada não continua a citação? Vou então eu fazê-lo: “… Jaime Neves, numa estranha manifestação de gratidão, responder-lhe-á com o apoio indefectível a Soares Carneiro durante as Presidenciais de 1980, corroborando o coro de ataques e insultos ao seu comandante de Outono de 1975”. Leu agora bem o que eu escrevi, camarada? Existe um dito popular para qualificar aquela atitude de Jaime Neves, o povo diz que é “ morder a mão do dono” !


Apenas um outro exemplo da sua, essa sim, descarada “técnica” de descontextualização e omissão. Quando digo, convictamente, que Jaime Neves é um zero à esquerda do ponto de vista político faço-o no quadro da seguinte afirmação: “Era realmente um homem extraordinariamente valoroso em termos de combate, decidido, mas politicamente um zero à esquerda”. Diferente, não é camarada? Tão diferente que arrisco-me a dizer que poucos, dos que conhecem Jaime Neves, no Exército Português e fora dele, não corroborarão tal afirmação, por certeira e justa.


Vejamos agora outras questões que levanta na sua carta:


1.    Em 28 de Setembro, como relato no meu livro, estou em Cascais a comandar a Bateria de Instrução, com a consciência que era um oficial para quem todo o quartel olhava naquela conjuntura difícil. Estava ainda com Otelo e contra Spínola e não hesitei um segundo. Devo lembrar-lhe que Jaime Neves estava com Otelo e que por essa altura, em jeito de “bravata”, afirmava que liquidando uns quantos fascistas resolvia a situação. Era ainda a lua de mel com Otelo... 
     
2.    Anoto também a opinião que reproduz de Manuel Monge sobre a descolonização, alinhando, aliás, no coro insensato e desleal de atribuirmos aos nossos camaradas sejam eles conotados com a direita ou com a esquerda  responsabilidades politicas primeiras e quase exclusivas, em tal processo, quando, para além de Spínola e do Conselho de Estado da altura - onde pontificavam ilustres apoiantes de Spinola e personalidades como Freitas do Amaral - foram Mário Soares e Almeida Santos os protagonistas do essencial da política de descolonização.  Mário Soares, “porta-voz” da Internacional  Socialista, Ministro dos Negócios Estrangeiros no I,II e III Governos Provisórios, o período decisivo da descolonização. O mesmo Mário Soares que sempre protegeu alguns militares (e só esses), como Pires Veloso, Jaime Neves e outros, incluindo  Manuel Monge, a quem por fim o Partido Socialista veio a fazer Governador Civil. Neste particular aspecto (o da descolonização) vou lembrar ao camarada o que ficará para a história: Rosa Coutinho sai de Angola quando é assinado, livremente, o acordo de Alvor entre os três movimentos angolanos, que estavam à altura em absoluto pé de igualdade. Mário Soares era à época Ministro dos Negócios Estrangeiros e continuará a sê-lo até Março seguinte. Interessante, não é? Pois  é camarada, para algumas pessoas, nem as evidências históricas, nem o tempo que aconselha à reflexão, conseguem atalhar o facciosismo. 
     
3.    Denuncio o saneamento político de Rosa Coutinho tal como denunciaria o seu, se tivesse elementos para isso (julgo até que pela sua eventual iniquidade terão bastante paralelismo). Faço uma mera apreciação política, discutível por certo, sobre a  actuação daquele militar em Angola, donde regressou, aliás, muito antes da data da independência, como se deve recordar; 
     
4.    Foram os militares moderados do Conselho da Revolução que autorizaram e impuseram o recrutamento das companhias de comandos, e a quem mais poderiam recorrer senão a ex-comandos e à própria Associação de Comandos?
     
5.    A sugestão de que eu me moveria por interesses de promoções cai pela base no momento em que me recusei a admitir sequer a hipótese de ser graduado para comandar a Região Militar Norte em substituição de Corvacho, tal como desejavam muitos camaradas nossos da RMN. Sobre questões desse género peço meças a todos os nossos camaradas; 
     
6.    Passei à reserva, apesar de alguns ilustres artilheiros terem insistido na minha continuação no activo, e dediquei-me a negócios privados, partindo do zero e trabalhando no duro para atingir o nível de vida que hoje felizmente usufruo. Talvez a imagem de um ex-conselheiro da Revolução, que nada pediu e nada obteve da dita, carregando caixotes de mercadoria, ora em carrinhas,  pelas estradas de Portugal, ora aos ombros abastecendo lojas da região de Lisboa, - “sem lhe caírem os parentes na lama”-, o pudesse levar a reflectir sobre a arrogante dimensão do seu sectarismo. 
     
7.    A tropa , os políticos e a Pátria nada me devem e pago-lhes integralmente na mesma moeda: eis o meu passaporte de homem livre e livre pensador, capaz de criticar e fazer auto-crítica. Eis porque caminho de cabeça levantada.

Por outro lado, algumas inexactidões da sua carta são tão flagrantes que não me dispenso de o corrigir:


      1.    Quem prendeu Pato Anselmo e o neutralizou foi um cidadão CIVIL, de seu nome Brito e Cunha, armado com uma pistola que lhe foi cedida na altura por Salgueiro Maia, após Jaime Neves, nesse dia com visível azar, ter “fracassado” também nessa missão. Este é um facto histórico, por muito que nós militares o não o evidenciemos ou o neguemos mesmo.
      2.    Jaime Neves NÃO chegou antes de Salgueiro Maia ao Terreiro do Paço, mas sim depois, e após ter anunciado a Otelo no Posto de Comando as razões dos seus “fracassos” naquela madrugada;
      3.    O coronel Costa Campos nunca esteve no Terreiro do Paço. Refere-se certamente ao coronel Correia de Campos, oficial superior enviado para o Terreiro do Paço, a pedido expresso de Salgueiro Maia;
      4.    NUNCA trabalhei com Inês de Medeiros, que aliás não conheço pessoalmente, sendo absolutamente critico em relação à caricatura de filme que produziu, pretensamente sobre o 25 de Abril. Francamente, camarada, não sei onde raio poderá ter ido buscar tal ideia!!!

Quanto às inusitadas considerações sobre o acto cívico de Marcelo Rebelo de Sousa dispenso-me de as comentar, mas não posso terminar sem lhe fazer uma pergunta. Depois de ter lido (e leu com toda a certeza) o livro do brigadeiro Pires Veloso,  e de ter constatado os insultos que aquele nosso camarada profere em relação ao homem e ao militar que é Ramalho Eanes, não lhe ocorreu na altura escrever uma carta aberta ao Bispo Emérito de Setúbal D. Manuel Martins, apresentador do livro, ou a Mário Soares autor do prefácio?

 Pois não, não lhe ocorreu.  É pena…      Do camarada   Rodrigo de Sousa e Castro