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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Entrevista de Alexandra Lucas Coelho ao jornal Ágora

 


* Bruna Ribeiro e Lara Viana 

“O que aconteceu em Gaza representa o maior colapso do jornalismo internacional”

Entre Gaza, Afeganistão, Líbano e Palestina, Alexandra Lucas Coelho fez da reportagem um modo de atravessar conflitos e compreender o ser humano nos seus extremos. Nesta entrevista, aborda o drama de Gaza e considera que o mundo falhou por não pressionar Israel a favor do jornalismo.

 Como se apresentaria hoje: mais jornalista, mais escritora?

Continuo a ser jornalista isso não desaparece, tal como um médico nunca deixa de o ser. Mantenho a carteira profissional e volto à reportagem quando é preciso, como no Líbano e na Palestina depois de 7 de Outubro. Mas há vários anos que o meu trabalho principal são os livros: tenho romances em andamento e é nisso que concentro o meu tempo. Por isso, hoje sou sobretudo escritora, embora nunca deixe de ser jornalista.

terça-feira, 8 de abril de 2025

Alexandra Lucas Coelho - A vossa vala comum: carta aos governantes do país e da Europa onde nasci

  Opinião

Ao longo deste ano e meio quis esperar que algo ainda acontecesse dentro dos líderes europeus. Algo revelado por este Apocalipse. Tarde, insuficiente, mas algo. Já não o espero agora.

* Alexandra Lucas Coelho
8 de Abril de 2025, 16:16

O primeiro livro da Europa — que é também a sua primeira guerra — começa com a palavra “Mēnin”: Cólera. Vinte e oito séculos depois, as piras dos mortos continuam a arder sem parar. Mas não só as dos mortos: as dos vivos, também. Vivos queimados vivos (um jornalista na sua tenda de deslocado ontem à noite). Talvez ainda vivos sepultados como mortos (quantos dos paramédicos que ouvimos rezar anteontem, quando já eram só vozes resgatadas das cinzas, gravando-se a si mesmas ao morrer?).

A cólera canta: vinte e oito séculos depois da Ilíada, as piras são dos mortos e dos vivos por toda a Palestina. Ardem no instante em que escrevo, 7 de Abril de 2025. E agora é a vós que me dirijo, governantes do país e da Europa onde nasci.

Esta noite mesmo, num palácio neoclássico, um presidente da Europa recebe uma presidente da Ásia, ambos com uma história ancestral de 500 anos em que representam colonizador e colonizada. O meu nome estava na lista de convidados por eu ter feito uma viagem para escrever um livro sobre essa Ásia, com as suas próprias piras de mortos, multicoloniais e pós-coloniais (um dos livros que Gaza adiou). Quando li o email do convite, imaginei que podia ser um ritual interessante de observar, a parte palaciana do terreiro em que os mortos falam vivamente aos vivos, se os ouvirmos. E ao mesmo tempo pensei que Gaza estava ali como está em toda a parte. Então, eu iria à cerimónia: levando ao pescoço uma meia-lua com as cores da Palestina e uma carta para o anfitrião. Uma pequena carta manuscrita, porque desde o 7 de Outubro publiquei dezenas de textos sobre este genocídio e a cumplicidade da Europa onde o presidente já foi visado, não seria necessário alongar-me. Sendo ele o chefe de Estado do país onde nasci, agora tratava-se só de 1) dizer que pela primeira vez me passara pela cabeça renunciar à cidadania portuguesa, e portanto europeia, a única que tenho 2) pedir um gesto imediato para a História, que está a ser escrita todos os dias.

A meia-lua que eu ia levar ao pescoço é uma fatia de melancia, símbolo alternativo da Palestina, feita de missangas. Por acaso, no mesmo lugar africano em que há 500 anos um piloto asiático embarcou na nau de Vasco da Gama para o guiar até à Ásia. O acaso é um deus em que acredito. Temi, porém, que o significado da melancia pudesse não ser claro para alguns dos presentes no palácio, nomeadamente os chefes de Estado. Por isso comecei a desdobrar a Palestina pelo suporte em movimento que seria eu própria. Vestiria uma roupa preta, um casaco verde e o fio da melancia seria branco. Levaria um keffiyeh como cachecol, que ficaria no bengaleiro, chamejando no meio dos abafos. E finalmente: ia bordar uma bandeira para pôr na lapela. Nunca bordei mas tenho bordados da Palestina talvez desde a primeira vez que fui lá, faz este Abril 23 anos. O bordado são os vestidos, as almofadas, as casas da Palestina. As mãos de pessoas que estarão onde agora?

 
DR 

Foi assim que num dia de dilúvio fui a uma linda retrosaria de Lisboa, comprei um retalho de linho, esse tecido que já estava na Ilíada, um bastidor de madeira, uma caneta própria, agulhas de diferentes tamanhos e quatro mechas de fio para bordar com as cores da Palestina. Essas mechas têm uma cinta de papel escrita em japonês, vieram mesmo do Japão, disse a senhora que me atendeu. De volta a casa, quando as dispus na mesa, pensei: Hiroxima. Porque penso em Hiroxima quando penso no Japão, e porque na estante Israel/Palestina tenho Hannah Arendt junto a Günther Anders, o filósofo também judeu que com ela foi casado, autor de Nós, Filhos de Eichmann mas também de Hiroxima Está em Toda a Parte. E só no instante em que escrevo esta frase, hoje, 7 de Abril, já noite, me apercebo de que a primeira vez que escrevi “Gaza está em toda a parte” (num texto de 5 de Outubro de 2024), não pensei em Günther Anders. Estava muito longe de casa, naquela parte da Ásia de que falei acima, no meio de mil e quinhentos milhões de pessoas. Talvez a frase tenha vindo por causa delas. Mas por trás delas talvez estivesse a memória dessa lombada.

Quando o palestiniano Mahmoud Darwish escreveu sobre os seus dias em Beirute debaixo das bombas israelitas, também pensou em Hiroxima. Hiroxima estava em Beirute e agora Gaza está em Hiroxima. Ao voltar da retrosaria e de Lisboa, eu olhava a minha mesa e aqueles fios para bordar ligavam Gaza e Hiroxima: vermelho, verde, branco, preto. O que fazemos com as mãos fica na memória do corpo. Torna-se parte do que é cada corpo, e só ele é, até ser interrompido para sempre. Desde que comecei este texto, quantos em Gaza? A todo o momento. A todo o momento que pegamos no telefone, se quisermos.

E o que aconteceu anteontem, pouco antes de enfiar o primeiro fio na agulha, foi que peguei no telefone e vi aquelas gravações. Vi aquelas ambulâncias, aqueles símbolos de emergência, de socorro humano, todas aquelas luzes ligadas, faróis na noite de Gaza, avançando sem medo, apesar do Mal. E depois ouvi o Mal, ali, como se estivesse na minha cozinha, nitidamente captado pelo telefone do homem que rezava, o homem que via a sua própria morte, o homem que se despedia da mãe, que pedia desculpa por ter escolhido aquele caminho: salvar vidas. Ouvi as rajadas dos que metralhavam a torto e a direito, cérebros lavados ao longo de anos para fuzilar em série, para verem qualquer palestiniano como muito menos do que os belos animais que àquela hora talvez se passeassem por Telavive, a noctívaga, a necro-sexy. Por vezes, pela trela de humanos veganos incapazes de comer até um ovo, militantes contra o sofrimento dos animais.

Ouvi os paramédicos que iam morrer e os que já tinham morrido embora o telefone ainda estivesse a gravar. Sabemos que o Mal abriu uma vala comum, enterrou 15, alguns talvez ainda vivos, depois destruiu as ambulâncias e também as enterrou. Até que o socorro do socorro desenterrou tudo, apareceram as gravações. O Mal reconheceu que mentira, como há um ano e meio mente. Há 58 anos mente. Há 77 anos mente. A guerra de há mais de cem anos contra a Palestina. A vala comum dos paramédicos foi só aquele momento em que o ponteiro bate no zénite porque vem de antes há muito. Há muitos mortos. E de repente eu estava ali na cozinha com o telefone na mão e tinha deixado de ser possível, sequer, estar naquele palácio da Europa, mesmo que em protesto. Sentar-me entre eles, eleitos que continuam como se nada fosse, que contribuem para que nada seja. Foi depois disso que pensei nesta carta, extensível a todos os que desde 7 de Outubro foram ou são governantes na Europa, com muito poucas excepções, sobre as quais também escrevi.

Ao longo deste ano e meio quis esperar que algo ainda acontecesse dentro dos líderes europeus. Algo revelado por este Apocalipse. Tarde, insuficiente, mas algo. Já não o espero agora. O carniceiro procurado pela justiça foi à Hungria, que lhe estendeu o tapete vermelho, pisou nas Nações Unidas, no Tribunal Penal Internacional. Continua a ser União Europeia lá. E, à cabeça da União Europeia, o novel chanceler já tem o seu tapete à espera do carniceiro. Que no dia em que escrevo estava de volta à Casa Branca, ao narcisopata que resume Gaza como “um incrível pedaço de imobiliário”.
Que Nações Unidas? Que Direitos Humanos?

Hoje, 7 de Abril, um ano e meio depois do 7 de Outubro, é a escravos de nazis que me dirijo. Não escravizados por outros, escravos por vontade própria. Vemos sobre-humanos na Palestina que continuamente nos dão provas de vida e do que a mata. Vemos o desfecho do sionismo, esse fruto monstruoso do monstruoso anti-semitismo europeu. E vemos os menos-que-humanos que sois vós, os untermensch: todos os eleitos que nada fizeram desde 7 de Outubro. Aqueles que perderam a Segunda Guerra Mundial em Gaza. Os que capitulam perante o triunfo dos porcos. Que atacam pró-palestinianos hoje como atacaram judeus ontem e continuam a atacá-los hoje. Que censuram, agridem, prendem, deportam. Os que se tornam nazis no meu tempo de vida. Enquanto os EUA, também usando judeus como arma, assistem à sua própria derrocada.

Tenho 57 anos. Nasci no ano em que Israel ocupou Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental. Tive a sorte de ainda ter visto a URSS, saber o Mal que era. Não ter dúvidas sobre o Mal que Putin é. Que a Arábia Saudita é. Que o Irão é. Não perdoarei quem enriquece com os tiranos a jeito e deixou a defesa da Palestina aos ayatollahs. O Irão ser o aliado da Palestina é a vergonha da Europa. A Europa é a vergonha da democracia, sua suposta mãe e sua coveira. O Mal está sempre por toda a parte, mas a diferença de Gaza, do ponto de vista de quem nasceu aqui, é que a Europa gerou este último resquício do colonialismo, o alimenta em contínuo, é a sua escrava e agora vemos tudo em directo. Nada, nunca, teve estas características. Tal como nunca a Europa desceu tão baixo, caiu tanto para o mundo. A vala comum dos 15 paramédicos é a vossa. A vala comum da Palestina é a vossa. Vós: os sem coluna e sem futuro.

Isto não é a mala diplomática. Não é um apelo, já. Talvez seja um presságio e ainda não uma maldição. Escrevo em plena campanha eleitoral para o que será o terceiro governo português desde o 7 de Outubro. Ainda vou votar. Ainda acredito na democracia. Ainda não passei à clandestinidade nem estou na guerrilha. Sou essa privilegiada, ainda. E se me passou pela cabeça renunciar a ser portuguesa, europeia, o que só será possível se adquirir outra nacionalidade, hoje, 7 de Abril fiquei mais longe disso, ao lembrar-me do pensamento ancestral do que se veio a chamar Brasil, a acumulação de outras cabeças. Ampliar e não subtrair. E porque haveremos nós, que vemos Gaza em toda a parte, deixar a Europa aos coveiros da Europa? Estou aqui com Homero, Arendt, Anders, Darwish, como estou com Dante guiado por Virgílio, Goya pintando os fuzilados, Pasolini contra o fascismo.

Vós, oposto de tudo isso, sois a negação do melhor que a Europa pode deixar às suas crianças. Não peço que olheis as de Gaza, muito menos aquela decapitada que ontem vi, porque ao vosso racismo, ou cobardia sem remédio, 18 mil crianças (ou sabemos lá quantas mais) não mudaram nada até hoje.
O presságio é só este: olhem nos olhos das vossas crianças.

Escritora e jornalista

https://www.publico.pt/2025/04/08/opiniao/opiniao/vossa-vala-comum-carta-governantes-pais-europa-onde-nasci-2129004  

domingo, 16 de março de 2025

Alexandra Lucas Coelho - O Grande Irmão já está aqui, da polícia alemã aos EUA. A usar os judeus como arma

* Alexandra Lucas Coelho, 

in Público, 15/03/2025)


Daniel Day no topo do Big Ben com a bandeira da Palestina

(Este texto é perturbador. A causa de Israel e a suposta luta contra o antissemitismo estão a ser usadas nas “democracias” ocidentais para cercear os direitos civis, mormente a liberdade de expressão e manifestação. É esta a denúncia da autora que, ao que parece, acaba também de ser silenciada pois diz que a sua coluna no Público termina por ora. Junta-se, assim, ao Viriato Soromenho Marques, já silenciado no Diário de Notícias. E viva a democracia…

Estátua de Sal, 16/01/2025)

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1.O dia 8 de Março de 2025 — sábado passado — dava um livro. Pouco antes das 7h30, hora de Londres, a polícia de Sua Majestade foi chamada porque um homem escalava o Big Ben descalço com uma bandeira da Palestina. E por mais de 16 horas manteve-se lá, a 25 metros, agarrado à torre, fazendo flutuar a bandeira, pés em chaga como um Cristo. De nome judeu, aliás, porque o Cosmos tem sempre os melhores argumentistas: Daniel Day. Valeu, Daniel.

Este 8 de Março já era dele. Mas durante o tempo em que ficou lá em cima, o céu sobre Berlim e sobre a Casa Branca deu ainda mais sentido àquela escalada, aquele alegre sacrifício. Porque pelas 17h30, hora alemã, a polícia com a palavra POLIZEI incandescente no blusão dava murros na cara dxs manifestantes do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Não de todas, claro, só dxs que tinham keffiyehs e bandeiras palestinianas, por não separarem a luta pela sua liberdade da liberdade da Palestina. Vi muitas imagens no Instagram, falei com pessoas que lá estavam. Uma delas, portuguesa, foi-me apresentada por um palestiniano. Eles conheceram-se na Europa como aprendizes de luthiers: fazem violas, violinos, violoncelos. Eu conhecera-o em Ramallah. Quando voltei lá depois do 7 de Outubro, passei o Ano Novo com a família dele, então antes da meia-noite ele fez uma chamada-vídeo para apresentar aquelas duas pessoas portuguesas, uma moradora em Berlim, a outra ali ao lado. Foi assim que vi Consti a primeira vez. E neste 8 de Março ali estava a mesma cara nos vídeos com a POLIZEI. Consti levou murros, pontapés, pisadelas da polícia, ficou a sangrar, nariz e boca, a companheira foi brutalmente algemada, revistada e detida, ficou a precisar de tratamento médico.

A violência estatal alemã anti-Palestina tem crescido desde o 7 de Outubro, já carregara sobre os manifestantes na Universidade de Humboldt, e tantos outros. Mas eu nunca tinha visto a POLIZEI da maior potência da UE como agora. Pessoas indefesas e já imobilizadas, algumas a sufocar, a tentarem proteger-se com as mãos, esmurradas como um saco de boxe, arrastadas pelo chão. Bom dia, boa noite, António Costa, um comentário? Nossos governantes parceiros dos alemães, nada?

2.Mas este 8 de Março ainda estava longe de acabar. Porque enquanto Daniel continuava empoleirado e descalço na madrugada gélida de Londres, e as feministas dormiam feridas em Berlim, na Costa Leste dos EUA já era noite mas ainda hora para a polícia de imigração, a ICE, ir prender Mahmoud Khalil à sua residência da Universidade de Columbia, NYC, diante da mulher grávida de oito meses. Sem mandado de captura, e levando-o de imediato para um estado a milhares de quilómetros, o Luisiana. Um rapto oficial.

Trump celebrou com post. Atribuiu a Khalil actividades “pró-terroristas, anti-semitas, anti-americanas” e fez saber que aquela prisão, antecedendo deportação, seria “a primeira de muitas”. A ordem fora dada pelo Secretário de Estado Marco Rubio, invocando uma cláusula remota, raramente usada, para ameaças à segurança dos EUA. Acusam Mahmoud de ser pró-Hamas sem provas. Ele acaba de completar o mestrado, é residente permanente com Greencard, já passou pelo escrutínio de uma organização inglesa com quem trabalhou. É preso agora apenas por ter sido um dos líderes dos protestos de Columbia contra a guerra em Gaza, pelos direitos palestinianos. Porque para o Grande Irmão de 2025 os direitos palestinianos são terrorismo.



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3.Mahmoud Khalil é fruto da limpeza étnica de 1948, quando Israel foi fundado e centenas de milhares de palestinianos foram forçados a fugir. Os avós de Khalil eram da Galileia, de uma aldeia perto de Tibérias, então fugiram para a Síria. Duas gerações depois Mahmoud nasceu num campo de refugiados do sul de Damasco. Portanto, um daqueles milhões de humanos que Israel continua a transformar em refugiados mal nascem. Alguns conseguem ir para fora, depois ficar residentes, como Mahmoud, agora casado, prestes a ser pai. Já enfrentara a repressão dos protestos em Columbia e com Trump tudo piorou (no terreno fértil para isso deixado por Biden e pela maioria dos Democratas). Trump cortou 400 milhões de dólares de apoio a Columbia. Dias antes de ser preso, Mahmoud avisou Columbia que corria riscos. Em vão. A polícia pôde ir lá raptá-lo. E Columbia anunciou entretanto expulsões de outros estudantes pró-Palestina, em vez de os proteger. É o futuro da universidade que está em jogo. A liberdade de expressão da Primeira Emenda. A democracia, em alerta vermelho. Mahmoud Khalil é já o primeiro prisioneiro político da era Trump/Musk. Em nome de uma suposta protecção aos judeus.

Milhares de judeus lutam contra isso, e depois da prisão de Mahmoud tomaram o átrio da Trump Tower, quase 100 foram presos. Camisas ou cartazes diziam: “Não Em Nosso Nome”, “Nunca Mais É Para Toda a Gente”, “Parem de Armar Israel”, “A Oposição ao Fascismo É Uma Tradição Judaica”, “Liberdade para Mahmoud, Liberdade Para a Palestina”. Recusam, assim, serem os judeus úteis de Trump, as vassouras da dissidência. Porque a Trump — avisam biógrafos — não interessam os judeus. A Trump, narciso colossal, interessa Trump, a sua glória, a sua estátua de ouro no mundo. Os reféns interessam-lhe (felizmente para vários libertados) como o anti-semitismo lhe interessa: enquanto for útil.

E nada alimenta tanto o anti-semitismo como o Estado de Israel, hoje a maior ameaça para os judeus do mundo. Quase como se um anti-semita estivesse a puxar os cordéis por trás de Israel. Se alguém montasse uma conspiração não faria melhor. Israel é detestado nas ruas do mundo: eis o desfecho do sionismo. Os judeus dos nazis e de há séculos — os perseguidos, os exterminados — são hoje os palestinianos. E toda a gente que esteja com eles, de Berlim aos EUA, está sob mira, ou já atacado. Porque judeus, palestinianos e quem quer que os defenda são ratos de laboratório para o Grande Irmão.

4.Entrámos na segunda semana de Março com dezenas de milhares na Cisjordânia a deambularem por montanhas de lama e entulho, sem terem para onde ir em pleno Inverno, porque Israel acaba de lhes destruir as casas. Enquanto em Gaza continua a impedir toda a entrada de comida e ajuda. “Isto não é um cessar-fogo. É um abrandar da violência militar mas a morte pela fome”, disse Michael Fakhri, relator da ONU para o Direito à Alimentação. Ao mesmo tempo que o Conselho de Direitos Humanos da ONU apresentava uma investigação: Israel cometeu “actos genocidas” em Gaza, atacando a saúde materna, neo-natal, reprodutiva; e pratica violência sexual e de género, incluindo violação. Ontem vi o testemunho de um palestiniano a quem os soldados urinaram em cima e violaram com um pau. Mais um.

Antes, tinha visto o directo que o “Democracy Now” (um tesouro do jornalismo audiovisual) conseguiu fazer com dois médicos voluntários no Nasser Hospital de Khan Yunis, Gaza. Um deles, Mark Perlmutter, é judeu americano. Já o tinha ouvido dizer que a sua experiência de 40 missões em 30 anos, toda somada, “não se compara com a carnificina” que viu na primeira semana em Gaza, as crianças desfeitas, ou atingidas com precisão no peito pelos “melhores snipers do mundo”. E agora contou o que aconteceu com um seu colega palestiniano cirurgião ortopédico de crianças, levado pelas tropas de Israel em Fevereiro de 2024, libertado há pouco. Partiram-lhe os dedos, danificaram os nervos das mãos com que opera, mostraram-lhe fotos da esposa dizendo como a iam violar em grupo se ele não admitisse ser do Hamas. Onde estão os médicos de Israel? Que juramento fizeram?

Entretanto, a palestiniana Educational Bookshop, em Jerusalém Oriental, foi de novo invadida pela polícia, que desta vez deteve Imad Muna, 61 anos, a quem comecei por comprar cadernos e jornais há mais de uma geração. Na pilha dos livros confiscados estavam Joe Sacco, Rashid Khalidi, Noam Chomsky, Ilan Pappé.

Lembro-me da indignação de tantos liberais por se mexer em livros em nome do politicamente correcto: subscrevo, sempre estarei contra. E agora, que não é um parágrafo, é mesmo a caça às bruxas, é mesmo o Grande Irmão: vão defender a liberdade?

A propósito de Daniel Day, com os pés em chaga no Big Ben, também pensei nos vendilhões do Templo. E hoje mesmo li que Israel e os EUA tentaram vender os palestinianos de Gaza ao Sudão e à Somália.

Gaza é o marco do nosso tempo. Nunca mais desde o rio até ao mar.

*Esta coluna para aqui por tempo indeterminado.

https://estatuadesal.com/2025/03/16/o-grande-irmao-ja-esta-aqui-da-policia-alema-aos-eua-a-usar-os-judeus-como-arma/
https://www.publico.pt/2025/03/15/mundo/cronica/irmao-ja-aqui-policia-alema-eua-usar-judeus-arma-2126063

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Alexandra Lucas Coelho - Gaza voltou a casa, estropiada, épica. A Europa perdeu a II Guerra em Gaza





* Alexandra Lucas Coelho

Dezenas de prisioneiros palestinianos, incluindo gente sem culpa formada, ou seja reféns, foram libertados na Cisjordânia pelas trocas do cessar-fogo. Em geral maltratados, com marcas de tortura, alguns lembrando os sobreviventes do Holocausto. E recebendo um milésimo da comoção mundial que rodeia os reféns do Hamas.» Para um “ocidente” em plena miséria moral, nem gente serão. Tal como para Trump são empecilhos a remover de vez, para construir uma “nova riviera” sobre os seus cadáveres. Mas o heroísmo palestiniano não será vencido, nem a solidariedade dos povos do mundo o abandonará.


1. Precisamos de ir à Bíblia, ao que só imaginamos ou nos assombra, para dar conta do que aconteceu esta segunda-feira, 27 de Janeiro de 2025, em directo nos nossos ecrãs, na nossa mão. Um povo —os palestinianos — a caminhar ao longo do Mediterrâneo, naquela faixa litorânea que todos os antigos povos do Mediterrâneo percorreram, e está na Bíblia com o nome que tem até hoje: Gaza. Não era mais uma réplica do Êxodo. Nem do êxodo mítico de Israel, nem do êxodo que vimos com os nossos olhos em Outubro de 2023, quando esse mesmo povo— os palestinianos — foram forçados por Israel a deixar o Norte de Gaza com crianças, bebés, grávidas, velhos, doentes, estropiados, incluindo o meu amigo W, como contei no primeiro texto a seguir ao 7 de Outubro. Um êxodo que retomou a Nakba (Catástrofe) de 1948, desdobrando-se em deslocações sucessivas nos últimos 15 meses e meio.

O que se deu agora foi o contra-êxodo. Meio milhão de palestinianos dentro de carros, carrinhas, carroças mas sobretudo apeados. Eram eles mesmos, com os seus corpos, a Faixa de Gaza — ou a nossa mais épica Faixa Humana —, caminhando de volta a casa, quilómetros. E levavam a chave ao pescoço, levavam lenços, bandeiras, tambores, pandeiretas. Cantavam de alegria, beijavam o chão. Agradeciam ter vivido para voltar. Muitos não tinham água nem comida, nem pernas para muito. Nem pernas, alguns. Infinitamente mais estropiados do que há 15 meses e meio. Todos viveram um holocausto, ficaram órfãos de alguém, e sabiam que voltavam para a ruína, da própria casa ou do que havia em volta. Mas uma mulher dizia: a nossa alegria é mais importante do que a casa. E uma menina que perdera o pai: hoje é o dia mais importante da história do mundo. E aquele futebolista que nasceu para ser pai: é o mais belo regresso a casa. Vi, no último ano, pelo Instagram, as filhas dele crescerem dentro da tenda. A mais nova a gatinhar, depois a andar, de repente dois dentes. Sempre a rir, incrivelmente a rir. Até ao dia em que o pai desencantou uns dinossauros pequeninos, e ela chorou aterrorizada porque nunca vira um boneco. Então ali estava ela, radiante às cavalitas do pai, a subir a Faixa de Gaza a pé, entre trincheiras e arame farpado. E Bisan Owda, que aos vinte e tal anos atravessou um genocídio a falar connosco, a levantar os humanos do chão porque víamos Gaza com ela, e porque a víamos a ela, Bisan disse: eu estava a sobreviver para este momento. Ela cruzara o Corredor de Netzarim com que Israel dividira o Sul e o Norte, matando quem se aproximasse. Cruzara de sul para norte com meio milhão de pessoas. Que talvez amanhã não possam dizer: ainda estou viva. Mas hoje podem, dizem, abrem a porta da ruína, montam uma tenda onde era a casa, respondem a Trump. Não serão “limpos”.

2. Egipto e Jordânia não querem dois milhões de palestinianos. Nem um milhão, nem nenhum. Trump garante que os dobra, aos egípcios, aos jordanos (“Vão fazê-lo.”). Não sabemos até onde isto pode ir, mas nos últimos dias Steve Witkoff — o magnata do imobiliário que Trump transformou em negociador tipo máfia (assina o cessar-fogo, para teu bem) — já foi à Arábia Saudita, a Israel e a normalização está aí a apitar. Trump vai receber Netanyahu, e mandou-lhe as bombas de destruição máxima que Biden embargara para não dar estrilho, enquanto continuava a mandar outras. Trump é a própria patente do estrilho para os próximos quatro anos. O seu novo embaixador em Israel diz que não há palestinianos, nem ocupação. A sua nova embaixadora na ONU diz que Israel tem direito bíblico à Cisjordânia.

E, a propósito de Cisjordânia, enquanto15 reféns já foram libertados em Gaza (incluindo cinco soldadas israelitas), felizmente muito mais saudáveis do que o mundo imaginava, Israel aproveitou para arrasar o campo de refugiados de Jenin. Não sem uma ajuda miserável da Autoridade Palestiniana. Milhares de desalojados. Mas além de Jenin, as forças de Israel têm atacado outras partes da Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Enquanto os colonos tratam de muitas outras, incendiando aldeias, casas, carros. Tudo isto desde o cessar-fogo. Que também vigora no Líbano, que também é bombardeado. Ao mesmo tempo, dezenas de prisioneiros palestinianos, incluindo gente sem culpa formada, ou seja reféns, foram libertados na Cisjordânia pelas trocas do cessar-fogo. Em geral maltratados, com marcas de tortura, alguns lembrando os sobreviventes do Holocausto. E recebendo um milésimo da comoção mundial que rodeia os reféns do Hamas. Aquela organização que Israel ia extinguir mas tem exibido milhares de homens armados a cada libertação de reféns. Quem conhece a Palestina sabe que o Hamas não vai ser extinto à bomba. Só é possível esvaziá-lo: se a Palestina for livre. Familiares de reféns israelitas imploram, entretanto, a Trump e ao Governo de Israel que a guerra não recomece até ao último refém ser libertado. Como se em Gaza os únicos humanos fossem os reféns. Famílias israelitas amorosas dos seus (e dos restantes israelitas), bravas lutadoras pelos seus (e pelos restantes israelitas). Israel é um país dividido, convulso. Mas destes 15 meses e meio emergiu uma grande maioria, mais clara do que nunca: a dos que não vêem, ou não querem ver, os palestinianos. Desumanizaram-nos. Viram que Israel pode fazer o que quer, matar com inteligência artificial, negar as evidências de genocídio, torturar nas cadeias, colonizar mais, anexar e safar-se sem sanções. E nos próximos quatro anos Israel tem Trump. Está em velocidade de cruzeiro na alienação.

Mas qualquer judeu consciente, em Israel ou no mundo, sabe que os últimos 15 meses e meio marcam a história dos judeus para sempre. O Estado de Israel fortaleceu-se contra a vergonha de os judeus não terem resistido quando eram perseguidos (ou, pior, terem colaborado). Mas há a vergonha em curso, de se continuar a fortalecer à custa de ser o mais forte, enquanto destrói outro povo.

3. Essa é uma das razões por que a Europa perdeu, simbolicamente, a Segunda Guerra em Gaza. Perdeu-a por ter deixado Israel fazer tudo o que fez desde 7 de Outubro, e por ter colaborado no genocídio mesmo. A Europa que foi gerando o Estado de Israel, pelo anti-semitismo de séculos, pelo sionismo desde o fim do século XIX e enfim pela sua culpa no Holocausto, é a mesma Europa que perdeu a guerra nas ruínas de Gaza. Como se a Segunda Guerra nunca tivesse acabado até agora.

Pensei nisto há dias, ao ouvir poemas de Primo Levi no lançamento da tradução portuguesa (A Uma Hora Incerta, Edições do Saguão). Primo Levi é aquele sobrevivente de Auschwitz que a maioria hoje no poder em Israel vê (ou ignora) como se ele não tivesse continuado a pensar. Mas ele continuou por mais de 20 anos, o bastante para ter dito coisas que hoje seriam chaves para Israel ver o seu próprio buraco, se fosse capaz.

Os 80 anos da libertação de Auschwitz celebraram-se justamente na segunda-feira em que meio milhão de palestinianos voltavam a casa —mas não para a liberdade. Os polacos estenderam a passadeira a Netanyahu, mas ele não esteve para isso (além de que tinha um julgamento). E o que seria preciso dizer nesse dia em relação a Gaza não foi dito pela Europa, mais uma vez.

Salvam-se as excepções do costume. Como a Espanha, que anunciou 50 milhões extras para a UNRWA, essa agência criada depois da Segunda Guerra para assistir os palestinianos que o mundo abandonara. Ontem Alemanha, França, Reino Unido fizeram uma declaração de apoio à UNRWA, banida por Israel desde quinta-feira, e apelando a Israel para que isso nãose concretize. Com que pressões? Que sanções?

Pior só a última declaração de Rangel, a dizer que Portugal se mantém na sua posição “tradicional” dos dois Estados, mas não é oportuno reconhecer a Palestina. Para o poço sem fim da vergonha. O contrário da coragem palestiniana.

Fonte: “Público”, 1.02.2025 
https://www.odiario.info/gaza-voltou-a-casa-estropiada-epica/

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Alexandra Lucas Coelho - Sinwar não é o vosso monstro

* Alexandra Lucas Coelho  

"1. Eu estava a dormir num prédio de Gaza quando o soldado israelita Gilad Shalit foi feito refém, na madrugada de 25 de Junho de 2006. Combatentes palestinianos, do Hamas e não só, penetraram em Israel por um túnel de meio quilómetro junto a Rafah, atacaram um posto militar, mataram dois soldados, feriram quatro e voltaram com Shalit. Quando acordámos, toda a gente sabia o que aí vinha: Gaza ia ser bombardeada (crónica desses dias no arquivo do PÚBLICO). O que ninguém podia prever, claro, é que o refém Shalit sairia o mais caro de sempre ao Estado judaico. E seria o começo de uma história que de certa forma só acabou esta semana, quando soldados comuns, uma geração depois de Shalit, mataram por acaso o actual Inimigo nº1 de Israel: Yahya Sinwar. O cérebro do 7 de Outubro, aquele a que Netanyahu chama a encarnação do mal. E que o próprio Netanyahu tirou da prisão perpétua. Porque Sinwar foi um dos 1000 prisioneiros palestinianos trocados pelo soldado Shalit em 2011, acordo que hoje parece mirabolante, se pensarmos em tudo o que Netanyahu não fez para libertar os reféns do 7 de Outubro.

2. Nesse Junho de 2006, entre o rapto do soldado e o castigo a caminho, fui às barricadas que a população de Gaza erguia para atrasar a investida terrestre. Lá estava um beduíno que me descreveu com detalhe como na madrugada do rapto dormia na sua tenda quando foi acordado por carros com militantes armados na direcção de Israel. Depois ouvira explosões e tiros, e depois vira os militantes a voltarem, arrastando um ferido. Apontaram uma arma ao beduíno para o enxotar. O ferido seria Shalit.

Esse raide contra o posto israelita era uma resposta: semanas antes, Israel executara o líder da Jihad Islâmica, e explosões israelitas numa praia do norte de Gaza tinham feito oito vítimas civis, sete das quais da mesma família. Os executores do raide eram militantes da ala militar do Hamas, dos Comités de Resistência Popular e de um desconhecido Exército do Islão. Em comunicado conjunto pediam a libertação das mulheres e jovens até 18 anos presos nas cadeias de Israel.

Mas anos depois, quando o acordo foi feito, e Shalit trocado pelos 1000, entre os libertados havia barbas rijas, até grisalhas. Como a de Sinwar, que passara 22 anos na cadeia. Pensem em 22 anos da vossa vida. Na vida de Sinwar, 22 anos a aprender hebraico, estudar história, conhecer por dentro o inimigo. Inimigo desde antes de nascer e para além da morte.

Porque Sinwar se tornou o Inimigo nº1 de Israel a 7 de Outubro, mas Israel já era o Inimigo nº1 de Sinwar havia 75 anos. Ele herda a resistência ao nascer, e vai deixá-la em herança muito mais feroz. Implacável, a começar pelos traidores internos. As condenações que o levaram à cadeia incluem execuções de palestinianos colaboradores ou suspeitos. E os israelitas que o interrogaram na prisão lembram um homem sem qualquer medo, que ameaçava os seus carrascos ali mesmo, sendo prisioneiro.

O que também ajuda a entender porque não é possível resumir — ou destruir — o Hamas como um grupo terrorista. E como o Hamas cresceu perante 1) uma Autoridade Palestiniana minada por corruptos 2) um Estado cada vez mais ocupante, a quem convinha um inimigo como o Hamas 3) um Ocidente (ou Norte Global) que abandonou os palestinianos desde 1948, depois de a Europa, a mais antiga das anti-semitas, ter ajudado a criar Israel.

Esse mesmo Ocidente que agora se escuda com o Hamas para não ver, e tentar que não se veja, a sua própria ignomínia. Como se a crueldade do que aconteceu a 7 de Outubro fosse o início e não o fim de um status quo que nunca devia ter existido. O ferro do Hamas queimou Israel até ao osso. E os líderes ocidentais tapam o seu próprio crime contínuo com o Hamas. Tal como toda a gente que não quer ver Gaza (ou o Líbano). Mas o Hamas não é o vosso escudo humano. Sinwar não é o vosso monstro. Não vai fazer esse papel. Não vai tapar o abismo aqui. O nosso.

A verdade são várias, paralelas, não se excluem. O Hamas fortaleceu-se por ser incorruptível, dar a vida à causa e sendo implacável. É um movimento religioso, de resistência nacional, que encara todos os meios como legítimos para a sua visão da libertação da Palestina, incluindo terrorismo contra civis. E, sim, desfez-se de opositores internos, de "imorais", homossexuais. Torturou não-alinhados, denunciados ou suspeitos. Incluindo, como contei várias vezes, o palestiniano de Gaza que foi meu tradutor e guia em dezenas de reportagens para este jornal, ao longo dos anos. Cuja casa de família eu partilhava quando o soldado Shalit foi raptado naquela madrugada que de certa forma foi o ovo do 7 de Outubro.

3. Uma das primeiras memórias que tenho de entrevistar alguém do Hamas em Gaza, durante a Segunda Intifada, é a de um porta-voz que chegou com um daqueles pequenos telefones tipo Nokia que todos usávamos na altura. Antes mesmo de se sentar tirou a bateria para não ser localizado. Estávamos numa esplanada, vários membros do Hamas eram relativamente acessíveis, mas não me lembro de não haver precauções deste género. Quando eu aterrei no assunto já eles tinham toda uma linhagem de assassinados. Depois, ao longo dos anos, conheci muitos membros do Hamas, homens e mulheres, e alguns dos líderes, incluindo Mahmoud Zahar, que me lembro de entrevistar em casa, ou Ismail Hanyieh. Sobretudo durante a campanha para as eleições de Janeiro de 2006, as únicas a que o Hamas concorreu, e que ganhou de forma limpa.

Sinwar não existia nesse quotidiano porque estava preso. Só foi libertado em 2011, quando eu era correspondente no Brasil, e só se tornou líder anos mais tarde. Nunca o vi, que me lembre.

Ficará para a história como o homem que infligiu a Israel o maior golpe de sempre, e não vai ser fácil substituí-lo. Não seria eu a lamentar a extinção do Hamas (ou de qualquer partido ou regime teocrático). Mas não vai acontecer. Pelo menos não tão cedo.

4. Depois de confirmar a morte de Sinwar, Israel divulgou o vídeo de um drone que supostamente filma os últimos minutos do líder do Hamas. Um homem de cara coberta está sentado no meio de um andar bombardeado, mão direita talvez amputada. Ao reparar no drone, pega num pau com a mão que sobra e atira-o contra a câmara. Não sei se é Sinwar. Mas há algo naquela imagem que é Sinwar e é o Hamas, tanto quanto o Hamas é uma ideia sem fim de resistência, enquanto estiver lá o que mantém um povo inteiro refém. Não certamente a minha ideia. Não a ideia de tantos e tantos palestinianos. Mas uma ideia verdadeira para muitos. E que muitos outros adoptaram porque mais ninguém estava lá, para lutar com eles, por eles. Infelizmente. Tal como infelizmente a defesa internacional da Palestina é reclamada por um regime tão odioso como o Irão. Não por responsabilidade dos palestinianos, mas pela derrocada moral das democracias selectivas: as nossas.  

Houve a Intifada das pedras e a Intifada das bombas suicidas, e passaram décadas. Os palestinianos perderam o passado há 76 anos, perdem o presente há 76 anos, e, mais rápido do que tínhamos visto em qualquer guerra, já perderam uma parte do futuro próximo desde 7 de Outubro. Todas aquelas crianças que continuamos a ver nos nossos telefones a serem desfeitas. E ainda assim há quem se incomode não com a continuação do holocausto, mas com o facto de se continuar a falar dele. Na verdade é simples, ou devia ser: o assunto não muda porque o assunto não mudou. E não mudará, enquanto Israel ganhar a vida à custa da morte da Palestina (ou do Líbano). E assim perder definitivamente a guerra. O futuro."


in "Público" de 19/10/2024

sábado, 27 de julho de 2024

Alexandra Lucas Coelho - O Capitólio aplaudiu de pé a nossa morte. No meio do caminho havia uma mulher

 


Rashida Tlaib


CRÓNICA

Tornámo-nos hospedeiros da Palestina. Hospedeiros do que a Europa fez com que deixasse de ter lugar na Terra.

Alexandra Lucas Coelho

27 de Julho de 2024

1. Eu vi, como tanta gente estaria a ver, uma mulher sozinha com uma cadeira vazia de cada lado, e em volta os eleitos da democracia mais poderosa da Terra a ovacionarem de pé, minuto a minuto e durante quase uma hora, o homem já condenado como criminoso de guerra que continua a comandar o maior extermínio do nosso tempo de vida. Pareciam bonecos com mola ou controle remoto, uma plateia de bonecos de blazer a saltar num aplauso frenético ao fim de cada frase. E eram o Capitólio, a Casa da Democracia americana, recompensando o primeiro-ministro de Israel com uma honra que nem Churchill teve: o seu quarto discurso ali.

Aparentemente Netanyahu também estava de blazer, mas foi de avental e cutelo que o vi quando exibiu alguns dos israelitas que trouxera: o soldado etíope, o soldado muçulmano, o que perdeu um braço, o que perdeu uma perna, e ainda o pai que perdeu um filho. E que coração não estaria com a dor deles? Todos ali na plateia, transformados em munição pelo mais bem sucedido talhante de partes humanas. Não só braços e pernas, como bem mostraram os eleitos no Capitólio, amputados de alguma parte interna para a qual não há próteses.

Lá em cima, nas galerias, familiares de reféns israelitas com t-shirts a pedir um acordo AGORA foram retirados pela polícia, sem que isso se notasse na plateia. Mais de cem representantes do Partido Democrata faltaram à sessão em protesto. Kamala Harris, que deveria presidir, esteve ausente, escudando-se num compromisso prévio. E do lado de fora, milhares protestavam, com centenas a serem detidos, incluindo judeus com t-shirts ou kipas contra o genocídio, pelo cessar-fogo, o embargo de armas. Alguns activistas conseguiram até infiltrar-se no hotel da comitiva israelita, deixar lá vermes como os que infestam Gaza.

Todos os protestos fazem diferença para os palestinianos, ajudam-nos a não enlouquecer. Mas não apagam o que aconteceu no Capitólio: a ovação para a morte em Gaza, que é a nossa também. Porque quem batia palmas não eram terroristas banidos. Eram os eleitos.

Vi-os em directo, os bonecos. E no meio deles, aquela mulher: Rashida Tlaib, a primeira palestiniana-americana eleita no Congresso. Por acaso era o dia do aniversário dela. Ao longo dos 292 dias anteriores falara muitas vezes ali pelos palestinianos. E na quarta-feira, 24 de Julho, em vez de não ir, fez algo mais fulminante. Sentou-se com o seu kuffyieh e o seu pin da Palestina, e sem se levantar, nem abrir a boca, levantava uma pequena placa que dizia CRIMINOSO DE GUERRA e do outro lado CULPADO DE GENOCÍDIO.

Essa é a imagem que não abriu todas as notícias, nem fez todas as capas. Rashida no meio dos bonecos da democracia, com uma cadeira vazia de cada lado e a palavra erguida, voltada para Netanyahu.

Era a mais sozinha ali. E fora dali, quanta gente a acompanhava.


2. A sessão do Capitólio foi uma cópula obscena de uma parte substancial de Israel com uma parte substancial dos EUA. Sim, tantos em Israel estão contra Netanyahu, pior líder desde algum péssimo na Bíblia, etc. E claro, a América é muito mais do que aquela plateia de bonecos. Mas a tragédia também é essa: estamos a falar de democracias, ali tínhamos o que foi votado pelo povo, e com um poder tão grande que despreza ou combate as Nações Unidas, a sua ajuda e a sua lei, incluindo: 1) O Tribunal Internacional de Justiça que há uma semana declarou a ocupação israelita ilegal, ordenando a retirada imediata; 2) O Tribunal Penal Internacional que há meses condenou Netanyahu por crimes de guerra.

Este é o poder israelita-americano que tentou dar cabo da UNRWA, não provou nada, e hoje vê todas as nações voltarem ao apoio. O poder que deu cabo da vida de centenas de milhares de crianças, e nega a UNICEF, a Human Rights Watch, os Médicos Sem Fronteiras. Que vetou incontáveis propostas de cessar-fogo, lançou incontáveis bombas. Que acredita (ou se comporta como acreditasse) que Deus nasce em Israel e se põe nos Estados Unidos da América. Supremacistas para quem a lei internacional vale tão pouco como a vida do resto do mundo.

É isso que os aplausos no Capitólio dizem a Gaza e ao resto do mundo. E quando a democracia diz isso, como acreditar nela? Como convencer quem (à semelhança do que também fizeram os sionistas pré-Israel) usa o terror em último recurso?

E tudo pode ser pior ainda, porque há pior em Israel e na América. Em Israel há Ben-Gvir, Smotrich, colonos assassinos e incendiários em roda livre e milhares de ultra-ortodoxos já a receber ordens de alistamento que nunca cumprirão. Israel é um paiol que não se resolve com a remoção de Netanyahu. Ele é o talhante que vemos, e ainda assim só o continuador do que vem a ser talhado, cada vez mais mortal.

E a América, por onde começar, depois de 15 dias alucinantes?


3. Vocês sabem, todas vimos: a Maga Trump tirou os devidos louros da própria orelha, colhida no tiro de um rapaz morto de imediato pela segurança que estrondosamente não segurou o resto. Estrondo só superado pelo formidável desempenho do alvejado. Parece nascido para o momento e metade da América cai de joelhos.

Quanto à outra metade, pouco depois da orelha colhida tivemos Biden a ser ungido por finalmente desistir do que nunca devia ter começado. Como se Gaza não existisse. Fui ler o texto do Conselho Editorial do New York Times, redondo, patrioticamente banal (tão aquém, para ficar só pelas vizinhas, da não menos patriótica mas nunca banal New Yorker, ou, sem essa costela patriótica, da magnífica New York Review of Books). Não contribui para restaurar os créditos perdidos do NYT desde o 7 de Outubro. Mas terá amparado quem não quer pensar em Gaza. Nessa terrível pergunta desde então: quem somos nós? Ufa! Pois, se o NYT não diz uma palavra sobre Gaza, nem uminha, menos mal. É o mundo a andar para a frente! Sabemos como todos os sangues são iguais mas há uns mais iguais que outros, e aquele sangue todo em Gaza ou não é de verdade (lembram-se de quando Biden duvidou que o número oficial de mortos fosse tão alto?), ou de qualquer forma não é igual ao de Biden. De Ursula. Dos alemães. Dos israelitas. E como diria Golda Meir, os palestinianos na verdade não existem.

Vi um bocado de coisas como repórter desde uma súbita manhã em Agosto de 1991 em Moscovo, quando o pesadelo da URSS começou a desfazer-se. O que passados todos estes anos só me faz pensar com mais horror em Putin. Pelos ucranianos, e pelos russos. Cobri guerras de várias espécies, incluindo o pós-11 de Setembro, e muitos anos de Israel/Palestina. Perdoem o elenco. Mas só gasto as linhas anteriores para dizer que, mesmo tendo vivido isso, vejo o 7 de Outubro como a grande mudança do meu tempo de vida. E aqui não digo nosso porque quero, espero, antecipo que quem tem 20 anos agora viva uma mudança no sentido oposto.

O 7 de Outubro não é apenas uma mudança política. É existencial. É ver os humanos e a vida na Terra de outra forma. Por isso este não é um assunto como os outros, é o assunto com que os outros serão pensados, também. O mundo nunca acaba, pelo menos enquanto estamos vivos. Mas Gaza estará sempre lá, em cada texto, em cada viagem, em cada conversa, mesmo que não venha à tona. Tornámo-nos hospedeiros da Palestina, mais ou menos conscientes. Hospedeiros do que a Europa fez com que deixasse de ter lugar na Terra.

Mas ao contrário do Holocausto, os jovens que estão na rua agora — porque viram tudo desde 7 de Outubro, e sentem de forma aguda e cristalina o insuportável — não vão herdar a nova culpa da Europa. Ela fica com quem continua calado, e sobretudo com quem bate palmas à morte porque está sentado no poder. O necropoder que conhecemos de há muitos genocídios.

A Europa perseguiu, matou ou deixou matar os judeus, e ajudou a despejá-los numa terra que não era dela porque não os queria. E desde 7 de Outubro tem deixado matar os palestinianos que estavam nessa terra. Como se este assunto não fosse um fruto dela. É um fruto dela.

Estes 15 dias mostraram como o mundo precisa mais do que nunca que a Europa faça frente ao que vimos no Capitólio.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Alexandra Lucas Coelho - Nós, os danados da terra, quatro meses depois

OPINIÃO

Gaza é o nosso espelho. As vítimas da fome estão de pé, o mundo não. Israel está a ser roído por dentro. Cravinho acertou o passo com Guterres.

Alexandra Lucas Coelho

7 de Fevereiro de 2024 

1. Há quatro meses que troco mensagens com Gaza. A última vez que partilhei algumas aqui foi no Natal. Como quase toda a população, o meu amigo W. foi deslocado para sul. Passou semanas num hospital a meio da Faixa, em Deir Al Balah, com a família da irmã, bombardeada. W. tem sequelas de ter sido torturado pelo Hamas, desloca-se com dificuldade. Vou partilhar o mais importante desde o Natal, deixando quase sempre de fora as expressões de afecto e cortesia que ele não abandona, nem no horror.

30 de Dezembro:

“Tenho muitas dores, não há analgésicos. Estou a tentar ir para o Egipto mas há milhares de casos médicos mais sérios. Preciso de transplante ósseo e fixação da clavícula. E de tratar o joelho.”

3 de Janeiro:

“Um bombardeamento a 30 metros do hospital. Gente em pânico a correr dos estilhaços. Nusseirat, Bureij e Maghazi ficaram debaixo de fogo e a maior parte das pessoas fugiu na nossa direcção. Milhares estão a dormir nas ruas. Hoje comi um pedaço de pão e um tomate. Consegui também 250ml de água. Estou a guardar 60ml para a noite. Sou sortudo. Muita gente não está a comer. Isso é claro quando centenas de olhos se fixam no que tenho nas mãos. Muitos de nós mendigam comida. A fome tornou as pessoas estranhas. Vi gente roubar, muitas lutas. Nenhuma privacidade. Zero higiene. O esgoto está por toda a parte. Milhares de membros amputados. Queimaduras. Cadeiras de roda e bengalas. O hospital está tão cheio, corredores, pátios. Centenas de feridos a dormir ao relento. Gaza já não é habitável. Gaza, a bela casa, tornou-se uma grande pilha de entulho. As imagens lembram-me Nagasáqui e Hiroxima. Mais de cem mil deficientes e cerca de 40 mil vítimas. Recebi uma foto da minha casa e do meu bairro. É como um terramoto. Estamos em choque. Desculpa, não devia preocupar-te. Acredita, estamos fortes. Mais do que alguma vez imaginámos.”

6 de Janeiro:

“A minha casa [foto de uma pilha de entulho). Não sobrou nada. As pessoas estão a ir para Rafah. Ainda não consegui um transporte.”

10 de Janeiro:

“Deir Al Balah e o hospital ficaram tão perigosos. Havia tiroteio e bombardeamento. Vi várias pessoas serem mortas. Vim para Rafah há 4 dias. Estamos a metros do Egipto, perto do mar. Tão atulhado, pobre, extremamente frio. Não há palavras para o quanto a vida é miserável aqui. É a sexta vez que sou deslocado nos últimos 90 e tal dias. A água está contaminada, e há pouca. Conseguimos enlatados e temos farinha para fazer pão. Duche é outro problema. Só urino à noite quando tenho a certeza de que a multidão não pode ver. Tão inumano. Continuo a rezar para sair.”

As filhas de W. estudam fora de Gaza. Uma está no Egipto com a mãe. Elas esperam receber W., e cuidar dele. Uma exposição do caso de W. é enviada às autoridades egípcias, com documentos e radiografias. Resposta dos egípcios: que ele vá a um hospital e registe o seu nome na lista dos que querem sair.

21 de Janeiro:

“Milhares já estão registados, incluindo casos muito sérios. Fiz tudo o que podia. Estou numa tenda precária. A situação piora a cada dia. Nem acredito que ainda me consigo mexer. Tanta fome. Tão sujo. Muitas dores e frio.”

26 de Janeiro:

“Manda-me o que souberes sobre a decisão do Tribunal Internacional de Justiça.”

29 de Janeiro:

“Linguagem forte mas decisão pálida. Israel continuará. Sofreremos mais. Literalmente morrendo às centenas por dia.”

31 de Janeiro:

“Ainda em pé. Mantenho esperança de sair daqui em breve ou ficar forte até este inferno acabar.”

2 de Fevereiro:

“Estou num estado miserável minha amiga. Muito a dizer mas as palavras não bastam. Requer mais que a minha capacidade. Inshallah conseguirei ultrapassar isto. Tenho vergonha de partilhar, as pessoas que conheço não são mais as mesmas. O meu povo hospitaleiro e decente tornou-se mendigo ou ladrão. Fomos privados de tudo, até da nossa humanidade.”

Este foi o último dia em que tive notícias de W. O meu outro amigo em Gaza, R., jornalista profissional, mandou-me uma mensagem no dia seguinte, escrevendo “pedintes” entre aspas, como se nem suportasse outra forma.

3 de Fevereiro:

“Estamos exaustos. Tornámo-nos ‘pedintes’, correndo atrás de mantimentos, cobertores e água. Embaraça-me esperar numa fila por comida, bater à porta das ONG. Durmo num cobertor, muito frio. E para tudo há uma longa fila, o que significa o dia todo, e impossibilidade de trabalhar. Estamos a ser desumanizados. Preciso de medicação para hipertiroidismo. Missão impossível.”

2. R. e W. não se conhecem. Ambos são orgulhosos, inteligentes, cultivados. Falam excelente inglês, viram o mundo quando era possível, antes de o gueto se fechar, porque têm mais de 50 anos. E uma noção clara da herança histórica. Nenhum deles é simpatizante do Hamas, pelo contrário. Quando os conheci eram homens saudáveis, elegantes, com casas cuidadas, acolhedoras, crianças a correr, avós e retratos nas paredes. Como incontáveis pessoas que conheci em Gaza desde 2002. Incontáveis casas cuidadas, apesar de estarmos num campo de refugiados, onde nos sentávamos em chãos limpos a partilhar comida maravilhosa. Jamais vi uma pessoa pedir na rua em Gaza. Ninguém abandonado.

Foto

Em Gaza, luta-se por comida todos os dias REUTERS/IBRAHEEM ABU MUSTAFA

Quando há pouco escrevi o nome Bureij (um dos lugares agora bombardeados), lembrei-me de lá ter ido com W. visitar uma anciã sobrevivente da Nakba que falava do marido como de um namorado, refugiada numa casa que nunca desistiu de ser bonita. Ela dedicara décadas a visitar palestinianos nas cadeias de Israel, e para poder fazer isso adoptou 40.

A Palestina que conheci nunca desistiu de ser bonita, começando por Gaza. A vergonha de R. e W., ao verem o seu povo transformado em pedintes, esfomeados, essas imagens com que somos bombardeados desde 7 de Outubro não são a vergonha da Palestina. São a vergonha de Israel.

E de quem tem sido cúmplice. As vítimas da fome estão de pé, o mundo não. Gaza é o nosso espelho. O risco de genocídio que o tribunal de Haia considerou plausível não é só a eliminação de um conjunto de pessoas. É a destruição de um povo cercado, no seu território, com a sua cultura. Partirem-lhe a coluna, tirarem os órgãos, matarem os filhos, queimarem a mente. Em Gaza, de forma radical, e na Cisjordânia, devagar. Isto passa-se há quatro meses diante dos nossos olhos de uma forma que não se parece com outra guerra. Os danados da terra somos todos nós, que estamos vivos agora, enquanto isto acontece.

E Israel está a ser roído por dentro. O tribunal de Haia decreta que façam tudo para prevenir o genocídio e na manhã seguinte os ministros-colonos dançam sobre os cadáveres de Gaza, juram plantar lá colonatos, enxotar os palestinianos. E Biden pune “quatro colonos extremistas”. O nível a que chegou a ficção. Singularizá-los é uma ficção. Eles são, hoje, o fruto e a faca do sionismo, a máscara mais feia do estado de Israel, com a colaboração do mundo rico, à custa da culpa colectiva pós-Holocausto, a bem de muitos negócios, incluindo os regimes árabes.

Mas a pergunta mais difícil vai além da culpa e dos negócios: porque é que as vidas palestinianas não contam como as israelitas, as americanas, as europeias, as australianas? Sabemos da culpa, sabemos dos negócios. Mas talvez não soubéssemos da dimensão do racismo incrustado em cada um. E tomem racismo aqui num sentido amplo, que abrange islamofobia. Tal como o anti-semitismo é racismo.

Não é por acaso que o processo em Haia chegou pela mão da África do Sul.

3. Masha Gessen, jornalista e intelectual judia americana respondeu recentemente às acusações de ser uma self-hating jew explicando que critica Israel porque é por aí que deve começar. Sendo judia, é o comportamento de Israel que a deve preocupar. É o que têm feito os judeus que corajosamente pedem o cessar-fogo. Precisamos primeiro do que a coragem pede ao que nos é mais próximo. Claro que do Irão à Arábia Saudita, do Líbano ao Egipto, é fácil perder a conta aos líderes sinistros. Mas se somos europeus, se estamos em Portugal, comecemos por nós.

Uma conjuntura irrepetível faz com que esta guerra sem precedentes aconteça quando o secretário-geral da ONU é um português. A firmeza de Guterres surpreendeu muita gente. Biden tornou-se cúmplice da matança e agora prova do veneno de Ben-Gvir e Smotrich, a ala terrorista do governo de Israel. A UE envergonhou-nos por meses, e vários dos seus membros voltaram a envergonhar-nos ao suspender o dinheiro da UNRWA. Critiquei há meses Marcelo e o Governo português. Nomeadamente, João Cravinho: e por isso quero terminar a dizer que nos honra a todos ver Portugal não só dar um milhão extra à UNRWA, como usar palavras firmes quanto ao isolamento internacional de Israel. Cravinho acertou o passo com Guterres, dizendo ainda palavras que o secretário-geral da ONU não poderia dizer. Precisávamos desse acto, desse gesto, dessas palavras.

https://www.publico.pt/2024/02/07/mundo/opiniao/danados-terra-quatro-meses-2079518



domingo, 28 de janeiro de 2024

Alexandra Lucas Coelho - O racismo sem limites: agora a UNRWA

 
OPINIÃO

A punição colectiva da UNRWA é mais uma vergonha para o mundo branco. Vai a UE fazer algo? Ou esperamos por uma Intifada geral?


Alexandra Lucas Coelho

27 de Janeiro de 2024, 16:15

Que percentagem de 30 mil empregados são 12 empregados? Pus num calculador da Net, deu 0,04. Imaginem agora 30 mil pessoas num hospital, numa escola, numa cidade. Suspeita-se que 12 estejam envolvidas num ataque brutal. Essas 12 são despedidas, uma investigação é iniciada. Mas mesmo assim, por causa de 0,04, todas as outras são castigadas. Todas as outras 29.988. Que no caso de que vou falar prestam uma assistência vital a 5,9 milhões de pessoas. Mais de metade da população portuguesa.

É o que está a acontecer desde ontem com os 30 mil empregados da UNRWA, a agência que em 1949 a ONU criou para apoiar os refugiados palestinianos. Em 1949: desde o fim da guerra que se seguiu à criação do Estado de Israel, que para os palestinianos é a Nakba, a Catástrofe. A UNRWA começou a trabalhar em 1950: eram 750 mil refugiados em tendas. Agora são 5,9 milhões de refugiados em campos de cimento. Que em Gaza, desde 7 de Outubro, voltaram a ser tendas amontoadas num espaço impossível.

O mais antigo problema de refugiados do mundo. Um limbo único, que nos envergonha a todos. Avós, pais, filhos, sucessivamente nascidos num buraco da justiça, aos quais toda a comunidade internacional deve uma solução desde 1948. Vamos em 76 anos.

Mas isto não impede que algumas das potências brancas se precipitem desde ontem a suspender toda a ajuda à UNRWA. Primeiro, os Estados Unidos. Depois, à hora a que escrevo, a Austrália, o Canadá, a Itália, a Finlândia e o Reino Unido. A UNRWA vive quase exclusivamente de fundos dos membros das Nações Unidas. E que faz a UNRWA? É a responsável por aquilo de que o mundo se descartou há 76 anos: a educação, saúde, habitação, alimentação, infra-estruturas, serviços sociais, assistência de emergência, microfinanciamentos de 5,9 milhões de palestinianos que tinham um território, mas continuam a não ter um Estado. Que estão em Gaza, na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e nos países vizinhos para onde foram forçados a fugir, Jordânia, Síria, Líbano. A UNRWA trabalha em todos eles. Há diferenças entre as condições que cada país lhes deu. Fora da Palestina, os que estão pior são os do Líbano. Campos miseráveis, vidas sem horizonte, interditas a inúmeras profissões.

Desde 7 de Outubro vimos escancarar-se como nunca a indecência de regimes do mundo branco. Aquilo a que podemos chamar “dualidade de critérios”, ou mais claramente “racismo”. Um racismo que ontem perdeu um pouco mais a vergonha. Não basta ao mundo branco que as pessoas suspeitas tenham já sido afastadas, e que a UNRWA tenha assumido a responsabilidade, e gravidade, da investigação. Estas potências querem provar uma vez mais como estão horrorizadas com os 1200 mortos israelitas (sem perderem o sono com os 26 mil mortos palestinianos, e todos os outros a ser bombardeados neste instante). Então, fazem questão de dar a Israel ainda isto: cancelar o dinheiro para que seis milhões de refugiados sobrevivam. E o verbo é “sobreviver”, porque o mundo lhes nega uma vida digna.

Tenho questões com a acção humanitária, e especificamente da ONU. Escrevi sobre isso antes e depois de 7 de Outubro. Sobre como a assistência pode contribuir para perpetuar os problemas que alivia, desresponsabilizando quem é suposto resolvê-los. Atalhando: se o mundo pode viver com 5,9 milhões de refugiados palestinianos atirados para debaixo do tapete, e isso continua a não ser cobrado a Israel, também foi porque a UNRWA esteve lá a fazer com que não morressem à fome. E claro que isso é parte do problema, se queremos olhar as coisas de frente. Um problema de todos nós.

Depois do que vi em Dezembro-Janeiro pela Cisjordânia e em Jerusalém Oriental (já que em Gaza os repórteres não podem entrar), deixei a Palestina com a sensação de mais uma Intifada a explodir, tal a aflição, o cerco. Enquanto Gaza morre, e os que não morrem sofrem danos para sempre.

Apesar de, também ontem, os juízes de Haia terem exposto de forma inédita num tribunal as violações de Israel à lei internacional, não foram ao ponto de pedir o cessar-fogo. E agora EUA, Canadá, Austrália, Reino Unido, Itália e Finlândia (para já) suspendem o ventilador da UNRWA. Porque os 5,9 milhões que dependem dele são palestinianos. E os palestinianos não contam como vidas brancas.

A cada dia, a mentira dos regimes brancos é mais visível. Digo regimes brancos porque as categorias Norte e Ocidente não dão conta (por exemplo, da Austrália). Regimes racistas e reféns de Israel. Da sua própria culpa.

Hoje mesmo, sábado, o ministro dos Estrangeiros de Israel pediu o fim da UNRWA, simplesmente. Que não faça parte do “day after” da guerra de Gaza. Num ponto estamos de acordo: sim, que a UNRWA deixe de existir — mas porque deixaram de existir refugiados palestinianos. É esse fim que queremos.

Poderá a União Europeia, entretanto, contrariar o racismo desta punição colectiva? Ou esperamos por uma Intifada geral?

https://www.publico.pt/2024/01/27/mundo/opiniao/racismo-limites-unrwa-2078355 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Alexandra Lucas Coelho - Nada vimos em Gaza


CRÓNICA


Se Gaza é o nunca visto, imaginem se víssemos. O mundo precisa que entrem repórteres lá. E que quem lê assine jornais.


25 de Janeiro de 2024, 12:00


1. “Nunca vimos nada assim.” “Nunca vi isto.” “Jamais.” “É sem precedentes.” “Isto tem de parar.” “Isto tem de acabar.”

Todos os dias mais alguém das Nações Unidas (incluindo o secretário-geral), ou algum responsável de outra instituição internacional diz uma destas frases sobre Gaza. A última que li: “Nunca vimos 2,2 milhões de civis forçados à fome em semanas”, disse à Al-Jazeera o relator especial da ONU para o direito à alimentação, Michael Fakhri. “Nunca vimos este nível de fome usada como arma tão rapidamente, e completamente, jamais.” E isto nem era o lead da notícia. O lead era que todas as crianças até cinco anos em Gaza não estão a receber nutrição suficiente, e correm o risco de danos físicos e mentais permanentes.

Todas as crianças até cinco anos. Que em Gaza são 335 mil. O equivalente a mais de metade das crianças dessa idade em Portugal. Pensemos em mais de metade das crianças que são nossas filhas, netas, sobrinhas, filhas de amigos, afilhadas. E que, ao contrário das outras guerras, de tudo o que conhecemos, não têm para onde fugir. Além de esfomeadas, foram amontoadas à bomba em tendas molhadas, sujas, focos de doença. Mais as que nesta quinta-feira, e amanhã, e depois de amanhã, vão sobreviver aos 180 partos diários que acontecem em Gaza. Cesarianas sem anestésicos, sem hospital, sem cama. Aleitamentos sem água, sem comida. Imagino que quem deu à luz possa imaginar. Mais as 50 mil mulheres que continuam grávidas em Gaza, agora. Realmente nunca vistas, além das estatísticas.

Porque são palestinianas, e não europeias, americanas, israelitas.

E porque toda a gente lá é palestiniana, e não europeia, americana, israelita, também há outro sem precedente em Gaza desde 7 de Outubro: não entram repórteres (fora os inseridos nas tropas israelitas, mediante censura), e os locais têm estado a ser mortos.

Portanto, se Gaza é o nunca visto, imaginem se víssemos. Ainda não sabemos tudo do 7 de Outubro, e muitos jornalistas de grandes órgãos, com tempo e meios, trabalharam nisso em detalhe. Quanto ao que está a acontecer desde então em Gaza, o jornalismo pôde captar só uma pequena parte. Pior do que o nunca visto será tudo o que não vimos.

Não que neste fim de Janeiro de 2024 toda a gente não tenha pelo menos ideia do que se passa lá. Mas se a vida segue como se nada fosse — e tão convenientemente para vários regimes —, também é porque nada vemos em Gaza. Eco do filme de Resnais/Duras sobre Hiroxima: vimos, mas nada vimos.

Por outras palavras, a vida segue à custa da morte em Gaza. Ver, teme-se, seria insuportável. E que forma de vida será esse não-ver? Quem então seremos nós?

 


Foto

Wael Al-Dahdouh, jornalista da Al Jazeera, abraça a filha e o filho durante funeral do seu filho, o jornalista palestiniano Hamza Al-Dahdouh REUTERS/MOHAMMED SALEM

2. Desde 7 de Outubro o Governo de Israel emitiu milhares de cartões de imprensa para jornalistas estrangeiros. Um cartão sem o qual era impossível até então entrar em Gaza (na Cisjordânia basta o passaporte). E, não podendo entrar em Gaza, a grande maioria destes enviados ficou a cobrir o território de Israel. O trauma do ataque do Hamas, também ele sem precedentes no Estado judaico. Os lutos de 1200 mortos, as famílias de 240 sequestrados, as povoações mais perto de Gaza ou do Líbano, os lugares para onde foram deslocados os kibbutzim destruídos ou em risco, os protestos contra o Governo de Netanyahu e a condução da guerra, a não-libertação dos reféns, etc.

Tudo importante. E extensamente reportado, de múltiplos ângulos, com a disponibilização contínua de porta-vozes, transportes, viagens, comentadores em Israel. Alguns via governo ou instituições estatais, outras via sociedade civil. Ou seja, qualquer jornalista que aterrou em Israel no pós-7 de Outubro terá recebido em inglês, no seu email ou WhatsApp, muitas possibilidades de reportagem, com contactos de israelitas prontos a falar, sugestões de guias e equipamento, fotografias e vídeos de livre utilização, visionamentos das imagens em bruto do 7 de Outubro, comunicados, resumos, traduções. Uma gigantesca rede de assessoria de imprensa. O repórter podia só pôr o despertador para a hora do autocarro em que as autoridades israelitas levariam os jornalistas num tour pela destruição do lugar tal, e os devolveriam ao fim do dia a Telavive ou Jerusalém. Enquanto outro repórter, a preparar a sua peça sobre Israel, tinha nas mensagens do telefone respondedores de dúvidas, ou fornecedores de números. Isto, ao dispor de dois ou três mil enviados, além de todos os jornalistas israelitas.

Entretanto, algumas dezenas de palestinianos cobriam uma catástrofe sem precedentes em Gaza, sendo eles mesmo alvos. E na Cisjordânia disparava a guerra na sombra há muito.

Ao longo de mais de 20 anos, vi multiplicarem-se centenas de milhares de colonos na Cisjordânia, com todas as estruturas que apoiam a ocupação (urbanizações, estradas, redes de abastecimento, transportes, empresas, checkpoints, soldados, muro). Isto mudou a paisagem onde deverá-deveria vir a estar um Estado palestiniano. Israel nunca parou de transferir população para o território que ocupa, violando as convenções internacionais. Cada colono é ilegal, e todos os colonos são Israel. Sempre foram o bulldozer do Estado, a sua carne para canhão, a sua milícia, e no actual Governo de Netanyahu a sua ala terrorista, cada vez mais armada, e protegida por soldados, que cada vez mais são colonos. Claro que muitos colonos estão na Cisjordânia só por ser mais barato. Não porque querem ocupar, mas porque não se importam de ocupar. Ao Estado dão jeito. E depois há todos os colonos ideológicos, radicais, que atacam constantemente palestinianos, lhes saqueiam e incendeiam bens, os fazem reféns, os torturam, os executam. São o fruto de todos estes anos de ocupação. E agora têm no Governo supremacistas judeus como Ben-Gvir e Smotrich, eles mesmos colonos.

A violência dos colonos de Israel não é o que escapa ao controlo do Governo, ao contrário do que os EUA tentam vender, para dar um ar de que pressionam Israel em algo. Os colonos são a política de Israel. São o Estado.

Assim, enquanto os EUA e a Europa debatem a solução Dois Estados, há muito por contar na Cisjordânia. Agravou-se desde 7 de Outubro, e foi infinitamente menos coberto do que o território de Israel. Se em Gaza a vida está a ser extinta, qualquer povoação da Cisjordânia, neste momento, teme pela vida. E ainda há Jerusalém, começo e fim de tudo. A parte oriental, palestiniana, também ela invadida por colonos, cada vez mais estrangulada por leis e capitais, que vão expulsando os palestinianos. Tornando a vida deles impossível ali.

Cada repórter que chega não parte do zero. Há que levar em conta o que já foi coberto, onde estão os holofotes, e onde não estão. Sobretudo quando faltam meios e tempo. É importante ir onde faça mais diferença, acrescente, dê voz.

3. Teoricamente, não é só Israel a travar a entrada de jornalistas em Gaza. O Egipto contribui para isso na fronteira de Rafah. Mas na prática é Israel, porque o Egipto não está interessado em fazer frente a Israel. Coordena qualquer entrada de pessoas ou bens com Israel (enquanto por baixo dos panos há quem pague milhares de dólares para passar a fronteira). A ditadura egípcia não quer manifestações em casa, não quer revoltas da Praça Tahrir, não quer a Irmandade Muçulmana encorajada pelo Hamas. Prende contestatários, bloqueia media alternativos. Muito haverá a cobrir também sobre a normalização dos regimes árabes com Israel. O 7 de Outubro interrompeu planos e negócios. Fiquem atentos à Arábia Saudita.

4. Uma última nota. Cobrir Gaza não rivaliza com cobrir a Ucrânia. O que tira repórteres aos lugares é a falta de meios. E para haver meios é preciso haver quem queira as reportagens. Quem siga, assine, apoie jornalismo.

Se o 7 de Outubro tomou o espaço mediático, isso não significa que a vida e morte em Gaza estejam a ser cobertas, para além do esforço heróico dos repórteres palestinianos (os Gigantes do Ano de 2023). A Ucrânia não está cercada, a morrer à fome, tem o apoio do Ocidente, continua a ser coberta. Na sombra está a extinção de um mundo na Palestina, dos pastores aos souks históricos, das oliveiras às igrejas e mesquitas. Milhões de refugiados, dentro e fora, a quem o mundo deve uma resposta desde 1948. E o sem precedentes de não entrarem jornalistas em Gaza desde 7 de Outubro.

Nunca precisámos tanto de jornalismo, além das redes sociais (que, no caso da Palestina, têm sido muitas vezes as únicas janelas).

E não haverá jornalismo sem leitores. Certamente não haverá reportagem internacional. Se querem repórteres no terreno, por favor assinem jornais/revistas: hoje.

https://www.publico.pt/2024/01/25/mundo/cronica/nada-vimos-gaza-2077966
 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Alexandra Lucas Coelho - A praça mais triste de Israel

  CRÓNICA

Pianos na rua não é raro em Israel. Só nesta quarta-feira vi três. Pelo meio, perdi a conta às fardas e armas ao ombro. Tudo no mesmo país.

4 de Janeiro de2024, 5:59

1. Não me lembro de uma manifestação tão triste como a que vi no sábado à noite em Telavive. Quando se juntam milhares de pessoas, há uma energia, seja de celebração, fúria ou luto. Mas ali, para onde quer que olhássemos, a atmosfera era de abatimento, com gente atordoada, de olhos vermelhos ou a chorar. Muitos milhares de pessoas tristes na imensidão da praça do Museu de Arte de Telavive, que depois de 7 de Outubro passou a ser conhecida como Praça dos Reféns.

Todas as noites de sábado desde então, familiares, reféns libertados e outros testemunhos sucedem-se no palco, ampliados em ecrãs gigantes. Assim foi no sábado, 30 de Dezembro, dia 84 de cativeiro. Discursos, sobretudo em hebraico, mas também em inglês, por vezes canções.

E cá em baixo, no meio da multidão, um piano de meia cauda silencioso. Destacava-se no escuro por ter o tampo pintado de amarelo, uma escultura de letras amarelas a dizer: YOU ARE NOT ALONE, e por cima a fotografia de Alon Ohel, 22 anos.

Um dos reféns.   


"Foi raptado na rave Nova", conta-me Michal, que está noutro ponto da manifestação erguendo a fotografia de Alon presa a uma cana, à semelhança de muitos outros familiares de cada refém. Michal é prima de Alon. "Ele chegou à rave às 5h30... Tinha acabado de chegar quando o Hamas invadiu." Alon cresceu na Galileia, onde moram a mãe, o pai, os irmãos. Toca piano desde os nove anos. E depois de 7 de Outubro foi a família que trouxe para a Praça dos Reféns aquele piano com as letras amarelas, que no topo já tiveram o nome dele: ALON YOU ARE NOT ALONE.

2. Saio da manifestação para apanhar um autocarro de volta a Jerusalém ainda nessa noite. Tinha vindo de lá com Daniella, pintora e terapeuta de dança, filha de um sobrevivente do Holocausto que conheci há 17 anos: Uri Orlev, poeta e autor de contos para crianças. Escrevi sobre ele num livro, Daniella aparece no fim, quando nasce o seu filho mais novo, concebido em Lisboa. Terceira geração.

"Acho que a segunda geração, que é a minha, herdou o medo do Holocausto como algo subterrâneo", diz ela, enquanto caminhamos na noite, ao longo das árvores quase-tropicais de Telavive. "Esse medo veio no sangue, como um ADN. Sempre esteve adormecido, nunca pensei nele. Mas no 7 de Outubro acordou."

Daniella lembra-se da Praça dos Reféns lotada com cem mil pessoas. Veio às manifestações no começo e depois, como muita gente, afastou-se. Era demasiado, precisava de respirar. De continuar viva, para a família, para o trabalho.

Este sábado foi o primeiro em que voltou. Eu tinha-lhe dito que queria ir, sem saber se ela costumava ir ou não, e ela disse que podíamos vir juntas. Desde a casa da mãe dela, Yaara, onde horas antes, ainda dentro do shabat, nos tínhamos reencontrado ao fim de anos.

A mesma velha casa de Jerusalém, cheia de livros e de quadros, em que passei muitas horas de vários dias a conversar com Uri, uma figura adorável, de bigode antigo, que construía coisas com as mãos. Além de escrever.

Morreu em Julho de 2022.

2. Esta quarta-feira, 3 de Janeiro, voltei a Telavive de manhã porque queria ver a praça de dia, sem manifestação. Chovia: lá estava o piano amarelo aberto, com as teclas molhadas. Continuam a soar bem. Lá estava a grande mesa posta para o shabat, com todas as suas cadeiras vazias, à espera dos reféns. E a plateia vazia de cadeiras amarelas com olhos que nos olham. O anfiteatro de espelhos em que cada um vê a sua própria cara. Os corações bordados, as pedras pintadas, as tendas com os familiares, os amigos, os vizinhos, as fitas amarelas que muitos israelitas usam no pulso e que significam: tragam-nos para casa já. As mesmas palavras que estão por toda a parte em hebraico e inglês: Bring Them Home Now, com as caras e as idades dos raptados.

É diante deles, olhados por eles, que entramos em Israel, ao aterrar no único aeroporto internacional, Ben Gurion, porque ao descermos a grande rampa de pedra que leva à saída eles estão de um lado e do outro, como árvores numa avenida, uma alameda de caras. E continuam a partir daí nas esquinas das cidades, nas estações de comboios, nas paragens de autocarro e nos carros, nas portas das casas, nas janelas, nas varandas, nos cafés, até nos bares anarquistas onde se junta a jovem esquerda que em Israel é radical: a que luta contra a ocupação.

E a Praça dos Reféns é o epicentro de toda essa espera, continuando a contar cada minuto no seu ecrã vermelho. O 88.º dia de cativeiro, esta quarta-feira de chuva.

3. "Estamos todos tristes, zangados, ansiosos", diz-me Tova, 73 anos. Apesar da chuva, as pessoas revezam-se na praça, e ela e o marido, Yossi, vieram fazer o turno das 10h às 14h na tenda do kibbutz Nahal Oz, um dos atacados pelo Hamas. Moraram lá dez anos, conhecem vários dos assassinados ou raptados. Este kibbutz teve cinco reféns. A mais idosa, 84 anos, voltou "quase morta". Também voltaram duas irmãs de 14 e oito anos, "mas o pai e o irmão foram assassinados". E continuam em Gaza dois homens, Omri e Tsachi. Tova aponta a fotografia deste último: "Andou no jardim-de-infância com a minha filha."

Os avós de Tova morreram no gueto de Varsóvia. O pai tinha vindo aos 19 anos para Israel, antes da guerra ainda, tal como a mãe. "Tiveram muita sorte." E o medo herdado de que Daniella falou vai aparecer na cara de Tova, a propósito das manifestações na Europa. Do que ela teme que seja contra os judeus.

É, em Israel, uma mulher de esquerda. "Dizer que não gosto deste Governo é pouco. Somos reféns do Governo desde antes da guerra, e foi ele que nos trouxe a esta triste situação. O Governo é terrível, e o Hamas mais terrível: temos de lutar contra ele. Mas temos de ter outro governo, que tente fazer a paz. O Hamas é terrível, mas os palestinianos não são os maus contra os bons. Cada lado tem os seus direitos." E porque é que este Governo chegou ao poder em Israel? "Porque há muitas pessoas religiosas. E porque Netanyahu é um mago, um demagogo, um perito em fazer metade da nação odiar a outra. Mas agora 85% não o querem."

Há dias, 42 sobreviventes da rave Nova processaram o IDF (Forças Armadas), o Shin Bet (segurança interna) e a polícia por terem ignorado avisos sobre o 7 de Outubro. O Governo ignorou alertas. "E Netanyahu não tem vergonha, não sente culpa. Não acho que os tenha ignorado deliberadamente, mas não acreditou neles. Só lhe interessa manter o poder, por causa dos processos de tribunal. E precisou daqueles políticos radicais para um governo." Refere-se a Smotrich (ministro das Finanças) e Ben-Gvir (ministro da Segurança Nacional)? "Sim. Fascistas."

Ao fim de toda esta conversa, quando lhe pergunto o que faz, Tova diz-me que é psicóloga. "Todo o país está traumatizado. Muito mais gente usa ansiolíticos, antidepressivos, procura terapeutas. Eu mesma nas primeiras semanas não dormi. Todos perderam a confiança, a fé. Antes de 7 de Outubro, toda a gente confiava no Exército, e agora sabemos os erros que fizeram. Deixaram a fronteira aberta. As pessoas estão muito desapontadas com o Exército. Mas não o culpam como culpam Netanyahu, vêem isso como erros, não como o mal. Netanyahu é o mal. E não temos outro Exército."

Tova lamenta que Obama não tenha pressionado Israel a fazer a paz. "Israel precisa de um Presidente americano que seja duro com Israel."

4. Ao fim da tarde, o piano amarelo da praça vai ter um intérprete célebre a tocar, em homenagem a Alon Ohel. Os pais do refém vieram de propósito a Telavive. Já não estarei lá, mas tenho estado a trocar mensagens com Idit, a mãe, desde a véspera. E depois do concerto falamos. "Não sou política. Só quero que o meu filho volte, e esteja em casa connosco. Este é o meu país, e quero acreditar que o Governo fará tudo para o trazer."

Alon foi um dos reféns que fugiram para um abrigo em Re'im, onde o Hamas lançou granadas e muita gente foi massacrada. "Há um vídeo do rapto, por isso sabemos que foi raptado, e que estava bem. Pelo menos, isso é bom." Semanas antes, voltara de uma longa viagem pela Ásia. O plano dele era mudar para Telavive e continuar a estudar música. "Pusemos o piano na praça para as pessoas tocarem, porque a música é uma linguagem universal", diz Idit. "É nisso que acredito."

Não está sozinha. Pianos na rua não é raro em Israel. Só nesta quarta-feira, além do piano amarelo de Alon, vi de manhãzinha um que está na estação de comboios de Jerusalém e à tarde outro no Parque Sacher, entre dois relvados.

Pelo meio perdi a conta às fardas e armas penduradas ao ombro, em qualquer rua, autocarro, comboio ou parque.

Tudo no mesmo país

https://www.publico.pt/2024/01/04/mundo/cronica/praca-triste-israel-2075629