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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Saramago: uma obra que continua além do ponto final





Beatriz Santana, de São Paulo (SP)
 



• Alan (nome fictício) é um operário atualmente desempregado de 31 anos. Em fevereiro deste ano ele leu pela primeira vez um livro do escritor português José Saramago, “O homem duplicado”, emprestado da biblioteca do Senai. Desde esta primeira leitura, Alan se apaixonou pela escrita de Saramago. Leu em poucos meses mais três livros: “O evangelho segundo Jesus Cristo”, “Caim” e “Ensaio sobre a cegueira”. Alan conta que “no começo foi um impacto a forma como ele escreve, com um texto corrido, diálogos sem a separação de parágrafo e indicação de travessão. Mas depois, quando a gente se acostuma, fica interessante. Passei a gostar daquela forma, tanto que às vezes me dá vontade de usar certas palavras e expressões que ele usa e que não usamos normalmente”.

Alan começou a conhecer a obra Saramago poucos meses antes da morte do escritor, ocorrida neste 18 de junho. Este exemplo mostra a capacidade da literatura de Saramago de tocar as pessoas.

Operário, tradutor, funcionário público, escritor
José Saramago morreu de falência múltipla dos órgãos aos 87 anos de idade, ao lado de sua mulher Pilar Del Rio, em sua casa na ilha de Lanzarote, nas Ilhas Canárias. O escritor já estava doente há algum tempo e seu estado se agravou nas últimas semanas. Quando falou sobre a morte, ou autor definiu: “O corpo também é um sistema organizado, e a morte não é mais do que o efeito de uma desorganização”.

Nascido em uma família pobre, ele não teve acesso a uma universidade, apesar do gosto pelos estudos. Assim como Alan, Saramago cursou um ensino técnico e tornou-se operário. Também tinha como fonte de suas leituras e aprendizados as visitas frequentes à Biblioteca Municipal Central de Lisboa.

Saramago publicou seu primeiro romance aos 25 anos, “Terra do Pecado”. Foi funcionário público e, em 1955, para aumentar os rendimentos, começou a fazer traduções de obras de grandes autores como Hegel, Tolstói e Baudelaire, entre outros. Em 1975, ele vai trabalhar no Diário de Notícias.

Hormônio comunista
Viveu a Revolução dos Cravos e levantou até o final de sua vida a bandeira comunista como uma necessidade para a solução dos problemas do mundo. Dizia que “assim como tenho no corpo um hormônio que me faz crescer a barba, há outro que me obriga a ser comunista”.

Uma de suas atitudes políticas mais criticadas foi a defesa dos palestinos contra a ocupação israelense. Recentemente também realizou uma campanha de ajuda aos haitianos, vítimas do terremoto ocorrido no país.

As duras polêmicas com a Igreja marcaram a vida e a obra do escritor ateu. Em livros como “O evangelho segundo Jesus Cristo” e “Caim”, Saramago ousa reescrever a Bíblia em tom de farsa e ironia, arreganhando as frestas das entrelinhas ambíguas dos textos bíblicos, introduzindo humor e conflito na relação entre Criador e criatura.

Saramaguiana
Saramago escreveu diversas obras de prosa e poesia, porém foi em 1980, com a publicação de “Levantados do chão”, que a literatura do escritor ganha suas características mais marcantes. O livro teve como tema a vida da população pobre do Alentejo.

A forma desenvolvida por Saramago, com escassez de pontos finais, longos parágrafos, ausência de travessões, o que a princípio pode causar estranhamento no leitor, é também o que confere ao texto uma fluidez única. Já no livro “O ano de 1993”, por sua vez, sua prosa se contorna em pequenos parágrafos ritmados que quase se tornam poesia. Além disso, marca a literatura saramaguiana a beleza inusitada das metáforas que comandam por livros inteiros a reflexão sobre temas filosóficos e sociais.

Devido a este caráter ímpar de seu texto, Saramago é tido por muitos críticos como um dos principais nomes da literatura de língua portuguesa, figurando lado a lado com nomes como Fernando Pessoa e Guimarães Rosa. Este reconhecimento lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

A morte
Na conquista de novos e inesperados leitores, como Alan, a obra de Saramago vive. Assim como Alan, muitos ainda poderão conhecer e se apaixonar pela literatura de Saramago.

A morte, que agora chega aos olhos do escritor, foi tema de algumas de suas obras. Em “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, Saramago homenageia Fernando Pessoa, mostrando como teria sido a morte deste seu heterônimo. Já o livro “Intermitências da Morte” se inicia com a frase “No dia seguinte ninguém morreu”. Nele, Saramago expõe as reações da Igreja, do governo, da imprensa, das famílias e instituições diante do fenômeno da ausência da morte.

Falemos, portanto, da ausência da morte de Saramago. Saramago não gostava de pontos finais, apenas salpicava vírgulas a gosto. Sua morte, desta forma, não pontua um final de sua existência, perpetua sua obra em eternos parágrafos intermitentes.
 
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.http://www.pstu.org.br/cultura_materia.asp?id=11709&ida=0
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Nando Poeta lança cordel '1º de Maio'



da redação




• No Dia dos Trabalhadores, Nando Poeta lança mais um cordel: 1º de Maio, Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores, pela Editora Luzeiro. O texto é composto por 48 estrofes de seis versos cada.

Nando lembra e homenageia os Mártires de Chicago, que marcaram a data em 1886. Durante uma forte greve geral por redução de salários e melhores condições de trabalho, centenas de operários foram mortos pela repressão policial.

Nando também adaptou trechos do discurso dos operários e da “A Internacional comunista”, hino dos trabalhadores escrita pelo francês Eugene Pottier e composto pelo belga Pierre Degeyter no século XIX.

Parsons faz o discurso,
Em prol do trabalhador:
“A farsa da patronal
Traz o sofrimento e dor
Que as forças sociais
Combatam o explorador.”

O poeta transpõe para os dias de hoje a luta daqueles trabalhadores. Ao longo do cordel, ele defende que os trabalhadores do mundo inteiro se unam contra a exploração dos patrões e dos governos. Nando também critica as megafestas das centrais pelegas, que promovem shows e sorteiam prêmios, desviando o foco da luta.

Todo Primeiro de Maio
Dia do trabalhador
Todos devem ir às ruas
Pra mostrar o seu valor
Conquistando mais direitos,
Enfrentando o opressor.


O poeta
Nando Poeta nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1962. formado em Ciências Sociais, hoje ele reside na capital paulista, onde é professor e militante do PSTU. Em São Paulo, Nando tem divulgado a literatura de cordel.

Em 2008, lançou A turbulência econômica, que pode ser lido aqui no Portal. Em 2009, lançou Mulheres em luta, em homenagem ao 8 de março. Ambos foram lançados pela Editora Luzeiro. Pela Casa do Cordel, lançou Bush e Obama e a peleja da CUT com a Conlutas.

O lançamento do cordel 1º de maio será em São Paulo, no dia 1º de maio, próxima sexta-feira. O evento acontece a partir das 19h, no bar Frango com Tudo, que fica na rua Canuto do Val, 115, metrô Santa Cecília.
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http://www.pstu.org.br/cultura_materia.asp?id=10075&ida=0
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Leminski: o polaco-negro, o trotskista-budista

Wilson H. Silva
da redação do Opinião Socialista e membro da Secretaria Nacional de Negros e Negras dos PSTU

• Em 1989, pouco antes de morrer, o escritor curitibano Paulo Leminski rabiscou um bilhete com uma de suas frases curtas, irônicas e certeiras: “Nunca estive muito interessado em envelhecer, eu que sempre amei a juventude”.
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Hoje, 20 anos depois de ter sua intensa vida abreviada por uma cirrose que o matou aos 44 anos (em 25 de agosto passado seria seu 65° aniversário), muito provavelmente Leminski iria se sentir rejuvenescido se soubesse que seus fabulosos “haicas” estão circulando pelas ruas através da na nova mania dos jovens, o “twitter”, num formato que já está sendo chamado de “twicais”.
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Em primeiro lugar, é preciso que se diga que chega a ser animador saber que a mais recente novidade da comunicação virtual (que permite troca de mensagens com, no máximo, 140 caracteres) está sendo usada para algo mais do que a troca de futilidades e informações banais. E, melhor ainda, é saber que Leminski esteja na raiz desta história.
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Afinal, acima de tudo, Leminski foi um cultuador e renovador da palavra e de suas possibilidades poéticas. Seja como escritor, ensaísta, crítico tradutor ou poeta, ele sempre se manteve próximo dos princípios da estética “concretista” (que ajudou a divulgar juntamente com gente como os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari), que tem na sua base o vínculo inseparável e dialético entre a forma e o conteúdo dos textos.
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Uma poética que nunca se recusou a incorporar as novidades (das falas das ruas, à gíria e aos palavrões). Mesclando-a com influências que vinham simultaneamente da cultura popular (como trocadilhos, músicas e a fala coloquial) e do melhor da cultura universal (de “clássicos” como o russo Dostoievski ou de tradições mais “distantes”, como o latim de Petrônio e os curtíssimos haicais, trazidos da poesia japonesa).
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O balaio poético um polaco-negro, trotskista-budista
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Tentar definir Leminski é uma tarefa impossibilitada pela própria vida e obra do poeta. Descendente de poloneses e negros; simpatizante, na juventude, do grupo “Liberdade e Luta” e adepto apaixonado da cultura e religiosidade do Oriente, o escritor fez da “mescla” (sempre instigadora e inteligente) uma de suas principais marcas, o que pode ser exemplificado, na forma e conteúdo, através de seus mais fabulosos haicais: “en la lucha de clases / todas las armas son buenas / piedras, noches, poemas”.

O mesmo aplica-se à sua obra em prosa. Catatau (1976), Agora é que são elas (1984), Metaformose (1994) e o livro de contos O gozo fabuloso (publicado em 2004) dificilmente podem ser chamados “apenas” de romances ou contos, já que tangenciam, sem muita definição de fronteiras, a poesia, a ficção ou ensaio literário.
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Um estilo com o qual Leminski também impregnou sua série de biografias – reunidas num volume único, intitulado “Vida”, lançado em 1990 – no qual ele reconstitui, de forma maravilhosamente poética a vida de personagens tão distintos como Jesus Cristo, o poeta simbolista negro Cruz e Sousa, o revolucionário russo Leon Trotsky e o poeta japonês, do século 17, Matsuô Bashô, criador dos haicais.
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No caso de Trotsky, é de fato impressionante a relação que Leminski estabelece entre três figuras fundamentais da história da Revolução Russa e os personagens centrais de “Os irmãos Karamazovski”, de Dostoévski. Como também, “Trotski: paixão segundo a revolução”, é fundamental para todos aqueles que queiram entender as concepções do líder revolucionário em questões fundamentais, como as relações entre arte, modo de vida e revolução.

Poesia da vida, vida em poesia
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Foi com essa mesma perspectiva multifacetada, que se recusa a separar a poesia da vida, que também orientou as traduções realizadas pelo escritor. Fluente em diversas línguas (francês, japonês e latim, dentre outras), Leminski verteu para o português obras essenciais, como o Satiricon, de Petrônio, Sol e aço, de Yukio Mishima (ambas de conteúdo fortemente homoerótico); o Supermacho, do alucinado dramaturgo Alfred Jarry; além de poemas e novelas de James Joyce.
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Foi também essa sua enorme capacidade do domínio lingüístico que transformou o poeta curitibano num “improvisado” letrista de músicas em dezenas de parcerias feitas com gente como Caetano Veloso, “A cor do som”, Moraes Moreira, Arnaldo Antunes e Itamar Assumpção.
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Quando morreu, no dia 7 de junho de 1989, o consumo excessivo de álcool e a conseqüente cirrose tinham coberto a vida e obra de Leminski com uma inegável melancolia e um razoável isolamento social, como ele mesmo deixou registrado: “Pariso / Novayorquiso, Moscoviteio / Sem sair do bar./ Só não levanto e vou embora / Porque tem países / Que eu nem chego a Madagascar”. Contudo, passadas duas décadas, é impossível não reconhecer a atualidade e força da obra do poeta.
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Uma vitalidade que, hoje, pode ser conferida na ampla exposição inaugurada em São Paulo – vide box –, com auxílio da poeta Alice Ruiz (com quem foi casado durante 20 anos e teve as filhas Áurea e Estrela, que também estão trabalhando na preservação e resgate da obra do autor), mas que ainda está pulsante na extensa obra deixada pelo escritor.

Apesar de ser difícil imaginar Leminski (que sequer usava máquina de escrever para compor seus textos) “twitando” mundo afora, até mesmo porque ele, certamente, seria um crítico da onda de banalização que cerca esta e outras formas e práticas de escrita do “mundo digital”, não deixa de ser interessante que seja através deste mecanismo que novos leitores estejam descobrindo o autor.
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Afinal, Leminski soube, como poucos sintonizar-se a seu mundo e tempo para transformar as inquietudes, frustrações e também amores e paixões de uma geração, encontrando novas e moderníssimas formas para fazer poesia com palavras e conceitos – como “paixão”, “arte” e “revolução” – que apesar de parecerem distintas e distantes, são inegavelmente inseparáveis, como demonstram tanto a vida e poesia do autor, quanto os sonhos que, todos nós que lutamos por um mundo melhor, alimentamos.
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* Trecho do poema para Liberdade e luta

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[ 20/10/2009 00:54:00 ]
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http://www.pstu.org.br/cultura_materia.asp?id=10860&ida=18
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