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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Domingos Lobo - “Felizmente Há Luar”, a propósito do centenário de Luís de Sttau-Monteiro



* Domingos Lobo

É pa­rá­bola dos tempos som­brios da dé­cada de 60, do País sob Sa­lazar

O te­atro épico é a ten­ta­tiva mais ampla e mais ra­dical de cri­ação de um grande te­atro mo­derno; cabe-lhe vencer as mesmas imensas di­fi­cul­dades que, no do­mínio da po­lí­tica, da fi­lo­sofia, da ci­ência e da arte, todas as forças com vi­ta­li­dade têm de vencer.1

Ber­tolt Brecht e o seu con­ceito de te­atro épico teve in­fluência de­ter­mi­nante, em início dos anos 1960, em al­guns au­tores pro­gres­sistas como José Car­doso Pires, com “O Render dos He­róis”; Luís Sttau Mon­teiro, com “Fe­liz­mente Há Luar” e “As Mãos de Abraão Zacut”; Luzia Maria Mar­tins, com “Bo­cage”, “Alma Sem Mundo” e “O Judeu”, de Ber­nardo San­ta­reno.

Destes cinco textos dra­má­ticos, só “Fe­liz­mente Há Luar” e “O Judeu”, face às in­cur­sões cen­só­rias, não ti­veram es­treia entre nós antes de 25 de Abril de 1974.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Domingos Lobo - Toda a Longa Noite, de Erskine Caldwell

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* Domingos Lobo

Ers­kine Caldwell foi, entre nós, nos anos 1960-70 do sé­culo tran­sacto, um dos mais po­pu­lares es­cri­tores


A russofobia, que as direitas de todos os quadrantes exibem com alarde, sem vergonha nem memória, nesta Europa a soldo do império e navegando à bolina num barco onde os ratos já dominam a gávea e roem lentamente os porões, já vem de longe, tem mais de um século, com brevíssimos intervalos de cínico apaziguamento, depois da Pátria dos Sovietes ter vencido, a custo de 25 milhões dos seus filhos, a barbárie nazi de Hitler.

A pre­texto do con­flito na Ucrânia, a se­nhora Ur­sula von der Leyen en­cetou uma cam­panha ide­o­ló­gica e per­se­cu­tória contra Mos­covo, cri­ando aná­temas ini­bi­dores e proi­bindo, de­mo­cra­ti­ca­mente, o acesso dos eu­ro­peus da UE às es­ta­ções de te­le­visão russas, ou seja, in­vi­a­bi­li­zando o con­tra­di­tório e a nossa di­a­léc­tica ca­pa­ci­dade de aná­lise, e a tudo o que res­su­masse cul­tura vinda do grande país do leste eu­ropeu. Tolstoi, Gorky, Gogol, Chó­lokhov, clás­sicos da li­te­ra­tura uni­versal, foram os­tra­ci­zados, a eles jun­tando mú­sicos da di­mensão de Tchai­kovski, Ra­ch­ma­ni­noff, Shos­ta­ko­vitch, Pro­ko­fiev ou Rimsky-Kor­sakov, ví­timas de uma saga mi­se­rável de ten­ta­tiva de banir do nosso con­vívio a cul­tura de um povo, e da hu­ma­ni­dade em geral, modo per­verso de ex­clusão que nem o fas­cismo de Sa­lazar/​Ca­e­tano ousou em­pre­ender.

Aquando da pu­bli­cação entre nós do livro Alma Russa1, de Jo­seph Conrad, pela Li­vraria Ci­vi­li­zação, em 1945, e proi­bido pela PIDE em 1947, ainda no res­caldo do ine­lu­tável con­tri­buto da URSS para a ren­dição do exér­cito nazi e do fim da guerra, um atento censor, num pri­meiro im­pulso de re­jeição, ela­borou o se­guinte re­la­tório: «É um livro de pro­pa­ganda re­vo­lu­ci­o­nária pas­sado ainda no tempo dos Czares. Julgo que deve ser proi­bido porque este e muitos ou­tros li­vros que pejam o nosso mer­cado têm o fim in­con­ve­ni­en­tís­simo de ali­men­tarem a mís­tica russa.» Ora, este mag­ní­fico ro­mance de Conrad nada tem a ver com a Rússia te­mida pelos fas­cismos, saída da Re­vo­lução de Ou­tubro, passa-se entre um grupo de Cos­sacos em luta contra a opressão Cza­rista e de­sen­volve-se em torno de Ra­zunov, no fundo um rapaz vulgar, mas do­tado de uma enorme ca­pa­ci­dade de tra­balho e de sen­si­bi­li­dade, que o leva a dizer que é russo apenas, e mais nada, a in­dó­mita von­tade, a moral de Ra­zunov e a sua luta contra as in­jus­tiças farão dele, e dos seus ca­ma­radas de jor­nada, a en­car­nação da Alma Russa.

Do es­critor ame­ri­cano Ers­kine Caldwell acaba de ser pu­bli­cado, numa pe­quena edição já pra­ti­ca­mente es­go­tada, pela mão do editor Le­o­nardo de Freitas, um dos seus tí­tulos mais em­ble­má­ticos, o qual foi pu­bli­cado em Por­tugal, antes do 25 de Abril, sob o tí­tulo «Guer­ri­lheiros Russos», edição que, no en­tanto, foi cen­su­rada pelo fas­cismo. Trata-se de Toda a Longa Noite (All Night Long). Ers­kine Claldwell foi, entre nós, nos anos 1960-70 do sé­culo tran­sacto, um dos mais po­pu­lares es­cri­tores, com tí­tulos como A Es­trada do Pe­tróleoA Jeira de DeusO Pre­gador Certas Mu­lheres, sendo uma das grandes e in­ques­ti­o­ná­veis vozes do neo-re­a­lismo norte ame­ri­cano.

O seu ro­mance Toda a Longa Noite traça o re­trato po­de­roso e re­a­lista da saga dos par­ti­sans russos, em de­fesa da sua Pá­tria contra o terror nazi. A 22 de Junho de 1941, três mi­lhões de tropas nazis in­va­diram a União So­vié­tica. Jun­ta­mente com o Exér­cito Ver­melho, mi­lhares de pa­tri­otas, gente sim­ples do povo, tra­ba­lha­dores dos campos e das ofi­cinas, en­ce­taram uma luta comum contra o po­de­roso exér­cito de Hi­tler, im­pe­dindo cha­cinas, vi­o­lação de mu­lheres, fu­zi­la­mentos bár­baros (p. ex., pas­sando com os tan­ques sobre os corpos da po­pu­lação in­de­fesa), roubos e des­truição de al­deias in­teiras, fu­zi­lando os pre­si­dentes do So­viete, exi­bindo nas praças as mu­lheres nuas de­pois de as vi­o­larem. Havia dú­zias e dú­zias de bri­gadas de par­ti­sans a oeste do rio Dni­epre, e cen­tenas entre o Bál­tico e o Mar Negro. Al­gumas das bri­gadas si­tu­adas entre Smo­lensk e Minsk ti­nham pro­por­ções de re­gi­mentos. No longo In­verno Russo, a acção con­ju­gada dos par­ti­sans foi fun­da­mental para im­pedir ou mi­norar a pro­gressão das tropas hi­tle­ri­anas, boi­co­tando equi­pa­mento, des­truindo ca­miões de abas­te­ci­mento, li­ber­tando mu­lheres, cri­anças e ve­lhos se­ques­trados pelos nazis.

Ers­kine Caldwell afirma-se neste livro como um exímio nar­rador e um co­ra­joso e in­tenso his­to­ri­ador so­cial, ren­dido à força e à de­ter­mi­nação de um grupo de guer­ri­lheiros, os quais, quase sem meios, en­fren­taram a besta fas­cista: Sérgio, tal como Ra­zunov, é um tí­pico homem do povo russo, um cam­pónio cân­dido, forte, obs­ti­nado, mo­vido pelos im­pulsos pe­renes da alma russa a que os va­lores so­vié­ticos deram um novo vigor. Tal como os seus com­pa­nheiros de luta, Na­tacha, Fedor, Pa­vlenko ou Maria Ma­ka­rova, pa­recem, na prosa po­de­rosa e sagaz de Caldwell, per­so­na­gens his­tó­ricas ar­ran­cadas das pá­ginas de Tolstoi, Gogol ou Gorki.

Le­o­nardo de Freitas, com es­cassos meios, não quis deixar de trazer para os nossos dias este grande épico, sa­bendo-o im­pres­cin­dível para os com­plexos tempos em que o ódio ao outro cam­peia, ine­xo­rável e sem cau­telas, junto com a ig­no­rância, mesmo que numa tra­dução bra­si­leira pouco cui­dada, de 1942.

 

1E­dição fac-si­mi­lada, a partir da 1ª. edição. Co­lecção Bi­bli­o­teca da Cen­sura, Jornal “Pú­blico” /A Bela e o Monstro

https://www.avante.pt/pt/2705/argumentos/181200/Toda-a-Longa-Noite-de-Erskine-Caldwell.htm


sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Domingos Lobo - Os Lusíadas – Antologia temática e texto crítico, de António Borges Coelho, com ilustrações de Manuel Sam Payo



* Domingos Lobo

Camões não é a voz da reacção e do colonialismo. Camões é a voz do nosso povo, dos lusíadas, a voz da insubmissão ante os privilégios, a voz do progresso social e científico, a voz da nação portuguesa, num elevado sentido humanista», disse Álvaro Cunhal na Festa do Avante! de 1979. É este Camões que brigava contra nobres e burgueses ao lado da plebe, que sofreu injúrias, fome e prisões, que denunciou honrarias e faustos da corte enquanto o povo mourejava de sol a sol por uma côdea dura, ou se esforçava nas naus da Índia morrendo de febres, de peste e de escorbuto, submetido e explorado, esse ilustre peito lu­si­tano, que percorre os 10 cantos de Os Lu­síadas e que António Borges Coelho, com a vera sabedoria crítica do historiador, do poeta e homem de cultura, neste livro encena como questão central: Que im­por­tância têm afinal Ca­mões e Os Lu­síadas; para que serve a po­esia? A resposta de Borges Coelho é imediata e plena de contundência: para tornar mais forte a nossa “fraca humanidade”.

Que “fraca hu­ma­ni­dade”, como povo, te­ríamos, que me­mória co­lec­tiva nos fi­xaria a este chão solar e ma­drasto, que iden­ti­dade, que língua fa­la­ríamos sem os po­etas que can­taram e cantam os nossos gestos mais fe­cundos e justos, as an­danças pelo mundo em busca de pão menos suado; as pe­lejas pelas rotas tran­so­ceâ­nicas, ori­entes, oce­a­nias, áfricas, gran­je­ando es­cassa for­tuna e muito sangue der­ra­mado; as lutas pela in­de­pen­dência desde a fun­dação até 1383, que Fernão Lopes des­creveu na Cró­nica de D. João I, mo­delar es­cultor da pri­meva língua, pas­sando pelo li­rismo ar­re­ba­tado de Ber­nardim Ri­beiro, pelas alu­ci­nadas vi­a­gens de Fernão Mendes Pinto; pelo supra-Ca­mões que Pessoa quis ser, pela de­núncia da bar­bárie fas­cista que se ins­creve na pena co­ra­josa dos nossos poeta ne­or­re­a­listas, de Ma­nuel da Fon­seca a Carlos de Oli­veira, de Jo­a­quim Na­mo­rado a Ar­mindo Ro­dri­gues; o 25 de Abril de Ary dos Santos, de Ma­nuel Gusmão, de Sophia, de Jorge de Sena. An­tónio Borges Co­elho dá-nos a res­posta nesta abor­dagem cri­te­riosa e no diá­logo que ao longo do en­saio es­ta­be­lece com as mais im­pres­sivas pas­sa­gens da épica ca­mo­niana, a co­meçar nesse longo e mo­delar poema, que nos in­ter­roga: «Quem pode ser no mundo tão quieto», cons­truído em oi­tavas, ins­cre­vendo no poema a feição de mo­der­ni­dade dis­cur­siva, a agu­deza sin­gular, as vir­tu­a­li­dades do idioma, na forma como Ca­mões o uti­liza para de­nun­ciar o alhe­a­mento das classes do­mi­nantes pe­rante o des­con­certo do mundo: Quem pode ser no mundo tão quieto,/​ou quem terá tão livre o pen­sa­mento,/​quem tão ex­pe­ri­men­tado e tão dis­creto,/​tão fora, enfim, de hu­mano en­ten­di­mento/​que, ou com pú­blico efeito, ou com se­creto,/​lhe não re­volva e es­pante o sen­ti­mento,/​dei­xando-lhe o juízo quase in­certo,/​ver e notar do mundo o des­con­certo?

Borges Co­elho faz uma lei­tura nova e ac­tu­ante de Os Lu­síadas, in­ves­tindo e so­bre­le­vando as es­trofes so­ci­al­mente com­pro­me­tidas da nossa obra maior e uni­versal. É o Ca­mões hu­mano, de­fensor do povo miúdo, que tinha es­pe­rança que o país in­qui­sidor, beato e mi­se­rável mu­dasse e com ele as von­tades, To­mando sempre novas qua­li­dades. Um país de todos e pos­sível, que não apenas de um pu­nhado de no­bres, se­nhores de la­ti­fún­dios feu­dais, vi­vendo de pre­bendas da Corte e da ex­plo­ração es­crava, à tripa forra, sub­me­tendo sem cui­dados o povo miúdo à sua am­bição de poder, à ga­nância e à vã co­biça.

Ca­mões, mesmo acos­sado pela In­qui­sição, so­bre­le­vando os seus mé­todos com subtil en­genho e arte, não deixou de cri­ticar, em­bora de forma ve­lada, al­guns dos que pri­vavam na Corte de D. Se­bas­tião: Vê que esses que fre­quentam os reais/​Paços, por ver­da­deira e sã dou­trina/​Vendem adu­lação, que mal con­sente/​Mondar-se o novo trigo flo­res­cente, e não deixou também, nesse in­có­modo Canto IX, que muito boa gente ainda olha de sos­laio, de de­nun­ciar, nas es­trofes 27 e 28, a re­lação cí­nica entre no­breza e povo, pen­dendo as leis sempre para o Rei, dei­xando o povo à míngua e à mercê de todos os ul­trajes: Vê que aqueles que devem à po­breza/​Amor di­vino, e ao povo ca­ri­dade,/​Amam so­mente mandos e ri­queza,/​Si­mu­lando jus­tiça e in­te­gri­dade;/​Da feia ti­rania e de as­pe­reza/​Fazem di­reito e vã se­ve­ri­dade;/​Leis em favor do Rei se es­ta­be­lecem,/​As em favor do povo só pe­recem.

No Texto Crí­tico, que acom­panha cada pe­ríodo em aná­lise de Os Lu­síadas, es­creve An­tónio Borges Co­elho: «O verso ca­mo­niano louva e fus­tiga. Louva a co­ragem, os chefes que pre­vêem os pe­rigos, os ex­pertos peitos, os que sobem ao mando quase for­çados. E fus­tiga: reis, no­bres ineptos, fi­lhos-fa­mília, pa­dres am­bi­ci­osos e ti­râ­nicos.»

Que falta ainda nos faz este vigor, esta su­pe­rior forma de afir­mação da língua e da jus­tiça, a cla­reza e a co­ragem deste verbo. Para os que ques­ti­onam a im­por­tância de ler hoje Os Lu­síadas, a in­ter­pre­tação crí­tica que dele nos dá Borges Co­elho é ade­quada res­posta.

https://www.avante.pt/pt/2666/argumentos/178047/Os-Lus%C3%ADadas-%E2%80%93-Antologia-tem%C3%A1tica-e-texto-cr%C3%ADtico-de-Ant%C3%B3nio-Borges-Coelho-com-ilustra%C3%A7%C3%B5es-de-Manuel-Sam-Payo.htm

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Domingos Lobo - Cró­nicas e Dis­cursos, de An­tónio Borges Co­elho


* Domingos Lobo

Cró­nicas e Dis­cursos são pro­duto de uma sagaz, viva e ac­tu­ante de­núncia cí­vica do autor

No novo Museu Na­ci­onal da Re­sis­tência e Li­ber­dade, no Forte de Pe­niche, en­con­tramos o Mo­nu­mento de Ho­me­nagem aos Presos Po­lí­ticos. É um for­tís­simo e sim­bó­lico ele­mento es­cul­tó­rico, da au­toria de José Au­rélio. Na base dessa ins­ta­lação mag­ní­fica temos di­reito a uma frase feliz, com en­de­reço, da au­toria de An­tónio Borges Co­elho: Dis­seram Não, para que a água da vida cor­resse limpa!

Este Cró­nicas e Dis­cursos, de An­tónio Borges Co­elho, trans­porta-nos, em vá­rias dessas cró­nicas, pro­duto de uma sagaz, viva e ac­tu­ante de­núncia cí­vica, para os dias em que o autor es­teve preso no Forte de Pe­niche com ou­tros ca­ma­radas, acu­sado do crime de pensar di­fe­rente, de ter, como muitos ou­tros, uma po­sição crí­tica contra a di­ta­dura e de, na­tu­ral­mente, lutar para o seu der­rube. Nas três cró­nicas que têm o Forte-Prisão como ce­nário, o autor evoca Álvaro Cu­nhal, líamos co­pi­o­gra­fadas as suas pa­la­vras no Tri­bunal Ple­nário, e os tempos em que ambos ali es­ti­veram em re­clusão. As três cró­nicas traçam o perfil de Cu­nhal, o in­te­lec­tual que es­creveu na For­ta­leza o en­saio A Arte, o Ar­tista e a So­ci­e­dade; a no­vela Cinco Dias e Cinco Noites A Mu­lher do Lenço Preto, que re­ce­beria o tí­tulo final de Até Amanhã, Ca­ma­radas, e o com­ba­tente. Fala-nos da fuga épica de 3 de Ja­neiro de 1960, dia em que Sa­lazar tremeu.

A cró­nica é o gé­nero jor­na­lís­tico mais nobre e di­fícil, diz quem por essas an­danças pre­en­cheu longos lin­guados e lhe sentiu os es­co­lhos da in­ves­tida. Borges Co­elho, con­segue tornar o gé­nero sim­ples, o seu apo­dí­tico modo dis­cur­sivo traça a es­sência, sem em­barcar em re­dun­dân­cias, mesmo quando o tema é de âm­bito li­te­rário, como nas cró­nicas em que nos fala de An­tónio Nobre, num texto que é um no­tável en­saio sobre a obra do autor de , esse poeta que en­cheu a po­esia de cor; ou de José Sa­ra­mago, um re­trato sen­si­tivo, José! Fazem-nos muita falta a tua ami­zade e as tuas con­versas, do autor de O Ano da Morte de Ri­cardo Reis Le­van­tado do Chão, com­pa­nheiros que foram no Su­ple­mento Cul­tural do Jornal A Ca­pital.

Sa­li­en­tamos ainda do ca­pí­tulo Ca­derno do Re­pórter, a cró­nica Da­maia 1968, a des­crição dos su­búr­bios para os quais co­me­çavam a ser em­pur­rados os tra­ba­lha­dores que não con­se­guiam pagar as rendas, já usu­rá­rias nessa data, pra­ti­cadas, como hoje, numa Lisboa a saque: Da­maia. Gigas de ca­rapau re­fulgem ao sol es­cal­dante en­quanto, contra a mu­ralha do Aque­duto, ene­gre­cida pelo tempo, se en­costam portas sem pa­rede, cai­bros, latas, pernas de ca­deiras de­sir­ma­nadas.

A cró­nica Um Rio Sub­ter­râneo trata de um tema caro ao autor, através de um es­crito do cristão-novo, Ri­beiro San­ches, Di­fi­cul­dades Que Tem Um Reino Velho em Emendar-se, livro em que San­ches ad­voga, entre ou­tras «he­re­sias», que se re­tirem ao clero os ren­di­mentos em dí­zimas e terras e re­cebam apenas sa­lário «e pouco». San­ches é um autor a que Borges Co­elho também re­correu, em­bora noutra pers­pec­tiva, no livro Reino Velho Com Emenda.

Um texto so­bre­leva pela sua ac­tu­a­li­dade, con­tun­dência e bri­lhan­tismo nar­ra­tivo: O Médio Ori­ente na Sala dos Ca­pelos, pu­bli­cado ori­gi­nal­mente em o diário. Nessa sala ilustre e so­lene da Uni­ver­si­dade de Coimbra, um guer­ri­lheiro pa­les­ti­niano, que pa­recia saído do nosso pró­prio povo, falou do seu ter­ri­tório na­ci­onal ocu­pado. O pú­blico aplaudiu de pé e os re­tratos dos reis não caíram abaixo. Numa outra pas­sagem deste texto, o his­to­ri­ador faz jus ao di­a­le­tismo como vem cons­truindo a sua ho­mé­rica His­tória de Por­tugal: Res­peitar os mortos só por fora é usar a His­tória para parar a His­tória, é pre­tender obrigar os povos a man­terem eter­na­mente as ca­deias da de­pen­dência e da sub­missão.

É ainda o olhar do his­to­ri­ador que des­creve o terror da In­vasão do Iraque, re­fe­rindo que o pavor e a morte caem sobre a ci­dade das Mil e Uma Noites; das bombas da NATO que, em Abril de 1999, de noite, caíram sobre a Ju­gos­lávia, per­gun­tando-se, em outra cró­nica, como o an­gus­tiado Er­nest He­mingway, Por Quem os Sinos Do­bram?, ou Kant, de­sig­nando as duas con­di­ções que con­duzem o homem ao êx­tase per­pétuo: «O céu es­tre­lado por cima das nossas ca­beças e a lei moral no fundo do nosso co­ração.»

Cró­nicas e Dis­cursos, de An­tónio Borges Co­elho, pro­fessor ju­bi­lado da Fa­cul­dade de Le­tras de Lisboa, in­ves­ti­gador, his­to­ri­ador, poeta, cro­nista, dra­ma­turgo e fic­ci­o­nista, uma das per­so­na­li­dades ci­meiras da nossa cul­tura, dá-nos nestas ex­ce­lentes cró­nicas, uma visão pro­funda, re­flec­tida e culta da agreste re­a­li­dade po­lí­tica e so­cial dos nossos dias, afir­mando que A es­pe­rança de que falo de­sem­boca em mul­ti­dões na rua larga em de­fesa da dig­ni­dade e das li­ber­dades con­quis­tadas em sé­culos de in­venção, de luta e de sangue.

https://www.avante.pt/pt/2648/argumentos/176762/Cr%C3%B3nicas-e-Discursos-de-Ant%C3%B3nio-Borges-Coelho.htm

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

 

Trazer nos versos a «consciência do mundo» - Evocação de Eugénio de Andrade (1923/2005) no centenário do seu nascimento

ª Domingos Lobo


Jorge Pi­nheiro

Eu­génio de An­drade, pseu­dó­nimo li­te­rário de José Fon­ti­nhas Neto, nasceu em Póvoa de Ata­laia, con­celho do Fundão, a 19 de Ja­neiro de 1923. Filho de cam­po­neses, o pai aban­donou a fa­mília era Eu­génio ainda cri­ança. Aos oito anos, mudou-se com a mãe para Cas­telo Branco, numa pas­sagem breve, fi­xando-se em Lisboa a partir de 1932. Na ca­pital fre­quen­tará o liceu Passos Ma­nuel e a Es­cola Téc­nica Ma­chado de Castro.

A vo­cação li­te­rária de Eu­génio de An­drade foi pre­coce, co­meça a ma­ni­festar-se por volta dos seus doze, treze anos. O gosto pela lei­tura leva-o a fre­quentar as bi­bli­o­tecas pú­blicas de Lisboa, a des­co­brir o mundo vasto e fan­tás­tico da lei­tura dado que, diz-nos ele em Rosto Pre­cário, «em casa havia apenas um só livro, uma Vida de Santos que nin­guém lia». Jack London, Júlio Verde, todo o Eça, Ale­xandre Dumas, Tolstoi, Gorki, Jun­queiro e Aqui­lino, fazem parte do ro­teiro das suas lei­turas de ado­les­cente.

Inicia a es­crita dos seus pri­meiros po­emas por volta dos treze anos, ar­ris­cando en­viar al­guns deles a An­tónio Botto, ao tempo um poeta fa­moso quer pelo es­tilo quer pelo modo trans­gressor dos con­teúdos, so­bre­tudo a partir da pu­bli­cação do seu livro Can­ções. Botto gosta dos po­emas do jovem José Fon­ti­nhas e in­cen­tiva-o a es­crever mais e a pu­blicar. É a partir deste in­cen­tivo que pu­bli­cará, em 1939, aos de­zas­seis anos, o seu pri­meiro poema, quase pu­eril, in­ti­tu­lado Nar­ciso, poema «sobre a be­leza que se con­templa e se com­praz em si mesma», con­fes­sará em Rosto Pre­cário, poema em que a in­fluência de Botto, as suas co­or­de­nadas es­té­ticas, está muito pre­sente.

Pas­sará, a partir da pu­bli­cação desse poema, a as­sinar os seus textos com o pseu­dó­nimo Eu­génio de An­drade, com o qual pas­sará a cu­nhar todos os tí­tulos da sua vasta e po­lié­drica obra. Em 1942 pu­bli­cará Ado­les­cente, o seu livro de es­treia. Mais tarde re­ti­rará este livro da sua bi­bli­o­grafia, con­si­de­rando que a sua ver­da­deira voz poé­tica ainda não es­tava nele pre­sente. A ver­dade é que a in­fluência de Botto, e de Pessoa, cuja po­esia co­nheceu através do poeta de Bai­o­netas da Morte, está, nesse livro ini­cial, muito vin­cada.

Uma voz pró­pria e in­con­fun­dível

Eu­génio pro­cu­rava a sua iden­ti­dade, uma voz que fosse sua e in­con­fun­dível, e essa voz co­meça a de­finir-se nos seus Pri­meiros Po­emas (1940), que ele, sim­bo­li­ca­mente, de­dica a Fer­nando Pessoa. Esses mag­ní­ficos versos trans­portam já os si­nais da sua voz plena e fu­tura, como em Canção, que se trans­for­mará num dos seus mais fa­mosos e an­to­lo­gi­ados po­emas: Tinha um cravo no meu balcão;/​veio um rapaz e pediu-mo/- ​mãe, dou-lho ou não?//​Sen­tada, bor­dava um lenço de mão;/​veio um rapaz e pediu-mo/- ​mãe, dou-lho ou não?//​Dei um cravo e dei um lenço,/​só não dei o co­ração;/​mas se o rapaz mo pedir/-​mãe, dou-lho ou não?

Essa voz ma­dura e res­so­nante, surge, já de­fi­nida e vi­go­rosa, no livro As Mãos e os Frutos, de 1948, livro que o tor­nará um poeta re­co­nhe­cido e sin­gular, aplau­dido pela crí­tica e pelos lei­tores que, a partir deste, o des­co­brem. As Mãos e os Frutos é ainda hoje um dos seus tí­tulos mais em­ble­má­ticos, ao qual se jun­tará, já nos anos 1960, essa obra-prima da nossa po­esia con­tem­po­rânea que é Os­ti­nato Ri­gore.

Os temas e o lé­xico que farão parte cons­tante do seu modo poé­tico, estão já ple­na­mente de­fi­nidos e pre­sentes em As Mãos e os Frutos, como o amor sem sombra de amar­gura, os ma­dri­gais, que ele vai buscar a Pêro Meogo, a na­tu­reza, as ár­vores, os pás­saros, a água, os barcos, a noite, o fas­cínio pelo corpo, pelos corpos, a que José Sa­ra­mago cha­mará «po­esia do corpo, a que chega me­di­ante uma de­pu­ração con­tínua», o amor pela mãe, o li­rismo pró­ximo da ma­téria dos so­nhos, como neste be­lís­simo poema de amor ao qual Luís Cília daria mú­sica e voz, trans­for­mando-o numa das nossas can­ções dos anos som­brios, onde a vida e a es­pe­rança se mis­turam e vi­bram: Fe­cundou-te a vida nos pi­nhais./​Fe­cundou-te de seiva e de calos. /alargou-te o corpo pelos areais/​onde o mar se es­praia sem con­torno e cor.//​Pôs-te sonho onde havia apenas/​si­lêncio de rosas por abrir,/​e um jeito nas mãos mo­renas/​de que sabe que o fruto há-de surgir.//​Brotou água onde tudo era se­cura./​Paz onde mo­rava a so­lidão/​E a cer­teza de que a se­pul­tura/​é uma cova onde não cabe o co­ração.

No seu livro se­guinte, Os Amantes Sem Di­nheiro (1949), Eu­génio es­creve num texto in­tro­du­tório, re­fe­rindo-se à sua terra de nas­ci­mento e aos anos que aí viveu, re­ve­lador de al­guns dos as­pectos, das me­mó­rias afec­tivas e das re­la­ções mais fe­cundas e pe­renes, a re­lação de amor/​li­ber­tação com a pro­ge­ni­tora é pa­ra­dig­má­tica, pre­sentes na sua obra poé­tica: Da casa da Eira só me lembro do quar­tito que se se­guia à co­zinha. Um ta­bique se­pa­rava-nos da casa da Ti Ana, uma ve­lhota a quem minha mãe às vezes me dei­xava a guardar. […] Uma manhã acordei so­zinho em casa. Acordei a chorar. – Ó mãe, mãe… - Mas a mãe não vinha. Não havia mãe. Havia só a porta fe­chada. […] E nin­guém me abriu a porta para apa­nhar as es­trelas. Nem mesmo tu, mãe, que a essas horas an­davas a ga­nhar o pão para a boca da­quele que hoje te ofe­rece estes versos.

Em Os Amantes Sem Di­nheiro, Eu­génio ins­creve uma série de po­emas in­tem­po­rais, que são ainda hoje re­fe­ren­ciais do seu uni­verso poé­tico. Po­emas como Os Amantes Sem Di­nheiro, que dá tí­tulo ao livro, Poema à Mãe Adeus, cons­ti­tuem-se na sua vasta obra poé­tica mo­mentos raros e su­blimes, que le­varam Óscar Lopes a con­si­derá-lo o mais per­feito dos po­etas por­tu­gueses, sendo também o de maior pú­blico, e Edu­ardo Lou­renço a re­ferir a sua obra como A pri­meira e a mais pura ex­pressão da po­esia como ar­qui­tec­tura do real, a mais lím­pida ma­ni­fes­tação da en­trega sem re­servas aos sor­ti­lé­gios do “puro poé­tico”.

Co­or­de­nadas poé­ticas

A ne­gação do luxo, da su­per­fi­ci­a­li­dade, do egoísmo da vida con­tem­po­rânea, a de­núncia do aces­sório, da fu­ti­li­dade e dos hor­rores da guerra, são ou­tras das co­or­de­nadas que a sua po­esia também ma­ni­festa. No livro de 1951, As Pa­la­vras In­ter­ditas, es­creve no poema Não é Ver­dade, a sua in­dig­nação: Não é ver­dade tanta loja de per­fumes, não é ver­dade tanta rosa de­ce­pada,/​tanta ponte de fumo, tanta roupa es­cura,/​tanto re­lógio, tanta pomba as­sas­si­nada//​Não quero para mim tanto ve­neno,/​tanta ma­dru­gada var­rida pelo gelo,/​nem olhos pin­tados onde morre o dia,/​nem beijos de lá­grimas no meu ca­belo. No poema que dá tí­tulo ao livro, gri­tará a re­volta e a so­lidão do nosso flu­tu­ante e amargo modo de estar vivo, numa lin­guagem que vei­cula o que é hu­mano, como bem o en­tendeu Óscar Lopes: Dói-me esta água, este ar que se res­pira,/ dói-me esta so­lidão de pedra es­cura,/​estas mãos noc­turnas onde aperto/​os meus dias que­brados na cin­tura.//​E a noite cresce apai­xo­na­da­mente./​Nas suas mar­gens nuas, de­so­ladas,/​cada homem tem apenas para dar/​um ho­ri­zonte de ci­dades bom­bar­de­adas.

Já pro­fis­si­onal do Mi­nis­tério da Saúde, teve uma breve pas­sagem por Coimbra (1943/​1946), onde es­ta­be­lece ami­zade com Mi­guel Torga e con­vive com ou­tros po­etas e crí­ticos de ge­ra­ções e op­ções es­té­ticas di­versas, como Carlos de Oli­veira, Paulo Quin­tela, Afonso Du­arte e Edu­ardo Lou­renço. No en­tanto, a sua fi­li­ação li­te­rária, de­pois das in­fluên­cias ini­ciais de Botto, Pessoa e Ca­sais Mon­teiro, mais Rim­baud, Lorca, Walt Whitman, es­ta­be­lece-se com os po­etas do de­no­mi­nado grupo dos in­de­pen­dentes, ou seja, dos po­etas que não per­ten­ciam às duas cor­rentes li­te­rá­rias então do­mi­nantes: o ne­or­re­a­lismo e o pre­sen­cismo. Po­etas como Sophia de Mello Breyner An­dresen, Jorge de Sena, Na­tália Cor­reia e An­tónio Ramos Rosa, nas­cidos entre 1919 (Sena e Sophia), 1923 (Na­tália) e 1924 (Ramos Rosa), terão per­ten­cido a esse inor­gâ­nico grupo, tendo apenas em comum, com maior ou menor ex­pressão, a sua pre­clara opo­sição ao re­gime fas­cista. As pro­du­ções poé­ticas destes au­tores não dei­xaram, a es­paços, de re­flectir esse po­si­ci­o­na­mento cí­vico de um modo ge­né­rico, em­bora, e por vezes, ide­o­lo­gi­ca­mente con­fuso.

Co­lo­cado pro­fis­si­o­nal­mente no Porto, como ins­pector ad­mi­nis­tra­tivo do Mi­nis­tério da Saúde, será nessa ci­dade que pa­recia um sin­di­cato de viúvas, na ex­pressão de João Vil­laret, que irá es­ta­be­lecer-se a partir de 1950, aí vi­vendo até ao final dos seus dias, sendo con­si­de­rado um dos seus mais ilus­tres ha­bi­tantes. Aí co­nhe­cerá José da Cruz Santos, esse mestre das edi­ções exem­plares, seu editor e cúm­plice, tendo grande parte da sua obra sido pu­bli­cada pela mí­tica edi­tora Inova.

Poeta como pe­dreiro

Em vá­rias en­tre­vistas, Eu­génio fala-nos da re­vo­lução dos cravos e do País em que muita coisa mudou e as­sume no livro Epi­tá­fios, o seu po­si­ci­o­na­mento po­lí­tico, em belos e sim­bó­licos po­emas, como este O Comum da Terra, to­cante tri­buto a Vasco Gon­çalves, re­cor­dando também os dias altos e ful­gu­rantes de Abril, mas já a de­nun­ciar as mar­gens que o in­cen­di­avam: Nesses dias era sí­laba a sí­laba que che­gavas/​Quem co­nheça o sul e a sua trans­pa­rência/​também sabe que no verão pelas ve­redas/​da cal a cris­pação da sombra ca­minha de­vagar./​De tanta pa­lavra que dis­seste al­gumas/​se per­diam, ou­tras duram ainda, são lume/​breve arado ceia de pobre roupa re­men­dada./​Ha­bi­tavas a terra, o comum da terra, e a paixão/​era mo­rada e ins­tru­mento de ale­gria.//​Esse eras tu: in­cli­nação da água. Na margem/​vento areias mas­tros lá­bios, tudo ardia.

Neste mesmo livro, mais um dos seus po­emas an­to­ló­gicos, es­crito ainda nos dias som­brios do ca­e­ta­nismo, mas já inun­dado pelas águas in­qui­etas do porvir, anun­ci­ador das pa­la­vras que é ur­gente se­mear, pa­la­vras que aguardam na noite o sol e o vinho que ha­ve­ríamos de beber em redor do fogo: Elegia das Águas Ne­gras Para Che Gue­vara – Olhos aper­tados pelo medo/​aguardam na noite o sol onde cresces,/​onde te con­fundes com os ramos/​de sangue do verão ou o rumor/​dos pés brancos da chuva nas areias.//​A pa­lavra, como tu di­zias, chega/​hú­mida dos bos­ques: temos que semeá-la;/​chega hú­mida da terra: temos que de­fendê-la;/​chega com as an­do­ri­nhas/​que a be­beram sí­laba a sí­laba na tua boca.//​Cada pa­lavra tua é um homem de pé,/​cada pa­lavra tua faz do or­valho uma faca,/​faz do ódio um vinho ino­cente/​para be­bermos con­tigo/​no co­ração em redor do fogo.

Um outro poema ainda, in­tenso e ma­goado, que nos fala de José Dias Co­elho e de Ca­ta­rina, da morte de ambos às mãos do puro ódio fas­cista: […] di­zias: es­paço diurno onde o rumor/​do sangue é um rumor de ave -/​re­para como voa, e poisa nos om­bros/​da Ca­ta­rina que não cessam de matar.//​Sem vo­cação para a morte, di­zíamos. Também/​ela, também ela a não tinha. Na pla­nície/ branca era uma fonte: em si trazia/​um co­ração in­cli­nado para a se­mente do fogo.//​Ca­ta­rina ou José – o que é um nome?/​Que nome nos im­pede de morrer,/​quando se beija a terra de­vagar/​ou uma cri­ança tra­zida pela brisa?

Ao lermos estes po­emas de Eu­génio, e os sig­ni­fi­cantes que os es­tru­turam, ape­tece-nos dizer como Ramos Rosa: Rei Midas do verbo: pa­lavra que to­casse vi­rava ouro de lei.

Tra­dutor de Lorca, das Cartas Por­tu­guesa, atri­buídas a Ma­riana Al­co­fo­rado, dos po­emas de Safo; or­ga­ni­zador de di­versas an­to­lo­gias; Prémio Ca­mões, em 2001, Grande Ofi­cial da Ordem Mi­litar de San­tiago da Es­pada, pré­mios da Crí­tica e da APE; poeta da ple­ni­tude e da es­pe­rança, poeta maior de um fir­ma­mento de no­tá­veis, Eu­génio de An­drade con­si­de­rava que o seu tra­balho de poeta seria um ofício equi­pa­rado ao de um pe­dreiro, pro­fissão que fora a do seu avô: Ele usava o gra­nito como ma­te­rial, as suas casas estão ainda de pé; o neto tra­balha com po­eira, sem ne­nhuma pre­tensão de de­sa­fiar o tempo.

Quando as pa­la­vras de um poeta nos tocam, esse acto em cons­trução, pri­mor­dial do ser, o poema é subs­tância e ar­gila. Pode moldar a nossa forma de en­tender e de ha­bitar o mundo e dar-nos cons­ci­ência do modo como o po­demos trans­formar. Eu­génio de An­drade é um desses raros po­etas. Por isso, con­nosco ca­minha. Para sempre.

Bi­bli­o­grafiaObras de Eu­génio de An­drade; Pre­fácio de Óscar Lopes para An­to­logia Breve – Inova, 1972; A Po­esia Por­tu­guesa nos Me­ados do Sé­culo XX, de Maria de Fá­tima Ma­rinho, Ca­minho, 1987; In­ci­sões Oblí­quas, de An­tónio Ramos Rosa, Ca­minho, 1987; Ci­fras do Tempo, de Óscar Lopes, Ca­minho, 1990.


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