Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Domingos Lobo - “Felizmente Há Luar”, a propósito do centenário de Luís de Sttau-Monteiro
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Domingos Lobo - Toda a Longa Noite, de Erskine Caldwell
ll
* Domingos LoboErskine Caldwell foi, entre nós, nos anos 1960-70 do século transacto, um dos mais populares escritores
A pretexto do conflito na Ucrânia, a senhora Ursula von der Leyen encetou uma campanha ideológica e persecutória contra Moscovo, criando anátemas inibidores e proibindo, democraticamente, o acesso dos europeus da UE às estações de televisão russas, ou seja, inviabilizando o contraditório e a nossa dialéctica capacidade de análise, e a tudo o que ressumasse cultura vinda do grande país do leste europeu. Tolstoi, Gorky, Gogol, Chólokhov, clássicos da literatura universal, foram ostracizados, a eles juntando músicos da dimensão de Tchaikovski, Rachmaninoff, Shostakovitch, Prokofiev ou Rimsky-Korsakov, vítimas de uma saga miserável de tentativa de banir do nosso convívio a cultura de um povo, e da humanidade em geral, modo perverso de exclusão que nem o fascismo de Salazar/Caetano ousou empreender.
Aquando da publicação entre nós do livro Alma Russa1, de Joseph Conrad, pela Livraria Civilização, em 1945, e proibido pela PIDE em 1947, ainda no rescaldo do inelutável contributo da URSS para a rendição do exército nazi e do fim da guerra, um atento censor, num primeiro impulso de rejeição, elaborou o seguinte relatório: «É um livro de propaganda revolucionária passado ainda no tempo dos Czares. Julgo que deve ser proibido porque este e muitos outros livros que pejam o nosso mercado têm o fim inconvenientíssimo de alimentarem a mística russa.» Ora, este magnífico romance de Conrad nada tem a ver com a Rússia temida pelos fascismos, saída da Revolução de Outubro, passa-se entre um grupo de Cossacos em luta contra a opressão Czarista e desenvolve-se em torno de Razunov, no fundo um rapaz vulgar, mas dotado de uma enorme capacidade de trabalho e de sensibilidade, que o leva a dizer que é russo apenas, e mais nada, a indómita vontade, a moral de Razunov e a sua luta contra as injustiças farão dele, e dos seus camaradas de jornada, a encarnação da Alma Russa.
Do escritor americano Erskine Caldwell acaba de ser publicado, numa pequena edição já praticamente esgotada, pela mão do editor Leonardo de Freitas, um dos seus títulos mais emblemáticos, o qual foi publicado em Portugal, antes do 25 de Abril, sob o título «Guerrilheiros Russos», edição que, no entanto, foi censurada pelo fascismo. Trata-se de Toda a Longa Noite (All Night Long). Erskine Claldwell foi, entre nós, nos anos 1960-70 do século transacto, um dos mais populares escritores, com títulos como A Estrada do Petróleo, A Jeira de Deus, O Pregador e Certas Mulheres, sendo uma das grandes e inquestionáveis vozes do neo-realismo norte americano.
O seu romance Toda a Longa Noite traça o retrato poderoso e realista da saga dos partisans russos, em defesa da sua Pátria contra o terror nazi. A 22 de Junho de 1941, três milhões de tropas nazis invadiram a União Soviética. Juntamente com o Exército Vermelho, milhares de patriotas, gente simples do povo, trabalhadores dos campos e das oficinas, encetaram uma luta comum contra o poderoso exército de Hitler, impedindo chacinas, violação de mulheres, fuzilamentos bárbaros (p. ex., passando com os tanques sobre os corpos da população indefesa), roubos e destruição de aldeias inteiras, fuzilando os presidentes do Soviete, exibindo nas praças as mulheres nuas depois de as violarem. Havia dúzias e dúzias de brigadas de partisans a oeste do rio Dniepre, e centenas entre o Báltico e o Mar Negro. Algumas das brigadas situadas entre Smolensk e Minsk tinham proporções de regimentos. No longo Inverno Russo, a acção conjugada dos partisans foi fundamental para impedir ou minorar a progressão das tropas hitlerianas, boicotando equipamento, destruindo camiões de abastecimento, libertando mulheres, crianças e velhos sequestrados pelos nazis.
Erskine Caldwell afirma-se neste livro como um exímio narrador e um corajoso e intenso historiador social, rendido à força e à determinação de um grupo de guerrilheiros, os quais, quase sem meios, enfrentaram a besta fascista: Sérgio, tal como Razunov, é um típico homem do povo russo, um campónio cândido, forte, obstinado, movido pelos impulsos perenes da alma russa a que os valores soviéticos deram um novo vigor. Tal como os seus companheiros de luta, Natacha, Fedor, Pavlenko ou Maria Makarova, parecem, na prosa poderosa e sagaz de Caldwell, personagens históricas arrancadas das páginas de Tolstoi, Gogol ou Gorki.
Leonardo de Freitas, com escassos meios, não quis deixar de trazer para os nossos dias este grande épico, sabendo-o imprescindível para os complexos tempos em que o ódio ao outro campeia, inexorável e sem cautelas, junto com a ignorância, mesmo que numa tradução brasileira pouco cuidada, de 1942.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2025
Domingos Lobo - Os Lusíadas – Antologia temática e texto crítico, de António Borges Coelho, com ilustrações de Manuel Sam Payo
sexta-feira, 30 de agosto de 2024
Domingos Lobo - Crónicas e Discursos, de António Borges Coelho
* Domingos Lobo
Crónicas e Discursos são produto de uma sagaz, viva e actuante denúncia cívica do autor
No novo Museu Nacional da Resistência e Liberdade, no Forte de Peniche, encontramos o Monumento de Homenagem aos Presos Políticos. É um fortíssimo e simbólico elemento escultórico, da autoria de José Aurélio. Na base dessa instalação magnífica temos direito a uma frase feliz, com endereço, da autoria de António Borges Coelho: Disseram Não, para que a água da vida corresse limpa!
Este Crónicas e Discursos, de António Borges Coelho, transporta-nos, em várias dessas crónicas, produto de uma sagaz, viva e actuante denúncia cívica, para os dias em que o autor esteve preso no Forte de Peniche com outros camaradas, acusado do crime de pensar diferente, de ter, como muitos outros, uma posição crítica contra a ditadura e de, naturalmente, lutar para o seu derrube. Nas três crónicas que têm o Forte-Prisão como cenário, o autor evoca Álvaro Cunhal, líamos copiografadas as suas palavras no Tribunal Plenário, e os tempos em que ambos ali estiveram em reclusão. As três crónicas traçam o perfil de Cunhal, o intelectual que escreveu na Fortaleza o ensaio A Arte, o Artista e a Sociedade; a novela Cinco Dias e Cinco Noites e A Mulher do Lenço Preto, que receberia o título final de Até Amanhã, Camaradas, e o combatente. Fala-nos da fuga épica de 3 de Janeiro de 1960, dia em que Salazar tremeu.
A crónica é o género jornalístico mais nobre e difícil, diz quem por essas andanças preencheu longos linguados e lhe sentiu os escolhos da investida. Borges Coelho, consegue tornar o género simples, o seu apodítico modo discursivo traça a essência, sem embarcar em redundâncias, mesmo quando o tema é de âmbito literário, como nas crónicas em que nos fala de António Nobre, num texto que é um notável ensaio sobre a obra do autor de Só, esse poeta que encheu a poesia de cor; ou de José Saramago, um retrato sensitivo, José! Fazem-nos muita falta a tua amizade e as tuas conversas, do autor de O Ano da Morte de Ricardo Reis e Levantado do Chão, companheiros que foram no Suplemento Cultural do Jornal A Capital.
Salientamos ainda do capítulo Caderno do Repórter, a crónica Damaia 1968, a descrição dos subúrbios para os quais começavam a ser empurrados os trabalhadores que não conseguiam pagar as rendas, já usurárias nessa data, praticadas, como hoje, numa Lisboa a saque: Damaia. Gigas de carapau refulgem ao sol escaldante enquanto, contra a muralha do Aqueduto, enegrecida pelo tempo, se encostam portas sem parede, caibros, latas, pernas de cadeiras desirmanadas.
A crónica Um Rio Subterrâneo trata de um tema caro ao autor, através de um escrito do cristão-novo, Ribeiro Sanches, Dificuldades Que Tem Um Reino Velho em Emendar-se, livro em que Sanches advoga, entre outras «heresias», que se retirem ao clero os rendimentos em dízimas e terras e recebam apenas salário «e pouco». Sanches é um autor a que Borges Coelho também recorreu, embora noutra perspectiva, no livro Reino Velho Com Emenda.
Um texto sobreleva pela sua actualidade, contundência e brilhantismo narrativo: O Médio Oriente na Sala dos Capelos, publicado originalmente em o diário. Nessa sala ilustre e solene da Universidade de Coimbra, um guerrilheiro palestiniano, que parecia saído do nosso próprio povo, falou do seu território nacional ocupado. O público aplaudiu de pé e os retratos dos reis não caíram abaixo. Numa outra passagem deste texto, o historiador faz jus ao dialetismo como vem construindo a sua homérica História de Portugal: Respeitar os mortos só por fora é usar a História para parar a História, é pretender obrigar os povos a manterem eternamente as cadeias da dependência e da submissão.
É ainda o olhar do historiador que descreve o terror da Invasão do Iraque, referindo que o pavor e a morte caem sobre a cidade das Mil e Uma Noites; das bombas da NATO que, em Abril de 1999, de noite, caíram sobre a Jugoslávia, perguntando-se, em outra crónica, como o angustiado Ernest Hemingway, Por Quem os Sinos Dobram?, ou Kant, designando as duas condições que conduzem o homem ao êxtase perpétuo: «O céu estrelado por cima das nossas cabeças e a lei moral no fundo do nosso coração.»
Crónicas e Discursos, de António Borges Coelho, professor jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa, investigador, historiador, poeta, cronista, dramaturgo e ficcionista, uma das personalidades cimeiras da nossa cultura, dá-nos nestas excelentes crónicas, uma visão profunda, reflectida e culta da agreste realidade política e social dos nossos dias, afirmando que A esperança de que falo desemboca em multidões na rua larga em defesa da dignidade e das liberdades conquistadas em séculos de invenção, de luta e de sangue.
https://www.avante.pt/pt/2648/argumentos/176762/Cr%C3%B3nicas-e-Discursos-de-Ant%C3%B3nio-Borges-Coelho.htm
quinta-feira, 19 de janeiro de 2023
Trazer nos versos a «consciência do mundo» - Evocação de Eugénio de Andrade (1923/2005) no centenário do seu nascimento
ª Domingos LoboEugénio de Andrade, pseudónimo literário de José Fontinhas Neto, nasceu em Póvoa de Atalaia, concelho do Fundão, a 19 de Janeiro de 1923. Filho de camponeses, o pai abandonou a família era Eugénio ainda criança. Aos oito anos, mudou-se com a mãe para Castelo Branco, numa passagem breve, fixando-se em Lisboa a partir de 1932. Na capital frequentará o liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro.
A vocação literária de Eugénio de Andrade foi precoce, começa a manifestar-se por volta dos seus doze, treze anos. O gosto pela leitura leva-o a frequentar as bibliotecas públicas de Lisboa, a descobrir o mundo vasto e fantástico da leitura dado que, diz-nos ele em Rosto Precário, «em casa havia apenas um só livro, uma Vida de Santos que ninguém lia». Jack London, Júlio Verde, todo o Eça, Alexandre Dumas, Tolstoi, Gorki, Junqueiro e Aquilino, fazem parte do roteiro das suas leituras de adolescente.
Inicia a escrita dos seus primeiros poemas por volta dos treze anos, arriscando enviar alguns deles a António Botto, ao tempo um poeta famoso quer pelo estilo quer pelo modo transgressor dos conteúdos, sobretudo a partir da publicação do seu livro Canções. Botto gosta dos poemas do jovem José Fontinhas e incentiva-o a escrever mais e a publicar. É a partir deste incentivo que publicará, em 1939, aos dezasseis anos, o seu primeiro poema, quase pueril, intitulado Narciso, poema «sobre a beleza que se contempla e se compraz em si mesma», confessará em Rosto Precário, poema em que a influência de Botto, as suas coordenadas estéticas, está muito presente.
Passará, a partir da publicação desse poema, a assinar os seus textos com o pseudónimo Eugénio de Andrade, com o qual passará a cunhar todos os títulos da sua vasta e poliédrica obra. Em 1942 publicará Adolescente, o seu livro de estreia. Mais tarde retirará este livro da sua bibliografia, considerando que a sua verdadeira voz poética ainda não estava nele presente. A verdade é que a influência de Botto, e de Pessoa, cuja poesia conheceu através do poeta de Baionetas da Morte, está, nesse livro inicial, muito vincada.
Uma voz própria e inconfundível
Eugénio procurava a sua identidade, uma voz que fosse sua e inconfundível, e essa voz começa a definir-se nos seus Primeiros Poemas (1940), que ele, simbolicamente, dedica a Fernando Pessoa. Esses magníficos versos transportam já os sinais da sua voz plena e futura, como em Canção, que se transformará num dos seus mais famosos e antologiados poemas: Tinha um cravo no meu balcão;/veio um rapaz e pediu-mo/- mãe, dou-lho ou não?//Sentada, bordava um lenço de mão;/veio um rapaz e pediu-mo/- mãe, dou-lho ou não?//Dei um cravo e dei um lenço,/só não dei o coração;/mas se o rapaz mo pedir/-mãe, dou-lho ou não?
Essa voz madura e ressonante, surge, já definida e vigorosa, no livro As Mãos e os Frutos, de 1948, livro que o tornará um poeta reconhecido e singular, aplaudido pela crítica e pelos leitores que, a partir deste, o descobrem. As Mãos e os Frutos é ainda hoje um dos seus títulos mais emblemáticos, ao qual se juntará, já nos anos 1960, essa obra-prima da nossa poesia contemporânea que é Ostinato Rigore.
Os temas e o léxico que farão parte constante do seu modo poético, estão já plenamente definidos e presentes em As Mãos e os Frutos, como o amor sem sombra de amargura, os madrigais, que ele vai buscar a Pêro Meogo, a natureza, as árvores, os pássaros, a água, os barcos, a noite, o fascínio pelo corpo, pelos corpos, a que José Saramago chamará «poesia do corpo, a que chega mediante uma depuração contínua», o amor pela mãe, o lirismo próximo da matéria dos sonhos, como neste belíssimo poema de amor ao qual Luís Cília daria música e voz, transformando-o numa das nossas canções dos anos sombrios, onde a vida e a esperança se misturam e vibram: Fecundou-te a vida nos pinhais./Fecundou-te de seiva e de calos. /alargou-te o corpo pelos areais/onde o mar se espraia sem contorno e cor.//Pôs-te sonho onde havia apenas/silêncio de rosas por abrir,/e um jeito nas mãos morenas/de que sabe que o fruto há-de surgir.//Brotou água onde tudo era secura./Paz onde morava a solidão/E a certeza de que a sepultura/é uma cova onde não cabe o coração.
No seu livro seguinte, Os Amantes Sem Dinheiro (1949), Eugénio escreve num texto introdutório, referindo-se à sua terra de nascimento e aos anos que aí viveu, revelador de alguns dos aspectos, das memórias afectivas e das relações mais fecundas e perenes, a relação de amor/libertação com a progenitora é paradigmática, presentes na sua obra poética: Da casa da Eira só me lembro do quartito que se seguia à cozinha. Um tabique separava-nos da casa da Ti Ana, uma velhota a quem minha mãe às vezes me deixava a guardar. […] Uma manhã acordei sozinho em casa. Acordei a chorar. – Ó mãe, mãe… - Mas a mãe não vinha. Não havia mãe. Havia só a porta fechada. […] E ninguém me abriu a porta para apanhar as estrelas. Nem mesmo tu, mãe, que a essas horas andavas a ganhar o pão para a boca daquele que hoje te oferece estes versos.
Em Os Amantes Sem Dinheiro, Eugénio inscreve uma série de poemas intemporais, que são ainda hoje referenciais do seu universo poético. Poemas como Os Amantes Sem Dinheiro, que dá título ao livro, Poema à Mãe e Adeus, constituem-se na sua vasta obra poética momentos raros e sublimes, que levaram Óscar Lopes a considerá-lo o mais perfeito dos poetas portugueses, sendo também o de maior público, e Eduardo Lourenço a referir a sua obra como A primeira e a mais pura expressão da poesia como arquitectura do real, a mais límpida manifestação da entrega sem reservas aos sortilégios do “puro poético”.
Coordenadas poéticas
A negação do luxo, da superficialidade, do egoísmo da vida contemporânea, a denúncia do acessório, da futilidade e dos horrores da guerra, são outras das coordenadas que a sua poesia também manifesta. No livro de 1951, As Palavras Interditas, escreve no poema Não é Verdade, a sua indignação: Não é verdade tanta loja de perfumes, não é verdade tanta rosa decepada,/tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,/tanto relógio, tanta pomba assassinada//Não quero para mim tanto veneno,/tanta madrugada varrida pelo gelo,/nem olhos pintados onde morre o dia,/nem beijos de lágrimas no meu cabelo. No poema que dá título ao livro, gritará a revolta e a solidão do nosso flutuante e amargo modo de estar vivo, numa linguagem que veicula o que é humano, como bem o entendeu Óscar Lopes: Dói-me esta água, este ar que se respira,/ dói-me esta solidão de pedra escura,/estas mãos nocturnas onde aperto/os meus dias quebrados na cintura.//E a noite cresce apaixonadamente./Nas suas margens nuas, desoladas,/cada homem tem apenas para dar/um horizonte de cidades bombardeadas.
Já profissional do Ministério da Saúde, teve uma breve passagem por Coimbra (1943/1946), onde estabelece amizade com Miguel Torga e convive com outros poetas e críticos de gerações e opções estéticas diversas, como Carlos de Oliveira, Paulo Quintela, Afonso Duarte e Eduardo Lourenço. No entanto, a sua filiação literária, depois das influências iniciais de Botto, Pessoa e Casais Monteiro, mais Rimbaud, Lorca, Walt Whitman, estabelece-se com os poetas do denominado grupo dos independentes, ou seja, dos poetas que não pertenciam às duas correntes literárias então dominantes: o neorrealismo e o presencismo. Poetas como Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Natália Correia e António Ramos Rosa, nascidos entre 1919 (Sena e Sophia), 1923 (Natália) e 1924 (Ramos Rosa), terão pertencido a esse inorgânico grupo, tendo apenas em comum, com maior ou menor expressão, a sua preclara oposição ao regime fascista. As produções poéticas destes autores não deixaram, a espaços, de reflectir esse posicionamento cívico de um modo genérico, embora, e por vezes, ideologicamente confuso.
Colocado profissionalmente no Porto, como inspector administrativo do Ministério da Saúde, será nessa cidade que parecia um sindicato de viúvas, na expressão de João Villaret, que irá estabelecer-se a partir de 1950, aí vivendo até ao final dos seus dias, sendo considerado um dos seus mais ilustres habitantes. Aí conhecerá José da Cruz Santos, esse mestre das edições exemplares, seu editor e cúmplice, tendo grande parte da sua obra sido publicada pela mítica editora Inova.
Poeta como pedreiro
Em várias entrevistas, Eugénio fala-nos da revolução dos cravos e do País em que muita coisa mudou e assume no livro Epitáfios, o seu posicionamento político, em belos e simbólicos poemas, como este O Comum da Terra, tocante tributo a Vasco Gonçalves, recordando também os dias altos e fulgurantes de Abril, mas já a denunciar as margens que o incendiavam: Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas/Quem conheça o sul e a sua transparência/também sabe que no verão pelas veredas/da cal a crispação da sombra caminha devagar./De tanta palavra que disseste algumas/se perdiam, outras duram ainda, são lume/breve arado ceia de pobre roupa remendada./Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão/era morada e instrumento de alegria.//Esse eras tu: inclinação da água. Na margem/vento areias mastros lábios, tudo ardia.
Neste mesmo livro, mais um dos seus poemas antológicos, escrito ainda nos dias sombrios do caetanismo, mas já inundado pelas águas inquietas do porvir, anunciador das palavras que é urgente semear, palavras que aguardam na noite o sol e o vinho que haveríamos de beber em redor do fogo: Elegia das Águas Negras Para Che Guevara – Olhos apertados pelo medo/aguardam na noite o sol onde cresces,/onde te confundes com os ramos/de sangue do verão ou o rumor/dos pés brancos da chuva nas areias.//A palavra, como tu dizias, chega/húmida dos bosques: temos que semeá-la;/chega húmida da terra: temos que defendê-la;/chega com as andorinhas/que a beberam sílaba a sílaba na tua boca.//Cada palavra tua é um homem de pé,/cada palavra tua faz do orvalho uma faca,/faz do ódio um vinho inocente/para bebermos contigo/no coração em redor do fogo.
Um outro poema ainda, intenso e magoado, que nos fala de José Dias Coelho e de Catarina, da morte de ambos às mãos do puro ódio fascista: […] dizias: espaço diurno onde o rumor/do sangue é um rumor de ave -/repara como voa, e poisa nos ombros/da Catarina que não cessam de matar.//Sem vocação para a morte, dizíamos. Também/ela, também ela a não tinha. Na planície/ branca era uma fonte: em si trazia/um coração inclinado para a semente do fogo.//Catarina ou José – o que é um nome?/Que nome nos impede de morrer,/quando se beija a terra devagar/ou uma criança trazida pela brisa?
Ao lermos estes poemas de Eugénio, e os significantes que os estruturam, apetece-nos dizer como Ramos Rosa: Rei Midas do verbo: palavra que tocasse virava ouro de lei.
Tradutor de Lorca, das Cartas Portuguesa, atribuídas a Mariana Alcoforado, dos poemas de Safo; organizador de diversas antologias; Prémio Camões, em 2001, Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, prémios da Crítica e da APE; poeta da plenitude e da esperança, poeta maior de um firmamento de notáveis, Eugénio de Andrade considerava que o seu trabalho de poeta seria um ofício equiparado ao de um pedreiro, profissão que fora a do seu avô: Ele usava o granito como material, as suas casas estão ainda de pé; o neto trabalha com poeira, sem nenhuma pretensão de desafiar o tempo.
Quando as palavras de um poeta nos tocam, esse acto em construção, primordial do ser, o poema é substância e argila. Pode moldar a nossa forma de entender e de habitar o mundo e dar-nos consciência do modo como o podemos transformar. Eugénio de Andrade é um desses raros poetas. Por isso, connosco caminha. Para sempre.
Bibliografia: Obras de Eugénio de Andrade; Prefácio de Óscar Lopes para Antologia Breve – Inova, 1972; A Poesia Portuguesa nos Meados do Século XX, de Maria de Fátima Marinho, Caminho, 1987; Incisões Oblíquas, de António Ramos Rosa, Caminho, 1987; Cifras do Tempo, de Óscar Lopes, Caminho, 1990.
hcenten%C3%A1rio-do-seu-nascimento.htm



