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sábado, 27 de junho de 2026

Susana Prizendt - Das terras raras às terras áridas

 


Estamos assistindo a um processo acelerado de degradação dos nossos solos. As terras férteis estão ficando cada vez mais raras

Por Redação

26/06/26 •  

Resumo da notícia ​

Das terras raras às terras áridas: o país no limiar entre a bênção e a maldição 

“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para o seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico a procura do coração” 


Itamar Vieira Junior, Torto Arado

por Susana Prizendt

(artigo escrito inteiramente por uma pessoa humana)

Suspensa em um apartamento de um bairro cada vez mais verticalizado da capital paulista – assim como outras milhões de pessoas urbanizadas -, posso esquecer que, sob todas as camadas de concreto abaixo de mim, existe um elemento natural chamado solo. Mas, ao regar minhas plantinhas na janela, procuro me conscientizar de que, apesar do crescente sufocamento ao qual ele tem sido submetido, ele ainda está lá, resistindo a ser dado como morto.

Há mais de 4 décadas, a Dra Ana Primavesi, mestra inconteste de quem atua nos movimentos agroecológicos, já semeara, no meio acadêmico brasileiro, algo que nossos povos originários sempre souberam: o solo é um organismo vivo. Ele pulsa, gestando lentamente as condições para a existência do que chamamos de fertilidade.

Estima-se que um quarto das espécies de seres vivos já conhecidas por nós esteja no solo. É o dobro das que habitam os oceanos. Uma biodiversidade que envolve animais, vegetais, fungos e uma infinidade de microorganismos, em uma trama dinâmica e vibrante, responsável pela ciclagem da matéria. Este é o processo que permite o crescimento das plantas; são elas que vão alimentar a fauna local e, também, a população humana.


domingo, 12 de abril de 2026

Prabhat Patnaik - Duas fracturas provocadas pelo neoliberalismo – Competição darwiniana entre os países do Sul Global


Prabhat Patnaik [*]
 
A posição do governo indiano em relação à guerra dos EUA e dos israelenses contra o Irão revela um grau inacreditável de pusilanimidade. A Índia participou na recente reunião de cerca de cinquenta países convocada pelo Reino Unido, onde o Irão foi fortemente criticado por ter fechado o Estreito de Ormuz, mas não proferiu uma única palavra contra a agressão dos EUA e dos israelenses ao Irão. Da mesma forma, a Índia foi um dos patrocinadores de uma resolução na Assembleia Geral da ONU que criticava o Irão por atacar outros países do Golfo (embora o Irão estivesse a atacar apenas as bases militares americanas localizadas nesses países); mas, mais uma vez, não foi proferida uma única palavra nessa resolução condenando a agressão dos EUA e dos israelenses ao Irão. É também digno de nota que a Índia demorou vários dias a manifestar qualquer pesar pelo assassinato do líder supremo do Irão, o aiatolá Ali Khamenei, e várias semanas a manifestar qualquer choque pelo covarde assassinato de 175 alunas inocentes em Minab.

Tal pusilanimidade, no entanto, não se limita à Índia: nada menos que 135 países foram co-patrocinadores da resolução desonesta e hipócrita da AGNU mencionada acima, com medo de que, caso contrário, ofendessem os americanos. Na verdade, com exceção de um punhado de países em todo o mundo, nenhum teve a coragem de condenar inequivocamente a guerra flagrantemente ilegal e imoral desencadeada pela aliança EUA-israelense contra o Irão. Trata-se de um assunto de extrema preocupação, pois o ataque ao Irão revoga o conceito de soberania das nações, que fora o conceito central na luta pela descolonização e que esteve na base de toda a ordem pós-colonial; destrói, por outras palavras, a própria razão de ser da descolonização.

Esta pusilanimidade por parte dos países do Terceiro Mundo é também motivo de grande perplexidade:   afinal, trata-se de países que travaram longas e árduas lutas anticoloniais para alcançar o estatuto de Estados independentes e soberanos; como podem permanecer em silêncio quando essa mesma soberania está a ser violada, no caso de um Estado do Terceiro Mundo, pelo poderio armado do imperialismo norte-americano?

A resposta a esta questão, sem dúvida complexa, deve, no entanto, incorporar o reconhecimento de pelo menos duas fraturas que o neoliberalismo introduziu no nosso mundo. Uma delas é a fragmentação do conceito de "nação", cuja concretização havia sido alcançada pela luta anticolonial. Este conceito de "nação" diferia fundamentalmente do conceito europeu, que se desenvolvera na sequência dos Tratados de Paz de Westfália, pelo menos em três aspetos:   em primeiro lugar, era inclusivo e não identificava qualquer "inimigo interno"; segundo, ao contrário do nacionalismo europeu, rejeitava quaisquer ambições imperiais próprias, no sentido de ter pretensões sobre os recursos de terras distantes; e terceiro, não idolatrava a nação como estando acima do povo, cujo "dever" supostamente era servi-la.

O surgimento deste conceito inclusivo de "nação" foi, por sua vez, um reflexo do facto de a luta anticolonial ser uma luta multi-classista; e o regime económico dirigista que foi erigido após a independência, embora promovesse o desenvolvimento capitalista, também procurava colocar freios ao capitalismo desenfreado em nome da consecução do desenvolvimento "nacional". Isto visava preservar a sua base de apoio multiclasse, à qual nem mesmo os capitalistas monopolistas se opunham naquela altura, uma vez que desejavam uma trajetória de desenvolvimento em que o Estado exercesse relativa autonomia face ao imperialismo. A existência de um vasto setor público fazia parte dessa trajetória. Além disso, a política de não alinhamento seguida por estes regimes dirigistas complementou essa busca pelo desenvolvimento em relativa autonomia face ao imperialismo. Michal Kalecki, o conhecido economista, errou ao chamar tais regimes de "regimes intermediários" e ao sugerir que as classes médias detinham o poder decisivo nesses regimes; mas acertou ao identificar o capitalismo de Estado (setor público) e o não alinhamento como as duas características mais distintivas desses regimes.

Com a globalização do capital, no entanto, as coisas mudaram. A burguesia monopolista interna integrou-se ao capital globalizado e abandonou a sua agenda de seguir uma trajetória de desenvolvimento relativamente autónoma da metrópole. Segmentos das classes profissionais e burocráticas superiores da sociedade, ansiosos por enviar os seus filhos para estudar e estabelecer-se na metrópole, juntaram-se como apoiantes do regime neoliberal que surgiu sob a égide desse capital globalizado. Os ricos proprietários de terras também procuraram a sua sorte dentro desta nova ordem neoliberal, que não só promoveu um capitalismo desenfreado e sem restrições, mas também se voltou fortemente contra os trabalhadores, camponeses, trabalhadores agrícolas, pequenos produtores e a classe assalariada mais baixa. Produziu-se uma cisão na aliança de classes que tinha sido forjada no decorrer da luta anticolonial.

Já não era a "nação" contra a metrópole que estava em foco, mas o grande capital, incluindo o capital multinacional, contra os grupos sociais que se interpunham à instauração de um "desenvolvimento" rápido, definido exclusivamente em termos de taxas de crescimento do PIB. O interesse do grande capital foi, por um truque de prestidigitação, identificado como "interesse nacional", e o dever de todas as classes era promovê-lo. Esta mudança no significado do termo "nação" significou, na prática, uma fractura da "nação" cuja concretização era o desiderato da luta anticolonial. A libertação da "nação" do domínio imperialista, longe de ser o objectivo primordial, deixou de ser sequer um objectivo desejado ou relevante para o governo num contexto neoliberal.

Este é o primeiro caso de "fractura" referido acima. Devido a esta fractura, o critério com base no qual o governo de um regime neoliberal toma decisões não é se uma determinada posição defende a soberania nacional, mas se promove os interesses materiais do grande capital, que são considerados idênticos aos da "nação" no seu novo significado. Alinhar-se com a aliança EUA-israelense parece, em suma, mais vantajoso do que apoiar o Irão, vítima de agressão, do ponto de vista dos interesses do grande capital nos países do Sul global; isto ajudaria a explicar, em certa medida, os silêncios ensurdecedores, mencionados anteriormente, na AGNU e noutras resoluções.

Existe também uma segunda "fratura" provocada pelo regime neoliberal. Embora o regime neoliberal seja "vendido" ao Sul global como o portador de um crescimento impulsionado pelas exportações que traria uma taxa de crescimento do PIB mais elevada para todos os países em comparação com o regime dirigista anterior, esta afirmação é completamente falsa. Uma vez que a taxa de crescimento da procura mundial agregada não aumenta quando mais países seguem uma estratégia de crescimento impulsionado pelas exportações, o regime neoliberal que generaliza esta estratégia entre todos os países está, na prática, a forçá-los a envolver-se numa competição darwiniana entre si, ou seja, a seguir uma estratégia de "empobrecer o vizinho".

A taxa de crescimento mais elevada de alguns países do que antes, ao abrigo da estratégia de crescimento impulsionado pelas exportações, deve, por conseguinte, ser à custa de outros países que agora registam uma taxa de crescimento mais baixa do que antes. Os países envolvidos numa corrida para se superarem uns aos outros dificilmente podem ser considerados como "cooperando" entre si. O efeito da busca generalizada da estratégia neoliberal é, portanto, um abandono de facto do não-alinhamento, de uma trajetória em que os países do Sul global se mantinham unidos para enfrentar o imperialismo. Agora, os países do Sul global, cada um obcecado em alcançar um maior crescimento do PIB e, consequentemente, dentro do paradigma neoliberal, obcecado em atrair mais investimento metropolitano para esse fim, preferem bajular o imperialismo a fim de superar os seus vizinhos. Isto conduz a uma fragmentação do movimento de não alinhamento, que é a segunda fragmentação que mencionámos anteriormente.

O silêncio da maioria dos países do Sul global face à agressão dos EUA e dos israelenses ao Irão, que pode parecer intrigante à primeira vista, não é assim tão intrigante afinal. O neoliberalismo tem vindo a atuar há já algum tempo na subversão tanto do conceito de nação como do conceito de não-alinhamento, abandonando o núcleo anti-imperialista que caracterizava estes conceitos e substituindo-os por conceitos alternativos que dão prioridade à tarefa de angariar o favor do imperialismo acima de tudo o resto. O resultado deste processo é o que vemos hoje.

O capitalismo é invariavelmente hostil a qualquer prática coletiva contra si, mesmo que essa prática coletiva assuma a forma de uma simples ação sindical. Ele acredita na atomização dos agentes económicos. O capitalismo neoliberal, que representa um regresso ao capitalismo desenfreado e descontrolado, traz mais uma vez à tona esta tendência para a atomização dos agentes económicos, através da ruptura da aliança de classes que participara na luta anticolonial e através da subversão do movimento dos não-alinhados, que representava a oposição coletiva dos países do Sul global à hegemonia imperialista.

Cabe aos povos do Sul global, e não aos governos que atualmente promovem os interesses da grande burguesia dominante, estender a solidariedade ao povo do Irão; a luta do Irão contra a aliança EUA-Israel é de importância crucial para a recuperação da soberania do Sul global.

12/Abril/2026
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia
O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2026/0412_pd/two-fractures-effected-neo-liberalism

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Prabhat Patnaik - Poderia a Europa proporcionar uma "terceira via"?


Desigualdade crescente da riqueza.


Prabhat Patnaik [*]

Com a administração Trump a adotar medidas brutalmente repressivas não só contra os imigrantes mas também contra os cidadãos americanos, surgiu uma tendência nos círculos liberais americanos de olhar para a Europa como uma "terceira via", um "modelo" diferente tanto da China como dos EUA, as duas grandes potências em disputa no mundo atual. É claro que os liberais americanos nunca foram apaixonados pela China; portanto, não é surpreendente que rejeitem o "modelo" chinês. Mas com a democracia a enfraquecer nos próprios EUA, eles veem na Europa um potencial para combinar êxito económico com democracia eficaz, direitos humanos e justiça social. Para que esse potencial se concretize, acreditam que a Europa deve colocar a sua economia em ordem, mantendo as forças de extrema direita à distância.

Embora a democracia europeia possa parecer atraente para os liberais americanos, aos olhos do terceiro mundo ela sempre foi associada ao imperialismo, e isso continua a ser o caso mesmo após o fim formal dos impérios coloniais. A Grã-Bretanha tem sido cúmplice ativa na maioria das conspirações levadas a cabo pelo imperialismo norte-americano contra governos "recalcitrantes" do terceiro mundo que procuraram ou exerceram controlo independente sobre os seus próprios recursos naturais, desde Mossadegh no Irão, a Lumumba no Congo, a Saddam Hussein no Iraque. Quanto à França, a descolonização nunca foi concluída na África francófona, com tropas francesas continuando a estar estacionadas na maioria das antigas colónias francesas formalmente independentes. Quando Thomas Sankara, do Burquina Faso, procurou livrar-se das tropas francesas, foi derrubado e assassinado num golpe de Estado que se suspeita ter sido fortemente apoiado pela França; só agora é que está a ser feito um esforço renovado em alguns países da África Ocidental, incluindo o Burquina Faso, para se livrar das tropas francesas.

O apoio dado pela Europa ao genocídio em Gaza faz parte desse padrão; e, além disso, vários liberais europeus alinharam-se, pelo menos implicitamente, com o apoio de seus governos ao genocídio, como ficou evidente, por exemplo, quando o cineasta alemão Wim Wenders, presidente do júri do Festival de Cinema de Berlim, questionado sobre esse genocídio, disse que a política deveria ser mantida separada do cinema.

Mas vamos esquecer tudo isso; vamos também esquecer o facto de que a Europa é responsável pelo naufrágio dos acordos de Minsk, que poderiam ter evitado a guerra na Ucrânia, e é hoje a oponente mais veemente de qualquer solução pacífica para este conflito. Esqueçamos a sua cumplicidade tanto no esforço para alargar a NATO até à fronteira russa como na derrubada de Viktor Yanukovych, que foi auxiliada e incentivada, como até o Instituto Cato, sediado nos EUA, admite, pela administração liberal de Obama. Examinemos apenas o argumento restrito sobre a possibilidade de a Europa proporcionar uma "terceira via".

O que este argumento geralmente pressupõe é que estas peripécias de Trump são devidas inteiramente às suas falhas pessoais; o que não questiona é por que razão uma pessoa assim chegou ao poder nos EUA e por que razão também na Europa o meio-termo liberal parece estar a desmoronar-se, tal como aconteceu com a eleição de Trump nos EUA. Dito de outra forma, o argumento não relaciona a eleição de Trump, ou as perspetivas políticas da Europa, com quaisquer causas económicas subjacentes, em particular com o estado atual do capitalismo.

A característica mais marcante do capitalismo contemporâneo que caracteriza tanto os EUA como a Europa é um enorme declínio na participação da classe trabalhadora no rendimento nacional. Na verdade, esse declínio foi tão grande que Joseph Stiglitz chega a sugerir que o salário real de um trabalhador americano médio em 2011 era inferior, em termos absolutos, ao de 1968. Também na Europa, de acordo com o Banco Central Europeu, os salários reais, que caíram drasticamente em termos absolutos em 2022-23, não recuperaram o seu nível do quarto trimestre de 2021 até ao quarto trimestre de 2024; e a crise energética na Alemanha, resultante da guerra na Ucrânia, só veio agravar os problemas da sua classe trabalhadora. No entanto, para além das flutuações específicas, tem havido um choque salarial geral para os trabalhadores europeus (tal como, de facto, para os trabalhadores americanos) decorrente do fenómeno da globalização neoliberal, que se prolonga há décadas, em que a mobilidade do capital sujeitou estes trabalhadores ao impacto nefasto das enormes reservas de mão-de-obra do terceiro mundo nas suas reivindicações salariais. A cólera dos trabalhadores dos países capitalistas avançados contra os regimes políticos liberais que promoveram os regimes económicos neoliberais é, portanto, significativa e compreensível; o enfraquecimento das forças políticas liberais em todos esses países, do chamado “meio-termo” entre a extrema direita e a esquerda, é o resultado direto disso.

Na verdade, esses elementos "centristas", seja Hilary Clinton nos EUA, o New Labour no Reino Unido, Macron na França ou Friedrich Merz na Alemanha, também têm sido notavelmente alheios e, portanto, indiferentes à situação dos trabalhadores nos seus respetivos países; e muitos deles são ex-funcionários de grandes empresas, como Merz, que trabalhou na gigante financeira Blackrock. Os trabalhadores, portanto, voltaram-se para a extrema-direita ou para a esquerda; e onde a esquerda foi frustrada pelas maquinações desse “centro”, como foi o caso de Jeremy Corbyn na Grã-Bretanha ou Bernie Sanders nos EUA, eles migraram em grande número para a extrema-direita. Só em França é que uma esquerda unida conseguiu frustrar tais maquinações e emergiu como a formação política mais forte, empurrando a extrema-direita liderada por Marine Le Pen para o segundo lugar.

Reverter o declínio acentuado da participação dos trabalhadores no rendimento nacional, que constitui uma condição necessária para obter o seu apoio e, portanto, para preservar a democracia contra o ataque da extrema direita, requer uma intervenção fiscal ativa por parte do Estado. Mas tal intervenção é impossível num mundo onde não há controlo de capitais, pois qualquer intervenção desse tipo daria origem a uma fuga de capitais do país que a tentasse. Por outras palavras, qualquer reversão do declínio acentuado da participação dos trabalhadores no rendimento nacional requer uma retirada do regime neoliberal, que só a esquerda pode realizar; a extrema direita pode prometer uma melhoria nessa participação, mas necessariamente trairá essa promessa, uma vez que a extrema direita requer, para o seu sucesso, o apoio do capital monopolista, que obviamente não toleraria um declínio na sua própria participação no rendimento.

Os círculos liberais americanos que depositam as suas esperanças na Europa para fornecer um "modelo", uma "terceira via", e gostariam que a sua economia passasse por uma transformação, não abordam este ponto básico. Ou seja, que a espontaneidade do capitalismo, restaurada pelo neoliberalismo após a fase pós-guerra de intervenção estatal keynesiana, implica uma tendência imanente de desigualdade de rendimentos que trouxe sofrimento à classe trabalhadora e cuja consequência foi a ascensão da extrema-direita. A Europa não pode servir de "modelo" de qualquer tipo, a menos que essa espontaneidade seja superada através da intervenção de um governo sensível às necessidades da classe trabalhadora, ou seja, um governo de esquerda, o único capaz de tirar a economia das garras do neoliberalismo, impondo controlos de capitais. Esses círculos podem ver a necessidade de algum recuo em relação ao atual nível de globalização, mas os controlos de capitais vão ao cerne do neoliberalismo.

Não apenas as economias europeias, mas a economia mundial como um todo atingiu hoje um momento crítico, em que a preservação da democracia exige a chegada ao poder de governos sustentados pelo apoio da classe trabalhadora (ou, no caso dos países do terceiro mundo, pelo apoio do povo trabalhador como um todo, composto por trabalhadores, camponeses, trabalhadores rurais e pequenos produtores). Os limites à ação governamental na Europa surgem não por causa da natureza e do nível da integração europeia, mas, como em todas as outras regiões do mundo, por causa da camisa de força do neoliberalismo. O problema com os liberais, o que também se aplica à tendência liberal americana que temos vindo a discutir, é que eles não estão suficientemente conscientes deste facto.

A situação difícil da Europa hoje não é, portanto, diferente da dos Estados Unidos. É verdade que ela teve uma história diferente e, assim, um legado económico diferente dos Estados Unidos, decorrente das correlações muito diferentes das forças de classe no final da Segunda Guerra Mundial; mas todas essas diferenças foram superadas atualmente pela exposição comum às tendências imanentes do capitalismo neoliberal. As consequências dessa exposição exigem não a busca de algum “modelo” europeu distinto do que vem acontecendo nos Estados Unidos, mas a superação do capitalismo neoliberal. Donald Trump, é preciso enfatizar, não conseguiu isso, apesar de sua agressividade tarifária: ele permanece fiel à essência do neoliberalismo por seu compromisso com o livre fluxo de capitais transfronteiriços, especialmente fluxos financeiros.

22/Fevereiro/2026

https://resistir.info/patnaik/patnaik_22fev26.html
Ver também:

World Inequality Report 2026 (para descarregamento, 208 p.)  in  https://wir2026.wid.world/

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2026/0222_pd/can-europe-provide-“third-way”

sábado, 6 de dezembro de 2025

JoãoRodrigues - Ódio diário sem notícias


* João Rodrigues

Em 1927, no livro Liberalismo, Ludwig von Mises afirmou: “Não se pode negar que o fascismo e movimentos semelhantes, visando ao estabelecimento de ditaduras, estejam cheios das melhores intenções e que sua intervenção, até ao momento, salvou a civilização europeia. O mérito que, por isso, o fascismo obteve para si estará inscrito na história.” 

A decadência da linha editorial dos jornais está bem patente num artigo ignobilmente ignorante da autoria Ricardo Simões Ferreira, Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias. 

Diz que Ludwig von Mises “provou matematicamente” que o socialismo não funciona. Mises nunca usou qualquer matemática nos seus livros e artigos antissocialistas. O seu famoso argumento acerca da impossibilidade do cálculo económico em socialismo é um exemplo disso. Não é pior, nem melhor, por isso. Mas os factos contam. E obviamente, houve economistas socialistas que, armados da teoria neoclássica, por exemplo, lhe responderam. O liberal austríaco Joseph Schumpeter, o da destruição criativa, deu-lhes razão e tudo. 

Por outro lado, não há hoje uma única faculdade de economia que tenha cadeiras de economia marxista e mesmo o pensamento de Keynes é ensinado numa versão diluída pela economia neoliberal avassaladoramente dominante, infelizmente. Os estudantes é que perdem com a falta de pluralismo. 

Quanto ao Manifesto do Partido Comunista, que aposto que este fulano nunca leu, continua a oferecer pistas frescas para quem quer compreender o mundo, tal como A Riqueza das Nações, de Adam Smith, de 1776, por exemplo. Haja curiosidade pelos clássicos. São sempre surpreendentes. Leia-se o que Smith escreveu sobre a vulnerabilidade estrutural dos trabalhadores perante os patrões ou sobre o lado negro da divisão do trabalho ou sobre a natureza de classe do Estado ou....

O chorrilho de aldrabices prossegue, incluindo a ideia de que os professores e logo os jornalistas são comunistas encafuados: “é preciso limpar” o ensino, urra. Isto é a retórica do fascismo. No fundo, ele sabe que os comunistas são parte essencial do antifascismo que cruza Marx e Keynes, da economia política à política económica, do Brasil à China. O objetivo é só instilar medo. Mas nós não temos medo. Ou, melhor, até temos, quando nos sentimos sozinhos, mas sabemos que não o estamos e por isso o medo passa. 

E não é só a ignorância da história das ideias que assim se revela, é também ignorância da história económico-política deste país capitalista: qualquer pessoa séria sabe que os últimos quarenta anos não têm sido dominados pelo “socialismo”, mas sim pelo neoliberalismo e pela sua lógica privatizadora e liberalizadora, tornando Portugal um dos países europeus como menos ativos públicos empresariais ou menos stock da habitação pública, em percentagem do total, por exemplo. E este padrão tem sido impulsionado pela lógica da integração europeia, que impede estruturalmente políticas económicas keynesianas, para já não dizer socialistas, até pela anulação de vários instrumentos de política económica. 

Na realidade, esta gente não descansa enquanto existirem alguns elementos de civilidade democrática na sociedade portuguesa, da escola pública ao SNS, passando por alguns direitos laborais, cada vez menos face ao crescimento dos direitos patronais. O anticomunismo revela o reconhecimento de que os comunistas portugueses foram e são uma condição necessária, mas não suficiente, claro, para todos esses elementos. Esta é a verdade. 

Enfim, jornais dirigidos por gente desta são puros veículos de desinformação, de mentira e de ódio. Liberais até dizer chega, em suma.

Postado por João Rodrigues às 6.12.25

https://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2025/12/odio-diario-sem-noticias.html

domingo, 1 de julho de 2012

Alexandre Pilati - Entre James Joyce e Karl Marx


20 DE JUNHO DE 2012 - 18H02 


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Ullysses completa 90 anos. E se nos atrevêssemos a enxergá-lo como revelação do capitalismo dentro de nós?

Por Alexandre Pilati, no TV Meio Ambiente


Nos meios literários, junho é tradicionalmente um mês dedicado a reflexões sobre o Ulysses, romance revolucionário de James Joyce (1842-1941). No dia 16 deste mês, comemora-se o Bloom’s Day, pois esta é a data em que se passa a ação do livro do autor irlandês. Em 2012, o “Dia de Bloom” é ainda mais especial, pois nos encontramos a noventa anos da publicação da obra. Além disso, o recente lançamento do filme Notícias da antiguidade ideológica (Versátil Home Video, 2011), de Alexander Kluge provoca a reflexão sobre a dinâmica de forças estéticas/filosóficas/históricas que envolvem os nomes de Marx, Joyce, Kluge e Eisenstein.

Nestes 90 anos, o Ulysses foi pródigo em espalhar mundo afora fascínio e polêmica. Como monumento incontornável da moderna literatura ocidental, o romance do autor irlandês não para de seduzir críticos, ao mesmo tempo que se conserva à prova de qualquer leitura que seja capaz de aludir à totalidade de sua eficácia estética. Como sempre ocorre em grandes obras, qualquer leitura do textoparece ser bem menor do que o próprio texto; mas isso, no seu caso específico, adquire uma consistência ainda mais lancinante. Se já é um tormento para os críticos do livro tentar acercá-lo e compreendê-lo, imaginemos o tamanho da tarefa de inverter um pouco a ordem natural da coisas e usar o Ulysses como método de compreensão de um construto crítico-teórico como O Capital, de Karl Marx (1818-1883).

O primeiro a se propor esse desafio foi o cineasta russo Sergej Eisenstein (1898-1948), que alimentou a ideia por fim malograda de filmar OCapital a partir do método estético empregado por James Joyce emUlysses. Joyce ansiava por conhecer Eisenstein, porque julgava que ele seria o único cineasta capaz de filmar o Ulysses. Por outro lado, o cineasta russo procurara Joyce porque julgava que O Capitalpoderia tornar-se filme estruturando-se de modo similar ao Ulysses, graças à concentração nos movimentos triviais de um homem comum em apenas um dia de sua vida.

No filme Notícias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein, O Capital (Versátil, 2011), o escritor e cineasta alemão Alexander Kluge retoma o projeto de Eisenstein de maneira a potencializar alguns elementos de leitura do mundo contemporâneo bastante explorados tanto por Marx quanto por Joyce e o cineasta russo. É precisamente a partir do projeto não-realizado de Eisenstein, de filmar O Capital a partir do Ulysses, que nascem as nove longas horas do filme de Kluge. O cineasta alemão tem uma perspectiva interessante para a observação do pensamento de Marx, que está apresentada logo no início do texto do encarte que acompanha os DVDs:

- O Sr. Considera Karl Marx um poeta?

- Um poeta talentoso.

- Ele se senta na mais imponente biblioteca de Londres, faz excertos de historiografia e compõe uma história em forma de poesia em torno desses núcleos de fantasia?

- Assim surge o enfoque mais amplo de sua teoria.

- O sr. não estaria sendo injusto ao degradar esse materialista científico à condição de poeta?”

A partir desse texto de Kluge, lançamos uma hipótese para a verificação das forças interpretativas que se intercambiam em nosso quadrilátero de pensadores/artistas: tendo em vista a proposta de Kluge, não apenas o Ulysses pode ser usado como mediação ficcional para ler O Capital, mas também O Capital pode ser a mediação teórica necessária para conectar as experiências formais de Joyce emUlysses com a totalidade histórica de onde emanam tanto formas literárias quanto contradições objetivas formadoras da subjetividade sob a égide do capitalismo. O ponto de apoio para essa análise é o movimento dialético entre subjetividade e objetividade (afinal, não é esta a grande matéria dos poetas?!), ou, como afirma Kluge no texto do encarte que acompanha o conjunto de DVDs, a “longa marcha do mundo exterior para o interior do homem”. Essa longa marcha estava entre as mais fundas aspirações de Eisenstein na pesquisa que engendra o conjunto de técnicas que caracterizava o seu método fílmico. Ademais, a dialética entre objetividade/subjetividade pode ser rastreada em todos os volumes de O Capital – de modo especial no primeiro, que trata mais especificamente da lógica da mercadoria e do seu alcance na organização social (coletiva) e psíquica (individual) do mundo capitalista. Mais que tudo isso, esta dialética interno/externo é uma chave para a leitura e a compreensão do imenso filme de Alexander Kluge, pois o cineasta alemão está claramente atento a ela. Lembremos a famosa passagem do Ulysses em que se contrasta a história com um pesadelo: “A história – disse Stephen – é um pesadelo de que tento despertar.”i

História e poesia irmanam-se dialeticamente pela sua consistência de pesadelo e utopia. Dizendo mais: uma consistência de pesadelo que deriva precisamente do fato se ser uma forma consciente da necessidade da perspectiva da negatividade. Nesses termos, se a história (ou sua metanarrativa) é um pesadelo, a poesia é um jeito peculiar de acordar dele; por outro lado, a poesia também é um pesadelo, de que podemos acordar pela história. Unidas dialeticamente, história e poesia, tecem aos olhos do leitor atento um novo horizonte, ressignificando de uma vez por todas a palavra utopia. Assim, não haverá utopia sem o consórcio da poesia como interpretação do mundo e da história como narrativa de autoconsciência do homem relativamente ao seu lugar na luta de classes. Quando refletimos sobre esta relação história/poesia, estamos, nada mais nada menos, que operando intelectualmente, como Kluge e Joyce e Marx e Eisenstein entre o externo e o interno. Estamos nos acercando do dinamismo do próprio mundo. Um dinamismo que para Eisenstein é a própria força estruturante da forma dramática do filme.

Joyce tem, como poucos em seu tempo, uma consciência catastrófica relativamente ao avanço modernizador; algo que se exibe em seus textosii. Não são poucos os momentos em que o Ulyssesnos apresenta uma perspectiva duramente embebida em negatividade, ao descrever os movimentos triviais do mundo, os quais sem esforço podemos utilizar na composição de uma complexa mirada acerca da totalidade capitalista.

Mas pode Joyce ser historiador no Ulysses assim como Marx foi poeta no Capital? Sob certa perspectiva, poderíamos afirmar que sim; e poderíamos afirmar mais: essa consistência de revelação da história no Ulysses é um dos elementos-chave da sua atualidade. O que talvez tenha contribuído para instigar Kluge à tarefa de reler os textos de Marx não tanto com a intenção de “descrição da economia exterior e de suas ‘leis’, senão sobretudo o capitalismo dentro de nós.” Essas contradições podem nos dar um mapa para a inteligibilidade da crise do capitalismo no início do século XXI.

Vejamos, por exemplo, a partir de um excerto do Ulysses, a problemática do entesouramento, que, conforme descrita por Marx, tem impactos no mundo objetivo e na consciência do homem ocidental. O entesouramento é um dos aspectos básicos, não é demais lembrar, para compreendermos as razões do desencadeamento da crise financeira de 1929, por exemplo; e para o clima de abalos e contradições da modernização a que o Ulysses de alguma forma dá visibilidade.

No capítulo “O catecismo”, vemos a agudização dessa reificação irrestrita na descrição crua do que é a vida humana, perdida no fundo das gavetas. Não são apenas as coisas recônditas; mas o que somos nós dentro das gavetas. Vejamos o parágrafo por inteiro: 

“O que continha a segunda gaveta?

Documentos: a certidão de nascimento de Leopold Paula Bloom: uma apólice de seguro de £500 na Sociedade de Seguros das Viúvas Escocesas em nome de Millicent (Milly) Bloom, resgatável aos 25 anos de idade com uma apólice nominal de £430, £462-10-0 e £500 aos 60 anos ou morte, 65 anos ou morte e morte, respectivamente, ou com apólice nominal (à vista) de £299-10-0 junto com pagamento em dinheiro de £133-10-0, opcionalmente: uma carteira bancária para o semestre terminaria em 31 de dezembro de 1903, saldo em favor do correntista: £18-46-6 (dezoito libras, catorze xelins e seis pence, esterlinos), bens líquidos: certificado de posse de £900, títulos a 4% (autenticados) do governo canadense (livres de taxação): extrato de ata do Comitê do Cemitérios (Glasnevin), referente a uma sepultura adquirida: um recorte da imprensa local a propósito de uma mudança de nome por processo cível.”iii

Atentemos neste trecho do Ulysses para a forma como a linguagem se dobra à instrumentalização da lógica do dinheiro para dar a ver precisamente as contradições de seu alcance avassalador. Num parágrafo que principia falando de nascimento e termina falando de morte, temos a hipoteca de toda uma existência à especulação financeira. São títulos, bens, seguros, ações. Valores que tilintam, ainda que sem a forma de ouro ou de moeda. Trata-se uma belíssima metáfora do conceito marxista de entesouramento. “O que sou é o dinheiro; a vida minha é meu acúmulo”: é o que parece nos dizer uma alma fantasmagórica de dentro da gaveta.

Marx dizia que o dinheiro deve, no capitalismo, possuir a consistência elástica e fantasmagórica de uma matéria capaz de expandir-se e contrair-se. Não nos esqueçamos de que a vida cabe numa gaveta e que Marx diz assim em O Capital: “Para reter o ouro como dinheiro e, portanto, como elemento de entesouramento, é necessário impedi-lo de circular ou de dissolver-se como meio de compra, em artigos de consumo. O entesourador sacrifica, por isso, ao fetiche do ouro os seus prazeres da carne. Abraça com seriedade o evangelho da abstenção.”iv

Para sobreviver, o dinheiro no capitalismo depende de que o entesouramento não seja excepcional, mas sim sistêmico, trivial. O homem comum cumpre o entesouramento, no fundo da gaveta mais comum. A disposição reveladora de Joyce está em desejar articular tudo isso aos movimentos orgânicos do personagem, mostrando que o entesourar é tornar-se homem comum, homem médio, pedestre. Um homem como Bloom é um entesourador comum: sem o “defeito” excepcional da avareza, mas com a virtude trivial da “precaução”. Trata-se de alguém que incorpora a mercadoria ao próprio existir, com isso garantindo os fluxos de expansão e retração necessários à manutenção da lógica do dinheiro no capitalismo. A força da narrativa de Joyce está em revelar o dado sistêmico, global e total do comum. Não é a excepcionalidade que revela a totalidade, mas a forma despercebida e às vezes dispersa com que o cotidiano anuncia as forças da dinâmica histórica global. O método – concentrar-se nas minúcias aparentemente mais insignificantes – tornou possível um dos relatos da vida cotidiana mais completos já apresentados por um romancista.

Lendo Marx a partir da literatura, como fez Kluge (e como aqui ensaiamos) colocamo-nos diante de algumas das mais instigantes formas de questionar os mitos pós-modernos de que a história acabou e de que o único horizonte possível é a não-superação (ou no máximo domesticação) do capitalismo. A dinâmica de forças que está por trás do quadrilátero Marx-Kluge-Joyce-Eisenstein inclui certamente a ideia de que as contradições da práxis ainda podem ser captadas pela literatura, pela crítica ou pelo cinema. Ativar essas contradições já uma boa justificativa para a tarefa monumental de ler Ulysses através do Capital e de ler O Capital através do Ulysses. Se essas contradições ainda podem ser ativadas, a história em seu dinamismo peculiar permanece e nos persegue: como um pesadelo, ou como a utopia.

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Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília. Autor, entre outros, de A nação drummondiana (7letras, 2009).

iJOYCE, James. Ulysses. Trad. A. Houaiss. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996. p. 30.

iiA esse respeito consultar o ensaio de Franco Moretti “O longo adeus: Ulysses e o fim do capitalismo liberal”. In MORETTI, Franco. Signos e estilos da modernidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

iiiJOYCE, James. Ulysses. Trad. C. Galindo. Cia das Letras: 2012, p.1018.

ivMARX, Karl. O Capital. Livro I, vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985. p.253.

Fonte: O Outro Lado da Notícia

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Lenine ~ As Três Fontes e as Três partes Constitutivas do Marxismo V. I. Lénine



As Três Fontes e as Três partes Constitutivas do Marxismo

V. I. Lénine

Março de 1913


Primeira Edição: Prosvechtchénie, nº 3, Março de 1913. Assinado: V. I.
Fonte: Obras Completas de V.I. Lénine, 5. ed. em russo, t. 23, pp. 40 - 48.
Transcrito por Fred Leite Siqueira Campos para The Marxists Internet Archive.
HTML por Jørn Andersen para Marxists' Internet Archive, 26.7.00.

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A doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa (tanto a oficial como a liberal), que vê no marxismo um a espécie de "seita perniciosa". E não se pode esperar outra atitude, pois, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social "imparcial". De uma forma ou de outra, toda a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada, enquanto o marxismo declarou uma guerra implacável a essa escravidão. Esperar que a ciência fosse imparcial numa sociedade de escravidão assalariada seria uma ingenuidade tão pueril como esperar que os fabricantes sejam imparciais quanto à questão da conveniência de aumentar os salários dos operários diminuindo os lucros do capital.
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Mas não é tudo. A história da filosofia e a história da ciência social ensinam com toda a clareza que no marxismo não há nada que se assemelhe ao "sectarismo", no sentida de uma doutrina fechada em si mesma, petrificada, surgida à margem da estrada real do desenvolvimento da civilização mundial. Pelo contrário, o gênio de Marx reside precisamente em ter dado respostas às questões que o pensamento avançado da humanidade tinha já colocado. A sua doutrina surgiu como a continuação direta e imediata das doutrinas dos representantes mais eminentes da filosofia, da economia política e do socialismo.
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A doutrina de Marx é onipotente porque é exata. É completa e harmoniosa, dando aos homens uma concepção, integral do mundo, inconciliável com toda a supertição, com toda a reação, com toda a defesa da opressão burguesa. O marxismo é o sucessor legítimo do que de melhor criou a humanidade no século XIX: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês.
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Vamos deter-nos brevemente nestas três fontes do marxismo, que são, ao mesmo tempo, as suas três partes constitutivas.

I

A filosofia do marxismo é o materialismo. Ao longo de toda a história moderna da Europa, e especialmente em fins do século XVIII, em França, onde se travou a batalha decisiva contra todas as velharias medievais, contra o feudalismo nas instituições e nas idéias, o materialismo mostrou ser a única filosofia conseqüente, fiel a todos os ensinamentos das ciências naturais, hostil à supertição, à beatice, etc. Por isso, os inimigos da democracia tentavam com todas as suas forças "refutar", desacreditar e caluniar o materialismo e defendiam as diversas formas do idealismo filosófico, que se reduz sempre, de um modo ou de outro, à defesa ou ao apoio da religião.
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Marx e Engels defenderam resolutamente o materialismo filosófico, e explicaram repetidas vezes quão profundamente errado era tudo quanto fosse desviar-se dele. Onde as suas opiniões aparecem expostas com maior clareza e pormenor é nas obras de Engels Ludwig Feuerbach e Anti-Dübring, as quais - da mesma forma que o Manifesto Comunista - são os livros de cabeceira de todo o operário consciente.
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Marx não se limitou, porém, ao materialismo do século XVIII; pelo contrário, levou mais longe a filosofia. Enriqueceu-a com as aquisições da filosofia clássica alemã, sobretudo do sistema de Hegel, o qual conduzira por sua vez ao materialismo de Feuerbach. A principal dessas aquisições foi a dialética, isto é, a doutrina do desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e mais isenta de unilateralidade, a doutrina da relatividade do conhecimento humano, que nos dá um reflexo da matéria em constante desenvolvimento. As descobertas mais recentes das ciências naturais - o rádio, os elétrons, a transformação dos elementos - confirmaram de maneira admirável o materialismo dialético de Marx, a despeito das doutrinas dos filósofos burgueses, com os seus "novos" regressos ao velho e podre idealismo.
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Aprofundando e desenvolvendo o materialismo filosófico, Marx levou-o até ao fim e estendeu-o do conhecimento da natureza até o conhecimento da sociedade humana. O materialismo histórico de Marx é uma conquisto formidável do pensamento científico. Ao caos e à arbitrariedade que até então imperavam nas concepções da história e da política, sucedeu uma teoria científica notavelmente integral e harmoniosa, que mostra como, em conseqüência do crescimento das forças produtivas, desenvolve-se de uma forma de vida social uma outra mais elevada, como, por exemplo, o capitalismo nasce do feudalismo.
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Assim, como o conhecimento do homem reflete a natureza que existe independentemente dele, isto é, a matéria em desenvolvimento, também oconhecimento social do homem (ou seja: as diversas opiniões e doutrinas filosóficas, religiosas, políticas, etc.) reflete o regime econômico da sociedade. As instituições políticas são a superestrutura que se ergue sobre a base econômica. Assim, vemos, por exemplo, como as diversas formas políticas dos Estados europeus modernos servem para reforçar a dominação da burguesia sobre o proletariado.
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A filosofia de Marx é o materialismo filosófico acabado, que deu à humanidade, à classe operaria sobretudo, poderosos instrumentos de conhecimento.

II

Depois de ter verificado que o regime econômico constitui a base sobre a qual se ergue a superestrutura política, Marx dedicou-se principalmente ao estudo deste regime econômico. A obra principal de MarxO Capital, é dedicada ao estudo do regime econômico da sociedade moderna, isto é, da sociedade capitalista.
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A economia política clássica anterior a Marx tinha-se formado na Inglaterra, o país capitalista mais desenvolvido. Adam Smith e David Ricardolançaram nas suas investigações do regime econômico os fundamentos da teoria do valor-trabalhoMarx continuou sua obra. Fundamentou com toda precisão e desenvolveu de forma conseqüente aquela teoria. Mostrou que o valor de qualquer mercadoria é determinado pela quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário investido na sua produção.
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Onde os economistas burgueses viam relações entre objetos (troca de umas mercadorias por outras), Marx descobriu relações entre pessoas. A troca de mercadorias exprime a ligação que se estabelece, por meio do mercado, entre os diferentes produtores. O dinheiro indica que esta ligação se torna cada vez mais estreita, unindo indissoluvelmente num todo a vida econômica dos diferentes produtores. O capital significa um maior desenvolvimento desta ligação: a força de trabalho do homem torna-se uma mercadoria. O operário assalariado vende a sua força de trabalho ao proprietário de terra, das fábricas, dos instrumentos de trabalho. O operário emprega uma parte do dia de trabalho para cobrir o custo do seu sustento e de sua família (salário); durante a outra parte do dia, trabalha gratuitamente, criando para o capitalista a mais-valia, fonte dos lucros, fonte da riqueza da classe capitalista.
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A teoria da mais-valia constitui a pedra angular da teoria econômica de Marx.
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O capital, criado pelo trabalho do operário, oprime o operário, arruína o pequeno patrão e cria um exercito de desempregados. Na indústria, é imediatamente visível o triunfo da grande produção; mas também na agricultura deparamos com o mesmo fenômeno: aumenta a superioridade da grande exploração agrícola capitalista, cresce o emprego de maquinaria, a propriedade camponesa cai nas garras do capital financeiro, declina e arruína-se sob o peso da técnica atrasada. Na agricultura, o declínio da pequena produção reveste-se de outras formas, mais esse declínio é um fato indiscutível.
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Esmagando a pequena produção, o capital faz aumentar a produtividade do trabalho e cria uma situação de monopólio para os consórcios dos grandes capitalistas. A própria produção vai adquirindo cada vez mais um caráter social - centenas de milhares e milhões de operários são reunidos num organismo econômico coordenado - enquanto um punhado de capitalistas se apropria do produto do trabalho comum. Crescem a anarquia da produção, as crises, a corrida louca aos mercados, a escassez de meios de subsistência para as massas da população.
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Ao fazer aumentar a dependência dos operários relativamente ao capital, o regime capitalista cria a grande força do trabalho unido.
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Marx traçou o desenvolvimento do capitalismo desde os primeiros germes da economia mercantil, desde a troca simples, até às suas formas superiores, até à grande produção.
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E de ano para ano a experiência de todos os países capitalistas, tanto os velhos como os novos, faz ver claramente a um numero cada vez maior de operários a justeza desta doutrina de Marx.
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O capitalismo venceu no mundo inteiro, mas, esta vitória não é mais do que o prelúdio do triunfo do trabalho sobre o capital.

III

Quando o regime feudal foi derrubado e a "livre" sociedade capitalista viu a luz do dia, tornou-se imediatamente claro que essa liberdade representava um novo sistema de opressão e exploração dos trabalhadores. Como reflexo dessa opressão e como protesto contra ela, começaram imediatamente a surgir diversas doutrinas socialista. Mas, o socialismo primitivo era um socialismo utópico. Criticava a sociedade capitalista, condenava-a, amaldiçoava-a, sonhava com a sua destruição, fantasiava sobre um regime melhor, queria convencer os ricos da imoralidade da exploração.
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Mas, o socialismo utópico não podia indicar uma saída real. Não sabia explicar a natureza da escravidão assalariada no capitalismo, nem descobrir as leis do seu desenvolvimento, nem encontrar a força social capaz de se tornar a criadora da nova sociedade.
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Entretanto, as tempestuosas revoluções que acompanharam em toda a Europa, e especialmente em França, a queda do feudalismo, da servidão, mostravam cada vez com maior clareza que a luta de classes era a base e a força motriz de todo o desenvolvimento.
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Nenhuma vitória da liberdade política sobre a classe feudal foi alcançada sem uma resistência desesperada. Nenhum país capitalista se formou sobre uma base mais ou menos livre, mais ou menos democrática, sem uma luta de morte entre as diversas classes da sociedade capitalista.
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O gênio de Marx está em ter sido o primeiro a ter sabido deduzir daí a conclusão implícita na história universal e em tê-la aplicado conseqüentemente. Tal conclusão é a doutrina da luta de classes.
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Os homens sempre foram em política vítimas ingênuas do engano dos outros e do próprio e continuarão a sê-lo enquanto não aprendem a descobrir por trás de todas as frases, declarações e promessas morais, religiosas, políticas e sociais, os interesses de uma ou de outra classe. Os partidários de reformas e melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do velho, enquanto não compreenderem que toda a instituição velha, por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força de umas ou de outras classes dominantes. E para vencer a resistência dessas classes só há um meio: encontrar na própria sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam - e, pela sua situação social, devam - formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo.
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Só o materialismo filosófico de Marx indicou ao proletariado a saída da escravidão espiritual em que vegetaram até hoje todas as classes oprimidas. Só a teoria econômica de Marx explicou a situação real do proletariado no conjunto do regime capitalista.
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No mundo inteiro, da América ao Japão e da Suécia à África do Sul, multiplicam-se as organizações independentes do proletariado. Este se educa e instrui-se travando a sua luta de classe; liberta-se dos preconceitos da sociedade burguesa, adquire uma coesão cada vez maior, aprende a medir o alcance dos seus êxitos, temperam as suas forças e cresce irresistivelmente.
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A executiva bem sucedida !

(Já não é nova, mas vem sempre a propósito)
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Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou-se. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso Portal.
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Ainda meio tonta, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas. Todas vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem entender bem o que estava a acontecer, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:

- Enfermeiro, eu preciso voltar com urgência para o meu escritório, porque tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá por engano, porque o meu seguro de saúde é Platina, e isto aqui está a parecer-me mais a urgência dum Hospital público. Onde é que nós estamos?
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- No Céu.
- No Céu?...
- É.
- O céu, CÉU...?! Aquele com querubins, anjinhos e coisas assim?
- Exacto! Aqui vivemos todos em estado de graça permanente.
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Apesar das óbvias evidências, ausência de poluição, toda a gente a sorrir, ninguém a usar telemóvel, a executiva bem-sucedida levou tempo a admitir que havia mesmo batido a bota.
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Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana iria receber o bónus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de presidente do conselho de administração da empresa.
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E foi aí que o interlocutor sugeriu:
- Talvez seja melhor a senhora conversar com Pedro, o coordenador.

- É?! E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?


- Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
- Assim? (...)

- Quem me chama?
A executiva bem-sucedida quase desabava da nuvem. À sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro.

Mas, a executiva tinha feito um curso intensivo de approach para situações inesperadas e reagiu logo:

- Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva bem-sucedida e...

- Executiva... Que palavra estranha. De que século veio?


- Do XXI. O distinto vai dizer-me que não conhece o termo 'executiva'?

- Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo.

Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.
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- Sabe, meu caro Pedro. Se me permite, gostaria de lhe fazer uma proposta. Basta olhar para essa gente toda aí, só na palheta e andando a toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistémica.

- É mesmo?
- Pode acreditar, porque tenho PHD em reorganização. Por exemplo, não vejo ninguém usando identificação. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?
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- Ah, não sabemos.
- Percebeu? Sem controlo, há dispersão. E dispersão gera desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar em anarquia. Mas podemos resolver isso num instante implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance.
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- Que interessante...
- É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização e um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver.

- !!!...???...!!!...???...!!!

- Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do investimento do Grande Accionista... Ele existe, certo?
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- Sobre todas as coisas.
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- Óptimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico, por exemplo, parece-me extremamente atractivo.

- Incrível!

- É óbvio que, para conseguir tudo isso, teremos de nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os fringe benefits e mordomias da praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho a certeza de que vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar num Turnaround radical. 
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- Impressionante!
- Isso significa que podemos partir para a implementação?
- Não. Significa que a senhora terá um futuro brilhante... se for trabalhar com o nosso concorrente. Porque acaba de descrever, exactamente, como funciona o Inferno...

Max Gehringer
(Revista Exame)
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Enviado por António Viegas em 06-05-2010 00:54
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domingo, 11 de julho de 2010

Quadrinhos argentinos mostram vilania de FMI e dívida

Economia

Vermalho - 9 de Julho de 2010 - 18h25
economia em quadrinhos
Trecho de história em quadrinhos distribuída nas escolas
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O Fundo Monetário Internacional (FMI) é um mau intencionado galã americano que namora a filha de um empresário em uma das quatro histórias em quadrinhos sobre a tumultuada evolução da dívida externa da Argentina estudada em várias escolas secundárias do país.

As histórias em quadrinhos foram elaboradas pelos responsáveis do Museu da Dívida Externa, que acaba de reabrir suas portas na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires (UBA) com o objetivo de fazer com que os jovens saibam como o país se endividou.

O FMI protagoniza a história em quadrinhos "Un intruso en la familia", que analisa os mais de 50 anos da relação entre a Argentina e o organismo financeiro, cujo personagem, Francis, consegue se desfazer do pai de sua namorada, Patricia, e ficar com seu negócio, ao que finalmente leva à ruína.

A parábola desta história é que Francis concretiza sua maldade ao se casar com Patricia, de quem se divorcia depois da crise de 2001, quando a Argentina declarou a maior moratória da história (US$ 102 bilhões).

"Não nos damos conta que há coisas que não poderemos fazer no futuro se permitimos que a dívida cresça e os jovens devem estar conscientes dos erros do passado quando emitirem seu voto", explica o professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Buenos Aires, Alberto Barbieri.

A dívida externa argentina somava US$ 147,119 bilhões no final de 2009, número equivalente a 47% do Produto Interno Bruto do país, segundo dados oficiais.

Outra das histórias em quadrinhos produzidas para os alunos de escolas secundárias retrata a evolução da dívida externa argentina desde 1824 — quando o país solicitou ao banco inglês Baring Brothers um empréstimo de 700 mil libras esterlinas — até 1976, quando um golpe de estado deu lugar a uma sangrenta ditadura militar.

Uma terceira história relata a tragédia do endividamento desde a ditadura militar (1976-1983) até a atualidade, enquanto a última história em quadrinhos analisa os projetos de troca de dívida por investimentos em educação impulsionados nos últimos anos pela Argentina e Brasil.

Os quadrinhos refletem a cronologia do endividamento a partir da viagem de extraterrestres a Buenos Aires no ano 3668, quando a cidade está devastada pelo "grande Holocausto nuclear" de 2268 que supostamente extinguiu a humanidade.

No transcurso do relato, os alienígenas descobrem que a aniquilação da Humanidade não correspondeu a um desastre nuclear, mas a um processo de auto-eliminação sistemática promovido pelas nações do hemisfério norte no último quarto do século 20.

"Estas nações — prossegue a história em quadrinhos — ativaram um curioso mecanismo de desintegração social, uma combinação de cobiça, mediocridade e ignorância. Tudo isso reproduzido desde um núcleo compacto de concentração de poder".

A história analisa, além disso, a má gestão econômica de diversos governos argentinos, como os burocratas da última ditadura militar que em 1983 deixaram como herança uma dívida externa de US$ 45 bilhões, seis vezes maior do que quando assumiram o poder em 1976.

Também retratam o Plano de Convertibilidade com paridade de "um por um" entre o peso e o dólar, lançado em 1990 pelo governo neoliberal de Carlos Menem (1989-1999) e que teve um final abrupto em janeiro de 2002, como consequência da moratória do fim do ano anterior, quando a Argentina acumulava quatro anos consecutivos de recessão.

As histórias em quadrinhos mostram o "um por um" entre o peso e o dólar como uma "venenosa poção grega", própria do Olimpo, que colapsou a economia argentina e disparou as desigualdades sociais.

"Frente a tal catástrofe, só ocorria ao FMI aplicar planos de ajuste, enquanto os agentes financeiros voltavam à ofensiva para consolidar seu poder e seguir transferindo renda a seu favor", exemplifica um dos personagens.

A UBA, a maior universidade do país, e os ministérios de Educação e de Economia distribuirão a história em quadrinhos em todas as escolas argentinas.

Da redação, com agências