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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Boaventura Sousa Santos - Em Leninegrado, a pensar em Cuba e Gaza

* Boaventura Sousa Santos 

Ao longo da história, o cerco de populações foi muito utilizado como estratégia para obter a rendição das forças políticas e militares defensoras dos territórios cercados. A razão fundamental para crer na eficácia do cerco era a fome e a doença impostas à população civil. Alguns cercos duraram meses, outros duraram anos. Todos provocaram um sofrimento inaudito às populações, sobretudo às populações civis, as populações não diretamente envolvidas nos combates. Os militares e todos os funcionários de serviços de que dependiam, bem como os líderes políticos, sempre tiveram alguns privilégios.

A história sobre o êxito ou o fracasso dos cercos é fascinante. Se é verdade que muitas populações cercadas sucumbiram, em muitos outros casos resistiram e obrigaram os atacantes a retirar. Em tempos de autarcia das populações, o cerco era literal, à volta das muralhas, impedindo saídas e entradas e recorrendo muitas vezes à táctica da “terra arrasada”: queima de colheitas, abate de gado, envenenamento dos poços. Desde a era moderna, com a globalização do capitalismo e a liberalização do comércio internacional de mercadorias (e de pessoas), criaram-se tantas formas de interdependência entre os povos que novos instrumentos de encercamento foram postos à disposição dos atacantes (guetos, bloqueios, embargos, sanções, políticas anti-imigração, espaços aéreos fechados, criminalização internacional de líderes políticos, etc.). Reciprocamente, tais interdependências tornaram possíveis às populações cercadas novas táticas de resistência.

Não é objetivo deste texto analisar as virtualidades bélicas dos cercos. Centro-me exclusivamente no sofrimento humano que os cercos causam às populações civis cercadas. Para ilustrar esse sofrimento, escolho o cerco mais brutal da história contemporânea, o cerco de Leninegrado pelo exército Nazi entre Setembro de 1941 e Janeiro de 1944. Escolho-o pela sua brutalidade, mas também por ilustrar um caso de derrota do atacante, aliás, considerado ao tempo do cerco um inimigo todo poderoso. Faço-o a pensar em Cuba e na Palestina. Sobretudo tendo em mente que o mundo da comunicação social tem tido o papel nefasto de trivializar o sofrimento, mesmo quando aparentemente o dramatiza. Por esta razão, não se cria uma população mundial horrorizada e mobilizada contra o sofrimento humano injusto. Em vez disso, delega-se a má consciência a pequenos grupos de corajosos ativistas que, pela sua natureza, revelam tanto a possibilidade da resistência como a fatalidade da sua derrota.

Como me centro no sofrimento humano, socorro-me das descrições do cerco por parte daqueles que o viveram. A descrição deles e delas é mais poderosa do que qualquer análise abstrata. Entre muitas descrições, seleccionei a de Constantine Krypton (pseudónimo?) publicado em 1954 na revista Russian Review, vol 13:4, pp 255-265.[i] É uma longa citação:

O inimigo não conseguiu destruir os edifícios de pedra; conseguiu, sim, uma aniquilação terrível da vida dentro deles. A causa principal da destruição entre a população foi a fome. De acordo com o recenseamento oficial de 1939, a população de Leninegrado era de 3.191.304 habitantes. O processo de aniquilação da população começou no final do mês de Novembro de 1941. O seu sinal exterior na vida da cidade foi o aparecimento nas ruas de todo o tipo de trenós, principalmente trenós de crianças atrelados uns aos outros com cadáveres sobre eles. Mais tarde, transportavam frequentemente os mortos em trenós individuais, especialmente se fossem mais compridos. Envolviam os cadáveres em lençóis, cobertores, tapetes, sacos de todo o tipo e todo o tipo de trapos. Dia após dia, o número destes trenós aumentava, criando, num determinado período, no final de Dezembro e início de Janeiro, uma procissão interminável ao longo das ruas principais.

O processo de morte da população de Leninegrado recebeu, na linguagem médica, o nome de «distrofia». A distrofia tinha três fases. A distrofia da primeira fase caracterizava-se por um enfraquecimento geral do organismo e uma grande perda de peso. A distrofia do segundo estágio trazia ainda maior fraqueza e perda de peso, juntamente com uma série de doenças que apresentavam, em particular, os seguintes sintomas: gengivas escamosas, formigueiros na parte superior do abdómen, úlceras, inchaço, dormência, problemas de estômago e similares. Esses sintomas já estavam parcialmente presentes no primeiro estágio. Na segunda fase, as pessoas começaram, como se dizia naquela época, «a devorar os seus músculos». A distrofia da terceira fase, com duração média de duas semanas, caracterizava-se pelo colapso completo da pessoa, depois a morte. Diz-se que aqueles que passavam para a terceira fase da distrofia não podiam ser salvos. Tive a oportunidade de observar dois casos em que familiares de uma pessoa distrófica acamada obtiveram manteiga e outros alimentos nutritivos, mas era absolutamente impossível proporcionar qualquer alívio real.

As pessoas que tinham entrado no período crítico permaneciam indiferentes a tudo à sua volta, num estado de completa apatia. As pessoas caíam e morriam inesperadamente enquanto caminhavam na rua, estavam na fila, no trabalho ou em casa. Certa vez, ao chegar ao Instituto, onde nas salas frias e sem aquecimento ainda decorriam aulas com três ou quatro pessoas, fui literalmente atacado por um homem bastante baixo. A mim, na qualidade de reitor da faculdade, ele expressou com grande ênfase a sua indignação pelo facto de tão poucos estudantes comparecerem às aulas. Parece que este homem era um professor de desenho técnico, que eu ainda não tinha conhecido. No semestre seguinte, ele iria dar um curso. Quanto ao número de alunos, ele teria sete. Então eu disse-lhe: «O facto de ter sete alunos, em vez dos habituais quatro ou cinco, demonstra um progresso notável, que só pode ser explicado pelo grande interesse na sua disciplina.» Isso acalmou-o um pouco, mas, dirigindo-se ao grupo de alunos, gritou com toda a força: «Sim, mas eu quero ter 25 alunos. Quero lutar por cem por cento.» Trinta ou trinta e cinco minutos depois, uma jovem aluna veio a correr ter comigo para informar que o professor de desenho técnico estava morto.

A taxa de mortalidade era excecional entre aqueles que estavam a concluir os seus estudos. Aqui, a competição cobrou o seu preço. Essas pessoas, apesar de todos os obstáculos, queriam concluir o seu trabalho de graduação e concluí-lo bem. Sem comida, em dormitórios frios, trabalhavam teimosamente e escreviam os seus trabalhos. Não viviam muito tempo depois disso — cerca de dez a quinze dias. O esforço intelectual excessivo com o estômago vazio tinha esgotado qualquer reserva de força que eles tivessem.

Na opinião dos médicos, no início de Dezembro de 1941, uma grande percentagem da população de Leninegrado encontrava-se na segunda fase de distrofia. O mês de Dezembro foi o período de transição para a segunda fase para a grande maioria da população. As condições de vida contribuíram fortemente para isso. A distribuição de alimentos em Dezembro tornou-se totalmente insignificante. Os trabalhadores recebiam 200 gramas de pão por dia; os funcionários civis e seus dependentes, ainda menos. A ração de cereais permitia preparar sopa apenas três ou quatro vezes por semana. As batatas tinham sido distribuídas pela última vez em Setembro. O número de cartões de trabalhadores (primeira categoria), que garantiam mais pão e cereais, era estritamente limitado. Um titular de uma cátedra nas escolas superiores de um instituto recebeu esses cartões apenas em Janeiro de 1942; mas os docentes, estudantes de pós-graduação e outros tinham os cartões de funcionários civis (segunda categoria).

Os suprimentos privados pertencentes à população esgotaram-se em meados ou, no máximo, no final de Novembro. Durante esse mês, as pessoas comiam gatos na cidade. Enquanto esperava na fila pelos cartões de racionamento de Dezembro, ouvi involuntariamente a conversa de alguns estudantes. Eles tinham descoberto que a carne de gato era muito saborosa; era algo semelhante à de coelho e só havia uma coisa desagradável: matar o gato. Os gatos defendem-se desesperadamente. Mas logo deixei de ouvir tais conversas — já não havia mais gatos para matar. Em Dezembro, as pessoas começaram a comer ratazanas, ratos e pombos. A uma mulher idosa que estava a morrer, a sua jovem sobrinha trouxe meio rato que tinha conseguido apanhar e deu-lho. No entanto, a mulher moribunda e a sua sobrinha, juntamente com os seus familiares, morreram pouco tempo depois. Seguiram-se os cães.

Os músculos eram a fonte básica de vida. Os médicos recomendavam em particular que as pessoas caminhassem menos e gastassem este recurso de forma mais razoável, uma vez que não seriam capazes de o reconstruir. Em condições especiais, os trabalhadores do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), o pessoal do estado-maior de guerra, os principais quadros do partido e a maioria dos trabalhadores responsáveis recebiam provisões alimentares. Estas pessoas, claro, não conheciam a fome. Os membros do Partido tinham alguns privilégios. No entanto, para além de porções extra de sopa sem cartões de racionamento e de um ou dois cartões adicionais, esses privilégios não ultrapassavam a quota legal. Aqueles que tinham alguma ligação com o abastecimento, como um serviço de refeições em alguma instituição, saíam-se um pouco melhor. A alimentação de alguns membros muito necessários do pessoal técnico de engenharia era melhor. Eram obrigados a viver em instalações governamentais, onde eram alimentados em refeitórios especiais e recebiam alguma comida para levar consigo. No entanto, quando um dos engenheiros levou a mãe para partilhar a sua comida com ela, recebeu uma repreensão do director. A melhor alimentação destinava-se a garantir a sua máxima capacidade de trabalho. A mãe teve de ir directamente para casa, a fim de partilhar o destino comum da população.

No final de Novembro e início de Dezembro, os ataques aéreos alemães chegaram ao fim. Isso, ao que parecia, poderia facilitar a aplicação dos conselhos médicos sobre a economia de energia física. A população poderia dormir tranquilamente à noite; não seria necessário correr para os abrigos antiaéreos nem apagar incêndios. No entanto, em vez dos bombardeamentos que tinham esgotado as suas forças físicas, a vida assumiu algo de novo e mais árduo. Em primeiro lugar, os eléctricos tinham deixado completamente de circular na cidade. Enquanto pela calçada se movia uma sucessão de trenós com cadáveres, nas calçadas, e por vezes nas ruas, havia um grande número de pessoas a caminhar, uma vez que careciam de qualquer outro meio de transporte. Para onde quer que se fosse, era preciso ir a pé: para o trabalho, para fazer recados diversos, simplesmente para visitar as casas das pessoas vizinhas. Todos tinham de fazer um esforço colossal e gastar uma quantidade extraordinária de energia. Uma grande desgraça foi o início do frio, e mais tarde o frio extremo do Inverno, chegando a 50 graus negativos.

Todos os esforços para salvar o sistema de água foram em vão, e toda a população da cidade começou a dirigir-se às bombas próximas que ainda estavam em funcionamento. Durante muito tempo, um buraco aberto na rua por um projétil de artilharia, a oito ou dez minutos a pé da nossa casa, salvou-me. Havia sempre água ali, que as pessoas dos apartamentos próximos vinham buscar. Muitas pessoas, não tendo uma bomba na vizinhança, nem buracos na rua, tiveram de percorrer longas distâncias, por vezes até ao rio, para ir buscar água. O problema da casa de banho foi resolvido despejando tudo na neve nos quintais.

Era impossível aquecer esses quartos. Era preciso dormir vestido, vestindo todas as peças de roupa disponíveis para se manter aquecido. Devido ao frio e à falta de água, muitas pessoas deixaram completamente de se lavar. Cozinhas e quartos de hóspedes irremediavelmente gelados foram transformados em locais de armazenamento. Aqui, frequentemente, eram construídas casas de banho. Uma circunstância extremamente difícil era a completa falta de luz eléctrica. Pequenas lâmpadas fumegantes da época da guerra civil lançavam luz apenas suficiente para permitir que alguém se movimentasse pela sala.

Entretanto, em Leninegrado, no final de Dezembro e em Janeiro, a situação assumiu um carácter catastrófico. O número diário de mortos disparou para entre 25.000 e 30.000. Possivelmente, para a parte da população que estava a morrer, esta foi a transição natural para o período crítico, com as suas consequências inevitáveis. As autoridades administrativas, literalmente sobrecarregadas pelo aumento da taxa de mortalidade, deram ordens para abrir os necrotérios. Estes surgiram nos pátios das casas de Leninegrado. Era escolhido um pátio de grandes dimensões para cada sete a dez casas, dependendo do número de residentes. Era afixado um cartaz e, através do administrador do prédio, era feita uma notificação adequada. Todos podiam agora levar os seus mortos para o necrotério. Para remover os cadáveres das ruas, foram atribuídos camiões, mas estes encontravam-se frequentemente em condições insatisfatórias. Era um trabalho difícil para os carregadores de camiões. Frequentemente, no meio das suas tarefas, caíam mortos e era necessário procurar substitutos. Em média, dez ou doze camiões carregados de cadáveres passavam pela nossa rua todos os dias. Nas ruas principais, o seu número era muito maior.

Embora a maioria das pessoas, independentemente do seu sofrimento, permanecesse notavelmente controlada, ocasionalmente ouvia-se falar de algum comportamento particularmente agressivo [ii]. Em meados de Dezembro, uma conhecida minha, uma senhora idosa, cuja filha estava num campo de concentração, saiu à rua, segurando o seu amado cão pela trela. O cão estava com ela há muito tempo. Antes que a senhora se apercebesse, vários homens lançaram-se sobre ela. Alguns queriam agarrar o cão; outros tentavam arrancar-lhe a trela da mão. Todos disputavam entre si, gritando: «o cão é meu.» Nesse momento, outros transeuntes chegaram a tempo de deter os agressores e afastá-los. A velha senhora regressou, agradecida, a casa com o cão, mas, mesmo assim, três ou quatro semanas depois, acabou por comer o próprio animal.

Aconselhava-se as pessoas a andarem com cuidado nas escadas escuras de madrugada. Ocorreram casos em que, partindo do princípio de que uma pessoa ia buscar pão, alguém lhe batia na cabeça e lhe roubava os cartões de racionamento. Normalmente, era necessário ter cuidado nessas escadas escuras depois de o pão ter sido adquirido. O pão tinha de ser transportado embrulhado e escondido. Por vezes, nas filas nas instalações da loja, os rapazes aventuravam-se a roubar o pão aos donos. Esperavam pelo momento certo e, então, cravavam os dentes num pedaço de pão nas mãos de alguém, tentando morder um pedaço. Por acaso, eu próprio observei uma cena dessas. A dona do pão em que o menino tinha cravado os dentes agarrou-o com grande violência pelo pescoço e não o deixava engolir; depois, a chorar, disse que tinha um menino como ele que estava a morrer em casa. Todas estas coisas eram excessos individuais, resultando num certo aumento da ilegalidade.

É possível até falar de novos tipos de «crime». Um deles era chamado de «esconder cadáveres». Ao manter o cadáver em casa durante cerca de uma semana e ocultar a morte, algumas pessoas conseguiam acumular pão suficiente no cartão do falecido para pagar a escavação da sepultura. Outras faziam-no para ficar com o pão e outros cartões de racionamento do falecido para uso pessoal. Conservar um cadáver nos apartamentos gelados daquela época não era tarefa difícil.

Eu conhecia uma funcionária civil que conseguiu esconder a sua tia morta durante quase um mês inteiro. Mais tarde, ela lamentou não ter feito o mesmo com a sua mãe, que tinha morrido dois ou três dias antes da tia. Mais tarde ainda, ela própria morreu, e um vizinho conseguiu escondê-la também durante cinco dias. Na prática, era difícil usar os cartões de uma pessoa morta por mais de doze ou catorze dias. Além disso, apenas uma pequena percentagem da população se dedicava a esta prática. Durante a segunda quinzena de Janeiro, dizia-se que a taxa de mortalidade tinha descido para 9.000 ou 10.000 por dia. Isto pode ter-se devido ao facto de as pessoas mais fracas já terem morrido ou, possivelmente, a uma alteração na qualidade do pão racionado. Seja como for, a melhoria das condições foi de curta duração. Uma nova desgraça abateu-se sobre a cidade. As fortes geadas e o estado geral de degradação dos edifícios da cidade levaram à paralisação do trabalho nas padarias da cidade e a maior parte das lojas ficou sem pão. Em algumas lojas onde o pão chegou, formaram-se filas enormes que se mantiveram desde o início da manhã até ao fim da tarde. Multidões de pessoas, após esperarem dez ou doze horas sob temperaturas geladas, saíram de mãos vazias. A falta de pão, juntamente com a exaustão extrema causada pela espera no frio, fez com que a taxa de mortalidade disparasse de imediato para o valor anterior de 25.000 a 30.000. Algumas pessoas morreram na fila; muitas morreram nas ruas, depois de correrem desesperadamente de loja em loja para perguntar se havia alguma esperança de uma entrega de pão.

No início de 1942, ocorreram alguns acontecimentos que foram muito embaraçosos para as autoridades militares e civis da cidade. Multidões de pessoas que estavam na fila assaltaram várias padarias. Mais impactante do que a pilhagem de algumas mercearias, considerando as condições particulares da vida soviética, foi um acontecimento de significado político. Duas organizações de mulheres (Trabalhadoras da Engenharia Técnica) uniram-se e apresentaram uma petição na qual solicitavam, em nome das crianças moribundas, a rendição da cidade. Elas apontavam para a prática geral das relações internacionais e, especialmente, para o recente anúncio de que Paris seria declarada uma «cidade aberta». Se esta petição conseguiu chegar a algum representante de nível superior a Pyotr Popkov, o presidente do Soviete de Leninegrado, nunca vim a saber. Na cidade, a petição não causou grande impressão, embora muitas pessoas soubessem da sua existência. Algumas mulheres trabalhadoras do Partido chegaram mesmo a discutir o assunto comigo, apesar de eu não ser membro do Partido e, o que é mais surpreendente, não condenaram as mulheres que tinham redigido a petição.”

A brutalidade do sofrimento humano do cerco de Leninegrado – um milhão e meio de mortos – não é qualitativamente diferente dos muitos genocídios coloniais e imperiais entre o século XVI e o século XX: os vários genocídios de povos originários das Américas e de África pelos colonizadores europeus e seus descendentes, o genocídio do povo herero e nama da Namíbia pelo Império Alemão entre 1904 e1908, o genocídio do povo arménio entre 1915-1923 pelo Império Otomano, o genocídio do povo judeu pela Alemanha Nazi, o genocídio do povo tutsi pela elite hútu no Ruanda em 1994, genocídio dos bósnios muçulmanos pelas forças sérvias entre 1992 e 1995 e o genocídio do povo rohingya pelo exército e polícia de Mianmar ao longo das duas últimas décadas.

O que distingue Leninegrado é a forma-cerco levada ao extremo. A mesma forma-cerco está em curso, de modos diferentes, na Palestina e em Cuba. Apesar do seu extremismo, o cerco de Leninegrado foi repelido e estou confiante que mais tarde ou mais cedo será também repelido na Palestina e em Cuba. Para isso é fundamental a solidariedade internacional.

Se Cuba e Palestina não romperem o cerco, seremos todos nós os derrotados, acordando tarde demais para o facto de que o cerco à volta da Palestina e de Cuba está já germinando à nossa volta, multiplicando-se, qual Hidra de Lerna, graças à nossa passividade. Começa a ser tarde demais para a intervenção de Hércules!

Cuba vencerá! Palestina vencerá!

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NOTAS
[i] Trata-se da tradução reduzida de dois capítulos do livro do autor, Osada Leningrad, N. Y., Chekhov Publishing House, 1952. Esta descrição tem as suas limitações, sobretudo tendo em vista a documentação oficial e de arquivo diarista que veio a lume posteriormente. Torna a história do cerco ainda mais dramática. Consultar sobre esta bibliografia Sarah Gruszka, «L’historiographie du siège de Leningrad», Revue des études slaves, Vol. 83:1, 2012, pp. 269-281.

[ii] À luz do que escreve Gruszka, op. cit., houve muita criminalidade e alguma bem grave. É o caso de canibalismo e do comércio de carne humana. Estes crimes eram severamente punidos. A punição de crimes políticos foi igualmente severa.

24 de Maio de 2026

https://estatuadesal.com/2026/05/25/em-leninegrado-a-pensar-em-cuba-e-gaza/
https://aviagemdosargonautas.net/2026/05/24/em-leninegrado-a-pensar-em-cuba-e-gaza-por-boaventura-de-sousa-santos/
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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Robin Philpot - Einstein opôs-se à colonização sionista na Palestina e previu a catástrofe atual



– As suas opiniões sobre Israel e o sionismo foram ocultadas e distorcidas durante décadas

Robin Philpot [*]

Capa de 'Einstein', de Fred Jerome.

Algumas semanas antes da criação do Estado de Israel, Shepard Rifkin, um representante sediado em Nova Iorque do Grupo Stern, uma organização paramilitar sionista fundada na Palestina Mandatória, solicitou que representantes do grupo se reunissem com Albert Einstein nos Estados Unidos, "a maior figura judaica da época", segundo o jornalista I.F. Stone. A resposta de Einstein foi inequívoca:

Quando uma catástrofe real e definitiva nos atingir na Palestina, os primeiros responsáveis por ela serão os britânicos e os segundos responsáveis serão as organizações terroristas criadas a partir das nossas próprias fileiras. Não estou disposto a ver ninguém associado a essas pessoas iludidas e criminosas.

Einstein disse que a sua "vida estava dividida entre equações e política". No entanto, entre os seus biógrafos — existem centenas deles — e nos meios de comunicação social dominantes, os seus extensos escritos políticos sobre Israel e o sionismo foram, na melhor das hipóteses, varridos para debaixo do tapete ou, na pior das hipóteses, completamente distorcidos, identificando-o como um apoiante do Estado de Israel.

Isto é, até que o falecido Fred Jerome os procurou, encontrou, mandou traduzir (na sua maioria do alemão) e os publicou no livro, Einstein on Israel and Zionism. Infelizmente, a primeira edição deste texto, publicada por uma editora de Nova Iorque, teve uma tiragem muito pequena, nunca foi promovida nem transformada em e-book, e esgotou num instante. É por isso que a Baraka Books publicou uma nova edição com o consentimento de Jocelyn Jerome, viúva do autor.

Foi na Alemanha da década de 1920, uma época de antissemitismo desenfreado em que a teoria da relatividade era atacada como "ciência judaica", que Einstein se sentiu atraído pelo movimento sionista. Só em 1914, quando chegou à Alemanha, é que "descobriu pela primeira vez que era judeu", uma descoberta que atribuiu mais aos "gentios do que aos judeus". Antes disso, ele via-se como um membro da espécie humana.

Ele autodenominava-se um “sionista cultural”, mas já em 1921 Kurt Blumenfeld, um ativista sionista enviado para recrutar Einstein, advertiu Chaim Weizmann, o futuro presidente de Israel, sobre o grande cientista:

Einstein, como sabe, não é sionista, e peço-lhe que não tente torná-lo sionista nem que tente ligá-lo à nossa organização. … Einstein, que se inclina para o socialismo, sente-se muito envolvido com a causa do trabalho judaico e dos trabalhadores judeus… Ouvi dizer… que espera que Einstein faça discursos. Por favor, tenha muito cuidado com isso. Einstein… diz frequentemente coisas por ingenuidade que não são bem-vindas por nós.

Para além da suposta "ingenuidade" de Einstein, Blumenfeld não poderia ter dito melhor. Einstein viria a ser um obstáculo constante ao projeto sionista de colonização da Palestina e à criação do Estado de Israel até à sua morte, em 1955.

Eis alguns exemplos das posições que assumiu.

As suas trocas de correspondência com Chaim Weizmann, o futuro presidente de Israel, ilustram o quão importante Einstein era para os sionistas, mas, mais importante ainda, como as suas opiniões divergiam das deles. Numa carta a Weizmann, datada de 25 de novembro de 1929, escreveu:

Se não formos capazes de encontrar um caminho para uma cooperação honesta e pactos honestos com os árabes, então não aprendemos nada durante os nossos dois mil anos de sofrimento e merecemos o destino que nos sobrevirá.

A ideia do "destino que nos sobrevirá" surge frequentemente. Em 1929, ele parece já ter previsto que o Estado-nação que os sionistas sonhavam criar sem "cooperação honesta e pactos honestos" com os seus vizinhos palestinos se tornaria o que é hoje, nomeadamente o lugar mais perigoso do mundo para os judeus viverem.

Algumas semanas depois, a 14 de dezembro de 1929, escreveu a Selig Brodetsky, da Organização Sionista em Londres: "Estou feliz por não termos poder. Se a teimosia nacional se revelar suficientemente forte, então vamos dar com as cabeças na parede, como merecemos."

Além disso, Leon Simon, um dos seus primeiros editores e tradutores, escreveu:

No nacionalismo do Professor Einstein não há espaço para qualquer tipo de agressividade ou chauvinismo. Para ele, o domínio dos judeus sobre os árabes na Palestina, ou a perpetuação de um estado de hostilidade mútua entre os dois povos, significaria o fracasso do sionismo.

Ao contrário da grande maioria dos sionistas, o apoio de Einstein a uma possível "pátria judaica" — não um Estado — não se limitava à Palestina. Não havia nada de religioso no seu compromisso. Alguns sionistas defendiam a criação de tal pátria na China, no Peru ou em Birobidzhan, na União Soviética, mas em total acordo com as autoridades estatais e as populações em cada caso.

Einstein apoiou estas medidas. Por exemplo, sobre a pátria judaica de Birobidzhan na União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, escreveu:

Não devemos esquecer que, naqueles anos de perseguição atroz do povo judeu, a Rússia Soviética foi a única grande nação que salvou centenas de milhares de vidas judaicas. A iniciativa de instalar 30 000 órfãos de guerra judeus em Birobidzhan e garantir-lhes, desta forma, um futuro satisfatório e feliz é uma nova prova da atitude humana da Rússia para com o nosso povo judeu. Ao ajudar esta causa, contribuiremos de forma muito eficaz para a salvação dos remanescentes do judaísmo europeu.

Nos anos cruciais entre o fim da guerra e a sua morte em 1955, Einstein foi franco quanto ao projeto do Estado judeu. Convidado a testemunhar perante a Comissão Anglo-Americana de Inquérito sobre a Palestina em Washington, DC, em janeiro de 1946, Einstein respondeu inequivocamente quando questionado sobre a possibilidade de um Estado de Israel versus uma pátria cultural: "Nunca fui a favor de um Estado".

Em março de 1947, I.Z. David, membro do grupo terrorista Irgun liderado por Menachem Begin, enviou-lhe um questionário ao qual ele respondeu de forma incisiva e clara:

Pergunta: Qual é a sua opinião sobre a criação de uma Palestina Nacional Judaica livre?
Einstein: Pátria Nacional Judaica? Sim. Palestina Nacional Judaica? Não. Sou a favor de uma Palestina livre e binacional numa data posterior, após acordo com os árabes.
Pergunta: Opinião sobre a partilha da Palestina e as propostas de Chaim Weizmann relativas à partição?
Einstein: Sou contra a partição.

Quanto à questão da aliança entre o imperialismo britânico e o americano, Einstein não nutria ilusões:

Parece-me que os nossos queridos americanos estão agora a moldar a sua política externa ao modelo dos alemães, uma vez que parecem ter herdado a presunção e a arrogância destes últimos. Aparentemente, também querem assumir o papel que a Inglaterra desempenhou até agora. Recusam-se a aprender uns com os outros; e aprendem pouco mesmo com a sua própria experiência amarga. O que foi incutido nas mentes desde a juventude está mais firmemente enraizado do que a experiência e o raciocínio. Os ingleses são mais um bom exemplo disso. Os seus métodos antiquados de reprimir as massas, recorrendo a elementos locais sem escrúpulos da classe económica alta, irão em breve custar-lhes todo o seu império, mas são incapazes de se convencerem a mudar os seus métodos; independentemente de serem os conservadores ou os socialistas. Com os alemães, foi exatamente o mesmo. Tudo isto seria bom e belo, se não fosse o facto de ser tão triste para os elementos melhores e para os oprimidos.

Quanto aos antepassados políticos do atual governo de Netanyahu, Einstein atacou-os a eles e aos seus partidos políticos, particularmente no New York Times. Quando Menachem Begin veio a Nova Iorque no final de 1948, Einstein, Hannah Arendt e outras figuras intelectuais judaicas nos Estados Unidos publicaram uma carta a denunciar a sua visita e a organização que ele liderava, chamando-a de "um partido político muito próximo, na sua organização, métodos, filosofia política e apelo social, dos partidos nazis e fascistas". Um exemplo que citaram foi o massacre de 240 homens, mulheres e crianças na aldeia palestina de Deir Yassin.

Einstein repetiu esta acusação até à sua morte em 1955:   "Estas pessoas são nazis nos seus pensamentos e ações." Qualquer pessoa que diga isto hoje nos meios de comunicação social tradicionais é imediatamente rotulada de antissemita e colocada na lista negra.

É de conhecimento geral que, quando Chaim Weizmann morreu em 1952, o primeiro-ministro de Israel ofereceu a presidência de Israel a Albert Einstein. Menos conhecida, no entanto, é a razão que Einstein deu para esta recusa:   “Eu teria de dizer ao povo israelense coisas que eles não gostariam de ouvir”. Ainda menos conhecida é a declaração de Ben Gurion:   “Diga-me o que fazer se ele disser sim! Tive de lhe oferecer o cargo porque era impossível não o fazer, mas se ele aceitar, vamos ter problemas".

Centenas, senão milhares, de pessoas estão a ser acusadas de antissemitismo ou despedidas dos seus empregos por se atreverem a criticar o Estado de Israel, chamá-lo de Estado de apartheid e denunciar o genocídio dos palestinos. Que fiquem tranquilos:   estão em boa companhia, porque se Einstein estivesse vivo hoje estaria na linha da frente a manifestar-se com eles.

13/Maio/2026

Ver também:
  • Porquê o Socialismo?, de Albert Einstein.
  • [*] Editor da Baraka Books. Todas as citações são da nova edição enriquecida de Einstein on Israel and Zionism (Setembro/2024) de Fred Jerome.

    O original encontra-se em www.defenddemocracy.press/einstein-opposed-zionist-colonization-in-palestine-and-predicted-the-current-catastrophe/

    quarta-feira, 13 de maio de 2026

    O anticomunismo serôdio e as exemplares mistificações dos ilusionistas liberais, até dizer ...chega



    * WHISTLEBLOWER.Pt
     ·
    O cartaz não mente. 

    Está ali, preto no branco: a ausência dos comunistas na receção a um representante do parlamento ucraniano e a citação de Paula Santos a lamentar o fim da União Soviética. 

    Para quem desfila no 25 de Abril sob as bandeiras da Liberdade e da Democracia, a contradição é tão estrondosa que só uma cegueira ideológica profunda a pode disfarçar. 

    Mas essa cegueira não é uma falha acidental. É o requisito fundamental para manter de pé uma narrativa que a realidade já desmontou há muito.

    O verdadeiro hino à hipocrisia não está apenas no gesto de se ausentarem. 

    Está no sistema de pensamento que torna esse gesto possível. 

    Está na resposta às três perguntas que nenhum comunista consegue responder sem recorrer a ginásticas mentais que insultam a inteligência de quem trabalha.

    1. "Fascismo? Em Portugal??"
    A pergunta é retórica porque a resposta é óbvia para qualquer pessoa que não tenha a vista queimada pela ideologia. 

    Não, não vivemos numa ditadura fascista. Nem no tempo de Salazar. Era um Regime autoritário, nao fascista.

    Mas a narrativa precisa do fantasma do "fascismo" para sobreviver. 

    Precisam de chamar fascismo ao liberalismo, ao centro-direita, à troika, ao patrão da fábrica, ao senhorio. Porquê? 

    Porque sem um inimigo absoluto e desumanizado, a lógica binária do "nós contra eles" desmorona-se. 
    Se admitissem que Portugal é uma democracia imperfeita mas real, teriam de admitir que os seus métodos e os seus dogmas são uma resposta para um problema que já não existe nos termos que eles colocam. 

    A inflação retórica do termo "fascismo" é o primeiro sintoma da cegueira: para verem o mundo a preto e branco, têm de chamar preto a todos os tons de cinzento.

    2. A maioria dos comunistas trabalha para capitalistas.
    Esta é a verdade que devia fazer tremer a cátedra de qualquer teórico de gabinete. 

    O militante do PCP, a base que enche os comícios, acorda todos os dias e vende a sua força de trabalho a um capitalista. 

    Recebe um salário, paga impostos, desconta para a Segurança Social num sistema que o partido quer derrubar. 

    A resposta clássica – "é a condição de explorado" – é tecnicamente verdadeira, mas moral e existencialmente vazia. 

    O que esta esquizofrenia quotidiana prova não é a exploração do trabalhador (essa é real e combatível), mas a impossibilidade prática do mundo que defendem. 

    Vives no capitalismo, sobrevives graças a ele, e ainda assim passas a vida a desejá-lo morto, sem nunca apresentares uma alternativa funcional. 

    Não é hipocrisia da pessoa; é a hipocrisia estrutural de uma ideologia que só sobrevive no mundo das ideias, nunca no mundo real do trabalho que diz defender.

    3. A pergunta que nenhum congresso responde: os pés que fogem
    E aqui chegamos ao ponto onde a cegueira se torna obscenidade moral. 

    "Se o imperialismo é tão mau como dizem, porque foge o povo, quando pode, para países capitalistas?".
    A pergunta não é só justa; é um tiro de misericórdia. 

    Os fluxos migratórios do último século são o referendo silencioso e implacável sobre os dois sistemas. 

    Milhões de pessoas arriscaram a vida em botes, arames farpados e desertos não para chegar a uma Cuba, a uma Coreia do Norte ou ao que resta da Venezuela herdeira do "socialismo do século XXI". Fogem para a "Europa imperialista", para os "Estados Unidos opressores", para o "capitalismo selvagem". 

    Fogem porque, mesmo na sua exploração, o capitalismo democrático ofereceu historicamente mais pão, mais liberdade e mais futuro do que qualquer paraíso socialista real.

    A resposta do PCP a este facto é o cúmulo da ginástica mental: a culpa é do colonialismo, do imperialismo, da NATO. 

    Mas isso é responder a uma pergunta com um lamento, não com uma análise. 

    Se o teu sistema é tão superior, porque é que ninguém foge para ele? 

    Porque é que os cubanos não fogem em massa para a China e os chineses não arriscam a vida para entrar na Rússia? 

    A verdade é dura: o socialismo real falhou tão redondamente em criar prosperidade e liberdade que os seus próprios povos, quando puderam, votaram com os pés... em direção ao "inimigo" fascista...

    A anatomia da cegueira

    A cegueira ideológica não é não ver a realidade. 

    É olhar para ela e recusar-se a aceitar o que os factos gritam. 

    É precisar de manter viva a chama de uma "União Soviética" que Paula Santos lamenta como um "avanço extraordinário para o povo", ignorando deliberadamente o Gulag, a fome, a repressão, o atraso económico. 

    É olhar para um parlamento ucraniano eleito e ver um "bando de neonazis", mas olhar para Moscovo e não ver o poder vertical de Vladimir Putin. É clamar por Liberdade no 25 de Abril e ausentar-se da solidariedade a um povo invadido.

    O hino à hipocrisia está completo quando, no mesmo fôlego, se celebra a Revolução dos Cravos – que derrubou uma ditadura e exigiu eleições livres – e se nega a um povo soberano o direito de escolher as suas alianças. 

    A falta de vergonha está em instrumentalizar o nome da Liberdade para atacar os que resistem a tanques, enquanto se desce a avenida de braço dado com a memória do império que esmagou tanques na Hungria, em Praga, em Cabul.

    Ser "Fascista" é ver isto sem filtros. É aceitar que, por trás da liturgia, do cartaz e da frase feita, há uma corrente de pensamento que trocou a análise da realidade pela repetição de mantras. 

    E que insulta todos os que, cá dentro ou lá fora, lutam por uma democracia sem adjetivos.
    2026 05 09
     

    Verdade e factos
    https://www.facebook.com/groups/944995956870607?

    sábado, 9 de maio de 2026

    Maria Vladimirovna Zakharova - [O Dia da Vitória e as mistificações do 'ocidente']



    * Maria Vladimirovna Zakharova

    O chanceler alemão, Merz, surpreendeu com o seu comentário nas redes sociais: "O dia 8 de maio de 1945 trouxe a libertação - para milhões de pessoas, para a Alemanha, para a Europa. Ele lembra-nos que nunca devemos esquecer o que o ódio pode provocar. Obriga-nos a defender uma Alemanha livre, democrática e solidária numa Europa forte". 

    Ele não disse quem libertou quem. Provavelmente esqueceu-se de onde tudo começou. Mas os seus próprios cidadãos lembraram-lhe. Quando um jornalista perguntou quem libertou a Alemanha do nazismo, o vice-representante oficial do governo alemão, Steffen Maier, respondeu inicialmente que "isto está claramente documentado na história", mas ficou em silêncio quando a pergunta foi repetida. 

    Mas a noite não foi tranquila e, no final do dia, o Presidente dos EUA, Donald Trump, ganhou o jackpot de interpretações do 8 de maio e da vitória europeia. Ele assinou uma proclamação por ocasião do aniversário da derrota da Alemanha de Hitler, na qual afirmou claramente, desafiando os seus vassalos, o que o 8 de maio realmente significa: "Celebramos a grande vitória da América sobre a tirania e o mal na Europa, alcançada graças à força das nossas forças armadas e dos nossos aliados". 

    Uma vez que o Ocidente rejeitou a nossa proposta de uma abordagem unificada para preservar a memória histórica, para ser honesta, estou satisfeita com o progresso da sua bipolaridade - os aliados da OTAN não decepcionaram uns aos outros. De tudo o que foi mencionado acima, só se pode concluir uma coisa. Enquanto houver debates no "Ocidente colectivo" sobre quem fez mais para afirmar o seu domínio sobre o resto do mundo, a Rússia entra confiantemente no Dia da Vitória, a 9 de maio, orgulhosamente carregando a Bandeira da Vitória, hasteada pela Exército Vermelho sobre o Reichstag derrotado. 

    O mundo foi salvo pela contribuição determinante do soldado soviético. Este facto não pode ser alterado. "Este fogo eterno, que nos foi legado por ele, guardamo-lo nos nossos corações". O Dia da Vitória, a 9 de maio, foi e será nosso! Junte-se a nós!!!

    @MariaVladimirovnaZakharova

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    quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

    Stalin e o discurso de Churchill sobre a Cortina de Ferro



    Iosif Stalin, entrevista sobre o discurso de Churchill sobre a Cortina de Ferro. 14 de março de 1946.

    Nesta entrevista encenada para um jornal, Stalin respondeu ao discurso de Winston Churchill em Fulton, "Os Nervos da Paz", com a advertência de que uma "cortina de ferro" havia descido sobre a Europa. Ocorrendo logo após o discurso de Stalin sobre a eleição de 9 de fevereiro e pouco antes do "Longo Telegrama" de George F. Kennan, a troca de mensagens ajudou a definir o vocabulário inicial da Guerra Fria. Stalin retratou Churchill como um belicista que promovia um bloco anglófono, defendeu a predominância soviética na Europa Oriental como uma necessidade de segurança baseada no sacrifício em tempos de guerra e insistiu que a política soviética era pacífica, enquanto a "resistência" ocidental era provocativa.

    Fonte original: Pravda, 14 de março de 1946.

    P: Qual a sua avaliação do recente discurso do Sr. Churchill nos Estados Unidos da América?

    A. Considero isso um ato perigoso, calculado para semear a discórdia entre os estados aliados e dificultar sua colaboração.

    P: Pode-se considerar que o discurso do Sr. Churchill causou prejuízo à causa da paz e da segurança?

    A. Certamente. A essência da questão é que o Sr. Churchill agora assume a posição de um belicista. E o Sr. Churchill não está sozinho nisso; ele tem amigos não só na Inglaterra, mas também nos Estados Unidos da América.

    É importante notar que Churchill e seus aliados lembram muito, nesse aspecto, Hitler e seus aliados. Hitler iniciou a tarefa de desencadear a guerra proclamando a teoria racial, declarando que apenas os povos que falavam alemão constituíam uma nação plena. Churchill também iniciou a tarefa de desencadear a guerra com uma teoria racial, afirmando que apenas as nações que falam inglês são nações plenas, destinadas a governar os destinos do mundo inteiro. A teoria racial alemã levou Hitler e seus aliados ao ponto de que os alemães, como a única nação plena, deveriam dominar as demais nações. A teoria racial inglesa leva Churchill e seus aliados à conclusão de que as nações de língua inglesa, como as únicas nações plenas, deveriam dominar o resto das nações do mundo.

    Em essência, o Sr. Churchill e seus amigos na Inglaterra e nos EUA apresentaram às nações não anglófonas algo como um ultimato: reconheçam voluntariamente nossa dominância e então tudo estará em ordem; caso contrário, a guerra é inevitável.

    Mas as nações derramaram seu sangue ao longo de cinco anos de guerra cruel pela liberdade e independência de seus países, e não para trocar o domínio de Hitler pelo domínio de Churchill. É totalmente provável, portanto, que as nações não anglófonas, que incluem a grande maioria da população mundial, não concordem em aceitar uma nova escravidão.

    A tragédia do Sr. Churchill é que ele, como um conservador inveterado, não entende essa verdade simples e óbvia.

    Não há dúvida de que a postura do Sr. Churchill é uma postura de guerra, um apelo à guerra com a URSS...

    P: Como o senhor avalia a parte do discurso do Sr. Churchill em que ele ataca a ordem democrática nos estados europeus que são nossos vizinhos e em que critica as relações de boa vizinhança que foram estabelecidas entre essas nações e a União Soviética?

    A. Esta parte do discurso do Sr. Churchill é uma mistura de elementos de difamação, grosseria e falta de tato.

    O Sr. Churchill declara que "Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste, Sófia – todas essas cidades famosas e as populações da região circundante estão na esfera soviética e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não só à influência soviética, mas também, em grande medida, ao crescente controle de Moscou". O Sr. Churchill caracteriza tudo isso como as ilimitadas "tendências expansionistas" da União Soviética.

    Não é preciso muito esforço para demonstrar que aqui o Sr. Churchill difama de forma grosseira e impudente tanto Moscou quanto os estados vizinhos da URSS mencionados anteriormente.

    Em primeiro lugar, é completamente absurdo falar de controle exclusivo da URSS em Viena e Berlim, onde existem Conselhos de Controle Aliados compostos por representantes de quatro estados e onde a URSS detém apenas um quarto dos votos...

    Em segundo lugar, não se deve esquecer as seguintes circunstâncias. Os alemães lançaram a invasão da URSS através da Finlândia, Polônia, Romênia, Bulgária e Hungria. Os alemães conseguiram lançar a invasão por esses países porque neles existiam governos, na época, hostis à URSS. Como resultado da invasão alemã, a União Soviética perdeu cerca de sete milhões de pessoas para sempre em combate contra os alemães e, também devido à ocupação alemã, no exílio forçado de cidadãos soviéticos para trabalhos forçados na Alemanha. Escusado será dizer que a União Soviética perdeu várias vezes mais pessoas do que a Inglaterra e os Estados Unidos da América juntos. Possivelmente, existe uma inclinação em alguns lugares para relegar ao esquecimento esses sacrifícios colossais do povo soviético, que garantiram a libertação da Europa do jugo de Hitler. Mas a União Soviética não pode esquecê-los. Pode-se perguntar o que há de surpreendente no fato de a União Soviética querer segurança no futuro, em suas tentativas de garantir que nesses países existam governos que mantenham relações leais com a União Soviética? Será possível, sem perder o juízo, caracterizar esses esforços pacíficos da União Soviética como tendências expansionistas do nosso Estado?

    O Sr. Churchill declara ainda que "os partidos comunistas, que eram insignificantes em todos esses estados do Leste Europeu, ganharam poder exclusivo..."

    Como se sabe, a Inglaterra é agora governada por um governo de partido único, o Partido Trabalhista, que impede os demais partidos de participarem do governo inglês. Churchill chama isso de democratismo autêntico. Polônia, Romênia, Iugoslávia, Bulgária e Hungria são governadas por um bloco de vários partidos — de quatro a seis — que garante à oposição, se mais ou menos leal, o direito de participar do governo. Churchill chama isso de totalitarismo, tirania, estado policial...

    O Sr. Churchill quer que a Polônia seja governada por Sosnkowski e Anders, a Iugoslávia por Mikhailovich e Pavelich, a Romênia pelo Príncipe Stirbey e Radescu (todos não comunistas; Pavelich era um nazista croata), a Hungria e a Áustria por algum rei da Casa de Habsburgo, e assim por diante. O Sr. Churchill quer nos assegurar que esses senhores dos esconderijos fascistas podem garantir o "democratismo pleno". Esse é o "democratismo" do Sr. Churchill.

    O Sr. Churchill se aproxima da verdade quando fala do crescimento da influência dos Partidos Comunistas na Europa Oriental. Deve-se notar, porém, que ele não é totalmente preciso. A influência dos Partidos Comunistas está crescendo não apenas na Europa Oriental, mas em quase todos os países europeus onde o fascismo já predominou (Itália, Alemanha, Hungria, Bulgária, Romênia, Finlândia) ou onde houve ocupação alemã ou italiana (França, Bélgica, Holanda, Noruega, Dinamarca, Polônia, Tchecoslováquia, Iugoslávia, Grécia, União Soviética, etc.).

    O crescimento da influência dos Partidos Comunistas não pode ser considerado acidental. É um fenômeno completamente regular. A influência dos Partidos Comunistas está crescendo porque, nos piores anos da dominação fascista na Europa, os comunistas se mostraram lutadores confiáveis, corajosos e abnegados contra o regime fascista, pela liberdade do povo...

    Essas são as leis do desenvolvimento histórico.

    É claro que o Sr. Churchill não gosta desse desenrolar dos acontecimentos e, freneticamente, soa o alarme, o chamado às armas... Não sei se o Sr. Churchill e seus amigos conseguirão, após a Segunda Guerra Mundial, organizar uma nova campanha militar contra a "Europa Oriental". Mas, se conseguirem, o que é improvável, visto que milhões de "pessoas comuns" se mantêm vigilantes em defesa da paz, então pode-se afirmar com certeza que serão derrotados, como foram derrotados no passado, há vinte e seis anos.

    Fonte: Robert H. McNeal, ed., Lenin. Stalin. Khrushchev. Voices of Bolshevism (Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1963), pp. 120-123.

    https://soviethistory.msu.edu/1947/cold-war/cold-war-texts/stalin-on-churchills-iron-curtain-speech/

    Churchill - Discurso da 'Guerra fria', em Fulton (1946)

     

    Em 5 de março de 1946, a presença de Winston Churchill e do presidente Harry Truman transformou o ginásio de uma faculdade em uma pequena cidade do Meio-Oeste americano em um palco mundial, quando Churchill proferiu seu discurso mais famoso do pós-Segunda Guerra Mundial: "Os Nervos da Paz".

    O fato de Churchill e Truman terem viajado até Fulton, no Missouri, é a história de um reitor universitário com a audácia de pedir o aparentemente impossível; de um ex-aluno do Westminster College com acesso ao Presidente dos Estados Unidos; de um Presidente dos Estados Unidos disposto a aceitar o convite; e de um primeiro-ministro britânico recém-derrotado com a perspicácia de reconhecer uma oportunidade.

    É uma história de coincidência e de um momento aproveitado com ousadia — uma combinação que Churchill explorou ao longo de toda a sua vida.

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    Fico feliz em vir ao Westminster College esta tarde e me sinto honrado por me concederem um diploma. O nome "Westminster" me é familiar. Parece que já ouvi falar dele antes. De fato, foi em Westminster que recebi grande parte da minha formação em política, dialética, retórica e mais algumas disciplinas. Aliás, ambos estudamos na mesma instituição, ou em instituições semelhantes, ou, pelo menos, em instituições afins.

    É também uma honra, talvez quase única, para um visitante particular ser apresentado a uma plateia acadêmica pelo Presidente dos Estados Unidos. Em meio aos seus pesados ​​encargos, deveres e responsabilidades — não solicitados, mas dos quais não se esquiva — o Presidente viajou milhares de quilômetros para dignificar e abrilhantar nosso encontro aqui hoje e para me dar a oportunidade de me dirigir a esta nação irmã, bem como aos meus compatriotas do outro lado do oceano, e talvez também a alguns outros países. O Presidente disse-lhes que é seu desejo, como tenho certeza que é o de vocês, que eu tenha plena liberdade para oferecer meu conselho sincero e leal nestes tempos de ansiedade e incerteza.

    Certamente aproveitarei esta liberdade e sinto-me ainda mais no direito de fazê-lo porque quaisquer ambições pessoais que eu possa ter nutrido na minha juventude foram satisfeitas para além dos meus sonhos mais ousados. Deixe-me, no entanto, deixar claro que não tenho qualquer missão ou posição oficial e que falo apenas por mim. Não há nada aqui além do que você vê.

    Posso, portanto, permitir que minha mente, com a experiência de uma vida inteira, reflita sobre os problemas que nos afligem no dia seguinte à nossa vitória absoluta nas armas, e tentar garantir, com toda a força que me resta, que o que foi conquistado com tanto sacrifício e sofrimento seja preservado para a glória e segurança futuras da humanidade.

    Os Estados Unidos encontram-se, neste momento, no auge do poder mundial. É um momento solene para a democracia americana, pois a primazia no poder vem acompanhada de uma responsabilidade inspiradora para com o futuro. Ao olhar ao redor, é preciso sentir não apenas a sensação de dever cumprido, mas também a ansiedade de não ficar aquém do nível de realização alcançado.

    A oportunidade está aqui agora, clara e brilhante para ambos os nossos países. Rejeitá-la, ignorá-la ou desperdiçá-la trará sobre nós todas as longas reprovações do futuro.

    É necessário que a constância de espírito, a persistência de propósito e a grande simplicidade de decisão guiem e regulem a conduta dos povos de língua inglesa em tempos de paz, assim como o fizeram em tempos de guerra. Devemos, e acredito que iremos, provar que estamos à altura dessa exigência rigorosa.

    Quando militares americanos se deparam com alguma situação grave, costumam escrever no cabeçalho de suas diretrizes as palavras "Conceito Estratégico Geral". Há sabedoria nisso, pois leva à clareza de pensamento. Qual é, então, o conceito estratégico geral que devemos adotar hoje? Nada menos que a segurança e o bem-estar, a liberdade e o progresso de todos os lares e famílias de todos os homens e mulheres em todas as nações.

    E aqui me refiro particularmente às inúmeras casas ou apartamentos onde o assalariado se esforça, em meio aos acidentes e dificuldades da vida, para proteger sua esposa e filhos da privação e criar a família no temor do Senhor, ou segundo concepções éticas que muitas vezes desempenham um papel importante.

    Para garantir a segurança dessas inúmeras casas, elas devem ser protegidas dos dois saqueadores impiedosos: a guerra e a tirania.

    Todos nós conhecemos os terríveis distúrbios em que a família comum mergulha quando a maldição da guerra se abate sobre o provedor e aqueles para quem ele trabalha e sustenta.

    A terrível ruína da Europa, com todas as suas glórias desaparecidas, e de grandes partes da Ásia, nos encara de frente. Quando os desígnios de homens perversos ou o ímpeto agressivo de Estados poderosos dissolvem, em vastas áreas, a estrutura da sociedade civilizada, as pessoas humildes se veem diante de dificuldades insuperáveis. Para elas, tudo está distorcido, tudo está destruído, tudo está reduzido a pó.

    Ao estar aqui nesta tarde tranquila, estremeço ao imaginar o que está realmente acontecendo com milhões de pessoas agora e o que acontecerá neste período em que a fome assola a Terra. Ninguém consegue calcular o que tem sido chamado de "a soma incalculável da dor humana". Nossa tarefa e dever supremos são proteger os lares do povo comum dos horrores e misérias de outra guerra. Todos concordamos com isso.

    Nossos colegas militares americanos, após terem proclamado seu "conceito estratégico geral" e calculado os recursos disponíveis, sempre passam para a próxima etapa — ou seja, "o método". Aqui também há amplo consenso. Uma organização mundial já foi criada com o objetivo primordial de prevenir a guerra. A ONU, sucessora da Liga das Nações, com a adição decisiva dos Estados Unidos e tudo o que isso implica, já está em funcionamento.

    Devemos garantir que seu trabalho seja frutífero, que seja uma realidade e não uma farsa, que seja uma força para a ação e não apenas uma enxurrada de palavras, que seja um verdadeiro templo da paz onde os escudos de muitas nações possam um dia ser erguidos, e não apenas uma arena na Torre de Babel.

    Antes de descartarmos as sólidas garantias do armamento nacional em nome da autopreservação, devemos ter certeza de que nosso templo não está construído sobre areias movediças ou pântanos, mas sobre a rocha. Qualquer um pode ver, com os olhos bem abertos, que nosso caminho será difícil e longo, mas se perseverarmos juntos como fizemos nas duas guerras mundiais — embora não, infelizmente, no intervalo entre elas — não tenho dúvidas de que alcançaremos nosso objetivo comum no final.

    Tenho, no entanto, uma proposta concreta e prática para ação. Tribunais e magistrados podem ser criados, mas não podem funcionar sem xerifes e agentes da lei. A Organização das Nações Unidas deve começar imediatamente a ser equipada com uma força armada internacional.

    Em tal assunto, só podemos proceder passo a passo, mas devemos começar agora. Proponho que cada uma das potências e estados seja convidada a dedicar um certo número de esquadrões aéreos ao serviço da Organização Mundial. Esses esquadrões seriam treinados e preparados em seus respectivos países, mas se deslocariam em sistema de rodízio entre eles. Usariam o uniforme de seus países, porém com distintivos diferentes.

    Eles não seriam obrigados a agir contra a própria nação, mas, em outros aspectos, seriam orientados pela Organização Mundial. Isso poderia começar em pequena escala e cresceria à medida que a confiança aumentasse. Eu desejava ver isso realizado após a Primeira Guerra Mundial e confio sinceramente que possa ser feito imediatamente.

    Seria, contudo, errado e imprudente confiar o conhecimento secreto ou a experiência com a bomba atômica, que os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e o Canadá agora compartilham, à Organização Mundial enquanto esta ainda está em seus primórdios. Seria uma loucura criminosa lançá-la à deriva neste mundo ainda agitado e desunido. Ninguém em nenhum país dormiu menos tranquilo por esse conhecimento, o método e as matérias-primas para aplicá-lo estarem, atualmente, em grande parte, em mãos americanas.

    Não creio que teríamos dormido tão tranquilamente se as posições fossem invertidas e algum Estado comunista ou neofascista monopolizasse, temporariamente, essas agências temíveis. O mero medo delas poderia facilmente ter sido usado para impor sistemas totalitários ao mundo livre e democrático, com consequências assombrosas para a imaginação humana. Deus quis que isso não aconteça, e temos pelo menos um respiro para colocar a casa em ordem antes de enfrentarmos esse perigo, e mesmo assim, se não pouparmos esforços, ainda possuiremos uma superioridade tão formidável que nos permitirá impor dissuasões eficazes contra o seu uso, ou a ameaça de seu uso, por outros.

    Em última análise, quando a fraternidade essencial da humanidade estiver verdadeiramente incorporada e expressa em uma organização mundial com todas as salvaguardas práticas necessárias para torná-la eficaz, esses poderes serão naturalmente confiados a essa organização mundial.

    Agora, passo ao segundo perigo desses dois invasores que ameaça o lar e o cidadão comum: a tirania. Não podemos ignorar o fato de que as liberdades desfrutadas pelos cidadãos em todo o Império Britânico não são válidas em um número considerável de países, alguns dos quais muito poderosos.

    Nesses Estados, o controle é imposto ao povo comum por diversos tipos de governos policiais abrangentes,  a um grau opressivo  e contrário a todos os princípios da democracia . O poder do Estado é exercido sem restrições, seja por ditadores, seja por oligarquias coesas que operam por meio de um partido privilegiado e uma polícia política. Não é nosso dever, neste momento, em que as dificuldades são tão numerosas, interferir à força nos assuntos internos de países que não conquistamos em guerra.

    Mas jamais devemos deixar de proclamar, em tom destemido, os grandes princípios da liberdade e dos direitos do homem, que são herança comum do mundo anglófono e que, por meio da Magna Carta, da Declaração de Direitos, do Habeas Corpus, do julgamento por júri e do Direito Comum Inglês, encontram sua expressão mais famosa na Declaração de Independência dos Estados Unidos.

    Tudo isso significa que o povo de qualquer país tem o direito e deve ter o poder, por meio de ações constitucionais, através de eleições livres e irrestritas com voto secreto, de escolher ou mudar o caráter ou a forma de governo sob o qual vive; que a liberdade de expressão e de pensamento deve prevalecer; que tribunais de justiça, independentes do executivo, imparciais a qualquer partido, devem administrar leis que receberam a ampla aprovação de grandes maiorias ou que foram consagradas pelo tempo e pelo costume. Eis os títulos de propriedade da liberdade, que deveriam estar presentes em cada lar. Eis a mensagem dos povos britânico e americano para a humanidade. Preguemos o que praticamos, pratiquemos o que pregamos.

    Já mencionei os dois grandes perigos que ameaçam os lares do povo: a guerra e a tirania. Ainda não falei da pobreza e da privação, que em muitos casos são a principal preocupação. Mas se os perigos da guerra e da tirania forem eliminados, não há dúvida de que a ciência e a cooperação poderão trazer ao mundo, nos próximos anos, e certamente nas próximas décadas, com o conhecimento adquirido na escola da guerra, uma expansão do bem-estar material que ultrapasse qualquer coisa já vista na experiência humana.

    Agora, neste momento triste e sufocante, estamos mergulhados na fome e na angústia que são as consequências de nossa luta colossal; mas isso passará, e poderá passar rapidamente, e não há razão, a não ser a insensatez humana ou o crime desumano, que negue a todas as nações a inauguração e o desfrute de uma era de abundância. Muitas vezes usei palavras que aprendi há cinquenta anos com um grande orador irlandês-americano, um amigo meu, o Sr. Bourke Cockran: "Há o suficiente para todos. A terra é uma mãe generosa; ela proverá em abundância alimento para todos os seus filhos, se eles cultivarem seu solo com justiça e paz."

    Até o momento, acredito que estamos em total acordo. Agora, enquanto ainda buscamos o método para concretizar nosso conceito estratégico geral, chego ao ponto crucial que me trouxe até aqui.

    Nem a prevenção segura da guerra, nem a ascensão contínua da organização mundial serão alcançadas sem o que chamei de associação fraterna dos povos de língua inglesa. Isso significa uma relação especial entre a Comunidade Britânica e o Império Britânico e os Estados Unidos. Não é hora para generalidades, e ousarei ser preciso.

    A associação fraterna exige não apenas o crescimento da amizade e da compreensão mútua entre nossos dois vastos, porém afins, sistemas sociais, mas também a continuidade da estreita relação entre nossos conselheiros militares, levando ao estudo conjunto de potenciais perigos, à similaridade de armamentos e manuais de instruções, e ao intercâmbio de oficiais e cadetes em escolas técnicas. Deveria incluir a manutenção das atuais facilidades de segurança mútua por meio do uso conjunto de todas as bases navais e aéreas de ambos os países ao redor do mundo. Isso talvez dobrasse a mobilidade da Marinha e da Força Aérea americanas.

    Isso ampliaria consideravelmente as Forças do Império Britânico e poderia muito bem levar, se e quando a situação mundial se acalmar, a importantes economias financeiras. Já utilizamos em conjunto um grande número de ilhas; outras poderão ser confiadas aos nossos cuidados conjuntos num futuro próximo.

    Os Estados Unidos já possuem um Acordo de Defesa Permanente com o Domínio do Canadá, que é tão devotamente ligado à Comunidade Britânica e ao Império. Este Acordo é mais eficaz do que muitos dos que foram frequentemente firmados no âmbito de alianças formais.

    Este princípio deve ser estendido a todas as comunidades britânicas, com plena reciprocidade. Assim, aconteça o que acontecer, e somente assim, estaremos seguros e aptos a trabalhar juntos pelas causas nobres e simples que nos são caras e que não representam nenhum mal para ninguém. Eventualmente, poderá surgir — e acredito que surgirá — o princípio da cidadania comum, mas talvez nos contentemos em deixá-lo ao destino, cujo braço estendido muitos de nós já conseguimos vislumbrar claramente.

    No entanto, há uma questão importante que devemos nos fazer. Uma relação especial entre os Estados Unidos e a Comunidade Britânica seria incompatível com nossa lealdade primordial à Organização Mundial? Respondo que, pelo contrário, é provavelmente o único meio pelo qual essa organização alcançará sua plena estatura e força.

    Já existem as relações especiais dos Estados Unidos com o Canadá, que acabei de mencionar, e existem as relações entre os Estados Unidos e as repúblicas sul-americanas. Nós, britânicos, temos o nosso Tratado de Vinte Anos de Colaboração e Assistência Mútua com a União Soviética.

    Concordo com o Sr. Bevin, Ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, que, no que nos diz respeito, bem poderia ser um Tratado de Cinquenta Anos. Nosso objetivo é apenas a assistência e a colaboração mútuas. Os britânicos têm uma aliança com Portugal ininterrupta desde 1384, que produziu resultados frutíferos em momentos críticos da guerra recente. Nada disso entra em conflito com o interesse geral de um acordo mundial ou de uma organização mundial; pelo contrário, contribui para isso. "Na casa de meu Pai há muitas moradas."

    Associações especiais entre membros das Nações Unidas que não têm qualquer propósito agressivo contra outro país, que não abrigam qualquer desígnio incompatível com a Carta das Nações Unidas, longe de serem prejudiciais, são benéficas e, a meu ver, indispensáveis.

    Falei anteriormente sobre o Templo da Paz. Trabalhadores de todos os países devem construir esse templo. Se dois desses trabalhadores se conhecem particularmente bem e são velhos amigos, se suas famílias estão interligadas e se eles têm "fé no propósito um do outro, esperança no futuro um do outro e benevolência para com as falhas um do outro" — para citar algumas belas palavras que li aqui outro dia — por que não podem trabalhar juntos na tarefa comum como amigos e parceiros? Por que não podem compartilhar suas ferramentas e, assim, aumentar a capacidade de trabalho um do outro?

    Na verdade, eles devem fazê-lo, caso contrário o templo poderá não ser construído, ou, sendo construído, poderá ruir, e todos nós seremos novamente considerados incapazes de aprender e teremos que ir e tentar aprender novamente pela terceira vez em uma escola de guerra, incomparavelmente mais rigorosa do que aquela da qual acabamos de ser libertados.

    A Idade das Trevas pode retornar, a Idade da Pedra pode retornar nas asas brilhantes da ciência, e aquilo que agora pode derramar bênçãos materiais imensuráveis ​​sobre a humanidade, pode até mesmo trazer sua destruição total.

    Cuidado, eu digo; o tempo pode ser curto. Não deixemos que os acontecimentos se prolonguem até que seja tarde demais.

    Se houver uma associação fraterna do tipo que descrevi, com toda a força e segurança adicionais que ambos os nossos países podem obter dela, asseguremo-nos de que esse grande fato seja conhecido pelo mundo e que desempenhe o seu papel na consolidação e estabilização dos alicerces da paz. Esse é o caminho da sabedoria. Prevenir é melhor que remediar.

    Uma sombra paira sobre os cenários tão recentemente iluminados pela vitória dos Aliados. Ninguém sabe o que a Rússia Soviética e sua organização internacional comunista pretendem fazer no futuro imediato, ou quais são os limites, se é que existem, de suas tendências expansionistas e proselitistas. Tenho grande admiração e respeito pelo valente povo russo e pelo meu camarada de guerra, o Marechal Stalin. Há profunda simpatia e boa vontade na Grã-Bretanha — e não duvido que também aqui — para com os povos de todos os russos e uma determinação em perseverar, apesar de muitas diferenças e rejeições, no estabelecimento de amizades duradouras. Compreendemos a necessidade russa de ter segurança em suas fronteiras ocidentais, eliminando toda possibilidade de agressão alemã.

    Damos as boas-vindas à Rússia ao seu devido lugar entre as principais nações do mundo. Saudamos o hasteamento de sua bandeira nos mares. Acima de tudo, saudamos os contatos constantes, frequentes e crescentes entre o povo russo e o nosso povo em ambos os lados do Atlântico. É meu dever, porém, pois tenho certeza de que desejariam que eu lhes apresentasse os fatos como os vejo, expor-lhes certos fatos sobre a situação atual na Europa.

    De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente. Atrás dessa linha encontram-se todas as capitais dos antigos estados da Europa Central e Oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia, todas essas cidades famosas e as populações ao seu redor estão no que eu chamaria de esfera soviética, e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não apenas à influência soviética, mas também a um controle muito elevado e, em muitos casos, crescente por parte de Moscou.

    Somente Atenas — a Grécia com suas glórias imortais — tem a liberdade de decidir seu futuro em uma eleição sob a supervisão britânica, americana e francesa. O governo polonês, dominado pela Rússia, foi incentivado a fazer incursões enormes e injustas na Alemanha, e expulsões em massa de milhões de alemães, em uma escala terrível e inimaginável, estão ocorrendo agora. Os partidos comunistas, que eram muito pequenos em todos esses Estados do Leste Europeu, ascenderam a uma preeminência e a um poder muito além de sua representatividade e buscam, em todos os lugares, obter o controle totalitário.

    Governos policiais prevalecem em quase todos os casos e, até agora, com exceção da Checoslováquia, não há verdadeira democracia. A Turquia e a Pérsia estão profundamente alarmadas e perturbadas com as exigências que lhes são feitas e com a pressão exercida pelo governo de Moscou. Os russos em Berlim estão tentando construir um partido quase comunista em sua zona da Alemanha ocupada, concedendo favores especiais a grupos de líderes alemães de esquerda.

    Ao final dos combates em junho passado, os exércitos americano e britânico recuaram para oeste, de acordo com um acordo prévio, até uma profundidade de 150 milhas em alguns pontos, numa frente de quase quatrocentas milhas, a fim de permitir que nossos aliados russos ocupassem essa vasta extensão de território que as democracias ocidentais haviam conquistado.

    Se agora o governo soviético tentar, por meio de ações isoladas, construir uma Alemanha pró-comunista em seus territórios, isso causará novas e sérias dificuldades nas zonas britânica e americana, e dará aos alemães derrotados o poder de se colocarem em leilão entre os soviéticos e as democracias ocidentais. Quaisquer que sejam as conclusões que se possam tirar desses fatos — e são fatos —, certamente esta não é a Europa Libertada pela qual lutamos. Nem é uma Europa que contenha os elementos essenciais para uma paz duradoura.

    A segurança do mundo exige uma nova unidade na Europa, da qual nenhuma nação seja permanentemente excluída. É das disputas entre as principais potências europeias que surgiram as guerras mundiais que testemunhamos, ou que ocorreram em tempos passados.

    Duas vezes em nossa própria geração vimos os Estados Unidos, contra a sua vontade e as suas tradições, contra argumentos cuja força é impossível não compreender, serem arrastados por forças irresistíveis para essas guerras a tempo de garantir a vitória da boa causa, mas somente depois de terem ocorrido terríveis massacres e devastação.

    Por duas vezes os Estados Unidos tiveram que enviar milhões de seus jovens através do Atlântico para combater a guerra; mas agora a guerra pode encontrar qualquer nação, onde quer que esteja entre o crepúsculo e o amanhecer. Certamente devemos trabalhar com propósito consciente por uma grande pacificação da Europa, dentro da estrutura das Nações Unidas e de acordo com a nossa Carta. Considero essa uma causa política aberta de suma importância.

    Diante da Cortina de Ferro que se estende por toda a Europa, existem outros motivos de preocupação. Na Itália, o Partido Comunista enfrenta sérias dificuldades por ter que apoiar as reivindicações do Marechal Tito, formado no comunismo, sobre o antigo território italiano na cabeceira do Adriático. Contudo, o futuro da Itália permanece incerto.

    Mais uma vez, não se pode imaginar uma Europa regenerada sem uma França forte. Toda a minha vida pública trabalhei por uma França forte e nunca perdi a fé em seu destino, nem mesmo nos momentos mais sombrios. Não perderei a fé agora. No entanto, em um grande número de países, longe das fronteiras russas e em todo o mundo, quintas colunas comunistas estão estabelecidas e atuam em completa unidade e absoluta obediência às diretrizes que recebem do centro comunista. Exceto na Comunidade Britânica e nos Estados Unidos, onde o comunismo está em sua infância, os partidos comunistas ou quintas colunas constituem um desafio e um perigo crescentes para a civilização cristã.

    São fatos sombrios para qualquer um ter que recitá-los no dia seguinte a uma vitória conquistada por tanta camaradagem em armas e pela causa da liberdade e da democracia; mas seríamos muito insensatos se não os encarássemos de frente enquanto ainda há tempo.

    A situação também é preocupante no Extremo Oriente, especialmente na Manchúria. O Acordo de Yalta, do qual participei, foi extremamente favorável à União Soviética, mas foi firmado num momento em que ninguém podia afirmar que a guerra com os alemães não se estenderia por todo o verão e outono de 1945, e quando se previa que a guerra com os japoneses duraria mais 18 meses após o fim da guerra com os alemães. Neste país, vocês são todos tão bem informados sobre o Extremo Oriente e tão dedicados amigos da China, que não preciso me alongar sobre a situação naquela região.

    Senti-me na obrigação de retratar a sombra que, tanto no Ocidente quanto no Oriente, paira sobre o mundo. Eu era ministro na época do Tratado de Versalhes e amigo íntimo do Sr. Lloyd-George, que chefiava a delegação britânica em Versalhes. Eu mesmo não concordava com muitas das coisas que foram feitas, mas guardo uma forte impressão daquela situação, e acho doloroso contrastá-la com a que prevalece agora. Naqueles dias, havia grandes esperanças e uma confiança ilimitada de que as guerras haviam terminado e que a Liga das Nações se tornaria onipotente.

    Não vejo nem sinto essa mesma confiança, nem mesmo as mesmas esperanças, no mundo devastado que se encontra atualmente.

    Por outro lado, repudio a ideia de que uma nova guerra seja inevitável; e muito menos que seja iminente. É porque tenho certeza de que nosso destino ainda está em nossas próprias mãos e que detemos o poder de salvar o futuro, que sinto o dever de me manifestar agora que tenho a ocasião e a oportunidade de fazê-lo. Não acredito que a Rússia Soviética deseje a guerra. O que eles desejam são os frutos da guerra e a expansão indefinida de seu poder e doutrinas.

    Mas o que temos de considerar hoje, enquanto ainda há tempo, é a prevenção permanente da guerra e o estabelecimento de condições de liberdade e democracia o mais rapidamente possível em todos os países. Nossas dificuldades e perigos não serão eliminados se fecharmos os olhos para eles. Não serão eliminados simplesmente esperando para ver o que acontece; nem serão eliminados por uma política de apaziguamento. O que é necessário é um acordo, e quanto mais se adiar esse acordo, mais difícil ele será e maiores serão os nossos perigos.

    Pelo que observei de nossos amigos e aliados russos durante a guerra, estou convencido de que nada os encanta tanto quanto a força, e nada inspira menos respeito do que a fraqueza, especialmente a fraqueza militar. Por essa razão, a antiga doutrina do equilíbrio de poder é falha. Não podemos nos dar ao luxo, se pudermos evitar, de trabalhar com margens estreitas, cedendo à tentação de uma demonstração de força. Se as democracias ocidentais se mantiverem unidas, em estrita observância aos princípios da Carta das Nações Unidas, sua influência na promoção desses princípios será imensa e ninguém ousará perturbá-las.

    Contudo, se eles se dividirem ou vacilarem no cumprimento do seu dever, e se estes anos tão importantes forem deixados escapar, então, de fato, uma catástrofe poderá nos atingir a todos.

    Da última vez, eu vi tudo isso se aproximando e clamei aos meus compatriotas e ao mundo, mas ninguém me deu ouvidos. Até o ano de 1933, ou mesmo 1935, a Alemanha poderia ter sido salva do terrível destino que a atingiu e todos nós poderíamos ter sido poupados das misérias que Hitler desencadeou sobre a humanidade.

    Nunca houve na história uma guerra mais fácil de prevenir com uma ação oportuna do que aquela que acaba de devastar vastas áreas do globo. Acredito que ela poderia ter sido evitada sem que um único tiro fosse disparado, e a Alemanha poderia ser hoje poderosa, próspera e honrada; mas ninguém quis ouvir e, um a um, fomos todos tragados pelo terrível turbilhão. Certamente não podemos deixar que isso aconteça novamente.

    Isso só poderá ser alcançado se, agora, em 1946, chegarmos a um bom entendimento em todos os pontos com a Rússia, sob a autoridade geral da Organização das Nações Unidas, e se esse bom entendimento for mantido ao longo de muitos anos de paz, por meio do instrumento mundial, apoiado por toda a força do mundo anglófono e todas as suas conexões. Eis a solução que respeitosamente lhes apresento neste discurso, ao qual dei o título "Os Nervos da Paz".

    Que ninguém subestime o poder duradouro do Império Britânico e da Commonwealth. Porque vocês veem os 46 milhões de habitantes da nossa ilha afligidos com a falta de alimentos, dos quais produzem apenas metade, mesmo em tempos de guerra, ou porque temos dificuldade em reativar nossas indústrias e o comércio de exportação após seis anos de intenso esforço de guerra, não suponham que não superaremos estes anos sombrios de privação, assim como superamos os gloriosos anos de agonia, ou que, daqui a meio século, vocês não verão 70 ou 80 milhões de britânicos espalhados pelo mundo, unidos na defesa de nossas tradições, nosso modo de vida e das causas mundiais que vocês e nós defendemos.

    Se a população dos países de língua inglesa for somada à dos Estados Unidos, com tudo o que essa cooperação implica no ar, no mar, em todo o globo, na ciência, na indústria e na força moral, não haverá um equilíbrio de poder instável e precário que ofereça a tentação da ambição ou da aventura. Pelo contrário, haverá uma garantia de segurança inabalável.

    Se aderirmos fielmente à Carta das Nações Unidas e avançarmos com força serena e sóbria, sem buscar as terras ou os tesouros de ninguém, sem tentar exercer controle arbitrário sobre os pensamentos dos homens; se todas as forças e convicções morais e materiais britânicas se unirem às suas em fraternidade, os caminhos do futuro estarão claros, não apenas para nós, mas para todos, não apenas para o nosso tempo, mas para o século vindouro.

    Winston Churchill

    5 de março de 1946

    Faculdade Westminster, Fulton, Missouri

    https://www.nationalchurchillmuseum.org/sinews-of-peace-iron-curtain-speech.html