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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Clara Ferreira Alves- A FOTOGRAFIA DE JOHN LE CARRÉ

* Clara Ferreira Alves 
PLUMA CAPRICHOSA

ERA UM GENIAL CONTADOR DE HISTÓRIAS, UM MÍMICO RESPEITÁVEL, CÓMICO E SÉRIO AO MESMO TEMPO. IMITAVA AS VOZES, OS MANEIRISMOS, ERA A MELHOR COMPANHIA QUE SE PODIA DESEJAR

O homem era muito alto. Bati com suavidade à porta, ele entreabriu, e pela fenda consegui dizer “sou jornalista, Expresso, venho para a entrevista”. O homem respondeu, agora não vou dar entrevista. Neste momento não. Insisti. Estava a ler e não ia interromper a leitura para falar comigo. Tudo dito com polidez glacial, naquele tom das classes educadas da Inglaterra. A fenda da porta alargou, ligeiramente. Conseguia agora ver a cara, fechada e sem um sorriso, com um sobrolho levantado. Percebido, lá se ia a oportunidade de falar com John le Carré. Perdido por cem perdido por mil, perguntei com insolência o que ele estava a ler que não podia ser interrompido. A porta abriu um pouco mais, deixando ver uma figura alta, com uma madeixa de cabelo de cor indefinida, louro branco, sobre a testa. Respondeu que era Flaubert, “Madame Bovary”. Aí eu não resisti e disse, adoro esse romance, já o li tantas vezes. E ele, eu também, quantas? Nove vezes. E dissemos os dois ao mesmo tempo, nove vezes. Nine times. Com esta declaração que parecia cronometrada, a porta abriu-se completamente. O escritor, admirado com a coincidência, continuou a falar de Flaubert, a atenção ao pormenor, discutimos ainda uma comparação com Tchekov, o modo como ambos conseguiam caracterizar uma personagem através do que a rodeava ou do estado da luz, ou das observações sobre a paisagem. E assim consegui a entrevista de David John Moore Cornwell. Aliás, John le Carré.

Estava em Lisboa para fazer pesquisa sobre “A Casa da Rússia”, e Mário Soares convidou-o para almoçar em Belém. Deu uma entrevista, aquela, naquele tempo não dava entrevistas. Estava em exílio voluntário de quaisquer comunicações com a imprensa, detestava o meio literário londrino e considerava certa condescendência da crítica perante a obra um pecado original da mediocridade. As recensões aos livros e a frase repetida de que era um escritor de romances de espionagem que queria ser levado a sério deixavam-no mortificado. Tinha publicado “Um Espião Perfeito”, o livro que Philip Roth considerou o melhor romance inglês do pós-guerra. Tinha publicado “O Espião que Saiu do Frio” e “Tinker Tailor Soldier Spy”, o primeiro volume da trilogia “The Quest for Karla”, juntamente com “The Honourable Schoolboy” e “A Gente de Smiley”. A trilogia é um monumento literário. Antes das pressões de marketing dos grupos editoriais, os escritores davam raras entrevistas e Le Carré era uma estrela da literatura, com os livros adaptados ao cinema e televisão.

Abriu o minibar e perguntou se queria um whisky, uma garrafinha anã. Bebemos os dois, cada uma com a sua garrafinha, no quarto do Ritz, um quarto com duas camas. Nada de suítes presidenciais. O fotógrafo chegou, o António Pedro Ferreira, e fotografou no final da entrevista. Não foi o princípio de uma bela amizade, mas enquanto esteve em Lisboa voltámos a falar, queria saber coisas sobre o país, a capital pós-imperial que iria ser parte do livro que estava a escrever.

A entrevista saiu na Revista, com uma bela fotografia na capa, um primeiríssimo plano da cara. De Lisboa, o escritor seguiu para Moscovo. Quando regressou a Londres, viu a entrevista, traduzida, suponho que pela gente da agência dele. Gostou, e gostou da fotografia.

Tempos depois, recebi uma carta da agência, solicitando a fotografia para a contracapa da edição original de “A Casa da Rússia”, “The Russia House”. A agência pagaria o que pedíssemos, e a fotografia seria assinada. Uma oportunidade de ouro, visto que só os grandes fotógrafos tinham fotografado Le Carré, um escritor que sempre cuidou da pose e que respeitava a imagem e a estética da representação, e não resistia a aparecer em cameo nos filmes. Os fotógrafos idolatravam-no. Anton Corbijn, que melhor o capturou, acabaria a filmar “O Homem Mais Procurado”, uma fiel adaptação das luzes e sombras do universo Le Carré.

Provavelmente, a fotografia da edição inglesa seria a da edição americana. Num alvoroço, entreguei o pedido ao António Pedro Ferreira, para que respondesse logo, combinando o modo de fazer chegar o negativo ou o slide, não me lembro. Não voltei a receber correspondência da agência, o livro ia ser publicado. E foi. Sem a fotografia portuguesa. O fotógrafo era Terry O’Neill, um retrato estudado, como tantos que faria do escritor. Foi um dos seus retratistas favoritos. Um grande plano da cara, ocupando a contracapa. Terry O’Neill estava casado com Faye Dunaway nessa altura, e era um dos nomes grandes da fotografia. O que aconteceu?

O António Pedro Ferreira nunca respondeu à agência, porque a fotografia se tinha estragado na gráfica. Estava riscada. A única coisa que me disse, ao princípio, foi que oferecia a fotografia, antes de saber que estava danificada. As gráficas não tinham cuidado. Embaraçado, o meu amigo fotógrafo deixou o silêncio falar. Perguntei se não deveriam ter sobrado fotografias, tão boas como aquela. O A. P. F., que eu escolhera para o trabalho de fotografar Le Carré, manteve teimosamente que era aquela ou nenhuma. E aquela não podia ter sido.

E assim dei por mim a escrever uma longa carta a Le Carré pedindo desculpas, explicando o imbróglio, a gráfica, a teimosia do fotógrafo e sobretudo a ausência de uma resposta da nossa parte. Nem uma linha na volta do correio. Quando o livro já tinha sido publicado, com a assinatura de Terry O’Neill, tive uma sessão de descompostura com o A. P. F. Voltei a escrever, para dizer o que pensava sobre o livro, quando já se filmava a versão com Sean Connery e Michelle Pfeiffer. Recebo meia dúzia de linhas datilografadas, polidas, agradecendo o interesse e as palavras. Fim de comunicação. “David Cornwell, call me David”, dissera ele em Lisboa, ficara irritado? Nunca saberei.

Voltei a ver John le Carré muitos anos depois, na Cornualha, perto de Penzance, onde ele vivia à beira-mar, em Land’s End. No fim da terra. Passava em Londres apenas o tempo suficiente para tratar de assuntos, nunca mais de dez dias. Um amigo meu era amigo de um amigo dele. Fomos todos a um pub, num dia de chuva miudinha e rançosa, beber e conversar. O escritor estava mais velho. E, se possível, mais famoso. Falámos de Lisboa, da melancolia da cidade, da luz, dos pormenores gravados na imaginação. E falámos do Médio Oriente, onde passámos tempo suficiente. Era um genial contador de histórias, um mímico respeitável, cómico e sério ao mesmo tempo. Imitava as vozes, os maneirismos, era a melhor companhia que se podia desejar. O Alec Guinness (Smiley, na versão da BBC) era perfeito. Conhecia meio mundo, e era conhecido no mundo inteiro. Tinha uma vida internacional, viajada, e tinha uma vida monástica, disciplinada, para poder escrever. Todas as tardes, dava uma caminhada. O resto do tempo, escrevia. Continuava a gostar de whisky e a bebê-lo.

Terry O’Neill continuou a fotografá-lo, mas não é um dos cinco autores dos cinco retratos de John le Carré na National Portrait Gallery. Cinco. O homem tornou-se um tesouro nacional. Um dos retratos é de Lord Snowdon, que foi casado com a princesa Margaret. Numa das sessões de fotografia, a primeira, Lord Snowdon perguntou-lhe se podiam passar a nomes próprios, sem títulos. Claro, respondeu David Cornwell. Você tem mais a perder do que eu.

in  

A fotografia de John le Carré

18.12.2020

sábado, 16 de maio de 2020

Clara Ferreira Alves -O espião chinês

PLUMA CAPRICHOSA
CLARA FERREIRA ALVES

A CHINA E OS SERVIÇOS SECRETOS CHINESES NUNCA ATRAÍRAM A NATA DOS ROMANCISTAS DE ESPIONAGEM. A CHINA TEM OS MAIS SECRETOS E MAIS BEM ORGANIZADOS SERVIÇOS DE INTELLIGENCE DO MUNDO

A
cabou “Segurança Nacional”. A série aguentou oito temporadas sem que a intriga tenha destrambelhado, como costuma acontecer a séries de alto risco com uma história cheia de curvas e contracurvas, escrita por dezenas de argumentistas. Vimos envelhecer as personagens e estamos muito longe da “traição” inicial, mas o final é uma descoberta, com Carrie Mathison a transformar-se em Nicholas Brody. A mancha de Rorschach desenha a simetria das duas personagens, Carrie e Brody, o nó romântico e trágico da série. Howard Gordon e Alex Gansa nunca perderam o fio à meada e controlaram o resultado.

Claro que Hollywood, como o resto das ficções de espionagem, nunca encontrou melhor inimigo e adversário do que a Rússia e a antiga União Soviética. Os árabes e muçulmanos substituíram às vezes e aguentaram o papel de inimigos secundários, no banco dos suplentes, mas tanto antes como depois do 11 de Setembro, as histórias de terroristas e dos vapores tóxicos do Médio Oriente nunca conseguiram destronar a atração do cinismo eslavo e da inquietação gerada pelo KGB, hoje GRU. Para os romances de espionagem, que ganharam a consagração durante a Guerra Fria e a Cortina de Ferro, no caldo fumegante do pós-guerra e da construção do Muro de Berlim e de Checkpoint Charlie, as intrigas e traições dos serviços secretos, com as histórias e personagens nascidas das brumas, com o jogo de espelhos, são o material de excelência.

John Le Carré, filho de Joseph Conrad e de Graham Greene, os precursores, conferiu ao género uma qualidade literária, que começa com “O Espião que Saiu do Frio”, o primeiro best-seller do autor e a matriz fundadora desta literatura na segunda metade do século XX. O romance, de 1963, apresenta-nos o espião relutante Alec Leamas, um agente britânico enviado para a Alemanha Oriental fazendo-se passar por dissidente para espalhar desinformação sobre um importante oficial da secreta comunista do lado de lá. Leamas, ao contrário de muitos espiões, tinha uma consciência. A consciência do espião, e as suas valorações axiológicas, que o fazem hesitar, duvidar, ou estar disposto a morrer antes de triunfar, é o que distingue o espião bom do espião mau. O bem do mal, se quiserem. Carrie Mathison está sempre à beira de perder a consciência, tal como o mentor Saul Berenson, mas recuperam-na no fio da navalha por onde deslizam como o caracol do coronel Kurtz.

Com a trilogia “The Quest for Karla”, “Smiley Versus Karla” em português, Le Carré atingiu a plenitude do género. A trilogia é uma obra-prima. Smiley, o chefe do MI6, joga um xadrez geoestratégico na intimidade com o homólogo Karla, chefe do KGB. Smiley é um anti-herói e Karla também, entretidos a sacrificar peões num tabuleiro onde a vida vale pouco e corre em estado líquido. Tudo em nome da pátria. O jogo é o que lhes interessa, não tanto a pátria. Smiley não joga For Queen and Country, joga para xeque-mate. Teoricamente, o jogo acaba assim, mas Smiley perde tanto como Karla quando ambos ficam soterrados na poeira dos escombros do império. São dois espiões velhos e desempregados, aposentados à força e avessos às tecnologias e às políticas da imagem. Ambos deitaram vidas a perder sem perderem o respeito um pelo outro. O mundo novo e digital do século XXI nunca os aceitaria ou compreenderia, são ambos produtos da mesma cultura fortíssima, a europeia, a da Europa que ia de São Petersburgo a Londres, passando por Praga, Viena, Paris e Berlim. Putin é um avatar deste mundo antigo e literário, na versão autocrática pós-moderna. E não é dotado de consciência, foi arregimentado pela cobiça imperial. Um czar fora de época, muito bem-sucedido porque os inimigos não estão à altura. Não se pode conceber um bom drama de espiões com medíocres atores.

As grandes centrais de espionagem romanesca foram sempre a CIA, o KGB, a Mossad, O MI6 e, tangencialmente, os serviços secretos franceses ou alemães para servirem cafés. A implacável Mossad ocupa o topo da tabela, com proezas mais militares do que de intelligence, e com uma mitologia duramente construída em paralelo com a fundação do Estado de Israel e o combate ao inimigo palestiniano. Em “A Rapariga do Tambor”, Le Carré foi seduzido pela região e as guerrilhas no deserto moral das religiões, mas não ficou muito tempo. O território dele é a Alemanha, a Inglaterra, a Rússia. Berlim, Londres, Moscovo. Afastou-se para outros continentes e regressou sempre a casa. Sozinho, John Le Carré, aliás David Cornwell, refundou o género, cristalizando na imaginação coletiva a figura do espião intelectual e indeciso sobre a pertença e identidade. Todos os espiões com consciência são espelhos do autor, refletindo a ambiguidade moral e identitária de uma condição universalista sobreposta a um nacionalismo que cria e alimenta marionetas movidas pela ambição e ganância da burocracia política e militar das nações.

A aventureira Carrie Mathison herda esta ambiguidade, característica mais inglesa do que americana. A realidade da CIA não ostenta muitas personagens como Carrie e Saul, filhos dos espiões da Guerra Fria e das operações do Médio Oriente no tempo em que se usavam luvas. E Carrie tem mais de T.E. Lawrence do que de James Jesus Angleton. Ela acaba na Rússia, desertora e traidora, a recusar going native. Na série, o apartamento de Moscovo parece-se mais com um de Manhattan do que com a modéstia dos aposentos que a Rússia reservou para os traidores ocidentais. Kim Philby vivia num cinzento prédio estalinista, encostado ao tédio e ao samovar, com um copo de whisky na mão e saudade dos prados ingleses. E não consta que Edward Snowden esteja bem instalado.

É um facto curioso que a China e os serviços secretos chineses nunca tenham atraído a nata dos romancistas de espionagem. A China tem os mais secretos e mais bem organizados serviços de intelligence do mundo, e trava uma guerra ideológica permanente com um bloco ocidental que despreza e deseja submeter. Ao contrário dos extremistas da Jihad, um bando de assassinos maltrapilhos e desorganizados, o perigo da nossa “submissão”, para usar o título do livro de Houellebecq, nunca veio daqui. Qualquer diplomata sabe que o perigo, mais do que a Rússia, é a China. Demasiado poderosa para ser confrontada. Demasiado corruptora.

O grande livro sobre a secreta chinesa tem por título “Chinese Intelligence Operations”, de Nicholas Eftimiades, a bíblia para quem queira saber alguma coisa sobre o assunto. Sobre o assunto sabe-se quase nada. Impenetrável, mais impenetrável do que a Al-Qaeda dos sauditas, a China age no segredo e na discrição milenar. Está mais ativa do que nunca, controlando a narrativa da pandemia e os danos para o país, financiando espiões e idiotas úteis, movendo as peças para capturar a rainha e dar xeque ao rei americano. Por baixo do radar, a China observa e ordena, e será a única superpotência do futuro. No entanto, raros são os escritores que se interessam por tais manobras. Nunca saberemos o que aconteceu em Wuhan, para lá da especulação. Os escritores e ficcionistas não se interessam pelo que desconhecem, nem por uma cultura referencial que lhes é estranha. A língua, os usos e costumes, os comportamentos, as paisagens. A China é o maior país do mundo e o mais bem guardado segredo do mundo.

sábado, 2 de maio de 2020

CLARA FERREIRA ALVES - A SOCIEDADE ZOMBIE

PLUMA CAPRICHOSA - 
* Clara Ferreira Alves

OS ESPECIALISTAS DO CATACLISMO AVISAM QUE ISTO NÃO É NADA, UM NADINHA, E QUE A PRÓXIMA PANDEMIA, OUTRA PALAVRA A PERDER VALOR NA BOLSA LEXICAL, SERÁ PIOR, MUITO PIOR

Toda a gente gosta de dar o seu contributo para a crise, de preferência ganhando algum com isso. Toda a gente tem uma ideia, uma ideia salvífica ou uma ideia catástrofe. A ideia mais útil neste momento, em que mal entrámos na crise — e a palavra crise foi tão gasta que está desvalorizada e pode ser aplicada a tudo, desde a crise existencial à crise sistémica —, é a de que da próxima vez será pior. Os especialistas do cataclismo avisam que isto não é nada, um nadinha, e que a próxima pandemia, outra palavra a perder valor na bolsa lexical, será pior, muito pior. Virá da China, como todas as pandemias, será mais mortal e mais devastadora do que esta, matará mais e será o resultado não do morcego e do pangolim ou de outros animais exóticos que se queiram juntar ao âmago do problema mas sim do modo como tratamos a Natureza. A Natureza seria, portanto, uma entidade orgânica unívoca, com um comportamento semelhante ao humano e que pratica e conhece os estados da vingança e da retribuição. A Natureza parece-se muito com uma mulher lívida de raiva, nesta leitura dominante.

Na próxima pandemia, teremos variações extremas da febre hemorrágica, assim entre o ébola e o Marburg, e os coronas descem de posto. Do lado desta extensa família de vírus, mais antiga do que a família humana e muito mais numerosa, a despromoção poderá não ser bem recebida, pelo que não é de excluir que se vinguem e que tenhamos em cima de uma pandemia pior do que esta outra pandemia mais ou menos parecida com esta. Estas distopias não servem para ganhar dinheiro, a não ser transformadas em livros ou em filmes catástrofes, e, como de filmes estamos parados, os livros são uma boa ideia. Devido à crise do livro, tais teorias esdrúxulas são oferecidas gratuitamente nas redes e distribuídas por todos os espíritos crédulos, que em vez de resolverem o problema que têm gostam de conhecer os problemas que não têm.

Nos especialistas do apocalipse contam-se vários cientistas, um grupo social muito sobrevalorizado, onde florescem os cientistas malucos. A caricatura do cientista maluco deslizou por vários filmes e livros de paupérrima ficção e atingiu o seu esplendor nos vilões do James Bond. É uma figura da banda desenhada, agora recuperada para a virologia e a futurologia. De todas as teorias malucas, a mais fácil e logo adquirida pelos ecologistas malucos é a de que a espécie humana é um vírus do planeta e que o planeta, ou a Terra, a tal Terra vingativa e feminina, está a eliminá-lo com doses maciças de viroses, lixívia do Trump e remédios para a malária. Para estes, a Terra sem humanos é um paraíso. Creio que ninguém perguntou aos dinossauros a opinião, um contributo bem-vindo, se os pudéssemos ressuscitar. Coisa que os chineses, com as suas pesquisas laboratoriais avançadas e seguríssimas e as suas clonagens de humanos, decerto poderão fazer no futuro, como espécie dominante.

Convém avisar que o melhor livro sobre pandemias assustadoras acaba de ser publicado e é de Lawrence Wright, o autor do melhor livro sobre o 11 de Setembro e a Al-Qaeda do Osama, “A Torre do Desassossego”. Wright tem a particularidade de escrever livros sobre catástrofes pendentes e que são publicados quando as catástrofes deixam de ser pendentes. Escrevendo habitualmente para a “New Yorker”, Wright é uma voz com autoridade sobre factos e a prudência de os colocar antes dos argumentos. O que quer dizer que é um ótimo jornalista de investigação. Este “The End of October”, saído nos Estados Unidos, traz-nos mais uma febre hemorrágica, Wright estava a pensar no ébola e não no corona. Tendo investigado os vírus de fio a pavio, incluindo os SARS, de que a covid faz parte, conclui para nosso desassossego que os vírus vieram para ficar e que existem mais vírus do que estrelas nas galáxias. São muitos, só os morcegos albergam milhões, mais do que os nossos sete biliões. O que espanta não é que tenhamos uma pandemia, é como é que não tivemos uma pandemia por mês. Mistérios da Natureza.

Falando de coisas mais práticas, uma ideia que faz caminho é a da sociedade em plexiglass. Parece que a grande solução para o desconfinamento seria a introdução do plexiglass nas nossas vidas. Quem investir em plexiglass fica rico, esqueçam as apps e as startups. Esta é a manufatura futura. Comecemos pelos restaurantes. Toda a gente sabe que a alegria do restaurante, aquilo a que chamamos o ambiente, é uma das suas qualidades. A comida pode ser boa, mas um restaurante vazio e silencioso, onde os criados espiam o menor gesto e ouvem as conversas, é de evitar. Mesmo um Michelin estrelado. Vai-se ao restaurante para conversar, comer, conversar mais, beber. A chamada convivialidade, uma das palavras mais recentes e mais usadas, uma das palavras mais horríveis, é a base da ida ao restaurante. Imagine que para ir ao restaurante tem de usar luvas, máscara e botas de plástico, tem de ser testado com um termómetro, tem de ser borrifado com desinfetante e untado com gel, tem de ficar a milhas das outras mesas, tem de encomendar por linguagem gestual, usando menos perdigotos infecciosos, visto que o criado está a dois metros da mesa, e tem — aqui entra a ideia luminosa — de ficar separado dos outros comensais, incluindo os seus, por um plexiglass.

É verdade, um separador de plexiglass proteger-nos-á do corona e fará com que possamos jantar e almoçar à vontade, do nosso lado do acrílico, autorizando-nos a falar com a boca cheia. Claro que a ideia da sobremesa partilhada fica posta de parte, e sabe Deus como esta ideia vingou desde o assassínio do açúcar, e a ideia de uma ‘vaquinha’, um prato a meias, também. Para os casais felizes que apenas puxam do telemóvel e não dizem uma palavra durante a refeição, enquanto falam com os amigos no Facebook e fotografam a comida para o Instagram, a introdução do plexiglass não prejudicará. Para todos os outros, as pessoas normais, olhem, habituem-se.

Deixarão também de ir ao restaurante, e de andar de avião, onde o plexiglass separará os assentos, as crianças e os velhos. As crianças porque são assintomáticas, sobrevivem e são perigosas para os adultos. E os velhos porque são doentes facilmente infetados e são um perigo para toda a gente, além de serem uma custosa maçada. Os velhos ficam confinados, e as crianças, que lidam mal com o plexiglass, logo se vê. Pode ser que inventem o restaurante com creche acoplada. Ora, o preço do bitoque e do arroz de marisco, do flan e da mousse caseira, não vai ser o mesmo. Vai custar mais do que andar de avião, para compensar os custos da proteção. Os hospitais privados já começaram a tributar-nos a dita.

Não podemos pôr de lado estas duas boas ideias, a da pandemia pior e a do plexiglass, porque na sociedade zombie onde vamos viver é assim que vai ficar tudo bem.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Clara Ferreira Alves - No tempo em que os animais falavam

* Clara Ferreira Alves

«Não tenho muito a dizer sobre a década. Já passou. O mundo mudou. Mudou mais em 10 anos do que costumava mudar em 20 ou 30, e não há nada que possamos fazer sobre isso, porque não há nada que nos interesse o suficiente para podermos fazer alguma coisa sobre isso. Ou não há nada que abra uma fenda no narcisismo e no egoísmo da era do mim a mim. As massas elevaram-se acima do anonimato e comunicam-se as respetivas irrelevâncias com o escrúpulo do entomologista. Nada fica acima da necessidade de partilhar, desvendar, mostrar. Uma qualidade que julgávamos inerente à liberdade chamada privacidade desapareceu, não por nos ter sido retirada por um sistema autoritário e repressivo mas porque decidimos coletivamente que não era mais importante do que a necessidade de partilhar e de receber em troca uma aprovação infantil e igualmente irrelevante chamada like. Queremos muitos likes e muitos seguidores, queremos amigos que nunca vimos e com os quais nunca falamos, falámos ou falaremos, milhares deles se possível, queremos mostrar-lhes o que fazemos, quando fazemos, onde fazemos, com quem fazemos. E contra quem ou a favor de quem estamos. E queremos também seguir e like muita gente que nunca vimos e cuja voz nunca ouvimos.

Se tivesse de destacar uma das características da década seria esta, a de que deixámos de estar interessados em falar uns com os outros, de ouvir o som das palavras, de comunicar oralmente. A comunicação escrita está destinada a desaparecer, mas a comunicação oral, tão velha como a espécie, parecia menos condenada. Não é verdade. Basta apreciar o modo como utilizamos o telemóvel. No tempo do telefone único, quando havia um telefone por casa, por família, por rua ou mesmo por aldeia, o telefone era o modo mágico de ouvir a voz de um parente ou de um amigo distante, e as pessoas corriam para o telefone cheias de vontade de ouvir. A carta não tinha o mesmo efeito imediato nem a proximidade ou afeto. Amos Oz, em “Uma História de Amor e Trevas”, um daqueles livros que valem bem um Nobel se o Nobel ainda tivesse validade intelectual, relata a voracidade com que os pais usavam o telefone em Israel, no princípio de Israel, para ouvirem uma voz amada. O telefone era o elo de ligação, o destruidor da distância e da saudade.

Hoje, quando alguém ainda se dá ao trabalho de ligar, de carregar uns números no teclado ou de ir à lista de contactos, espera durante dois toques e desliga. A razão por que nunca chegamos a tempo de atender a chamada é porque a chamada não foi feita para ser atendida. Foi feita para passar a mensagem: estou a fingir que quero falar contigo, só para dar essa impressão, mas na verdade espero que não atendas e que me ligues de volta, embora não tenha intenções de atender. Tudo isto pode e deve ser tratado por mensagens, de preferência no WhatsApp, embora não me apeteça escrever mais do que me apetece falar. O melhor será enviar um vídeo, ou um GIF, ou um emoji, e arruma-se assim a comunicação. Uma pessoa que tem a mania de enviar muitos emojis é uma daquelas pessoas que antigamente costumavam falar muito. Tagarela dos emojis. As pessoas dos vídeos são mais, dá menos trabalho, e um forward arruma as despesas de uma data de conversas ou votos de Boas Festas, aniversários, saudações, melhoras. Os vídeos de Natal, sobretudo os cómicos, circulam nos telemóveis à velocidade da luz, forwarded coletivamente e várias vezes. Nem uma palavra será pronunciada ou escrita, que sorte.

Existem também as pessoas que ficam ofendidas quando alguém lhes liga e espera ouvir o som da voz delas. Que maçada, esta gente espera que eu atenda e fale, que me dê ao trabalho de pronunciar palavras e entreter uma conversa? Pensam que estamos no século XX? Tenho lá paciência para isto, não atendo. E quanto aos números desconhecidos, ninguém atende números desconhecidos, porque são usados exclusivamente por empresas de marketing e escravos num call center que tão-pouco esperam que alguém lhes atenda o telefone ou nele permaneça depois de ouvir as palavras estou a falar da empresa X. O código dominante de comunicação é a imagem, fútil e fugaz, tão irrelevante como o arquivo digital desta Humanidade. Da civilização atual restarão as máquinas, os esqueletos obsoletos das máquinas, o lixo eletrónico. Não as palavras.

Igualmente detestado, o livro não utilitário entrou na fase terminal. A ficção é uma ficção. A poesia é uma relíquia. Tenho o hábito bizarro de me sentar a ler em coffee shops, que é como se chamam agora os cafés. No Starbucks, se alguém entrar com um computador e começar a usar a mesa como secretária, ligando meia dúzia de aparelhos uns aos outros e usando auscultadores para deixar de comunicar com o mundo em redor, estabelecendo o escritório, ninguém o incomoda. Mas se um incauto consumidor de expressos e latte puxar de um livro, é olhado com pânico geral. Um ritual se seguirá. O tipo do computador continua a falar para a Ásia, por exemplo, e a trabalhar em paz, enquanto o do livro notará que os empregados começam a tentar levar as chávenas ainda mal tenham sido bebidas, ou a garrafa de água meio cheia, ou o prato com as migalhas do croissant ou mesmo com um pedaço do croissant. Em Nova Iorque e em Londres, em todas as coffee shops, os serventes são estudantes digitais que limpam a mesa com denodo, e tudo o pano levou, olhando enfastiados o objeto de papel e perguntando, com acinte, mais alguma coisa? Tradução: põe-te a mexer daqui para fora, dinossauro. Não consomes e não ficas. Não se trata de defender o interesse do patrão, porque se pedirmos mais qualquer coisa, um segundo latte, o ódio aumenta. No banco do lado, o cliente do laptop com acessórios continua a tratar da vida dele, num isolado esplendor profissional, o expresso encomendado por beber, frio, pretexto para ocupar o lugar. Nestes rituais, por vezes, nem uma palavra é trocada, comunica-se por gestos. E panos. Há os que desatam a varrer os pés por baixo da mesa. Os livros não são bem-vindos. São um sinal datado. Um sinal de velhice. O futuro lê nas máquinas. E as máquinas leem a Humanidade.

Um dia, em breve, este lugar da antiga escrita será ocupado por um programa que desenhará um texto segundo um algoritmo que procurará satisfazer uns metrics num processo calculado para provocar um efeito previsto. E para os que estão preocupados com o planeta, não vale a pena. As máquinas suportam o calor e o frio, a extinção das espécies animais, a subida dos mares e dos rios e o envenenamento das águas e dos ares, a violência da Natureza. As máquinas nunca têm fome ou sede, dispensam abrigo. Talvez falem umas com as outras, mais do que nós falamos. Porque são inteligentes e imitam a Humanidade enquanto nós imitamos as máquinas.»

sábado, 7 de novembro de 2015

Clara Ferreira Alves - Anticomunista-obrigada

POLÍTICA

07.11.2015 às 9h00302

Ou António Costa é um génio político e submete os parceiros à sua imponderável vontade ou caminhamos para a mais grave crise de regime depois do 25 de Abril

CLARA FERREIRA ALVES
Escritora e Jornalista

Não estava à espera neste ponto da minha vida e neste ponto do século XXI, dobrado o século XX há uns aninhos, de ver aparecer a acusação. Anticomunismo. Parece que qualquer pessoa que não confie na bondade intrínseca de um acordo de governo com o Partido Comunista Português é anticomunista. Confesso ter nostalgia de muitas coisas, mas não desta. A de repensar o anticomunismo privado. Sou ou não anticomunista? E se for? A questão não é meramente ideológica, é existencial. É, por assim dizer, teológica. Cheguei à conclusão, depois de muito matutar, de que sou anticomunista. Acredito na economia de mercado, no capitalismo regulado e na iniciativa privada. Não acredito na coletivização da propriedade e da economia, na eliminação da competição nem na taxação intensiva do capital. O atual Partido Comunista não partilha estas minhas convicções. É coletivista, e foi sempre, ao contrário do que nos querem convencer, pragmático. O PCP foi sempre pragmático e anti-idealista por natureza. Nunca foi um partido romântico e só teve um panfleto literário romântico, os “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes. Tirando isto, o PCP é um bloco realista e de realismo social, no sentido que a palavra tinha no século XIX. Para o PCP, a marcha da História é marxista, o sentido da História é o da extinção do capitalismo (e não a sua regulação) e o da criação de uma nova consciência social, cívica e política nas mãos do proletariado e das suas vanguardas, organizadas em comités, ou no que lhes quiserem chamar, que controlem os meios de produção e os seus instrumentos financeiros. O PCP era isto. E é isto.

Por razões históricas, fui sempre anticomunista. E por razões ideológicas, também. Sou uma anticomunista que não tem vergonha de ser anticomunista e que tem e teve amigos comunistas (mais teve do que tem, porque tudo o que se relaciona com esta doutrina é, irremediavelmente, passado). Claro que podem ler nesta frase — “tenho amigos comunistas” — a mesma desconfiança que leem quando os homofóbicos dizem que têm amigos gays. E, já que falamos disso, o PCP sempre foi ferozmente antigay. Só se mudaram. Já lá iremos.

Sou anticomunista por razões históricas e profundamente temperamentais. Como boa individualista que sou, tenho horror a coletivismos impostos, e uma boa parte da minha adolescência e entrada na idade adulta foi passada a assistir e a resistir a isto. Posso mesmo dizer que, doutrinariamente, o que me definiu foi ser anticomunista. O fascismo tinha terminado no 25 de Abril. O fascismo foi outro regime totalitário que não percebeu a História. Comecemos pelo princípio.

Na Faculdade de Direito de Lisboa, os estudantes comunistas tinham o estranho hábito de decretar greves gerais sem consultarem todos os alunos nessa votação. Um aluno chegava à faculdade e diziam-lhe: hoje não entras, há greve. Há greve? Quem votou? Nós. Nós quem? Numa reunião secreta. Se foi secreta, como é que votámos? Nós votámos. Por causa desta discussão insana que despertava em mim instintos libertários e anarquistas, cheguei a furar uma ou duas greves com mais uns dementes como eu que não gostavam de ser paus-mandados. De um lado tínhamos os gorilas e do outro lado tínhamos as greves obrigatórias dos comunistas, que se arrogavam o monopólio da contestação. A UEC era formidável nisto, no monopólio da contestação, e quando o MRPP tentou furar este monopólio teve o apoio de boa parte dos estudantes, que estavam fartos da UEC e dos seus esbirros da MJT. A MJT era o braço armado dos comunistas e chegou a encerrar alunos dentro das aulas para bater nos maoistas à vontade depois de deixar sair os outros, os “cobardes”. Uma das vezes, escapuli-me por uma janela antes que a MJT entrasse armada de matracas e correntes de bicicleta. A MJT era o operariado da UEC para a porrada. O Movimento da Juventude Trabalhadora. Quando o COPCON entrou pela faculdade, dando cabo de tudo à passagem, esgueirei-me para Coimbra em “transferência secreta” (não podíamos fugir da revolução em curso) e implorei ao professor Rui Alarcão que me aceitasse na vetusta instituição. Em Coimbra, vigorava um comunismo soft. Os comunistas controlavam tudo muito civilizadamente. Sem pressões e mantendo o currículo académico. Restava o problema dos sovkhozes e dos kolkhozes. Sobrando em Direito professores comunistas que não abdicavam da coletivização dos bens e dos meios de produção, fomos obrigados a estudar marxismo coagidos pela frase: quem vier para as minhas provas escritas e orais defender a propriedade privada pode contar com um chumbo. Andei em guerra até ao fim do curso com um professor chamado Orlando de Carvalho, que jurou que me chumbaria em qualquer circunstância (deu-me 14 depois de eu ter encornado a sebenta toda, incluindo as cedilhas e os pontos e vírgulas e, salvo erro, a célebre nota 64). O Orlando era um comunista católico envergonhado. Era um coletivista desavergonhado e um misógino desembestado. Sem dinheiro para ir estudar para fora e fugir desta gente, achei que mais valia submeter-me e engolir a teoria, engolir os kolkhozes e os sovkhozes (que eram de outro professor comunista) e despachar-me daquilo. Foi o que fiz.

O Partido Socialista parecia-me, com Mário Soares e a doutrina do socialismo democrático, a única oposição responsável ao totalitarismo de Cunhal e dos militares que não queriam regressar aos quartéis. Estive na Fonte Luminosa, claro, e assisti ao lento e duríssimo processo da democratização de Portugal. Os comunistas eram o que tinham sido sempre, intratáveis e muito pragmáticos. Quem não era por eles era contra eles. Nunca entrevistei Cunhal até ao fim da vida dele porque sempre recusei mostrar-lhe a entrevista para ele editar à vontade. Não iria à Soeiro Pereira Gomes. Um dia, consegui negociar. Iria à Soeiro Pereira Gomes, mas editaríamos o texto juntos. No que eu não concordasse, não passaria a emenda. Cunhal aceitou, e a conversa resvalou para Shakespeare e o “Rei Lear”, que ele queria traduzir (acabar de traduzir). Não emendou nada da entrevista. Álvaro Cunhal, com perto de 80 anos, tinha adoçado e era uma figura intelectual respeitável que eu respeitava muito. Já não era o inimigo. Havia uma diferença entre conversarmos sobre Shakespeare — o “Rei Lear” é a minha peça favorita e era a dele, um tratado sobre o poder e a partilha do poder — e ter o doutor Cunhal a mandar na minha vida. Na verdade, anos antes, o doutor Cunhal quisera fazer de Portugal a jangada de pedra do estalinismo europeu. Uma espécie de little Bulgária. Do PCP tinham entretanto saído muitos dissidentes, enquistados com a ausência de democracia intrapartidária. Muitos desses dissidentes eram ou tinham sido comunistas ortodoxos, dos que aplaudiram de pé a entrada dos tanques do Pacto de Varsóvia em Praga. Eu estava, sempre estive e estarei com os dissidentes checos, com Václav Havel e com a democracia.

Em Portugal, o PCP sufocou todos os desvios à sua norma ou absorveu toda a contestação não emanada das suas instâncias representativas da massa. Da massa, sim, não da cultura de massas. Por um lado, o PCP tinha a tradição da clandestinidade e da coragem na clandestinidade e não admitia dissidências desta tradição. Julgava-se o único detentor da verdade contestatária (como se tinha julgado na Faculdade de Direito o único autor das greves estudantis). Por outro lado, a cultura de massas assente no individualismo era-lhe profundamente estranha. No meio literário português dominava largamente, não apenas através das instituições que controlava (da APE à SPA) como através dos compagnons de route sem filiação na extrema-esquerda radical e sem movimentos adequados à sua representação. O papão da direita e um esquerdismo social unia esta gente. Mais um certo aggiornamento chique que, pensavam erradamente, o PCP lhes conferia. A Festa do “Avante!” era um dos altares desta missa. O PCP pode ter muitos defeitos, mas nunca foi um partido estúpido, embora tenha sido apanhado desprevenido com a queda do Muro de Berlim. Quem não foi? O PCP olhou para Gorbachev primeiro com ódio e depois com incredulidade. O império soviético desmoronava-se. Os que acreditaram numa mudança de mentalidades dentro do PCP depressa foram expelidos ou condenados pela inquisição do partido. O PCP não mudara. O mundo mudara sem ele.

A atitude intelectual totalitária que caracteriza o PCP deixou como legado a anemia intelectual portuguesa. O neorrealismo deixou de ser dominante, mas não chegou a ser substituído por movimentos herdeiros da modernidade e do modernismo. Nem por um esboço de pós-modernismo importado de Paris. Esta é a nossa tradição. Os grandes intelectuais portugueses sentiram-se sempre exilados dentro do seu país, como Fernando Pessoa e Alexandre O’Neill, ou exilados reais, como Jorge de Sena. Ou como Eduardo Lourenço, que sofreu a ansiedade da separação. E havia os açorianos, uma casta especial de solipsistas, de Vitorino Nemésio a Natália Correia. São, todos, navegadores solitários. Pessoa teve a sorte de ter tido a geração de Orpheu a fazer-lhe companhia.

Basta ir a Londres e à Tate Modern, e visitar a exposição “The World Goes Pop”, para ver como Portugal não consta desta revolução. É a única ditadura ocidental dos anos 60 e 70 que não teve representantes e cultores pop. Não teve movimento pop. Não teve a anarquia pop. O protesto pop. A arte pop. O Brasil teve, a Argentina teve, o México teve, a Espanha teve, o Chile teve. Portugal não teve. Devemos isto ao PCP e à hegemonia do PCP num país pequeno e sem mercado de ideias, vinculado ao Estado e aos ditames e subsídios e cargos do Estado. A única escritora portuguesa que verdadeiramente escapou a esta hegemonia foi Agustina Bessa-Luís, e por isso ela permanece o ícone intelectual da direita (da nova direita) e por ela é exaltada e venerada. Agustina era o triunfo do individualismo desde que decidira escrever “A Sibila”. Agustina detestava os comunistas, não por serem comunistas mas por não serem livres. Tive com ela esta discussão e sei que as palavras de Agustina eram diferentes das palavras de todos os outros escritores, incluindo os liberais cosmopolitas que estavam próximos do PS, como Sophia de Mello Breyner ou David Mourão-Ferreira. Agustina não é, não era, nunca foi de esquerda. Nunca precisou de uma moral de esquerda, tal como esse lúcido libertário chamado Mário Cesariny de Vasconcelos.

Para a nomenclatura do PCP, ser de esquerda era mais benéfico do que ser comunista, quando se tratava de escritores. Controlando as instituições, o PCP resistia a dar prémios literários a José Saramago. Porquê? Dava-os aos outros e não a ele. Deu a José Cardoso Pires e a Paulo Castilho ou Mário Cláudio. Nunca deu a “Memorial do Convento” e a “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Porquê?

Assente-se que Álvaro Cunhal não gostava de Saramago. Nem pessoalmente nem literariamente. Cunhal era um esteta, um romancista falhado, e nem no estilo nem na receção crítica do estilo, relacionados com a pureza do neorrealismo, podia identificar-se com a retórica do escritor-estrela dos comunistas. Saramago era um maneirista inspirado pelo padre António Vieira e o Século de Ouro espanhol, e mais depressa apanhariam Cunhal a aplaudir a subversão existencialista de um Albert Camus do que um missionário jesuíta do século XVII. Saramago era um escolástico, e Cunhal abominava a escolástica. Ninguém reparou nisto. Foram mais rivais do que Eça e Camilo foram. E o PCP nunca gostou de estrelas.

E a direita? A direita portuguesa foi sempre preguiçosa e tendencialmente analfabeta. Quando digo a direita, digo o capital, os capitalistas portugueses. Simbolicamente gordos e anafados como nas caricaturas de Vilhena, nutriam pelos socialismos e pela social-democracia um ódio rancoroso e viviam no passado. Sá Carneiro foi tolerado por eles, não foi amado. Até nascer o novo capital, o das novas empresas e grupos e dos novos assalariados de luxo do novo capitalismo português, a direita era uma caricatura sem ideologia com uma ou duas figuras excecionais na indústria, como António Champalimaud. Ficara presa à nostalgia do antigo regime, sem particular engrandecimento da memória imperial, às vezes por ignorância, e a uma postura cívica sem mestre intelectual. Os raros ativistas letrados e revolucionários desta direita sentiam-se órfãos. Como dizia um deles, a direita portuguesa era do género: vão andando que depois vou lá ter. Os outros converteram-se e decidiram trabalhar com quem estivesse no poder. Nascia gente na banca e nas empresas, produto da democracia e da pequena burguesia dos partidos, que não se revia na direita mumificada. Esta ficou à espera de D. Sebastião e chegou a ver nos traços endurecidos de Aníbal Cavaco Silva, um membro do povo que tinha tudo para lhes ser estranho, a face do salvador. Como vira em Salazar.

Neste ambiente, PCP e PS dominaram tudo. Dominaram a literatura, dominaram a música, o teatro, o cinema, a fotografia, as artes, o jornalismo, a crítica, tudo. Foi preciso esperar pela agonia do século XX para esta dominação se atenuar. A revolução tecnológica capitalista pôs-lhe cobro de vez.

No século XXI, amigos meus que tinham sido comunistas desde crianças, como Miguel Portas, confessavam a sua desilusão com o comunismo e a crença numa nova esquerda. O que Miguel Portas fez, e só fez, foi tentar experiências de esquerda que escapassem à ditadura intelectual comunista. Revistas, jornais, intervenções, plataformas e, finalmente, a criação do Bloco de Esquerda. Pressagiei que as alianças entre estes esquerdistas ilustrados e estrangeirados e os radicais da extrema-esquerda e de partidos como a UDP não seria um casamento feliz. Não foi. As tensões dentro do Bloco desaguaram nas dissidências do Bloco. Assisti a isto mais ou menos por dentro e discuti isto muitas vezes. O Bloco era importante para as causas ditas fraturantes, porque o PCP era um partido ferozmente conservador e antirrevolucionário nos costumes. Tendo criado a sua moral, a sua igreja e a sua liturgia, o PCP nunca transigia. Era nisso simétrico da direita reacionária. A aliança tática entre PS e Bloco permitiu “desbloquear” certa legislação que andava pendurada há anos na boa consciência de católicos e de direitistas.

O contributo de forças como o PCP e o Bloco para a democracia portuguesa é importante, apesar destes desníveis. Mas só é importante por ter sido enquadrado e travado pelo socialismo democrático dos socialistas e a social-democracia dos sociais-democratas.

Tal como o PSD, o PS tem sofrido um desgaste e uma desvalorização intelectual preocupantes. O PS de homens como António Arnaut ou Mário Soares já não existe. Nem sequer existe o PS de António Guterres. O PS de hoje divide-se entre os socratistas, com tudo o que de nefasto essa denominação representa, os oportunistas e os apoiantes de qualquer chefe que conduza ao poder um grupo de gente que sabe que o partido precisa de lançar mão do aparelho de Estado para sobreviver politicamente. Junte-se ao caldo meia dúzia de jovens idealistas sem maturidade. À direita, o “ideologismo” (chamar-lhe ideologia seria um manifesto exagero) pseudoneoliberal de Passos Coelho e dos videirinhos amestrados, de que Relvas é a caricatura apurada, forneceu a uma gente desavinda pela História o último pretexto para a união.

Uma união que nunca se consumaria. O PS não é coletivista. Não foi. Não será. É um velho partido de católicos e de maçons que se sente ameaçado e está a jogar póquer fechado com altas paradas. E a direita de Passos perdeu esta jogada, num espanto emudecido que não provocou um texto, um pretexto, um protesto. A direita portuguesa continua a dizer: vai andando que já lá vou ter. Deixou a contestação aos jornalistas e articulistas que julga protetores do statu quo. Esta nova aliança das esquerdas descambará em novas direitas, seguramente.

A destruição do centro, à esquerda, e a insensatez de quem nos tem governado, à direita, tornaram o combate ideológico um combate tribal, como o futebol. Um combate onde não vingam a inteligência e a ilustração. Muito menos a memória. Não é preciso invocar a Europa e a sua putativa falência, ou o diktat de Bruxelas, para concluir que o PS abriu a boceta de Pandora. Convencidos de que os comunistas mudaram, os socialistas serão, como recusaram historicamente ser, chantageados por um partido que joga aqui a sua derradeira cartada da História. O comunismo acabou em toda a parte, mas não aqui, não aqui. E não acabou aqui porque a desigualdade e a pobreza que a direita exalta em Portugal como regra de vida comum, como modo operativo de um capitalismo egoísta, autodidata e desmembrado, são a bandeira do PCP. São o seu eleitorado. Juntem-lhe os funcionários públicos num país envelhecido onde todos dependem do Estado, da banca aos artistas, e temos a explicação do anacronismo chamado Partido Comunista Português. Tal como o capital, o trabalho sabe defender-se.

O Partido Socialista meteu-se nesta querela sem ter trunfos na manga. Perdeu as eleições, e isso faz toda a diferença na potestade. O PS não tem sobre o PCP e o BE um direito potestativo. São eles que o têm, e exigirão a submissão. Não sei como sairá disto. Sei que das duas uma. Ou António Costa é um génio político e submete os parceiros à sua imponderável vontade ou caminhamos para a mais grave crise de regime depois do 25 de Abril. E, talvez, para o fim do regime saído do 25 de Abril.

Quanto a mim, sou o que sempre fui. Portuguesa e anticomunista, obrigada. Nisso, não mudei.

http://expresso.sapo.pt/politica/2015-11-07-Anticomunista-obrigada

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa: Mário Soares

Mario Soares como Mr. Magoo mais caricaturas caricaturas.blogspot.com/

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Ouvir com webReader

por Clara Ferreira Alves

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Eis parte do enigma. Mário Soares, num dos momentos de lucidez que ainda vai tendo, veio chamar a atenção do Governo, na última semana, para a voz da rua.

A lucidez, uma das suas maiores qualidades durante a sua longa carreira politica.

A lucidez que lhe permitiu escapar à PIDE e passar um bom par de anos, num exílio dourado, em hotéis de luxo em Paris.

A lucidez que lhe permitiu conduzir da forma "brilhante" que se viu, o processo de descolonização.

A lucidez que lhe permitiu conseguir que os Estados Unidos financiassem o PS durante os primeiros anos da Democracia.

A lucidez que o fez meter o socialismo na gaveta durante a sua experiência governativa.

A lucidez que lhe permitiu tratar da forma despudorada amigos como Jaime Serra, Salgado Zenha, Manuel Alegre e tantos outros.

A lucidez que lhe permitiu governar sem ler os "dossiers".

A lucidez que lhe permitiu não voltar a ser primeiro-ministro depois de tão fantástico desempenho no cargo.

A lucidez que lhe permitiu pôr-se a jeito para ser agredido na Marinha Grande e, dessa forma, vitimizar-se aos olhos da opinião pública e vencer as eleições presidenciais.

A lucidez que lhe permitiu, após a vitória nessas eleições, fundar um grupo empresarial, a Emaudio, com "testas de ferro" no comando e um conjunto de negócios obscuros que envolveram grandes magnatas internacionais.

A lucidez que lhe permitiu utilizar a Emaudio para financiar a sua segunda campanha presidencial.

A lucidez que lhe permitiu nomear para Governador de Macau Carlos Melancia, um dos homens da Emaudio.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume no caso Emaudio e no caso Aeroporto de Macau e, ao mesmo tempo, dar os primeiros passos para uma Fundação na sua fase pós-presidencial.

A lucidez que lhe permitiu ler o livro de Rui Mateus, "Contos Proibidos", que contava tudo sobre a Emaudio, e ter a sorte de esse mesmo livro, depois de esgotado, jamais voltar a ser publicado.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume às "ligações perigosas" com Angola, ligações essas que quase lhe roubaram o filho no célebre acidente de avião na Jamba (avião esse carregado de diamantes, no dizer do Ministro da Comunicação Social de Angola).

A lucidez que lhe permitiu, durante a sua passagem por Belém, visitar 57 países ("record" absoluto para a Espanha - 24 vezes - e França - 21), num total equivalente a 22 voltas ao mundo (mais de 992 mil quilómetros).

A lucidez que lhe permitiu visitar as Seychelles, esse território de grande importância estratégica para Portugal.

A lucidez que lhe permitiu, no final destas viagens, levar para a Casa-Museu João Soares uma grande parte dos valiosos presentes oferecidos oficialmente ao Presidente da Republica Portuguesa.

A lucidez que lhe permitiu guardar esses presentes numa caixa-forte blindada daquela Casa, em vez de os guardar no Museu da Presidência da Republica.

A lucidez que lhe permite, ainda hoje, ter 24 horas por dia de vigilância paga pelo Estado nas suas casas de Nafarros, Vau e Campo Grande.

A lucidez que lhe permitiu, abandonada a Presidência da Republica, constituir a Fundação Mário Soares. Uma fundação de Direito privado, que, vivendo à custa de subsídios do Estado, tem apenas como única função visível ser depósito de documentos valiosos de Mário Soares. Os mesmos que, se são valiosos, deviam estar na Torre do Tombo.

A lucidez que lhe permitiu construir o edifício-sede da Fundação violando o PDM de Lisboa, segundo um relatório do IGAT, que decretou a nulidade da licença de obras.

A lucidez que lhe permitiu conseguir que o processo das velhas construções que ali existiam e que se encontrava no Arquivo Municipal fosse requisitado pelo filho e que acabasse por desaparecer convenientemente no incêndio dos Paços do Concelho.

A lucidez que lhe permitiu receber do Estado, ao longo dos últimos anos, donativos e subsídios superiores a cinco milhões de Euros.

A lucidez que lhe permitiu receber, entre os vários subsídios, um de dois milhões e meio de Euros, do Governo Guterres, para a criação de um auditório, uma biblioteca e um arquivo num edifico cedido pela Câmara de Lisboa.

A lucidez que lhe permitiu receber, entre 1995 e 2005, uma subvenção anual da Câmara Municipal de Lisboa, na qual o seu filho era Vereador e Presidente.

A lucidez que lhe permitiu que o Estado lhe arrendasse e lhe pagasse um gabinete, a que tinha direito como ex-presidente da República, na... Fundação Mário Soares.

A lucidez que lhe permite que, ainda hoje, a Fundação Mário Soares receba quase 4 mil euros mensais da Câmara Municipal de Leiria.

A lucidez que lhe permitiu fazer obras no Colégio Moderno, propriedade da família, sem licença municipal, numa altura em que o Presidente era claro está... João Soares.

A lucidez que lhe permitiu silenciar, através de pressões sobre o director do "Público", José Manuel Fernandes, a investigação jornalística que José António Cerejo começara a publicar sobre o tema.

A lucidez que lhe permitiu candidatar-se a Presidente do Parlamento Europeu e chamar dona de casa, durante a campanha, à vencedora Nicole Fontaine.

A lucidez que lhe permitiu considerar José Sócrates "o pior do guterrismo" e ignorar hoje em dia tal frase como se nada fosse.

A lucidez que lhe permitiu passar por cima de um amigo, Manuel Alegre, para concorrer às eleições presidenciais uma última vez.

A lucidez que lhe permitiu, então, fazer mais um frete ao Partido Socialista.

A lucidez que lhe permitiu ler os artigos "O Polvo" de Joaquim Vieira na "Grande Reportagem", baseados no livro de Rui Mateus, e assistir, logo a seguir, ao despedimento do jornalista e ao fim da revista.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume depois de apelar ao voto no filho, em pleno dia de eleições, nas últimas Autárquicas.

No final de uma vida de lucidez, o que resta a Mário Soares? Resta um punhado de momentos em que a lucidez vem e vai. Vem e vai. Vem e vai. Vai... e não volta mais.

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Clara Ferreira Alves

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Expresso (Lisboa)
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in macua.blogs.com/moçambique_para_todos
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quarta-feira, 30 de julho de 2008

A justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca


Clara Ferreira Alves

Expresso Julho 2008


Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa comisso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros.

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Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.

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Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.

Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.

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Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.

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E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.

Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?

Vale e Azevedo pagou por todos.

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Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?
Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?
Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?

Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?
Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?
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Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.

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.No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém?

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As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.

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E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?

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E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu?
Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.

E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?

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E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.

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E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?

E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

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Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.

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.Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.

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Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.

Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.

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Este é o maior fracasso da democracia portuguesa

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Clara Ferreira Alves - "Expresso"

NOTA do Editor - Não só mas também e não só em Portugal (VN)

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Remetido por P. Sempre

ter 29-07-2008 18:33

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